<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140</id><updated>2012-01-08T19:00:56.201Z</updated><title type='text'>Eu sou louco!</title><subtitle type='html'>Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças!                                 (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>215</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-112468147520218044</id><published>2007-03-06T23:45:00.000Z</published><updated>2007-03-06T23:46:39.517Z</updated><title type='text'>Até já!</title><content type='html'>Devido aos problemas cada vez mais acentuados que o &lt;em&gt;upgrade&lt;/em&gt; que fiz a este blog tem provocado, atingiu-se um ponto em que não é mais possível continuar a trabalhar aqui.&lt;br /&gt;Em consequência, este é o post derradeiro.&lt;br /&gt;Mas não é a despedida.&lt;br /&gt;Este “Eu sou louco!” no Blogger vai aqui continuar à disposição de quem quiser ler, ou mesmo comentar, o seu conteúdo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como &lt;em&gt;para grandes males, grandes remédios&lt;/em&gt;, criei dois novos blogs no Sapo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O “Eu sou louco!” em que irei colocando progressivamente todos os textos que aqui estão, mantendo inclusivamente a data do original. Os comentários, naturalmente, não poderão ser levados para o clone.&lt;br /&gt;O seu endereço é:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://eusoulouco.blogs.sapo.pt"&gt;http://eusoulouco.blogs.sapo.pt&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O “Eu sou louco! (II)” em que colocarei &lt;em&gt;on-line&lt;/em&gt; todos os novos textos.&lt;br /&gt;O endereço é:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://eusoulouco2.blogs.sapo.pt"&gt;http://eusoulouco2.blogs.sapo.pt/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto, não estou aqui a dizer &lt;strong&gt;Adeus!&lt;/strong&gt;...mas &lt;strong&gt;Até já!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é por morrer uma andorinha que acaba a primavera.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-112468147520218044?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/112468147520218044/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=112468147520218044' title='36 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/112468147520218044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/112468147520218044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2007/03/at-j.html' title='Até já!'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>36</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-8372554951100795574</id><published>2007-03-02T13:30:00.000Z</published><updated>2007-03-04T08:43:06.878Z</updated><title type='text'>Histórias curtas XI - O mundo visto duma janela</title><content type='html'>A D. Maria da Conceição, operária reformada e viúva, vivia sozinha no terceiro andar de um velho prédio de uma das ruas tortuosas e estreitas da degradada zona histórica da cidade.&lt;br /&gt;Tinha sessenta anos, era gorda e usava os cabelos, já quasi todos brancos, apanhados formando um puxo. Ficara sem o seu Manuel, companheiro de tantos anos, havia cinco. Com a sua reforma e a pensão de viuvez tinha o suficiente para ela.&lt;br /&gt;Os três filhos, dois rapazes e uma rapariga, estavam todos casados. &lt;br /&gt;Eles tinham ido para o estrangeiro e estavam bem na vida. Ainda lhe mandavam algum dinheirinho que lhe permitia fazer umas extravagâncias. Gostava sobretudo de ir ao cinema, mas também via telenovelas e filmes na TV, e ía numas excursões domingueiras de tempos a tempos.&lt;br /&gt;A filha, mais nova, vivia perto dela e visitava-a uma ou duas vezes por semana.&lt;br /&gt;Quando jovem, a São fora uma moça bonita e com um corpinho bem feito, mas o passar dos anos tinham feito dela uma mulher anafada e envelhecida, aparentando ter mais anos de vida do que o inscrito no Bilhete de Identidade.&lt;br /&gt;Desde sempre fora muito coscuvilheira e, com o passar dos anos, esse hábito acabara tornando-se quasi um vício.&lt;br /&gt;Muitas vezes, enquanto ía vendo as telenovelas preferidas, levantava-se para ir à janela da cozinha ver o que se passava na rua e, sobretudo, nas habitações dos vizinhos que moravam no prédio que ficava mesmo em frente ao dela. Era fácil ver e ouvir, tão curta era a distância.&lt;br /&gt;Ao seu nível, portanto no terceiro andar, vivia a Sandrinha, cujos pais tinham morrido num desastre de automóvel. Tinha uns vinte e muitos anos e trabalhava nas limpezas. Mas a D. São podia apreciar que quasi todas as noites recebia uma ou duas visitas masculinas. &lt;br /&gt;- Enfim! A vida está má e é preciso comer e vestir – costumava dizer à sua vizinha do lado, a D. Idalina, que vivia com o seu João, ambos reformados. &lt;br /&gt;De cada apartamento dos que ela espiava, talvez inspirada no filme “A janela indiscreta” do Hitchcock, via duas janelas. Uma da cozinha e outra de um quarto. Os restantes compartimentos, ou não tinham luz directa ou davam para as traseiras.&lt;br /&gt;Ao lado da Sandra vivia um casal de meia-idade com um filho ainda novo mas, dessa família Ferreira não conseguia recolher muitos elementos para depois contar às amigas ou guardar para si e fazer as suas elucubrações.&lt;br /&gt;No segundo andar morava um homem, na casa dos trinta, que lá vivera com os avós e mais tarde com a mulher e um filho. Mas tanta pancada o Anselmo dera à Cristina e ao pequeno David que, poucos meses antes, ela debandara com o catraio deixando o homem a dar murros nas mesas e nas paredes quando estava mais bem bebido.&lt;br /&gt;A São ainda chamou a polícia uma vez mas, na presença das autoridades, a mulher disse que não senhor, que ele era um bom marido e um bom pai. Perante essa atitude decidiu não mais “entre marido e mulher meter a colher”.&lt;br /&gt;Ao lado vivia um sujeito que para lá fora há cerca de uma semana, depois da morte da velha Deolinda, uma senhora de provecta idade. Nem sequer sabia ao certo o nome do homem mas, como era alto e magro e vestia sempre de preto, ela alcunhou-o de Drácula.&lt;br /&gt;No primeiro andar já não conseguia ver bem o que se passava, mas num lado vivia a sua parceira de mexericos, também viúva e reformada, a Nazaré, e no outro um casal de velhotes que, desde sempre, tinha sido muito recatado e não dava confiança aos vizinhos. Eram os Moreira que, de vez em quando íam passar uma temporada com um dos seus quatro filhos. Não precisavam daquela casa, mas não queriam deixá-la de tão baixa que era a renda.&lt;br /&gt;No rés-do-chão havia um armazém que estava quasi sempre fechado.&lt;br /&gt;A São, que tinha já dificuldade em descer as escadas de madeira e, sobretudo, em as subir, poucas vezes ía à rua. Três ou quatro saídas por semana para fazer compras. Mas vingava-se e falava com toda a gente procurando novidades e contando o que de novo tinha sabido.&lt;br /&gt;Uma vez por mês ía ao cinema, normalmente com a vizinha Idalina e o João mas fazia questão de pagar os bilhetes e o lanche. Era uma espécie de recompensa pelas vezes que o homem, que se mexia bem, ía às compras e lhe trazia umas coisas que ela lhe pedia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma noite, estava a velha solitária a cocar para dentro da casa do Drácula, e viu pela primeira vez uma jovenzinha, talvez com uns catorze anos. &lt;br /&gt;Quem seria?&lt;br /&gt;Era a altura de descobrir mais: quem era o Drácula?&lt;br /&gt;No dia seguinte foi fazer umas compras e quando regressava viu a Nazaré a sair do prédio que ela, diligentemente, vigiava.&lt;br /&gt;- Olá, vizinha! – saudou a Conceição – então como tem passado?&lt;br /&gt;- Cá se vai andando! As dores nas costas é que dão cabo de mim. De resto, só tenho a tensão alta, o colesterol alto e a figadeira de vez em quando avaria. Para uma velha como eu bem que podia ser pior.&lt;br /&gt;- Assim é que é falar, vizinha! Antes viva com doença do que morta com saúde. – e riu-se a São – Era o que dizia o meu defunto. &lt;br /&gt;- Não me fale em defunto! O pior de todos os meus males é a falta que sinto do meu falecido homem – queixou-se a Nazaré.&lt;br /&gt;- A quem o diz! A quem o diz! Isto sem o meu Manel não tem a mesma graça. &lt;br /&gt;E emendou logo:&lt;br /&gt;- Por falar em graça! Agora tem aí uma miudinha a viver na casa do Drácula. É filha dele?&lt;br /&gt;- De quem? Ahh...do Sr. Azevedo...&lt;br /&gt;- Veja lá como eu ando! O homem está cá há oito dias e eu nem sabia que se chamava Azevedo; por isso pus-lhe a alcunha de Drácula. Mas a miúda é filha dele? – insistiu.&lt;br /&gt;- A Sandrinha disse-me que sim...&lt;br /&gt;- Humm...a Sandrinha já anda a ver se arranja um novo cliente. Mas a rapariguinha não tem mãe? – perguntou a Conceição.&lt;br /&gt;- Parece que a Vanessa...&lt;br /&gt;- Ai a pequena chama-se Vanessa! Bonito nome, por acaso! E tem uns catorze anos, não? Mas continue. Eu estou sempre a interromper. Sabe o que é, lá em casa não tenho com quem falar e quando apanho alguém tenho de desenferrujar a língua. Mas conte! Conte!&lt;br /&gt;A outra riu-se e recomeçou:&lt;br /&gt;- Parece que a Vanessa vivia com a mãe, mas esta foi passar uma temporada para a cadeia, de forma que a mocinha veio para aqui com o pai. Ahh! Tem catorze, sim senhora! A vizinha tem boa pontaria! – e riu-se de novo.&lt;br /&gt;- E ele faz o quê? – quis saber a viúva do terceiro andar.&lt;br /&gt;- Não me diga que não sabe! Trabalha para um cangalheiro. É por isso que anda sempre de preto.&lt;br /&gt;- Ahh...deve ser a farda! – e riu-se a São. Tenho de vir mais vezes à rua. Veja lá como eu ando desactualizada. E que é que fez a mãe?&lt;br /&gt;- Isso não sei! Mas a Sandrinha pode descobrir.&lt;br /&gt;- Claro! – corroborou a São – Mete-o na cama e o gajo cospe tudo cá para fora.&lt;br /&gt;E riram-se ambas,&lt;br /&gt;- Olhe vizinha! Quando souber novidades toque-me à campaínha que quando eu sair à rua venho aqui falar consigo. Agora vou para a parte mais difícil. Subir aquela porcaria de escadas que nunca mais acabam. E rangem todas! Qualquer dia vem tudo abaixo com o meu peso.&lt;br /&gt;E soltou uma gargalhada.&lt;br /&gt;- Adeus D. Nazaré!&lt;br /&gt;- Adeus D. Sãozinha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passados dois dias apareceu lá em casa a filha, a Fátima. Era fim de tarde.&lt;br /&gt;A conversa foi rápida. A mulher, com cerca de trinta anos, só queria mesmo saber como estava a velha e mostrou-se apressada:&lt;br /&gt;- Hoje ainda vou fazer por aí umas visitas – avisou, justificando a pressa.&lt;br /&gt;E, de facto, pouco depois saiu:&lt;br /&gt;- Raios partam a rapariga! Sabia-me tão bem conversar um bocado e mal entrou pôs-se logo a bulir.&lt;br /&gt;Quando, em certo momento, foi até à janela da cozinha, viu que a sua Fátima estava em casa do Anselmo com quem brincara em criança e chegara mesmo a namoriscar.&lt;br /&gt;- Humm...afinal a pressa toda era para ir visitar o borrachão que batia na mulher e no filho. Espero que não avance muito com ele. Que se lembre que é casada e que o Francisco é muito bom homem – elucubrou.&lt;br /&gt;Mas não tardou que aparecessem os dois no quarto e ele fosse apressado fechar as portadas da janela.&lt;br /&gt;- Ai a filha da mãe que anda mesmo a pôr os cornos ao marido!&lt;br /&gt;E continuou a pensar:&lt;br /&gt;- Que descarada! A minha vontade era telefonar ao desgraçado para ele os apanhar em flagrante. Mas o melhor é falar com ela. Pode ser que o problema se resolva.&lt;br /&gt;Cerca de meia hora depois viu a filha a sair do prédio.&lt;br /&gt;Imediatamente lhe ligou para o telemóvel:&lt;br /&gt; - Oh Fátima! Precisamos de falar urgentemente. Não podes vir cá acima agora?&lt;br /&gt;- Oh mãe! Fica para outra vez. Estou atrasada e o Francisco hoje, apesar de vir mais tarde, já deve estar a chegar. Adeus. Beijinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa noite, sempre o mais escondida possível para não ser vista, observou que o Drácula Azevedo deitou a filha Vanessa na cama dele. Logo a seguir foi ele que se meteu debaixo dos lençóis. Mas logo se levantou para fechar as portadas da janela.&lt;br /&gt;- Humm...a dormir com a filha de catorze anos? Isto não me está a cheirar nada bem!&lt;br /&gt;No dia seguinte foi chamada pela Nazaré:&lt;br /&gt;Aproveitou para ir comprar uns legumes e uma fruta e depois foi até à porta do prédio rigorosamente vigiado.&lt;br /&gt;- Então, D. Nazaré! Que novidades é que tem? – perguntou.&lt;br /&gt;- Já sei porque foi presa a mulher do Azevedo. Fez um assalto mais o gajo com quem andava. Foram os dois de cana e ela apanhou um ano e tal. A garota, que vivia com ela, foi entregue ao pai que arranjou aqui esta casa não muito cara.&lt;br /&gt;- Muito me conta! Vamos lá ver como é que ele a trata! Não gosto da cara do tipo. Nada! Mesmo nada! – falou a São.&lt;br /&gt;- A Sandrinha diz que ele parece antipático mas depois acaba por ser atraente.&lt;br /&gt;- Ora! Para a Sandrinha quem lhe dá dinheiro é logo boa gente.&lt;br /&gt;- A vizinha não perdoa nada! – comentou, rindo, a Nazaré.&lt;br /&gt;- Olha! Vem ali a minha filha! Depois conversamos mais. Agora quero apanhar aquela! – e rangeu os dentes.&lt;br /&gt;Chamou a filha e quasi que a obrigou a subir com ela ao terceiro andar.&lt;br /&gt;- Então andas metida com aquele traste do Anselmo e pões os cornos a um homem a sério como o Francisco! Toma juízo rapariga! Acaba com isso depressa antes que se descubra tudo e te desgraces.&lt;br /&gt;- Oh mãe! O Anselmo é o homem da minha vida. Sei que ele não é o melhor marido para mim, nem eu o quero. Só quero estar com ele às vezes. Leva-me às nuvens como o Chico nunca levou. E como só se vive uma vez, vou continuar a encontrar-me com ele – disse, de forma bem peremptória, a Fátima.&lt;br /&gt;E continuaram a discutir mas a filha não cedeu!&lt;br /&gt;Queria ser amante do Anselmo e pronto! Enquanto ele a quisesse estaria pronta para se lhe entregar.&lt;br /&gt;Despediram-se com algum azedume que, naturalmente, se viria a dissipar no futuro.&lt;br /&gt;- Toma cuidado, rapariga! – foi o último conselho da velha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, o que apoquentava a Conceição era o pai e a filha menor dormirem na mesma cama.&lt;br /&gt;Foi espreitando noite após noite.&lt;br /&gt;Mas o homem de preto tinha sempre o cuidado de fechar as portadas.&lt;br /&gt;Foi reparando no ar triste da garota, que era bem bonitinha.&lt;br /&gt;Até que uma noite mais quente, o sinistro Azevedo deixou a janela aberta e as suspeitas da São confirmaram-se.&lt;br /&gt;Ele mantinha relações sexuais, provavelmente regulares, com a criança.&lt;br /&gt;- Ah! Grande cabrão! Vou fazer queixa de ti! – pensou.&lt;br /&gt;E no dia seguinte ligou para a Polícia Judiciária.&lt;br /&gt;Contou o que sabia e o que tinha visto.&lt;br /&gt;Entretanto não conseguira aguentar e, muito em segredo, dissera à amiga Nazaré o que descobrira. Nos dias seguintes ambas foram visitadas mais de uma vez por assistentes sociais. E outros vizinhos também.&lt;br /&gt;Num final de manhã, passadas umas duas ou três semanas, estava a Maria da Conceição a cozinhar o almoço quando ouviu grande algazarra na rua.&lt;br /&gt;Era a polícia que vinha buscar o Drácula e a filha.&lt;br /&gt;E viu a Nazaré a insultar o vizinho caído em desgraça, arrastando na sua ira quasi toda a gente das redondezas. Nessa tarde não se falou noutra coisa e a São sentia-se orgulhosa do que fizera.&lt;br /&gt;Quando, mais tarde, foi chamada ao tribunal, ficou a saber que não era crime o pai ter relações com a filha, mas que certamente seria condenado por pedofilia.&lt;br /&gt;- Apanhei um pedófilo! – gabava-se ela, orgulhosa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-8372554951100795574?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/8372554951100795574/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=8372554951100795574' title='27 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/8372554951100795574'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/8372554951100795574'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2007/03/histrias-curtas-xi-o-mundo-visto-duma.html' title='Histórias curtas XI - O mundo visto duma janela'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>27</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-7043541499915556797</id><published>2007-02-26T14:25:00.000Z</published><updated>2007-02-26T14:55:12.178Z</updated><title type='text'>Histórias curtas X - A ruiva e o namorado</title><content type='html'>Sónia Gonçalves conhecia Gustavo Galvão desde criança.&lt;br /&gt;Para falar com mais rigor, desde que foram colegas na escola primária e depois no preparatório e no secundário.&lt;br /&gt;Ela foi sempre uma boa aluna, estudiosa, interessada, mas ele era um rapaz brilhante, daquelas inteligências acima da média que sabia muito mais do que aquilo que os programas e os professores exigiam.&lt;br /&gt;Era também um excelente andebolista e não faltava a uma missa semanal pois era muito religioso, um católico praticante.&lt;br /&gt;Além disso eram quasi vizinhos. &lt;br /&gt;Eles e mais três rapazes e duas raparigas andaram sempre juntos até ao 9º ano. &lt;br /&gt;Depois separaram-se, fizeram o 12º e cada um seguiu o seu curso: o Gustavo foi para Engenharia, a Sónia para Jornalismo, a Luciana para a Escola Superior de Educação, o Pedro para Direito, a Joana também para Jornalismo, e o Luís e o Carlos para Desporto.&lt;br /&gt;Os namoricos que até aí houvera tinham sido mais brincadeiras de adolescentes do que relações consistentes e sérias. &lt;br /&gt;Mas agora, na fase terminal dos seus cursos, mais crescidos e maduros, Luís e Joana bem como Pedro e Luciana andavam envolvidos numa relação bem intensa.&lt;br /&gt;Sónia sempre tivera um fraquinho por Gustavo e tentava demonstrá-lo com insistência, até que atingiu o seu intento conseguindo que o rapaz lhe pedisse namoro. Mas, em matéria de sexualidade, ele sempre dissera que queria ir virgem para o casamento e não queria ter qualquer tipo de sexualidade com a amiga de infância antes do matrimónio.&lt;br /&gt;A rapariga, magra mas elegante, com uns cabelos ruivos que condiziam muito bem com as sardas que tinha na cara e no resto do corpo, por vezes lamentava-se ao rapaz das opções dele. Mas o Gustavo era inflexível.&lt;br /&gt;- É pecado! Por isso gasto as minhas energias no desporto.&lt;br /&gt;De vez em quando também se lamuriava com as amigas.&lt;br /&gt;- Mas gosto dele o suficiente para não discutir as suas ideias. Respeito-as e mantenho-me casta sem grande sacrifício. Lá virá o dia em que vou tirar a barriga de misérias - dizia.&lt;br /&gt;O Gustavo, alto e espadaúdo, cabelo cortado muito curto, tez um pouco morena e olhos castanhos, estava agora no último ano do curso.&lt;br /&gt;Já dava aulas e preparava-se para seguir a carreira de docente universitário; eventualmente criar uma empresa de projecto para ter sempre contacto com a vida prática e tentar ganhar mais dinheiro.&lt;br /&gt;Ele era filho único ao contrário dela que tinha mais duas irmãs. Parecidas, todas elas. Tinham puxado à mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, um dia, seriam umas sete da tarde, o telemóvel da Sónia tocou:&lt;br /&gt;- És tu, Joana?&lt;br /&gt;- Sou! Estás bem?&lt;br /&gt;- Sempre, felizmente! – respondeu a namorada de Gustavo.&lt;br /&gt;- Olha! Preciso de falar urgentemente contigo – surpreendeu a também estudante de Jornalismo.&lt;br /&gt;- Urgentemente? Então porque não me dizes já o que tens a dizer?&lt;br /&gt;- Porque quero fazê-lo pessoalmente – disse, com firmeza, a Joana.&lt;br /&gt;- Estás a deixar-me intrigada. Há alguma coisa grave? – perguntou a Sony.&lt;br /&gt;- É relativamente grave mas não te preocupes pois não morreu ninguém nem vai morrer e nem sequer é um caso de doença – procurou sossegar a amiga.&lt;br /&gt;- Mas então não podes mesmo dizer nada? Nem uma dica?&lt;br /&gt;- Nada de nada! Encontramo-nos logo, depois de jantar, no café em frente dos Bombeiros. Não faltes, ok? – voltou a Joana a ser incisiva.&lt;br /&gt;- Pronto! Pronto! Eu estou lá por volta das nove horas. Agora deixaste-me ansiosa.&lt;br /&gt;- Está combinado minha querida! Logo te conto. Xau! – despediu-se a amiga, misteriosa como nunca o fora.&lt;br /&gt;Às nove horas da noite já a Sónia estava sentada numa mesa saboreando um café e um cigarro, coisa que só fazia raramente pois não era do agrado do Gustavo. &lt;br /&gt;- Olá!&lt;br /&gt;Olhou para cima e viu a Joana a despir um casacão e depois a sentar-se junto dela.&lt;br /&gt;Antes de começar a falar deu um beijo à amiga e pediu um café.&lt;br /&gt;- Olha, Sónia! – começou num tom solene.&lt;br /&gt;A outra olhava-a atentamente.&lt;br /&gt;- O que vais ouvir não te vai agradar nada. Mas eu não posso deixar de to dizer.&lt;br /&gt;- Diz! – ordenou a jovem sardenta.&lt;br /&gt;- Hoje à tarde vi o Gustavo e o Carlos a entrarem juntos para uma residencial. Não tenho a certeza absoluta, mas tudo me leva a pensar que eles tem uma relação homossexual – arrasou a Joana.&lt;br /&gt;A amiga nada respondeu; ficou estática, olhar fixo na amiga mas de sobrolho franzido.&lt;br /&gt;E foi a morena quem continuou:&lt;br /&gt;- Depois disso estive a pensar em toda aquela religiosidade e desejo de se manter casto do teu homem. Sempre me pareceu um exagero mas cada um tem os seus princípios, e como ele teve ou tem, não me lembro ao certo, dois padres na família, não me levantou suspeitas.&lt;br /&gt;- Mas tu tens a certeza? – interrompeu a namorada traída.&lt;br /&gt;- Que os vi entrar juntos, isso vi. Mas só isso! Na minha opinião acho que se deve tirar tudo a limpo. Mas tu é que és a namorada dele e, um dia mais tarde, serás a sua esposa. Acho que deves saber com quem andas antes de te comprometeres mais – continuou a dissertar a morena.&lt;br /&gt;- Pois é! Até estou atordoada. Neste momento não sei o que fazer. Tenho de dormir sobre o assunto e deixar que tudo seja mais claro na minha cabeça.&lt;br /&gt;- Oh Sónia! Tu desculpa ter falado nisto, mas achei que esta era a única forma correcta de agir.&lt;br /&gt;- Fizeste bem! Agora vou-me deitar.&lt;br /&gt;- Ainda não falaste com o Gustavo? Nem por telefone? – interrogou a namorada do Luís.&lt;br /&gt;- Não! Nem quero falar! – e desligou o celular.&lt;br /&gt;- Vou perguntar ao Luís se o Carlos tem alguma namorada – pensou, em voz alta, a Joana.&lt;br /&gt;- Pode não ter, mas já teve relações com mulheres. Eu sei de uma que já foi com ele para a cama – afirmou a sardenta.&lt;br /&gt;- Então é capaz de ser bi.&lt;br /&gt;- Pois é! Olha! Vou-me embora! Depois falamos, está bem? – e a Sony levantou-se, beijou a amiga, pagou ao balcão os dois cafés e saiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitada na cama, luz apagada e olhos molhados, a jovem ruiva começou a rever o filme da sua vida com o grande amigo, agora namorado, que a tinha desde sempre fascinado pela sua figura e inteligência. E lembrou que sempre que ela tentara aproximações ele reagira sempre da mesma forma: rejeitando todo e qualquer avanço.&lt;br /&gt;E lembrou-se ter lido numa qualquer revista que o actor americano Rock Hudson só assumiu a sua homossexualidade poucas semanas antes de morrer com sida e que, para evitar que se falasse dele, fizera um casamento de conveniência com uma rapariga que, aliás, durou pouco tempo. A jovem sentiu-se como a cortina que era usada para tapar o outro lado da vida do seu querido Gustavo. &lt;br /&gt;Tinha de o confrontar com o facto!&lt;br /&gt;De supetão!&lt;br /&gt;Não só para ouvir o que ele tinha para dizer como para ver as suas reacções.&lt;br /&gt;E fá-lo-ía com a maior brevidade possível. Não queria viver situações falsas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, logo que acordou após uma noite mal dormida, ligou o celular e pouco depois entraram várias mensagens. Duas eram do Gustavo.&lt;br /&gt;Lavou a cara e a boca para despertar melhor e ligou para ele que atendeu logo de seguida.&lt;br /&gt;- Olá, Sony! Que te aconteceu ontem à noite que liguei várias vezes e deixei duas sms’s? E depois ainda fui a tua casa mas disseram-me que estavas cansada e tinhas ido dormir – falou o jovem.&lt;br /&gt;- E é verdade! Estava cansada e doía-me a cabeça. Não estava disposta para conversas.&lt;br /&gt;- E hoje estás bem?&lt;br /&gt;- Acho que sim! Vamos encontrar-nos hoje? – perguntou ela.&lt;br /&gt;- Podemos ir almoçar juntos. Eu passo pela tua escola à uma, serve? &lt;br /&gt;- Humm...está bem!&lt;br /&gt;- Então até logo e as melhoras! Beijinhos! – disse o rapaz.&lt;br /&gt;- Beijinhos para ti, também! – respondeu a moça.&lt;br /&gt;À hora de almoço, a Sónia saiu do edifício escolar e logo viu o carro vermelho do namorado. Dirigiu-se a ele, entrou, beijou os lábios do Gustavo e este arrancou só parando no parque de estacionamento de um restaurante.&lt;br /&gt;- Gustavo! Não saias já! Quero esclarecer umas coisas contigo – disse ela, com uma voz diferente do habitual.&lt;br /&gt;O quasi engenheiro notou isso e aquiesceu:&lt;br /&gt;- Estão diz o que tens a dizer!&lt;br /&gt;- Gustavo! Tenho fortes suspeitas de que tu sejas homossexual, andes com um homem, um pelo menos, e me estejas a usar como máscara de hetero. Quero que me respondas com toda a sinceridade. Lembra-te que, qualquer que seja a resposta que me dês, a nossa amizade fica intocável. Só poderá ser abalada se tu continuares a mentir e a usar-me – despejou a rapariga.&lt;br /&gt;- Mas quem é que te meteu uma coisa dessas na cabeça? – disse ele, aparentemente descontraído.&lt;br /&gt;- Alguém te viu ontem a entrar para uma residencial com o Carlos – atirou a Sónia.&lt;br /&gt;Agora o Gustavo Galvão ficou calado a pensar que tinha sido descoberto e que entre continuar com uma mentira que um dia seria inevitavelmente posta a nu e com consequências muito mais devastadoras ou dizer já a verdade e tentar que isso não se espalhasse, fez rapidamente a opção:&lt;br /&gt;- É verdade, Sónia! Eu sou &lt;em&gt;gay&lt;/em&gt; e só tenho de te pedir desculpa por te ter usado. A minha intenção era não ter namorada para me ocultar dos preconceitos da sociedade, mas tu tanto insististe... Penso que o namoro acaba aqui. Mas quero continuar teu amigo porque sou mesmo muito teu amigo.&lt;br /&gt;As lágrimas deslizavam pela face sardenta da jovem.&lt;br /&gt;- Tenho de desaprender a amar-te e olhar para ti só como amigo. Eu adoro-te, tu sabes, e isto é muito violento para mim – disse ela.&lt;br /&gt;- Também gosto muito de ti, mas eu sou como sou e não consigo mudar. Só me admiro de não teres topado mais cedo. Ahh...e quem está a par do assunto? – procurou ele proteger o seu grande segredo.&lt;br /&gt;- Além do Carlos...deixa-me telefonar!&lt;br /&gt;Pegou no celular e ligou:&lt;br /&gt;- Sou eu! Acabo de ter a confirmação das nossas suspeitas por parte do Gustavo. Já contaste a mais alguém?&lt;br /&gt;Do outro lado respondeu a Joana:&lt;br /&gt;- Não! Ainda não!&lt;br /&gt;- Então faz de conta que isto foi um sonho do qual acordaste e vais esquecer.&lt;br /&gt;- Está bem! O namoro acabou?&lt;br /&gt;- Claro! – disse a rapariga traída.&lt;br /&gt;- E como vais justificar o fim da relação? – perguntou a estudante que estava do outro lado.&lt;br /&gt;- Isso, eu e ele vamos combinar. O importante é que ninguém saiba que o nosso grande amigo Gustavo é como é porque nenhuma de nós o quer ver sendo humilhado. Valeu?&lt;br /&gt;- Valeu!&lt;br /&gt;- Então depois encontramo-nos para falar de tudo menos de uma coisa que não passou de um sonho. Xau. Beijinhos – e a Sónia desligou.&lt;br /&gt;Virou-se para o rapaz e disse:&lt;br /&gt;- Só uma pessoa sabia. Quem te viu com o Carlos. Podes estar descansado que é alguém que gosta muito de ti e não te vai querer prejudicar. E agora vamos almoçar?&lt;br /&gt;E os dois encaminharam-se para a porta do restaurante de mãos dadas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-7043541499915556797?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/7043541499915556797/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=7043541499915556797' title='40 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/7043541499915556797'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/7043541499915556797'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2007/02/histrias-curtas-x-ruiva-e-o-namorado.html' title='Histórias curtas X - A ruiva e o namorado'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>40</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-5054630886474031192</id><published>2007-02-22T15:10:00.000Z</published><updated>2007-02-22T15:50:38.755Z</updated><title type='text'>Histórias curtas IX - Uma avaria eléctrica</title><content type='html'>- Adriano! Está aqui um foco fundido – falou, num tom de voz mais alto que o costume, a Judite Sampaio.&lt;br /&gt;- Diz, filha! – respondeu o marido que estava a vestir-se.&lt;br /&gt;A mulher saiu do quarto de banho e, já perto do seu homem, repetiu:&lt;br /&gt;- Está um foco fundido ali dentro, na casa de banho.&lt;br /&gt;- Ah...logo, quando vier ao fim da tarde, eu substituo-o. Há luz suficiente e eu agora estou com pressa.&lt;br /&gt;- Está bem, meu querido!&lt;br /&gt;Passado pouco tempo ambos saíram de casa.&lt;br /&gt;A mulher, com vinte e seis anos, alta e magra, mas de uma magreza sadia e que a fazia muito elegante, cabelo abaixo dos ombros, liso e pintado de loiro, cara bonita, ar sensual, foi para a escola onde teria o último dia de trabalho antes de umas curtas férias pascais.&lt;br /&gt;O homem, Adriano Lopes, com quasi trinta anos mas parecendo mais velho, também alto e magro, com um ar macilento e cansado que acentuava as olheiras profundas, os olhos escuros e o cabelo liso e negro. Trabalhava no sector comercial de uma empresa pelo que saía bastante e, algumas vezes, pernoitava noutras paragens.&lt;br /&gt;Quando regressou a casa já a sua Ju, com quem casara há três anos, o esperava deitada na cama. Era assim quasi sempre. A professora era mulher de intensa sexualidade e o Adriano via-se e desejava-se para a satisfazer minimamente. Talvez estivesse aí a origem do seu ar cansado e pálido.&lt;br /&gt;- Meu amor! Anda cá! Vem apagar o fogo da tua mulherzinha que já está a arder.&lt;br /&gt;E o Adriano lá se enfiava na cama para cumprir a sua obrigação conjugal. Às vezes não o conseguia pois a sua resistência tinha limites, mas o medo de que outro ocupasse o seu lugar, ou parte dele, impelia-o a dar o que tinha e o que não tinha. Até já usara Viagra!&lt;br /&gt;Saciada a voracidade da sua mulher, foi buscar uma lâmpada de foco para substituir a que se finara de manhã.&lt;br /&gt;Fez a mudança mas...nada! Repetiu a operação, fui buscar outro foco mas sempre sem resultado.&lt;br /&gt;- Oh Ju! Há aqui um problema qualquer. É capaz de ser o transformador que está escondido no tecto falso que deu o berro. O melhor é chamar o electricista.&lt;br /&gt;- Achas que sim? Então vou telefonar para o Sr. Manuel – disse ela.&lt;br /&gt;- Está bem! Liga!&lt;br /&gt;E a mulher pegou no telefone e seleccionou o nome de Manuel Electricista.&lt;br /&gt;A conversa foi rápida. O Manuel gostava de ir àquele apartamento fazer arranjos pois o aspecto provocador da senhora fazia-o ter uma boa performance sexual ao chegar a casa, o que muito agradava à sua Maria.&lt;br /&gt;Desligou o telefone, a Judite, e falou:&lt;br /&gt;- Ele vem cá amanhã ao fim da tarde. Como sabes, já estarei de férias e não me custa estar aqui para lhe abrir a porta.&lt;br /&gt;- Ok! Amanhã eu vou andar por fora e devo chegar só à noite, mas tarde. Portanto não contes comigo para o jantar.&lt;br /&gt;- Já mo tinhas dito. Mas é pena, meu amor! Por isso, logo à noite vais ter de me compensar – desafiou ela.&lt;br /&gt;- Se tiver forças, Ju!&lt;br /&gt;- Se não tiveres eu uso os meus tónicos secretos e tu arrebitas logo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte pelas seis e meia da tarde, tocou a campaínha do apartamento.&lt;br /&gt;- Olá, Sr. Manuel! Faça o favor de entrar – disse, com voz afectuosa, a dona da casa que estava vestida com um roupão de verão, semitransparente, que permitia ver parte das suas formosuras e adivinhar facilmente as outras.&lt;br /&gt;- Com licença, senhora! – e o Manel passou para o interior da habitação com os olhos arregalados a ver aquele corpo em contraluz.&lt;br /&gt;- Ah...deixe-me acender as lâmpadas! Até me esqueci com este calor! – desculpou-se a guerreira.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Venha atrás de mim que eu levo-o ao quarto de banho onde há o problema.&lt;br /&gt;- Sim senhora! – balbuciou o electricista.&lt;br /&gt;- É aquele foco! – disse, apontando para o tecto.&lt;br /&gt;- Estou a ver! – respondeu o artista – Posso usar este banquinho?&lt;br /&gt;- Sim! Mas é melhor descalçar-se para não o estragar – sugeriu a Judite.&lt;br /&gt;- Tem toda a razão! – e o Manel tirou as sapatilhas que usava.&lt;br /&gt;- Enquanto o senhor arranja isso eu vou preparar uma banheira com gel de espuma para relaxar. Pode estar à vontade! – disse ela.&lt;br /&gt;Mas o Manuel não ficou nada à vontade. Antes pelo contrário.&lt;br /&gt;- Sim senhora! – gaguejou, desconcertado.&lt;br /&gt;E enquanto tratava de reparar a avaria, ía ouvindo o barulho da água com espuma que enchia parte da banheira e dentro da qual se movia a mulher.&lt;br /&gt;Ele deitava uma olhadela de vez em quando mas, a cortina fechada, não lhe permitia ver nada.&lt;br /&gt;Até que:&lt;br /&gt;- Está pronto, minha senhora! – avisou.&lt;br /&gt;- Disse alguma coisa, Manuel? – questionou a dona com uma voz de tal forma sensual que até arrepiou o electricista.&lt;br /&gt;- Sim senhora! Já está pronto! Tive de substituir o transformador.&lt;br /&gt;- Então agora não se importa de me esfregar aqui um bocadinho as costas?&lt;br /&gt;O sujeito, rapaz de vinte e poucos anos, alto e com uma boa figura, achou que aquilo era um descarado convite e respondeu:&lt;br /&gt;- Com todo o prazer! Mas, para não molhar a roupa, vou ter de me despir.&lt;br /&gt;- Claro! Dispa-se e entre aqui na banheira. Até fica a saber como é bom um banho nesta espuma.&lt;br /&gt;E em alguns segundos o jovem estava a mostrar o seu corpo musculoso e o seu falo intumescido, de pé, dentro da banheira. &lt;br /&gt;- Mas que homem, Manel! Deita-te aqui e brinca comigo.&lt;br /&gt;E nem é possível descrever o que foi aquela meia hora seguinte pois, com tanta espuma, pouco se conseguiu ver. É preferível usar a imaginação. &lt;br /&gt;Mas foi prazer carnal, total e absoluto, certamente.&lt;br /&gt;Já saciados, ainda brincaram um pouco até que alguma coisa provocou uma forte irritação nos olhos da jovem.&lt;br /&gt;- Ai! Os meus olhos! Não vejo nada! Esta espuma não costuma fazer-me arder tanto os olhos – queixou-se.&lt;br /&gt;E, com as pálpebras cerradas, abriu uma parte da cortina para apanhar um lençol de banho.&lt;br /&gt;Mas alguém se esquecera do secador de cabelo sobre a peça de pano turco e, pior do que isso, o aparelho eléctrico ficara ligado à tomada da corrente.&lt;br /&gt;Ao puxar o toalhão, o secador caiu na água.&lt;br /&gt;O curto-circuito iluminou todo o compartimento até tudo ficar escuro e em silêncio.&lt;br /&gt;Só passados uns segundos, e refeito do susto, perguntou o Manel:&lt;br /&gt;- A senhora está bem?&lt;br /&gt;- Eu estou, embora a tremer. Nem sei como estou viva!&lt;br /&gt;O homem puxou o fio do secador e desligou-o da tomada. Depois levantou-se e saiu da banheira dizendo:&lt;br /&gt;- Vou enxugar-me e rearmar os disjuntores. É melhor a senhora sair da água e enxugar-se.&lt;br /&gt;Pouco depois, já as luzes estavam acesas e os dois estavam-se secando quando ela perguntou:&lt;br /&gt;- Oh Manuel! Não deveríamos ter morrido electrocutados?&lt;br /&gt;- Felizmente a água é boa condutora e a banheira tinha ligação à terra. Assim, a descarga fez-se através dela e não dos nossos corpos – esclareceu o técnico.&lt;br /&gt;- Graças a Deus! Ainda me custa acreditar que estou bem. Mas nos filmes as pessoas morrem electrocutadas, que eu já vi! – afirmou, ainda pouco esclarecida, a mulher.&lt;br /&gt;- Isso é nos filmes! Actualmente, as regras de segurança, se forem cumpridas, evitam muitos acidentes – esclareceu o jovem.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Bom! É melhor ir-me embora! A senhora fica bem, não fica?&lt;br /&gt;- Acho que sim! &lt;br /&gt;- Óptimo! Eu ainda demoro um bocadinho a arranjar-me. Mas depois posso ir sossegado?&lt;br /&gt;- Sim! Mas tenho de lhe pagar! – lembrou-se a Judite.&lt;br /&gt;- Um dia destes eu passo cá e trago-lhe a conta – respondeu o Manel.&lt;br /&gt;- Está bem! Telefone-me que eu digo-lhe qual o dia e hora melhores para cá vir. Você é um tipo electrizante, Manel, e eu gosto de descargas!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-5054630886474031192?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/5054630886474031192/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=5054630886474031192' title='35 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/5054630886474031192'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/5054630886474031192'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2007/02/histrias-curtas-ix-uma-avaria-elcrica.html' title='Histórias curtas IX - Uma avaria eléctrica'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>35</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-4155096451726711131</id><published>2007-02-17T13:50:00.000Z</published><updated>2007-02-17T14:27:22.891Z</updated><title type='text'>Histórias curtas VIII - O menino da mamã</title><content type='html'>Afonso de Menezes era um sujeito com trinta e cinco anos de idade, filho único de um abastado comerciante e de uma senhora que pouco mais fizera na vida do que apaparicar o seu filho, vigiar atentamente as movimentações do marido para este não cair na tentação das saias (pecado para o qual ele sempre tivera grande propensão) e fazer reuniões três ou quatro vezes por semana com outras senhoras da sociedade onde se discutiam temas tão importantes para o futuro da humanidade como as condições climatéricas do dia, quem era a nova amante do senhor doutor Juiz (uma mocinha sem berço que, ainda por cima, tinha um cabelo horroroso), a colocação de silicone nos seios da esposa do engenheiro da Petrogal (ficou com uns seios que são uma exagero) e, evidentemente, as importantes notícias das várias revistas cor-de-rosa que abundam no mercado.&lt;br /&gt;Como menino mimado, louvado e endeusado pela Umbelina de Menezes, o Afonsinho (que até tinha o nome do primeiro rei de Portugal) estudara imenso. Refiro-me ao tempo de estudo, claro. Estudara tanto, que só acabou o curso de Direito aos trinta e dois anos numa Universidade privada das de menor reputação mas maior facilitação, especialmente porque as propinas eram das mais caras e, portanto, havia alguma obrigação em que os estudantes acabassem os estudos com alguma rapidez senão a escola poderia perder muitos novos clientes.&lt;br /&gt;Afonso saíra à progenitora!&lt;br /&gt;De inteligência rara (poderia ter escrito rarefeita), tinha uma capacidade de trabalho bastante diluída e um dinamismo comparável ao desses moluscos tão simpáticos e indiferentes ao homem como são os caracóis.&lt;br /&gt;Aliás, permitam-me um aparte para dizer que também a senhora sua mãe era parecida com os caracóis (e não digo caracolas pois os bicharocos são hermafroditas). Pelo menos nos cornos, pois o seu Asdrúbal, mais vivaço, dava-lhe a volta com facilidade e ía saboreando empregadas que passavam pela sua loja e outras damas, nomeadamente algumas amigas mais novas da sua amada Umbelina.&lt;br /&gt;Voltando ao jovem doutor Afonso de Menezes, além de colocar as suas capacidades ao serviço do estudo das ciências jurídicas, gostava particularmente de gastar o dinheiro dos papás (mais rigorosamente, do papá) em belos e potentes carros e num guarda-fatos que era um sonho.&lt;br /&gt;Vestia roupas de marca, odorava-se com os melhores perfumes, penteava-se com um cuidado milimétrico e exibia um garbo que era o orgulho da sempre atenta senhora sua mãe.&lt;br /&gt;- O menino hoje não escolheu muito bem a sua gravata. Nem parece seu, Afonsinho! Vai para o escritório falar com os clientes, não se esqueça! Tem de estar o mais apresentável possível. Um senhor doutor advogado não é uma pessoa qualquer.&lt;br /&gt;- Está bem, mamã! Eu vou lá acima mudar a gravata – aquiescia facilmente o estagiário numa firma de conhecidos advogados.&lt;br /&gt;- Muito bem! Mas, por outro lado, esse after-shave que pôr hoje tem um cheirinho divinal – julgava a especialista e grande educadora do filho em matéria de pedantismo.&lt;br /&gt;Mas havia quem tivesse do Afonso de Menezes uma ideia um pouco menos abonatória.&lt;br /&gt;Entre vizinhos, amigos e colegas era mais conhecido por gostar de exibir o seu porte altivo e boa figura, por falar uma linguagem rebuscada num tom afectado e carregando nos "erres", por todos os seus movimentos gestuais serem como que estudados diante do espelho para resultarem o mais aristocráticos possível, por contar algumas aventuras de veracidade duvidosa. &lt;br /&gt;E assim deixava os que o viam e ouviam a olhar uns para os outros com um sorriso sardónico nos lábios e uma pulga atrás da orelha.&lt;br /&gt;Mas, apesar das histórias amorosas que contava, não se lhe conheciam namoros escaldantes, nem com meninas nem com meninos, e da fama de ser meio larilas não se livrava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa solarenga tarde de inverno, estava a dona Umbelina em casa preparando-se para ir visitar uma amiga para mais um encontro cultural quando soou a campainha do portão da rua.&lt;br /&gt;A empregada Marlene, jovem e simpática, abriu-o à distância e depois de ver que era uma rapariga bastante nova fez o mesmo com a porta da casa.&lt;br /&gt;- O que deseja? – perguntou.&lt;br /&gt;- Queria falar com a D. Umbelina. É um assunto urgente – disse a desconhecida.&lt;br /&gt;- E qual é o assunto? – quis saber mais detalhes, a Marlene.&lt;br /&gt;- É particular! Mas de muito interesse para toda a família Menezes.&lt;br /&gt;- Eu vou ver se a senhora já saiu ou ainda está cá em casa. Um momento. Com licença – falou como lhe ensinara a patroa, a rapariga.&lt;br /&gt;Fechou a porta deixando a jovem, bonita mas vestida com a simplicidade de uns jeans, uma camisola, um “anorak” e umas botas altas, a aquecer-se ao sol de inverno.&lt;br /&gt;Passaram pelo menos uns cinco minutos quando a porta se abriu de novo e apareceu a bem tratada Umbelina.&lt;br /&gt;Olhou para a visitante e disse:&lt;br /&gt;- O que deseja?&lt;br /&gt;- Preciso urgentemente de falar consigo, D. Umbelina.&lt;br /&gt;- Mas eu agora tenho de sair para tratar de algo muito importante – retorquiu a madame tentando descartar a bela morena.&lt;br /&gt;- Mas não é seguramente tão importante e urgente como o que eu tenho para lhe dizer – insistiu a Mafalda, assim se chamava a moça.&lt;br /&gt;- Então diga lá! Mas seja rápida, por favor – condescendeu a dona da casa.&lt;br /&gt;- Não posso entrar? &lt;br /&gt;- Diga-me primeiro qual o assunto que é assim tão importante – travou a mais velha.&lt;br /&gt;- Bom! Para ser rápida como pediu, vou directa à questão. Estou grávida e o pai é o seu filho Afonso!&lt;br /&gt;A Umbelina ficou literalmente paralisada e durante um tempo indeterminado não falou. Nem tampouco se mexeu.&lt;br /&gt;- Sente-se bem, a senhora? – acabou por ser a Mafalda a tentar retomar o diálogo.&lt;br /&gt;A madame estremeceu e, finalmente, saiu do torpor em que caíra.&lt;br /&gt;- Desculpe! Acho que ouvi que a menina está grávida do meu Afonso. Terei ouvido bem? – perguntou.&lt;br /&gt;- Foi exactamente isso que eu disse. E vim falar consigo porque o Afonso nega ser o pai. Ora eu sei que é ele, por isso terá de ser feito um teste de ADN. E como sou menor, o seu filho terá de casar comigo.&lt;br /&gt;Estas palavras quasi deitavam a Umbelina definitivamente por terra. Mas aguentou, ainda que com alguma dificuldade.&lt;br /&gt;- Entre! Entre! Eu vou telefonar para o meu filho e para o meu marido – convidou a mamã.&lt;br /&gt;- Com licença. &lt;br /&gt;- Sente-se ali e aguarde um momento, por favor – disse a atordoada mãe do Afonsinho.&lt;br /&gt;Saiu da sala de entrada e dirigiu-se à empregada:&lt;br /&gt;- Marlene! Fique de olho naquela rapariga pois nunca se sabe! – avisou a patroa num arroubo de lucidez, coisa rara.&lt;br /&gt;Depois dirigiu-se a outro compartimento de onde não pudesse ser escutada por mais ninguém e ligou para o querido Asdrúbal:&lt;br /&gt;- Meu amor! Aconteceu uma coisa tremenda! Está aqui uma rapariga muito nova a dizer que está grávida do nosso menino.&lt;br /&gt;O silêncio foi a resposta.&lt;br /&gt;- Alô, Asdrúbal!&lt;br /&gt;- Sim! Eu ouvi! Estava a pensar. Olha, Lininha, já ligaste para o Afonso? – falou, finalmente, o comerciante.&lt;br /&gt;- Ainda não! &lt;br /&gt;- Então telefona e diz-lhe para ir já para casa que eu vou aí ter imediatamente – sentenciou o marido.&lt;br /&gt;- Muito bem! Até já! – e desligou dando um profundo suspiro.&lt;br /&gt;Pouco depois:&lt;br /&gt;- És tu, meu filho?&lt;br /&gt;- Sou mamã! Estou bem! Mas não precisas de me telefonar tantas vezes pois sabes que estou a trabalhar – respondeu o ocupado pedante.&lt;br /&gt;- Olha, filho! O menino tem de vir já para casa! – disse.&lt;br /&gt;- Mas que aconteceu, mamã querida? Está alguém doente? – inquiriu, ansioso, o jurista.&lt;br /&gt;- Não, meu filho! Está aqui uma rapariga muito jovem que diz estar grávida de si.&lt;br /&gt;- Não é possível! E como é que ela se chama? – quis saber o causídico aprendiz.&lt;br /&gt;- Nem lhe perguntei! Com a atrapalhação até me esqueci. Mas eu vou lá saber e já volto. Espere um bocadinho – decidiu a dona de casa.&lt;br /&gt;Passado menos de um minuto.&lt;br /&gt;- Mafalda e tem dezassete anos, disse ela – informou a Umbelina.&lt;br /&gt;- Mas eu não conheço nenhuma Mafalda dessa idade. Vou já para aí. Um beijinho e tem calma que alguma coisa está errada – despediu-se o licenciado.&lt;br /&gt;- Venha com cuidado! Guie devagar! O seu pai também vem para cá – acrescentou ainda a mulher do comerciante sem perceber que já não era ouvida.&lt;br /&gt;Foi então avisar a jovem de que tinha de aguardar a chegada do marido e do filho.&lt;br /&gt;Passado pouco tempo entrou o Asdrúbal, pela porta das traseiras, e foi ter com a esposa.&lt;br /&gt;- Vamos esperar que venha o nosso rapaz. Entretanto vou espreitar a cara da rapariga – disse o homem.&lt;br /&gt;Não demorou muito tempo que chegasse o Afonso. Esbaforido, nem parecia ele.&lt;br /&gt;Também entrou pelas traseiras, pois recebera um telefonema nesse sentido, e começou a falar com os progenitores e a negar que fosse pai de quem quer que fosse.&lt;br /&gt;- O melhor é irmos lá para dentro falar com a rapariga – sugeriu o Menezes mais velho.&lt;br /&gt;E lá foram os três sentar-se junto da paciente Mafalda.&lt;br /&gt;- Mas eu não conheço esta menina de lado nenhum! – afirmou, quasi aterrado, o Menezes mais novo.&lt;br /&gt;- Isso é o que tu dizes! Mas sabes muito bem que temos uma relação há três meses e agora não podes fugir às tuas responsabilidades – afirmou, convicta, a rapariga.&lt;br /&gt;- É uma falsidade! – quasi gritou o trintão – E é fácil provar isso com um teste de ADN. Além disso, já não tenho relações com mulheres há vários meses.&lt;br /&gt;Eis que a rapariga se levantou, sorriu e disse:&lt;br /&gt;- Desculpem! Mas fui escolhida por um grupo de amigos e amigas do Afonso para lhe pregar um susto e tentar saber se isso que ele diz de ter várias amantes secretas seria verdade. Agora vou-me retirar e fazer o meu relatório final.&lt;br /&gt;O velho Asdrúbal foi o primeiro a reagir.&lt;br /&gt;- Espere! Eu pago-lhe bem para não dizer nada sobre a última parte do que disse o meu filho.&lt;br /&gt;- Não vale a pena! Eles disseram que cobririam qualquer oferta que me fosse feita para me silenciar. E agora vou-me retirar.&lt;br /&gt;E saiu sozinha.&lt;br /&gt;- Mas afinal tu és maricas? – inquiriu, com cara de pau, o pai.&lt;br /&gt;- Não, pai! Não sou nada maricas! – retorquiu, choramingando, o estagiário.&lt;br /&gt;- Então como explicas que, com trinta e cinco anos, passes meses sem ter relações com mulheres?&lt;br /&gt;- Só tem uma explicação! Ainda não apareceu uma que me entusiasmasse a sério.&lt;br /&gt;- Uma como a mamã, não é Afonsinho?&lt;br /&gt;E os olhos do Asdrúbal deitaram fogo!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-4155096451726711131?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/4155096451726711131/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=4155096451726711131' title='43 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/4155096451726711131'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/4155096451726711131'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2007/02/histrias-curtas-viii-o-menino-da-mam.html' title='Histórias curtas VIII - O menino da mamã'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>43</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-8453964010385244714</id><published>2007-02-14T14:10:00.000Z</published><updated>2007-02-14T14:20:44.495Z</updated><title type='text'>Hoje não é Dia dos Namorados</title><content type='html'>14 de Fevereiro.&lt;br /&gt;Hoje faz 24 anos que faleceu a minha mãe.&lt;br /&gt;Foi numa segunda-feira de Carnaval.&lt;br /&gt;Na terça-feira, ao acordar, abri a persiana e olhei pela janela.&lt;br /&gt;Estava tudo coberto de neve.&lt;br /&gt;Nunca mais vi assim a Maia e já cá resido há 27 anos.&lt;br /&gt;Será que a natureza se vestiu de branco especialmente para se despedir da mãe Julieta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa sexta-feira, recebi um telefonema do meu cunhado que na altura vivia com a minha irmã e os dois filhos em casa dos meus pais. Já tinha jantado e ele disse-me que iriam levar a minha mãe para o Hospital de Santo António, para a Urgência.&lt;br /&gt;Já não se vinha sentindo muito bem e tinha muitas dores nos membros inferiores, mas a situação agravara-se.&lt;br /&gt;Comentei para a minha mulher:&lt;br /&gt;- É o começo do fim da minha mãe!&lt;br /&gt;Premonição?&lt;br /&gt;Acho que não, mas tinha a certeza que tinha razão.&lt;br /&gt;Fui logo para lá. Que confusão!&lt;br /&gt;Finalmente lá foi para uma enfermaria.&lt;br /&gt;No sábado fui visitá-la. Falei com os médicos. Não sabiam qual a causa do mal, mas inclinavam-se para um vírus que lhe teria atacado o sistema nervoso e provocado uma paralisia flácida ascendente.&lt;br /&gt;No domingo foi o baptizado do meu filho. Não houve qualquer festa, naturalmente. A minha mãe tinha mandado fazer um vestido novo para usar nesse dia. Não o usou nesse dia mas foi o que escolhemos para lhe servir de mortalha.&lt;br /&gt;Foi a última vez que a vi consciente.&lt;br /&gt;Na 2ª feira de manhã, por voltas das onze horas, telefonou a minha irmã que, por razões profissionais se mexia bem naquele Hospital, a dizer:&lt;br /&gt;- A mamã está em coma nos Cuidados Intensivos. &lt;br /&gt;O horário de visita era só de meia hora e não mais de duas pessoas de cada vez.&lt;br /&gt;Mas a situação agravava-se dia a dia. A causa da doença continuava mal definida. A temperatura do corpo era de 35º centígrados.&lt;br /&gt;No sábado, um médico disse-me que a mãe Julieta já estava num estado de morte cerebral, irreversível.&lt;br /&gt;A segunda-feira de Carnaval foi o dia oficial da morte pois foi quando desligaram as máquinas que a mantinham aparentemente com um sopro de vida. Mas era só aparentemente.&lt;br /&gt;A autópsia, que não foi conclusiva, e o funeral realizaram-se na quarta-feira de cinzas.&lt;br /&gt;Foi sepultada no jazigo da família em Vila Praia de Âncora. Tinha 66 anos.&lt;br /&gt;Dez anos depois o meu pai foi-lhe fazer companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi em 1983.&lt;br /&gt;Faz hoje 24 anos!&lt;br /&gt;Mas parece que foi ontem!&lt;br /&gt;Escrevi tudo isto de rajada e não verti uma lágrima.&lt;br /&gt;Acho que as gastei todas esta manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOTA: Tinha previsto colocar aqui, hoje, mais uma das minhas ”Histórias curtas”, mas o coração ordenou ao cérebro para alterar a programação.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-8453964010385244714?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/8453964010385244714/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=8453964010385244714' title='41 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/8453964010385244714'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/8453964010385244714'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2007/02/hoje-no-dia-dos-namorados.html' title='Hoje não é Dia dos Namorados'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>41</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-6654000858580080470</id><published>2007-02-10T10:10:00.000Z</published><updated>2007-02-10T10:08:28.269Z</updated><title type='text'>Um grande susto</title><content type='html'>Lembram-se de vos falar num tal Fausto (ou &lt;em&gt;Bouças&lt;/em&gt;) no texto de 16 de Dezembro último e que intitulei de “Natal e Ano Novo na grande família”?&lt;br /&gt;Não?&lt;br /&gt;Era o jovem empregado dos meus tios Simão e Bela que tinham a pensão onde decorriam as concorridas ceias da grande família.&lt;br /&gt;Já se estão a recordar?&lt;br /&gt;Exactamente!&lt;br /&gt;Esse mesmo!&lt;br /&gt;O que representava o papel de Pai Natal, de Ano Velho e Ano Novo para gáudio de miúdos e graúdos.&lt;br /&gt;De seu nome Fausto Enes da Silva, filho de uma mãe de vários filhos, cada qual com seu pai, vivia miseravelmente num casebre lá em cima, no caminho do monte sobranceiro à terra piscatória: Vila Praia de Âncora.&lt;br /&gt;Ainda muito jovem foi trabalhar para os meus tios e era o parceiro favorito do mais novo dos meus primos, o Nando, pois tinham a mesma idade.&lt;br /&gt;Ali cresceu, dali partiu para a guerra, ali se fez homem e dali se fez marido e pai.&lt;br /&gt;Como ando numa onda de histórias com mortes, alucinações e outras coisas mais ou menos macabras, lembrei-me de uma peripécia ocorrida com o Fausto.&lt;br /&gt;Todas as noites ele saía já tarde do trabalho e subia, através de carreiros que muito bem conhecia, por entre silvados e muros ou muretes feitos de pedras graníticas, por zonas descampadas ou por quintais proibidos, até à pobre casa onde chegava com alguma comida para a mãe e os irmãos.&lt;br /&gt;Foi numa noite invernosa, com chuva intensa e um vento cortante que, em certo ponto do percurso, sem iluminação pública e com a lua escondida deixando tudo mergulhado numa escuridão quasi total, sentiu ser-lhe arrancada a boina que lhe agasalhava a cabeça.&lt;br /&gt;E o rapaz, que ao tempo deveria ter cerca de vinte anos, nem para trás olhou: correu tanto quanto pôde impulsionado pelo pavor de ser seguido por quem lhe havia roubado a útil peça da indumentária.&lt;br /&gt;Chegou a casa a deitar os bofes pela boca. &lt;br /&gt;Apagou as luzes, disse à mãe que tinha deixado cair o embrulho com a comida pelo caminho, trancou bem as portas e janelas, verificou que não havia ninguém nas proximidades e foi dormir.&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, acordou a pensar quem lhe teria arrancado a boina. &lt;br /&gt;Vestiu-se e meteu pés ao caminho, monte abaixo, rumo à vila, seguindo o percurso habitual que era, naturalmente, o inverso do da véspera.&lt;br /&gt;Eis que, ao desfazer uma curva do caminho, viu a sua boina pendente de um ramo do silvado, presa por um espinho, bamboleando ao sabor da brisa matinal.&lt;br /&gt;Rui-se a bom rir do pânico em que ficara na noite anterior e quando chegou à pensão não resistiu a contar a história.&lt;br /&gt;Escusado será dizer que nessa manhã, e durante algum tempo, esta desventura do &lt;em&gt;Bouças&lt;/em&gt; foi motivo de chacota e gargalhadas em toda a vila.&lt;br /&gt;Para finalizar, deixem-me fazer uma perguntinha inocente: e se isto tivesse acontecido consigo...sim, consigo...junto a um cemitério?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-6654000858580080470?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/6654000858580080470/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=6654000858580080470' title='38 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/6654000858580080470'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/6654000858580080470'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2007/02/um-grande-susto_10.html' title='Um grande susto'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>38</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-6249176092290421556</id><published>2007-02-07T00:00:00.000Z</published><updated>2007-02-06T23:59:48.168Z</updated><title type='text'>7 de Fevereiro, de novo</title><content type='html'>&lt;em&gt;“Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa-de-forças!” &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi isto que escrevi como linha orientadora do blog &lt;strong&gt;“Eu sou louco”&lt;/strong&gt; quando o criei no dia 7 de Fevereiro de 2005. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Faz hoje dois anos! &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse subtítulo mantém-se o mesmo, mas o conteúdo é superior a 200 (duzentos) posts. &lt;br /&gt;Todos de textos em prosa. &lt;br /&gt;Sem fotografias, nem música, nem vídeo. &lt;br /&gt;O mais simples possível. &lt;br /&gt;Quis que este sítio valesse só pelo que aqui fui deixando escrito. &lt;br /&gt;Utilizei os mais variados temas e assuntos: &lt;br /&gt;Memórias, muitas memórias, histórias verdadeiras, mas também muita ficção, curta ou mais ambiciosa em termos de dimensão do trabalho, muitas vezes com um toque humorístico e pretensões de fazer sorrir ou mesmo rir. Mas também crónicas, artigos de opinião, abordagens mais pessoais e íntimas, eu sei lá... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imensos são os comentários que aqui estão. Também fazem parte do património. &lt;br /&gt;Um obrigado a todos aqueles que os deixaram por cá...e não foram poucos. &lt;br /&gt;Para mim é importante ter um “feed-back” do que coloco on-line. &lt;br /&gt;O que escrevi foi sempre para os que me quisessem ler, tentando usar uma linguagem que fosse compreensível. &lt;br /&gt;Não escrevo para mim. Foi e será sempre essa a minha opção. &lt;br /&gt;Se não tivesse leitores não valeria a pena escrever. &lt;br /&gt;Também agradeço aos que leram mas não comentaram. São mais do que eu pensava. Depois de recentemente ter feito umas contas simples (com base no número de visitantes que o meu totalizador indica) acho que visitam este blog cerca de 100 pessoas por dia; considerando que só metade lê um texto, então teria 50 leitores por dia, em média. &lt;br /&gt;Nem que fossem 30 ou 40.&lt;br /&gt;Sinto-me orgulhoso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo destes vinte e quatro meses conheci aqui muitas pessoas. Algumas tive oportunidade de contactar pessoalmente, lá fora, no chamado mundo real. &lt;br /&gt;Fiz amizades. &lt;br /&gt;Foi bom! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“...O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa-de-forças!” &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinceramente, e perdoem-me a imodéstia, acho que valeu a pena. &lt;br /&gt;Mas se algum dia, próximo ou afastado, acharem que já não vale mais a pena, peço-vos que me prendam à camisa-de-forças. &lt;br /&gt;Por favor!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-6249176092290421556?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/6249176092290421556/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=6249176092290421556' title='41 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/6249176092290421556'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/6249176092290421556'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2007/02/7-de-fevereiro-de-novo.html' title='7 de Fevereiro, de novo'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>41</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-117010905682919099</id><published>2007-01-29T22:20:00.000Z</published><updated>2007-01-29T22:17:36.983Z</updated><title type='text'>Histórias curtas VII - O "gang" dos pestaninhas</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;João, Mário e António eram três tipos que tinham o que poderei chamar de uma tara, perversão ou desvio sexual.&lt;br /&gt;João, com trinta e poucos anos, era um velho viciado em espreitar outras pessoas em atitudes ou ambientes íntimos. Um &lt;em&gt;voyeur&lt;/em&gt;! Desde há muitos anos que passava as horas livres à cata de casalinhos, ou nas dunas da praia, ou nos matagais, ou cocando para o interior das casas e dos prédios ou, principalmente, deitando o olho para dentro de carros onde estivessem parelhas em atitudes amorosas ou libidinosas. E a vida sexual dele resumia-se a isto e às masturbações que completavam o visionamento.&lt;br /&gt;Mário e António eram dois rapazolas no final da adolescência que também se pelavam por umas espreitadelas para os sítios proibidos. Andavam quasi sempre juntos e travaram conhecimento com o João numa sessão nocturna em que estavam os três ao redor de uma única viatura da qual, em dado momento, saiu um tipo gigantesco que os fez fugir a toda a velocidade. Pararam a uns duzentos metros de distância, ofegantes. O João, o mais especializado, disse:&lt;br /&gt;- Meus meninos! O que fizeram hoje nunca mais deve ser repetido. Quando tiverem de dar de frosques, deve ir cada um para o seu lado. Valeu?&lt;br /&gt;Os outros concordaram e, enquanto se refaziam do esforço da corrida, foram conversando.&lt;br /&gt;Desde essa noite que estes três pestaninhas, nome pelo qual são bastante conhecidos estes mirones compulsivos, passaram a andar muitas vezes juntos, sendo o João o líder natural, não só por ter a maior pancada na mona como por ser um profundo conhecedor das técnicas da espreitadela, minimizando os riscos, e ainda por saber de muitos outros locais onde poderiam ir exercer esta interessante prática sexual.&lt;br /&gt;As sessões mais excitantes eram as que ocorriam à noite, em locais mal iluminados, onde estacionavam automóveis com duas pessoas. Normalmente eram um homem e uma mulher mas, algumas poucas vezes, calhava um par do mesmo sexo. E aí a excitação atingia o pico pois filmes desses eram mais raros e ainda mais estimulantes.&lt;br /&gt;Era vê-los a correr muito agachados, tão velozes que mais pareciam grandes lebres, a procurarem o carro em que a visibilidade para o interior fosse melhor e os ocupantes estivessem mais distraídos para nem darem pela presença dos maganões.&lt;br /&gt;Há alguns anos, um amigo do &lt;em&gt;expert&lt;/em&gt; João tinha tido o azar de se distrair e o sujeito que estava dentro da viatura, já totalmente saturado de tanta pestanada, enfiou dois balázios na cachola do desgraçado que ficou logo ali esticado até chegar o delegado de Saúde. Fora uma noite trágica, mas memorável. Durante muitos meses a actividade baixou. Ou melhor, passou a ser exercida noutros locais e com muito maior discrição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa quente noite de estio, no alto de uma arriba que tombava abrupta para um estreito areal junto ao mar e que era um dos locais favoritos para os mais ou menos apaixonados estacionarem, estava o espaço cheio de carros. Os três membros do &lt;em&gt;gang&lt;/em&gt; dos pestaninhas lá apareceram dispostos a, mais uma vez, arrostarem com todos os perigos, quais Gamas ou Cabrais, e satisfazerem a sua doentia curiosidade.&lt;br /&gt;Falavam pouco e baixinho, e entendiam-se sobretudo por gestos.&lt;br /&gt;A visibilidade era boa, ao contrário do que acontecia no inverno em que o rápido e quasi total embaciamento dos vidros muitas vezes só permitia que estivesse disponível a parte áudio.&lt;br /&gt;O João Pestana, como também era conhecido o sabidola, estava junto de um carro muito compenetrado na acção que decorria no seu interior e ía afagando-se como tanto gostava de fazer.&lt;br /&gt;O António estava filado noutro par e o Mário num terceiro.&lt;br /&gt;Eis que este fez sinal ao jovem parceiro para se aproximar.&lt;br /&gt;- São dois gajos! Vamos ver o que fazem os paneleiros. Para já só estão a conversar, mas não deve demorar muito que entrem em acção – disse, quasi num sussurro.&lt;br /&gt;E acrescentou:&lt;br /&gt;- Aguenta aí um bocadito que eu vou chamar o João. Ele delira com estes casalinhos de rabetas.&lt;br /&gt;- Ok! Vai, que eu aguento aqui os cavalos.&lt;br /&gt;Pouco depois estavam os três reunidos junto do Volkswagen Golf à espera que os namorados iniciassem uma forma mais arrebatada de demonstrarem o seu amor e o seu desejo.&lt;br /&gt;De repente abriram-se simultaneamente as quatro postas do carro, o que fez com que os dois mais novos caíssem ao chão, e de lá de dentro saíram quatro mangas que imediatamente agarraram um dos mirones. Foi o Mário, o azarado. Entretanto, os outros dois piraram-se a grande velocidade esquecendo-se por completo da amizade que tinham pelo parceiro.&lt;br /&gt;E, na luta desigual de quatro contra um, ainda por cima sem poder gritar pois imediatamente lhe tinham colocado uma fita adesiva na boca, começaram a despi-lo e a lançar a roupa para o fundo do abismo até que o pobre coitado ficou nu.&lt;br /&gt;Mas, não satisfeitos com isto, os quatro amarraram o desgraçado de mãos e pés, meteram-no na viatura (onde ele se vingou fazendo uma valente mijadela) e foram largá-lo, depois de desamarrado, no meio de uma praça que nessa noite estava cheia de gente a tentar refrescar-se com uma ligeira brisa que estava a começar a soprar das bandas do oceano.&lt;br /&gt;Os sorrisos, as gargalhadas e alguns gritos histéricos acompanharam a fuga do Mário para casa correndo com as mãos a taparem os genitais.&lt;br /&gt;- Em bem digo que o mundo está maluco!&lt;br /&gt;- Mas que pouca-vergonha!&lt;br /&gt;- Mas o gajo está mesmo nu!&lt;br /&gt;- Tapa aí os olhos às crianças!&lt;br /&gt;- Até tem um bom corpinho, o moço!&lt;br /&gt;Foram algumas das exclamações que se puderam ouvir.&lt;br /&gt;Entretanto o fugitivo chegou a casa, que era a dos seus pais, saltou o muro do quintal e entrou sorrateiramente logo se dirigindo para o seu quarto onde vestiu uns boxeurs e se deitou na cama.&lt;br /&gt;Quando a mãe Amália, por volta da meia-noite e antes de ir para os seus aposentos, foi dar uma espreitadela ao quarto do seu Marinho, ficou admirada por ele já estar a dormir.&lt;br /&gt;E a partir dessa noite, quebrado o código de honra, desfez-se o agrupamento dos três pestaninhas ficando o Mário a trabalhar por conta própria.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-117010905682919099?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/117010905682919099/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=117010905682919099' title='34 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/117010905682919099'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/117010905682919099'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2007/01/histrias-curtas-vii-o-gang-dos_29.html' title='Histórias curtas VII - O &quot;gang&quot; dos pestaninhas'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>34</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116983515764197349</id><published>2007-01-26T18:15:00.000Z</published><updated>2007-01-26T18:39:37.030Z</updated><title type='text'>Histórias curtas VI - Noite de trovoada</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Fátima Azevedo era uma solteirona, fervorosa cristã, que vivia sozinha numa velha casa de lavoura que fora dos seus pais.&lt;br /&gt;Tinha perto de trinta e oito anos e trabalhava na Câmara Municipal da vila sede do concelho.&lt;br /&gt;Mal fizera o 12º ano, o pai arranjara-lhe o emprego que manteve até hoje e onde se esmera para ser boa funcionária.&lt;br /&gt;Era a única filha de Zeferino e Carmelinda: o homem amanhara uma razoável propriedade da família situada adjacente à casa e acumulava com funções de jardinagem na Junta de Freguesia.&lt;br /&gt;Mas, ainda cedo, problemas de saúde começaram a impedi-lo de fazer trabalhos pesados e, ao fim de mais uns anos, quando a sua Fatinha foi para a edilidade, vendeu grande parte dos terrenos por bom dinheiro e dedicou-se à nobre actividade de nada fazer.&lt;br /&gt;A mulher tratava dos assuntos domésticos e dos animais que viviam no piso térreo da habitação.&lt;br /&gt;O andar superior era destinado aos três membros da família.&lt;br /&gt;Há cerca de quatro meses faleceu, de cancro na próstata, o velhote.&lt;br /&gt;A mulher não resistiu muito mais tempo. Três meses depois, uma pneumonia acarretou-lhe várias complicações que culminaram no seu passamento.&lt;br /&gt;A filha foi o amparo dos pais na velhice e na morte.&lt;br /&gt;- Não fez mais do que a sua obrigação – diziam uns.&lt;br /&gt;- Mas há muitos que nem a obrigação fazem – comentavam outros.&lt;br /&gt;- Era filha única! Se fossem meia dúzia, tinham andado a empurrar uns para os outros e os velhos acabavam num asilo ou no hospital – sentenciavam alguns.&lt;br /&gt;E assim a Fátima se viu sozinha na vida.&lt;br /&gt;Não era bonita. Tinha os dentes acavalados, os olhos pequenos e o nariz adunco, mas era razoavelmente elegante.&lt;br /&gt;Tivera vários pretendentes mas, ou ela ou os pais, sempre lhes acharam defeitos e assim foi ficando solteira, até hoje.&lt;br /&gt;Tem ainda uma muito antiga paixão por um colega da escola primária, o Jaime, mas este nunca lhe prestou a atenção que ela gostaria. Entretanto casou e já tem dois filhos espigadotes.&lt;br /&gt;A casa, depois da venda dos terrenos pelo Zeferino, sofreu umas transformações no rés-do-chão, sobretudo para converter umas pocilgas em garagem para dois carros pequenos: um do pai e outro da filha.&lt;br /&gt;O acesso ao andar que servia de habitação era feito por uma escada de granito, no exterior.&lt;br /&gt;Era tudo muito velho. O Zeferino, com uma pequena reforma, queria gastar pouco do dinheiro que tinha a render em Certificados de Aforro pois estava destinado a fazer face a despesas com doenças. E tinha razão pois acabou por dispender algum com a sua enfermidade final. Também a mulher não ficou barata na morte. Mas ainda sobrou uma boa maquia para a Fátima.&lt;br /&gt;Por tudo isso, o soalho de tábuas de madeira, excepto na cozinha, rangia sob os passos de quem o pisasse. As janelas tinham duas abas envidraçadas com cortinas e, no interior, havia umas portadas em madeira que, já empenadas, eram difíceis de ser bem fechadas e assim dar maiores garantias quanto à não entrada de indesejáveis.&lt;br /&gt;O Monge, pastor alemão velho mas ainda bonito de bem tratado que era, constituía a guarda avançada da casa e propriedade circundante, agora bem pequena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos no início do Outono e ainda não viera nenhum daqueles temporais que a Fatinha tanto temia. Desde pequena que tinha pavor às trovoadas e agora só, naquela casa lúgubre, fria e isolada de todas as outras da povoação, às vezes pensava em como reagiria perante uma tempestade das fortes.&lt;br /&gt;Na procelosa noite sequente a um dia de temporal, a amedrontada Fátima fechou todas as portas e janelas o melhor que conseguiu. Encarcerou-se no seu quarto juntamente com o fiel Monge e preparou-se para dormir, não sem antes tomar um calmante dos que usava quando tinha insónias.&lt;br /&gt;Ouvia-se o sibilar de uma ventania desenfreada lá fora, os ruídos das ramas das árvores, mesmo que distantes, o bater da água nas vidraças. Um tremelicar da luz precedeu um ribombar barulhento e amedrontador.&lt;br /&gt;A Fátima tremeu ao pensar que, pela primeira vez, iria estar sozinha debaixo de uma trovoada. Após aquele primeiro sinal de aviso resolveu deitar-se. Não teve tempo. Um novo trovão atordoou a sua cabeça e pouco depois a luz apagou-se.&lt;br /&gt;Rastejou até à cama, subiu para ela, meteu-se debaixo da roupa e chamou o cão:&lt;br /&gt;- Monge! Anda para o pé de mim!&lt;br /&gt;E o animal subiu para se enroscar sobre os lençóis e cobertores junto da dona.&lt;br /&gt;Com a escuridão, podia ver-se a luz dos relâmpagos a penetrar no quarto através das frinchas das velhas portadas. O som estrondoso que se lhes seguia deixava a mulher cada vez mais aterrorizada.&lt;br /&gt;Meteu a cabeça debaixo da roupa na tentativa de nada ver e nada escutar.&lt;br /&gt;De repente, ouviu o soalho ranger algures dentro de casa. Sentiu martelar-lhe nos ouvidos uns passos que se íam aproximando da porta do seu quarto. Lentos, cadenciados e cada vez mais audíveis. Chegou-se para junto do cão, moveu a cabeça para fora dos panos e disse:&lt;br /&gt;- Monge! Fareja quem está lá fora!&lt;br /&gt;Mas logo um novo relâmpago a fez ver um vulto dentro do seu quarto.&lt;br /&gt;A mulher estava em pânico!&lt;br /&gt;Enroscou-se de novo debaixo dos tecidos que cobriam a cama e ficou à espera de ser atacada. Várias facadas? Um golpe certeiro de machado? Ou seria um violador?&lt;br /&gt;E o cão não reagia. Maldito!&lt;br /&gt;Um novo estrondo fê-la tapar os ouvidos com as mãos.&lt;br /&gt;Mas o soalho dentro do quarto rangia sob os passos pesados e compassados daquele que seria, certamente, o seu carrasco. Ouvia-lhe a respiração.&lt;br /&gt;Paralisada, esperou a estocada final rezando pela salvação da sua alma.&lt;br /&gt;E foi ficando assim, petrificada, incapaz de se mover, vencida pelo medo, à espera do ataque do seu algoz.&lt;br /&gt;- Ajudai-me, Senhor! – pensava.&lt;br /&gt;- Avé Maria, cheia de Graça... – orava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram cerca das dez horas da manhã quando tocou o telefone.&lt;br /&gt;Ouviu-o porque tudo agora era silêncio. A tempestade parecia ter passado.&lt;br /&gt;Apercebeu-se de que tinha acordado. O Monge já estava sentado no chão.&lt;br /&gt;Olhou ao redor e não viu marcas de nenhum assaltante.&lt;br /&gt;Entretanto o telefone parou de tocar.&lt;br /&gt;Sentia outra disposição, agora. Destapou-se e saltou para fora da cama. Foi abrir as postadas das janelas. Caminhou resoluta para a porta e colocou a mão na chave. Rodou-a, ainda um pouco a medo, e abriu-a com um pontapé:&lt;br /&gt;- Monge! Busca!&lt;br /&gt;O canino saiu do quarto e ela seguiu-o, primeiro com o olhar depois caminhado atrás dele. Tudo parecia normal.&lt;br /&gt;Voltou ao quarto e espreitou para debaixo da cama e para dentro do guarda-roupa; nada nem ninguém lá estava escondido.&lt;br /&gt;Aproximou-se duma das janelas e olhou atentamente para as casas menos afastadas: havia estragos.&lt;br /&gt;Vizinhos com os seus bens atingidos estavam já a tentar reparar os danos. Muitos ramos de árvores espalhados no chão. Arbustos derrubados. Pequenas extensões de muros tombados. Telhas quebradas nos pavimentos. Vidros partidos. A confirmação, se necessária fosse, de que houvera borrasca forte durante a noite.&lt;br /&gt;Abriu a vidraça.&lt;br /&gt;- Então, Fatinha! Mas que temporal tivemos esta noite! E ainda não há luz. Tem muitos estragos? – disse um homem de meia idade com um aspecto campesino que ía a passar nesse momento junto à casa isolada.&lt;br /&gt;- Ainda não vi! Só acordei agora – respondeu a mulher.&lt;br /&gt;Um carro parou junto da casa. De lá saiu o colega Alberto:&lt;br /&gt;- Estás bem, Fátima? Como não apareceste no trabalho à hora habitual pensamos que tivesses tido problemas. E como não atendeste o telefone, resolvi vir cá.&lt;br /&gt;- Obrigado, Alberto! Adormeci tarde por causa da tempestade. Mas ainda tenho de ver se há alguns danos na propriedade.&lt;br /&gt;- Ainda não há luz em muito sítios mas logo, a meio da tarde, já tudo deve estar normalizado. É o que diz a malta dos Serviços.&lt;br /&gt;- Com a luz do dia dá para fazer uma vistoria, sobretudo ao telhado. É fácil. Subo ao sótão e vejo se entrou água.&lt;br /&gt;- Parece que estás bem! – opinou o Berto.&lt;br /&gt;- Agora estou! Mas passei uma noite horrível. A trovoada deixa-me em pânico e agora que vivo aqui sozinha, é muito mais complicado.&lt;br /&gt;- Tens de te casar, rapariga! Quanto mais não seja nas noites de trovoada – disparou, trocista, o colega.&lt;br /&gt;- A brincar que o digas! A brincar que o digas! – respondeu ela, lembrando-se da pavorosa noite em que o sono acabara por vencer o medo.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116983515764197349?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116983515764197349/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116983515764197349' title='27 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116983515764197349'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116983515764197349'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2007/01/histrias-curtas-vi-noite-de-trovoada.html' title='Histórias curtas VI - Noite de trovoada'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>27</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116947593948777987</id><published>2007-01-22T14:25:00.000Z</published><updated>2007-01-22T14:34:01.356Z</updated><title type='text'>Traz a faca para matar o ladrão!</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Os meus pais, Fernando e Julieta, conheceram-se nos finais dos anos 30 do século passado. Praticamente em cima do início da II Grande Guerra. Durante o conflito eles, como muitos mais, retraíram-se em relação à união pelo casamento pois, apesar de Portugal não estar directamente envolvido nas batalhas sofria, como todo o mundo, nomeadamente a praga do racionamento de produtos de primeira necessidade.&lt;br /&gt;Não é pois de admirar que, só em 1946, tenham dado o nó matrimonial numa modestíssima cerimónia pois os tempos ainda eram de vacas magras.&lt;br /&gt;Não posso deixar de fazer aqui uma referência ao facto de, tanto quanto sei, ter sido nesses anos do pós-guerra que se bateram todos os recordes de natalidade a nível mundial.&lt;br /&gt;Eu sou um produto dessa fúria reprodutora à qual se seguiu uma descida contínua e imparável do número de nascimentos ao longo dos anos que, aliás, ainda prossegue.&lt;br /&gt;Ora são os filhos do após guerra, como eu, que estão agora a passar à reforma e a depauperar as finanças públicas de inúmeros países.&lt;br /&gt;Pela parte que me toca peço desculpa aos mais novos, embora não tenha responsabilidades no assunto, como devem imaginar.&lt;br /&gt;Mas voltemos ao tema inicial.&lt;br /&gt;Os meus progenitores foram viver para a Rua de Oliveira Monteiro, 1015, ao Carvalhido. No Porto, claro!&lt;br /&gt;Era uma pequena casa alugada, térrea, com uma só janela virada para a frente e lá vivi até aos sete anos. Valia ter um quintal de dimensões razoáveis onde eu e a mana Fernanda brincávamos a maior parte do tempo (se as condições climatéricas o permitissem).&lt;br /&gt;Talvez porque a habitação tinha poucas condições, talvez porque era benquisto por toda a família, talvez porque a minha mãe ficava mais desafogada para tratar da bebé mais pequerrucha, eu ía passar algumas temporadas, quer a Vila Praia de Âncora quer a Valença do Minho, para casa de tias. E bem gostava de o fazer...&lt;br /&gt;Lembro-me de só uma noite ter vertido umas lágrimitas de saudades pelos meus pais quando já estava só e deitado na cama para adormecer. De resto, sempre gostei de andar por aqui e por ali. Diziam que era ave de arribação. Sempre fui, de facto.&lt;br /&gt;Tudo terminou com a entrada na primária.&lt;br /&gt;Em Setembro de 1956, tinha sete anos e acabada de fazer a 1ª classe, mudámos para a moradia das Antas. Também alugada, diga-se, mas com dois pisos, um pequeno jardim nas traseiras e, sobretudo, muito maior e mais moderna.&lt;br /&gt;A velha casinha já foi há muito demolida mas o espaço por ela outrora ocupado ainda está vago. Situa-se num gaveto da Oliveira Monteiro com a Rua da Constituição. A casa adjacente, habitada nesses já remotos tempos por uma senhora de idade (a D. Maria Caldas) ainda lá está com as suas duas janelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que vou contar a seguir não foi por mim presenciado. Penso que ainda não era nascido.&lt;br /&gt;Tinha a casa de Oliveira Monteiro uma só porta alta e estreita, com duas portadas que subiam até à esquadria de granito e dois postigos de vidro martelado e com grades em ferro na parte exterior, um em cada uma das duas metades da porta.&lt;br /&gt;Rezam as crónicas familiares que, uma noite, já bem depois das doze badaladas terem soado no sino da Igreja, se ouviu um estranho abanar da porta da rua.&lt;br /&gt;O meu pai, decidido, foi averiguar o que se passava enquanto a mulher ficava na cama.&lt;br /&gt;E viu claramente uma sombra, provavelmente as mãos de um homem, a abanar a porta.&lt;br /&gt;E falou baixinho para a que haveria de ser minha mãe:&lt;br /&gt;- Oh Leta! Traz cá a faca para matar o ladrão!&lt;br /&gt;A Julieta não gostou muito da ideia mas, perante a insistência do marido, lá foi buscar o maior facalhão que tinha na cozinha.&lt;br /&gt;Agora bem armado, o Fernando ousou abrir a porta num rompante e...que viu ele?&lt;br /&gt;Um gato pendurado na grade de um dos postigos e que imediatamente se pôs em fuga.&lt;br /&gt;Mas a história correu célere pela família e, não poucas vezes ao longo dos anos, eu ouvi-a ser contada.&lt;br /&gt;E outras tantas escutei os meus parentes a perguntarem ao pai:&lt;br /&gt;- Oh Fernando! Eu queria era ver se você matava mesmo o homem se fosse um ladrão!&lt;br /&gt;E o meu pai fazia um sorriso de tons levemente amarelados e dizia:&lt;br /&gt;- Se tivesse mesmo de ser!...&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116947593948777987?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116947593948777987/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116947593948777987' title='28 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116947593948777987'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116947593948777987'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2007/01/traz-faca-para-matar-o-ladro.html' title='Traz a faca para matar o ladrão!'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>28</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116904571949269242</id><published>2007-01-17T14:55:00.000Z</published><updated>2007-01-17T19:22:18.373Z</updated><title type='text'>Histórias curtas V - Viajando à boleia</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Marta e Sandra eram duas jovens estudantes do 9º ano.&lt;br /&gt;Estudantes é uma maneira eufemística de dizer pois, de facto, já ambas tinham dezanove anos e uma carreira académica a marcar passo.&lt;br /&gt;Eram do tipo de adolescentes que se interessam mais por rapazes, música, charros, cervejas, chats, telemóveis, farras, discotecas, sexo, jogos de vídeo, cigarros, shots e outros assuntos bem mais enriquecedores do que estudar. Mas fizeram alguns esforços louváveis como “comer”, num espectacular &lt;em&gt;ménage à trois&lt;/em&gt;, um professor ainda jovem, para este lhes dar uma nota que permitisse uma transição de ano. Pelo menos da fama não se livram. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Acabaram por ir para o curso nocturno.&lt;br /&gt;Esta época escolar tinha terminado muito mal, para não variar.&lt;br /&gt;Mas o que lhes interessava agora era cumprir um plano gizado durante o ano: percorrer o país à boleia.&lt;br /&gt;Até já tinham previsto ir para o estrangeiro no ano seguinte.&lt;br /&gt;Marta, baixa, roliça e loira com os cabelos curtos, era filha de uma mulher gorda que deixava vislumbrar como seria a filha uns anos mais tarde. Era divorciada do pai da azougada rapariga e tinha um filho, bastante mais novo que a moça, do homem que vivia lá em casa uns dias mas não outros. Trabalhava a dias em casas particulares.&lt;br /&gt;Sandra, magra, morena, ar de cigana, vivia com a mãe e um pai muitas vezes ausente para cumprir uns tempos na prisão por furtos não muito graves. Tinha mais dois irmãos, rapazes, que andavam ao Deus dará consumindo drogas e seguindo as pisadas do pai, apesar de só terem mais dois e três anos que a rapariga. A mulher, muito magra, trabalhava como operária e era o pilar da família, se é que assim lhe podemos chamar.&lt;br /&gt;Passada pouco mais de uma semana do fim das aulas, as amigas estavam na berma de uma estrada pedindo boleia.&lt;br /&gt;Levavam um saco-cama cada uma, alguma coisa para comer e beber, preservativos, material para fazer uns charros, pouca roupa e ainda menos dinheiro: uns euros que para pouco chegariam. A ideia era irem sacando algum durante a aventura. A gorducha levava uma garrafa de whisky que, à socapa, retirara dum armário de casa.&lt;br /&gt;Vestindo uns curtos calções de &lt;em&gt;denin&lt;/em&gt; já coçado, umas &lt;em&gt;shirts&lt;/em&gt; de alças (há quem lhes chame canotas) justas e curtas que deixavam antever uns seios opulentos mas bem firmes na rechonchuda e outros de pequeno volume mas com mamilos bem salientes na colega. Nenhuma delas usava &lt;em&gt;soutien&lt;/em&gt;. Calçavam umas sapatilhas de qualidade razoável roubadas numa loja alguns dias antes.&lt;br /&gt;Não lhes foi difícil que um carro parasse ao fim de poucos minutos.&lt;br /&gt;Era uma viatura de gama alta conduzida por um tipo de uns cinquenta anos com uma magnífica aparência.&lt;br /&gt;- Então para onde querem ir as meninas? – perguntou, enquanto apreciava as moças.&lt;br /&gt;- Para onde calhar! Vamos dar a volta a Portugal à boleia – respondeu a faladora e extrovertida Marta.&lt;br /&gt;- Então querem aventura? Podem entrar! – disse o condutor – Vamos conversando enquanto viajamos.&lt;br /&gt;A redondinha entrou logo para a frente deixando que a morena fosse para trás.&lt;br /&gt;Mal se sentou, a Sandra reparou que o casaco do homem estava pendurado junto à outra janela. E enquanto o incauto ía conversando com a loira, a amiga ía-se entretendo a verificar o dinheiro que havia na carteira que já palmara de dentro do casaco. E retirou cerca de metade das notas.&lt;br /&gt;Pouco depois, disse:&lt;br /&gt;- Oh Marta! Vamos ficar aqui e apanhamos uma boleia para a praia?&lt;br /&gt;- Já? – perguntou o homem.&lt;br /&gt;A amiga olhou para trás e percebeu um sinal da companheira.&lt;br /&gt;- Pois! Senão passamos o tempo a andar de carro.&lt;br /&gt;E apearam-se pouco depois. A pesca tinha sido rendosa.&lt;br /&gt;Seguiu-se uma boleia com um camionista: rapaz novo, musculado e rude.&lt;br /&gt;Foram as duas para a frente, naturalmente.&lt;br /&gt;Não tardou muito que o malandreco fizesse uma proposta.&lt;br /&gt;- E que tal pararmos e vires comigo apanhar flores? – disse, dirigindo-se à loira, enquanto lhe punha uma mão na coxa – És muito boazona, sabias?&lt;br /&gt;- E que ganho eu em apanhar flores? Nem tenho jarra para as pôr! – e riu-se, a rapariga.&lt;br /&gt;- Que tal dez euros?&lt;br /&gt;- Dez? Vinte e cinco é o mínimo – replicou a doidivanas.&lt;br /&gt;E repetindo estas tácticas quasi diariamente, foram ganhando o suficiente para comerem, dormirem debaixo de um tecto, irem a umas discotecas e até comprarem umas roupinhas novas.&lt;br /&gt;Às vezes uma delas passava a noite com um dos felizes incautos, que além de pagar pelo amor acabava mais leve, não só de notas mas de outros objectos que as arrojadas viajantes achavam bonitos ou valiosos.&lt;br /&gt;Compraram umas sacas para lá porem esse espólio de que muito se orgulhavam.&lt;br /&gt;- Oh minha! Isto é que tem sido umas férias bué de boas, heim? – perguntava uma.&lt;br /&gt;- Demais, minha, demais. Nunca pensei que fosse tão fácil! – respondia a comparsa.&lt;br /&gt;E prosseguiram felizes e contentes a sua volta a Portugal à boleia.&lt;br /&gt;Num dia em que o sol já ía baixo mas o calor era ainda intenso, propôs a Sandra:&lt;br /&gt;- Vamos dormir na praia?&lt;br /&gt;- Bora lá miga! – concordou a gorducha.&lt;br /&gt;Polegar em riste, coxas bem à mostra, e não tardou que parasse um sujeito, gordo como um chibo, cara vermelhuda e guiando um carro dos bons.&lt;br /&gt;- Para onde querem ir? – perguntou.&lt;br /&gt;- Para a praia – respondeu a magra, por esta vez.&lt;br /&gt;- E tem onde dormir?&lt;br /&gt;- Vamos dormir na areia que está bué de calor.&lt;br /&gt;- E se dormíssemos os três? Mas num quarto bem ventilado – perguntou o tipo com a desfaçatez de homem vivido.&lt;br /&gt;- Isso talvez se arranje! Mas não é de borla! – disse a loirita.&lt;br /&gt;- Vinte e cinco euros para cada uma! – ofereceu o maganão.&lt;br /&gt;- Cinquenta por uma bacanal com dois borrachos como nós? Nem pensar! Cinquenta, mas para cada uma. É pegar ou largar! – contrapôs a Marta.&lt;br /&gt;O homem pensou só durante uns segundos.&lt;br /&gt;- Ok! Mas pago metade antes e metade depois – disse o barrigudo.&lt;br /&gt;Elas entreolharam-se e mais uma vez a gordefa falou:&lt;br /&gt;- Está bem! Mas pagas o jantar às duas.&lt;br /&gt;- Combinado! Entrem!&lt;br /&gt;A pensão onde o automóvel parou não era muito longe.&lt;br /&gt;Comeram bem, beberem melhor e, pouco depois, lá foram para o quarto.&lt;br /&gt;Só o homem teve de se identificar, o que era a situação favorita das moças.&lt;br /&gt;Ainda com as barriguinhas cheias, elas começaram a provocá-lo.&lt;br /&gt;E não demorou muito que ele estivesse ao rubro.&lt;br /&gt;Duas mocinhas assim novinhas, ovelhinhas de carne tão tenra e tão gostosa para ser comida eram uma sobremesa muito especial.&lt;br /&gt;Tão especial que mal o homem explodiu de prazer, teve uma fortíssima pontada na cabeça. Só teve tempo para dizer:&lt;br /&gt;- Ai a minha cabeça!&lt;br /&gt;E ficou como morto.&lt;br /&gt;Elas desataram aos gritos e acabaram por se escapulir no meio da confusão indo dormir numa praia, por ironia.&lt;br /&gt;No dia seguinte, a autópsia revelaria que a causa da morte fora uma embolia cerebral, mas já as aventureiras íam a bordo de uma furgoneta guiada por um quarentão desprevenido.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116904571949269242?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116904571949269242/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116904571949269242' title='45 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116904571949269242'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116904571949269242'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2007/01/histrias-curtas-v-viajando-boleia.html' title='Histórias curtas V - Viajando à boleia'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>45</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116863785414343990</id><published>2007-01-12T21:40:00.000Z</published><updated>2007-01-17T12:52:35.736Z</updated><title type='text'>Histórias curtas IV - Detective privado</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O Joaquim Silva era um antigo militar da Guarda Nacional Republicana que deixou a actividade depois de ter sido acometido de um enfarte de miocárdio. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Tinha cerca de sessenta anos e um corpanzil de gorila. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Apesar de não ter muita instrução, possuía uma boa biblioteca de livros policiais que já lera mais de uma vez. Desde Poirot a Sherlock Holmes, passando por Maigret, todos os detectives da ficção policial eram os seus heróis.&lt;br /&gt;Por isso, quando se reformou, resolveu tornar-se detective privado.&lt;br /&gt;Tinha a sua pistola Beretta 81, calibre 7.65, e a máquina fotográfica Canon que, apesar de antiga e desactualizada, lhe servia muito bem para fotografar, até com zoom.&lt;br /&gt;Criou um espaço na sua casa térrea para instalar um pequeno escritório em cuja secretária estavam pousados uma máquina de escrever e um telefone além de outros objectos menos importantes. Não se entendia muito bem com essa coisa dos computadores pois isso era para a malta mais nova, dizia. Nas estantes, além de uns dossiers, lá estava a livralhada policial.&lt;br /&gt;E não se pode esquecer o velho Ford Fiesta preto, companheiro fundamental para cumprir as missões que encarava com todo o empenho, nem o telefone celular, novinho e capaz de tirar fotografias de forma mais discreta mas cujo manejo lhe dera muito trabalho a aprender.&lt;br /&gt;A mulher com quem casara em segundas núpcias, Olinda de seu nome, tinha menos treze anos do que ele. Trabalhava em casa fazendo uns bordados e umas rendas que depois vendia sobretudo para lojas, mas também para alguns particulares.&lt;br /&gt;O uso de betabloqueadores resultante do problema cardíaco que tivera e o obrigava a uma medicação constante acentuara aquilo que a idade já gerara naturalmente: disfunção eréctil (a que ele chamava, com tristeza, “falta de tusa”).&lt;br /&gt;Mas lá ía consolando a sua Olinda como podia.&lt;br /&gt;Os seus clientes eram sobretudo esposas ou maridos que supunham andar a ser traídos.&lt;br /&gt;Quando o trabalho começava a faltar, punha um anúncio no jornal e não tardavam a aparecer mais umas investigações para executar.&lt;br /&gt;As revelações fotográficas eram feitas num fotógrafo profissional com quem fizera um pacto de silêncio.&lt;br /&gt;E assim se ía entretendo e ganhando mais algum dinheirinho, evitando ter de sobreviver somente com a curta pensão que recebia depois de tantos anos de dedicação à GNR.&lt;br /&gt;Com maior ou menor dificuldade ía resolvendo quasi todos os casos que lhe apareciam.&lt;br /&gt;Por vezes nada descobria de comprometedor e os clientes recusavam-se a pagar.&lt;br /&gt;- Se o senhor não descobriu que o meu marido me trai, é porque não fez o trabalho como devia ser, portanto não lhe pago rigorosamente nada – dizia-lhe uma madame.&lt;br /&gt;- Mas, minha senhora, se o seu marido lhe é fiel a senhora até devia estar feliz – ripostava, na sua bonomia, o detective Silva.&lt;br /&gt;- E quem é que lhe disse que eu queria que ele fosse fiel? – surpreendia-o a cliente.&lt;br /&gt;- Bom! Sendo assim, além de um detective, devia ter contratado uma menina que o seduzisse – ironizou o Joaquim.&lt;br /&gt;- Não quero saber das suas sugestões para nada. Não descobriu, não recebe! – e a madame fechou-lhe a porta na cara.&lt;br /&gt;E lá voaram uns patacos ao paciente investigador policial.&lt;br /&gt;No entanto, felizmente, a maioria dos contratantes cumpriam o que haviam acordado com o determinado e zeloso fã de Hercule Poirot.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num belo fim de tarde de primavera, o Joaquim Silva entrou em casa satisfeito da vida.&lt;br /&gt;Foi dar um beijo na sua querida Olinda e depois sentou-se na confortável cadeira que usava para trabalhar na secretária.&lt;br /&gt;O correio do dia ainda lá estava pois não tivera tempo de vir a casa desde que saíra, de manhã.&lt;br /&gt;Deu uma olhadela por tudo e começou por abrir um envelope que trazia um cheque.&lt;br /&gt;- Aqui está ele! Deu trabalho mas valeu a pena – pensou.&lt;br /&gt;- E que será isto? Não tem remetente!&lt;br /&gt;E abriu um envelope grande e mais pesado que o normal.&lt;br /&gt;Tirou um papel e umas fotografias.&lt;br /&gt;Começou a vê-las e por cada uma que via ía ficando mais branco e com uma cara perfeitamente aparvalhada.&lt;br /&gt;Não conseguiu olhar para todas. Pegou no papel que as acompanhavam e leu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Caro detective Joaquim Silva:&lt;br /&gt;Contratei um colega seu para seguir o meu marido e, como pode ver pelas fotos que anexo, ele comprovou que a puta da sua mulher é amante do sacana do meu homem.&lt;br /&gt;Agora espero que dê umas cornadas na sua Olinda que eu vou fazer o mesmo com o safado do meu marido que, brevemente, será ex-marido.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O corpulento ex-GNR estava lívido e permaneceu durante um tempo indeterminado sentado na cadeira. Começou a ficar mal disposto. Sentiu uma dor no peito e no braço que lhe era familiar. Levantou-se, deu dois passos e caiu redondo no chão.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116863785414343990?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116863785414343990/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116863785414343990' title='29 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116863785414343990'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116863785414343990'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2007/01/histrias-curtas-iv-detective-privado.html' title='Histórias curtas IV - Detective privado'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>29</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116818415915269530</id><published>2007-01-07T15:35:00.000Z</published><updated>2007-01-07T16:33:33.713Z</updated><title type='text'>Histórias curtas III - A mulher da janela</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Luciano casou com Judite há cerca de dois anos.&lt;br /&gt;Foi nessa altura que compraram um pequeno apartamento num arrabalde da grande cidade e para lá foram viver. Recorreram ao crédito bancário como é corrente depois de o mercado do arrendamento se ter degradado até ficar moribundo.&lt;br /&gt;Todas as noites, depois do jantar, costumavam ir os dois tomar um café num estabelecimento que ficava a uns quinhentos metros de casa. Iam a pé, salvo se as condições climatéricas não fossem as mais recomendadas para andar na rua.&lt;br /&gt;Muito recentemente, a Judite deu à luz um rapazinho a quem puseram o nome de Carlos.&lt;br /&gt;De então para cá, o homem começou a ir sozinho ao café depois de dar a ajuda habitual à mulher. Mas, normalmente, não demorava mais de uns vinte minutos, salvo se encontrasse alguém conhecido com quem conversava um pouco. Mesmo assim nunca se deixava retardar pois a Ju estava habituada à sua companhia e ao seu auxílio.&lt;br /&gt;Numa das primeiras noites em que caminhou sozinho, a uma hora em que ainda havia muito claridade natural, reparou que numa janela de um primeiro andar elevado, situado a cerca de meio caminho entre a sua habitação e o café, estava uma belíssima jovem que o olhava com os seus enormes olhos negros de forma insistentemente provocadora.&lt;br /&gt;E a cena repetiu-se nas noites seguintes. Quando regressava, já ela não estava à janela.&lt;br /&gt;Aquele rosto lindo era de tal forma apelativo que o Luciano começava a ficar ansioso por a ver ainda não tinha saído de casa.&lt;br /&gt;Ela nada dizia e ele também não. Pensava que qualquer ousadia ali, tão perto da sua morada, teria um risco elevado que ele temia correr. Mas não lhe faltava vontade de entabular conversa.&lt;br /&gt;Até que, certa noite, estava ele a uma escassa dezena de metros de passar sob a janela quando a misteriosa rapariga deixou cair um papel amarrotado em bola e desapareceu da vista do Luciano.&lt;br /&gt;Ele baixou-se, meteu-o no bolso e só quando tomava o café é que o leu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sou uma Rosa que tem falta de água e pode estiolar&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="mailto:Rosa367@netcabo.pt"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Rosa367@netcabo.pt&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir do dia seguinte, quando o computador que partilhava com a mulher estava livre e ela na cama, trocava uns e-mails com a Rosa. Depois passaram a conversar em chat.&lt;br /&gt;Ela era muito esquiva a todas as perguntas que ele lhe fazia, o que punha em redemoinho os seus pensamentos e lhe fazia crescer a vontade de a conhecer melhor. Porque não pessoalmente?&lt;br /&gt;A situação prolongou-se durante mais de três semanas e, quando ele passava junto à janela já lhe abria um largo sorriso no que era correspondido pela Rosa.&lt;br /&gt;Entretanto ela foi-lhe dizendo que vivia com os pais, que andava a cursar Direito, e que mal ele desaparecia na curva a caminho do café se retirava da janela e ía sentar-se a estudar.&lt;br /&gt;O coração do Luciano começava a bater com mais força quando passava perto da enigmática mulher.&lt;br /&gt;Até que, uma noite, recebeu um e-mail que dizia:&lt;br /&gt;“Amanhã estou sozinha em casa. Vou deixar a porta do meu apartamento somente encostada. Entra sem medo. Se a do prédio estiver fechada, toca à campaínha que eu abro-a cá de dentro. Quero ver-te de perto e quero que me conheças melhor”.&lt;br /&gt;Ele tremeu!&lt;br /&gt;Finalmente iria poder estar perto da Rosa!&lt;br /&gt;Na noite seguinte, enquanto caminhava ía olhando tão discretamente quanto possível para todos os lados e, quando se aproximou da porta 367 encostou-lhe o ombro e entrou rapidamente. Fez o mesmo no apartamento. Desta vez o coração parecia querer saltar-lhe do peito.&lt;br /&gt;Ouviu uma voz linda, dizer:&lt;br /&gt;- Eu estou aqui no meu quarto. Orienta-te pela voz e vem cá.&lt;br /&gt;Ele assim fez até que parou diante de uma porta encostada. Era lá de dentro que vinha o cântico de sereia.&lt;br /&gt;- Entra! – disse a jovem.&lt;br /&gt;Ele empurrou a porta lentamente, com dois dedos, e abriu-a.&lt;br /&gt;Viu uma cadeira de rodas com uma mulher sentada, de costas para ele.&lt;br /&gt;- Entra e vai para junto da janela, meu amor – orientou ela.&lt;br /&gt;O Luciano assim fez. Agora, podia vê-la sentada numa cadeira de rodas com o rosto lindíssimo a sorrir e o peito a arfar. Desceu mais a mira do seu olhar e viu que a Rosa tinha ambas as pernas amputadas pouco abaixo das virilhas.&lt;br /&gt;A surpresa deixou-o mudo e o rosto fechou-se.&lt;br /&gt;- Desculpa, meu amor, mas queria que soubesses isto deste modo. Em directo e sem preparações.&lt;br /&gt;- Pois! – balbuciou o homem – De facto apanhaste-me completamente desprevenido.&lt;br /&gt;E não sabia se havia de sair imediatamente ou ser simpático e permanecer junto dela.&lt;br /&gt;Ficou.&lt;br /&gt;Conversaram durante mais de meia hora e ela contou-lhe, com as lágrimas a correr, o acidente que lhe transformara a vida. Disse-lhe que não se chamava Rosa mas Mafalda e se comparava a uma rosa desmembrada removida do roseiral.&lt;br /&gt;Finalmente, ele despediu-se beijando aqueles lábios de framboesa.&lt;br /&gt;Regressou a casa com uma confusão de sentimentos: tristeza, compaixão, irritação, ternura, fúria...&lt;br /&gt;Dormiu mal. A Ju até lhe disse de manhã:&lt;br /&gt;- Esta noite estavas muito agitado. Aliás, tens estado assim há várias noites. Que se passa contigo? – quis ela saber.&lt;br /&gt;- Nada, mulherzinha! Nada de especial, é só algum stress do trabalho que vem comigo para casa e para a cama – mentiu ele.&lt;br /&gt;E, na noite seguinte, fez um novo percurso para o café.&lt;br /&gt;Um percurso mais longo e que não passava junto da janela da Rosa.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116818415915269530?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116818415915269530/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116818415915269530' title='36 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116818415915269530'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116818415915269530'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2007/01/histrias-curtas-iii-mulher-da-janela.html' title='Histórias curtas III - A mulher da janela'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>36</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116776528800585830</id><published>2007-01-02T19:08:00.000Z</published><updated>2007-01-02T19:47:23.100Z</updated><title type='text'>Histórias curtas II - O crime perfeito</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O Tenório era um finório. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Sempre vivera de expedientes, sem um trabalho seguro e consistente, e gostava de mostrar ser um macho. Dizia poder aquilo que não podia e ter aquilo que não tinha. Um bazófias. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;E bem esperto fora ao casar-se, depois de vários anos de vida mais ou menos em comum, com a Miquelina. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Esta, trabalhadora e submissa, era o exemplo acabado de quem se deixou converter num ponto bem pequenino deixando para o seu amor de juventude o palco e as luzes. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Mas para o seu homem andar bem vestido, com os sapatos engraxados, brilhantina no cabelo e bigodinho de arame, esfalfava-se ela para ganhar um salário numa fábrica e para tratar da casa e do marido durante o resto do tempo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Do Tenório e do filho Tiago, rapaz que não negava a paternidade ao navegar na vida como um barco que parava em cada mulher como se fosse um porto. Ultimamente andava metido com uma alternadeira dum bar manhoso que, segundo as más-línguas, o ía sustentando e aos seus vícios. Raramente vinha a casa dos pais e sabe Deus por onde andaria. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Também no prazer pelos copos os dois eram parecidos bem como no gosto de dar umas porradas nas mulheres. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Volta e meia, a Miquelina aparecia com um olho negro ou com umas nódoas noutras partes do corpo que, ao contrário do que dizia, não eram resultado de fogosas noites de sexo mas de umas “pancadinhas de amor”. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A diferença de gerações não era nada notória nos dois homens e para isso seguramente contribuíram os bons conselhos que o Tenório dera ao herdeiro. Alguns bons conselhos e muitos maus exemplos, diga-se. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Mas, com o passar do tempo, a Miquelina começou a detestar o amor da sua juventude e da sua vida. Começou a ficar farta do fala-barato e custa-caro. Cada vez mais saturada. Cheia até à ponta dos cabelos. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Numa tarde outonal de um domingo em que o homem ficara a dormir de tarde para curar a bebedeira do sábado à noite, e em que uma chuva miudinha afastava as pessoas das ruas daquele bairro de casas de renda económica, foi a mulher fechar a persiana da janela no quarto de casal do pequeno apartamento no 3º andar elevado onde viviam. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Mas não conseguiu. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Estava presa em cima e teimava em não obedecer aos puxões que a Miquelina dava na fita enroladora. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Só havia uma solução: tentar que o homem anuísse em dar uma ajuda. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Nessa altura já ele se levantara do sofá da sala onde adormecera e estava a engalanar-se para mais uma saída. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Mas, para não chamar alto e assim ferir os ouvidos sensíveis do consorte, ela preferiu chegar junto dele e dizer: &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Oh homem! A persiana do nosso quarto não desce. Podes ir lá dar um jeito? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Não desce? E que raio é que tu fizeste para ela não descer? É sempre a mesma merda! Mexes numa coisa...estragas! – refilou o cada vez menos querido marido. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Eu sei que faço muitas asneiras, Tenório, mas tu tens habilidade para arranjar estas coisas. Vai lá, está bem? – disse a mulher numa representação cénica de alto gabarito. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Pronto! Eu vou já! – condescendeu o chefe da família. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;E pouco depois a vidraça estava aberta e o homem sobre o parapeito da janela. Após algumas tentativas infrutíferas, berrou: &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Oh Lina! Traz-me a caixa das ferramentas e acende a luz. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Ela foi buscar o material e aproximou-se da janela entregando-lhe a velha peça de madeira carunchosa onde estavam guardadas as coisas com que eram feitos os arranjos em casa. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Ele segurou-a com uma mão e a Miquelina, rápida como um raio, deu-lhe um forte empurrão. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O corpo do Tenório tombou para o exterior e a força da gravidade fez o resto. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Ainda se ouviu um grito estridente mas que depressa se tornou abafado e, logo a seguir, um barulho surdo atestava que o homem tinha atingido o fim da viagem. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A Miquelina veio à janela e gritou: &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Socorro! Acudam! O meu homem caiu à rua! &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;E repetiu. E repetiu. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Mas interiormente, sorriu e pensou: &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Acabou a escravidão! &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O Tenório jazia ensanguentado e um líquido vermelho ía lentamente tingindo o pavimento molhado junto do corpo inerte. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Alguém chamara o 112. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Depressa levaram o homem, mas já era cadáver. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Depois, tudo se processou como mandam as regras: autópsia, luto, burocracias, funeral, investigação sumária e, como vira muitas vezes na televisão, a Miquelina achou que tinha cometido o crime perfeito. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Durante os dias em que tudo isso decorria, a persiana continuava teimosa, sem baixar. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Com a auto-estima no alto, certo dia a Miquelina decidiu-se. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Raios partam a persiana que não desce! Mas eu trato do assunto. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;E, resoluta, abriu a parte envidraçada e empoleirou-se no balcão para dar um esticão forte na maldita. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;E conseguiu! &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A teimosa cedeu e desceu, mas a Miquelina também desceu indo cair mesmo junto do sítio onde jazera o corpo do seu antigo amor.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116776528800585830?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116776528800585830/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116776528800585830' title='47 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116776528800585830'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116776528800585830'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2007/01/histrias-curtas-ii-o-crime-perfeito_02.html' title='Histórias curtas II - O crime perfeito'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>47</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116734329595407761</id><published>2006-12-28T22:00:00.000Z</published><updated>2006-12-28T22:22:52.753Z</updated><title type='text'>Duas centenas</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Duas centenas são duzentos.&lt;br /&gt;Duzentos é um número cardinal cujo ordinal correspondente é duocentésimo.&lt;br /&gt;E o duocentésimo é este post especial que fiz para assinalar o facto.&lt;br /&gt;Os primeiros, pobrezinhos e loucos, foram colocados on-line em 7 de Fevereiro de 2005.&lt;br /&gt;Fazendo a média aritmética, obtemos um valor de cerca de 9 posts por mês.&lt;br /&gt;Todos de texto em prosa, sem imagens nem som. Opção minha que vou manter.&lt;br /&gt;Devo ser muito conservador ou muito teimoso. Ou serei simplesmente coerente?&lt;br /&gt;E estou aqui para continuar até que o dedo me doa.&lt;br /&gt;Já comecei uma nova série de pequenos contos a que chamei “Histórias curtas” e irei continuar a criá-las, intercalando-as com outros textos fora desse âmbito.&lt;br /&gt;Espero que gostem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acaba de fazer um ano que deixei de trabalhar mas ainda faltam mais de dois para poder pedir a reforma. Tenho que saber gerir muito bem este tempo para não ficar gordo de físico nem de espírito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também está para breve o meu 58º aniversário. O tempo passa veloz, mas preciso de saber correr à velocidade dele pois, caso contrário, ficarei definitivamente para trás.&lt;br /&gt;Digam lá se não é uma bonita idade!&lt;br /&gt;Os presidentes das várias nações, os primeiros-ministros, os líderes carismáticos, os artistas consagrados, os cientistas laureados, os grandes empresários e gestores e ainda muitos outros, habitualmente estão nesta faixa etária que vai dos 45 aos 65 (ou, de forma mais restritiva, dos 50 aos 60) quando obtém a fama e o sucesso.&lt;br /&gt;Não será esse seguramente o meu caso mas isso permite-me pensar que ainda não estou embalado para ser lançado ao lixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está à porta um novo ano.&lt;br /&gt;Em termos objectivos é uma data que se repete periodicamente como muitas outras sem que isso altere minimamente as coisas mas, psicologicamente, pode servir de catalizador de novas ideias.&lt;br /&gt;Ano novo, vida nova, diz-se.&lt;br /&gt;Vale o que vale e é muito pouco, mas é melhor que nada.&lt;br /&gt;Portanto tenham um Feliz Ano de 2007.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim fiz um post do tipo 4 em 1.&lt;br /&gt;Já ganhei aos champôs!&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116734329595407761?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116734329595407761/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116734329595407761' title='35 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116734329595407761'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116734329595407761'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/12/duas-centenas.html' title='Duas centenas'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>35</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116688813522820224</id><published>2006-12-23T15:35:00.000Z</published><updated>2006-12-24T09:30:58.050Z</updated><title type='text'>Histórias curtas I - Uma noite de Natal</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O velho Joaquim vivia só na sua pequena e velha casa do bairro pobre.&lt;br /&gt;A mulher morrera, já fizera três anos.&lt;br /&gt;Os filhos tinham seguido a sua trajectória na vida e estavam longe.&lt;br /&gt;Reformado cedo por invalidez, vivia de uma pensão que mal dava para comer e comprar alguns remédios. Valia-lhe algum dinheiro que os dois rapazes lhe mandavam de vez em quando e a ajuda de alguns vizinhos, também pobres materialmente mas ricos de sentimentos.&lt;br /&gt;Estava frio nessa véspera de Natal.&lt;br /&gt;Mais um que iria passar somente na companhia das memórias de outros que foram bem mais alegres e das dores reumáticas que o atormentavam quasi em permanência.&lt;br /&gt;Comeria uma sopa requentada, um pão com margarina, uma maçã já meia podre, beberia um trago de um tinto carrascão e depois iria para a cama com uma dor no peito que o vinha apoquentando nos últimos tempos. Ainda nada dissera ao médico do Centro de Saúde. E iria mais uma vez chorar a tristeza de ser velho e só.&lt;br /&gt;Estava sentado no sofá sujo e roto quando bateram à porta.&lt;br /&gt;Disse, tão alto quanto podia:&lt;br /&gt;- Entre!&lt;br /&gt;E a porta rangeu enquanto se abria devagarinho: era a vizinha Matilde, que também vivia em solidão, pois ficara sem um filho nas obras já há bastantes anos e sem o seu homem, muito recentemente.&lt;br /&gt;- Posso, Sr. Joaquim?&lt;br /&gt;- Entra Matilde, entra!&lt;br /&gt;Ela aproximou-se do ancião e estendeu-lhe uma marmita amolgada pelo uso:&lt;br /&gt;- Tem aqui um pedacito de um naco de peru que me foram levar a casa. Lembrei-me de lho trazer. Está quentinho.&lt;br /&gt;- Muito obrigado! Entra e senta-te um bocadinho.&lt;br /&gt;- Não posso demorar muito porque deixei o lume aceso.&lt;br /&gt;- Estás a cozinhar? – perguntou o idoso.&lt;br /&gt;- Estou! Este pedaço de peru saiu agora do forno.&lt;br /&gt;- E vais passar a noite sozinha?&lt;br /&gt;- Pois! Não tenho ninguém.&lt;br /&gt;- E não queres vir fazer-me companhia? Comemos aqui os dois, conversamos e depois vamos dormir.&lt;br /&gt;Ela pensou um pouco e depois retorquiu:&lt;br /&gt;- Acho boa ideia! Então vou acabar de cozinhar e venho até cá com a comida.&lt;br /&gt;- Eu podia ir a tua casa, mas tenho dores...&lt;br /&gt;- Não se preocupe, Sr. Joaquim. Eu venho fazer-lhe companhia e assim também não me sinto tão solitária.&lt;br /&gt;- Mas tu tens televisão e aqui não podes ver nada. Eu só tenho este velho rádio.&lt;br /&gt;- Prefiro a companhia de uma pessoa que a da televisão. Então até já!&lt;br /&gt;E a mulher saiu.&lt;br /&gt;Pouco depois de ela voltar com uma cesta razoavelmente farta, começaram a comer e foram conversando.&lt;br /&gt;Já perto da meia-noite disse ele:&lt;br /&gt;- Matilde! Estou com frio. Vou-me deitar. Queres vir para a cama comigo? Assim ficamos os dois mais quentinhos.&lt;br /&gt;Ela não contava com aquela proposta, mas não demorou muito a responder:&lt;br /&gt;- Está bem, Sr. Joaquim! Agora vou arrumar a loiça e dar uma limpadela.&lt;br /&gt;- Eu espero por ti!&lt;br /&gt;E não tardou muito que ambos estivessem na cama, bem agasalhados, conversando até que o velho adormeceu.&lt;br /&gt;Manhã cedo a mulher acordou e levantou-se como era seu hábito.&lt;br /&gt;O homem estava quieto. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A luz do sol bateu-lhe no rosto sereno mas lívido de morte.&lt;br /&gt;A Matilde tocou-lhe e sentiu-o frio e inerte como um pedaço de mármore.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116688813522820224?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116688813522820224/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116688813522820224' title='40 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116688813522820224'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116688813522820224'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/12/histrias-curtas-i-uma-noite-de-natal.html' title='Histórias curtas I - Uma noite de Natal'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>40</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116629168644223371</id><published>2006-12-16T17:53:00.000Z</published><updated>2006-12-17T13:25:59.010Z</updated><title type='text'>Natal e Ano Novo na grande família</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Desde que me lembro de mim próprio, e até aos onze anos, passei este período Natalício em Vila Praia de Âncora, vila onde nasceu a minha mãe.&lt;br /&gt;A sua irmã mais velha, Felisbela de seu nome (mas a quem eu chamava de tia Bela) e o seu marido Simão (o tio Mão) eram proprietários de uma pensão que mais tarde se converteu em hotel.&lt;br /&gt;Tinham três filhos, rapazes: O Jorge, o José (Zé) e o Fernando (Nando). A diferença de idades entre eles era de cinco anos e eu era mais novo que o Nando também cinco anos.&lt;br /&gt;Poderei dizer que o Jorge foi o meu primeiro ídolo. Interventivo, autoritário, machão, com perfil de líder, aparecia-me como o exemplo a seguir. Foi o único que fez tropa, ainda antes de começar a guerra colonial; mas escapou por pouco.&lt;br /&gt;O Zé era exactamente o oposto: ainda mais alto e forte que o irmão mais velho era de uma calma olímpica (entendia-se às mil maravilhas com o Sr. Oliveira a quem dei destaque no post anterior), calado, preguiçoso, pouco limpo, a sua personalidade, que já não era muito forte, mirrava perante a do Jorge.&lt;br /&gt;Livrou-se da tropa graças ao pé chato e a uma valentíssima cunha.&lt;br /&gt;A sua preguiça era tal que uma vez foi descoberto a tomar um banho de imersão numa banheira que enchera previamente com água e detergente Omo; estava a ler. Interrogado sobre o que se passava, disse serenamente que assim não precisava de se cansar a esfregar-se. O Omo tirava-lhe o lixo do corpo, disse. Mas não lhe poderia tirar a bondade. Era um bom rapaz e foi durante toda a vida (já faleceu) um bom homem. Bom demais, apetece-me acrescentar.&lt;br /&gt;O Nando era aquele com quem mais eu brincava, obviamente. Era mais baixo do que qualquer dos irmãos e não sendo um líder, pelo menos era mais despachado e expedito que o Zé.&lt;br /&gt;Como durante a época baixa a pensão dos meus tios quasi não tinha hóspedes, fazia-se a ceia de Natal na principal sala de jantar, numa longa mesa bem junto de um estupendo fogão de sala que estava acesso do despertar ao deitar.&lt;br /&gt;Mas, naturalmente, havia outros comensais.&lt;br /&gt;Desde logo os quatro Castilho; o meu pai Fernando, a minha mãe Julieta (a mais nova das quatro irmãs), eu e a mana Fernanda.&lt;br /&gt;De Valença vinha a irmã número dois, a Arminda e o seu marido António (que até era primo direito) com a filha Cecília (Cila), mais nova do que eu uns cinco anos e que era considerada por todos como “um bicho do buraco” devido à sua insociabilidade e mau feitio que a faziam estar sempre agarrada à mãe.&lt;br /&gt;A terceira das quatro irmãs, a Maria José (e a única sobrevivente daquela geração com os seus actuais noventa e um anos mas a quem o Parkinson criou bastantes limitações físicas) vivia também na vila piscatória com o marido António Ribeiro (mas a quem todos chamavam Ribeiro e eu, em particular, de padrinho Ribeiro, pois esses tios eram os meus padrinhos). As relações entre as manas Bela e Zé (também conhecida na vila como a Quinhas) não eram as melhores nessa época, pelo que nos primeiros anos essa parte da família não aparecia. Se era convidada ou não, é coisa que me escapa.&lt;br /&gt;Mas um certo ano, o tio Tone de Valença, outro homem bom e azarado na vida, fez questão de ir buscar toda a família Ribeiro para vir cear à pensão e assim se fizeram as pazes.&lt;br /&gt;Tinha o casal duas filhas: A Julieta (Mimi) da idade do primo Zé e a Delfina (Fininha) mais nova dois ou três anos. Já elas eram adolescentes quando nasceu um terceiro, o António José (Tone Zé).&lt;br /&gt;Mas havia ainda mais pessoas à mesa.&lt;br /&gt;Uma professora primária, solteirona, culta, do reviralho e leitora fidelíssima do jornal “A República” que vivia num quarto da pensão: a D. Maria Portela.&lt;br /&gt;E também as empregadas (criadas, como se dizia) mais antigas e dedicadas se sentavam nessa mesa na noite de Natal. Várias tiveram esse privilégio, mas vou lembrar apenas três: A Ernestina (Tina) que era considerada meia tola, a Idalina e a Esmeralda que viria a falecer com trinta e poucos anos com um carcinoma.&lt;br /&gt;Devo acrescentar que os protagonistas eram os mesmos durante o jantar de Ano Novo, só que desta vez as empregadas não tomavam assento mas entrava sempre a família Oliveira de que falei no texto anterior:&lt;br /&gt;O Antoninho, a Mariinha, o Carlos, a Manela e o Tatuna.&lt;br /&gt;Ocasionalmente havia outros comensais mas vou omiti-los, agora.&lt;br /&gt;Na ceia de 24 de Dezembro o prato forte era o bacalhau cozido com batatas, couves, cenouras e ovos. Mas também o polvo cozido era sistematicamente utilizado. Nunca percebi qual a origem desta tradição familiar. Mesmo mais tarde, quando as noites de Natal passaram a ser na casa dos meus pais, no Porto, nunca a minha mãe se esquecia do saboroso molusco.&lt;br /&gt;Como naquele tempo não bebia álcool, não tenho a mínima ideia de quais os vinhos utilizados.&lt;br /&gt;Claro que não faltava uma vasta gama de doçaria: bolo de prata, bolo índio, bolo negrita, salame de chocolate, leite-creme, pudins e, além de outros, os indispensáveis bolo-rei e rabanadas, quer fritas quer de mel.&lt;br /&gt;E lá estavam as nozes, amêndoas, figos secos, avelãs e os pinhões com casca que também serviam para jogar ao “rapa”.&lt;br /&gt;Na passagem de ano havia ainda a abertura do champanhe e umas chouriças de sangue doces, resultantes da matança do porco que era feita na semana entre as duas festas, de sabor ímpar e que nunca comi em mais nenhum sítio.&lt;br /&gt;A grande árvore de Natal, profusamente iluminada e bem colorida, e um presépio atapetado com espesso musgo que íamos buscar ao monte aquando da procura de um pinheiro o mais perfeito possível, eram ornamentos obviamente sempre presentes.&lt;br /&gt;Um jovem empregado, o Fausto, era o palhaço de serviço: na primeira dessas noites era vestido com uma fatiota de Pai Natal e entrava na grande sala com uma campaínha, anunciando:&lt;br /&gt;- Já deixei os presentes nos sapatos que estão em cima do fogão!&lt;br /&gt;De facto, logo que o enorme fogão a lenha estava frio e limpo, toda a gente lá colocava um sapato e mal o Bouças (nome pelo qual era mais conhecido o Fausto) fazia o seu anúncio e se sentava à mesa para comer umas doçarias – e bem o merecia o nosso Pai Natal – toda a gente se dirigia para a cozinha com a miudagem à frente, a correr.&lt;br /&gt;Era o melhor da festa, com os pequenos ansiosos por saber o que lhes tocara de sorte, e os mais velhos a apreciar a meninada.&lt;br /&gt;Mas também na passagem de ano o Bouças tinha as suas performances: pouco antes da meia-noite aparecia vestido de velho maltrapilho com a ajuda de sacos de serapilheira costurados a preceito, uma maquilhagem adequada e com um letreiro a dizer: ANO VELHO.&lt;br /&gt;Pouco depois da meia-noite e de cumpridos todos os toques entre taças (das quais, invariavelmente saíam duas ou três estilhaçadas) que acompanhavam os votos de um Bom Ano lá voltava o nosso actor, desta vez seminu, vestindo só uma tanga e tiritando de frio, com as palavras ANO NOVO pintadas a vermelho no peito.&lt;br /&gt;Voltando ao Natal, depois era toda a gente a ver as prendas dos outros, coisa que não me agradava muito pois, em vez de poder usufruir o prazer de usar os meus novos brinquedos, eram os grandes que se entretinham a brincar com eles.&lt;br /&gt;O Sr. Oliveira não podia deixar de tirar umas fotos e alguns adultos retomavam a “sueca” com que se haviam entretido durante uma parte da noite.&lt;br /&gt;E, ir para a cama, só bem tarde!&lt;br /&gt;Por isso, nas manhãs seguintes dormia-se quasi até à hora do almoço.&lt;br /&gt;Não posso deixar de referir um dos rituais, para mim mais impressivos, desses dias: a matança do porco.&lt;br /&gt;Numa das manhãs seguintes ao Natal, por volta das nove e meia, dez horas, apareciam os homens contratados para a matança. Eram quatro ou cinco pescadores (penso que andavam na faina do bacalhau mas vinham passar esta quadra a casa) duros e com os rostos tisnados pelo sol, dos quais me lembro só do Pica e do Afonso.&lt;br /&gt;O velho e já queimado banco longo e baixo era colocado no sítio para cumprir o seu papel de altar do sacrifício.&lt;br /&gt;Feitos os preparativos, chegava a altura de ir buscar o suíno que, normalmente, era o mais pesado da pocilga – uma vez o bicho pesava quinze arrobas o que motivou que fosse notícia num pequeno jornal – e que, como que premonitoriamente, começava a grunhir desde logo. E, preso por uma corda (que mais de uma vez rebentou o que obrigou os matulões a caçarem-no à mão) era conduzido pelos contratados, pelos meus primos mais velhos, pelo Bouças e por mais um ou outro empregado da casa, para a tábua onde, a custo, o deitavam.&lt;br /&gt;E os sons que ele imitia eram cada vez mais estridentes e lancinantes. Quando estava bem preso e seguro pelos homens, o Pica, matador exímio, espetava a longa faca no coração do animal. Os grunhidos atingiam o auge até que começavam a esvair-se, assim como o reco se esvaía em sangue que era recolhido num enorme alguidar.&lt;br /&gt;Uma vez, tratando-se de um porco de menor envergadura, os verdugos não estavam tão compenetrados na sua função e deixaram que o suíno se escapulisse com a faca cravada no corpo.&lt;br /&gt;Uma outra vez o Pica não acertou no alvo à primeira o que aumentou o tempo de agonia do bicho.&lt;br /&gt;Depois de bem morto, era o momento de queimar o pêlo para o que se utilizava palha em chamas.&lt;br /&gt;Seguia-se o lavar e rapar, com facas e pedras ásperas, o couro do bicho. Só nesta fase o meu pai consentia que eu me aproximasse da mesa da matança e nela também participavam algumas mulheres, sobretudo vertendo água com regadores sobre a couraça do desgraçado. Com todo o mundo molhado, era o momento de viragem da cena dramática para a divertida.&lt;br /&gt;Finalmente, com a vítima de barriga para o ar, era o momento de a abrir e começar a remover os seus órgãos, pois quasi nada era desperdiçado. Havia uma aplicação posterior para tudo.&lt;br /&gt;Finalmente, já mais leve, era levado para um armazém onde era içado pelas patas traseiras e cheio com ramos de loureiro. A bexiga, inflada com ar soprado por alguém, era colocada como balão ornamental junto da besta derrotada.&lt;br /&gt;Possivelmente esqueci-me de muitos pormenores destes fabulosos períodos de Natal e Ano Novo passados no seio da grande família do meu lado materno, em Vila Praia de Âncora.&lt;br /&gt;Espero que me desculpem por isso e que tenham uma Festas Felizes!&lt;br /&gt;Muito felizes!&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116629168644223371?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116629168644223371/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116629168644223371' title='31 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116629168644223371'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116629168644223371'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/12/natal-e-ano-novo-na-grande-famlia.html' title='Natal e Ano Novo na grande família'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>31</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116562310407859435</id><published>2006-12-09T00:10:00.000Z</published><updated>2006-12-09T15:24:27.776Z</updated><title type='text'>Antoninho Oliveira</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Desde que me conheço, a família Oliveira faz parte do meu mundo, ou pela presença física ou mental.&lt;br /&gt;O patriarca, António de Oliveira, nasceu em 1904 proveniente de famílias rurais do Minho litoral e de outros pontos do norte do país.&lt;br /&gt;Desde novo ía passar alguns períodos para Vila Praia de Âncora. Aí teve alguns namoros mas nenhum acabou em casamento, sendo que um deles acabou mesmo em tragédia. Mas isso são contas de outro rosário que não se reza nesta missa.&lt;br /&gt;Nenhum? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Minto!&lt;br /&gt;Em 1946 casou com a Maria do Faro que tinha nascido em 1927. Feitas as contas, poderá verificar-se que nessa data ele tinha quarenta e dois anos e ela dezanove.&lt;br /&gt;Vinte e três anos de diferença!&lt;br /&gt;A Mariinha, como lhe chamavam (atenção que os dois i’s devem ser lidos separadamente, sendo a sílaba tónica a segunda dessas vogais), era proveniente de Valença, de famílias modestas, e estava a trabalhar em Âncora o que propiciou o conhecimento entre ambos.&lt;br /&gt;Do matrimónio nasceram três filhos:&lt;br /&gt;O Carlos Manuel, nascido como eu em 1949, a Maria Manuela que viu a luz do dia em 1950 (um anos antes da minha irmã) e o António Manuel (mais conhecido pelo Tatuna pois tivera algumas dificuldades em começar a falar) que abriu os olhos em 1952.&lt;br /&gt;A família vivia no Porto, na zona de Paranhos, e o Oliveira era comerciante de fazendas.&lt;br /&gt;Mas tinha outros rendimentos, nomeadamente de aplicações em acções e obrigações e de rendas de prédios urbanos. Muitos desses bens herdara de seu pai.&lt;br /&gt;Estas cinco pessoas foram, nomeadamente durante os anos 50, os principais amigos da minha família (estou, no entanto, a excluir alguns tios e primos com quem tínhamos relações particularmente sólidas). No Porto era frequente encontrarmo-nos aos domingos, ou em casa de uns ou em casa de outros. Nas férias lá estávamos todos na vila piscatória mas dotada de uma magnífica praia (se esquecermos as nortadas e a baixa temperatura da água do mar).&lt;br /&gt;Mas nessa década ainda o Algarve não era destino de férias para quasi ninguém.&lt;br /&gt;As imagens que tenho do Antoninho (pois este, como já devem ter adivinhado era, nem mais nem menos, o António de Oliveira) são as de um sujeito de estatura média, uma proeminente barriga e uma vasta calva no topo da cabeça rodeada de cabelos grisalhos claros por todos os lados menos por um e um livro, cuidadosamente encapado com papel para não o estragar, debaixo do braço.&lt;br /&gt;Mas, mais do que isso, o que ressaltava do Antoninho Oliveira (Sr. Antoninho ou Sr. Oliveira como respeitosamente lhe chamávamos, mas título que eu omito neste texto) era a sua extraordinária calma. Não tinha horas para nada. Ía para um determinado destino e se calhasse de encontrar alguém no percurso que lhe desse “trela”, era certo e sabido que pelo menos uma hora de conversa estava garantida.&lt;br /&gt;A família rapidamente se habituou a fazer de conta que o relógio não existia.&lt;br /&gt;Naquela altura, o Oliveira tinha um dos mais conhecidos e melhores carros da época, o Volvo “malotinha”, salvo erro com a matrícula OP-14-04, com auto-rádio de origem e tudo. Como o pai Castilho não tinha automóvel nesse tempo, andávamos muitas vezes à boleia no carro vermelho escuro (as senhoras provavelmente encontrariam um nome mais adequado para a sua cor mas...espero que me tenha feito entender).&lt;br /&gt;Claro que nunca chegava a horas, o que deixava o meu pontualíssimo pai, apesar de todo o esforço de auto controlo que fazia, por vezes perto da loucura.&lt;br /&gt;E havia os passeios dominicais, mais de uma vez com os quatro adultos e as cinco criancinhas dentro da máquina. Mas o Antoninho conduzia sempre devagarinho...&lt;br /&gt;Era o Oliveira sócio do F. C. do Porto e tinha um número muito baixo pois conseguira fazer uma coisa que era permitida na época: herdar o do seu pai.&lt;br /&gt;Quantas vezes chegou ele ao seu lugar cativo na bancada central do estádio das Antas e já o jogo tinha passado mais de metade da segunda parte. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Como viviamos muito perto do estádio, frequentes vezes o nosso amigo vinha a nossa casa depois do jogo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Lembro-me que uma vez, num dia 4 de Setembro, domingo de bola, ele ficou lá até depois da meia noite porque, por coincidência o seu aniversário e o de minha mãe eram a 5 desse mês; e assim, logo no início do festivo dia se abriu uma garrafa de champanhe para comemorar.&lt;br /&gt;Foi esse desprezo pelo tempo, esse saber viver ao ritmo do que nos dá prazer e que eu nunca mais encontrei em ninguém, que certamente lhe permitiu ser o ídolo da criançada, sempre a contar as suas histórias, reais ou inventadas, que faziam a nossa delícia. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;E também a sabedoria que dele, autodidacta, imanava.&lt;br /&gt;Penso que ocupou, pelo menos parcialmente, o lugar dos avôs que eu jamais conheci.&lt;br /&gt;É, sem dúvida, uma figura inolvidável para mim, apesar de já ter falecido em 1976 com setenta e dois anos de idade.&lt;br /&gt;Daí este texto ser, essencialmente, uma homenagem sentida a esse homem bom.&lt;br /&gt;Mas o Oliveira tinha um &lt;em&gt;hobbie&lt;/em&gt; que lhe ocupava muito tempo: a fotografia.&lt;br /&gt;A preto e branco, sempre!&lt;br /&gt;Passava horas à espera que o sol ou as nuvens estivessem na posição pretendida para disparar a sua máquina, mesmo que houvesse algo mais relevante em primeiro ou segundo plano. Também fazia a revelação numa câmara escura que tinha em casa. Era um amador que pedia meças a muito profissionais. Na casa dos meus pais havia alguns dos seus trabalhos colocados nas paredes. Penso que o seu espólio fotográfico está guardado pelos filhos que também conservam o sempre eterno Volvo.&lt;br /&gt;Um vez, numa passagem de Ano, apareceu em Âncora com aquele que foi o primeiro gravador de som que vi em toda a minha vida. Era do tipo bobinas (as cassetes só apareceriam alguns anos mais tarde), e foi durante algum tempo uma coqueluche. Ele, mais o meu tio Simão e o primo mais velho, o Jorge, chegaram a gravar a peça de Júlio Dantas “A ceia dos cardeais” (&lt;em&gt;–&lt;/em&gt; &lt;em&gt;Em que pensas cardeal? – Em como é belo o amor em Portugal!)&lt;/em&gt; numa simulação de teatro radiofónico, mas todos queriam deixar gravada a sua voz, incluindo a criançada como não podia deixar de ser.&lt;br /&gt;Noutra ocasião propôs ao meu pai um negócio de compra de pentes em sociedade, já que se tratava de um material de muito bom preço (lembro que nesses anos 50 os homens não utilizavam escova para o cabelo: só pente!). O pior foi que, quando quiseram começar a vendê-los para ganharem o seu quinhão, verificaram que sendo feitos de um plástico inadequado ou mal fabricados, com cada passagem do utensílio pelo cabelo caíam vários dentes (do pente, obviamente) do que resultou terem decidido não os lançar no mercado. E foi assim que lá em casa nunca mais se comprou um pente, pelo menos até eu ir para a tropa.&lt;br /&gt;Outro pormenor curioso foi o de o Antoninho...&lt;br /&gt;E agora será a altura de tentar saber porque toda a gente, nomeadamente em Vila Praia de Âncora, o tratava por Antoninho em vez de António. Ainda hoje, quem o conheceu se refere a ele usando o diminutivo.&lt;br /&gt;Não há nenhuma razão cientificamente comprovada, mas eu penso que se deve ao facto de ter ficado solteiro até tão tarde, o que fez perdurar a terminação em “inho” &lt;em&gt;ad aeternum&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Mas voltemos ao tal pormenor curioso:&lt;br /&gt;Como a filha Manela tinha nascido no exacto dia da Princesa Ana, filha de Isabel II de Inglaterra (15 de Agosto de 1950), alguns anos mais tarde resolveu escrever à Rainha a dar-lhe conta do facto e, passados uns meses, recebeu uma missiva com o timbre da família real britânica, remetida de Buckingham, com um texto adequado mas que neste momento não recordo.&lt;br /&gt;Ontem à tarde, e com o objectivo de preparar esta prosa, telefonei à Maria do Faro para lhe pedir algumas datas e estivemos quasi uma hora ao telefone.&lt;br /&gt;O filho Carlos está ligado profissionalmente ao audiovisual e deu-lhe três netos.&lt;br /&gt;A Nelinha tirou o curso de engenharia química, como eu na FEUP, e ficou solteira.&lt;br /&gt;O Tatuna é o responsável pelo agora remodelado armazém de fazendas (que há muito vende sobretudo a retalho) e tem dois filhos.&lt;br /&gt;Depois do que disse e do que não disse, já está mais do que claro que o Antoninho Oliveira foi uma pessoa que esteve muito presente, e de forma marcante, na minha vida e não só até 1961, ano em que o facto de ter falecido o meu tio Simão em Âncora veio provocar uma descontinuidade na relação entre as duas famílias que foi complementada por, em 1963, o meu pai ter comprado o seu primeiro (e único, diga-se desde já) automóvel.&lt;br /&gt;Apesar de tudo, as relações prolongaram-se ao longo dos anos.&lt;br /&gt;E, mesmo caindo no erro de me repetir, vos digo que duma coisa todos poderão estar certos: jamais esquecerei o Sr. Antoninho Oliveira.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116562310407859435?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116562310407859435/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116562310407859435' title='26 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116562310407859435'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116562310407859435'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/12/antoninho-oliveira.html' title='Antoninho Oliveira'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>26</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116535509939371309</id><published>2006-12-05T21:40:00.000Z</published><updated>2006-12-05T22:00:59.593Z</updated><title type='text'>The making of...Uma família burguesa</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A exemplo do que aconteceu quando terminei a publicação on-line de “O viúvo”, achei interessante divulgar o conteúdo do ficheiro Word onde, antes de começar a escrita de “Uma família burguesa”, fiz a preparação do trabalho.&lt;br /&gt;Como devem calcular, os elementos iniciais foram sucessivamente modificados e ampliados pois não havia, no princípio, uma história completamente definida.&lt;br /&gt;Só tracei algumas linhas gerais para a trama, sendo esta progressivamente preenchida conforme a escrita avançava.&lt;br /&gt;O conteúdo que vos apresento no final deste texto introdutório é, portanto, a versão final da que foi elaborada mais de dois meses antes.&lt;br /&gt;Lendo este preâmbulo e dando uma olhadela pelo anexo, e digo isto porque seria muito fastidioso lê-lo todo, penso que fica claro para o leitor qual o método criativo por mim utilizado.&lt;br /&gt;Podem reparar no enorme detalhe com que defini as personagens. Fi-lo com o propósito de, mais tarde, se fosse preciso usar algumas das suas particularidades, essa compilação já estivesse feita de forma a não haver incongruências.&lt;br /&gt;Quero aqui agradecer publicamente a ajuda dada pela Manela, pela Teresa, pela Lurdes e pelo João no meu esclarecimento sobre assuntos que não dominava suficientemente e com o objectivo de que a narrativa fosse o mais realista, correcta e coerente possível.&lt;br /&gt;Finalmente, gostaria de referir que hoje, com o trabalho concluído, provavelmente ter-lhe ía dado outro título: porque não...“Segredos”?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apresento de seguida o conteúdo final do ficheiro que referi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;AS PERSONAGENS&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;António José da Costa Lima&lt;/strong&gt; (Tó Zé) (o pai)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai, nascido a 21 JAN 48 (58 anos), 1,72 m de altura, 75 kg de peso, cabelos quasi todos brancos (outrora castanhos), já bastante raros no topo da cabeça e cortados curtos.&lt;br /&gt;Engenheiro Electrotécnico de profissão, ocupa uma posição de director de Departamento que lhe permite auferir um bom rendimento. A empresa fica junto à Via Norte (Matosinhos).&lt;br /&gt;Vive no Porto, na zona das Antas, numa vivenda sita numa rua perto da Av. dos Combatentes, na companhia da mulher, da sogra, da filha Ana Maria, divorciada e da neta.&lt;br /&gt;Tem um Toyota Corolla e um carro da empresa (Ford Mondeo)&lt;br /&gt;Portista.&lt;br /&gt;Costuma andar a pé o mais que pode e muitas vezes à noite sai como um vizinho médico, da mesma idade, com quem estudou no liceu: o Armando João Cerqueira Borges.&lt;br /&gt;Segundo filho do engenheiro civil José António Correia de Lima (1917 -1995) (que, portanto, faleceu com 78 anos com ataque cardíaco) e de Maria Arminda Soares da Costa (1923 -1999) (que faleceu aos 76 anos de cancro do pulmão), doméstica, que mandaram fazer a casa das Antas no início dos anos 50, hoje bastante modificada (modificação feita em 2000 / 2001).&lt;br /&gt;A casa ficou, por herança, para o Tó Zé.&lt;br /&gt;Tem um irmão mais velho, nascido em 1946, Jorge Alberto da Costa Lima, engenheiro em Lisboa e um mais novo, nascido em 1950, Miguel Fernando da Costa Lima, advogado também em Lisboa.&lt;br /&gt;Tem uma relação com a sua secretária Teresa desde 2002.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Maria Helena Marques Pinho&lt;/strong&gt; (a mãe)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe, nascida a 31 MAI 48 (58 anos), 1,62 m de altura, 60 kg de peso, cabelos outrora castanho claros, agora brancos mas pintados de claro com madeixas aloiradas; são relativamente curtos.&lt;br /&gt;Licenciada em História, é professora no Alexandre Herculano.&lt;br /&gt;Casou com António José em OUT 69, sendo ambos ainda estudantes, pois ficou grávida em Agosto&lt;br /&gt;Tem um Ford Fiesta.&lt;br /&gt;Filha de Joaquim da Silva Pinho (1924 –1989), contabilista, faleceu de cancro na próstata, e de Maria da Conceição Carreira Marques que vive com a filha.&lt;br /&gt;Tinha uma irmã, Maria Margarida Marques Pinho, que foi para o Brasil e lá morreu em 2004.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ricardo Jorge Pinho da Costa Lima&lt;/strong&gt; (o 1º filho)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filho, nascido a 02 MAI 70 (36 anos), 1,78 m de altura, 75 kg de peso, cabelos castanhos.&lt;br /&gt;Formado, como o pai, em Engenharia Electrotécnica, mas em electrónica e não correntes fortes.&lt;br /&gt;Trabalha numa empresa de informática da qual é sócio juntamente com Mário Jorge Silveira Gomes.&lt;br /&gt;A empresa (&lt;em&gt;Rimafor)&lt;/em&gt; foi fundada em 2003, ano em que casou com Bárbara com quem já tinha uma relação de vários anos.&lt;br /&gt;Além de Fernanda Mota e Elias Santos, admitidos em 2003, em 2006 a empresa meteu mais uma engenheira informática estagiária, Mónica Campos, e um técnico, Raul Parente.&lt;br /&gt;Casou com Bárbara em 08 DEZ 03 (com 32 anos) e tem um filho nascido em 10 OUT 04 (2 anos) chamado João Paulo Mendes da Costa Lima (Jocas).&lt;br /&gt;Vive na Maia.&lt;br /&gt;Tem um Honda Accord.&lt;br /&gt;Tem como colaboradora Fernanda, irmã de Teresa, secretária e amante do pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ana Maria Pinho da Costa Lima&lt;/strong&gt; (a 1ª filha)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A filha mais velha, nascida a 18 SET 71 (35 anos), 1,65 m de altura, 56 kg de peso, cabelos castanhos mas pintados de loiro, tapando somente o pescoço, casou em 12 FEV 90 (tendo 18 anos) com Francisco mas divorciou-se em 21 MAR 95 (23 anos) após 5 anos de casamento.&lt;br /&gt;Secretária de profissão trabalha numa empresa privada na Boavista, Porto.&lt;br /&gt;Vive com a filha Maria Cláudia de Lima Neves Torres, nascida a 24 ABR 92 (14 anos) na casa dos pais. Esta frequenta o 9º ano na Aurélia de Sousa.&lt;br /&gt;Tem um Renault Clio.&lt;br /&gt;Desde o divórcio tem tido várias relações mais ou menos passageiras. De momento não tem nenhuma estabilizada.&lt;br /&gt;Tem uma paixão secreta por Manuel António, o cunhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Joana Isabel Pinho da Costa Lima&lt;/strong&gt; (a 2ª filha)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A filha mais nova, nascida a 02 JAN 74 (32 anos), 1,66 m de altura, 62 kg de peso, cabelos castanhos, quasi negros, longos e ondulados, a mais morena, e com um ar hispânico, casou em 29 AGO 99 (25 anos) com Manuel António. Não tem filhos. Um problema que a afecta, inibe-a de poder gerar filhos. Pensam numa adopção.&lt;br /&gt;Professora de Filosofia no secundário.&lt;br /&gt;Tem um Volkswagen Golf.&lt;br /&gt;Vive em Leça da Palmeira.&lt;br /&gt;Dá aulas em Penafiel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Bárbara Correia Mendes&lt;/strong&gt; (a nora)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher de Ricardo, nascida a 20 AGO 73 (33 anos), 1,70 m de altura, 65 kg de peso, loira natural com cabelos abaixo do pescoço e lisos, olhos azuis, com um ar de mulher da Europa central, casou com Ricardo em 08 DEZ 03 (com 29 anos) e tem um filho nascido em 10 OUT 04 (2 anos) chamado &lt;strong&gt;João Paulo Mendes da Costa Lima&lt;/strong&gt; (Jocas).&lt;br /&gt;Educadora de infância, é proprietária de um infantário na Maia, onde vive.&lt;br /&gt;Tem um Peugeot 206.&lt;br /&gt;Filha de Luís da Fonseca Mendes (1954 – 52 anos) e de Raquel Martins Correia (1956 – 50 anos), ambos bancários reformados.&lt;br /&gt;Procurou ter uma relação com um antigo namorado: Mário Jorge Silveira Gomes, engenheiro informático e sócio do seu marido Ricardo. No entanto foi mal sucedida.&lt;br /&gt;Só eles sabem que foram namorados pois tal aconteceu quando se conheceram na praia eram muito jovens (1990), tinha ela 17 anos e ele 18. Foi uma relação muito curta mas intensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Francisco Moreira das Neves Torres&lt;/strong&gt; (o ex-genro)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ex-marido de Ana Maria, nascido a 06 FEV 70 (36 anos), 1,82 m de altura, 95 kg de peso, cabelo preto e ondulado, casou a 12 FEV 90 (20 anos) com Ana Maria, de quem tem a filha &lt;strong&gt;Maria Cláudia de Lima Neves Torres&lt;/strong&gt;, mas divorciou-se em 21 MAR 95 (25 anos), após 5 anos de casamento.&lt;br /&gt;Proprietário de um stand de venda de automóveis, no Porto, com mais 3 sócios.&lt;br /&gt;Dinis Azevedo, 35%; Francisco, 30%; José Moreira, 25% e Joaquim Moniz, 10%.&lt;br /&gt;Em Agosto, José Moreira compra 15% a Francisco ficando como maioritário:&lt;br /&gt;José Moreira, 40%; Dinis Azevedo, 35%; Francisco Torres, 15% e Joaquim Moniz, 10%.&lt;br /&gt;Tem um Renault Mégane.&lt;br /&gt;Casou de novo com Marina de Castro Pimenta, nascida a 12 SET 75 (31 anos) e vive no Porto (na Baixa). Divorciou-se por cauda dela quando a então empregada tinha 19 anos. Tiveram um filho em 06 JAN 98 (8 anos): &lt;strong&gt;Marco António Pimenta Torres&lt;/strong&gt;.&lt;br /&gt;O irmão desta, Alexandre de Castro Pimenta (Alex), nascido a 02 JAN 70 (36 anos) tem um papel importante. Provém de uma família humilde. Tem procurado conquistar Ana Maria, sem sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Manuel António dos Santos e Sousa Félix&lt;/strong&gt; (o genro)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O marido de Joana, nascido a 02 OUT 60 (46 anos), 1,67 m de altura, 70 kg de peso, moreno, cabelos grisalhos, olhos azuis e um belo sorriso, o tipo que agrada às balzaquianas (e não só) casou em 29 AGO 99 (38 anos) com Joana que fora sua aluna no curso de Filosofia. Não tem filhos. E não é favorável à adopção&lt;br /&gt;Professor universitário no curso de Filosofia.&lt;br /&gt;Vive em Leça da Palmeira.&lt;br /&gt;Tem um Ford Focus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Maria da Conceição Carreira Marques&lt;/strong&gt; (a sogra)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe da Maria Helena nasceu em Vila Real em 23 ABR 25 (81 anos) e é viúva do comerciante Joaquim da Silva Pinho, que nasceu em Amarante em 1924 e faleceu em 1999 (com 75 anos). Foi sempre doméstica.&lt;br /&gt;Teve duas filhas: &lt;strong&gt;Maria Helena&lt;/strong&gt; e &lt;strong&gt;Maria Margarida&lt;/strong&gt; (falecida em 2004, no Brasil, com 53 anos).&lt;br /&gt;Tem boa saúde, apesar do reumatismo e artroses, dolorosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Aldina da Cruz Silva&lt;/strong&gt; (Dina) (empregada interna)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A empregada permanente, nascida a 13 MAR 55 (51 anos), 1,53 m / 60 kg, trabalha para a família desde 1973 (tinha 18 anos e veio da zona do Marão directamente para serviçal).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Maria de Fátima Oliveira Silva&lt;/strong&gt; (empregada externa)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A empregada (1,60 m / 57 kg) que vai todas as manhãs dos dias de semana, das 09:00 às 12.00 ajudar em vários afazeres domésticos. Obedece à Aldina.&lt;br /&gt;27 anos, casada.&lt;br /&gt;Vive em Contumil, Porto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Teresa de Sousa Mota&lt;/strong&gt; (secretária de António José Lima)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascida em 21 FEV 76 (30 anos), 1,63 m / 59 kg, é secretária do chefe da família desde 2000 (tinha 24 anos), tendo começado uma relação com o Costa Lima em 2002, quando as obras da casa motivaram alguma confusão.&lt;br /&gt;Casada desde 10 DEZ 97 (21 anos) com &lt;strong&gt;Alberto Lopes Martins&lt;/strong&gt;, nascido a 12 OUT 70 (36 anos), vendedor, tem uma filha, Mariana, nascida em 20 MAR 99 (7 anos).&lt;br /&gt;Tem os encontros íntimos à hora de almoço.&lt;br /&gt;Mestiça, mais escura que a irmã Fernanda.&lt;br /&gt;Vive na Senhora da Hora, Matosinhos.&lt;br /&gt;Tem um Volkswagen Polo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Fernanda de Sousa Mota&lt;/strong&gt; (colaboradora de Ricardo e irmã de Teresa)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascida em 12 JUL 80 (26 anos), trabalha na empresa de Ricardo e Mário Jorge desde a fundação (em 2003 – tinha 23 anos)) pois tem formação em informática.&lt;br /&gt;Mestiça cabrita como a irmã, mas com corpo escultural, alta e mais bonita que a irmã (1,70 m / 60 kg).&lt;br /&gt;Vive com a mãe, mulata, na Maia.&lt;br /&gt;O pai, branco, fugiu de casa com as filhas adolescentes.&lt;br /&gt;Tem um Renault Clio.&lt;br /&gt;Anda muito com um amigo, Pedro Luís Mesquita Alves, com quem tem contactos íntimos mas pouco frequentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os amiguinhos de Maria Cláudia&lt;/strong&gt; (filha de Ana Maria)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da escola: Miguel&lt;br /&gt;Sara&lt;br /&gt;Andreia&lt;br /&gt;Filipe&lt;br /&gt;Gonçalo&lt;br /&gt;Judite&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da vizinhança: João (neto do Armando Borges)&lt;br /&gt;Paula&lt;br /&gt;Leonor&lt;br /&gt;Ilídio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Marina de Castro Pimenta&lt;/strong&gt; (a mulher de Francisco)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascida a 12 SET 75 (31 anos), começou a viver com Francisco aos 19 anos.&lt;br /&gt;1,58 m de altura, 55 kg de peso, cara redonda e muito bonita com uns olhos verdes, enormes, a sobressaírem; mantém quasi inalterado o encanto de teenager.&lt;br /&gt;Trabalha com o marido, Francisco, no stand de automóveis.&lt;br /&gt;Foi trabalhar para o stand em 1993 com 17 anos.&lt;br /&gt;Pai desconhecido.&lt;br /&gt;Tem um Volkswagen Polo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Alexandre de Castro Pimenta&lt;/strong&gt; (Alex) (irmão de Marina)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascido a 02 JAN 70 (36 anos), 1,77 m de altura, 77 kg de peso, cabelo muito curto para disfarçar a já notória calva.&lt;br /&gt;Sócio minoritário de um bar nocturno na zona histórica do Porto onde vive com a mãe, &lt;strong&gt;Maria&lt;/strong&gt; &lt;strong&gt;Amélia de Castro Pimenta&lt;/strong&gt; (54 anos).&lt;br /&gt;Pai desconhecido.&lt;br /&gt;Tem um Renault Clio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mário Jorge Silveira Gomes&lt;/strong&gt; (sócio de Ricardo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascido a 30 JUL 72 (34 anos), 1,82 m de altura, 74 kg de peso, cabelo longo e liso, preto, mas de tez clara, olhos muito negros, voz cava, uma verdadeira estampa.&lt;br /&gt;Solteiro, mas com muita facilidade em arranjar namoradas que aguenta durante pouco tempo.&lt;br /&gt;Engenheiro informático.&lt;br /&gt;Vive no Porto, na Arca d’Água.&lt;br /&gt;Tem um Honda Civic.&lt;br /&gt;Vai evitar ter um caso com a mulher do sócio, Bárbara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Armando João Cerqueira Borges&lt;/strong&gt; (vizinho e amigo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascido a 27 MAR 48 (58 anos), 1, 75 m de altura e 80 kg de peso, com ar hispânico (os Borges era de ascendência espanhola), ainda com bastante cabelo cor de prata, médico cardiologista, casado com &lt;strong&gt;Inês Leite de Castro&lt;/strong&gt;, nascida a 27 AGO 51 (55 anos), médica pediatra, 1,57 / 50 kg, franzina mas com muita energia. Cabelo branco mas pintado com uma cor castanho acobreada que não lhe ficava muito bem com a pele morena, olhos castanhos. Casaram em 30 MAR 74 (ele com 26 anos e ela com 22)&lt;br /&gt;Tem um filho, &lt;strong&gt;José Manuel de Castro Cerqueira Borges&lt;/strong&gt;, nascido a 17 JUN 75 (31 anos), médico no IPO, moreno, 1,80 / 77, cabelos e olhos negros, casado com &lt;strong&gt;Dora Maria de Morais&lt;/strong&gt; &lt;strong&gt;Sampaio&lt;/strong&gt;, nascida a 22 SET 72 (34 anos), 1,64 m / 68 kg, cabelos liso castanhos e muito curtos e olhos da mesma cor, professora de Matemática, e um filho, &lt;strong&gt;João Manuel Sampaio Borges&lt;/strong&gt;, nascido a 12 JUN 99 (7 anos).&lt;br /&gt;Casaram a 10 JAN 98 (ele com 22, ela com 25).&lt;br /&gt;Ele tem um Renault Laguna e ela um Ford Focus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sónia Filipa Soares Silva&lt;/strong&gt; (cabeleireira no “coiffeur” de Ana Maria e Cláudia)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascida a 30 de Agosto de 1984 (22 anos), morena, cabelo negro muito curto, boca grande com lábios grossos, belos dentes, 1,60 m e 63 kg, não esconde alguns genes africanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A CASA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Foi construída pelos pais do Tó Zé no início dos anos 50.&lt;br /&gt;Depois da modificação profunda efectuada, parte em 2000, mas sobretudo em 2001, após o falecimento da mãe:&lt;br /&gt;pequeno jardim frontal e lateral esquerdo, passagem de viaturas na lateral direita, terraço nas traseiras e todo o fundo ocupado por garagem para 4 carros.&lt;br /&gt;1º piso – Entrada, grande sala com passagem para escritório, copa, casa de banho; e ainda lavandaria, outra casa de banho e arrumos.&lt;br /&gt;2º piso – Quatro quartos, sendo dois com casa de banho privativa o do casal Costa Lima e o de Ana Maria), mais dois quartos (um de Cláudia e outro da avó) e uma casa de banho.&lt;br /&gt;Cave – Sala de estar, garrafeira, arrumos e sala de bilhar, além de um quarto (da empregada Aldina) e de uma casa de banho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;strong&gt;A HISTÓRIA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;1) Descrição muito sucinta da família e localização e história da casa. Caracterização do Tó Zé e da Lena.&lt;br /&gt;2) Caracterização dos filhos e consortes. Conversa do casal sobre a Ana Maria. Armando Borges chega à casa.&lt;br /&gt;3) Caracterização da família Borges, os vizinhos. Caminhada do Tó Zé e do Armando.&lt;br /&gt;4) Passado: 1995 – Separação de Ana Maria e Francisco. O papel de Maria e Alex.&lt;br /&gt;5) Passado: 2000 e 2002 – A relação Tó Zé / Teresa (a secretária).&lt;br /&gt;6) Passado: 2003 – A contratação de Fernanda por Ricardo.&lt;br /&gt;7) Ricardo e Bárbara visitam a casa de Costa Lima.&lt;br /&gt;8) Bárbara e Mário Jorge encontram-se no café. Descrição de Mário.&lt;br /&gt;9) Visita de Joana e Manuel António a casa dos Costa Lima. Ana Maria nota frieza no casal e conversa muito com o cunhado.&lt;br /&gt;10) Bárbara bate no carro de Mário e magoa-o no braço. Leva-o ao hospital e passa a ir todos os dias à empresa Rimafor para ver as melhorias. Mário recusa uma relação com Bárbara.&lt;br /&gt;11) Fernanda aproveita e vai ajudar muito o Mário.&lt;br /&gt;12) Lena telefona à filha Joana para saber como vai o casamento.&lt;br /&gt;13) Lena conversa com Ana Maria sobre as divergências no casal quanto à adopção.&lt;br /&gt;14) No dia seguinte ao acidente, ao fim do dia, Fernanda leva Mário para casa dele e começa a cuidar do patrão. Mantém um hábil afastamento com o objectivo de fazer com que ele goste dela por muito mais do que pelo corpo e por sexo.&lt;br /&gt;Acabam por estabelecer um relacionamento e ela instalasse em casa dele.&lt;br /&gt;15) Ana Maria vai a Leça a casa de Joana e Manuel António. Vai começar a ser visita assídua.&lt;br /&gt;16) Ana Maria marca um encontro com o Manel e propõe-lhe terem um filho que seria criado por ele e pela Joana. Assim os riscos da adopção seriam menores. Este fica de lhe dar uma resposta em 2 dias.&lt;br /&gt;17) O stand de Francisco começa a dar menos lucro. Marina conversa com ele e sugere que venda parte das cotas da sociedade e com esse dinheiro da venda se torne sócio maioritário do bar onde trabalha Alex. Francisco aceita, vende parte da cota e compra parte do bar Borda d’água (do qual Alex tinha 5%, Renato Delgado 55% e Gilberto Silva 40%). Compra 50% de Renato mais 5% para o Alex. O negócio é fechado em Setembro de 2006, depois do negócio do stand, em Agosto&lt;br /&gt;O bar tem uma empregada de 55 anos que faz as limpezas e prepara alguns petiscos, a D. Alzira Sousa. É relativamente alta e magra e o pouco dinheiro de que aufere não lhe permite esconder as cãs, já abundantes.&lt;br /&gt;Alex convence Marina, e muito facilmente o Chico a contratarem umas meninas para acompanhar os clientes do bar.&lt;br /&gt;18) Dois dias após o encontro secreto, Manel telefona a Ana Maria para terem um novo encontro. Ficou combinado para uma semana depois do primeiro, no mesmo local e à mesma hora. Ajustam pormenores. Tem o 1º encontro.&lt;br /&gt;19) Vem as respostas aos anúncios: 28. Mas depois de seleccionadas, ficam só 10.&lt;br /&gt;Começam as entrevistas. No final ficam 4 (Uma cabeleireira – Sónia (Vanessa, 22 anos), uma balconista – Ana Rosa (Andreia, 25 anos) e duas desempregadas – Fátima (Cátia, 24 anos), Lurdes (mantém o nome verdadeiro, 21 anos).&lt;br /&gt;Uma das aceites, Sónia, é cabeleireira no estabelecimento frequentado por Ana Maria e Cláudia.&lt;br /&gt;20) O 2º encontro de Manuel António e Ana Maria. Ana Maria procura dar o máximo de prazer ao cunhado. Ela está na ovulação.&lt;br /&gt;21) Sónia (Vanessa) inicia uma relação com Alex. Passado algum tempo, vê Cláudia a almoçar com o pai, o Francisco do bar.&lt;br /&gt;Pensa em fazer chantagem com o Francisco, ameaçando-o de contar o que se passa no bar, à filha ou à mulher; conta a Alex mas este proíbe-a de o fazer, zanga-se, abandona-a e despede-a. Depois conta o sucedido ao Chico. Passados uns dias aparece um cliente novo a perguntar por meninas para sair. Chico, prudente, diz que aquilo não é um a casa de meninas. O cliente aprece mais vezes e eles suspeitam que a casa está sob vigilância devido a uma queixa da Sónia, despeitada. Mas depois deixou de aparecer.&lt;br /&gt;22) Na 2ª quinzena de Outubro Lena descobre um caroço na mama esquerda. Fala de imediato com o Armando que lhe marca uma consulta no IPO. Resultado. Cancro da mama, embora em estado embrionário. Precisa de fazer mastectomia parcial. Depois faz quimioterapia durante seis meses.&lt;br /&gt;23) O marido de Teresa sai de casa por causa de outra mulher e ela pretende que Tó Zé lhe dê mais atenção.&lt;br /&gt;O engenheiro diz que não pode deixar de apoiar a sua mulher naquele momento difícil. Teresa conforma-se.&lt;br /&gt;24) Ana Maria não tem menstruação no final de Outubro. Em meados de Novembro vai fazer um exame que confirma a gravidez. Diz que está grávida ao Manel, mas combinam que os encontros continuam. Devido ao estado da mãe decide aguardar algum tempo (até a mãe acabar a quimio) até dizer que está grávida ao resto da família.&lt;br /&gt;25) Mário e Fernanda, em finais de Novembro, anunciam que vão casar e que ela está grávida&lt;br /&gt;26) Lena termina a quimio em Fevereiro e os resultados são francamente animadores.&lt;br /&gt;27) Ana Maria, já sabendo que tem um rapaz (Manuel José) no ventre e com 4 meses de gravidez, revela finalmente o seu estado à família. Diz que não diz quem é o pai porque não quer nada com ele. Antes diz à mãe e esta ao pai. Cláudia não reage bem a princípio mas a intervenção inteligente dos outros acabam por a fazer aceitar. A avó São tem um papel fundamental.&lt;br /&gt;Passou um ano (Setembro de 2007)&lt;br /&gt;28) Bárbara engravida de novo.&lt;br /&gt;29) Fernanda e Ana Maria dão à luz. Ana Maria decide dar o filho em adopção a Manuel António e Joana, mas mantém a relação com o pai da criança.&lt;br /&gt;30) Sónia aparece morta no rio Douro. Apesar de Alex ter sido interrogado, nada de substancial havia contra ele. Passado cerca de um mês é detido e preso o presumível assassino.&lt;br /&gt;31) Embora já curada, Lena resolve revelar a Armando o seu segredo: Joana é filha dele. Conversam sobre se Joana deverá ou não saber a verdade. Como ela não tem filhos, decidem que é melhor não lhe dizer nada nem a mais ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LOCALIZAÇÕES&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Porto – A casa com Tó Zé, Helena e a mãe, Ana Maria e a filha e Dina&lt;br /&gt;Mário Jorge&lt;br /&gt;Francisco / Marina&lt;br /&gt;Alex e mãe&lt;br /&gt;Empresa onde trabalha Ana Maria&lt;br /&gt;Stand de automóveis&lt;br /&gt;Fátima&lt;br /&gt;Bar onde trabalha Alex&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Maia – Ricardo / Bárbara / Jocas&lt;br /&gt;Fernanda e a mãe&lt;br /&gt;Empresa de informática de Ricardo e Mário Jorge&lt;br /&gt;Infantário de Bárbara&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Matosinhos – Joana / Manuel António&lt;br /&gt;Teresa e marido&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116535509939371309?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116535509939371309/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116535509939371309' title='22 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116535509939371309'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116535509939371309'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/12/making-ofuma-famlia-burguesa.html' title='The making of...Uma família burguesa'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>22</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116497871718796422</id><published>2006-12-01T13:10:00.000Z</published><updated>2006-12-01T14:55:56.153Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte XXIV e última</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O interrogatório do Alexandre Pimenta na Polícia Judiciária não lhe acarretou qualquer problema. Todos os temores de que ficara possuído não se concretizaram e acabou por sair muito mais aliviado.&lt;br /&gt;- Eu não te disse? – falou o cunhado – Tudo correu da melhor maneira possível. E era natural que eles quisessem fazer-te perguntas.&lt;br /&gt;- Bom! – desabafou o cabeça rapada – Desta vez parece que me safei.&lt;br /&gt;E deu um suspiro bem do fundo da alma.&lt;br /&gt;Já Novembro ía avançado quando foi notícia, em tudo o que era órgão de comunicação social, que fora constituído arguido, ficando detido, um homem ligado a redes de prostituição suspeito de ser o assassino de Sónia.&lt;br /&gt;Foi o alívio total para o Alex!&lt;br /&gt;E pôde voltar a dedicar-se ao negócio, agora com outras meretrizes pois das iniciais já nenhuma restava, com uma tranquilidade que muito bem lhe sabia.&lt;br /&gt;- A Sónia era um estupor! Mas não deixo de ter pena dela. E sobretudo de lamentar que tenha morrido tão nova e daquela maneira – dizia várias vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Ana Maria estava próximo de ter de deixar de amamentar a criança pois ao fim de quatro meses o leite começava a faltar.&lt;br /&gt;Chegara o momento da grande decisão!&lt;br /&gt;Ou deixava agora o filho bebé entregando-o à irmã ou, provavelmente, nunca mais se conseguiria separar dele.&lt;br /&gt;E foi num dos encontros semanais que teve com o Manuel António que resolveu abordar o assunto.&lt;br /&gt;Este mantivera-se silencioso pois não queria pressionar a cunhada. Mas não sabia se ela iria ou não abandonar, se é assim que se pode dizer, o filho.&lt;br /&gt;Das conversas que ía mantendo com a Ana, foi fortalecendo a ideia de que ela iria mesmo cumprir a palavra. Pelo menos nesse aspecto. Quanto a deixá-lo de vez, não tinha a mesma opinião, já que o amava verdadeiramente. Disso tinha a certeza.&lt;br /&gt;- Manel! – disse, quando pela enésima vez entraram num quarto daquela hospedaria que era o seu lar.&lt;br /&gt;E prosseguiu, solenemente:&lt;br /&gt;- Muito brevemente vou deixar de amamentar o Manuel José. Acho que é o momento de propor que sejam vocês a criá-lo desde já, enquanto não se resolve o processo de adopção. Para isso resolvi ir a vossa casa e falar no assunto. Só depois direi da minha decisão ao resto da família.&lt;br /&gt;- E a Cláudia não se oporá?&lt;br /&gt;- É o único verdadeiro problema, já que está a afeiçoar-me imenso ao irmãozinho e, sendo muito jovem, pode não compreender bem a minha atitude. Vou falar com ela a sós e dizer-lhe da minha intenção, mas terei de usar de toda a minha capacidade de persuasão.&lt;br /&gt;Parece-me uma boa ideia! – concordou o cunhado.&lt;br /&gt;Pouco demorou para que a Ana Maria, na véspera de um dia em que sabia que a filha não tinha aulas durante a tarde, lhe dissesse:&lt;br /&gt;- Cláudia! Amanhã à tarde gostava que viesses dar uma volta comigo porque quero que conversemos sobre uma decisão que a mãe tem de tomar.&lt;br /&gt;- Amanhã à tarde? Tenho uns trabalhos para fazer e coisas para estudar – respondeu a jovenzinha.&lt;br /&gt;- Prometo que não te faço perder mais de uma hora. Está bem? É muito importante para mim.&lt;br /&gt;- Pronto, mãe! Está combinado.&lt;br /&gt;E, no dia seguinte, depois de almoço, saíram as duas no Renault Clio da Ana perante o olhar interrogador da Maria Helena.&lt;br /&gt;Dirigiram-se à antiga praça de Velásquez, agora com o nome de Francisco de Sá Carneiro, e lá estacionaram a viatura.&lt;br /&gt;Depois de algum silêncio, a Ana Maria começou:&lt;br /&gt;- Cláudia! Tu já tens quinze anos e estás uma mulherzinha. Eu tenho em mente, já há algum tempo, fazer feliz a tia Joana. Como sabes ela não pode ter filhos e, embora queira adoptar, o Tio Manel tem medo de dar esse passo pois não sabe qual a genética que a criança transportará. Ora eu lembrei-me de lhes propor que adoptassem o Manuel José. O tio não se oporia, certamente, à adopção, e eles poderiam finalmente constituir uma família. Eu, embora gostasse de criar o teu mano, não deixarei de o acompanhar no seu crescimento e já te tenho a ti. Tu estarás numa situação semelhante à minha. Não terás o Mané em casa mas estará bem entregue e poderás estar com ele imensas vezes. Talvez esteja a ser demasiado altruísta, mas são gestos como estes que nobilitam as pessoas. Ficarei muito orgulhosa em tornar felizes os teus tios de quem tanto gosto.&lt;br /&gt;Fez, finalmente, uma pausa e perguntou:&lt;br /&gt;- Gostava de saber a tua opinião sobre o assunto, Cláudia!&lt;br /&gt;A jovem, positivamente a sorver as palavras da progenitora demorou um pouco a responder, mas disse:&lt;br /&gt;- Acho que o que pretendes fazer é muito bonito! Mas já não sei o que me vai parecer a nossa casa sem o maninho. Se fizeres isso vou ficar triste.&lt;br /&gt;- Também eu, minha querida! Também eu! Por isso quero resolver o assunto o mais depressa possível, pois se demoro mais tempo não me conseguirei separar dele. E contigo também se passará o mesmo. Só não o fiz mais cedo por causa da amamentação – continuou a mais velha.&lt;br /&gt;- Mamã! Tu é que decides! Eu apoiar-te-ei sempre, já sabes isso.&lt;br /&gt;- Obrigada, minha querida! – e abraçou-a lacrimejante.&lt;br /&gt;Choraram ambas, aliás.&lt;br /&gt;Até que a Cláudia perguntou:&lt;br /&gt;- Mas achas que o tio Manel vai aceitar sem saber quem é o pai? Pode ter problemas hereditários, não é?&lt;br /&gt;- Tanto quanto conheço, não tem. Mas se o teu tio se mantiver reticente em relação a adoptar um sobrinho, então o problema é dele. Eu terei feito aquilo que a minha consciência e o meu coração mandaram.&lt;br /&gt;Trocaram mais algumas ideias, deram um pequeno passeio e voltaram para casa pois a moça tinha os afazeres escolares, mas não sem que a Ana Maria lhe tenha pedido encarecidamente para não dizer nada a ninguém sobre aquela conversa, tendo a jovem aquiescido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse mesmo dia telefonou ao cunhado.&lt;br /&gt;- Olá, Ana! – disse o Manuel António.&lt;br /&gt;- Manel! Já falei com a Claudinha sobre a vossa adopção do nosso filho. Reagiu muito bem! Portanto, agora queria ir a vossa casa o mais depressa possível e falar convosco. Claro que tu já sabes tudo e vais ter de ensaiar muito bem o teu papel. Se puder ser hoje ou amanhã seria óptimo, porque se fico mais tempo com o meu filho não terei coragem para o entregar, mesmo a vós.&lt;br /&gt;- Está bem, Ana! Por mim não há problema. Liga para a Joana, por favor, para confirmar a disponibilidade dela.&lt;br /&gt;- Ok, Manel! Vou já ligar. Beijinhos para ti, querido papá – despediu-se ela.&lt;br /&gt;Logo de seguida ligou para a irmã, mas só conseguiu falar com ela um pouco mais tarde.&lt;br /&gt;Ficou combinado que se deslocaria ao apartamento de Leça da Palmeira, à noite.&lt;br /&gt;E, por volta das nove e meia, já lá estava.&lt;br /&gt;Depois das saudações habituais e de conversarem um pouco sobre o estado de saúde da Maria Helena, a visitante disse:&lt;br /&gt;- Quero falar convosco sobre uma assunto muito sério.&lt;br /&gt;Pausou, para que os outros se concentrassem nas suas palavras e continuou:&lt;br /&gt;- Vocês estão com um problema para resolver que nunca mais está decidido. Estou, claro, a falar da questão da adopção. O principal óbice parece ser o Manel com o seu temor de que a criança seja portadora de problemas de natureza hereditária. Pois tenho uma proposta a fazer-vos. É-me doloroso o que já decidi, mas acho que vocês merecem ser felizes. Querem adoptar o meu filho Manuel José?&lt;br /&gt;A Joana ficou estática, muda.&lt;br /&gt;O Manuel representou muito bem. Manteve um silêncio relativamente longo e depois respondeu:&lt;br /&gt;- Acho que posso falar pelos dois. Primeiro, quero realçar a extraordinária nobreza da tua proposta. Em segundo, aceitamos de bom grado adoptar uma criança tão linda e tão saudável. Podes crer que será para nós como um filho.&lt;br /&gt;E virando-se para a mulher:&lt;br /&gt;- Joana! Então não falas?&lt;br /&gt;Finalmente a irmã mais nova reagiu:&lt;br /&gt;Levantou-se, abraçou a Ana e choraram ambas.&lt;br /&gt;O homem acabou por se juntar a elas e verteu também umas lágrimas. Agora tinha a certeza de que o seu filho seria criado por si.&lt;br /&gt;Passados estes momentos de comoção geral, sentaram-se de novo e conversaram, nomeadamente na necessidade de o bebé passar imediatamente a viver com o casal, independentemente do processo de adopção.&lt;br /&gt;- É verdade, Manel! Em relação ao pai biológico, embora continue a nada revelar sobre ele, informei-me e julgo que não há problemas familiares graves. Espero que isso te descanse – disse a Ana.&lt;br /&gt;- Claro que sim! E no fundo, o nosso filho vai ter o sangue da Joana. Que mais poderíamos nós desejar? – respondeu o anfitrião.&lt;br /&gt;E o serão terminou com a Ana Maria despedindo-se, alegando que ainda tinha de ser ela a cuidar do Manelinho.&lt;br /&gt;Quando conduzia para casa, pensava:&lt;br /&gt;- E tu, meu amado Manuel António, estarás sempre nas minhas mãos. Quem sabe se não terei um outro filho teu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo no dia seguinte, ao jantar, Ana Maria revelou a sua intenção aos restantes familiares residentes na casa das Antas.&lt;br /&gt;Os encómios vieram de todas as bocas:&lt;br /&gt;- Não sei se te deixaste engravidar propositadamente para presenteares a tua irmã mas, mesmo que não o tenhas feito, funcionou como tal. És meio maluca, mas conseguiste fazer qualquer coisa de notável – disse o pai António José.&lt;br /&gt;E outros elogios tornaram a Ana Maria na raínha da noite.&lt;br /&gt;Até a própria Vó São não pôde deixar de dizer do alto dos seus oitenta e dois anos:&lt;br /&gt;- Aninhas querida! Afinal valeu a pena entrar neste século e viver até hoje.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116497871718796422?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116497871718796422/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116497871718796422' title='40 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116497871718796422'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116497871718796422'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/12/uma-famlia-burguesa-parte-xxiv-e-ltima.html' title='Uma família burguesa - parte XXIV e última'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>40</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116482629790891924</id><published>2006-11-30T14:45:00.000Z</published><updated>2006-12-01T14:40:37.596Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte XXIII</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Meados de 2007.&lt;br /&gt;Em finais de Julho, Ana Maria deu à luz um rapaz ao qual, como já havia sido combinado, chamaram Manuel José.&lt;br /&gt;Cerca de duas semanas depois foi a vez da Fernanda ter presenteado o Mário com uma moreninha a quem deram o nome de Olga.&lt;br /&gt;Por essa altura, Bárbara estava no sexto mês de gestação de uma menina que, em princípio, se chamaria Judite.&lt;br /&gt;Parecia que os deuses estavam a ser pródigos a distribuir fertilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava o Francisco Torres a levantar-se, certa manhã de Outubro, quando tocou o seu telemóvel. Era o Alexandre.&lt;br /&gt;Ainda ensonado, resmungou:&lt;br /&gt;- Que queres?&lt;br /&gt;- Sabes que apareceu agora de manhã o corpo da Sónia a boiar no rio? Lembras-te dela, não lembras? – disse, em tom estranho, o irmão da Marina.&lt;br /&gt;- Claro que lembro! Mas que aconteceu? Matou-se? Mataram-na? – perguntou o Chico.&lt;br /&gt;- Não se sabe nada de concreto. Como acontece quasi sempre nestes casos, cada pessoa tem a sua opinião e, portanto, o que diz o povo não serve para nada. Vem uma notícia muito curta no jornal e agora vou ver a televisão – informou o cabeça rapada.&lt;br /&gt;- Tu pareces estar um pouco ansioso! – notou o cunhado.&lt;br /&gt;- Pois estou! Lembra-te que há cerca de um ano andava com ela e a polícia é capaz de me chatear – falou o Alex.&lt;br /&gt;- Tens razão! Mas tu não tens nada a ver com o caso.&lt;br /&gt;- Pois não! Mas se foi assassínio e eles não tiverem bons suspeitos são meninos para pegarem comigo e chatearem-me...e muito! – disse o assustado sócio.&lt;br /&gt;- Acho que estás a preocupar-te demais! Tem calma! Vais ver que se calhar nem houve nenhum crime – procurou o Francisco animar o outro.&lt;br /&gt;- Não sei, não! Não estou a ver que seja acidente nem que ela se tenha suicidado. Pelo contrário, acho que era menina para se meter em complicações e alguém lhe ter limpo o sebo. Não te esqueças que ela te quis chantagear...&lt;br /&gt;- Mas, mesmo que tenha havido crime, tu tens álibi, não tens? – perguntou o sócio maioritário.&lt;br /&gt;- Estava a dormir em casa e estava lá a minha mãe. Mas o testemunho da velhota não deve valer de muito. Isto partindo do princípio que ela morreu de noite, mas não sei se foi assim. E quando abandonei a Sónia ameacei-a de morte. – disse, preocupado, o outro.&lt;br /&gt;- Mas só ela é que ouviu e está morta.&lt;br /&gt;- Não tenho a certeza. Eu não a vi, mas a amiga que vivia com ela podia estar lá e ter escutado a conversa – disse o homem, nervoso.&lt;br /&gt;- Bom! Isso poderia ser chato. Mas já foi há um ano. E provavelmente não estava mais ninguém em casa. Vão aparecer suspeitos muito mais credíveis. Não te apoquentes! – continuou o Chico a tentar acalmar o cunhado.&lt;br /&gt;- Oxalá tenhas razão! – e suspirou, o Alexandre.&lt;br /&gt;- Olha, Alex! Eu agora vou almoçar e depois para o stand. Precisas de alguma coisa? Já falaste com a minha mulher? – apressou o Chico.&lt;br /&gt;- Não preciso de nada, por enquanto. E obrigado. Mas não digas nada à minha irmã. Não vamos alarmar toda a gente – recomendou o Pimenta.&lt;br /&gt;- Pronto! Se precisares de alguma coisa avisa, ok? – despediu-se o Torres.&lt;br /&gt;- Claro! Então até logo! – terminou o Alex.&lt;br /&gt;Quando estavam juntos no bar, à noite, já a Polícia tinha divulgado um aviso a dizer que havia fortes indícios de a morte da Sónia ter sido provocada por asfixia e o corpo ter sido depois lançado ao rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A situação clínica de Maria Helena continuou a evoluir favoravelmente.&lt;br /&gt;Um dia resolveu telefonar para o médico, vizinho e amigo Armando Borges dizendo-lhe que precisava de falar em privado com ele. Embora já não trabalhasse em nenhum hospital, o cardiologista continuava a exercer clínica por conta própria.&lt;br /&gt;Quis saber qual o assunto.&lt;br /&gt;- Depois! É coisa para ser transmitida pessoalmente – disse ela.&lt;br /&gt;E combinaram que, na tarde seguinte, ela iria ao consultório e lá diria o que tinha a dizer.&lt;br /&gt;Quando a Maria Helena entrou no gabinete do vizinho, este notou:&lt;br /&gt;- Estás com uma cara estranha. Que se passa? Sentes-te pior?&lt;br /&gt;- Não! Estou bem, obrigado.&lt;br /&gt;E indicando uma poltrona, disse o doutor:&lt;br /&gt;- Senta-te aí, por favor.&lt;br /&gt;Pegou numa cadeira e foi postar-se em frente dela.&lt;br /&gt;- Já estás em condições de falar? Criaste-me uma ansiedade grande. Logo que possas começa, por favor.&lt;br /&gt;Fez-se silêncio durante uns instantes até que ela começou, finalmente:&lt;br /&gt;- Esta fase que atravessei, em que durante algum tempo vi o espectro da morte à minha frente, fez-me sentir de forma muito intensa que podemos morrer muito mais subitamente do que pensamos. E deixarmos coisas por fazer. Nesta fase, embora esteja muito melhor e pareça que ainda não é desta que vou...&lt;br /&gt;- Não é, com certeza – interrompeu o médico.&lt;br /&gt;- Espero que não! Mas como dizia, tenho a consciência de que posso partir de um momento para o outro muito mais enraizada, por isso quero revelar-te uma coisa que guardo comigo, só comigo, há trinta e quatro anos.&lt;br /&gt;Pausou e disse:&lt;br /&gt;- Tu és o pai da minha filha Joana!&lt;br /&gt;E ficou a olhar para a expressão patética do Armando que não conseguiu dizer nada durante algum tempo.&lt;br /&gt;Quando falou, ou melhor, quando balbuciou umas palavras, foram estas:&lt;br /&gt;- A Joana é minha filha?&lt;br /&gt;- Foi exactamente o que eu disse.&lt;br /&gt;- Meu Deus! E conseguiste aguentar esse segredo só contigo? O Tó Zé não sabe nada? – disse, já mais refeito do impacto da revelação, o amigo.&lt;br /&gt;- E nem imaginas como foi difícil!&lt;br /&gt;- Mas como sabes que é minha filha? – perguntou, um tanto impensadamente, o Armando.&lt;br /&gt;- Como te lembras, o António esteve a fazer um estágio na Bélgica, a expensas da empresa, de Janeiro a Julho de 1973. Eu tinha vinte e quatro anos, o sangue na guelra e muitas carências e tu ainda eras solteiro. Começamos com uma brincadeira, depois foi o desenvolvimento que conheces e, uma semana antes de o António vir passar umas férias, faltou-me o período. Estive com ele, ele partiu e nunca mais veio a menstruação. Não há qualquer dúvida de que a Joana é tua filha. Aliás, se olhares bem para ela, aqueles olhos muito escuros e o cabelo negro e ondulado, são teus. Chapadinhos! – recordou a Lena.&lt;br /&gt;- Nunca tal me passou pela cabeça! Mas agora que falas, realmente a Joana tem semelhanças comigo, é verdade. E...continuamos a manter a nossa relação secreta já contigo grávida – disse, o médico.&lt;br /&gt;- Pois foi! Só acabamos pouco antes de o Tó Zé regressar definitivamente.&lt;br /&gt;- E agora? – perguntou o clínico.&lt;br /&gt;- Considerei que te devia dizer esta verdade antes de morrer. Penso que tens o direito de a saber. Acho que também o meu marido a deveria saber, mas nunca seria capaz de lha contar, obviamente. E quanto à Joana... – e suspendeu o discurso, a Helena.&lt;br /&gt;- Que achas? – disse ele num tom expectante.&lt;br /&gt;- Como ela não tem descendentes, nem vai poder ter, acho que não devemos dizer nada. Se tivesse filhos, talvez fosse caso para pensar. Assim...&lt;br /&gt;- Talvez tenhas razão! Mas agora tenho de estar com ela mais vezes. Tenho de a ver mais vezes – como que sentiu que isso seria uma obrigação, o Armando.&lt;br /&gt;- Isso não é difícil! O difícil é tu guardares o segredo, podes crer. Se ela tivesse filhos tenho quasi a certeza que não resistirias a contar a verdade. Assim, vai-te ser difícil mas vais resistir. Espero que resistas, como eu!&lt;br /&gt;- Claro que sim! Não iria comprometer a tua imagem – disse ele.&lt;br /&gt;- Então vamos dar o assunto como encerrado. Mas desta vez, definitivamente, trinta e quatro anos depois – falou a Lena.&lt;br /&gt;- Pois! Com certeza! Mas ainda estou atordoado. Isto de saber que se tem um filho assim de repente...é forte! – e riu, e lacrimejou – A vida é tramada! Obrigado por mo teres dito. Confesso que estou muito contente. Só tenho pena que os frutos da nossa breve relação, tão boa que foi, terminem com a Joana.&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;C’est la vie, mon cher!&lt;/em&gt; – comentou ela, usando uma expressão que usava frequentemente.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Sabes, Armando? Acho que toda a gente tem um ou mais segredos que guardam ciosamente consigo ou partilham com muito, mas muito pouca gente, normalmente com alguém que foi seu cúmplice.&lt;br /&gt;- Pois é Lena, pois é!&lt;br /&gt;- E agora vou-me embora porque tens lá fora pessoas que precisam de ti.&lt;br /&gt;E despediram-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma tarde, passados vários dias sobre o aparecimento do cadáver da Sónia, tocou o telefone na secretária do Francisco Torres quando este se encontrava, como habitualmente, no stand.&lt;br /&gt;- Sim! – falou o corpulento sócio.&lt;br /&gt;- Olha! Sou eu, o Alex! Recebi uma notificação para me apresentar na Polícia Judiciária para prestar declarações, depois de amanhã – queixou-se o atrapalhado cabeça rapada.&lt;br /&gt;- Sim? E estás admirado? Deve ser por causa da Sónia. É natural que andem a investigar e interrogar pessoas. Não vejo razão para estares preocupado. Tu respondes ao que eles te perguntarem e não haverá qualquer problema – minimizou o assunto, o Chico.&lt;br /&gt;- Isso é muito fácil de dizer! Mas quem lá vai sou eu! – respondeu, mal humorado, o sócio.&lt;br /&gt;- Tem calma! Se suspeitassem de ti provavelmente íam buscar-te a casa, ías para o Tribunal e eras engavetado preventivamente. Então sim! Estavas numa situação chata. Ouve bem! Eu não estou a dizer isto só para te acalmar. Digo-o porque tenho a certeza de que não é nada de especial. E como só tens de ir à PJ daqui a dois dias, o melhor é nem pensares mais nisso até lá – disse, de forma enfática, o cunhado.&lt;br /&gt;E concluiu:&lt;br /&gt;- Logo à noite conversamos mais um bocado, se quiseres, ok?&lt;br /&gt;- Ok! Desculpa, Chico! Eu sei que estou a ser chato, mas tu és para mim como um irmão e tenho necessidade de falar com alguém – disse o Alexandre.&lt;br /&gt;- Eu sei! Eu sei! Mas queres que vá agora ter contigo? Precisas de me dizer alguma coisa de especial? – questionou o calmeirão.&lt;br /&gt;- Não! Nada! Até logo! – despediu-se o cabeça rapada.&lt;br /&gt;- Até logo, Alex! – terminou o Francisco Torres.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116482629790891924?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116482629790891924/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116482629790891924' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116482629790891924'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116482629790891924'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/11/uma-famlia-burguesa-parte-xxiii.html' title='Uma família burguesa - parte XXIII'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116475540603929916</id><published>2006-11-29T14:10:00.000Z</published><updated>2006-11-29T14:08:23.500Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte XXII</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Nessa mesma noite, já na cama, Maria Helena disse para o marido.&lt;br /&gt;- Quero dizer-te uma coisa muito importante, mas promete-me que não fazes barulho. Por enquanto é segredo.&lt;br /&gt;- Mas que se passa? Alguma coisa vai mal contigo? – disse ele, inquieto.&lt;br /&gt;- Não! Não é comigo. E não é necessariamente uma coisa má. Eu diria que até é boa, embora com aspectos um pouco estranhos – falou a mulher.&lt;br /&gt;- Desembucha, Lena!&lt;br /&gt;- É a Ana Maria que está grávida de quatro meses.&lt;br /&gt;O homem deu um salto e ficou sentado na cama.&lt;br /&gt;- Meu Deus! Não acredito! Está?&lt;br /&gt;Fez uma breve pausa, olhou para a mulher e viu esta a acenar afirmativamente com a cabeça; depois continuou:&lt;br /&gt;- Não tinha reparado! E quem é o pai? Vai casar ou amigar-se? – quis saber o engenheiro.&lt;br /&gt;- Nem uma coisa nem outra! Quer que o pai da criança fique no esquecimento porque acha que não é tipo para a fazer feliz. Acho que ainda é o trauma da separação do Francisco – explicou a Helena.&lt;br /&gt;- Esta rapariga sempre teve uma pancada na cabeça! Eu sempre te disse, Lena! - e suspirou, o futuro avô.&lt;br /&gt;- Deixa lá! Se é essa a vontade dela, não falta aqui quem lhe dê amor e carinho.&lt;br /&gt;- Mas um pai faz falta! – disse o Tó Zé.&lt;br /&gt;- A Cláudia também tem sido criada sem o pai e não me parece que tenha qualquer trauma daí resultante – amenizou o assunto, a dona da casa.&lt;br /&gt;- E é rapaz ou rapariga? – perguntou o homem de meia-idade.&lt;br /&gt;- Ahh...Nem lhe perguntei isso! Mas amanhã já sei. Agora, António José, faz favor de não dizeres nada porque ela vai comunicar oficialmente o caso amanhã ao jantar. Eu estou a dizer-te porque acho que deves estar preparado e, sobretudo, porque ela deve dirigir-se especialmente à Cláudia; pelo menos eu dei-lhe essa indicação – explicou a Lena.&lt;br /&gt;- Sim! Percebo e concordo! Tu sempre soubeste lidar bem com estas coisas – elogiou o homem.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Vou tomar um comprimido para dormir porque assim não prego olho.&lt;br /&gt;E levantou-se.&lt;br /&gt;Depois de tomar o comprimido, vagueou pela casa. Quando voltou para a cama já a mulher estava nos braços de Morfeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, ao jantar, estavam todos os habitantes da vivenda.&lt;br /&gt;O António José havia desmarcado o exercício de marcha com o vizinho médico.&lt;br /&gt;A Ana Maria sentou-se à mesa e quasi não disse nada durante a refeição. Aliás, pouco se falou. Só a Cláudia e a sua avó estiverem mais tagarelas.&lt;br /&gt;Momentos antes de serem colocadas na mesa as sobremesas, Ana falou com alguma solenidade:&lt;br /&gt;- Queria que me dessem uns momentos de atenção!&lt;br /&gt;- Cláudia! – interveio o Tó Zé – Não ouviste a tua mãe?&lt;br /&gt;- Sim! Desculpem! Podes falar mamã – respondeu a jovem adolescente.&lt;br /&gt;- Quero dizer a todos que a Cláudia vai ter um irmãozinho!&lt;br /&gt;A Lena e o marido fingiram o melhor possível uma cara de espanto.&lt;br /&gt;A filha da Ana Maria fez uma careta e foi a primeira a intervir:&lt;br /&gt;- Estás grávida, mãe?&lt;br /&gt;- Estou!&lt;br /&gt;- E quem é o pai?&lt;br /&gt;- Isso é coisa que não quero dizer. O que interessa é que é meu filho e teu irmão – disse a loira.&lt;br /&gt;- Meio-irmão, queres tu dizer! – comentou a jovem.&lt;br /&gt;- Sim! Mas como vai viver aqui, para ti será um irmão inteiro, podes crer.&lt;br /&gt;O Tó Zé achou que devia intervir:&lt;br /&gt;- Muito me surpreendes, Ana!&lt;br /&gt;Fez uma pausa e prosseguiu:&lt;br /&gt;- Ou, pensando bem, talvez não! Mas agora não vou criticar as tuas opções. Se é assim que queres, é assim que será! Eu estou de braços abertos para receber mais um neto.&lt;br /&gt;- Obrigado pai, pela tua compreensão – agradeceu a Ana.&lt;br /&gt;- Eu identifico-me inteiramente com as palavras do teu pai. – disse a Lena.&lt;br /&gt;E encarando a neta, acrescentou:&lt;br /&gt;- A tua mãe é uma pessoa adulta! Espero que nos ajudes a dar-lhe todo o apoio de que ela precisa. E não vai ser pouco...&lt;br /&gt;Cláudia ainda não estava muito convencida e nada disse.&lt;br /&gt;Foi a vez de intervir a octogenária Conceição:&lt;br /&gt;- Para falar francamente, eu acho que não devia ter transitado para este século! Mas como ainda por aqui ando, quero dar-te um beijo, minha Aninhas, e desejar que sejas o mais feliz que se pode ser. Chega-te cá!&lt;br /&gt;Ana Maria levantou-se e, com os olhos marejados, abraçou com ternura a velha senhora.&lt;br /&gt;- Adoro-te, avó! – disse, comovida.&lt;br /&gt;A Lena levantou-se também e foi abraçar as duas.&lt;br /&gt;O António José fez o mesmo.&lt;br /&gt;Cláudia permaneceu sentada.&lt;br /&gt;Mas a Maria Helena estava atenta e fez um sinal à neta.&lt;br /&gt;Esta, lentamente, levantou-se e dirigiu-se para o grupo. A avó afastou o marido de modo a que ficasse livre o caminho entre a Cláudia e a grávida.&lt;br /&gt;- Abraça a tua mamã, minha linda! – disse a Vó São – É uma coisa muito boa teres um irmãozinho.&lt;br /&gt;Ana Maria voltou-se e, finalmente, a filha abraçou-a:&lt;br /&gt;- Quero que sejas muito feliz, mamã – disse.&lt;br /&gt;O António José olhou para a mulher e comentou baixo:&lt;br /&gt;- A tua mãe é um mulher preciosa!&lt;br /&gt;- Só agora é que o descobriste? – disse ela olhando embevecida para a sua progenitora que, por entre umas lágrimas, dizia:&lt;br /&gt;- Tenho percorrido a vida a aprender!&lt;br /&gt;Passada esta fase, todos se sentaram à mesa, fazendo as mais variadas perguntas, sendo que a Ana Maria só respondia a algumas. Tudo o que dissesse respeito ao pai da criança era tabu.&lt;br /&gt;E, no meio daquilo tudo, até se ficou a saber que o futuro membro da família Costa Lima se chamaria Manuel José.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na noite seguinte Ana Maria foi a casa da Joana e do Manuel António dar a boa nova.&lt;br /&gt;- Tu és mesmo maluca, Ana! – disse a irmã, sorrindo.&lt;br /&gt;- Muito parabéns e muitas felicidades – disse o Manel abraçando a cunhada e fazendo o possível para que a mulher não lhe visse os olhos.&lt;br /&gt;- E vai-se chamar Manuel José! – já escolhemos o nome ontem à noite lá em casa, informou a Ana Maria.&lt;br /&gt;- Manuel, como o tio...que giro! – disse a Joana.&lt;br /&gt;O professor, que já tinha combinado como se chamaria o seu filho com a cunhada, comentou:&lt;br /&gt;- Mas não foi inspirado em mim, seguramente!&lt;br /&gt;Ao que retorquiu a secretária:&lt;br /&gt;- Foi mesmo! Como vocês não andam nem desandam com a adopção, e o Manel é muito estimado por todos, resolvemos pôr-lhe esse nome em tua homenagem. Se fosse uma menina seria Joana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na outra noite Ana Maria foi dar a boa nova ao mano Ricardo e à cunhada Bárbara.&lt;br /&gt;A surpresa não foi grande porque alguém já se havia encarregado de os informar.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116475540603929916?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116475540603929916/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116475540603929916' title='17 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116475540603929916'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116475540603929916'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/11/uma-famlia-burguesa-parte-xxii.html' title='Uma família burguesa - parte XXII'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>17</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116472394718709677</id><published>2006-11-28T14:25:00.000Z</published><updated>2006-11-28T14:49:06.423Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte XXI</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Mas tu queres mesmo que seja a última vez? – perguntou ele.&lt;br /&gt;- Eu? Eu não! Mas não achas que devemos cumprir o combinado? – disse ela com um tremendo ar de chacota.&lt;br /&gt;- Eu quero que a combinação vá para as malvas! Vamos fazer amor, já! – decidiu o Manuel António.&lt;br /&gt;E atirou-a para cima da cama.&lt;br /&gt;- Desculpa ter sido tão bruto! Acho que agora temos de ser mais cuidadosos nestas coisas senão poderemos afectar a criancinha – disse ele, paternalmente.&lt;br /&gt;Ela soltou uma estrondosa gargalhada.&lt;br /&gt;- Homens! Sempre iguais! – disse, por fim.&lt;br /&gt;E esclareceu:&lt;br /&gt;- Oh Manel! Podemos fazer com todo o à-vontade com que fizemos até aqui.&lt;br /&gt;- Eu sei, meu amor! Estava a brincar contigo – desculpou-se ele.&lt;br /&gt;- Pois! Pensas que não sei que és paridinho como os outros?&lt;br /&gt;E fizeram amor com uma ternura e uma alegria no coração como nunca o haviam feito antes.&lt;br /&gt;Quando se preparavam para sair, ele perguntou:&lt;br /&gt;- E quando é que comunicas à família?&lt;br /&gt;- Para já deixa saber o resultado da análise à urina. A seguir vou à médica. Depois, suponho que à décima segunda semana, faço a primeira ecografia.&lt;br /&gt;- E eu não posso ir, provavelmente... – lamentou-se o professor.&lt;br /&gt;- Provavelmente não! Mas deixa-me continuar – pediu ela.&lt;br /&gt;- Continua, que gosto de te ouvir – disse ele, babado.&lt;br /&gt;- Nessa altura e se tudo estivesse normal, poderia começar a pensar em fazer a comunicação que vai deixar toda a gente em polvorosa. Mas como a minha mãe está a começar agora a quimio e só acaba daqui a três meses, em Fevereiro, não vou dizer nada antes. Vou aguentar até a mamã estar o mais recuperada possível.&lt;br /&gt;- Parece-me sensato – disse ele.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- E vamos continuar a encontrar-nos aqui para fazermos amor e tu me contares as novidades da gestação.&lt;br /&gt;- Certamente, meu Manelinho querido!&lt;br /&gt;E deixaram o 102 depois de um longo abraço e um beijo.&lt;br /&gt;Quando conduzia de regresso à faculdade onde era docente, o Dr. Manuel António Félix ía pensando:&lt;br /&gt;- Curioso que gosto muito da Ana mas continuo a adorar também a Joana. E acho que ela vai ficar muito feliz quando adoptarmos a criança. E, se me dessem a escolher entre criar o meu filho com a Ana ou a Joana, acho que optaria pela minha mulher. Não sei se é o hábito, se é amor, se é remorso, se é compaixão. Mas tenho quasi a certeza de que seria essa a opção. Humm...talvez a ache mais maternal. Mas primeiro é preciso que tudo corra dentro do previsto e combinado.&lt;br /&gt;Teve de fazer uma travagem brusca pois ía apanhando um peão numa passadeira.&lt;br /&gt;Mas continuou a elucubrar:&lt;br /&gt;- Será que alguma vez poderei deixar de ter os encontros com a Ana? Devia fazê-lo. Aliás foi isso o combinado. Não sei. Talvez o consiga, com o tempo. Mas será que a Ana, determinada como é, não vai querer ficar comigo e com o bebé? Acho que não! Mas não punha as mãos no fogo.&lt;br /&gt;E suspirou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finais de Novembro de 2006.&lt;br /&gt;Mário Jorge, já recuperado, e Fernanda chegaram juntos, o que agora é habitual, à Rimafor e pediram para toda a gente se juntar.&lt;br /&gt;O engenheiro informático falou:&lt;br /&gt;- Quero anunciar a todos que eu e a Fernanda vamos casar.&lt;br /&gt;- Muitos parabéns!&lt;br /&gt;- Muitas felicidades!&lt;br /&gt;- Muitos meninos!&lt;br /&gt;Foram algumas das expressões que se ouviram no meio de algum burburinho.&lt;br /&gt;- A decisão já foi tomada há algum tempo, mas só a comunicamos agora porque queríamos dizer-vos outra coisa! – prosseguiu o Mário – Vamos ser pais!&lt;br /&gt;Agora houve mesmo uma pequena algazarra.&lt;br /&gt;- É menino ou menina? – perguntou alguém.&lt;br /&gt;- Ainda não sabemos, mas não vai tardar muito a darmo-vos essa outra novidade – falou, desta vez, a Fernanda.&lt;br /&gt;Foi então que Ricardo Costa Lima disse:&lt;br /&gt;- Quem iria prever que após três anos de convívio diário vos haveríeis de apaixonar? Se não fosse aquele acidente, provavelmente nada teria acontecido.&lt;br /&gt;- Não sei! Eu já começava a ficar farta de esperar e, se calhar, um dia qualquer tinha de mudar de táctica, senão arriscava-me a que ele fosse apanhado por outra. Mas as coisas correram bem! - confessou a Fernanda.&lt;br /&gt;- Eu já estava a ficar farto da vida que levava! Acho que há fases para tudo. Estava a precisar de mudar, de assentar, de ter um lar com esposa e filho: completo! E confesso que trazia a Nanda debaixo de olho há muito tempo mas ainda não me sentia preparado para ter uma relação verdadeiramente séria. A ideia dela ir para minha casa apoiar-me foi decisiva!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fevereiro de 2007.&lt;br /&gt;Maria Helena terminou o tratamento de quimioterapia sendo o prognóstico muito favorável. Pensava cada vez mais em fazer uma operação plástica para compor o seio que tinha sido operado, mas os médicos recomendaram-lhe calma e nada de precipitações. Ela acatou, obviamente.&lt;br /&gt;Foi então que, já perto do final do mês, Ana Maria disse à mãe que precisava que reunisse a família em casa porque queria fazer uma comunicação.&lt;br /&gt;Lena sorriu e disse:&lt;br /&gt;- Vais dizer quem é o pai da criança que tens no ventre?&lt;br /&gt;Ana ficou lívida.&lt;br /&gt;- Mãe! Tu adivinhas tudo! Pareces bruxa, safa!&lt;br /&gt;- Já sei muito, minha filha! Estou perto dos sessenta anos e tu deste sinais mais que suficientes para eu notar o teu estado. Não falei em nada porque sabia que tu terias de dizer alguma coisa. Pensei que viesses falar comigo.&lt;br /&gt;- Não falei consigo antes porque estava doente e não quis perturbá-la. Mas agora que já vou em quatro meses de gestação e a mãe parece quasi totalmente recuperada, tenho de contar a todos – disse a grávida.&lt;br /&gt;- Pois! Antes que se comece a notar a barriga – comentou a mais velha, com ironia.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Isso quer dizer que tens um homem? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Não é bem assim! Naturalmente que foi um homem quem me engravidou. Mas não estou interessada em juntar os trapos, como se costuma dizer, com ele. Pretendo ser eu somente a criar a criança, e não quero sequer que tenha o nome do pai. Aliás ele nem sabe que estou grávida dele – mentiu a Ana.&lt;br /&gt;- Mas que aconteceu para tomares uma decisão tão radical? – quis saber a Maria Helena.&lt;br /&gt;- É um tipo demasiado novo e desmiolado. Não quero que se repita a história do Francisco.&lt;br /&gt;- Tu és perita em arranjar situações esquisitas. – disse a Lena – Agora queres ser mãe solteira, passe a expressão.&lt;br /&gt;- Sim! No fundo é isso – anuiu a Ana.&lt;br /&gt;- E achas que uma gravidez com estes contornos não deveria ser comunicada de forma mais discreta e quasi individualmente? Não me parece que a ideia de fazer uma reunião familiar para comunicar esse facto seja muito feliz – aconselhou a mãe.&lt;br /&gt;A Ana Maria pensou durante uns instantes:&lt;br /&gt;- És capaz de ter razão! Primeiro contava ao pai, mas contigo presente. Depois à Cláudia. E a Vó São? Ainda lhe dá alguma coisa...&lt;br /&gt;- Pois! Arranjas umas situações bizarras e depois tens de tornear os problemas, o que nem sempre é fácil – disse a Maria Helena em tom de admoestação.&lt;br /&gt;- Deixa lá isso, mãe! Aqueles são os casos mais complicados. Depois é fácil contar à Joana e ao Manel, bem como ao Ricardo e à Barbara.&lt;br /&gt;- Pensando melhor, e se me permites, sugeria que falasses a todos os da casa ao mesmo tempo. Depois de um jantar – rectificou a convalescente.&lt;br /&gt;- Talvez! Tu, que já sabes, o pai, a minha Claudinha e a velhinha – enumerou a grávida.&lt;br /&gt;- E entretanto a Dina ouve a conversa e já fica a saber.&lt;br /&gt;- Então fazemos assim? Eu preparo o que vou dizer e combinamos para amanhã? – programou a filha.&lt;br /&gt;- Acho bem! Prepara um discurso breve e especialmente dirigido à tua filha.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116472394718709677?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116472394718709677/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116472394718709677' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116472394718709677'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116472394718709677'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/11/uma-famlia-burguesa-parte-xxi.html' title='Uma família burguesa - parte XXI'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116456470775765022</id><published>2006-11-27T17:55:00.000Z</published><updated>2006-11-27T18:09:49.710Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte XX</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A intervenção cirúrgica decorreu bem e a mastectomia foi parcial.&lt;br /&gt;Passados poucos dias a Maria Helena estava em casa; foi considerado pelos especialistas em oncologia que bastaria fazer sessões de quimioterapia em ciclos que durariam três meses, no total. Era um sinal de que a cura total era possível, e rapidamente.&lt;br /&gt;A moral de toda a família subiu de forma notória, e a própria Lena começou logo a perguntar quando poderia fazer uma reconstrução mamária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uns dias depois da cirurgia, estava o Costa Lima no seu gabinete quando a porta se abriu e entrou a Teresa postando-se em frente à secretária do chefe.&lt;br /&gt;Este levantou os olhos e disse:&lt;br /&gt;- Teresa! Está com um ar esquisito. Houve algum problema? – perguntou.&lt;br /&gt;- Houve!&lt;br /&gt;E fez uma pausa prolongada enquanto as lágrimas lhe escorriam pela face.&lt;br /&gt;- Desculpe, Sr. Engenheiro, mas não consegui aguentar – soluçou.&lt;br /&gt;- Mas afinal o que aconteceu? – inquiriu de novo o Tó Zé, já preocupado.&lt;br /&gt;- O meu marido desapareceu e deixou um bilhete dizendo que tinha ido viver com outra mulher – falou, finalmente, a secretária.&lt;br /&gt;- Oh diabo! E a Mariana? – quis saber o amante.&lt;br /&gt;- Está comigo. Ficou muito chocada, mas foi para a escola.&lt;br /&gt;- Lamento muito, Teresa. É uma situação sempre desagradável que não era de prever, pois não?&lt;br /&gt;- Não! Embora ele não me procurasse com regularidade há muitos meses. Talvez um ano – confessou a mulher.&lt;br /&gt;- Já falou com a sua mãe? E com a Fernanda? – indagou o director.&lt;br /&gt;- Ainda não! Vou ver a minha mãe à hora do almoço e dizer-lhe pessoalmente. E daqui a pouco vou telefonar para a minha irmã – informou a mulher.&lt;br /&gt;- As coisas não nos andam a correr bem! A minha mulher veio para casa depois de uma operação que, espero, lhe tenha salvo a vida. Você ficou sozinha, de repente. Mas talvez seja uma coisa passageira e ele um dia destes regresse a casa – procurou o engenheiro animar a Teresa.&lt;br /&gt;- Mas não sei se o aceite! – disse a despeitada mulher.&lt;br /&gt;- Acho que, numa circunstância destas, e embora a Teresa seja nova, a reconstituição da vida com outra pessoa não é tão fácil como por vezes se julga. E ficar sozinha vai-lhe provocar muita solidão que a sua filha Mariana não colmata. Mas isto é uma opinião pessoal que vale o que vale. Para já tem de reorganizar a sua vida. Eu estarei disponível para a auxiliar naquilo que puder mas, atendendo à situação da Maria Helena, não poderei fazer tanto como gostaria.&lt;br /&gt;- Muito obrigado, Sr. engenheiro. – agradeceu a Teresa – Agora vou trabalhar que é uma boa forma de me distrair.&lt;br /&gt;- Tem toda a razão! Até já! E lamento sinceramente o sucedido – terminou o chefe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana Maria não viu aparecer-lhe o fluxo menstrual no dia previsto.&lt;br /&gt;- É o que eu esperava! Daqui a dois ou três dias começa – pensou.&lt;br /&gt;Mas passaram-se os cinco dias e mais dois e aconteceu o terceiro encontro no 108.&lt;br /&gt;Quando estavam no aposento, disse a Ana Maria:&lt;br /&gt;- Sabes que ainda não apareceu a menstruação e já passaram sete dias?&lt;br /&gt;- Sim? E ainda não fizeste nenhuma análise? – perguntou ele.&lt;br /&gt;- Se não houver nenhum sinal, na quarta-feira vou fazer um teste e depois digo-te o resultado – comprometeu-se a mulher.&lt;br /&gt;- Agora deixaste-me um pouco ansioso. – disse o homem – Será que conseguimos tão depressa?&lt;br /&gt;- Para te falar francamente, também tenho sentido qualquer coisa de esquisito, mas pode ser que seja por causa da minha mãe, embora eu esteja convencida que estou mesmo grávida. Já devo trazer o teu filho aqui no meu ventre, Manel – conjecturou a Ana.&lt;br /&gt;- É melhor não me criares esperanças antes de termos a confirmação – pediu ele – senão depois apanho um balde de água fria.&lt;br /&gt;- Ok! Abraça-me com muita força, meu amor! – suplicou ela.&lt;br /&gt;E cumpriram mais uma tarde de um estranho contrato de procriação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uns dias depois, Teresa e o António José tiveram mais um dos seus encontros secretos.&lt;br /&gt;O ambiente não era dos melhores, e a parte sexual até não correu muito bem.&lt;br /&gt;- Agora fazes-me tanta falta, Tó Zé! Mal consigo dormir, tenho as ideias todas baralhadas na cabeça, sinto a falta de alguém que me faça companhia à noite para conversar, para me dar carinho, ternura, amor...O meu marido não me dava muito dessas coisas, até dava muito pouco, mas sempre era uma presença. E isso é importante. Não falava quasi nada mas também não chateava.&lt;br /&gt;- Acredito plenamente no que dizes! – respondeu ele, com alguma frieza.&lt;br /&gt;- De facto, precisava de ti! – confessou a mestiça abandonada.&lt;br /&gt;- Eu sei! E gostaria muito de te poder dar isso tudo! Mas penso que compreendes que neste momento não o posso fazer – retorquiu o chefe.&lt;br /&gt;E pensou:&lt;br /&gt;- Nunca iria abandonar a Lena num momento destes. Esta Teresa é muito porreira mas a minha opção está tomada, pelo menos por enquanto.&lt;br /&gt;- Eu compreendo, António! Mas não é por compreender que não deixo de sentir a tua falta. Dá-me mimos, dás? – pediu a mulher.&lt;br /&gt;- Anda cá! Chega-te para mim que eu faço-te uns miminhos muito bons! – disse o homem.&lt;br /&gt;E a relação, já antiga e tornada um hábito, prosseguiu nas semanas seguintes, com uma ou outra intermitência.&lt;br /&gt;Teresa pretendeu que passassem a dois encontros por semana, mas o Costa Lima esquivou-se. A família estava primeiro; e a&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;gora mais do que nunca. Mas não queria deixar a jovem amante sem esperanças e dizia-lhe muitas vezes:&lt;br /&gt;- O futuro reserva-nos tantas surpresas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na quarta-feira que antecedeu o dia do quarto encontro entre Manuel António e a cunhada e amante, Ana Maria foi fazer o teste de gravidez.&lt;br /&gt;Resultado: positivo!&lt;br /&gt;O seu primeiro impulso foi o de telefonar ao pai do embrião que estava já crescendo dentro dela mas, pensando melhor, achou que o deveria fazer pessoalmente. E o dia seguinte, o dia do amor escondido, era o ideal. Resolveu ainda que na sexta-feira iria fazer uma análise à urina para confirmação e, mal tivesse o resultado, consultaria a sua ginecologista que era também obstetra.&lt;br /&gt;No dia do encontro foi novamente o Manuel o primeiro a chegar. Ela demorou uns quinze minutos, o que fez o professor tentar contactá-la várias vezes pelo celular, mas sem efeito.&lt;br /&gt;Quando saíram das viaturas e se beijaram levemente, ele perguntou:&lt;br /&gt;- Então, Ana? Há novidades?&lt;br /&gt;- Já te digo lá em cima, está bem? Gosto de falar nestas coisas com o máximo de privacidade – disse ela, fazendo o homem ficar ainda mais ansioso.&lt;br /&gt;- Tu agora resolveste fazer de Hitchcock? – comentou com um sorriso – Vamos então depressa!&lt;br /&gt;Subiram ao quarto. Desta vez foi o 102.&lt;br /&gt;Quando entraram, ele fechou a porta, postou-se diante dela e, segurando-lhe a cabeça com as mãos e olhando-a nos olhos, disse:&lt;br /&gt;- Diz-me! Diz-me depressa!&lt;br /&gt;- Meu querido Manuel António! O teste que fiz ontem na farmácia deu um resultado...&lt;br /&gt;E fez uma pausa:&lt;br /&gt;- Diz! – suspirou o homem.&lt;br /&gt;- Positivo! Positivo, Manel! Vamos ser pais!&lt;br /&gt;E lançou-se nos braços dele. Enquanto se abraçavam e beijavam, ele chorava e ía dizendo:&lt;br /&gt;- Como me sinto feliz! Vou ser pai, finalmente! Como me sinto feliz!&lt;br /&gt;E continuava a soluçar.&lt;br /&gt;- E como eu estou feliz por te ver assim, Manel! Acho que esta foi a melhor decisão que tomei em toda a minha vida.&lt;br /&gt;- Tu nem imaginas o quanto é importante para mim, que não acredito na vida eterna, ter um filho. É a garantia de que vou ficar vivo mesmo depois de morrer – confessou ele.&lt;br /&gt;E beijava-a agora, enquanto repetia:&lt;br /&gt;- Obrigado! Obrigado! Obrigado, Ana!&lt;br /&gt;Passados cerca de três quartos de hora, primeiro neste tom e depois em conversa amena, ela mudou de assunto:&lt;br /&gt;- E agora vamos fazer amor pela última vez, Manel?&lt;br /&gt;Ele paralisou!&lt;br /&gt;- Pela última vez?&lt;br /&gt;- Sim! Foi isso o combinado! – disse ela.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116456470775765022?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116456470775765022/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116456470775765022' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116456470775765022'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116456470775765022'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/11/uma-famlia-burguesa-parte-xx.html' title='Uma família burguesa - parte XX'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116447831782967364</id><published>2006-11-26T15:30:00.000Z</published><updated>2006-11-26T16:07:06.250Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte XIX</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A ideia de extorquir dinheiro ao patrão Francisco foi ocupando cada vez mais tempo na cabeça de Sónia.&lt;br /&gt;Mas seria ele suficientemente rico? E ficaria tão preocupado que a ex-mulher e a filha soubessem daquilo em que se havia metido? Elas podiam fazer queixa à polícia e isso não interessava nada ao Francisco, mas também podiam achar que o problema era dele e não ligar nada. A filha iria repudiá-lo? Ele podia pensar que sim e ceder à sua chantagem. Ou pensar o contrário. No fundo não conhecia suficientemente bem o patrão nem as mulheres para poder prever qual a reacção dele. Portanto não podia avaliar se a sua ideia era boa ou má.&lt;br /&gt;Resolver perguntar ao Alex. Mas iria contar-lhe o seu plano? Se não dissesse nada ele acabaria por saber pelo sócio, portanto o melhor seria dizer. E se ele se opusesse? Depois se veria, mas provavelmente desistiria da ideia de extorquir dinheiro ao homem.&lt;br /&gt;Uma noite, quando estavam ambos no apartamento dela, falou ao Alexandre sobre o seu plano.&lt;br /&gt;Este irritou-se, e muito.&lt;br /&gt;- Mas tu és parva? Tu nem te atrevas a meter-te com a minha família! O Francisco é o marido da minha irmã e o pai do meu sobrinho. É como se fosse meu irmão! Se voltas a pensar sequer em prejudicar alguém da minha família eu dou cabo de ti, percebes? Mato-te!&lt;br /&gt;E continuou, irado:&lt;br /&gt;- Está tudo acabado entre nós! Mais! Escusas de voltar ao bar porque não te queremos lá!&lt;br /&gt;Nem deu tempo a que a Sónia reagisse.&lt;br /&gt;Vestiu-se e saiu.&lt;br /&gt;Quando no dia seguinte chegou ao bar contou o sucedido ao sócio. Este ficou admirado, mas comentou:&lt;br /&gt;- De gajas destas não se pode esperar outra coisa!&lt;br /&gt;- Nem de todas! Mas a maioria são assim! Esta já foi a segunda com quem andei metido e posso garantir-te que foi a última. Agora temos de arranjar uma substituta, senão qualquer dia não temos nenhuma. De vinte e oito que responderam ao anúncio já só restam três – disse o Alex.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passadas umas noites, apareceu um novo cliente. Sozinho, jovem, com calça preta e blusão de couro da mesma cor, sentou-se ao balcão, pediu uma cerveja que bebeu devagar. Nenhuma das três clientes especiais estava lá.&lt;br /&gt;A certa altura perguntou o jovem, dirigindo-se ao Francisco Torres:&lt;br /&gt;- O senhor desculpe! Mas disseram-me que há aqui umas meninas que saem com os clientes. Mas eu não vejo nenhuma. É verdade?&lt;br /&gt;O Chico e o sócio já haviam estudado a resposta a dar a visitantes desconhecidos que pusessem essa questão:&lt;br /&gt;- Isto não é uma casa de ataque nem temos aqui meninas, embora apareçam algumas clientes femininas sós, por vezes. Mas não sabemos se atacam ou não. Nem isso é da nossa conta.&lt;br /&gt;- Muito obrigado!&lt;br /&gt;E calou-se, o homem de preto.&lt;br /&gt;Alex perguntou discretamente ao cunhado o que se passara e perante a resposta, disse:&lt;br /&gt;- Muito bem! Quando vierem as moças temos de as avisar para não saírem acompanhadas quando este tipo cá estiver. Este gajo pode ser da polícia. Suspeito que a vaca da Sónia foi fazer queixa. Pelo menos é menina para isso.&lt;br /&gt;Os dias passaram, o jovem apareceu mais uma ou duas vezes e depois nunca mais lá foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decorria a segunda quinzena de Outubro e, uma manhã, Maria Helena descobriu, ao fazer a apalpação dos seios, que na mama esquerda tinha um pequeno talo. Ficou aflita e telefonou para a empresa do marido:&lt;br /&gt;- Tó Zé! Descobri que tenho no seio esquerdo um caroço. Estou muito preocupada – disse ela com a voz um tanto sumida.&lt;br /&gt;- Sim? Mas tem calma! Não comeces já a pensar o pior. Telefona para o Armando ou para a Inês porque o filho, o Zé Manel, é médico no Instituto de Oncologia, como tu sabes, e pode mexer as coisas de forma a seres vista rapidamente – aconselhou, sensatamente, o Costa Lima.&lt;br /&gt;- Então vou já telefonar para o Armando. Depois digo-te alguma coisa. Até já!&lt;br /&gt;- Até já, Lena! Um beijinho para ti! E tem calma! – despediu-se o homem.&lt;br /&gt;Lena nem pousou o auscultador. Ligou logo para o vizinho que ainda estava em casa.&lt;br /&gt;- Armando! Fala a Lena. Sabes que descobri agora um caroço no seio esquerdo? Fiquei em pânico! Será que posso ir ao IPO agora? O teu filho está lá? – disse, ansiosa, a mulher.&lt;br /&gt;- Calma, Lena! É muito grande, o nódulo? Só descobriste um? – quis saber o médico.&lt;br /&gt;- Acho que ainda não é muito grande e não apalpei mais nenhum – respondeu a mulher.&lt;br /&gt;- Isso é bom sinal! Esperas aí um pouco que eu vou falar com o Zé Manel. Se estás ansiosa, e parece-me que sim, toma um calmante dos que usas normalmente. Daqui a pouco já ligo contigo. E sossega que não vai ser nada de especial. Até já! – e o cardiologista, que já não tinha actividade hospitalar, desligou.&lt;br /&gt;Fez logo uma chamada para o telemóvel do filho que atendeu pouco depois.&lt;br /&gt;- Que foi, pai? Algum problema? – perguntou, de imediato, o mais novo.&lt;br /&gt;- Nada com a nossa família, mas a Lena detectou um nódulo numa mama. Está nervosíssima, como deves calcular, e quer ser vista aí no Instituto o mais depressa possível. Estou a ligar-te para saber se é possível – informou o Armando João Borges.&lt;br /&gt;- Podes cá vir agora? – perguntou o jovem médico.&lt;br /&gt;- Sim! Claro!&lt;br /&gt;- Então vem e trás a Lena. Depois de chegares à porta liga-me outra vez que eu vou buscar-vos e ainda hoje vemos do que se trata. Sabes que a rapidez nestas coisas é fundamental – elucidou o José Manuel.&lt;br /&gt;- Obrigado, filho! Então até já!&lt;br /&gt;Passada menos de meia hora, e já depois de a Maria Helena ter contactado novamente o marido que pretendeu ir ter com ela, mas disso foi demovido pelo amigo que lhe disse que só ía atrapalhar nesta fase, partiram no carro do velho médico para o IPO.&lt;br /&gt;Quando os três se reuniram à porta do Instituto de Oncologia, e depois de se cumprimentarem, o Zé Manel disse:&lt;br /&gt;- Oh pai! É melhor ficares aqui. Podemos contactar pelo celular, se necessário. Eu vou já providenciar que a Lena seja analisada e avaliada.&lt;br /&gt;Depois de uma apalpação feita por um outro médico foi conduzida, sempre pelo jovem vizinho, para ser objecto de uma mamografia. Como o resultado foi suspeito, foi submetida a uma ecografia cuja análise recomendou uma biopsia.&lt;br /&gt;Entretanto o filho contou ao pai que por sua vez falou com o amigo António José.&lt;br /&gt;Este deixou a empresa, apressado, não sem antes ter confidenciado à secretária Teresa o que se passava e avisado que certamente não viria mais nesse dia.&lt;br /&gt;Após alguma espera, a Maria Helena foi submetida a uma biopsia aspirativa e a uma série de outros exames para definir o estadiamento.&lt;br /&gt;Já eram mais de quatro da tarde quando foi dado o veredicto:&lt;br /&gt;Carcinoma requerendo tratamento cirúrgico com mastectomia, provavelmente parcial.&lt;br /&gt;A cirurgia ficou desde logo marcada para dois dias depois.&lt;br /&gt;Quando o jovem médico e a paciente se juntaram aos outros dois, uma crise de choro atacou a Maria Helena que abraçada ao marido, só dizia:&lt;br /&gt;- Vamos para casa! Vamos para casa!&lt;br /&gt;Entretanto o Dr. José Manuel Borges esclareceu os dois homens sobre a situação: parecia-lhe que não seria necessária uma mastectomia total, mas só durante a cirurgia seria tomada uma decisão definitiva.&lt;br /&gt;Também pensava que, provavelmente, não seria necessária radioterapia mas várias sessões de quimioterapia a definir posteriormente. Mas quasi podia garantir que era um caso curável e que mais tarde uma reconstrução mamária viria trazer a estabilidade definitiva.&lt;br /&gt;E os três dirigiram-se para a casa das Antas depois de sinceros agradecimentos do Tó Zé e da mulher ao jovem médico que tão bem orientara a Lena.&lt;br /&gt;Aí chegados, telefonaram sucessivamente ao Ricardo, à Ana Maria e ao Manel, visto que a Joana, talvez por estar em aulas, não atendia. E a notícia de que a Maria Helena tinha um cancro da mama e seria operada dois dias depois rapidamente chegou aos outros familiares e amigos mais íntimos.&lt;br /&gt;O dia da cirurgia calhava na quinta-feira em que o Manuel António e a Ana Maria se deveriam encontrar pela terceira vez. Esta telefonou-lhe:&lt;br /&gt;- Manel! Já sabes que quinta-feira a mamã vai ser operada, portanto aquilo fica sem efeito.&lt;br /&gt;- Claro! Nem poderia ser de outra maneira. Estás boa? – falou o homem.&lt;br /&gt;- Estou mais ou menos, como todos nós. Mas o prognóstico parece ser razoável. Sabes que no dia seguinte começo o período menstrual. Com esta situação inesperada e desagradável se calhar vai haver um atraso, mas depois te manterei ao corrente. Tens direito a saber tudo – disse.&lt;br /&gt;- Obrigado pela consideração com que me tratas. Vemo-nos na quinta, mas desta vez no IPO, lamentavelmente – lastimou o homem.&lt;br /&gt;- É assim! Mas estou confiante que a mamã vai recuperar. Olha! Vou desligar. Beijos, Manel – despediu-se a mulher.&lt;br /&gt;- Beijos para ti, Ana, muitos – e o professor desligou.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116447831782967364?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116447831782967364/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116447831782967364' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116447831782967364'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116447831782967364'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/11/uma-famlia-burguesa-parte-xix.html' title='Uma família burguesa - parte XIX'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116429952637847926</id><published>2006-11-24T13:15:00.000Z</published><updated>2006-11-24T13:43:25.500Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte XVIII</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Três semanas depois do primeiro encontro clandestino, dentro do automóvel, entre Ana Maria e Manuel António, novamente a uma quinta-feira o professor acomodou o carro no escondido parque de estacionamento da residencial e aguardou. Estava ansioso por este segundo encontro de alcova. Da primeira vez ficara de tal modo satisfeito que agora nem se lembrava que o objectivo era bem diferente de uma hora e meia ou duas de prazer. Mas era na cunhada que ele pensava, nas manifestações de carinho que lhe dedicara, nos pedidos de afecto que lhe pedira, na carência que demonstrara. E como ele gostara de a acariciar, de a beijar, de a saciar.&lt;br /&gt;Passados uns dez minutos chegou a Ana Maria. Arrumou o carro e ambos se apearam. Cumprimentaram-se com um beijo nos lábios e subiram pela escada das traseiras até à recepção.&lt;br /&gt;Ao fim de poucos minutos entraram novamente no quarto 108, o mesmo da outra vez, e abraçaram-se com força, muita força. A mulher sentiu que o Manel já estava excitado e procurou avidamente a sua boca. E beijaram-se apaixonadamente durante algum tempo, com intervalos para ganharem novo fôlego e recomeçarem.&lt;br /&gt;Estavam ainda vestidos quando caíram sobre o leito.&lt;br /&gt;Manuel António levantou-se e foi baixar um pouco a persiana para deixar o quarto mais na penumbra. Ela continuou deitada na cama, virada para cima.&lt;br /&gt;- Vou-me despir e depois dispo-te a ti – disse ele.&lt;br /&gt;E rapidamente se despojou da roupa que espalhou por todo o lado; ele, que costumava ser muito arrumadinho. Mas o desejo era tanto...tanto...&lt;br /&gt;Começou a retirar a roupa da parceira, a beijá-la na cara, nos ombros, nos seios que chupou até ela sentir uma mistura de dor com prazer intenso, no ventre, nas coxas...e foi descendo até aos pés. Depois subiu novamente até parar os lábios no monte de Vénus. Usou a língua com mestria para fazer com que a mulher, já totalmente humedecida, começasse a soltar gemidos de gozo. Mas ele não parava. Parecia um louco de amor. A mulher estremecia, abanava, agarrava-lhe a cabeça até que suplicou:&lt;br /&gt;- Meu amor! Mete! Mete agora!&lt;br /&gt;Ele, apesar de um tanto anafado, num salto pôs-se de joelhos abertos diante dela, abriu-lhe as pernas e num só golpe penetrou-a totalmente. Agora já não eram dois corpos, era só um. E os gemidos de ambos também se misturavam. A frequência com que eles mexiam as ancas foi aumentando, com os gemidos a converterem-se em gritos e sons guturais até ao êxtase.&lt;br /&gt;Depois foram os corpos exangues a tombarem e ficarem inertes durante uns minutos. Poucos, porque as carícias recomeçaram com os dois bem abraçados.&lt;br /&gt;- É tão bom sentir-me tua, meu amor! – disse ela.&lt;br /&gt;- Bom demais, minha querida! – confessou ele.&lt;br /&gt;E assim permaneceram mais algum tempo: em silêncio, entrecortado aqui e além por palavras de elogio e amor sussurradas, com as mãos e os lábios a aumentarem de novo a sua actividade.&lt;br /&gt;- Ana Maria! Dá-me um filho! Quero um filho teu! – disse, em voz alta, o homem.&lt;br /&gt;Ela olhou-o nos olhos e com um sorriso matreiro perguntou.&lt;br /&gt;- Mas quando ficar grávida estes nossos encontros vão acabar. Foi o combinado, não foi?&lt;br /&gt;Ele suspirou fundo e respondeu:&lt;br /&gt;- Sim! Foi o combinado. Mas...não sei, não! Não fales nisso agora. Sim, meu amor?&lt;br /&gt;- Pronto! Eu não toco mais no assunto. Vou ao quarto de banho tomar um duche e venho já.&lt;br /&gt;- Eu também vou tomar banho – disse ele, por sua vez.&lt;br /&gt;- Então tomamos juntos! – decidiu ela enquanto se levantava dengosamente.&lt;br /&gt;Pouco depois estavam ambos no chuveiro.&lt;br /&gt;- Já estás preparado para mais, Manel? Ah...grande homem! – exclamou a Ana Maria.&lt;br /&gt;- Até eu estou espantado com a rapidez com que recuperei. Tu és verdadeiramente um afrodisíaco – disse o professor.&lt;br /&gt;- Somos! Acho que fomos feitos um para o outro! – afirmou a mulher.&lt;br /&gt;Mas ele não respondeu. Agarrou-a e deitaram-se na banheira.&lt;br /&gt;- Aqui não dá muito jeito. Vamos para o quarto, mesmo molhados – desejou ela.&lt;br /&gt;- Vamos lá!&lt;br /&gt;Enxugaram-se mal e rapidamente antes de mergulharam no leito.&lt;br /&gt;Ele ficou nu, voltado para cima, erecto.&lt;br /&gt;Ela debruçou-se sobre ele e iniciou um &lt;em&gt;felatio&lt;/em&gt; com uma sabedoria de profissional. Mas com muito amor, também. Oh mistura explosiva! O professor era agora aluno. De olhos fechados mas com um leve sorriso, disse.&lt;br /&gt;- Assim não dá para engravidar!&lt;br /&gt;- Não me faças rir pois não consigo fazer-te gozar como eu quero.&lt;br /&gt;- Não digo mais nada – rematou ele.&lt;br /&gt;E, ao fim de alguns minutos, ele grunhiu e depois ficou como morto. Morto de prazer.&lt;br /&gt;Ainda ficaram mais algum tempo no quarto.&lt;br /&gt;Junto à porta, e antes de saírem do ninho de amor, deram um último e profundo beijo para terminar a segunda sessão de procriação.&lt;br /&gt;- Sabes que na quinta da semana passada foi o meu dia de ovulação? Quem sabe se... – disse ela baixinho.&lt;br /&gt;- Quem sabe, Ana! Quem sabe!&lt;br /&gt;- E o ter deixado recentemente de tomar a pílula pode facilitar – concluiu a cunhada do Manuel António&lt;br /&gt;E saíram em silêncio, caminhou cada um para a sua viatura e deixaram o local de parqueamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As quatro meretrizes contratadas para angariarem clientes no “Borda d’água” começaram a aparecer logo na noite seguinte. Raramente compareciam todas, pois algumas tinham outros esquemas no âmbito da prostituição.&lt;br /&gt;Eram a cabeleireira Sónia, que usava o nome Vanessa, com 22 anos, a balconista Ana Rosa, Andreia como nome de guerra, com 25 anos, Fátima, que se mascarava de Cátia, com 24 anos e Lurdes que manteve o nome verdadeiro, de 21 anos, sendo estas desempregadas.&lt;br /&gt;Quem raramente faltava era a Sónia, pois conseguiu que o Alexandre a fosse buscar quasi todos os dias ao pequeno apartamento que partilhava com uma amiga.&lt;br /&gt;Não demorou muito que entre os dois surgisse um relacionamento e ele passou também a levá-la de regresso a casa.&lt;br /&gt;Apesar de todas as cautelas serem tomadas para camuflar o mais possível esta nova vertente do negócio, naturalmente que Alzira rapidamente se apercebeu da situação. Mas nada disse, pois o dinheiro que recebia certinho dos patrões fazia-lhe muita falta e, de facto, o ambiente não se apresentava visivelmente prostituído.&lt;br /&gt;Naturalmente que ela e o Francisco também se aperceberam da relação do Alex com a Sónia, mas como no bar quasi se ignoravam, ninguém se meteu no assunto.&lt;br /&gt;Esta nova actividade rapidamente começou a dar frutos pois as moças contratadas eram novas e atraentes, apesar da discrição das roupas que usavam e mesmo da postura pouco exuberante e matadora. Nisso, Francisco era um zelador atento.&lt;br /&gt;A balconista Ana Rosa aparecia poucas vezes, normalmente uma vez por semana, mas as outras eram suficientes para entregarem mais uns bons cobres no saco azul dos patrões. Raramente estavam lá mais de uma ou duas porque, ou faltavam, ou saíam discretamente com clientes para executarem a sua tarefa nos quartos de uma residencial da zona. Por vezes não estava nenhuma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francisco Torres costumava almoçar, aos sábados, num restaurante com a filha Cláudia. Esta esta não aceitava, em grande parte por pressão da mãe, ir a casa do pai para não ter de enfrentar a Marina. Por vezes, também o meio-irmão Marco António acompanhava o Chico para poder estar com a irmã, havendo uma boa relação entre eles.&lt;br /&gt;Num desses sábados, Sónia foi almoçar com um cliente, um viúvo relativamente abastado, e viu o Francisco e a Cláudia noutra mesa um tanto afastada. Foi propositadamente às instalações sanitárias e estranhou que o patrão estivesse com uma rapariga tão jovem. No regresso, olhou particularmente para a moça e reconheceu-lhe o rosto. De imediato não se lembrou de onde seria mas, passado pouco tempo e algumas espreitadelas, pensou:&lt;br /&gt;- Ah! Já sei! É a filha da D. Ana Maria que é cliente lá no salão. E a mocinha já lá tem ido. Será que o Francisco é pai dela?&lt;br /&gt;Quando reencontrou Alex perguntou-lhe:&lt;br /&gt;- O teu sócio Francisco tem uma filha com uns catorze ou quinze anos?&lt;br /&gt;- Tem! Ele foi casado com uma tal Ana Maria e do casamento nasceu uma filha que tem essa idade, mais ou menos, e se chama Cláudia. Mas porque perguntas? – quis saber o homem.&lt;br /&gt;- Porque hoje os vi a almoçar juntos – respondeu ela.&lt;br /&gt;- Ah! – exclamou o irmão de Marina sem dar qualquer importância ao caso.&lt;br /&gt;Mas Sónia começou a magicar:&lt;br /&gt;- Duvido que a antiga mulher do Francisco saiba como funciona o bar, agora. Talvez ainda possa ganhar um dinheirinho se tiver uma conversa de pé de orelha com ele.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116429952637847926?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116429952637847926/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116429952637847926' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116429952637847926'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116429952637847926'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/11/uma-famlia-burguesa-parte-xviii.html' title='Uma família burguesa - parte XVIII'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116403473353413545</id><published>2006-11-22T12:50:00.000Z</published><updated>2006-11-22T14:07:18.906Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte XVII</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Sexta-feira, antes do almoço, Francisco Torres foi buscar as respostas ao jornal.&lt;br /&gt;Trouxe vinte e oito cartas.&lt;br /&gt;- Não esperava receber tantas – pensou.&lt;br /&gt;Nessa tarde, o seu trabalho no stand de venda de automóveis foi abrir, ler e classificar as missivas.&lt;br /&gt;Desde logo começou a separar algumas que não se enquadravam no perfil que imaginara para as meninas do “Borda d’água”.&lt;br /&gt;Seis eram brasileiras, duas ucranianas, uma russa, duas moçambicanas e três angolanas. Estas foram logo eliminadas pois, sendo estrangeiras, dariam mais nas vistas, especialmente à polícia. Depois eliminou três que indicavam ter trinta e tal anos mas, provavelmente, teriam quarenta ou mais, pensou. Uma outra foi despachada porque praticamente não sabia escrever.&lt;br /&gt;Restaram dez.&lt;br /&gt;Todas elas tinham entre vinte e vinte e oito anos (pelo menos era o que diziam nas cartas) sendo: três cabeleireiras, quatro desempregadas, duas balconistas e uma estudante.&lt;br /&gt;Lidos e relidos os papéis, acabou por considerar que estas deveriam ser as entrevistadas e seria isso que iria propor ao sócio Alexandre Pimenta.&lt;br /&gt;Quando chegou ao bar já ele lá estava. Fez um sinal para o cunhado e sentou-se na mesa mais ao fundo enquanto a Alzira ía limpando a outra ponta da sala.&lt;br /&gt;O Alex colocou-se ao seu lado. Confirmou que a empregada estava concentrada no seu trabalho e disse baixinho:&lt;br /&gt;- Recebemos vinte e oito cartas. Já separei estas dezoito que não me parecem ter interesse e tenho aqui estas dez que penso merecem ser chamadas para uma entrevista – relatou ao irmão da mulher.&lt;br /&gt;Este pegou nas cartas e analisou-as durante algum tempo. Finalmente falou:&lt;br /&gt;- Concordo! Agora temos de lhes telefonar pois parece-me que todas deixaram o contacto de telemóvel.&lt;br /&gt;- Deixaram, sim! E onde fazemos as entrevistas? E quando? – inquiriu o Chico.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Não sei se será muito conveniente meter a Marina nisto, embora eu pense que ela gostava de dar o seu palpite.&lt;br /&gt;- Claro que gostava! Mas devemos ser só nós quem faz a selecção. Ela depois pode vir cá para confirmar que o ambiente continua a ser igual ao actual. As entrevistas devem começar o mais depressa possível. Onde? Perguntas bem! Aqui, com a Alzira e clientes, não dá. Em tua casa também não. Na minha, está lá a minha velha: não dá! Só vejo uma possibilidade: no dia de folga – disse o Alex esperando a reacção do sócio.&lt;br /&gt;- Pois sim! Portanto, na segunda. Deixa-me pensar! Das sete à meia-noite. Estamos cá os dois e acho que meia hora é suficiente para cada uma – especificou o Francisco.&lt;br /&gt;Mas, de repente, lembrou-se do terceiro sócio.&lt;br /&gt;- E o Gilberto? Já lhe disseste alguma coisa?&lt;br /&gt;- Já tinha falado com ele ainda no tempo do Renato e não rejeitou a ideia. E agora, quando lhe dei o recibo do jornal, abordei o assunto. Ele só quer que haja uma discrição total – falou o Alexandre.&lt;br /&gt;- Óptimo! – disse o Chico – E o que se segue?&lt;br /&gt;- Agora pegamos num papel, escrevemos o nome, idade, profissão e número de telefone de cada gaja e vamos contactá-las uma a uma. Marcamos para segunda dentro do horário combinado e cada uma vem na sua hora.&lt;br /&gt;- Ok! Vamos então trabalhar! E a Alzira? – interrogou o maioritário.&lt;br /&gt;- Um de nós vai fazer isso para a esplanada ali no largo de forma que ninguém ouça. O outro fica aqui a preparar as coisas para logo. Hoje é sexta e deverá vir mais gente. Se calhar é melhor seres tu a telefonar que falas melhor do que eu – disse o cabeça rapada.&lt;br /&gt;- Certo! Então deixa-me levar um bloco e as dez respostas.&lt;br /&gt;E pouco depois o Chico saía.&lt;br /&gt;Nessa noite nem foi jantar a casa. Disse à mulher o que estavam a fazer e esta pareceu não ficar muito satisfeita mas, depois de esclarecer que a ideia de que ela não interviesse na escolha tinha sido do mano, a Marina amoleceu.&lt;br /&gt;Cerca de uma hora e meia depois regressou ao bar:&lt;br /&gt;- Não consegui falar com três: duas cabeleireiras e uma desempregada. A estudante perguntou se era para atacar e desistiu. Está aqui a listas das seis candidatas e a hora a que aparecem. A primeira é uma cabeleireira de vinte e dois anos chamada Sónia que vem às sete pois nesse dia tem folga – falou baixinho enquanto estendia o papel ao sócio.&lt;br /&gt;- Então temos seis! São suficientes. Se for necessário, depois tentamos contactar as outras...três, não é? – disse o Alexandre.&lt;br /&gt;- Exactamente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda-feira às sete da tarde já lá estavam os dois homens.&lt;br /&gt;Passado pouco tempo tocaram à porta.&lt;br /&gt;- Eu vou abrir! – disse o Alex.&lt;br /&gt;Logo entrou uma morena, nem alta nem baixa, cabelo muito negro e muito curto, uma boca grande com lábios grossos e dentes muito brancos e muito certos que deixavam antever o sangue africano que lhe corria nas veias. Era ligeiramente para o forte mas bem constituída e curvilínea.&lt;br /&gt;- Pode sentar-se aqui – e o Alex apontou-lhe a mesa onde já estava o Francisco.&lt;br /&gt;- Com licença! Obrigada!&lt;br /&gt;- Então como é que se chama?&lt;br /&gt;- O meu nome verdadeiro é Sónia Filipa Soares Silva, trabalho numa cabeleireira e tenho vinte e dois anos.&lt;br /&gt;- Eu vou-lhe dizer o que pretendemos de si – disse o Alexandre, passando a explicar.&lt;br /&gt;- A discrição no vestir e no comportamento é fundamental, percebe? – interveio, por duas ou três vezes, o outro.&lt;br /&gt;Finalmente, a rapariga falou:&lt;br /&gt;- Já não é a primeira vez que faço este tipo de trabalho. A vida está má e temos de fazer por ela. Aceito o trabalho, que é como quem diz, ser uma cliente assídua do bar – e riu-se.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Eu não tenho carro. Não me podem pagar o táxi?&lt;br /&gt;- Qualquer pagamento da nossa parte está fora de questão, – respondeu prontamente o Alex – m&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;as oferecemos uma sandes e uma bebida por noite.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Mas se morar perto, podemos pensar na possibilidade de algumas vezes a ir buscar. Onde mora? – quis saber o irmão da Marina.&lt;br /&gt;- Moro em Sá da Bandeira com uma colega. Mas às vezes posso vir do trabalho para aqui. O salão onde estou é nas Antas.&lt;br /&gt;- Sá da Bandeira fica-me a jeito; as Antas não! Mas depois falamos melhor nisso. Primeiro quero conversar com as outras candidatas – matou o assunto o Alex.&lt;br /&gt;- Mas ainda não estou aceite? – inquiriu, com algum espanto, a jovem.&lt;br /&gt;- Está! Está! – disse o Alexandre.&lt;br /&gt;A conversa não demorou muito mais. Sónia fez questão de que passassem a chamar-lhe Vanessa no bar. Despediu-se, dizendo:&lt;br /&gt;- Então amanhã cá estarei!&lt;br /&gt;Durante o resto da noite ouviram mais quatro mulheres, tendo chegado a acordo com três delas. Uma das desempregadas não pretendia prostituir-se; respondera porque pensara que se tratava de um trabalho de alternadeira. Uma das balconistas faltou. Ficaram portanto: a cabeleireira, uma balconista e duas desempregadas.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116403473353413545?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116403473353413545/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116403473353413545' title='25 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116403473353413545'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116403473353413545'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/11/uma-famlia-burguesa-parte-xvii.html' title='Uma família burguesa - parte XVII'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>25</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116386043964936348</id><published>2006-11-19T15:25:00.000Z</published><updated>2006-11-19T15:51:43.776Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte XVI</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Chegado ao bar, com pouca frequência nessa noite, Alex chamou o cunhado à parte e disse-lhe:&lt;br /&gt;- Oh Chico! Eu acho que precisamos de introduzir aqui qualquer coisa que nos permita ganhar mais dinheiro.&lt;br /&gt;- Já tenho pensado nisso! Agora só trabalho em “part-time” nos automóveis para estarmos aqui os dois à noite e não haver necessidade de mais empregados para além da Alzira. Mas o negócio dá pouco. Ganhava mais a trabalhar a tempo inteiro no stand do que actualmente. E já tenho uma ideia que me parece boa! Contratar um pianista e tornar isto num &lt;em&gt;piano bar&lt;/em&gt; – avançou o homenzarrão.&lt;br /&gt;- E temos de pagar ao pianista um balúrdio! A casa é pequena e, provavelmente, mesmo cheia não aumentaria os lucros em muito – falou o Alex.&lt;br /&gt;- Sim! Não sei! Fazendo umas contas... – balbuciou o Francisco.&lt;br /&gt;- Pois eu tenho aqui (e apontou com o indicador da mão direita para a testa) uma ideia muito melhor! – aguçou a curiosidade do interlocutor.&lt;br /&gt;- Então diz!&lt;br /&gt;- Um momento! Vou atender aquele cliente e já te conto! – e o sócio menor dirigiu-se a uma das mesas.&lt;br /&gt;Pouco depois:&lt;br /&gt;- Olha, Chico! O que eu proponho para que o negócio nos dê dinheiro é termos aqui umas meninas...&lt;br /&gt;E repetiu o que dissera a Marina.&lt;br /&gt;A reacção do Francisco, depois de um repúdio inicial, acabou por ser bastante favorável.&lt;br /&gt;- Eu acho uma boa ideia! Desde que elas se comportem como clientes normais, evidentemente. Não quero que isto tenha nenhuma parecença com uma casa de tias – comentou.&lt;br /&gt;Mas prosseguiu:&lt;br /&gt;- O pior vai ser convencer a minha mulher!&lt;br /&gt;- Deixa isso por minha conta! Sabes? Estava à espera que tu reagisses de forma negativa. Mas vejo que tens visão para o negócio! – elogiou o cabeça rapada.&lt;br /&gt;- Mas há outras coisas! Nada de estrangeiras porque dão logo a ideia de redes de mulheres e a polícia pode começar a cocar.&lt;br /&gt;- Sem dúvida! – concordou o Alex.&lt;br /&gt;- E podemos ser levados pelas gajas. – lembrou o Chico – Elas saem com um cliente uma vez, nós recebemos a comissão e depois passam a encontrar-se com ele sem ser através do bar. E lá se vão as comissões.&lt;br /&gt;- Pois! Isso é sempre um problema, mas não há nada como fazer umas ameaças de porrada e estar atento. Quando alguma for suspeita vai de vela e entra outra. Temos de ter umas três ou quatro efectivas e uma lista com suplentes – disse, resoluto, o irmão da Marina.&lt;br /&gt;- Por mim começava já a procurar as moças – disse o sócio principal.&lt;br /&gt;- Não te esqueças de que é preciso convencer a tua mulher. Fala com ela e diz-lhe da nossa conversa, que estás relutante porque não sabes se ela tem confiança suficiente em ti, porque doutra forma já terias decidido. Topas? Diz-lhe que ela pode aparecer aqui quando quiser se tiver alguma suspeita. E fala-lhe no dinheiro que vai render. Ela é pior por dinheiro do que o porco por landras. Se se mantiver reticente, eu convenço-a!&lt;br /&gt;- Está bem! – anuiu o calmeirão – E não vamos redigir já um anúncio?&lt;br /&gt;- Vai tu pensando nisso enquanto eu presto atenção à clientela – apoiou o Alexandre.&lt;br /&gt;E o Francisco Torres pegou num bloco de papel, numa esferográfica, sentou-se ao balcão, foi buscar um fino e começou a fazer a redacção:&lt;br /&gt;Ao fim de poucos minutos tinha escrito:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Raparigas jovens&lt;br /&gt;Para actividade em part-time num bar&lt;br /&gt;Guarda-se sigilo&lt;br /&gt;Resposta ao nº xxx da Redacção&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Chamou o Alex.&lt;br /&gt;- Já escrevi isto. Que achas? – perguntou o Chico.&lt;br /&gt;- Está bem! Mas porque não pomos o número de um telemóvel?&lt;br /&gt;- Porque nos denunciávamos com mais facilidade – respondeu o marido de Marina.&lt;br /&gt;- Tens razão! Assim só os tipos do jornal ficam a saber. Estás a ficar um às nestas coisas – elogiou o cunhado.&lt;br /&gt;- E pelos tipos de resposta e caligrafia já ficamos com uma ideia do nível de estudos. Elas devem saber falar minimamente.&lt;br /&gt;- Muito bem! E pela Internet? Não achas que vale a pena? – perguntou o sócio minoritário.&lt;br /&gt;- Não sei muito bem como essas coisas funcionam na Net. Lembra-te que não nos serve qualquer coisa. Se houver poucas respostas ou mesmo nenhuma, então teremos de seguir outra via menos clássica – disse, ufano, o Francisco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, o marido de Marina foi ao Jornal de Notícias colocar o anúncio para ser publicado no sábado e no domingo. Fê-lo antes de almoço para não ter de chegar atrasado ao stand onde, agora, só trabalhava quatro horas, começando às duas da tarde.&lt;br /&gt;Quando chegou a casa, não teve coragem de falar no assunto à mulher que já lá estava, mas esta não aguentou e disse:&lt;br /&gt;- Oh Chico! O meu irmão não falou contigo a propósito de meter umas meninas no bar?&lt;br /&gt;- Ah...é verdade! Eu acho que é uma boa sugestão para aumentar os lucros, mas pensei que tu poderias não gostar e resolvi dizer que não! Quero preservar o nosso casamento acima de tudo – mentiu o Chico.&lt;br /&gt;- Olha que eu estive a pensar e acho que não é má ideia. Desde que conduzida com cautelas e muita discrição – disse ela.&lt;br /&gt;O homem até se engasgou com o que acabara de ouvir, mas acabou por dizer:&lt;br /&gt;- Então o teu irmão já tinha falado contigo! O patife não me disse nada! – desabafou, agastado.&lt;br /&gt;- E convenceu-me! Mas gosto muito da tua atitude em relação à família. No entanto, se o problema for só esse, podes avançar. Eu sei como evitar chatices cá em casa – disse, confiante, a mulher.&lt;br /&gt;- Então, se tu não vês problemas, eu vou falar com o Alex para discutir outra vez o assunto. Mas não quero ver-me ou ver a família na lama. É um ponto fundamental. E ainda há a minha filha Cláudia. Espero que ela nunca venha a saber de nada – mostrou-se preocupado, o homem.&lt;br /&gt;- Ela só sabe se tu lho disseres! – ripostou a mulher.&lt;br /&gt;- Nunca se sabe! Nunca se sabe! – terminou o marido.&lt;br /&gt;Nessa noite, o Francisco Torres mostrou o seu desagrado ao cunhado por este ter falado com a mulher.&lt;br /&gt;Este respondeu:&lt;br /&gt;- Mas tu achas que se eu não tivesse intervindo ela teria aceite?&lt;br /&gt;- Provavelmente, não! – condescendeu o pachola.&lt;br /&gt;- Estás a ver?! Entregaste o anúncio? – perguntou o cabeça rapada.&lt;br /&gt;- Claro! – respondeu o Chico – e tenho aqui o recibo para dar ao Gilberto.&lt;br /&gt;- E quando é que podemos ir buscar as respostas?&lt;br /&gt;- Vou lá na sexta-feira – respondeu o sócio bonacheirão.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116386043964936348?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116386043964936348/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116386043964936348' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116386043964936348'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116386043964936348'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/11/uma-famlia-burguesa-parte-xvi.html' title='Uma família burguesa - parte XVI'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116360359911114281</id><published>2006-11-16T14:20:00.000Z</published><updated>2006-11-16T14:25:18.110Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte XV</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;No dia seguinte ao do encontro secreto entre Ana Maria e Manuel António, este telefonou à cunhada.&lt;br /&gt;- Olá, Ana Maria!&lt;br /&gt;- Olá, Manel!&lt;br /&gt;- Estive a pensar na tua proposta. A decisão já está tomada e foi mais fácil do que eu supunha, por isso quero-te dizer que estou disposto a ir para a frente com a ideia.&lt;br /&gt;- Eu tinha a certeza que a tua resposta iria ser sim – disse ela com um largo sorriso nos lábios.&lt;br /&gt;- Mas agora não quero dizer mais nada ao telefone. Podemos encontrar-nos no mesmo local e à mesma hora depois de amanhã para conversarmos? – perguntou o candidato a pai.&lt;br /&gt;- Está bem!&lt;br /&gt;- Então, até lá! Um beijinho.&lt;br /&gt;- Um beijo também para ti – despediu-se a cunhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na quinta-feira seguinte à da primeira conversa, repetiu-se o ritual.&lt;br /&gt;Já dentro da viatura do marido de Joana, Ana Maria começou:&lt;br /&gt;- Ao tomar essa decisão mostraste ser um homem de coragem, Manel!&lt;br /&gt;- Não tenho dúvidas que sim pois há o risco de sermos descobertos o que não me agradaria nada. Já tens ideia de como vamos fazer? – perguntou ele, mostrando que a mulher comandava a situação.&lt;br /&gt;- Já! – respondeu ela.&lt;br /&gt;- Imaginava que sim. – disse o homem – Então diz lá!&lt;br /&gt;- Primeiro deixa-me dizer-te que eu tomava o contraceptivo oral, a pílula, como é mais conhecida, mas até já deixei de o fazer. Vê bem a confiança que tinha sobre qual a tua opção – e riu-se, provocando um largo sorriso no cunhado.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Penso que as quintas-feiras de tarde, depois de almoço...enfim, de uma refeição ligeira, são os dias indicados. O local pode ser uma hospedaria muito jeitosa, limpa e com estacionamento bem escondido que há na rua de Antero de Quental. Depois dou-te o endereço. Se a gravidez não aparecer ao fim de um tempo razoável, poderemos pensar em aumentar a frequência, mas sem correr riscos.&lt;br /&gt;- Muito bem! Estou totalmente de acordo. – disse o Manel – Mas quero referir-te de novo os outros dois perigos que também temos de minimizar a todo o custo: um deles é continuarmos a relação para além da gravidez e o outro é tu, depois de dares à luz, não quereres abandonar a criança. Temos de nos comprometer a que isso não acontecerá.&lt;br /&gt;- Sabes em que sou psicologicamente forte e cumprirei integramente o acordado. E tu também o farás, tenho a certeza – disse a mulher.&lt;br /&gt;Ana Maria deu o endereço da residencial, combinou mais uns detalhes com o Manuel António e despediu-se com dois beijos:&lt;br /&gt;- Agora até é apropriado que dêmos beijos – e deu uma risada que transparecia felicidade.&lt;br /&gt;E foi cada qual para o seu destino.&lt;br /&gt;Na segunda quinta-feira de Outubro ocorreu o primeiro encontro íntimo e clandestino entre Manuel António e a cunhada Ana Maria.&lt;br /&gt;Tudo decorreu de forma muito mais intensa, quer afectiva quer sexualmente, do que uma mera e fria sessão de procriação.&lt;br /&gt;À saída, o professor universitário estava muito calado.&lt;br /&gt;- Que se passa, Manel? Estás mudo e quedo! Mas pareceu-me que ficaste bastante satisfeito – provocou-o ela.&lt;br /&gt;- Pois! O problema é esse!&lt;br /&gt;E não disseram mais nada até entrarem nos veículos e saírem do local de estacionamento com intervalo de uns dois ou três minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa noite de finais de Setembro, Alex telefonou ao Chico a dizer que chegaria ao bar um pouco mais tarde. Entretanto já havia combinado encontrar-se com a irmã em casa da mãe de ambos, a Maria Amélia.&lt;br /&gt;Não estiveram muito tempo lá dentro pois o homem já tinha avisado a Marina de que queria falar com ela em privado.&lt;br /&gt;Deixaram a habitação e entraram para o carro dele.&lt;br /&gt;- Então diz lá porque queres falar comigo tanto em segredo – perguntou a mulher.&lt;br /&gt;E ele começou:&lt;br /&gt;- Sabes que o negócio do bar, que é uma casa pequena, dá algum dinheiro mas nada de especial. Eu acho que seria muito mais lucrativo se contratássemos duas ou três raparigas novas e jeitosas que fossem lá todas as noites e pudessem sair com os clientes que quisessem passar uns momentos mais agradáveis.&lt;br /&gt;- Mas tu queres fazer daquilo uma casa de putas? – disse, com má cara, a Marina.&lt;br /&gt;- Não é isso!&lt;br /&gt;- Claro que é! E o Francisco às tantas começava também a sair com as gajas. Tu não estás bom da cabeça! – reagiu a roliça loira.&lt;br /&gt;- Não te comeces a enervar senão ficas com o raciocínio toldado. Eu já tenho esta ideia há muito tempo. Quando estava lá o Renato ele nunca quis alinhar e, assim, o bar nunca passou da cepa torta. Eu quis que o Chico se tornasse sócio porque é um tipo mais moldável e aceita as ideias dos outros com mais facilidade. Então se forem tuas ou se tu as apoiares...&lt;br /&gt;- Eu não apoio nada disso, Alex! – a irmã interrompeu o discurso do homem da cabeça rapada.&lt;br /&gt;- Tem calma e deixa-me concluir! – prosseguiu o Alexandre Pimenta – Como dizia, penso que o Chico é mais flexível, sobretudo se tu o convenceres.&lt;br /&gt;- Mas a que propósito o hei-de convencer a montar uma casa de meninas?&lt;br /&gt;- Não é casa de meninas! Não serão empregadas! Serão jovens estudantes ou trabalhadoras, não ligadas a redes, que precisem de fazer um dinheiro extra para serem mais independentes financeiramente. Vão lá para fazerem mais uns cobres. Claro que nos darão um valor em euros por cada saída. Assim ganhamos a dois carrinhos: mais clientes e a comissão das meninas. E olha que só assim é que poderemos fazer mais dinheiro com o bar. Tu talvez não precises muito, mas podes vir a precisar, e eu preciso mesmo – continuou a explicação, o homem.&lt;br /&gt;- Isso não me cheira nada bem! E a polícia?&lt;br /&gt;- Que tem a polícia? Elas são clientes como os outros. E terão de se vestir de forma não provocatória para não dar muito nas vistas.&lt;br /&gt;- E o Francisco qualquer dia embeiça por uma dessas gajas e gasta os lucros todos com ela. Os lucros e muito mais – continuou a reticente Marina.&lt;br /&gt;- Não te preocupes! Eu tomo conta dele! E tu sabes muito bem como impedi-lo de se atirar às raparigas. Puxas pelo Chico muito bem e ele nem fica com forças para tentar. – continuou a argumentar o Alex – Só assim é que vale a pena ter o negócio!&lt;br /&gt;- Tu és lixado! Já tinhas essa filada e caladinho que nem um rato – comentou a Marina.&lt;br /&gt;- Sabes que é melhor agir do que falar – disse, rindo, o irmão.&lt;br /&gt;- Olha! Tenho de ir embora porque o Marco ficou lá agarrado aos jogos do computador e amanhã tem aulas e eu quero que se deite cedo. Depois falamos sobre isso, outra vez – e, dando um beijo ao mano, saiu do carro.&lt;br /&gt;- Olha! Mas pensa bem no assunto! O sucesso financeiro do bar está nas tuas mãos. Se tomares a decisão errada, qualquer dia aquilo fecha. Eu, entretanto, vou falando ao teu homem para ver como ele reage – rematou o homem.&lt;br /&gt;- Está bem! Depois falamos! – e Marina dirigiu-se para a sua viatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O “Borda d’água” é um pequeno bar na zona histórica do Porto, perto da Ribeira e, portanto, perto do Douro.&lt;br /&gt;Da fachada estreita, desenvolve-se em profundidade, e quem entra vê à direita o balcão com oito bancos e, meia escondida, uma &lt;em&gt;kitchenette&lt;/em&gt;. As madeiras de cor castanho escura predominam, criando um ambiente de algum requinte. Do lado esquerdo estende-se um sofá ao longo de toda a parede mais seis mesas rectangulares com muito vidro e uns banquinhos, sendo estes também em couro artificial. O traço da decoração é fundamentalmente linear. Um som de fundo com músicas suaves gravadas e uma mistura de iluminação directa e indirecta, tornam-no num cantinho aprazível.&lt;br /&gt;Dos três sócios, Francisco Torres e Alexandre Pimenta fazem o serviço de bar e de mesa. Gilberto Silva permanece mais nos bastidores, tratando da contabilidade e da maioria das compras, poucas vezes lá indo à noite.&lt;br /&gt;O bar tem uma empregada com cinquenta e tal anos que faz as limpezas e prepara alguns petiscos: a Alzira. É relativamente alta e magra e o pouco dinheiro que aufere não lhe permite esconder as cãs, já abundantes.&lt;br /&gt;Abre às oito da noite e fecha às duas.&lt;br /&gt;Não serve refeições, limitando-se a fornecer aos clientes, para além dos cafés e derivados, uma variada gama de bebidas, nomeadamente alcoólicas, umas sandes, enchidos, queijos, croquetes e bolos de bacalhau, e mais algumas coisitas para enganar a fome. Aperitivos salgados, tremoços e amendoins também estão sempre presentes como oferta da casa.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116360359911114281?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116360359911114281/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116360359911114281' title='24 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116360359911114281'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116360359911114281'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/11/uma-famlia-burguesa-parte-xv.html' title='Uma família burguesa - parte XV'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>24</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116343183002745246</id><published>2006-11-13T15:25:00.000Z</published><updated>2006-11-13T16:02:48.563Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte XIV</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Primeira metade de 2006.&lt;br /&gt;Francisco Torres e Marina Pimenta continuavam a trabalhar no stand de venda de automóveis novos e usados do qual o homem era sócio.&lt;br /&gt;Mas o negócio estava um tanto parado.&lt;br /&gt;Em casa, Marina, depois de acabarem de jantar mas ainda sentados à mesa, falou:&lt;br /&gt;- Oh Chico! Eu tenho estado a pensar se não será melhor venderes as tuas cotas do negócio do stand. Este ano os lucros vão ser muito baixos e a tendência é para piorar.&lt;br /&gt;- Não me parece que a situação seja dramática. – respondeu ele – Isto funciona por ciclos e daqui a dois ou três anos está outra vez na mó de cima.&lt;br /&gt;- Mas pode não estar! E se agora podes ainda vender por um bom preço, mais tarde pode já nem haver quem queira comprar – argumentou a loira.&lt;br /&gt;- Mas o negócio é assim! – disse o resignado Chico.&lt;br /&gt;- Ouve, homem! Nunca ouviste dizer que não se devem pôr os ovos todos na mesma cesta? Pois então pensa nisso. E até te digo mais: podes vender uma parte da tua posição na sociedade e investir noutra coisa, mantendo a restante. Não te parece sensato? – insistiu ela.&lt;br /&gt;- E em que é que poderia eu aplicar o dinheiro resultante da venda? Só sei de compra e venda de carros. Foi sempre a minha vida – falou, não parecendo muito convencido, o Torres.&lt;br /&gt;- Também já pensei nisso! E até nem precisas de muito dinheiro. Compras as cotas que o Renato Delgado tem no “Borda d’água”. Parece que ele quer ir para o Brasil e vender. Quem mo disse foi o meu irmão Alex e ele próprio compraria se tivesse dinheiro. O Renato tem cinquenta e cinco por cento. Ficavas sócio maioritário do bar – sugeriu a Marina.&lt;br /&gt;- Mas eu não percebo nada desse negócio – disse, pouco entusiasmado, o homenzarrão.&lt;br /&gt;- Percebe o Alex! Ficava ele à frente. Eu continuava no stand e tu, ou ficavas só no stand ou fazias as noites no bar, dormias de manhã, e fazias as tardes no stand. Que achas, meu amor? – e fez-lhe umas carícias no pescoço.&lt;br /&gt;- Tenho de pensar melhor, mas não me parece uma ideia tola, não senhora – começou a ceder o Francisco.&lt;br /&gt;- Pois te garanto que não é! Até já falei com o Alex sobre isso.&lt;br /&gt;- Isso já eu percebi! – sorriu o homem.&lt;br /&gt;- Queres que amanhã o meu irmão venha cá jantar e falamos sobre o assunto? E não te vai ser difícil vender uma parte do stand a um dos outros três. O Moreira quer ser maioritário mas o Dinis não quer perder a posição, portanto vão-te fazer ofertas boas. O Moniz não se importa nada – previu a despachada Marina.&lt;br /&gt;- Então diz ao teu irmão para vir cá jantar amanhã. E que traga elementos contabilísticos para eu analisar – anuiu o pequeno empresário.&lt;br /&gt;- Está bem. Deixa-me dar-te um beijinho. – disse ela com um sorriso provocante – Logo vamos comemorar na cama. E agora vou arrumar a cozinha e tratar de outras coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia posterior, ainda não eram sete da noite e o cunhado do Francisco já tocava à porta do apartamento da baixa portuense inserido num prédio com evidentes traços arquitectónicos dos anos cinquenta.&lt;br /&gt;Feitas as saudações habituais, disse Marina:&lt;br /&gt;- Eu ainda estou a acabar o jantar. Podem falar de tudo: carros, futebol, política...mas dos negócios que vamos fazer só quando eu estiver presente, valeu?&lt;br /&gt;- Está bem, minha querida! Tu és imprescindível! – concordou o marido.&lt;br /&gt;- Esta minha irmã é uma vivaça! – disse o homem que tinha cinco por cento do “Borda d’água”.&lt;br /&gt;E lá foram conversando sobre isto e sobre aquilo, mas acabaram por falar também na situação financeira da pequena sociedade. Os lucros não eram famosos, mas Alex garantiu que poderia pôr o negócio a dar mais, bastando para tal ser mais agressivo comercialmente.&lt;br /&gt;Pouco depois apareceu o Marco António que, com os seus oito anos, meteu umas colheradas na conversa que provocaram uns piscares de olhos entre os dois adultos.&lt;br /&gt;Finalmente sentaram-se todos à mesa.&lt;br /&gt;- Bom apetite! - disse o Francisco.&lt;br /&gt;Os outros repetiram os votos.&lt;br /&gt;- Então – começou o dono da casa – parece que o teu sócio maioritário quer vender a cota dele! &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- É verdade! – iniciou a sua explicação o Alexandre – O Renato, que tem cinquenta e cinco por cento, vai para o Brasil e o Gilberto, que tem quarenta, não quer aumentar a sua cota. Portanto, o que eu imaginei foi que tu poderias vender alguma coisa dos carros e comprar ao Renato. Até te pedia mais: como comissão por intermediar o negócio, compravas cinquenta para ti e cinco para mim. Assim tu ficavas maioritário na mesma e eu, com dez, teria mais entusiasmo para tomar conta daquilo, já que o Gilberto só trata da contabilidade e de compras e recebe os lucros.&lt;br /&gt;- Com que então queres uma comissão? Tu ainda és mais fino do que a tua maninha... – e riu-se.&lt;br /&gt;Mas continuou:&lt;br /&gt;- Está tudo muito bem, mas tenho de vender parte do que tenho investido no stand. Penso que não vai ser difícil. Claro que eu tenho um pé-de-meia razoável, mas não lhe quero mexer. Posso bater a bota e não me agradaria deixar a Marina e o Marco desprevenidos.&lt;br /&gt;- Assim é que é um bom pai de família. – disse o homem da cabeça rapada – E quando é que se pode saber da tua disponibilidade?&lt;br /&gt;- Dentro dos próximos três dias já te posso dizer alguma coisa de concreto, julgo eu. Entretanto podes falar ao Gilberto...&lt;br /&gt;- Não! Ao Renato...Renato Delgado! – corrigiu a Marina.&lt;br /&gt;- Seja! Dizia eu que podes falar ao Renato que estou interessado em comprar a parte dele pelo valor justo – disse o Chico.&lt;br /&gt;- Está bem! Então quando tiveres as coisas tratadas lá nos carros, ligas-me!&lt;br /&gt;- Combinado! – rematou o Torres e olhando para o filho – Oh menino! Veja lá se se comporta à mesa como deve ser! Os cotovelos e as mãos não se põe assim, pois não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos dias seguintes, Francisco Torres conversou com os seus três sócios acabando por ficar acordado, embora o entendimento não tivesse sido fácil, que ele venderia quinze por cento da sua cota a José Moreira que passaria a ser o novo maioritário, ficando o Chico com quinze.&lt;br /&gt;Ao fim de cinco dias telefonou ao cunhado para dar a notícia. Marina tinha acompanhado tudo, naturalmente, até porque era funcionária da empresa.&lt;br /&gt;- Olá, Alex! – falou o Francisco.&lt;br /&gt;- Olá, Chico! Há novidades?&lt;br /&gt;- Sim, já está tudo de acordo. Agora falta executar o combinado. E no bar? – perguntou o Torres.&lt;br /&gt;- Já falei com o Renato e ele concorda em vender-te cinquenta e os tais cinco a mim – informou o irmão de Marina.&lt;br /&gt;- E valores?&lt;br /&gt;- Isso é melhor falarem os dois. Passa por cá logo à noite. Se houver algum impedimento eu aviso-te. Mas penso que podes fazer um bom negócio. Ele tem pressa!&lt;br /&gt;- Então está combinado. Lá pelas nove e meia...dez...eu passo por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no início de Setembro de 2006 estava tudo arrumado.&lt;br /&gt;Francisco Torres baixara a sua cota no stand de automóveis e tornara-se o sócio maioritário do bar “Borda d’água”.&lt;br /&gt;Dormia de manhã, trabalhava de tarde na empresa de transacção de automóveis onde permanecia a tempo inteiro a mulher, e à noite ía para o bar.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116343183002745246?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116343183002745246/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116343183002745246' title='21 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116343183002745246'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116343183002745246'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/11/uma-famlia-burguesa-parte-xiv.html' title='Uma família burguesa - parte XIV'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>21</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116319511912940510</id><published>2006-11-10T21:40:00.000Z</published><updated>2006-11-10T23:01:23.346Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte XIII</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Entra, Ana! – convidou a irmã – Então que aconteceu para apareceres por aqui?&lt;br /&gt;- Lembrei-me de cá vir pois é pouco habitual entrar na vossa casa. Resolvi dar um passeio até à beira mar e fazer-vos uma visita rápida – respondeu a Ana Maria.&lt;br /&gt;- E fizeste muito bem! – ouviu-se a bela voz de Manuel António – Podes aparecer quando quiseres que és sempre bem-vinda. Vamos sentar ali na sala.&lt;br /&gt;- Olá, Manel! – cumprimentou a cunhada dando-lhe dois beijos na face.&lt;br /&gt;- Estás muito jeitosa! – e olhando para a mulher, continuou – Não está, Joana?&lt;br /&gt;- Ela sempre foi jeitosa – disse a irmã mais nova.&lt;br /&gt;- E então quando é que nos dás a satisfação de arranjares um tipo fixe com quem te arrumes outra vez? Nem todos são como o Francisco. E estás em boa idade de dar uma irmãzinha ou um mano à Cláudia – falou o Manel.&lt;br /&gt;- Pois é! Vens dizer-nos que tens novidades do coração? – perguntou a Joana.&lt;br /&gt;- Não! Nada disso! Há muitos pretendentes, de facto, mas os melhores que conheço já estão comprometidos. E não me vou casar só por casar. Eu sei que estava em boa idade para ter o segundo filho, mas enfim...pode ser que aconteça um milagre! – respondeu a Ana Maria.&lt;br /&gt;- Não esperas ser fecundada pelo Espírito Santo, pois não? – disse a Joana.&lt;br /&gt;- Tomara ela! Tomara ela! Estou a falar do banqueiro, claro! – gracejou, o Manel.&lt;br /&gt;- Há outros que me interessavam muito mais para pai de um filho meu – disse, com um sorriso enigmático e não descritível, a Ana.&lt;br /&gt;- Humm...Parece que já tens feita uma selecção. Isso já é alguma coisa! – exclamou, cheia de curiosidade, a mana – E não queres mostrar-nos a lista para nós darmos um parecer? Ou não há ninguém conhecido?&lt;br /&gt;- Isso querias tu saber! Mas não há lista nenhuma – ripostou a Aninhas.&lt;br /&gt;- Mas não deixa de ser verdade que a tua conversa me permite adivinhar que estás mais voltada para mudar de vida e mesmo encarar uma nova maternidade do que há uns tempos atrás. Estás a ficar mais madura, sentes isso? – falou o Manuel António.&lt;br /&gt;- Sinto que estou a mudar! E o desejo de uma nova maternidade começa a ser muito forte – confessou a mãe de Cláudia.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- E vocês? Vão continuar assim ou decidir pela adopção?&lt;br /&gt;- Ainda não decidimos! – disse secamente a Joana, deixando perceber que o assunto não lhe agradava.&lt;br /&gt;- Bom! Se não quiserem falar nisso...tudo bem! É um assunto que só a vós diz respeito. Mas, se me permitem uma opinião, eu não sou favorável à adopção. Tem demasiados riscos...&lt;br /&gt;- Eu também acho isso, mas falemos dos teus favoritos, que é assunto muito mais interessante e permite umas fofocas – interveio o professor universitário para alterar o rumo da conversa.&lt;br /&gt;- Não há muito mais a dizer! Já disse que os tipos mais interessantes que conheço estão comprometidos – repetiu a Ana.&lt;br /&gt;- Isso já sabemos! Mas quem são? – perguntou o cunhado com uma curiosidade que não lhe era muito habitual nestes temas.&lt;br /&gt;- Sendo comprometidos nunca poderia revelar! Mesmo sabendo que vocês são como cofres fortes quanto a guardar segredos! – e riu-se a Ana.&lt;br /&gt;- E tu também! – disse a irmã.&lt;br /&gt;E a conversa derivou para outros temas em que a capacidade de argumentação e de encantamento do Manel pontificou.&lt;br /&gt;Era perto da meia-noite quando se despediram e Ana regressou a casa.&lt;br /&gt;Chegou lá pensativa.&lt;br /&gt;- Ana!&lt;br /&gt;Ouviu a voz da mãe.&lt;br /&gt;- A Joana telefonou-me a dizer que foste lá a casa. Por favor deixa-os em paz. Não tentes estragar o casamento, minha filha! Peço-to por tudo!&lt;br /&gt;- Mas quem lhe disse que eu quero estragar o casamento da Joana, mãe! Isso nem me passa pela cabeça! Quando muito poderia querer ajudar...&lt;br /&gt;Esta resposta da filha deixou a Lena um pouco mais sossegada mas com uma grande dúvida: como é que ela quereria ajudar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a semana seguinte, Ana fez mais uma visita a casa da irmã mais nova.&lt;br /&gt;Até que, num dia de finais de Setembro, telefonou ao cunhado e disse-lhe:&lt;br /&gt;- Manel! Eu queria falar contigo sobre um assunto muito sério. Mas só contigo mesmo. A Joana não pode saber, pelo menos para já – disse a Ana Maria.&lt;br /&gt;- Mas não podes dizer qual o assunto? – perguntou, intrigado, o cunhado.&lt;br /&gt;- Agora não! Só quando estivermos os dois num local em que ninguém nos oiça.&lt;br /&gt;- Estás a deixar-me sobre brasas – confessou o homem.&lt;br /&gt;- Então quanto mais cedo melhor! – aproveitou ela.&lt;br /&gt;E combinaram encontrar-se passados dois dias, depois de almoço, no Passeio Alegre, junto do local onde as águas do Douro tentam vencer as do mar.&lt;br /&gt;Ela meteu dispensa, ele estava com a tarde razoavelmente disponível e, muito importante, Joana estaria até tarde em Penafiel.&lt;br /&gt;No dia aprazado, já passava das duas, Ana estacionou e esperou atenta para ver se via o Ford Focus do cunhado.&lt;br /&gt;Quando o viu fez-lhe sinal para ele também arrumar o carro. Saiu do seu Clio e dirigiu-se para a viatura do Manuel António, já parada. Abriu a porta e sentou-se ao lado do condutor.&lt;br /&gt;Deram dois beijos, como de costume, e ele falou primeiro:&lt;br /&gt;- Então? Que há assim de tão secreto e importante para me contares?&lt;br /&gt;- Manel! Eu vou falar num assunto melindroso e tenho a perfeita noção disso. Portanto, peço-te que não consideres que há qualquer má intenção na minha proposta. Pelo contrário! – começou, criando ainda mais &lt;em&gt;suspense&lt;/em&gt;, a mulher.&lt;br /&gt;- Continua! Continua! – pediu o Manuel António.&lt;br /&gt;- Tu e a Joana não podem ter filhos em conjunto pela razão que conhecemos. Também sei que, embora ela tenha vontade de fazer uma adopção, tu não estás muito receptivo à ideia. Finalmente, sei que tenho vontade de ter um outro filho mas não há nenhum homem livre que me interesse para pai da criança – e fez uma pausa, a Ana.&lt;br /&gt;- Perante essas premissas...continua, por favor! – insistiu ele.&lt;br /&gt;- Na sequência do que te acabei de dizer, faço-te a tal proposta que pode parecer estranha mas, no fundo vem contentar todos.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Eu explico: nós os dois geramos uma criança, no maior segredo.&lt;br /&gt;Manuel António fez um esgar, embora discreto.&lt;br /&gt;Ela continuou:&lt;br /&gt;Supostamente será um filho de pai incógnito ou de um amigo com quem não quero fazer vida em comum e não será difícil que as pessoas aceitem que ele seja adoptado por ti e pela Joana.&lt;br /&gt;- Agora deste-me uma pancada bem forte, Ana! – comentou o cunhado ainda não refeito da surpresa – Imaginaste um esquema um tanto maquiavélico!&lt;br /&gt;- Não é maquiavélico, ora ouve com atenção: a Joana fica satisfeita porque adopta uma criança e, ainda por cima, tem o sangue dela. Tu ficas satisfeito porque vês a Joana feliz e sabes que estás a adoptar um filho teu. Eu fico satisfeita porque tenho um outro filho e, pelo menos por algum tempo, satisfaço o meu desejo de ter um bebé nos meus braços e de o amamentar. E depois posso vê-lo crescer e desenvolver-se no seio da família. Quanto aos meus pais e irmãos ficarão a pensar que eu sou uma leviana, mas como já pensam isso, não me preocupo. Claro que, se quiseres, fazes um teste de ADN para confirmar a paternidade. Mas garanto-te que há umas semanas que não tenho relações com ninguém e que durante algum tempo isso se manterá. Serei só tua! Também já fiz testes de HIV e todos aqueles que são recomendáveis para quem quer ser mãe. E a nossa relação acabará quando eu ficar grávida. Obviamente que mais ninguém poderá saber disso. Será um segredo só nosso e que devemos levar connosco para a tumba! – rematou a imaginosa Ana.&lt;br /&gt;Manuel António permaneceu calado e com um ar incrédulo perante o que ía ouvindo.&lt;br /&gt;- Eu diria que é um plano perfeito! – disse, finalmente, provocando o tal sorriso enigmático e não descritível na cunhada.&lt;br /&gt;- Não quero que me respondas já! Quero que penses no assunto e que tomes uma decisão amadurecida. Confesso que, sendo tu uma pessoa muito inteligente, sei que vais concordar – induziu ela.&lt;br /&gt;- Tenho de te dar os parabéns pelo que tu imaginaste. Ao contrário do que eu pensei logo que começaste a expor o assunto, não é uma ideia disparatada. Será talvez imoral. Mas a moral é tão elástica, não é? – comentou o homem.&lt;br /&gt;- Sem dúvida! – anuiu ela, com um sorriso triunfante.&lt;br /&gt;- Devo dizer-te desde já que há duas questões que me preocupam. Uma delas é apaixonarmo-nos; aliás, penso que tu tens um fraquinho por mim e eu confesso que também simpatizo contigo. A outra é tu, depois de dares à luz, não quereres abandonar a criança – objectou o professor universitário.&lt;br /&gt;- Eu sei que existem esses riscos, mas está nas nossas mãos e nas nossas cabeças superarmo-nos, se necessário for, e vencermos os desejos do coração – disse convicta, a Ana.&lt;br /&gt;- Pois bem! Eu vou pensar no assunto e muito brevemente te darei uma resposta. Mas confesso que me custa pensar que vou trair a Joana – disse o professor.&lt;br /&gt;- Manel! Manel! Eu sei que não seria a primeira vez! Não me venhas contar histórias da carochinha. Este é um assunto muito sério e temos de o encarar como tal.&lt;br /&gt;- Tens razão! Tu cada vez mais me surpreendes como uma pessoa fora de série – disse o cunhado olhando-a, enquanto ela ampliou o seu sorriso de triunfo.&lt;br /&gt;- Então vou ficar à espera da tua resposta! Espero que não demore demasiado tempo. Tu sabes decidir depressa – desafiou a mulher.&lt;br /&gt;- Daqui a dois ou três dias eu digo-te se sim ou se não! – prometeu ele.&lt;br /&gt;- Muito bem! Espero que seja sim, para bem de todos – rematou ela abrindo a porta do carro.&lt;br /&gt;- Não me dás os beijos do costume? – disse ele.&lt;br /&gt;- Não! Não quero que penses que faço isto para te conquistar e roubar à minha irmã.&lt;br /&gt;- Então adeus, Ana! E deixa-me felicitar-te pelo teu engenho e coragem.&lt;br /&gt;Ela saiu e fechou a porta, voltando para o seu Clio estacionado perto. Trazia um sorriso vitorioso estampado no rosto. Tinha a certeza de que ele iria concordar, quanto mais não fosse porque não tinha filhos e sempre tivera vontade de os ter. E era a grande oportunidade da vida dele de satisfazer esse objectivo que ela agora lhe estava a oferecer servida numa bandeja de prata.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116319511912940510?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116319511912940510/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116319511912940510' title='29 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116319511912940510'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116319511912940510'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/11/uma-famlia-burguesa-parte-xiii.html' title='Uma família burguesa - parte XIII'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>29</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116299913368727597</id><published>2006-11-08T15:17:00.000Z</published><updated>2006-11-08T19:14:21.663Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte XII</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;/span&gt;Os dias foram passando e a relação entre Mário e Fernanda foi-se cimentando, com ela a tornar-se progressivamente mais imprescindível para o patrão.&lt;br /&gt;Mas o &lt;em&gt;libidus&lt;/em&gt; começava a ser cada vez mais intenso e reprimido, de uma parte e de outra.&lt;br /&gt;Aproximadamente uma semana passada, certa noite, após uma refeição ligeira que a Fernanda preparou com a ajuda do Mário, este disse-lhe:&lt;br /&gt;- Fernanda! Eu tenho necessidades que já não satisfaço há mais de uma semana. Como tu não pareces disponível para alinhar comigo pois tens-te mostrado demasiado esquiva, vou telefonar a uma amiga minha para vir cá buscar-me e levar-me com ela a dar uma volta. Podes pensar que eu não estou a ser muito correcto contigo, e se calhar não estou, mas não quero ter que aliviar as minhas tensões sexuais recorrendo à masturbação. Por isso peço-te desculpa, mas...&lt;br /&gt;A rapariga não contava com este contratempo e ficou muda durante momentos.&lt;br /&gt;- Se quiseres eu vou para casa da minha mãe e a tua amiga vem cá. Só que amanhã és tu ou ela quem faz a tua cama – foi o que lhe ocorreu responder, embora estivesse com vontade de esmurrar o Mário Jorge.&lt;br /&gt;- Há outra solução que me agradava muito mais. E não é só para aliviar as tensões, Fernanda. Eu gosto muito de ti. Acho que és uma mulher excepcional e estás a fazer-me mudar a minha visão da vida a dois. E tenho a certeza de que também gostas de mim. Tenho vindo a certificar-me disso ao longo dos últimos dias. E também acho que a tua vontade de estar comigo intimamente é tão grande como a minha. Mas tens procurado não te comportar como uma mulher fácil. Não precisas de te conter mais. Vem dormir comigo. Porque te quero e porque te amo. Eu diria mesmo: porque nos queremos e porque nos amamos – declarou-se Mário.&lt;br /&gt;Ela estava corada e não sabia o que fazer. A vontade era de o abraçar e dizer-lhe que também o amava e há muito mais tempo do que ele. Mas ficara magoada com a ousadia dele lhe dizer que queria estar com outra. Também não estava nos seus planos entregar-se tão cedo. Mas a estratégia estava a falhar.&lt;br /&gt;Ficou completamente confusa!&lt;br /&gt;Ao fim de uns minutos disse:&lt;br /&gt;- Eu não sou uma mulher fácil, é bom que o saibas! E embora também te ame, não te quero conquistar pelo sexo mas por outras razões. Sei que sou bonita e atraente, mas não quero que gostes de mim só por isso.&lt;br /&gt;Fez uma pausa e concluiu:&lt;br /&gt;- Tu dizes que me amas mas também que queres ter relações com outra. Não te percebo muito bem. Liga então para a tua amiga.&lt;br /&gt;E com a testa franzida e os olhos húmidos saiu do quarto dele indo para o seu.&lt;br /&gt;O homem sentou-se durante uns minutos meditabundo; finalmente levantou-se e caminhou até ao quarto da Fernanda.&lt;br /&gt;Bateu levemente à porta.&lt;br /&gt;- Que se passa? – perguntou a moça.&lt;br /&gt;- Posso entrar?&lt;br /&gt;Ele sentiu passos e a porta a abrir-se devagarinho.&lt;br /&gt;Ela tinha os olhos molhados e vermelhos. Mário, mesmo empanado, abraçou-a como pôde e beijaram-se ternamente. Depois com mais sofreguidão. Depois loucamente.&lt;br /&gt;- Vamos para o meu quarto, meu amor! – disse ele.&lt;br /&gt;- Cuidado com o braço, meu bem! – advertiu ela.&lt;br /&gt;- Que se lixe o braço!&lt;br /&gt;Riram-se ambos!&lt;br /&gt;E nessa noite amaram-se de tal forma que mal dormiram.&lt;br /&gt;Acordaram já eram dez horas.&lt;br /&gt;- Bolas! Não liguei o despertador! São dez horas, Nanda! – resmungou enquanto lhe beijava os ombros e as costas descobertos.&lt;br /&gt;- Como? Já? Mas eu estou cheia de sono! – disse ela, sem se mexer.&lt;br /&gt;- Deixa-te estar! Eu telefono a dizer que tivemos de ir tratar de um assunto meu, particular.&lt;br /&gt;- Pois...é melhor! – anuiu a parceira.&lt;br /&gt;- Ahh...deve estar a chegar a empregada. Ela entra às dez e sai ao meio-dia. – lembrou-se o homem – Vou-lhe dizer que hoje está dispensada mas pago-lhe o dia na mesma.&lt;br /&gt;- Pois...é melhor! – repetiu a rapariga, visivelmente ensonada.&lt;br /&gt;O Mário telefonou para o escritório, contou a mentira urdida e voltou para a cama.&lt;br /&gt;- Que noite, meu amor! – disse ela.&lt;br /&gt;E virando-se para o parceiro:&lt;br /&gt;- E que manhã!...&lt;br /&gt;Apesar da fadiga e do sono, ainda se amaram mais uma vez, como se a resistência humana não tivesse limites.&lt;br /&gt;Só chegaram ao escritório depois de almoço; já passava das duas da tarde.&lt;br /&gt;O ar de cansaço e as olheiras muito profundas chamaram a atenção de Ricardo que entrou no gabinete do sócio e comentou:&lt;br /&gt;- Mas que grande noitada! Espero que não tenhas tirado o gesso para ser mais fácil!&lt;br /&gt;E riu-se com sarcasmo.&lt;br /&gt;- Não sei a que te referes! – disse, sorrindo, o mais alto dos homens.&lt;br /&gt;- Podíeis ter ficado o dia todo! Uma vez não são vezes...&lt;br /&gt;Quando, ao fim da tarde chegou a casa da mãe, Nanda contou-lhe o sucedido.&lt;br /&gt;Esta ficou radiante, mas perguntou:&lt;br /&gt;- E não te vai largar como tem feito às outras?&lt;br /&gt;- Espero que não porque vou ficar a viver com ele. E sei que ele não vai resistir a querer casar comigo – disse, confiante, a sensual cabrita.&lt;br /&gt;- Deus te oiça! Deus te oiça! – disse a quinquagenária.&lt;br /&gt;- Agora vou dizer à Teresa!&lt;br /&gt;E pegou no telefone, ligou para o telemóvel da irmã e contou-lhe o ocorrido deixando-a muito satisfeita.&lt;br /&gt;Um mês depois do acidente, na última quinzena de Outubro, o gesso foi retirado não havendo necessidade de outra imobilização. Mas o ortopedista recomendou vinte sessões de fisioterapia em dias consecutivos para que tudo ficasse bem.&lt;br /&gt;- Finalmente hoje vamo-nos estrear sem aquele trambolho! – desabafou o homem – Não sabes como me irritava querer abraçar-te a sério, com toda a força, e não poder!&lt;br /&gt;- Até é bom assim! Vamos experimentando novas sensações – disse ela, olhando para o homem com um sorriso irresistivelmente malandro.&lt;br /&gt;E assim Fernanda se tornou a dona da casa do Mário.&lt;br /&gt;Da casa e do homem.&lt;br /&gt;Cerca de duas semanas depois, o engenheiro decidiu finalmente dizer:&lt;br /&gt;- Quero que cases comigo e sejas minha para sempre! – e entregou-lhe um estojo azul escuro que ela abriu e, com os olhos a brilhar, dele retirou um belo e caro anel de brilhantes que o seu homem fez questão de lhe colocar no dedo.&lt;br /&gt;E selaram o momento com um beijo e mais uma gostosa e quente estadia em vale de lençóis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana Maria, numa tarde fresca e chuvosa da segunda quinzena de Setembro, resolveu telefonar para a irmã.&lt;br /&gt;Esta devia estar em aulas pois não atendeu e Ana deixou a seguinte mensagem no &lt;em&gt;voicemail&lt;/em&gt;:&lt;br /&gt;“Olá, Joana! Esta noite, depois de jantar, vou a vossa casa. Não há nada de especial, apenas me apetece conversar convosco. Se houver algum inconveniente, avisa-me, ok? Beijinhos”.&lt;br /&gt;Passado algum tempo recebeu uma chamada da irmã mais nova.&lt;br /&gt;- Olá, Aninhas! Já falei com o Manel e podes aparecer quando quiseres.&lt;br /&gt;- Então estarei aí por volta das dez, dez e pico – programou a loira falsa.&lt;br /&gt;- Mas não demores para além da meia-noite porque amanhã é dia de trabalho. Não te importas? – pediu a morena de longos cabelos.&lt;br /&gt;- Com certeza! Eu também tenho trabalho. Então até logo.&lt;br /&gt;- Adeus, Ana! Até logo.&lt;br /&gt;Acabado o jantar na casa das Antas, Ana preparou-se para sair.&lt;br /&gt;- Estás muito bonita – disse a mãe.&lt;br /&gt;- Pois está – disse a avó que ainda estava sentada à mesa.&lt;br /&gt;- Parece que hoje há encontro com gente interessante – insistiu a Lena.&lt;br /&gt;- Um beijinho, Vó. Um beijinho, mãe – e com um beijo em cada uma as calou e saiu de casa.&lt;br /&gt;- Nem se despediu da filha nem do pai! Não foi esta a educação que lhe demos – lamentou-se a mulher do Tó Zé.&lt;br /&gt;- São outros tempos, filha! Isto também me faz uma certa confusão, mas já não me incomodo muito. Não vale a pena. E além disso não é minha filha – falou a anciã.&lt;br /&gt;- Oh mãe! Não precisa de atirar piadinhas subtis – refilou a filha.&lt;br /&gt;- Mas não era piada. Era a sério – e riu-se, a velha senhora.&lt;br /&gt;Entretanto Ana Maria chegou ao estupendo apartamento de Leça da Palmeira.&lt;br /&gt;Como não sabia o código da campaínha, e não reparou que ele estava escrito na caixa do correio, chamou pelo celular. A porta foi aberta, entrou, subiu no elevador e quando chegou ao 3º piso já Joana a esperava à porta.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116299913368727597?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116299913368727597/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116299913368727597' title='30 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116299913368727597'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116299913368727597'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/11/uma-famlia-burguesa-parte-xii.html' title='Uma família burguesa - parte XII'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>30</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116274472403011431</id><published>2006-11-05T21:45:00.000Z</published><updated>2006-11-05T22:11:10.706Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte XI</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O rosto de Ana Maria deve ter passado por várias cores.&lt;br /&gt;- Como é que ela descobriu? Não devo ter sido suficientemente discreta. Que chatice! – pensou.&lt;br /&gt;Após o efeito do impacto provocado pela tiro certeiro da mãe se ter dissipado, mas demorado tempo suficiente para a Lena ter percebido que acertara na “mouche”, a divorciada percebeu que tinha sido descoberta e não merecia a pena mentir.&lt;br /&gt;- É verdade, mãe! Como é que adivinhaste? – perguntou.&lt;br /&gt;- Lembra-te que sou mulher e ainda por cima tua mãe. – respondeu Helena Pinho – E agora? Não vais tentar conquistar o Manel, pois não? E muito menos aproveitar-te da situação por que passam devido à questão da adopção. Ela jamais te perdoaria e o teu pai e o teu irmão, também. E eu...nem sei bem como iria reagir. Só tens uma solução, filha. Esquecê-lo! Afastar-te deles! E descansa que eu não digo a ninguém.&lt;br /&gt;- Pois! Falar é fácil, mamã. Mas vou viver o resto dos meus dias com esta paixão silenciada a fazer-me doer o coração e a consumir-me as entranhas do corpo e do espírito? Não te posso prometer nada! – concluiu a Ana.&lt;br /&gt;- Por favor, filha! Não cries um problema grave em toda a família. Peço-to encarecidamente. Cuidado! Está a chegar o teu pai. A conversa fica por aqui. Disfarça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte ao ligeiro acidente de viação entre os carros de Bárbara Mendes e Mário Jorge Gomes, este foi para a empresa transportado pelo sócio Ricardo Costa Lima.&lt;br /&gt;Tratar dele, sobretudo para quem não tinha prática, não era tarefa fácil.&lt;br /&gt;O braço engessado, com o cotovelo fixado a cerca de noventa graus, permitia-lhe mover o ombro esquerdo e os dedos da mão.&lt;br /&gt;Quando chegaram à Rimafor já lá estavam todos os outros quatro elementos:&lt;br /&gt;Fernanda, Elias, o jovem engenheiro que entrou em 2003 aquando a morena, Mónica, a engenheira estagiária e Raul, técnico com contrato a prazo. Estes dois tinham entrado há poucos meses, em 2006.&lt;br /&gt;Os cumprimentos e desejos de rápidas melhoras ecoaram durante alguns minutos.&lt;br /&gt;Os proprietários tinham pequenos gabinetes individuais. Os outros estavam num espaço comum.&lt;br /&gt;Mário sentou-se, ligou o PC e manuseou os papéis que tinha na secretária. Despachou o que pode, foi falar com Ricardo e, antes de reentrar no seu canto, chamou a Fernanda.&lt;br /&gt;Uma vez dentro do seu espaço privado, disse:&lt;br /&gt;- Fernanda! Sente-se nessa cadeira para falarmos um pouco.&lt;br /&gt;Ela assim fez. Estava bonita e atraente como sempre. Durante os três anos em que trabalhara na firma sempre soubera ter uma postura correcta, não procurando casos com nenhum dos patrões nem com os colegas, nomeadamente o Elias, que tinha a idade dela. Era sociável, almoçava normalmente com o jovem engenheiro informático, algumas vezes com um ou ambos os chefes, mas sempre soube manter uma atitude de grande dignidade. Isso deixava o Mário intrigado. Solteiro e mulherengo como era, habituado a que as mulheres fossem para ele presa fácil, sempre achou Fernanda uma pessoa estranha, distante. Mas era inegável a atracção carnal que por ela sentia. No entanto, nunca ousara mais do que uns piropos bastante correctos. Afinal era patrão e não devia deixar que o ambiente dentro da empresa se degradasse de forma a tornar promíscuas as relações de trabalho.&lt;br /&gt;- Pode falar, Sr. Engenheiro – disse ela depois de instalada.&lt;br /&gt;- São dois os assuntos que quero abordar: o primeiro diz respeito à pessoa que me vai ajudar aqui, sobretudo a trabalhar com o computador, enquanto eu estiver limitado. Tinha pensado na Mónica, mas há pouco falei com o Ricardo e chegamos à conclusão que o Raul é o mais indicado. Como o trabalho dele vai ser prejudicado, vou pedir ao Eng. Elias para redistribuir tarefas. Portanto, vou-lhe pedir um esforço suplementar durante este período que eu espero não seja superior a um mês. Depois vou falar com eles, também. Ah...no final, haverá uma compensação monetária, como é justo.&lt;br /&gt;- O Sr. Engenheiro deve calcular que eu já imaginara que isso iria acontecer. Pode contar com o meu empenho e dedicação.&lt;br /&gt;- Pois! Não esperava outra coisa de si. A segunda questão que queria abordar consigo era sobre o apoio que se prontificou a prestar-me em casa: penso que imagina que isso lhe vai, provavelmente, provocar dissabores pois, por mais que se comporte como uma governanta, digamos assim, não será como tal que será vista cá fora – avisou o Mário.&lt;br /&gt;- Tenho a perfeita noção dos riscos que corro. Mas não me importo muito com o que os outros possam pensar. Interessa-me sobretudo ajudá-lo a viver decentemente durante esse período e fazer com que recupere sem sobressaltos para voltar a ocupar o seu lugar com as capacidades em pleno. Já trouxe uma maleta com as minhas coisas. Só lhe quero pedir para me autorizar, antes de sairmos para sua casa, a ir todos os dias até à minha para ver a mãe. Como sabe vivemos aqui na Maia, mas em Moreira; não demorarei mais do que três quartos de hora a uma hora – falou a empregada.&lt;br /&gt;- Oh Fernanda! Mas isso está completamente fora de questão. Está com a sua mãe o tempo que quiser. E agora, peço-lhe que chame os seus colegas para virem aqui afim de lhes comunicar a tal necessidade de mexida nas tarefas. E venha também, por favor.&lt;br /&gt;- Com certeza! São dois minutos! – saiu.&lt;br /&gt;O dia decorreu dentro de uma quasi normalidade.&lt;br /&gt;Eram quasi seis horas da tarde quando a Fernanda informou o patrão engessado que ía ver a mãe.&lt;br /&gt;Voltou cerca de uma hora depois.&lt;br /&gt;Por volta das oito entraram ambos no Renault Clio da moça e rumaram ao apartamento que ficava na Arca d’Água.&lt;br /&gt;Feitas as arrumações no outro quarto da casa, que era onde ela iria dormir, falaram sobre o que comer.&lt;br /&gt;- Podíamos ir jantar fora! – sugeriu ele.&lt;br /&gt;- Mas não todos os dias! Eu posso fazer refeições mais ligeiras algumas vezes – corrigiu ela.&lt;br /&gt;Nessa noite foram comer qualquer coisa a um café perto da habitação de Mário.&lt;br /&gt;Regressados a casa, a jovem começou a ver o que havia e faltava na dispensa e fez uma lista das necessidades. Depois fez uma vistoria ao apartamento para o conhecer bem e saber como se movimentar.&lt;br /&gt;- Amanhã é preciso comprar os produtos que coloquei nesta lista. Concorda? – e deu-a a Mário para este verificar.&lt;br /&gt;- É precisa tanta coisa? Realmente uma mulher faz muita falta! – comentou ele.&lt;br /&gt;- E devo dizer-lhe que a limpeza da casa deixa muito a desejar. E as roupas para lavar e brunir já fazem dois montes bastante razoáveis. A sua empregada quantas vezes é que vem? – quis a Fernanda saber.&lt;br /&gt;- Vem duas horas todas as manhãs.&lt;br /&gt;- Acho que é tempo suficiente para ter as coisas mais apuradas. Talvez precise de mais três ou quatro horas por semana para passar a roupa a ferro – palpitou a irmã de Teresa.&lt;br /&gt;- Agora vou ficar com isto mesmo bem organizado! – disse ele com um ar satisfeito.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Olhe Fernanda! Gostaria que deixasse de me chamar de Sr. Engenheiro e passasse a tratar-me só por Mário. E também nos podíamos tratar por tu. Que achas?&lt;br /&gt;- Acho bem! Mas no escritório mantemos os tratamentos como até agora...Mário.&lt;br /&gt;- De acordo!&lt;br /&gt;- Vamos dormir? – sugeriu ela.&lt;br /&gt;- Pois sim! Vou para o meu quarto para me despir.&lt;br /&gt;- E eu vou ajudar-te! Não te preocupes com pudores excessivos pois eu já conheço a anatomia dos homens – disse ela, soltando uma risada.&lt;br /&gt;De facto, Mário pôde constatar que sem a Fernanda estaria em maus lençóis e foi isso mesmo que lhe disse quando, já na cama, ela ía sair para o outro quarto.&lt;br /&gt;Finalmente, pediu-lhe um beijo de boa noite.&lt;br /&gt;- Um beijo, Mário? Com certeza! Mas na face, claro!&lt;br /&gt;O homem, já bastante aquecido, respirou fundo e condescendeu:&lt;br /&gt;- Seja feita a tua vontade...&lt;br /&gt;Na cama, a Fernanda falou com o travesseiro:&lt;br /&gt;- Meu querido Mário! Vais ficar doido por mim mas não é com o meu corpo nem com sexo que te vou conquistar. Será com a minha inteligência e com as minhas qualidades como pessoa.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116274472403011431?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116274472403011431/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116274472403011431' title='31 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116274472403011431'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116274472403011431'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/11/uma-famlia-burguesa-parte-xi.html' title='Uma família burguesa - parte XI'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>31</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116230927781592758</id><published>2006-11-02T12:30:00.000Z</published><updated>2006-11-02T18:09:35.613Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte X</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A refeição e o convívio decorreram alegremente falando-se de vários assuntos. A própria Bárbara estava mais conformada e já tinha deitado o ensonado Jocas quando tocou a campaínha.&lt;br /&gt;- Deve ser o meu pai com o carro para ti. – disse Ricardo Jorge, olhando para a mulher – Vou descer. Com licença!&lt;br /&gt;Levantou-se da mesa e saiu.&lt;br /&gt;Pouco depois entraram os dois Costa Lima.&lt;br /&gt;Seguiram-se as saudações e as perguntas e respostas habituais nestas circunstâncias.&lt;br /&gt;- Então o Mário vai ter a Nanda como enfermeira? Mas que sorte! – disse o mais velho, que acabara de ser informado do facto pelo filho.&lt;br /&gt;E continuou com ironia:&lt;br /&gt;- Vai tratá-lo tão bem que ele nunca mais fica bom para não perder tão preciosa companhia.&lt;br /&gt;A jovem não se desmanchou e atalhou prontamente:&lt;br /&gt;- Haverá alguma mulher que não estivesse disponível para ajudar uma pessoa com as qualidades do nosso acidentado?&lt;br /&gt;Bárbara corou ligeiramente.&lt;br /&gt;- Eu não posso responder porque não sou mulher. Mas palpita-me que é capaz de ter razão. Olhe! Se fosse comigo até era capaz de partir o outro braço...&lt;br /&gt;- Calma! – interrompeu o Mário – Não se esqueçam de que estou incapacitado!&lt;br /&gt;O Tó Zé soltou uma gargalhada e disparou:&lt;br /&gt;- Parcialmente, meu amigo, muito parcialmente!&lt;br /&gt;Todos se riram, mas logo a Bárbara, muito circunspecta, sentenciou:&lt;br /&gt;- O destino prega-nos grandes partidas. A partir de um pequeno acidente de automóvel o que vai acontecendo...&lt;br /&gt;E terminou:&lt;br /&gt;- Espero eu, e todos nós, que o Mário se recomponha rapidamente.&lt;br /&gt;- Seguramente que sim, Bárbara! – acompanhou o António José.&lt;br /&gt;A conversa continuou ainda mais animada durante cerca de meia hora quando, dirigindo-se ao filho, disse o velho engenheiro:&lt;br /&gt;- Ricardo! Podes dar-me uma boleia até ao Porto?&lt;br /&gt;- Eu também vou sair e levo-o no meu carro, Sr. Engenheiro – adiantou-se a Fernanda.&lt;br /&gt;- Mas para si, que vive aqui na Maia, se bem me recordo, é uma volta enorme – tentou recusar o Tó Zé.&lt;br /&gt;- Eu estou com vontade de dar uma volta maior que o costume. Até é um favor que me faz – insistiu ela.&lt;br /&gt;Pouco depois, e após as despedidas, António José e Fernanda Mota saíram e dirigiram-se ao Clio da rapariga.&lt;br /&gt;Durante o percurso falaram de vários assuntos mas não tocaram na questão da instalação da Nanda em casa do Mário.&lt;br /&gt;Só quando a viatura parou em frente à vivenda das Antas é que o Costa Lima disse, antes de se apear:&lt;br /&gt;- Os meus parabéns, Nanda! É com a determinação que demonstrou ao avançar para a ajuda ao Mário que se conseguem atingir objectivos.&lt;br /&gt;- Vamos ver, Sr. Engenheiro, vamos ver o que nos reserva o futuro! Mas pode crer que vou usar, acima de tudo, toda a minha inteligência.&lt;br /&gt;- Eu conheço-a mal! Mas pelo que me apercebi, inteligência é coisa que não lhe deve faltar! Tenha calma...e boa sorte!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois da visita de Joana e Manuel António e das suspeitas levantadas por Ana Maria em relação a um suposto mau relacionamento do casal, Lena tinha prometido à filha mais velha fazer um contacto telefónico com a irmã mais nova.&lt;br /&gt;Não sabia o horário da Joana, mas ligou. Estes assuntos devem ser falados com calma e preferiu o telefone fixo, ligando para a casa de Leça da Palmeira. Atendeu a empregada. Disse que a Sr.ª Doutora estava na escola mas deveria chegar por volta das cinco horas.&lt;br /&gt;Passavam uns quinze minutos das dezassete e tentou de novo.&lt;br /&gt;- Está?&lt;br /&gt;Reconheceu a voz da filha.&lt;br /&gt;- Olá, Joana! É a mãe! Estás bem?&lt;br /&gt;- Olá, mãe! Eu estou. E tu?&lt;br /&gt;- Cá em casa estamos todos bem, felizmente. E o Manel? – perguntou a mãe.&lt;br /&gt;- Está bem! Na Faculdade, como habitualmente – respondeu a Joana Isabel.&lt;br /&gt;- E como vai a questão da criancinha? Sempre vão adoptar alguma? – questionou a Lena.&lt;br /&gt;- Ainda não está decidido. Eu, pela minha parte, adoptava. O Manel é que acha que a relação biológica é fundamental e que uma criança adoptada nunca seria um verdadeiro filho. Eu considero que pode não ser bem assim, também tenho as minhas dúvidas, mas penso que se houver amor e a criança nos considerar como pais, nós o consideraremos como filho; ou ao contrário – lamuriou-se a jovem estéril.&lt;br /&gt;- Essas questões são complicadas, minha filha! Eu também tenho algumas reservas. Mas vocês os dois é que tem de decidir.&lt;br /&gt;E continuou a Maria Helena:&lt;br /&gt;- Por isso se notou algum distanciamento entre vós quando cá vieram jantar.&lt;br /&gt;- Notou? – estranhou a Joana – As coisas entre nós correm bem. Só temos esta divergência e não falamos nela a toda a hora.&lt;br /&gt;- Minha filha! Espero que chegueis a um entendimento rapidamente para que tudo se normalize. Boa sorte! Cumprimentos ao teu marido e um grande beijinho para ti – despediu-se a mulher do Costa Lima.&lt;br /&gt;- Beijinhos para todos e um muito grande para si, mãe!&lt;br /&gt;E desligaram ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;Nessa mesma noite, antes do jantar, Helena perguntou a Ana Maria:&lt;br /&gt;- Ana! Hoje vais sair?&lt;br /&gt;- Em princípio não! Mas porquê?&lt;br /&gt;- De tarde falei com a Joana e gostava de conversar contigo depois do jantar. Mas só as duas. Aproveitamos quando o teu pai for fazer o exercício de caminhar.&lt;br /&gt;- Está bem, mãe! Então falamos depois. Mas há qualquer coisa que os separa, não há? – e, ao dizer isto, um sorriso estranho bailou no seu rosto.&lt;br /&gt;- Não te adiantes, está bem?&lt;br /&gt;Após o jantar e o Tó Zé ter saído com o amigo Armando para mais uma caminhada higiénica, as duas sentaram-se na sala da cave.&lt;br /&gt;- Então, mãe! Conte o resultado das suas investigações – pediu a filha.&lt;br /&gt;- Dada a irreversível esterilidade da Joana e a impossibilidade de uma inseminação artificial pois, como sabes, foi-lhe detectada uma tuberculose genital com atingimento das trompas, provavelmente causada pela primo infecção que teve há cinco anos, eles ponderam a possibilidade de adoptar uma criança.&lt;br /&gt;- Isso eu já sei, mãe! Embora eu pense que há novas técnicas para resolver o problema, mas eles não querem recorrer a elas – interveio a Ana Maria.&lt;br /&gt;- Deixa-me falar à vontade, faz favor!&lt;br /&gt;E continuou a mais velha:&lt;br /&gt;- A divergência que existe, e que tu detectaste muito bem, está em que o Manel António não é adepto da adopção.&lt;br /&gt;- Se quer que lhe diga, já tinha topado isso há meses. Mas não disse nada. Achei que agora devia dizer alguma coisa...e disse! – revelou a filha, de novo com um estranho sorriso a dançar-lhe na face.&lt;br /&gt;Mas a Lena prosseguiu:&lt;br /&gt;- Considera que uma criança adoptada, não sendo filho biológico, não o é verdadeiramente. E estão nesse impasse...&lt;br /&gt;- Mãe! Na minha opinião, o Manel tem razão! Eu também...&lt;br /&gt;- Para ti o Manel tem sempre razão! – interrompeu a mãe.&lt;br /&gt;- Sempre não! Mas quasi sempre! Mas deixe-me concluir...onde ía....ah...já sei! Eu também acho que uma adopção envolve muitos riscos. Para começar, não se sabe quais os genes que ele transporta. Um filho biológico pode sair com problemas mas, neste caso, a probabilidade é pequena, considerados os antecedentes familiares da Joana e do Manel. Um adoptado pode ser filho de alcoólicos ou drogados ou trazer graves problemas hereditários. Eu nunca faria uma adopção! – sentenciou a filha,&lt;br /&gt;- Tens alguma razão – disse a mãe – mas estás a exagerar os riscos. Penso que a maioria das adopções são bem sucedidas, pois, como dizia a tua mana, se os pais lhe derem muito amor, a criança vai acabar por os considerar como os verdadeiros pais, mesmo que venha a saber a verdade, e estes aceitam-na como verdadeiro filho.&lt;br /&gt;- Ora aí está! Mais um problema! Quando o adoptado descobre a verdade, vai querer saber quem são os verdadeiros pais. E deixa-me que te diga: duvido que a maioria das adopções sejam verdadeiramente bem sucedidas. Antes pelo contrário! – disse, triunfante, a mãe de Cláudia.&lt;br /&gt;- Ana Maria! Independentemente da nossa opinião, eles é que terão de decidir. Portanto deixemos este assunto porque te queria falar noutra coisa – impôs-se a mãe.&lt;br /&gt;- Pronto, mãe! Então o que mais quer dizer? Hoje está muito coscuvilheira...&lt;br /&gt;- Já há muito tempo, diria mesmo anos, que noto que tens uma simpatia muito grande pelo Manel.&lt;br /&gt;- E é verdade! Qual o problema? – interveio, de imediato, a jovem.&lt;br /&gt;- O problema é que acho que tu estás apaixonada por ele e não consegues reorganizar a tua vida com outro homem por causa disso – falou, destemida, a Maria Helena.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116230927781592758?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116230927781592758/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116230927781592758' title='28 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116230927781592758'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116230927781592758'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/11/uma-famlia-burguesa-parte-x.html' title='Uma família burguesa - parte X'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>28</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116216438202914024</id><published>2006-10-29T23:25:00.000Z</published><updated>2006-10-29T23:41:13.463Z</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte IX</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Sozinhos na sala e com o Jocas entretido no seu quarto a brincar, Bárbara não resistiu e beijou suavemente os lábios do amigo.&lt;br /&gt;- Como é a vida, Mário! Há dezasseis anos que me fizeste viver alguns dos melhores dias da minha vida. Foi em Moledo, em Agosto de 1990, nunca o poderei esquecer, que com dezassete anos me deste o primeiro verdadeiro beijo e fizeste de mim uma mulher. Sabes bem que isso marca de forma indelével. Eu gosto muito do meu marido, mas...&lt;br /&gt;- Minha Bárbara! Minha amiga! Não imaginas o efeito que provocas em mim, mas acho que devemos manter um comportamento que não me faça sentir culpado perante o meu amigo e sócio – recuou o belo solteiro.&lt;br /&gt;- Claro que sim! Mas não podia deixar de te dizer o que significaste para mim. E ainda significas. Mas, como se costuma dizer: amores de praia enterrados na areia. E eu para ti não fui mais que outra nova conquista – disse a mulher de olhos de mar.&lt;br /&gt;- Olha que talvez te enganes! Mas...e se preenchêssemos a declaração amigável? – recuou novamente o leal sócio de Ricardo.&lt;br /&gt;- Vamos lá, então!&lt;br /&gt;E começaram a fastidiosa tarefa, feita com muitos risos, provavelmente nervosos.&lt;br /&gt;Tocou o telefone.&lt;br /&gt;Bárbara foi atender.&lt;br /&gt;- Ah! És tu Ricardo? Que se passa?&lt;br /&gt;- Lembrei-me de telefonar ao meu pai para te emprestar o Toyota pois ele tem o carro da empresa. Assim não é preciso nenhum carro de substituição. Se ele pudesse trazê-lo cá esta noite, seria óptimo – disse a voz do outro lado da linha.&lt;br /&gt;- É uma ideia estupenda! Por mim está aprovada – disse ela.&lt;br /&gt;- Pronto! Vou tratar do assunto. Beijinhos e um abraço ao doente. Até daqui a pouco.&lt;br /&gt;- Até já! Não demores – despediu-se a bela loira.&lt;br /&gt;E Bárbara desligou, explicou a Mário o teor da conversa e continuaram a preencher o papel enquanto íam conversando.&lt;br /&gt;A certa altura, Bárbara disse:&lt;br /&gt;- Agora vou ter de preparar o jantar. É a primeira vez que vou cozinhar para ti. A empregada só vem de manhã e eu desenrasco sempre esta refeição. Dantes íamos comer mais vezes a restaurantes. Agora, porque o Jocas é pequenito, quando estou preguiçosa mando vir a comida de fora.&lt;br /&gt;- Está à vontade! – disse ele.&lt;br /&gt;Algum tempo depois entrou Ricardo.&lt;br /&gt;- Então? Tens dores? – perguntou.&lt;br /&gt;- Algumas, mas já tomei o analgésico. O que me deram no hospital já estava a deixar de fazer efeito. Está tudo bem na firma? – quis saber o sócio.&lt;br /&gt;- Está tudo sob controlo! Claro que tu vais fazer falta...&lt;br /&gt;- Eu posso ir para lá e farei o que puder. O que não puder, ponho a estagiária a executar sob as minhas ordens. Mas a fractura é ligeira e um mês de imobilização deve ser suficiente. O ortopedista da urgência o disse – falou o optimista informático.&lt;br /&gt;- Vou ver a Bárbara! Já venho! – e Ricardo dirigiu-se à cozinha.&lt;br /&gt;Mas logo apareceu o filho João que trepou por ele acima para lhe dar um beijo.&lt;br /&gt;- Olá, papá!&lt;br /&gt;- Olá, meu filho! Vamos ver a mamã?&lt;br /&gt;Entraram na cozinha.&lt;br /&gt;- Boa tarde, mulherzinha! – saudou ele enquanto lhe dava um beijo.&lt;br /&gt;- Olá, Ricardo!&lt;br /&gt;- Oh papá, o aleijadinho vai jantar cá? – disse o puto.&lt;br /&gt;Ambos soltaram uma gargalhada.&lt;br /&gt;- Vai, filho, vai! E vai ficar em casa até estar melhor – esclareceu o progenitor.&lt;br /&gt;E mudando de assunto:&lt;br /&gt;- Falei com o meu pai e ele vem cá depois do jantar trazer o Toyota.&lt;br /&gt;- Que bom! – exclamou a mulher.&lt;br /&gt;- Vou fazer um pouco de companhia ao Mário – disse o marido e saiu, sempre com o Jocas às cavalitas.&lt;br /&gt;Passaram-se uns quinze minutos e a campaínha da porta tocou.&lt;br /&gt;- Ah...deve ser a Fernanda. Ela disse que passava por cá para dar uma ajuda e ver-te – informou o anfitrião.&lt;br /&gt;Era, de facto, a funcionária da empresa.&lt;br /&gt;- Posso entrar? Então como está o Sr. Engenheiro? – perguntou.&lt;br /&gt;Conversaram os três durante um pouco até que a Fernanda disse:&lt;br /&gt;- Mas eu vim cá também para dar uma ajuda.&lt;br /&gt;- Vou chamar a minha mulher – correspondeu o Costa Lima filho.&lt;br /&gt;Pouco depois a Bárbara entrou na sala e cumprimentou com dois beijos a Fernanda. Trocadas as saudações costumeiras, esta disse:&lt;br /&gt;- D. Bárbara! Eu vim cá para dar uma mãozinha. Que posso fazer?&lt;br /&gt;- É muita simpatia da sua parte. Olhe! Pode ir tratando aqui da refeição enquanto eu preparo os quartos, especialmente o do Mário – sugeriu a dona da casa.&lt;br /&gt;- Com certeza! Se tiver alguma dúvida eu chamo por si.&lt;br /&gt;A Nanda fez uma pausa e perguntou:&lt;br /&gt;- Então o Eng. Mário sempre vai ficar aqui?&lt;br /&gt;- Sim! Não tem ninguém em casa para tratar dele – respondeu a loira.&lt;br /&gt;- Talvez se arranje! – avançou a morena.&lt;br /&gt;- Sim? Conhece alguém?&lt;br /&gt;- Eu!&lt;br /&gt;Bárbara parou durante uma fracção de segundo mas rapidamente se recompôs.&lt;br /&gt;- Mas ele vai precisar de alguém durante a noite.&lt;br /&gt;- E eu não tenho medo dele! – e riu-se, a bela mestiça, enquanto dizia isto.&lt;br /&gt;- Não sei se será uma boa ideia! – disse, com o mais bem composto sorriso que conseguir colocar no rosto, a Bárbara.&lt;br /&gt;- Não há melhor do que falar com ele – sentenciou a Fernanda.&lt;br /&gt;- Pois... – foi tudo o que disse a educadora enquanto se retirava para os quartos.&lt;br /&gt;Entretanto o anfitrião convidara a informática a jantar com eles. Ela anuiu depois de ter telefonado à mãe.&lt;br /&gt;Algum tempo depois, Bárbara convocou todos para a mesa, já com o filho de barriguinha cheia.&lt;br /&gt;Estavam a começar a comer um bife quando o Mário disse:&lt;br /&gt;- Agora precisava de ajuda!&lt;br /&gt;Os três adultos levantaram-se quasi ao mesmo tempo, mas foi a morena quem tomou a dianteira.&lt;br /&gt;Enquanto cortava a carne foi dizendo:&lt;br /&gt;- Já na cozinha disse à D. Bárbara que acho que o Eng. Mário podia ir para casa dele. Vocês tem um filho pequeno que dá muito trabalho e não estou a ver o Eng. Ricardo ou a senhora a tratar do Eng. Mário durante a noite, por exemplo. Eu prontifico-me a transportá-lo no meu carro e a ficar na casa dele, dormindo lá, até estar em condições de fazer a vida normal. A minha mãe tem cinquenta e cinco anos e pode muito bem passar uns dias sem mim. Claro que irei lá todos os dias. Que diz, Eng. Mário? – expôs, com os outros a beberem as suas palavras, a Fernanda.&lt;br /&gt;- Eu...&lt;br /&gt;Mário fez uma pausa, recuperou e respondeu:&lt;br /&gt;- Eu acho que estou a dar trabalho a demasiadas pessoas. Sinceramente, sinto-me muito grato por tudo o que o Ricardo e a Bárbara estão a fazer por mim, mas esta solução que a Nanda propôs parece-me muito razoável.&lt;br /&gt;Bárbara já tinha percebido que Mário não queria recordar os tempos antigos e calou-se, não sem que intimamente ficasse com muita raiva da outra. Ricardo percebeu que a colaboradora de ambos na empresa estava a jogar uma cartada forte e achou que a decisão devia caber ao amigo. Como ninguém falava, avançou:&lt;br /&gt;- Pois a minha opinião é a seguinte: O Mário tem duas alternativas e acho que deve ser ele a optar.&lt;br /&gt;- Então, com os meus mais sinceros agradecimentos aos dois, opto por amanhã ir dormir a minha casa. Depois combino melhor com a Fernanda como vamos fazer – decidiu o charmoso trintão.&lt;br /&gt;- O juiz decidiu, está decidido! – disse o Ricardo, não podendo esconder um sorriso mordaz.&lt;br /&gt;O sorriso que Bárbara fez era diferente, era triste.&lt;br /&gt;E a grande vencedora, Fernanda, tinha os lindos olhos negros com um brilho cintilante.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116216438202914024?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116216438202914024/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116216438202914024' title='36 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116216438202914024'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116216438202914024'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/10/uma-famlia-burguesa-parte-ix.html' title='Uma família burguesa - parte IX'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>36</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116188534980877383</id><published>2006-10-27T20:50:00.000+01:00</published><updated>2006-10-27T09:04:31.226+01:00</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte VIII</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Uns dias depois do encontro de Mário Jorge e Bárbara num café da Maia, e logo após o almoço, conduzia ela o seu Peugeot 206 mas fazia-o absorta nos seus pensamentos.&lt;br /&gt;Ao chegar a um cruzamento em que não tinha prioridade continuou sem parar, ou melhor, parou encostada à porta de um reluzente Honda Civic.&lt;br /&gt;Só uma fracção de segundo antes da pancada a bela loira de olhos azuis se deu conta que ía bater. O choque não foi forte pelo que o cinto de segurança cumpriu muito bem a sua função. Ainda atrapalhada pelo ocorrido, reparou que no carro parado à sua frente, e a olhar para ela, estava o Mário Jorge.&lt;br /&gt;Saiu do carro sem dificuldades e dirigiu-se ao amigo:&lt;br /&gt;- Mário! O que eu fui fazer! Estás bem?&lt;br /&gt;- Estou! Quero dizer, apanhei aqui uma pancada no braço esquerdo mas não deve ser nada de especial. E tu? – perguntou o engenheiro.&lt;br /&gt;- Eu estou bem! A culpa é toda minha! Vamos arrumar os carros e depois eu levo-te ao hospital para ver o braço. Pode estar partido! – disse a jovem mulher, preocupada.&lt;br /&gt;- Está bem! E já vemos se os carros estão em condições de andar – anuiu o homem.&lt;br /&gt;O cruzamento ficava num local com pouco movimento, pelo que não havia grande confusão no trânsito nem muitos mirones.&lt;br /&gt;Verificaram que o Honda do informático estava essencialmente com a porta do lado esquerda bastante amolgada, enquanto o Peugeot da amiga apresentava danos na parte frontal mas que, após uma observação cuidada, não impediam o carro de andar. Só os faróis estavam partidos; o resto era chapa amolgada.&lt;br /&gt;O mais danificado era o Mário pois o cotovelo esquerdo foi, de algum modo, tocado.&lt;br /&gt;Era preciso decidir qual das viaturas usar para irem ao Hospital de S. João, o mais próximo.&lt;br /&gt;Eis que um dos mirones disse:&lt;br /&gt;- O melhor é deixarem aqui os carros e chamar um táxi para os levar.&lt;br /&gt;- Pois! – concordou o sinistrado – eu tenho o número dos Táxis Maia no meu telemóvel. Vou ligar.&lt;br /&gt;- Deixa que eu ligo! – disse a Bárbara.&lt;br /&gt;- Eu conheço melhor o celular. Deixa -me ligar.&lt;br /&gt;E, embora com alguma dificuldade, fê-lo.&lt;br /&gt;Entretanto a Bárbara ligou do seu para o marido.&lt;br /&gt;Ricardo ainda tentou que ela regressasse a casa dizendo que ele trataria do assunto.&lt;br /&gt;- É melhor deixares-me tratar a mim. Além de o Mário ter de ser visto no hospital, também pode ser que eles me queiram tirar alguma radiografia, por precaução, e além disso temos de fazer a declaração amigável. São três da tarde. Hoje nem eu nem o Mário vamos trabalhar. Não te preocupes que a tua mulherzinha já está recomposta do susto e sabe tratar destes assuntos. Se houver alguma coisa de especial eu ligo-te. Está bem, meu amor? – falou ela.&lt;br /&gt;Entretanto chegara um táxi.&lt;br /&gt;- Olha! Chegou o táxi! Vamos fechar os carros e depois vamos directos para o S. João – comunicou para o marido.&lt;br /&gt;- Pronto! Confio nas tuas capacidades. Mas vou-me mantendo em contacto – rematou o Ricardo.&lt;br /&gt;Pouco depois seguiam os dois amigos no banco de trás do táxi.&lt;br /&gt;Bárbara ligou para o infantário a dar conta do ocorrido. Desligado o aparelho disse:&lt;br /&gt;- Que chatice, Mário! O que eu te fui fazer! – e, tocando-lhe levemente no braço – Dói-te? Dói-te?&lt;br /&gt;- Um bocado! Parece que a dor está a aumentar – disse ele, já um pouco mais preocupado.&lt;br /&gt;- Coitadinho do meu menino! – e deu-lhe um beijo na face – E foi logo a ti que eu fui magoar!&lt;br /&gt;- Oh Bárbara! Não te mortifiques. O pior que posso ter é uma fractura sem gravidade e daqui a pouco tempo estou bom. E o braço direito, que é o que utilizo mais, está totalmente operacional – procurou ele acalmá-la.&lt;br /&gt;A viagem decorreu com Bárbara a fazer tantos mimos ao Mário que este já agradecia a Deus, em pensamentos, por aquilo ter acontecido.&lt;br /&gt;Depois de terem chegado ao serviço de urgência, ao homem foi diagnosticada uma fractura no cotovelo, pelo que saiu de lá com o braço engessado. Ela também foi alvo de alguns raios X mas nada foi detectado.&lt;br /&gt;Chegados ao exterior, Ricardo estava esperando-os.&lt;br /&gt;- Então? – perguntou.&lt;br /&gt;- Eu não tenho nada! – disse a Bárbara enquanto o beijava na face e ele a acariciava – Mas o Mário tem uma fractura no cotovelo.&lt;br /&gt;- Vê-se bem! É grave? – perguntou o Ricardo.&lt;br /&gt;- Não! Não é grave! Daqui a um mês venho tirar o gesso e depois vê-se se preciso de fisioterapia. Ah...tenho de comprar um analgésico! – acrescentou o sócio.&lt;br /&gt;- Enfim! Coisas que podem acontecer a qualquer um. Mas podia ser muito pior. Valha-nos isso! – concluiu o Costa Lima mais novo.&lt;br /&gt;- E agora sugiro o seguinte. – falou o Mário Jorge – Vamos para a Maia no carro do Ricardo. Depois vamos levar os carros para as oficinas, ainda com a ajuda do Ricardo, pois eu não posso conduzir. E, se tivermos tempo, ainda preenchemos de tarde a declaração amigável. Senão eu vou a vossa casa à noite e fazemo-lo lá. Amanhã de manhã entregamo-la nas seguradoras.&lt;br /&gt;- É um bom programa – disse o Ricardo – mas tu vives só e não tens quem te ajude a vestir e despir, tens de andar de táxi, etc.&lt;br /&gt;E virando-se para a mulher, perguntou-lhe:&lt;br /&gt;- Oh Bárbara! E se ele ficasse alojado em nossa casa durante uns dias? Eu e tu dávamos-lhe apoio e ficava perto do escritório. Além disso um carro de substituição não lhe serve de nada pois não pode conduzir; para ti é que já seria útil.&lt;br /&gt;- Por mim, aprovo a ideia! E fica durante o mês em que tiver gesso? – disse, rapidamente, a mulher.&lt;br /&gt;- Mas isso seria uma maçada muito grande! Não me parece correcto. E um mês inteiro...nem pensar! Eu posso lá ficar uma noite enquanto resolvo o problema do apoio em casa. Depois tenho de ir à vida – ripostou o ferido.&lt;br /&gt;- Também a culpa de estares assim foi minha! É uma forma de me ressarcir do meu erro – disse ela.&lt;br /&gt;- Então quando formos ao Porto levar o teu carro passamos também por tua casa e trazemos uma mala com as coisas essenciais – alvitrou o Ricardo.&lt;br /&gt;- Mas antes passamos na farmácia, está bem? – disse o Mário Jorge.&lt;br /&gt;- Pronto! Está combinado! Vamos então que já é tempo – disse, resoluta, a jovem mamã.&lt;br /&gt;E pouco depois estavam no local do acidente.&lt;br /&gt;Bárbara levou o carro dela para uma oficina da Peugeot e o marido conduziu o Civic para o Porto com Mário como passageiro.&lt;br /&gt;O Honda Accord ficou no local.&lt;br /&gt;- Depois venho cá buscá-lo – disse o Ricardo.&lt;br /&gt;Cerca de uma hora depois, Bárbara estava em casa para onde se deslocou de táxi depois de passar pelo infantário para dar algumas indicações e trazer o Jocas.&lt;br /&gt;Mais uma hora e eram os homens quem chegava.&lt;br /&gt;- O Mário fica aqui enquanto eu aproveito o táxi que está lá em baixo e vou buscar o meu carro. Depois ainda vou passar pelo escritório para despachar os assuntos urgentes. Vocês podem, entretanto, ir fazendo a declaração amigável – sentenciou o filho do Tó Zé enquanto beijava a mulher e dava uma palmada na cabeça do amigo.&lt;br /&gt;Quando chegou à sede da empresa, teve de contar tudo com algum pormenor.&lt;br /&gt;Foi então que falou a Fernanda:&lt;br /&gt;- Sr. Engenheiro! Eu posso ir para sua casa dar uma ajuda. Se chegar à minha mais tarde não há problema pois a mãe desenrasca-se muito bem sozinha.&lt;br /&gt;- Francamente, não vejo necessidade...&lt;br /&gt;- Porque é homem! Já viu a sua mulher a ter de tratar de tudo? Da cozinha, do filho, de si, do engenheiro Mário...ainda por cima empenado!&lt;br /&gt;- Acho que não é necessário, mas agradeço-lhe muito. Em última análise vinha para cá a minha mãe.&lt;br /&gt;- Olhe, Sr. Engenheiro! Eu vou tratar dos assuntos que tiver que tratar aqui e, quando me for embora, passo por sua casa, se me der licença. Aliás gostava de ver o engenheiro Mário.&lt;br /&gt;- Pronto! Pode ser. Agora vou despachar aqui as coisas mais urgentes. Até já!&lt;br /&gt;E fechou-se no seu gabinete.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116188534980877383?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116188534980877383/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116188534980877383' title='35 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116188534980877383'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116188534980877383'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/10/uma-famlia-burguesa-parte-viii.html' title='Uma família burguesa - parte VIII'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>35</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116153499410211586</id><published>2006-10-23T14:15:00.000+01:00</published><updated>2006-10-23T14:31:55.756+01:00</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte VII</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;No dia seguinte à hora do lanche, Bárbara, como de costume, deslocou-se a pé até um café próximo para comer e beber qualquer coisa mas, sobretudo, para desanuviar do ambiente do infantário. Desta vez fê-lo sozinha porque um pequeno problema a reteve e impediu de ir com outras duas educadoras como era habitual.&lt;br /&gt;Sentou-se numa mesa e pediu um galão e meia torrada.&lt;br /&gt;De repente viu entrar o sócio do seu marido, o Mário Jorge, que não costumava aparecer naquele local. Ele também reparou logo nela, pois o seu ar de nórdica chamava sempre a atenção, e dirigiu-se à mesa da loira.&lt;br /&gt;- Olá, Bárbara! – disse.&lt;br /&gt;- Olá, Mário! Não é normal ver-te por aqui – disse ela.&lt;br /&gt;- Pois não! Mas estava perto e vim tomar um café.&lt;br /&gt;E virando-se para uma empregada:&lt;br /&gt;- Um café, por favor!&lt;br /&gt;Olhou para a Bárbara e disse:&lt;br /&gt;- Tu estás com um óptimo aspecto. É raro ver-te. Estás sempre metida no infantário?&lt;br /&gt;Mário Jorge Gomes tinha trinta e quatro anos, era muito alto e um pouco magro, usava o cabelo liso e preto bastante comprido, tinha uma tez clara, os olhos muito escuros e uma voz cava. Uma verdadeira estampa, consideravam as mulheres.&lt;br /&gt;Solteiro, mudava de namorada como quem muda de camisa.&lt;br /&gt;- No infantário e em casa. – respondeu ela – Mas também raramente te vejo.&lt;br /&gt;E ele, em surdina:&lt;br /&gt;- Prefiro que não me vejas e não te ver. Afinal és mulher do meu amigo Ricardo e não quero ser um elemento desestabilizador do casal.&lt;br /&gt;E ela respondeu também muito baixinho, depois de se certificar de que ninguém poderia ouvir ou desconfiar de qualquer coisa, por mais ínfima que fosse:&lt;br /&gt;- Já tenho muita mais maturidade do que nos outros tempos. Não há qualquer problema em conversarmos de vez em quando – como que convidou ela.&lt;br /&gt;- Acredito! Mas deixa estar as coisas como estão! – respondeu ele, obviamente procurando evitar o regresso a uma situação do passado.&lt;br /&gt;Bárbara percebeu e perguntou:&lt;br /&gt;- Tu continuas solteiro, não é verdade? Mas já tens idade para assentares. Deves ter...trinta e quatro! – adivinhou a loira.&lt;br /&gt;- Exactamente! Mais um ano do que tu – disse ele.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Quando vais lá à empresa ver as novidades? Já temos mais dois funcionários!&lt;br /&gt;- E eu não haveria de saber? Vou lá poucas vezes, confesso, mas algumas; só que tu andas muitas vezes por fora e não me costumas ver – explicou a jovem mamã.&lt;br /&gt;- Sim! Saio mais do que o teu marido. – e, mudando de assunto – Ah...o teu filho está fixe, eu sei. O Ricardo farta-se de falar nele – disse o informático.&lt;br /&gt;- É verdade, Mário! Felizmente está um miúdo cem por cento.&lt;br /&gt;Mas concluiu:&lt;br /&gt;- Bom! Vou andando! Tu continuas um borracho... – provocou ela, entre lábios.&lt;br /&gt;Ele também se levantou, pagou e despediram-se na porta com dois beijos.&lt;br /&gt;Mário Jorge entrou no seu Honda Civic enquanto ela caminhou a pé, em direcção ao local de trabalho, sob o olhar perscrutante do homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joana e o marido, Manuel António Félix acabaram de entrar em casa dos Costa Lima onde foram jantar.&lt;br /&gt;Desceram todos para a sala de estar da cave pois, embora o Verão tivesse terminado, ainda era aí que a temperatura estava mais confortável.&lt;br /&gt;Lena e a filha mais nova foram até à cozinha dar uma ajuda à Dina e mantiveram-se conversando. Como professoras que são, o tema favorito era o ensino, mas intermeado de um pouco de culinária.&lt;br /&gt;Desta vez a empregada Fátima não ficou para ajudar.&lt;br /&gt;Passados alguns minutos desceram e encontram Manuel António, António José, Cláudia e Ana Maria a conversar animadamente. A idosa Maria da Conceição ainda estava no seu quarto onde dormiu um pouco e só desceria quando fosse tempo de se sentar à mesa.&lt;br /&gt;- Cláudia! Vou ver a Vó. Queres vir? – perguntou a morena Joana.&lt;br /&gt;- Está bem! E já a podemos trazer para baixo – anuiu a jovem adolescente.&lt;br /&gt;- Nós vimos já! – avisou a Joana.&lt;br /&gt;E subiram para o piso mais elevado.&lt;br /&gt;- Um dos grandes problemas das casas com escadas é o obstáculo que constitui para os idosos. E já nem falo em deficientes – disse Lena, procurando desviar o futebol de tema da conversa.&lt;br /&gt;Sogro e genro são dois portistas muito aferroados e não prescindem de falar sobre o Porto, o Pinto da Costa, os árbitros, e tudo aquilo que faz parte desse espectáculo ímpar para uns e execrável para outros.&lt;br /&gt;Ana Maria escutava-os com atenção e também ía dando o seu parecer, embora não estivesse tão bem documentada como os dois homens.&lt;br /&gt;Lena desistiu de falar e permaneceu observando os outros.&lt;br /&gt;Reparou essencialmente em Ana Maria. Como estava diferente de há poucas noites atrás quando tinham sido Ricardo e Bárbara os visitantes! Mais alegre, atenta, interventiva e apoiava quasi sempre as teses do cunhado.&lt;br /&gt;Passado algum tempo desceu a Cláudia.&lt;br /&gt;- A Vó já está sentada na mesa e a Joana a falar com ela.&lt;br /&gt;- Eu vou ver se o jantar está pronto – disse Maria Helena, levantando-se.&lt;br /&gt;Poucos minutos depois assomou às escadas e chamou:&lt;br /&gt;- Podem lavar as mãozinhas e vir para a mesa. O jantar vai ser servido.&lt;br /&gt;E desapareceu de novo.&lt;br /&gt;A refeição decorreu animadamente e todos participaram nas várias conversas que às vezes se cruzavam e obrigavam o anfitrião a pedir um pouco de ordem.&lt;br /&gt;As senhoras e Cláudia íam ajudando a dedicada Dina para lhe aliviar a carga, embora mais duas pessoas do que o normal não fosse um acréscimo de trabalho por aí além. Mas uma ajudinha sabia sempre bem.&lt;br /&gt;A Avó São, obviamente, estava muito sentada no seu lugar e Ana Maria não deixava de ouvir atentamente o que dizia o professor de Filosofia na Universidade do Porto. E intervinha sempre que lhe parecia oportuno.&lt;br /&gt;Já passavas das onze quando a Joana disse:&lt;br /&gt;- Vamos embora porque amanhã é dia de trabalho!&lt;br /&gt;E levantou-se.&lt;br /&gt;- Espera mais um bocadinho – disse Ana Maria.&lt;br /&gt;- Realmente a Joana tem razão. Ainda temos de ir para Leça e amanhã eu tenho de me levantar cedo – concordou o marido.&lt;br /&gt;- Para a próxima venham jantar a uma sexta ou um sábado – disse, contristada, a Ana Maria.&lt;br /&gt;Terminadas as despedidas e já sem os dois convidados em casa, Lena dirigiu-se à filha:&lt;br /&gt;- Tu hoje estavas bem animada. Gosto de te ver assim.&lt;br /&gt;- O Manel é uma pessoa que me dá gosto ouvir falar e também adoro conversar com ele.&lt;br /&gt;Fez uma pausa e disse:&lt;br /&gt;- Oh mãe? Não achou que havia muita frieza entre ele e a Joana?&lt;br /&gt;- Bom! Eles não vieram cá para falar um com o outro, não é?&lt;br /&gt;- Claro! Mas eu acho que havia! E, se calhar, é por causa de a Joana não poder ter filhos – atirou a filha.&lt;br /&gt;- Não me pareceu que houvesse qualquer problema entre eles – insistiu a mãe.&lt;br /&gt;- Eu não falei em problema, falei em frieza, distanciamento...mas isso de ser estéril pode muito bem ser uma causa de mal-estar dentro de um casal – defendeu Ana Maria a sua tese.&lt;br /&gt;- Olha! Eu um dia destes telefono à Joana para ver se descubro alguma coisa de anormal. Agora vou dar uma ajuda à Dina – prometeu a Lena para acabar com o assunto.&lt;br /&gt;Mas ficou a pensar:&lt;br /&gt;- Talvez tenha razão; o casamento é capaz de estar a atravessar uma crise. Mas esta Ana Maria está a demonstrar demasiado interesse pelo Manel. Não gosto disto!&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116153499410211586?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116153499410211586/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116153499410211586' title='32 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116153499410211586'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116153499410211586'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/10/uma-famlia-burguesa-parte-vii.html' title='Uma família burguesa - parte VII'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>32</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116126500796555506</id><published>2006-10-20T00:20:00.000+01:00</published><updated>2006-10-20T00:25:22.526+01:00</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte VI</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Fernanda Mota era cabrita como a irmã. Filha de pai branco e mãe mulata possuía uma tez bastante mais clara, era mais alta e mais bonita, mas tinha um corpo tão escultural como o de Teresa.&lt;br /&gt;O pai abandonara a família alguns anos antes deixando a mulher com sérios problemas financeiros. Mas ela soube preparar as filhas para a vida e agora começava a sentir-se recompensada dos sacrifícios por que passara. A neta Mariana é o seu ai Jesus.&lt;br /&gt;A filha mais nova tinha um namorico com um tal Pedro Alves, rapaz de poucas posses e que, apesar de com ele manter relações íntimas algumas vezes, não era o homem que a preenchia em vários aspectos. Era sobretudo um amigo.&lt;br /&gt;Ao fim de cerca de dez dias, Teresa entrou no gabinete do seu chefe, com um sorriso nervoso e disse:&lt;br /&gt;- Sr. Director! A minha irmã vai hoje ser entrevistada pelo seu filho Ricardo e pelo sócio.&lt;br /&gt;- Eu sei! Eu sei! Pensa que não tenho continuado a acompanhar o assunto? É logo às duas e meia da tarde, e pelo que sei, a nível de currículo está bem posicionada – revelou o Costa Lima.&lt;br /&gt;- Estou tão nervosa! E o senhor então tem tratado do assunto! – afirmou, com um certo ar de admiração.&lt;br /&gt;- Claro! Eu quero o seu bem e o da sua família – respondeu o António José.&lt;br /&gt;- Deus lhe pague! Deus lhe pague! – agradeceu ela.&lt;br /&gt;- Já tem pago! Já tem pago! – pensou ele.&lt;br /&gt;A manhã decorreu com toda a normalidade, exceptuado os pormenores de a Teresa ter partido dois copos e trilhado um dedo numa porta.&lt;br /&gt;Nessa noite, o pai Costa Lima telefonou ao filho:&lt;br /&gt;- Então que tal a entrevista com a Fernanda Mota? – perguntou.&lt;br /&gt;- O pai conhece-a?&lt;br /&gt;- Não!&lt;br /&gt;Teresa já lhe havia mostrado fotografias da irmã, mas o Tó Zé entendeu omitir o facto.&lt;br /&gt;- Pois só lhe digo que é uma brasa! – disse, arrebatado, o filho.&lt;br /&gt;- E vais admiti-la por ser uma brasa?&lt;br /&gt;- Ainda não decidimos! Ela e dois sujeitos apresentam as mesmas hipóteses – revelou o Ricardo.&lt;br /&gt;- Então o factor brasa vai ser determinante. E como quer tu quer o Mário não gostam nada de mulheres, parece-me que, no fundo, já decidiram – quis adivinhar o pai.&lt;br /&gt;- Não é certo! Sabe que uma brasa aqui dentro pode incendiar algumas coisas. Mas, de facto, deve ser ela a escolhida.&lt;br /&gt;- Ficaria muito contente pela D. Teresa que anda nervosíssima e está farta de fazer asneiras. Resolve lá isso depressa para eu não ser destituído do meu cargo sob a acusação de pactuar com alguém que anda a delapidar o património da empresa – gracejou o Tó.&lt;br /&gt;Do outro lado ouviu-se uma gargalhada.&lt;br /&gt;- Esteja descansado, pai! Logo que tomemos uma decisão eu ligo-lhe. E agora vou trabalhar. Um beijo – despediu-se.&lt;br /&gt;- Um beijo também para ti, meu filho! E não te esqueças de me avisar – e desligou.&lt;br /&gt;No dia seguinte, a meio da tarde tocou o telefone directo do director. Este atendeu:&lt;br /&gt;- És tu, Ricardo?&lt;br /&gt;- Olá, pai! É só para lhe dizer que a Fernanda Mota foi admitida com um contrato a prazo de seis meses, renovável por outros seis – disse o engenheiro mais novo.&lt;br /&gt;- Óptimo! Obrigado por teres telefonado. Vou já dizer à D. Teresa. Espero que tenhas tomado uma boa decisão. Um beijo, filho.&lt;br /&gt;- Um beijo, pai!&lt;br /&gt;O director levantou-se, foi à porta e fez sinal a Teresa para entrar.&lt;br /&gt;- Teresa! Acaba de me telefonar o Ricardo a dizer que a sua irmã foi admitida!&lt;br /&gt;Um brilho cintilou nos olhos da mulher, que agradeceu:&lt;br /&gt;- O Sr. Director foi uma pessoa formidável a tratar deste assunto. Nem sei como lhe hei-de agradecer.&lt;br /&gt;- Não há nada para agradecer! A sua irmã foi admitida por mérito próprio. Gosto de a ver assim feliz. E agora vamos trabalhar e veja se não parte mais coisas – gozou o chefe.&lt;br /&gt;- Peço muita desculpa. Mas se for preciso eu pago – disse a mulher, ainda meia tonta.&lt;br /&gt;- Ora! Ora! Não percebeu que eu estava a brincar? Está mesmo desnorteada. Vá tomar um cafezinho para assentar as ideias – recomendou o Director.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saltemos de 2003 para Setembro de 2006:&lt;br /&gt;Os negócios de Ricardo e Bárbara estão prósperos. O filho, João Paulo, está quasi a fazer dois anos e é um miúdo traquina e saudável, que já fala bastante.&lt;br /&gt;Formam um casal vistoso e, aparentemente, feliz.&lt;br /&gt;Uns dias antes haviam sido convidados para jantar em casa do Costa Lima, tendo aceite.&lt;br /&gt;Este e a mulher estavam felizes por os receber e sobretudo por terem lá em casa o neto.&lt;br /&gt;Também Cláudia, a prima, estava radiante com as brincadeiras do Jocas.&lt;br /&gt;E a velha bisavó estava mesmo a precisar de uma babete...&lt;br /&gt;A Dina, nos seus cinquenta e um anos, solteirona, baixa e gorda, era a responsável pela cozinha, embora também colaborasse nas limpezas ajudando a empregada externa, Fátima, de vinte e sete anos, vivendo casada num bairro camarário em Contumil e que nessa noite ficou para ajudar a empregada mais velha e ver o menino João.&lt;br /&gt;O miúdo foi o centro das atenções.&lt;br /&gt;Só Ana Maria pareceu sempre um pouco distante. A vida afectiva não lhe corria de feição e isso reflectia-se no seu humor e na sua sociabilidade. Todos repararam nisso, mas ninguém deu demasiada importância ao facto pois já era habitual.&lt;br /&gt;- Fico muito feliz por saber que tudo corre bem lá pela Maia. Na vossa casa, no infantário e na Rimafor – disse o anfitrião.&lt;br /&gt;- Obrigado, pai! – agradeceu o Ricardo.&lt;br /&gt;- E a minha nora continua uma linda mulher e o meu neto já revela as capacidades dos Costa Lima...sem desprimor para as dos Mendes – disse, sorrindo para Bárbara.&lt;br /&gt;- Muito obrigado, querido sogro! Vejo que continua com o seu forte espírito de família. Acho isso muito bonito. E sempre sedutor! – retorquiu a bela trintona.&lt;br /&gt;- Não muito...não muito! Os anos vão passando e os cabelos branqueando...e desaparecendo. – e riu-se, o Tó Zé – Ah...oh filho! E a Fernanda Mota continua a agradar?&lt;br /&gt;- Estamos muito satisfeitos com ela. É muito profissional e competente. Já está há muito integrada nos quadros da empresa, como sabe. Agora somos seis: temos mais uma engenheira informática estagiária e um técnico com contrato a prazo – respondeu.&lt;br /&gt;- Ainda bem! – e o António deixou o assunto morrer por ali.&lt;br /&gt;Eram cerca das dez e meia e o rapazinho começou a dar sinais de sono.&lt;br /&gt;- Bom! Temos de ir andando porque amanhã é dia de trabalho e o João Paulo já tem sono. Agradecemos muito o convite. É sempre um prazer vir a esta casa, agora bem mais acolhedora – iniciou as despedidas o Ricardo.&lt;br /&gt;- Eu ainda vou andar um pouco a pé. Hoje vou sozinho porque não combinei nada com o Armando – disse o pai.&lt;br /&gt;- Tu é que tens de arrebitar, oh Ana Maria! Acho-te muito em baixo, muito pensativa, muito calada. Toma lá um beijo e até um dia destes – despediu-se o jovem empresário de sua irmã.&lt;br /&gt;E pouco depois os três visitantes saíram.&lt;br /&gt;- Lena! Vou vestir-me para dar uma volta! Correu-te tudo bem? – perguntou o marido.&lt;br /&gt;- Estou muito contente por eles terem cá vindo e as coisas correram normalmente. Desta vez até foi mais fácil pois tivemos a ajuda da Fátima – respondeu a mulher.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116126500796555506?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116126500796555506/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116126500796555506' title='40 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116126500796555506'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116126500796555506'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/10/uma-famlia-burguesa-parte-vi.html' title='Uma família burguesa - parte VI'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>40</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116100182774591912</id><published>2006-10-16T14:50:00.000+01:00</published><updated>2006-10-16T15:07:57.683+01:00</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte V</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Estamos em 2002.&lt;br /&gt;Num fim de tarde muito chuvoso de um dia em que Teresa tinha deixado o seu Volkswagen Polo numa oficina, o engenheiro ofereceu-se para a levar a casa.&lt;br /&gt;Parados à porta, as bátegas de águas eram de tal forma que:&lt;br /&gt;- Teresa! Agora não pode sair. É melhor esperar aqui um pouco. Eu vou ligar para casa e dizer que estou preso no trânsito – alvitrou o chefe.&lt;br /&gt;- De facto, agora não é bom momento para sair – concordou ela.&lt;br /&gt;Os vidros da viatura estavam embaciados, propiciando uma intimidade que o Tó Zé aproveitou para tocar numa mão de Teresa. Esta não a retirou e o homem apertou-a com força. Como resposta, teve um sinal semelhante. A jovem mãe e esposa aproximou-se mais para o lado esquerdo do assento e o homem colocou-lhe um braço à volta do pescoço. Olharam-se e, logo de seguida, os seus lábios tocaram-se ao de leve. Mas não passaram muitos segundos até que um beijo profundo colasse as suas bocas. Quando as separaram, Tó Zé pegou na mão da secretária e colocou-a de modo que ela pudesse sentir o seu falo hirto. Ela apertou-o e disse:&lt;br /&gt;- Finalmente! Não sabe o quanto eu ansiava por este momento.&lt;br /&gt;Abriu lentamente a carcela das calças do homem, extraiu delas o membro quente e duro, e masturbou-o com uma tal mestria que o chefe gemia de prazer.&lt;br /&gt;Um pano de limpar os vidros retirado do seu lugar pelo Tó, foi a salvação para que o interior do carro não fosse salpicado por um sémen vulcânico.&lt;br /&gt;Finalmente, ele falou:&lt;br /&gt;- Que maravilha, Teresa! Acho que nunca me fizeram gozar tanto desta forma.&lt;br /&gt;- Se o Director quiser...&lt;br /&gt;- Por favor! Fora do serviço não me vais chamar mais de Director, ok? E vais-me tratar por tu! – interrompeu o homem.&lt;br /&gt;- Ok, chefe! – anuiu ela, dando uma risada.&lt;br /&gt;Ele riu-se também.&lt;br /&gt;- Trata-me por António, ou Tó Zé, ou Tó.&lt;br /&gt;- Ok, Tó! – disse ela maliciosamente.&lt;br /&gt;O homem abriu o vidro do seu Ford Mondeo e referiu:&lt;br /&gt;- Já viste que quasi não chove?&lt;br /&gt;- Ai meu Deus! Vou-me embora! Mas ficas-me a dever uma coisa – disse ela com um olhar lânguido de desejo.&lt;br /&gt;- Sem dúvida! Amanhã combinamos. Beija-me!&lt;br /&gt;Uniram novamente as bocas e despediram-se.&lt;br /&gt;Quando regressava a casa, a casa nova onde a esposa o esperava, ía pensando:&lt;br /&gt;- Meu Deus! Aos cinquenta e quatro anos ainda sou atraente para uma rapariga com vinte e seis. Ou será o dinheiro que é atraente? Seja como for, parece que está conquistada. Tenho de ter muito cuidado. Enfim! Já não é a primeira vez que me meto numa destas, mas não posso facilitar nem permitir excessos de confiança no trabalho. Serviço é serviço, brandy é brandy. E é bom que seja casada. Assim, ela própria terá mais cautelas. Sempre imaginei que seria uma fera na cama. Não falta muito para o confirmar. Espero não me deixar envolver demasiado. Tenho de ser forte porque, de facto, sinto um fraco por ela.&lt;br /&gt;E assim começou uma relação de dupla infidelidade que se manifestava mais ou menos uma vez por semana, num residencial bem escondida e com um parque de estacionamento que não permitia que as viaturas ficassem à vista de quem passasse à porta. Digo viaturas porque os encontros se processavam à hora de almoço e cada um levava o seu carro, saindo ele normalmente à frente para ir tratando das coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decorria o ano de 2003:&lt;br /&gt;- Teresa! – chamou o Costa Lima.&lt;br /&gt;- Diga, Sr. Director! – respondeu a secretária.&lt;br /&gt;- Já lhe disse que o meu filho Ricardo está a constituir uma sociedade com um amigo para criar uma empresa do ramo informático?&lt;br /&gt;- Não! Ainda não me tinha dito nada – respondeu a mulher.&lt;br /&gt;- A sério? Talvez porque ele só mo referiu recentemente. É um tipo empreendedor! E o sócio tem o curso de engenharia informática. Mas vão precisar de meter mais uma ou duas pessoas com formação na área – informou o Tó Zé.&lt;br /&gt;- Sabe que a minha irmã mais nova, a Fernanda, tem formação nesse domínio? – avançou a Teresa, a pensar que talvez estivesse ali uma nova saída profissional para a irmã.&lt;br /&gt;- Já me falou da sua irmã, mas relembre-me, por favor – pediu o Costa Lima.&lt;br /&gt;- Chama-se Fernanda, tem agora vinte e três anos e trabalha numa empresa fraquinha e que paga muito mal. É solteira e livre, tanto quanto sei. Vive na Maia com a minha mãe...&lt;br /&gt;- Pois é! Já me havia falado nisso. É curioso, mas é na Maia que vai ser a sede da empresa. E o meu filho vai casar no fim do ano com a Bárbara. Eles já vivem juntos mas, depois de casarem, vão viver para um apartamento novo na Maia onde ela é sócia de um infantário; aliás, é educadora de infância – interrompeu o António José, movido pelas coincidências.&lt;br /&gt;- Desculpe a ousadia, mas acho que lhe vou pedir para meter uma cunha ao seu filho – aproveitou a secretária.&lt;br /&gt;- Com certeza! – disse o Director – Logo ou amanhã já lhe irei falar para considerar a candidatura da Fernanda.&lt;br /&gt;- Exactamente! Ficar-lhe-ía muito grata se intercedesse a favor da Nanda.&lt;br /&gt;- Claro que sim! Mas a escolha ou escolhas finais serão, naturalmente, do Ricardo e do sócio, o Mário Jorge.&lt;br /&gt;- Claro! Não podia ser de outro modo, mas acho que a minha mana tem bons argumentos para ser admitida – disse, maliciosamente, a Teresa.&lt;br /&gt;- Não sei se esses argumentos chegarão! – e riu-se, o Tó Zé – Espere! Vou ligar já com ele.&lt;br /&gt;E, de imediato, pegou no telefone e fez a chamada para o telemóvel do filho.&lt;br /&gt;Pouco depois:&lt;br /&gt;- Olá, Ricardo! É o pai! – disse.&lt;br /&gt;- Olá! Algum problema?&lt;br /&gt;- Não! Estive aqui a contar à D. Teresa que ías criar uma empresa de informática...&lt;br /&gt;- Já foi criada, pai! E já aluguei o espaço onde vamos trabalhar – corrigiu o jovem empresário.&lt;br /&gt;- Ah...e sempre é na Maia?&lt;br /&gt;- Sim! Na zona central da cidade.&lt;br /&gt;- Mas que bom! Fico contente que esteja tudo a avançar depressa. Nestas coisas, cada dia que passa sem abrires o negócio é dinheiro que estás a perder – regozijou-se o quinquagenário.&lt;br /&gt;- E vais meter dois empregados, não é? – continuou.&lt;br /&gt;- Sim! Estamos a procurar um engenheiro informático para estagiário e, se servir, fica. E também alguém jovem com formação na área e alguma experiência.&lt;br /&gt;- Pois soube agora que a D. Teresa, a minha secretária, tem uma irmã chamada Fernanda, mais nova, que encaixa nesse segundo perfil, e gostaria que ela fosse candidata. Que é preciso fazer? – perguntou o Tó Zé.&lt;br /&gt;- É simples! Que me mande um e-mail com o curriculum que depois eu ou o Mário a chamaremos para uma entrevista. Em princípio seremos os dois a falar com ela – esclareceu o Ricardo.&lt;br /&gt;- E quando prevês que isso aconteça?&lt;br /&gt;- Muito brevemente! Em oito ou dez dias – respondeu o filho.&lt;br /&gt;- Está bem! Então eu vou comunicar isso à D. Teresa e penso que muito depressa tens aí o currículo da Fernanda Mota – disse o António José. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Sabes o meu endereço, não sabes?&lt;br /&gt;- Claro que sei! Cumprimentos ao Mário e um beijo para a Bárbara. E para ti também.&lt;br /&gt;- Adeus pai! Um beijo.&lt;br /&gt;O director pousou o auscultador e logo explicou o teor da conversa à Teresa.&lt;br /&gt;No dia seguinte já Fernanda tinha o seu curriculum no correio electrónico de Ricardo Costa Lima.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116100182774591912?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116100182774591912/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116100182774591912' title='39 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116100182774591912'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116100182774591912'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/10/uma-famlia-burguesa-parte-v.html' title='Uma família burguesa - parte V'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>39</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116065426558276106</id><published>2006-10-12T12:47:00.000+01:00</published><updated>2006-10-12T16:14:16.876+01:00</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte IV</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Marina Pimenta tem actualmente trinta e um anos, é baixa, roliça mas não gorda, uma cara redonda, muito bonita e bem maquilhada, com os olhos verdes enormes a sobressaírem, cabelo muito loiro e muito curto. Mantém o ar de teenager sedutora que tinha quando, anos antes, fora trabalhar para o escritório do stand de Francisco Torres.&lt;br /&gt;A mãe, Maria Amélia Pimenta, de cinquenta e quatro anos, vive na zona histórica do Porto ribeirinho com o filho Alexandre Pimenta, um sujeito relativamente alto, com um peso adequado à altura, trinta e seis anos de idade mas uma notória calva que ele disfarça usando o cabelo muitíssimo curto, por vezes rapado. É um sócio muito minoritário de um bar nocturno nessa zona histórica da Invicta cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À hora habitual Francisco entrou em casa.&lt;br /&gt;- Boa noite! – disse.&lt;br /&gt;Ninguém respondeu.&lt;br /&gt;- Boa noite! – repetiu.&lt;br /&gt;Continuou o silêncio. Acendeu a luz da sala e viu a mulher sentada com um ar que não lhe conhecia. Uma expressão de furiosa mas com os olhos de quem muito chorara.&lt;br /&gt;- Estás aqui e não dizes nada?&lt;br /&gt;Ela limitou-se a estender-lhe o envelope com a folha lá dentro. Ele olhou, retirou a folha e leu.&lt;br /&gt;Ficou parado a olhar para o papel.&lt;br /&gt;- É verdade, não é? – perguntou a mulher.&lt;br /&gt;Ele continuou parado. Depois sentou-se e gaguejou:&lt;br /&gt;- Claro que não!&lt;br /&gt;- A tua reacção foi de quem está comprometido – notou ela.&lt;br /&gt;- Juro-te que isto é uma falsidade! – insistiu o Chico – Não é verdade!&lt;br /&gt;- Não? Então vou telefonar à Marina para saber o que ela diz.&lt;br /&gt;E pegou no auscultador.&lt;br /&gt;- Ana! Não faças isso! Porque não confias em mim? – foi o que lhe ocorreu dizer.&lt;br /&gt;- Será que posso confiar? Só depois de clarificar totalmente o que há entre ti e a Marina.&lt;br /&gt;E discou o número que Delfina lhe dera.&lt;br /&gt;De repente ele levantou-se, desfez a ligação e disse:&lt;br /&gt;- Para que vais meter ao barulho a rapariga que não tem nada a ver com isto?&lt;br /&gt;- Quero ouvir o que ela tem para dizer – teimou a mulher – E não tornes a desligar, ouviste?&lt;br /&gt;Ela discou de novo; alguém atendeu.&lt;br /&gt;- Daqui fala Ana Maria, a mulher de Francisco Torres. Estou a falar com Marina Pimenta?&lt;br /&gt;- Não! Ainda não chegou do trabalho. Daqui fala a mãe.&lt;br /&gt;- Eu queria falar com a sua filha. A que horas chega?&lt;br /&gt;- Não deve faltar muito.&lt;br /&gt;Durante mais de uma hora Ana Maria tentou falar com a eventual amante do seu marido, mas sem sucesso.&lt;br /&gt;O ambiente no apartamento era de um silêncio e de uma frieza tumulares.&lt;br /&gt;De repente, e para surpresa da mulher, Francisco falou, mas sem muita convicção:&lt;br /&gt;- Desculpa-me! Peço-te desculpa, Ana Maria! Tenho, de facto, um envolvimento com a Marina. Mas eu acabo com isso. Eu ponho-a na rua e o nosso casamento continua como se nada fosse.&lt;br /&gt;- Como se nada fosse? Para já, quem vai para a rua és tu. Faz o favor de ir buscar as tuas coisas mais necessárias e sair. Prevaricaste! Vais lá para fora e pensa bem no que fizeste durante alguns dias. Depois se verá o que se segue.&lt;br /&gt;Ele hesitou, ainda balbuciou qualquer coisa não compreensível mas, depois de uns passos para um lado e outro na sala, dirigiu-se ao quarto, preparou o que achou conveniente e saiu sem nada dizer.&lt;br /&gt;Ele estava completamente apaixonado por Marina! Aquele tempo de espera fê-lo tomar uma decisão. Bem lá no fundo, provavelmente, ficou satisfeito com o ocorrido.&lt;br /&gt;Até Ana Maria se admirou com a rapidez com que ele acatou a sua ordem de despejo:&lt;br /&gt;- Às tantas foi este sonso quem mandou aquela carta nojenta para despoletar a situação. É muito pacato e sossegado, mas para arranjar amantes tem jeito! – pensou ela – Não sei se voltas aqui. Não sei não! Não mostraste nenhum interesse em continuar comigo.&lt;br /&gt;E chorou mais...&lt;br /&gt;Chegado à rua, Francisco guardou as coisas no carro e pegou no telemóvel. Ligou para o celular da amante:&lt;br /&gt;- Olá, Marina!&lt;br /&gt;- Sim! O que foi? – perguntou ela.&lt;br /&gt;- A minha mulher descobriu a nossa relação! – revelou Francisco.&lt;br /&gt;- Foi o que pensei. Quando cheguei a casa a minha mãe disse-me que ela tinha ligado e queria falar comigo. Como nunca me tinha telefonado para cá, calculei que ela poderia ter descoberto alguma coisa. Por isso ordenei à minha mãe para dizer que eu ainda não tinha chegado. E tu onde estás?&lt;br /&gt;- Estou na rua, junto ao carro, com uma mala contendo algumas coisas minhas. Ela pôs-me na rua. Preciso de falar contigo e depois vou dormir para um hotel – disse ele.&lt;br /&gt;- Meu amor! Tu não estás bom da cabeça. Tu vens dormir cá para casa. Precisas de mim e eu preciso de ti. Vamos conversar, repousar, fazer amor. Vem já ter comigo, Francisco. Adoro-te!&lt;br /&gt;- Está bem! Até já! – anuiu o Chico.&lt;br /&gt;Desligou o celular, pôs o carro a trabalhar e arrancou rapidamente.&lt;br /&gt;Se alguém estivesse em casa de Maria Amélia e dos filhos, teria visto um sorriso triunfal no rosto lindo de Marina e ouvido o irmão Alex dizer:&lt;br /&gt;- Como vês, o meu estratagema resultou. Agora és tu que tens de o amarrar e, não tarda muito, estás casada com um tipo que te pode dar uma vida melhor.&lt;br /&gt;- Fizeste um trabalho de mestre, Alex! Muito obrigado! – disse a rapariga enquanto dava um beijo ao irmão.&lt;br /&gt;A Maria Amélia olhava para os dois, embevecida.&lt;br /&gt;E o pouco enérgico Francisco ficou ligado à azougada Marina. Mesmo antes da dissolução do matrimónio com Ana Maria, foram viver juntos para um andar na Baixa portuense.&lt;br /&gt;No início de 1998 tiveram um filho que baptizaram com o nome de Marco António.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos agora no ano de 2000.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O engenheiro Costa Lima teve a notícia de que havia sido promovido a Director de um Departamento técnico da empresa para a qual trabalha. Foi uma boa novidade, já que esperava ser preterido em relação a um colega, mas a Direcção – Geral entendeu dar-lhe o lugar a ele por ser mais novo e ter melhor perfil para o cargo.&lt;br /&gt;Como estava a tratar da renovação da casa que herdara da mãe, o momento não era o ideal pois habitava provisoriamente com a mulher e a sogra na casa desta.&lt;br /&gt;Tinha de se desdobrar para dar resposta a todas as solicitações que requeriam a sua presença.&lt;br /&gt;Com o novo cargo, passou a ter direito a uma secretária pessoal, além de manter as benesses que já tinha e passar a poder usufruir de outras.&lt;br /&gt;Foi considerada pela empresa a possibilidade de transferir, para lhe dar apoio, uma senhora já antiga na empresa mas, feitas as ponderações consideradas como necessárias, acabou por se concluir que melhor seria fazer a contratação de uma nova funcionária.&lt;br /&gt;Os Recurso Humanos encarregaram-se de fazer uma pré-selecção apresentando ao António José, pouco tempo depois, uma relação com cinco candidatas.&lt;br /&gt;Foram estas que o novo Director entrevistou pessoalmente e, por fim, resolveu optar por Teresa Mota, uma jovem com vinte e quatro anos, casada, vivendo na zona da Senhora da Hora, Matosinhos, e com uma filha de um ano. Devido às férias inerentes ao parto, ficou com o seu posto de trabalho pouco seguro na empresa onde trabalhava. Por isso tinha concorrido, não fosse ficar descalça. Era secretária por formação.&lt;br /&gt;O ano de 2000 e o seguinte foram de muito trabalho, não só o correspondente às suas funções, mas também o devido às tarefas particulares do seu chefe e ao facto de filha Mariana ser muito pequena.&lt;br /&gt;Esses longos meses consolidaram uma amizade forte entre o Tó Zé e a jovem cabrita que possuía uma tez mais escura do que o habitual. De estatura média e um corpo de linhas bastante curvilíneas, era atraente, sem ser bonita, no entanto.&lt;br /&gt;Costumava almoçar com o Tó Zé na cantina da empresa, normalmente quando já a maior parte dos outros funcionários haviam terminado a refeição. Por vezes íam comer fora, sobretudo quando tinham de ficar a trabalhar até mais tarde, o que era raro, diga-se em abono da verdade.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116065426558276106?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116065426558276106/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116065426558276106' title='49 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116065426558276106'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116065426558276106'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/10/uma-famlia-burguesa-parte-iv.html' title='Uma família burguesa - parte IV'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>49</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116034609858284552</id><published>2006-10-08T23:15:00.000+01:00</published><updated>2006-10-13T14:51:21.206+01:00</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte III</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Armando João Borges, amigo do Tó Zé desde os tempos do liceu, tem também cinquenta e oito anos. Razoavelmente alto e um pouco pesado, é bastante moreno e os olhos são muito negros e vivos. O cabelo, que foi preto e levemente ondulado, é agora grisalho mas não exibe sinais de calvície. É médico cardiologista.&lt;br /&gt;Inês Leite de Castro, sua mulher, também médica mas com a especialidade de pediatria, tem cinquenta e cinco anos e é fisicamente franzina, mas tem uma energia tremenda. O cabelo branco já pontifica, mas é camuflado por uma pintura castanho acobreada que não a favorece muito, ainda menos com a pele morena que possui.&lt;br /&gt;Tem um filho, José Manuel Borges, também médico, trinta e um anos, alto e bem constituído, cabelos e olhos negros, casado com Dora Maria Sampaio, professora de Matemática, trinta e quatro anos, olhos castanhos e cabelo liso e muito curto da mesma cor; a tez é clara, ao contrário da do marido. Tem um filho de sete anos, João Manuel e vivem na vivenda dos pais dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a noite estava quente, o ritmo da passada foi mais lento e permitiu, ao contrário de quando caminham mais velozmente, um pouco mais de conversa.&lt;br /&gt;- Então, Tó! Desde quando estás a trabalhar? – perguntou o médico.&lt;br /&gt;- Comecei no dia quatro. Ainda estou a ver as coisas que me encheram a secretária e o computador enquanto estive de férias – retorquiu o Costa Lima.&lt;br /&gt;- Mas tu vais lá de vez em quando durante as férias...&lt;br /&gt;- Quando estou cá no Porto. Se estiver fora não, evidentemente. Mas desta vez só lá fui duas vezes; e porque me chamaram. Já começo a ficar velhote para andar a apagar fogos. Agora é a vez dos mais novos darem o corpo ao manifesto – explicou o Tó Zé.&lt;br /&gt;- E já gozaste as férias todas? – inquiriu o Armando.&lt;br /&gt;- Deixei uns dias para o Natal.&lt;br /&gt;- Também eu – disse o cardiologista.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- E agora vamos ficar caladinhos e aumentar a cadência.&lt;br /&gt;- Sim senhor! O doutor é que sabe e manda. Mas só te digo que se tenho algum enfarte ou AVC te ponho em tribunal por não cumprimento da palavra – ameaçou, sorrindo o António José.&lt;br /&gt;- Mas não há dolo! Não há dolo! Sairei ilibado.&lt;br /&gt;Ao fim de mais de meia hora regressaram às respectivas casas onde, depois de esperarem que o corpo arrefecesse e a digestão das refeições ligeiras estivesse concluída, um refrescante duche os deixou prontos para irem sentar-se em frente à TV durante pouco tempo e depois rumarem à cama, pois o dia seguinte era de trabalho. Parecia que se estavam a copiar um ao outro, mesmo estando à distância.&lt;br /&gt;Quasi todas as cautelas que o Tó Zé tinha com a saúde resultavam das insistências do amigo médico. E ele obedecia, não sem refilar um pouco, por vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recuemos ao ano de 1995:&lt;br /&gt;Ana Maria havia casado, apenas com dezoito anos, com Francisco Torres, de vinte, apesar da oposição dos pais de ambos. Mas a paixão falou mais alto e levaram a deles avante.&lt;br /&gt;Francisco era um tipo alto e com uma estrutura óssea larga. Um homenzarrão, apesar da sua juventude. E muito calmo, molengão mesmo.&lt;br /&gt;Era sócio de um stand de venda de automóveis enquanto Ana Maria se entretinha a estudar engenharia mas sem grande sucesso.&lt;br /&gt;Pouco mais de dois anos após o casamento nasceu uma filha à qual deram o nome de Maria Cláudia: foi em Abril de 1992.&lt;br /&gt;Num final de manhã soalheira, mas fria, de Março, Ana estava em casa quando resolveu ir ver se o carteiro tinha deixado alguma coisa na caixa do correio. Lá estava um folheto publicitário, uma carta com uma conta para pagar e uma outra que lhe era dirigida com o envelope preenchido manualmente com uma letra muito infantil. Talvez mesmo propositadamente infantil. Regressou à sala onde estava e abriu de imediato esse estranho envelope. Lá dentro só uma folha de papel onde estavam coladas letras recortadas que compunham o seguinte curto texto:&lt;br /&gt;“O seu marido anda com a Marina”.&lt;br /&gt;A jovem esposa sentiu uma breve tontura e sentou-se, ficando a olhar para aquela folha que lhe acabava de estragar o dia. Talvez muito mais do que isso: o casamento.&lt;br /&gt;Ao fim de alguns minutos, pegou no telefone e ligou para a mãe. Atendeu a empregada:&lt;br /&gt;- Olá Dina! A minha mãe está?&lt;br /&gt;- Está sim, menina. Eu vou chamá-la.&lt;br /&gt;Passaram uns instantes e...&lt;br /&gt;- És tu, Aninhas?&lt;br /&gt;- Sou mãe! Acaba de me acontecer uma coisa muito desagradável. – começou – Recebi uma carta anónima e escrita com letras coladas, que diz: “O seu marido anda com a Marina”. Até estou meio atordoada.&lt;br /&gt;- Olha! O Chico não vai almoçar a casa, pois não? Então eu vou comer rapidamente e vou logo de seguida para aí. Não faças nada. É preciso ter calma. Vamos analisar as várias possibilidades antes de agir de forma precipitada. Estou aí por volta das...duas, duas e um quarto. Felizmente hoje não vou mais à escola. Assim estaremos com mais calma. Combinado? – concluiu a Lena.&lt;br /&gt;- Está bem mãe! Mas vou tomar um calmante que tenho para aqui.&lt;br /&gt;- Mas toma uma dose pequena, ouviste? E sossega porque pode ser um rebate falso.&lt;br /&gt;- Então até já, mãe. Um beijo – e a Ana pousou o auscultador.&lt;br /&gt;Mais ou menos à hora aprazada Maria Helena entrou em casa da filha. Beijaram-se e a mãe perguntou:&lt;br /&gt;- Estás bem? E a Claudinha?&lt;br /&gt;- Estou mais ou menos – disse a filha – e a Claudinha está aqui na vizinha do lado a brincar com a filha dela.&lt;br /&gt;- Ainda bem! Assim podemos conversar mais à vontade.&lt;br /&gt;Sentou-se e pediu:&lt;br /&gt;- Mostra-me então esse papel.&lt;br /&gt;A Ana Maria entregou-lhe o envelope com a folha lá dentro.&lt;br /&gt;- Letra disfarçada. Vejamos o que está cá dentro. Pois...a Marina. Tanto pode ser verdade como mentira. Mas deixa pensar. Quem mandou isto que interesse teria? Se for mentira serve para chatear e criar mau ambiente entre ti e o Chico.&lt;br /&gt;Talvez uma antiga namorada ciumenta com esperanças de estragar o casamento. Mas para quê envolver o nome da rapariga? Ou então o inverso: um teu admirador que também vos quer separar. Mas porquê citar a Marina? Poderia ser alguém que quer mal a um ou outro de vós. Mas continuo sem perceber porquê envolver um terceiro. Uma partida de amigo ou amigas? Demasiado mau gosto. Ah...poderia ter sido a própria Marina. Mas...falar nela sendo mentira? Não!&lt;br /&gt;- E não será uma chantagem, mãe? – perguntou a jovem Ana.&lt;br /&gt;- Por etapas? Não me parece. Se fosse chantagem, teria de ser verdade e falaria em provas e em verbas. Sinceramente, penso que o mais certo é ser mesmo verdade. Nesse caso, nas situações que referi antes, ou seja, uma ex-namorada ou admiradora do Chico, ou um teu admirador, já faria sentido falar no nome da empregada do stand. Ou se fosse uma amiga ou amigo teu a avisar-te. Ou se fosse a própria Marina a querer roubar-te o marido.&lt;br /&gt;Fez uma pausa, a Lena, e rematou:&lt;br /&gt;- Não sou polícia nem detective, mas acho que é mesmo verdade.&lt;br /&gt;- Eu tenho também esse pressentimento – disse, com os olhos aguados, a Ana.&lt;br /&gt;- Só há uma coisa a fazer: confrontá-lo com o papel e ver a reacção. Mas só quando ele chegar a casa. Se ele negar, telefona para casa da rapariga. Ou amanhã vai falar com ela. Bom! Essas confrontações directas acabam muitas vezes em zaragata. Não me parece boa ideia. Tens o número do telefone dela? – continuou a mãe a pensar em voz alta.&lt;br /&gt;- E se eu telefonar para o escritório e pedir à D. Delfina o número de casa da Marina?&lt;br /&gt;- Mas ela tem de ser totalmente discreta. Telefona, então! – aconselhou a Lena.&lt;br /&gt;E a jovem esposa ligou para o stand.&lt;br /&gt;Como era habitual, atendeu a funcionária Delfina.&lt;br /&gt;- Está lá? D. Delfina? Não fale o meu nome, por favor.&lt;br /&gt;- Sim! Que deseja? – disse a voz do outro lado da linha.&lt;br /&gt;- Por favor não diga nada ao meu marido nem a mais ninguém. Mas preciso do número do telefone da Marina. Está aí alguém? – falou Ana Maria.&lt;br /&gt;- Pode tomar nota...&lt;br /&gt;E a senhora ditou-lhe um número telefónico.&lt;br /&gt;- Muito obrigado! Está lá? A senhora sabe de alguma coisa do que se passa entre o meu marido e a Marina? – perguntou a jovem tão de repente como lhe ocorrera a ideia.&lt;br /&gt;Do outro lado nada se ouviu durante uns largos segundos.&lt;br /&gt;- D. Ana Maria! Eu não sei de nada. E mesmo que soubesse não me iria meter num assunto que não me diz respeito. Peço desculpa mas terá de perguntar ao seu marido e à Marina – respondeu a voz da Delfina com um tom ligeiramente agastado.&lt;br /&gt;- Claro! Tem toda a razão! Peço-lhe desculpa. Muito obrigado pela colaboração. Boa tarde. Com licença.&lt;br /&gt;E desligou.&lt;br /&gt;Imediatamente começou a chorar.&lt;br /&gt;A mãe procurou acalmá-la e pedia-lhe que ela contasse os pormenores do que dissera a empregada do Francisco.&lt;br /&gt;Ao fim de vários minutos, a Ana Maria finalmente contou à mãe os detalhes, e rematou:&lt;br /&gt;- Não tenho grandes dúvidas! Ele hoje já vai dormir na rua, ou num hotel, ou na casa dessa galdéria.&lt;br /&gt;- Tem calma, filha! Estas situações tem de ser levadas com a maior ponderação possível. Lembra-te que tens uma filha de três aninhos...&lt;br /&gt;- Mãe! Não posso viver na mesma casa nem partilhar a cama com um homem que anda a dormir com outra. Não aguento isso! – disse, exasperada, a Ana.&lt;br /&gt;Ao fim de toda uma tarde complicada para as duas, e quando se aproximava a hora de Francisco regressar, Maria Helena despediu-se da filha e levou a neta, que entretanto regressara da vizinha, com ela.&lt;br /&gt;- Não te precipites, Ana Maria! Por favor, resolve as coisas a bem! – disse, já com a porta do elevador a fechar-se.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116034609858284552?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116034609858284552/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116034609858284552' title='24 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116034609858284552'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116034609858284552'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/10/uma-famlia-burguesa-parte-iii.html' title='Uma família burguesa - parte III'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>24</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-116000091754385669</id><published>2006-10-04T23:25:00.000+01:00</published><updated>2006-10-05T22:53:40.226+01:00</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte II</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Ricardo Jorge é o filho mais velho do casal Costa Pinto.&lt;br /&gt;Com trinta e seis anos de idade, alto e moderadamente magro, é parecido com o pai. De olhos e cabelos castanhos, estes levemente ondulados mas sempre com um bom corte e penteados com gel em abundância, ostenta um certo ar de galã do cinema, anos cinquenta.&lt;br /&gt;Formado, como o progenitor, em engenharia electrotécnica, dedicou-se aos computadores e criou uma empresa do ramo em 2003 tendo como sócio o engenheiro informático Mário Jorge Gomes que conhecera numa empresa em que ambos haviam trabalhado.&lt;br /&gt;O escritório da Rimafor fica na Maia, onde vive desde o final desse ano após se ter casado com Bárbara Mendes, mais nova um ano, com quem tinha uma relação já antiga. Tem um filho com dois anos, João Paulo, o Jocas.&lt;br /&gt;Possui um Honda Accord que conduz normalmente com velocidade excessiva.&lt;br /&gt;Os três residem num bom apartamento muito perto do infantário de que Bárbara é sócia maioritária, ela que, por formação, é educadora de infância.&lt;br /&gt;Alta, elegante, loira natural com cabelos lisos e pendentes sobre os ombros, com uns olhos azuis muito claros numa cara bonita, mais parece uma mulher da Europa Central.&lt;br /&gt;Ana Maria é a segunda filha do casal António José e Maria Helena.&lt;br /&gt;Com trinta e cinco anos, estatura média para a sua geração e elegante, tem também cabelos castanhos, mas pintados de loiro.&lt;br /&gt;Casou com Francisco Torres com apenas dezoito anos mas o casamento só durou cinco. Aos vinte e três estava separada e o divórcio não demorou muito pois foi por mútuo acordo. Dessa relação ficou uma filha, Maria Cláudia, agora com 14 anos e que frequenta o 9º ano da escola de Aurélia de Sousa. A tutela da adolescente foi atribuída à mãe.&lt;br /&gt;Só depois da separação é que frequentou um curso de secretariado exercendo actualmente a profissão numa empresa da Boavista.&lt;br /&gt;Não voltou a casar nem a ter mais nenhuma relação durável.&lt;br /&gt;Tem um temperamento instável que pode estar ligado a essa lacuna na sua vida.&lt;br /&gt;Viveu vários anos, só com a filha, num apartamento mas decidiu aceitar o convite dos pais para ir morar para a casa das Antas, após as obras.&lt;br /&gt;Joana Isabel é a terceira filha de Tó Zé e Lena.&lt;br /&gt;Com trinta e dois anos, da altura da irmã mas um pouco mais roliça, é a que apresenta menos semelhanças com os progenitores. Os olhos negros e os cabelos longos e ondulados da mesma cor azeviche, dão-lhe um ar muito hispânico.&lt;br /&gt;É casada há sete anos com um seu antigo professor do curso de Filosofia que frequentou e concluiu, sendo hoje professora dessa disciplina no secundário, em Penafiel, para onde se desloca no seu Golf.&lt;br /&gt;Vive num bom apartamento em Leça da Palmeira com a exclusiva companhia do marido, Manuel António Félix, pois não tem filhos.&lt;br /&gt;O marido é mais velho, quarenta e seis anos, de estatura baixa e um pouco anafado, mas os seus cabelos grisalhos, tez morena, olhos azuis, dentes alvos e bem alinhados num sorriso bonito, um timbre de voz especial, bom conversador, fazem-no parecer uma espécie de sedutor de balzaquianas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos numa quente noite de início de Setembro.&lt;br /&gt;Depois do jantar em que estiveram presentes os cinco membros da família que habitam a casa, disse o Costa Lima:&lt;br /&gt;- Lena! Vou para a sala da cave. Quando puderes aparece lá porque gostava de falar contigo.&lt;br /&gt;A mulher parou, olhou para ele e respondeu:&lt;br /&gt;- Humm... Essa maneira de falar traz água no bico. Que se passa? Não ias dar um passeio com o Armando?&lt;br /&gt;- E vou! Ele passa por cá. Por isso gostava que não demorasses, sim? Ah... não é nada de especial, mas gostava de trocar umas impressões contigo.&lt;br /&gt;E o Tó Zé desceu as escadas.&lt;br /&gt;- Aqui há gato! – ficou a matutar a dona da casa.&lt;br /&gt;Pouco depois a Maria Helena apareceu na fresca sala onde o marido via TV. Mal a viu, ele desligou o aparelho e indicou o local onde a mulher se devia sentar. Em frente a ele.&lt;br /&gt;- É o seguinte, Lena! A Ana Maria está separada há mais de onze anos. Viveu durante seis anos só com a filha e, tanto quanto sabemos, teve uma vida um tanto desbragada. Felizmente havia sempre alguém que tomava conta da Claudinha, mas não me pareceu que aquela situação fosse muito boa para a formação da miúda. Convidámo-la a vir viver para cá há cinco anos. Reconheço que também houve um certo interesse da nossa parte pois a tua mãe já tem oitenta e um anos e mais uma pessoa pode ser útil no caso de ela ficar acamada ou precisar de um grande apoio.&lt;br /&gt;- Sim! E aonde queres chegar? – interrompeu a mulher.&lt;br /&gt;- Calma! Já lá vou. Dizia eu que a nossa filha levou durante seis anos uma vida desregrada. Infelizmente parece que continua. Agora a nossa neta já não me preocupa tanto, mas a Ana precisava de assentar. E não vejo nada! Tu sabes alguma coisa que eu desconheça? – revelou, finalmente, o que pretendia saber, o engenheiro.&lt;br /&gt;- Oh Tó! Sabes que ela não faz grandes confidências. Tem o seu grupo de amizades e provavelmente é com algum ou alguns deles que se abre. Connosco não, e com os irmãos idem – respondeu a Helena.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Mas, se fosse a ti, não me preocupava tanto. Ela ficou muito zangada com a instituição matrimónio depois do primeiro casamento...&lt;br /&gt;- Mas, as mulheres procuram sempre um novo homem. – cortou o António José – Este tipo de comportamento salta-pocinhas é mais habitual nos homens.&lt;br /&gt;- Pois é! Mas provavelmente ainda não encontrou o ideal – opinou a Lena.&lt;br /&gt;- E entretanto vai experimentando os tipos todos do Porto e arredores. É pena no meu tempo não ter sido assim... – disse, irónico, o pai da Ana Maria.&lt;br /&gt;- Não sejas mauzinho, António! Se calhar já encontrou mas não é um tipo disponível. E como não lhe interessa mais nenhum, vai-se divertindo com outros – sentenciou a mulher.&lt;br /&gt;O Costa Lima soltou uma gargalhada.&lt;br /&gt;- Afinal a devassa és tu! – disse, retomando o humor que lhe era habitual.&lt;br /&gt;Ouviu-se o toque de uma campaínha.&lt;br /&gt;- Deve ser o Armando! Vai-te vestindo para a passeata que eu faço um pouco de sala. E não te preocupes demais com a Ana. Ela já tem trinta e cinco anos e muita experiência da vida. Sabe o que está a fazer! – disse a professora.&lt;br /&gt;- Espero que sim! Espero que sim!&lt;br /&gt;E subiram ambos as escadas.&lt;br /&gt;Ela ficou no piso térreo e ele foi para o quarto vestir uns jeans velhos, uma T-shirt e calçar sapatilhas.&lt;br /&gt;- Deixe estar Dina, que eu vou abrir a porta. É o Dr. Borges, com certeza – disse a patroa para a empregada.&lt;br /&gt;Instantes depois:&lt;br /&gt;- Olá, Armando! Com o calor que está hoje vocês vão chegar aqui bem transpirados. A Inês e o João estão bons? E o teu filho e a Dora?&lt;br /&gt;- Olá, Leninha! Está tudo bem, felizmente. E cá por casa?&lt;br /&gt;- Tudo corre normalmente, Armando – respondeu a Lena.&lt;br /&gt;- E a tua mãe? Sempre com uma saúde de ferro, não?&lt;br /&gt;- Sim! Se algo correr mal tu és o primeiro a saber. És o médico mais próximo... – disse Lena com um largo sorriso.&lt;br /&gt;- O nosso atleta ainda não está pronto? – perguntou o vizinho.&lt;br /&gt;- Já cá vou! Já cá vou! – ouviu-se a voz grave do Tó Zé vinda das escadas.&lt;br /&gt;E lá foram os velhos amigos porta fora, desta vez até ao estádio do Dragão.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-116000091754385669?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/116000091754385669/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=116000091754385669' title='28 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116000091754385669'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/116000091754385669'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/10/uma-famlia-burguesa-parte-ii.html' title='Uma família burguesa - parte II'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>28</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-115965723798295452</id><published>2006-10-01T15:00:00.000+01:00</published><updated>2006-10-01T19:57:36.100+01:00</updated><title type='text'>Uma família burguesa - parte I</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;No início dos anos cinquenta, o engenheiro civil José António Lima fez construir uma vivenda na zona das Antas, na cidade do Porto, para onde foi viver com a esposa Maria Arminda e os três filhos, ainda muito jovens, Jorge, António José e Miguel.&lt;br /&gt;Constituída por um piso térreo, um piso elevado, uma cave e um sótão, ali viveram até à morte: a dele em 1995 e resultante de um ataque cardíaco, a dela quatro anos depois causada por um problema maligno nos pulmões.&lt;br /&gt;Nessa altura, já os irmãos Jorge e Miguel da Costa Lima estavam a viver na região de Lisboa. O mais velho trabalhando como engenheiro civil e o mais novo como advogado.&lt;br /&gt;Os falecidos eram pessoas de posses e as partilhas, ao contrário do que acontece muitas vezes, não foram complicadas, tendo o irmão do meio, António José, o único residente no Porto, ficado na posse da casa das Antas.&lt;br /&gt;Mal se viu como proprietário da vivenda, agora velha e sem o conforto proporcionado pelas tecnologias mais recentes, decidiu remodelar completamente a habitação e ir para lá viver.&lt;br /&gt;O financiamento obteve-o, rapidamente, graças aos seus bons conhecimentos na banca, dando por garantia a moradia geminada da sogra que seria vendida depois de concluída a modernização da vivenda das Antas. Desde o passamento do pai já ele e a mulher lá viviam com as respectivas mães.&lt;br /&gt;As obras, caras e morosas, começaram em finais de 2000 e só terminaram em Dezembro de 2001.&lt;br /&gt;E assim, no início do ano seguinte, o engenheiro electrotécnico António José da Costa Lima e a sua esposa Maria Helena Marques Pinto instalaram-se na renovada casa, na companhia da filha Ana Maria e da jovem neta Maria Cláudia, resultante do casamento já oficialmente dissolvido.&lt;br /&gt;Juntamente com eles continuou a viver a já octogenária mãe de Maria Helena que, apesar da sua idade, conservava uma saúde física e mental invejáveis: Maria da Conceição.&lt;br /&gt;O quinto morador era a empregada Aldina, mas que todos tratavam por Dina e que trabalhara para os pais do proprietário original desde os dezoito anos, sempre como interna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos no segundo semestre de 2006:&lt;br /&gt;O engenheiro António José tem cinquenta e oito anos, os mesmos da sua consorte.&lt;br /&gt;Ele é Director de Departamento de uma empresa privada na zona da Via Norte e ela professora de História na escola secundária Alexandre Herculano.&lt;br /&gt;É por Tó Zé que o engenheiro Costa Lima, assim tratado em ambientes mais formais, é conhecido na intimidade.&lt;br /&gt;É um tipo de estatura média, e com um peso não muito elevado em relação à altura e à idade. Os cabelos, outrora castanhos como os olhos, são agora quasi todos brancos e bastante raros no topo da cabeça. Usa-os bastante cortados.&lt;br /&gt;Por motivos profilácticos, costuma andar bastante a pé e várias vezes sai à noite para caminhar com um vizinho médico com quem estudou no liceu: o Armando Borges.&lt;br /&gt;Quando o tempo está mais agressivo, vão para a cave jogar bilhar ou conversam na sala de estar existente nesse piso subterrâneo.&lt;br /&gt;Tem carro próprio, um Toyota Corolla, mas normalmente utiliza a viatura que a empresa colocou à sua disposição: um Ford Mondeo.&lt;br /&gt;Maria Helena é também de estatura média, e mantém uma elegância de realçar. Os cabelos, que em tempos mais recuados eram castanhos como o são ainda os olhos grandes e bonitos, só não mostram a sua alvura pois são coloridos em tons de castanho claro e com madeixas aloiradas. Usa-os curtos, tapando somente o pescoço.&lt;br /&gt;Lena, como é conhecida mais intimamente, quando casou ainda era estudante, aliás como o Tó Zé, pois uma gravidez extemporânea fez precipitar o matrimónio.&lt;br /&gt;Assim, cerca de seis meses após o casamento nasceu o primeiro filho do casal: Ricardo Jorge. Menos de ano e meio depois nasceu o segundo, neste caso uma rapariga, Ana Maria. E, ao fim de mais de três anos desta ter vindo ao mundo, apareceu o último rebento: Joana Isabel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vivenda actual só na fachada e nas áreas não cobertas apresenta muitas semelhanças com a original. O interior foi totalmente alterado.&lt;br /&gt;Possui um pequeno jardim adiantado à edificação que se prolonga pelo lado esquerdo desta, vista da rua. O lado direito e a parte traseira são pavimentados para a circulação das viaturas.&lt;br /&gt;Ao fundo, existe uma garagem fechada onde são guardados os dois automóveis do Tó Zé, além do Ford Fiesta de Maria Helena e do Renault Clio de Ana Maria. E lugar acobertado para mais não há.&lt;br /&gt;O muro que confina com o passeio tem cerca de metro e meio de altura e é encimado por uma armação trabalhada em ferro pintado de verde-escuro que contrasta com a cor bege de todos os revestimentos das partes cimentadas. Tem um portão para as pessoas e um outro para as viaturas.&lt;br /&gt;A porta de entrada na vivenda, também ela verde, tem uma cobertura protectora na parte exterior.&lt;br /&gt;O piso térreo é constituído por uma entrada que dá acesso a uma sala enorme onde fica, na extremidade mais ao fundo e à esquerda, vista por quem entra, a zona das refeições. Na área restante há duas zonas de lazer. Uma mais usada no verão e outra quando o tempo é mais frio, ressaltando nesta um requintado fogão de sala.&lt;br /&gt;No lado direito, ao fundo, há as escadas principais que dão acesso ao piso de cima e à cave. Sob elas, e numa solução arquitectónica bem imaginada, estão umas instalações sanitárias.&lt;br /&gt;Na zona esquerda deste piso, situam-se o escritório, a copa, a cozinha, outros lavabos e uma escada mais estreita, de serviço, que permite as subidas e descidas para os dois outros níveis. Na parte exterior da cozinha, existe uma estrutura fechada e envidraçada, anexa à habitação, que é a lavandaria.&lt;br /&gt;No piso superior há dois quartos com closet e casa de banho privativa, voltados para a frente, onde dormem o casal num deles e a filha Ana Maria no outro. Lateralmente há mais dois quartos: um da jovem Cláudia e, no lado oposto, o de sua avó Maria da Conceição a quem ela trata por Vó São, Vovó ou, simplesmente, Vó. No canto junto ao quarto da anciã está a escadaria principal. No lado oposto há ainda uma outra casa de banho, que serve os utentes desses dois aposentos, junto das escadas de serviço.&lt;br /&gt;A cave inclui, do lado esquerdo, uma boa sala de estar que é bastante fresca no tempo quente, e do direito o quarto da Dina, uma casa de banho e uma pequena garrafeira. As escadas ficam na vertical das outras.&lt;br /&gt;Na zona da frente há um enorme compartimento para arrumos e, no centro, um grande espaço com uma mesa de bilhar.&lt;br /&gt;A “nova” casa foi equipada com os mais modernos equipamentos, as canalizações e instalação eléctrica mudadas, e até um sofisticado sistema de segurança foi instalado. O Tó Zé não quis um cão, tão habitual neste tipo de habitação monofamiliar, pois tivera um em jovem cuja morte muito lhe doera e jurou nunca mais querer viver com um desses dedicados animais.&lt;br /&gt;Aproveitaram algumas mobílias antigas quer da própria casa quer da dos pais de Maria Helena e, naturalmente, compraram outras.&lt;br /&gt;Enfim! Vivem com todo o conforto.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-115965723798295452?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/115965723798295452/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=115965723798295452' title='48 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115965723798295452'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115965723798295452'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/10/uma-famlia-burguesa-parte-i.html' title='Uma família burguesa - parte I'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>48</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-115939560863095057</id><published>2006-09-27T23:15:00.000+01:00</published><updated>2006-09-27T23:32:36.610+01:00</updated><title type='text'>Uma família burguesa - Apresentação</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Depois de &lt;em&gt;No velho mIRC&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Regresso ao passado&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;O viúvo&lt;/em&gt;, resolvi meter-me noutra aventura escrevendo e publicando neste blog um outro trabalho de ficção (aquilo a que eu costumo chamar uma blogonovela).&lt;br /&gt;Já fiz muito de preparação e escrevi algumas “partes” (entenda-se: posts) de &lt;strong&gt;&lt;em&gt;Uma&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;&lt;strong&gt;família burguesa&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;, embora ainda falte a revisão que, muitas vezes, resulta em alterações significativas.&lt;br /&gt;É mais uma aventura pelos caminhos do imaginário mas, desta vez, resolvi meter várias histórias no mesmo saco, algumas delas interligadas.&lt;br /&gt;O número de personagens é também superior ao que usei nos casos anteriores.&lt;br /&gt;Em suma:&lt;br /&gt;O esforço que tenho feito e sobretudo o que me falta ainda fazer, é grande.&lt;br /&gt;Espero estar à altura de escrever alguma coisa que, sendo do tipo literatura “light”, vos possa induzir a vontade de começar a ler e chegar ao fim.&lt;br /&gt;Não faço ideia de com quantos episódios (diria melhor: partes) ela vai ficar no seu final.&lt;br /&gt;Nem sequer tenho a história toda planeada.&lt;br /&gt;As experiências anteriores ensinaram-me que ao escrever, as personagens vão tomando conta da direcção em que devem caminhar as histórias, pelo que espero que isso aconteça de novo.&lt;br /&gt;Vai acontecer, tenho a certeza.&lt;br /&gt;Tenciono começar a colocá-la on-line nos primeiros dias de Outubro.&lt;br /&gt;Se, entretanto, achar um tema interessante para fazer um post que não tenha nada a ver com a blogonovela mas que me pareça oportuno publicar não deixarei de o fazer, a exemplo do que já aconteceu anteriormente.&lt;br /&gt;Portanto, aqui fica a apresentação de &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Uma família burguesa&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; que, confesso, também tem intuitos publicitários.&lt;br /&gt;É que, como já sabem, não gosto de estar a escrever uma coisa que me dá um trabalhão dos diabos e depois não haver ninguém a ler e a comentar.&lt;br /&gt;Confio na vossa paciência e espírito piedoso.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-115939560863095057?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/115939560863095057/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=115939560863095057' title='40 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115939560863095057'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115939560863095057'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/09/uma-famlia-burguesa-apresentao.html' title='Uma família burguesa - Apresentação'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>40</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-115913333549285864</id><published>2006-09-24T22:25:00.000+01:00</published><updated>2006-09-24T22:55:53.500+01:00</updated><title type='text'>Eurico, o Campos</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Dei comigo a fazer um varrimento sobre os sete anos que passei no que era designado na época como ensino liceal, dos meus dez aos dezassete anos, e a tentar determinar qual o melhor professor que tive nessa fase da minha vida passada no Liceu de Alexandre Herculano, do Porto.&lt;br /&gt;A resposta não foi difícil de encontrar:&lt;br /&gt;Eurico.&lt;br /&gt;Eurico Telmo Campos.&lt;br /&gt;Meu professor de Matemática nos quarto, quinto e sexto anos.&lt;br /&gt;Alto, mais magro que gordo, cabelo liso penteado para trás e bem colado à cabeça, olhar matreiro, sorriso malandro, solteiro mas namorando com uma bela filha de refugiados austríacos.&lt;br /&gt;Teria uns...trinta e poucos anos.&lt;br /&gt;Como dava boleia na sua velha carripana à professora de Geografia, a Maria Lúcia Santos, a rapaziada inventou uma ligação quente entre os dois. Pura má-língua (penso...).&lt;br /&gt;Passava as aulas a caminhar entre as carteiras individuais onde nos sentávamos nós, alunos, com as passagens necessárias pelo quadro afim de escrever o que entendia necessário.&lt;br /&gt;Não queria que usássemos o livro que mais não fosse para resolver problemas, pois neste seu deambular ía-nos ditando um conjunto de apontamentos que nós tínhamos de escrever integralmente no Caderno Diário e que constituíam um verdadeiro manual.&lt;br /&gt;Ainda hoje guardo essas notáveis lições em que tudo o que dizia respeito a números reais, ou sucessões, ou derivadas, ou geometria no espaço, ou trigonometria ou o mais que fizesse parte dos programas obrigatórios ficava registado de forma sistematizada e clara, além de ilustrada com inúmeros problemas de aplicação.&lt;br /&gt;O mestre não gostava mesmo nada que alguém anotasse esse saber sem ser no Caderno.&lt;br /&gt;- Nada de escrever em folhas soltas, meus senhores! Já sei que depois nunca mais passam a matéria para o Caderno e um dia a folha leva-a o vento – repetia inúmeras vezes.&lt;br /&gt;O Zé Manel Lluvet, e estou a falar agora da turma do sexto ano, era useiro e vezeiro em esquecer-se desse fundamental elemento didáctico. O Eurico ía-lhe chamando a atenção mas o rapaz não atinava: volta e meia lá estava o moço a escrever numa folhinha.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Eu depois copio, senhor doutor. Juro! – garantia o Lluvet.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;(Nota do autor: era senhor doutor e não setôr)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Mas o Eurico ía verificar na aula seguinte e ele não tinha copiado nada.&lt;br /&gt;Até que um dia lhe disse o professor:&lt;br /&gt;- Oh pá! Da próxima vez que te veja a escrever numa folha solta faço-ta engolir.&lt;br /&gt;Não passaram muito dias e, durante uma aula, todos levantaram a cabeça quando o professor se silenciou, repentinamente.&lt;br /&gt;E deparámos com ele muito quieto, parado junto à carteira do Zé Manel.&lt;br /&gt;De repente, num gesto mais rápido que um raio, pegou na folha em que escrevia o esquecido moço, amarrotou-a e meteu-a na boca do Lluvet que entretanto a tinha semiaberta de expectativa. Claro que o rapaz não gostou da brincadeira, mas a gargalhada na sala foi geral.&lt;br /&gt;- Eu avisei-te, não avisei? – perguntou o Eurico enquanto se afastava com aquele ar de gozo que o caracterizava.&lt;br /&gt;O certo é que nunca mais ninguém se esqueceu do fundamental Caderno.&lt;br /&gt;Uma outra vez, estava a ensinar polinómios, se bem me lembro, e foi ao quadro para escrever:&lt;br /&gt;k1...k2...k3...&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo dizia em voz alta:&lt;br /&gt;Capa um...capa dois...capa três...&lt;br /&gt;Parou a oralização, voltou a cabeça para a plateia e com um sorriso absolutamente irónico disse:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Que razia!&lt;br /&gt;E a gargalhada solta por todos nós foi-o em uníssono.&lt;br /&gt;Tinha o Eurico o hábito de nos marcar, em cada período trimestral, dois dos chamados “exercícios escritos de apuramento” e de chamar cada aluno pelo menos uma vez ao quadro para uma avaliação oral dos conhecimentos.&lt;br /&gt;Na última aula de cada período era publicamente atribuída a nota a cada um de nós.&lt;br /&gt;- Número 10. Fulano de tal. Teve doze no primeiro exercício, catorze no segundo, portanto a média é treze. Como teve uma chamada “suficiente” acho que deve levar um treze na pauta. Concorda?&lt;br /&gt;E o aluno dizia de sua justiça.&lt;br /&gt;E o que ficava combinado era sagrado.&lt;br /&gt;No sexto ano, apareceram alguns novos alunos que tinham feito o exame do quinto ano mas vindos de colégios particulares. Eram todos eles alunos mais velhos e muito fracos.&lt;br /&gt;Um deles, o Azevedo, tipo muito dado à música mas pouco aos estudos, era calado e reservado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Número 27. Qualquer coisa Azevedo – chamou o Eurico.&lt;br /&gt;Olhou para a caderneta, mirou o aluno, fez um sorriso irónico e disse:&lt;br /&gt;- Zero no primeiro exercício. Zero no segundo. Média zero. Uma chamada em que não abriu a boca (está aqui escrito!), o que equivale a zero. Portanto, vai levar um zero na pauta. Acha justo?&lt;br /&gt;O rapaz balbuciou um “sim”.&lt;br /&gt;Apesar de ser o primeiro período e, segundo consta, ter havido grande polémica na reunião de atribuição de notas, e de o próprio reitor (Martinho Vaz Pires), deputado da nação e pessoa muito temida, ter tentado que não fosse atribuída nenhuma nota inferior a sete, o Azevedo levou mesmo com o zero. E outros apanharam notas inferiores a quatro o que representava a reprovação imediata a Matemática.&lt;br /&gt;O Eurico era implacável com o que ele chamava de nulidades.&lt;br /&gt;No ano seguinte, e como consequência destes acontecimentos, o Dr. Campos foi colocado em Bragança e assim perdi um professor excepcional, pois o Albérico Costa que o veio substituir no sétimo ano não lhe chegava aos calcanhares.&lt;br /&gt;Ainda me recordo de outra cena no terceiro período do sexto ano. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O Miguel Braga, que depois se viria a formar em engenharia mas nunca exerceu a profissão pois dedicou-se inteiramente à música tinha, segundo o método de avaliação do Eurico, um nove. Mas precisava de onze para passar de ano.&lt;br /&gt;Pediu, lacrimejante, ao professor que lhe desse a nota de que precisava invocando que o pai não o deixaria tocar mais (guitarra) se ele reprovasse.&lt;br /&gt;E dizia o Eurico com ar de gozo:&lt;br /&gt;- Ai tu tocas? Ai tu tocas?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;E olhando para o resto da rapaziada:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Ele toca! Ele toca!&lt;br /&gt;Finalmente, condescendeu em fazer uma chamada especial ao Miguel para ver se ele merecia o onze. A coisa correu mal e o músico reprovou mesmo.&lt;br /&gt;Anos mais tarde, vim a saber que esse grande mas polémico professor, amado por uns mas odiado por outros, tinha sido eleito, pelo Partido Socialista, membro da Assembleia que elaborou a Constituição de 1976. Não sei se esteve depois como deputado na Assembleia da República.&lt;br /&gt;Julgo que faleceu relativamente novo.&lt;br /&gt;Para mim foi, sem dúvida, um professor excepcional que não só me ensinou muito de Matemática como me ensinou a gostar dessa hoje tão odiada ciência.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-115913333549285864?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/115913333549285864/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=115913333549285864' title='33 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115913333549285864'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115913333549285864'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/09/eurico-o-campos.html' title='Eurico, o Campos'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>33</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-115883795083730625</id><published>2006-09-21T12:22:00.000+01:00</published><updated>2006-09-21T12:44:29.220+01:00</updated><title type='text'>A tropa</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Em 19 de Novembro de 2004, quando o Dr. Paulo Portas era ministro da Defesa Nacional, foi extinto oficialmente o Serviço Militar Obrigatório (SMO).&lt;br /&gt;Acabou a tropa!&lt;br /&gt;A tropa era entendida pelo comum dos cidadãos como o período em que os jovens do sexo masculino tinham, obrigatoriamente, de se integrar nas estruturas de Exército, da Armada ou da Força Aérea, para cumprirem um período de instrução e outro de execução de tarefas ou missões no âmbito de um desses ramos das Forças Armadas.&lt;br /&gt;Não sei quando começou a tropa, mas foi há muitas décadas, séculos talvez, presumivelmente com intermitências.&lt;br /&gt;Quando era rapazinho, mais precisamente até 1961, ano em que começou a Guerra Colonial, lembro-me de ver os mancebos que eram apurados para o serviço militar, no próprio dia da inspecção, virem para a rua em grupos, já bem bebidos, tocando e cantando a sua satisfação por terem sido apurados. Era a prova oficial de que eram tipos sadios. Os que ficavam livres por cunha também estavam satisfeitos embora não o manifestassem publicamente, por decoro. E havia os que livravam por doença ou mal formação. Esses eram os menos alegres, mesmo quando a causa da recusa por parte dos médicos inspectores fosse um simples pé chato.&lt;br /&gt;Isto presenciei eu em aldeias ou vilas. Também nas cidades me lembro vagamente de ver essas trupes jovens e folgazonas.&lt;br /&gt;Antes desse período em que fui testemunha ocular dos factos descritos, penso que, pelo menos nos anos sequentes ao fim da Segunda Grande Guerra, também teriam ocorrido.&lt;br /&gt;Mas o que eu mais gostaria de relevar é que, apesar de o fazer inconscientemente (penso), essa rapaziada estava a comemorar o segundo corte do cordão umbilical.&lt;br /&gt;Brevemente saíriam de casa dos pais, com grande mágoa das mães, principalmente; abandonariam a sua terra natal; iriam conhecer outra vida, outras terras, outras gentes. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Emancipados.&lt;br /&gt;Essa era umas das grandes vantagens que tinha o Serviço Militar Obrigatório: a libertação das tutelas paterna e materna!&lt;br /&gt;Ela era particularmente útil para aqueles moços que tinham sido educados com demasiada protecção familiar. Muitos desses regressavam radicalmente modificados. Muitos outros já não mais queriam viver no torrão onde haviam nascido.&lt;br /&gt;Num aparte, queria lembrar que todos os recrutas tinham de rapar o cabelo “à escovinha”. Curtíssimo. Ao contrário do que eu muitas vezes ouvi dizer, que era para não se aterem a mariquices e se tornarem verdadeiros homens, a razão da obrigatoriedade desse corte residia muito prosaicamente na necessidade de evitar que nas casernas os parasitas do cabelo e couro cabeludo proliferassem, pois os padrões de higiene eram, na época, incomparavelmente menos exigentes do que os actuais.&lt;br /&gt;Mas, a partir de 1961, tudo mudou!&lt;br /&gt;A vontade de ir para a tropa desvaneceu-se e transformou-se em vontade de não ir. E com as notícias que eram veiculadas, sobretudo pelos que tinham estado na guerra, cada vez mais crescia a vontade de ficar livre, o que era contrariado por um cerco cada vez mais apertado das autoridades para recrutar o maior número de mancebos possível.&lt;br /&gt;Lembro-me de quando fui à inspecção em 1967 estar lá um rapaz com paralisia cerebral, portanto com toda aquela descoordenação motora que é por demais conhecida. Pois os três médicos inspectores não livraram o moço. Remeteram a responsabilidade dessa decisão para uma junta médica especial.&lt;br /&gt;Durante o período da guerra, além de indesejada pelos jovens, não só pelo risco fortemente acrescido de serem feridos ou mortos mas também pelo período longo que os afastava da família e de uma actividade profissional, a tropa tornou-se cada vez mais impopular.&lt;br /&gt;Depois de 1974 o Serviço Militar Obrigatório foi perdendo importância.&lt;br /&gt;Mas, curiosamente, constato que quem pior fala dela são os que nunca lá estiveram. Provavelmente, ter-lhes-ía feito muito bem passar uma temporada a aprender a obedecer e a desenrascar-se.&lt;br /&gt;Os que lá estiveram acabam por, em muitos casos, a considerar uma experiência pessoalmente enriquecedora.&lt;br /&gt;Mas as coisas são como são e um dia, não sei quando, uma guerra qualquer provavelmente obrigará os responsáveis pela nação a reintroduzir o Serviço Militar Obrigatório.&lt;br /&gt;Antes não fosse preciso!&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-115883795083730625?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/115883795083730625/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=115883795083730625' title='41 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115883795083730625'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115883795083730625'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/09/tropa.html' title='A tropa'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>41</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-115835480796793597</id><published>2006-09-15T22:10:00.000+01:00</published><updated>2006-09-15T22:13:29.230+01:00</updated><title type='text'>Diálogos de gente (XVIII) (O impertinente)</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Oh homem! Porque não vestes uma roupa mais nova? Andas sempre que pareces um pedinte!&lt;br /&gt;Quem assim falava era Amália Dias para o seu marido.&lt;br /&gt;- Com esta é que eu me sinto bem – respondeu o Humberto. &lt;br /&gt;- Eu sei! Mas vais fazer uma figura triste a casa do Horácio. Podias fazer-me a vontade! – insistiu a mulher.&lt;br /&gt;- Olha! Já estás pronta? – mudou de assunto o homem.&lt;br /&gt;- É só pegar na carteira...pronto!&lt;br /&gt;E encaminhou-se para fora do quarto em direcção da porta da casa onde moravam, seguida pelo marido que já tirara o carro da garagem.&lt;br /&gt;- Vamos então andando! – disse ele.&lt;br /&gt;E saíram de casa dirigindo-se para a viatura onde Humberto tomou o lugar do condutor.&lt;br /&gt;- Tinhas-me dito que hoje conduzia eu. – recordou a mulher – Senão qualquer dia nem sei guiar.&lt;br /&gt;- Hoje levo eu o carro.&lt;br /&gt;E ao dizer isto, ele ligou o motor.  &lt;br /&gt;- Quero ver quando é que eu guio um bocado. Mas o melhor é dizer-te que não quero guiar para tu me dizeres para ser eu a fazê-lo. Tens cá um espírito de contradição! – desabafou a Amália.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- E não estejas sempre a contrariar o Horácio e a Graça, ouviste? Eu nem sei porque é que eles ainda nos convidam. Tu chegas lá e contradizes tudo o que eles dizem!&lt;br /&gt;- Estás a ver? Se eu fosse como tu dizes eles não nos convidavam para passar lá a tarde e lanchar. Se o fazem é porque somos boa companhia – argumentou o Berto.&lt;br /&gt;- Pronto! Está bem! Oh...vais por esse lado? É o mais longo...&lt;br /&gt;- Assim damos um passeio maior – justificou-se o Dias.&lt;br /&gt;- Já que queres dar um passeio maior, podíamos ir pela marginal – sugeriu a mulher.&lt;br /&gt;- Pela marginal demora muito. Por aqui é melhor! – decidiu o homem.&lt;br /&gt;Passados uns quinze minutos, chegaram a casa do Horácio e da Graça Mendonça.&lt;br /&gt;- Tens ali um lugar à sombra! – indicou ela.&lt;br /&gt;- É melhor parar agora ao sol porque quando sairmos o carro está à sombra. – optou ele – Além disso o ar condicionado é para ser utilizado..&lt;br /&gt;- Seja feita a tua vontade, ámen! – resignou-se a mulher.&lt;br /&gt;O casal andava na casa dos quarenta e tinham um filho, André, que tinha agora 18 anos e não gostava muito de acompanhar os pais. Nomeadamente o pai que considerava um chato insuportável.&lt;br /&gt;Bateram à porta do apartamento onde habitava o casal que os convidara a passar a tarde.&lt;br /&gt;- Sou eu, o Humberto! – falou para o intercomunicador.&lt;br /&gt;- Podias dizer que éramos nós – resmungou baixinho a esposa.&lt;br /&gt;Subiram no elevador até ao 4º andar e ao abrir-se a porta depararam com o casal que os aguardava.&lt;br /&gt;Saudaram-se como é da praxe e os quatro foram instalar-se na sala.&lt;br /&gt;- Oh Berto! Queres acompanhar-me a beber um whisky? – perguntou o Horácio.&lt;br /&gt;- Prefiro uma aguardente bagaceira, uma Carvalho, Ribeiro &amp;amp; Ferreira.&lt;br /&gt;- Muito bem! É para já!&lt;br /&gt;E o anfitrião, gentilmente, serviu o visitante.&lt;br /&gt;- Muito obrigado, pá! Esta é muito boa! – agradeceu o Humberto.&lt;br /&gt;Entretanto as senhoras já conversavam sobre um assunto qualquer.&lt;br /&gt;- As nossas mulheres já estão a ter aquela conversa cultural do costume: telenovelas, roupas, fofocas sobre conhecidos e desconhecidos, tempo, empregadas, vizinhos – desdenhou o impertinente funcionário superior dos CTT.&lt;br /&gt;- Sentem-se bem a falar sobre isso...deixá-las! – amenizou o dono da casa.&lt;br /&gt;- É por isso que este país é como é! Que falta de nível! – insistiu o chato.&lt;br /&gt;- Nós também falamos muitas vezes de coisas fúteis, como futebol.&lt;br /&gt;- Mas futebol não é um tema fútil! É o desporto nacional que de vez em quando, por um bambúrrio, faz alguma figura internacional – disse o convidado.&lt;br /&gt;- Não é só sorte! E nem só em futebol temos coisas boas – corrigiu o Horácio.&lt;br /&gt;- Pois! Somos bons em quasi tudo. Até o Prémio Nobel da Literatura não sabe fazer a pontuação! – implicou de novo.&lt;br /&gt;A conversa prosseguiu sempre no mesmo tom, com o Humberto Dias a dizer mal de tudo e todos e a revelar-se um interlocutor intragável.&lt;br /&gt;- E vocês tem a sorte de não ter filhos! Senão é que viam como é a juventude de agora. Uma coisa horrível! – disse, a certa altura, o Berto.&lt;br /&gt;- Oh pá! Sabes muito bem que temos um grande desgosto por não ter filhos. Às vezes podias conter-te um pouco nas tuas afirmações – afirmou, um tanto agastado, o Mendonça.&lt;br /&gt;- Também achas que sou um chato e um impertinente e não sei que mais? – perguntou, irritado, o Dias.&lt;br /&gt;- Acho! Acho eu e acha toda a gente! – atirou-lhe o anfitrião.&lt;br /&gt;- Ah sim? Então porque me convidas para cá vir? – disse, ufano, o contraditor.&lt;br /&gt;- Queres que te explique? Então eu faço-o com muito gosto! – avançou o Horácio, enquanto olhava para as duas mulheres que tinham parado a conversa para ver no que dava o desaguisado – Em primeiro lugar, para permitir que a tua mulher passe uma tarde mais agradável e não tenha que te aturar sozinha. Em segundo, porque nem imaginas o que nos rimos cá em casa os dois, depois de saíres, com as tuas afirmações.&lt;br /&gt;E Amália não pode conter-se, gargalhou alto e disse para o seu marido.&lt;br /&gt;- Agora já sabes porque somos convidados!&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-115835480796793597?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/115835480796793597/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=115835480796793597' title='33 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115835480796793597'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115835480796793597'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/09/dilogos-de-gente-xviii-o-impertinente.html' title='Diálogos de gente (XVIII) (O impertinente)'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>33</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-115799757647482797</id><published>2006-09-11T18:55:00.000+01:00</published><updated>2006-09-11T19:07:37.653+01:00</updated><title type='text'>Andei de Metro!</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Hoje, dia 11 de Setembro do ano da graça de 2006, andei pela primeira vez no Metro.&lt;br /&gt;No Metro do Porto, pois no de Lisboa e até no de outras cidades já tinha viajado.&lt;br /&gt;Vivendo na Maia, a estação que melhor me serve é a do Fórum – Maia e a linha correspondente, a Verde, que já foi inaugurada há muito mais de um ano. Já havia mesmo adquirido um tiquet com um chip electrónico e não sei se mais alguma dessas coisinhas que fazem uns milagres muito giros (o Andante), que permite carregar e descarregar viagens. Pagando, claro!&lt;br /&gt;Mas nunca tinha estreado o nóvel meio de transporte da zona do Grande Porto.&lt;br /&gt;Não me perguntem porquê, pois não sei. Talvez o hábito do automóvel. Mas isso não interessa muito, em boa verdade.&lt;br /&gt;Pois hoje, eu e a minha mulher (que já é especialista neste assunto de andar de Metro) resolvemos ir nele até ao centro do Porto, mais precisamente ao Coliseu, para comprar bilhetes para o musical Cats. E fazendo-o para um dos últimos espectáculos, o do dia 26, pudemos escolher dois estupendos lugares, na 3ª fila, coxia central, pela módica quantia de 50 euros cada entrada. É caso para dizer, metendo o nojo habitual, que com gente fina é outra coisa.&lt;br /&gt;O trajecto seguido pelo novo comboio é quasi o mesmo que o antigo, o da CP, que eu utilizei anos a fio para ir até à estação da Trindade de onde seguia a pé para a Efacec Ambiente onde trabalhei muitos anos.&lt;br /&gt;Hoje saí na paragem seguinte, a do Bolhão, a primeira enterrada neste trajecto que vai do Castêlo da Maia (é assim mesmo: Castêlo e não Castelo) até ao Estádio do Dragão.&lt;br /&gt;Resumindo e concluindo: achei o transporte não muito rápido pois tem muitas paragens, não muito confortável, mas com um conjunto de modernices que o tornam simpático.&lt;br /&gt;Mas, sinceramente, fiquei com saudades do velho comboio mais rápido, com assentos almofadados, com WC.&lt;br /&gt;Enfim...até nos transportes, os comboios de plástico vieram substituir os mais tradicionais.&lt;br /&gt;Mas que viva o progresso!&lt;br /&gt;Estava a começar a escrever este texto referindo a data.&lt;br /&gt;E não pude deixar de me lembrar que hoje faz cinco anos o ataque aéreo dos árabes fundamentalistas nos EUA.&lt;br /&gt;Ainda bem que optei por viajar de metro e não de avião.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-115799757647482797?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/115799757647482797/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=115799757647482797' title='34 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115799757647482797'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115799757647482797'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/09/andei-de-metro.html' title='Andei de Metro!'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>34</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-115774182979802549</id><published>2006-09-08T19:56:00.000+01:00</published><updated>2006-09-08T23:25:51.066+01:00</updated><title type='text'>O "Cinco minutos"</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;No dia oito de Dezembro do ano transacto publiquei um texto com o título “A avó Joana” no qual contava umas historietas relacionadas com a avó paterna de minha mãe.&lt;br /&gt;Hoje resolvi fazer uma incursão pelos antepassados da linha materna da minha falecida progenitora.&lt;br /&gt;O assunto tende a ser maçador para quem o lê, mas prometo tentar reduzir essa característica ao mínimo.&lt;br /&gt;Os avós maternos da mãe Julieta, Úrsula e António Gomes, viviam em Valença do Minho, terra bonita do Alto Minho e principal fronteira com a Galiza.&lt;br /&gt;Tiveram sete filhos:&lt;br /&gt;Maria, a mais velha, casou com um capitão do Exército e foi viver para Viana do Castelo. Ainda a conheci, já muito velhinha. Teve oito filhos. Outros tempos!&lt;br /&gt;António, o “Cinco minutos”. Sobre este escreverei mais abaixo.&lt;br /&gt;João, que trabalhou sempre na agricultura, era o mais buçal de todos. Não lavava os dentes e morreu com cerca de oitenta anos mas com os dentes naturais todos (sujos mas sãos).&lt;br /&gt;Fernando, o padre, também viveu a maior parte da vida em Valença (Segadães) e nunca me pareceu muito místico. Costumava dizer para as sobrinhas: “primeiro a obrigação e depois a devoção; se não puderem ir à missa porque tem tarefas a desempenhar, rezem em casa”. Conheci-o razoavelmente e sempre me pareceu um tipo inteligente e culto.&lt;br /&gt;Susana, que faleceu cedo e nunca conheci. Tem um filho com mais de noventa anos, o Fernando, que casou em Leiria e ainda lá vive. É, juntamente com a minha tia e madrinha Maria José, um dos dois sobreviventes da geração seguinte.&lt;br /&gt;Delfina, a minha avó, faleceu com pouco mais de cinquenta anos e nunca a conheci. Radicou-se em Vila Praia de Âncora.&lt;br /&gt;Rosa, ficou solteira e viveu sempre com o padre.&lt;br /&gt;Arminda, também celibatária, que chorava por tudo e por nada, foi também a companheira de quasi toda a vida do padre e da irmã Rosa. Quando o mano Fernando foi operado para ablação da próstata, lacrimejava dizendo: “E agora o nosso padre ficou ôco, coitadinho!”.&lt;br /&gt;Com excepção da Susana e da Delfina, os outros cinco faleceram com mais de oitenta, ou mesmo noventa anos.&lt;br /&gt;O que mais viveu foi o António que se finou um ou dois anos antes de completar o centenário.&lt;br /&gt;Era o mais débil enquanto jovem. Estava sempre adoentado e os pais não sabiam que futuro lhe dar, até que resolveram que ficaria a trabalhar na loja que tinham e que, entre outras coisas, cambiava dinheiro, nomeadamente escudos e pesetas.&lt;br /&gt;Assim se iniciou o frágil rapazito (que eu conheci como um velhote bem corpulento) nas artes do negócio. Quando era muito solicitado pela clientela, respondia sistematicamente:&lt;br /&gt;- Cinco minutos!&lt;br /&gt;- Daqui a cinco minutos eu atendo!&lt;br /&gt;- São só cinco minutos!&lt;br /&gt;Não demorou muito tempo que ficasse conhecido em toda a vila como o "Cinco minutos”.&lt;br /&gt;Quando criou uma casa de câmbios não deixou de a baptizar com o nome de “Casa de Câmbios Cinco Minutos”.&lt;br /&gt;Os anos foram passando e o António foi enriquecendo, chegando a fazer uma fortuna considerável. Era o ricaço da família!&lt;br /&gt;Casou com Virgínia e teve um filho, também António, que trabalhou sempre com o pai.&lt;br /&gt;Este casou com Luciana e tiveram uma única filha a quem baptizaram com o nome da avó: Virgínia. Mas, na família toda a gente a conhecia como Pochinha. Tem mais cinco ou seis anos do que eu.&lt;br /&gt;É bem conhecida a história de, num dos primeiros aniversários da neta, o velho António lhe ter oferecido um pote ou penico parcialmente revestido a ouro.&lt;br /&gt;Mas era um forreta, o homem!&lt;br /&gt;Quando vinha ao Porto, de comboio, trazia o almoço de casa, bem embrulhado para não arrefecer e comia no combóio durante a viagem ou depois de chegar.&lt;br /&gt;Sabe-se que tinha uma amante no Porto, que vivia só com duas filhas e que ele pagou os estudos às raparigas que lograram tirar cursos superiores. Naquele tempo era obra!&lt;br /&gt;Também é conhecido que, já depois dos oitenta anos, confidenciou à prima Felisbela, irmã mais velha da minha mãe, que ainda tinha uma amante, sempre no Porto para ser mais discreto.&lt;br /&gt;A minha tia perguntou-lhe:&lt;br /&gt;- Ó Tone! Mas tu com essa idade já não consegues fazer nada!&lt;br /&gt;- É só para a ver nua! – respondeu o velho devasso.&lt;br /&gt;A sessão demoraria só cinco minutos?&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-115774182979802549?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/115774182979802549/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=115774182979802549' title='22 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115774182979802549'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115774182979802549'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/09/o-cinco-minutos.html' title='O &quot;Cinco minutos&quot;'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>22</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-115729368848356258</id><published>2006-09-03T15:26:00.000+01:00</published><updated>2006-09-03T15:40:35.893+01:00</updated><title type='text'>Diálogos de gente (XVII) (Homo)</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Bruno Gouveia, o Becas, era um tipo de trinta e poucos anos.&lt;br /&gt;Solteiro, alto, elegante, sempre impecavelmente vestido, cabelo liso e relativamente comprido que afastava da frente dos olhos com os dedos ou com um trejeito adequado da cabeça. Caminhava sempre muito hirto, com um passo de “passerelle” e todos os movimentos que fazia eram como que meticulosamente ensaiados diante do espelho. Eram notórios alguns tiques afeminados. A voz era razoavelmente grave, mas o modo de falar era algo afectado. Tinha um emprego estável e razoavelmente remunerado.&lt;br /&gt;Não tinha muitos amigos nem amigas. Íntimos, ainda menos, e não se lhe conheciam amantes nem namoradas.&lt;br /&gt;Vivia com sua mãe Lucrécia, há muito viúva do Gouveia que só lhe dera aquele filho e que ela educara com todo o desvelo e carinho.&lt;br /&gt;Poucas vezes saía de casa sozinho, salvo para ir ao café mais perto e, mesmo lá, geralmente ía com a mamã.&lt;br /&gt;As más-línguas diziam que ele era maricas ou, algumas mais viperinas, cochichavam mesmo que haveria uma relação incestuosa na casa, tal o número de vezes que mãe e filho saíam juntos e o tempo que ele passava dentro da habitação.&lt;br /&gt;Certo dia, recebeu um telefonema de uma colega de trabalho, que vivia perto dele e com quem se encontrava algumas vezes no tal café, que lhe propôs irem almoçar fora no sábado seguinte.&lt;br /&gt;Já por várias vezes que a Cátia Gomes, interessante mulher que andava perto dos trinta anos, lhe havia feito aquele convite. Ele recusara sempre.&lt;br /&gt;Mas desta vez ela conseguiu convencê-lo.&lt;br /&gt;E assim, não sem antes ouvir as habituais recomendações maternas, saiu de casa conduzindo o seu carro, sempre muito limpo, para se encontrar com a colega no restaurante combinado.&lt;br /&gt;Lá chegado, não teve que esperar muito para que visse a Cátia sair da viatura com um provocante vestido branco, curto e semi-transparente.&lt;br /&gt;Durante a refeição, que foi frugal pois ambos queriam manter uma boa silhueta, conversaram sobre vários assunto, inclusivamente de trabalho mas, no final, ela propôs irem num dos automóveis para um sítio fresco já que o calor apertava.&lt;br /&gt;E nada melhor que sob um arvoredo denso que recobria um conhecido monte nos arredores da cidade. Um daqueles locais muito frequentado por namorados e que, à noite, o era também pelos famosos “pestaninhas” ou “espreitinhas”.&lt;br /&gt;A jovem insistiu para irem no carro dela.&lt;br /&gt;Assim, estacionou exactamente onde quis.&lt;br /&gt;- Bruno! Tu és um homem muito bonito. Mas acho que não tens namorada. É verdade? – perguntou a rapariga.&lt;br /&gt;- É! – respondeu ele, laconicamente.&lt;br /&gt;- Que desperdício! E nunca tiveste? – insistiu ela.&lt;br /&gt;- Oh Cátia! Onde é que tu queres chegar? – interrogou o Becas.&lt;br /&gt;- Queres que te diga? Eu digo-te! – disse ela convictamente, enquanto se colocava numa posição em que ele pudesse ver bem as suas coxas descobertas e uma boa parte dos roliços seios destapados.&lt;br /&gt;E prosseguiu:&lt;br /&gt;- Não sei se sabes, mas tu tens fama de ser maricas! Ora eu acho que tu não és nada disso. Acho que és muito tímido, que tens pouca experiência com mulheres e tens um certo receio de te aproximar. Tenho razão, não tenho?&lt;br /&gt;E começou a passar-lhe os dedos suavemente pelas pernas com a óbvia intenção de o excitar.&lt;br /&gt;O homem manteve-se impassível e respondeu:&lt;br /&gt;- De facto, nunca me senti muito atraído por mulheres. Por isso nunca namorei a sério. Tive uns namoricos quando era mais novo mas ao fim de pouco tempo acabava com eles pois não me interessava aprofundar nenhuma relação.&lt;br /&gt;Ela começou a acariciar-lhe a zona fálica que, contudo, continuava inerte.&lt;br /&gt;- Então não gostas mesmo de mulheres! – disse ela – Mas podes estar descansado que o que dissermos aqui dentro será um segredo só nosso.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- E por homens? Sentes atracção? Olha! Vou ser totalmente directa: és homossexual?&lt;br /&gt;O Bruno Gouveia desviou os olhos e fitou o infinito.&lt;br /&gt;Só ao fim de uns dois ou três minutos olhou para a Cátia que tinha ficado positivamente suspensa.&lt;br /&gt;- Sou homossexual! – confessou o Becas, enquanto os seus olhos brilhantes de água olhavam para a companheira.&lt;br /&gt;- Podes estar descansado que eu não digo nada a ninguém – repetiu a jovem mulher – e se quiseres desabafar comigo está à vontade. Acho que deves ter muita coisa dentro de ti que gostarias de deitar cá para fora e não consegues porque não ousas assumir-te.&lt;br /&gt;Cátia deixara de provocar o homem e agora pegava-lhe numa mão que acariciava maternalmente.&lt;br /&gt;- Nem imaginas! Nem imaginas! Não sabes o que é ter a noção de que devo gostar de mulheres quando elas não me excitam. – e prosseguiu, num imenso desabafo – Eu gosto muito de um tipo da minha idade que me corresponde. Mas o pior de tudo é que ele é bi, casado e com um filho. Encontramo-nos uma ou duas vezes por mês e falamos na Net ou ao telefone, embora não com a frequência que eu desejaria.&lt;br /&gt;Cátia sentiu que não devia ser demasiado curiosa, mas não desistiu da insistência:&lt;br /&gt;- Se assumisses a tua homossexualidade não seria melhor?&lt;br /&gt;- Já pensei nisso muitas vezes! Mas acho que não! Tenho quasi a certeza que seria muito pior para mim. Além de ti, da minha mãe, e de alguns homens com quem tive relações, mais ninguém sabe. Rogo-te que guardes isto que agora te disse e nunca o reveles a ninguém – pediu o Bruno.&lt;br /&gt;- Olha, Bruno! Devo dizer-te que a partir deste momento sinto um afecto e uma ternura por ti como nunca senti antes. Respeito totalmente a tua opção sexual e, sempre que quiseres desabafar ou uma companhia feminina para calar as bocas, conta comigo – ofereceu-se a amiga.&lt;br /&gt;- Agradeço imenso! E provavelmente vou aproveitar a tua oferta. Só te quero dizer que não se trata de uma opção. Eu não sou homo por opção mas porque nasci assim e nada disto depende da minha vontade – disse o jovem e começou a chorar.&lt;br /&gt;Ela sentiu os olhos humedecidos. Apertou a mão dele com força e disse-lhe o que lhe pareceu mais oportuno:&lt;br /&gt;- Bruno! Tu ainda vais ser feliz!&lt;br /&gt;- Duvido muito, Cátia, duvido muito! Se tivesse coragem de me assumir, talvez, mas enquanto tiver de guardar tudo isto dentro de mim, nunca serei feliz. Limito-me a ter alguns momentos, poucos, de felicidade.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-115729368848356258?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/115729368848356258/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=115729368848356258' title='25 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115729368848356258'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115729368848356258'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/09/dilogos-de-gente-xvii-homo.html' title='Diálogos de gente (XVII) (Homo)'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>25</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-115677638268506825</id><published>2006-08-29T00:15:00.000+01:00</published><updated>2006-08-29T00:26:32.640+01:00</updated><title type='text'>Vinte e sete anos depois</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;29 de Agosto de 1979.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;29 de Agosto de 2006.&lt;br /&gt;Faz hoje vinte e sete anos que casei.&lt;br /&gt;Tinha trinta anos.&lt;br /&gt;Conheci a Maria Fernanda um ano antes, em Vila Praia de Âncora, terra natal de minha mãe, por coincidência.&lt;br /&gt;Vi-a pela primeira vez sentada na areia da praia, com uma rapazito a brincar na água, junto dela, e pensei:&lt;br /&gt;“ Que mulher fabulosa! Que sorte tem o tipo que é casado com ela!”.&lt;br /&gt;E segui caminho.&lt;br /&gt;Depois vi-a mais algumas vezes, mas já sem a criancinha. Isso aguçou a minha curiosidade. E quando surgiu a oportunidade, meti conversa.&lt;br /&gt;Afinal o rapazinho sempre era filho dela; tinha acabado de se divorciar após pouco mais de um ano de casamento efectivo e mais uns quantos de separação enquanto tratava do divórcio.&lt;br /&gt;Disse-me que o filho, o Mário Rui, quando os avós os tinham vindo visitar uns dias antes, quis voltar com eles. E para não ficar sozinha, já que tinha alugado um quarto, passado muito pouco tempo veio fazer-lhe companhia a prima Dalila.&lt;br /&gt;A jovem mamã caiu-me no goto logo desde o início.&lt;br /&gt;Não sei se foi amor à primeira vista ou não. Só sei que a partir do momento em que a conheci só estava bem na companhia dela. E passamos umas duas semanas bem agradáveis, os três, mais um mocinho que namoriscava a prima: o Vítor.&lt;br /&gt;Eu era o único que tinha carro, um Fiat 127 branco, que nos foi bem útil para as movimentações, sobretudo nocturnas.&lt;br /&gt;Também constatamos que tínhamos nascido na mesma rua (Oliveira Monteiro, ao Carvalhido), em casas que distavam cerca de cinquenta metros: eu em Janeiro, ela em Abril do mesmo ano. Mas nunca os nossos pais se tinham visto, conforme pudemos apurar mais tarde. Outra coincidência, embora seja também verdade que, passados dois anos do nosso nascimento, a família da Maria Fernanda foi viver para Leça do Balio, muito perto do conhecido mosteiro.&lt;br /&gt;Terminadas as férias, a jovem, bela e sedutora mamã regressou a casa dos pais onde vivia com o filho desde a separação do primeiro marido.&lt;br /&gt;Cerca de uma semana depois foi a minha vez de regressar a casa dos meus progenitores, que ficava no Porto, muito perto do já demolido estádio das Antas. Morava com eles.&lt;br /&gt;Na altura tinha uma relação com outra rapariga que as circunstâncias fizeram com que se rompesse muito poucos dias depois.&lt;br /&gt;E continuamos o nosso namoro até sentir, sem margem para dúvidas, que queria que ela fosse a minha mulher.&lt;br /&gt;Daí a falar-se em casamento, decidir, tratar de arranjar casa, enfrentar algumas oposições pelo facto de ela ser divorciada e ter um filho, resolver mais um sem número de questões e colocar as alianças, tudo aconteceu muito rapidamente.&lt;br /&gt;Ou seja, num ano.&lt;br /&gt;Depois veio a vida em comum, momentos bons, momentos maus, situações de grande alegria e comunhão (como quando nasceu o nosso filho Fernando Miguel, mais de três anos após o matrimónio), outras de muito desacerto em que o casamento correu perigo.&lt;br /&gt;Mas, curiosamente, era em momentos mais complicados como o falecimento dos meus pais e dos meus sogros, doenças ou situações de desemprego que a ligação se fortalecia.&lt;br /&gt;Vinte e sete anos!&lt;br /&gt;A paixão já passou há muito tempo, mas sobraram a amizade, as memórias, as cumplicidades, as coisas em comum, o hábito de contarmos um com o outro, a família. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O casamento perdura e penso que vai durar até que a morte nos separe.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-115677638268506825?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/115677638268506825/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=115677638268506825' title='42 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115677638268506825'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115677638268506825'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/08/vinte-e-sete-anos-depois.html' title='Vinte e sete anos depois'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>42</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-115608379121589359</id><published>2006-08-22T19:00:00.000+01:00</published><updated>2006-08-22T21:23:29.133+01:00</updated><title type='text'>Diálogos de gente (XVI) (O sovina)</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Isaac Woźniak é um judeu polaco, comerciante com três lojas de pronto-a-vestir e pertencente à classe média alta. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;É filho único do falecido Jacob Woźniak que se refugiou em Portugal logo no início da II Grande Guerra com a mulher Sara e o menino, sendo o fundador do primeiro dos estabelecimentos comerciais, na altura uma casa de fazendas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Isaac era então pouco mais que um bebé e agora tem quasi setenta anos. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Casou com uma judia austríaca, Raquel, cujos pais também eram refugiados. Mas a mulher nasceu já em terras lusitanas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Tem três filhos rapazes e cada um gere uma das lojas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O homem costuma estar mais tempo nesta, onde decorre a acção, mas vai às outras pelo menos uma vez por semana. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Bom dia, Isaac! &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Ao ouvir a voz reconheceu-a imediatamente. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Levantou a cabeça do livro em que escrevia e olhou para o seu amigo Jaime Furtado. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Olá, Jaiminho! – ripostou. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O diminutivo vinha dos tempos do liceu onde haviam sido colegas de turma e resultava de o recém-chegado ser um tipo baixo e franzino, em contraponto com o homenzarrão que era o comerciante. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;E continuou: &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Já não aparecias por cá faz uns tempos! Estás sempre na mesma! Se engordasses com a idade, como seria normal, davas-me muito mais dinheiro a ganhar comprando nova roupa mais larga. E sorriu. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Tu tens é inveja de não ter a minha elegância! – respondeu o Furtado, sorrindo também. Deram um aperto de mão. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Elegância? Magreza, diz! Só há uma coisa que te invejo: poupas muito dinheiro em comida e em roupa – discordou o judeu. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Oh homem! Tu só pensas em poupar nos gastos e em ganhar mais. Qualquer dia bates a bota e a tua fortuna fica cá – criticou o Jaime. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Fortuna? Tenho alguma coisa, lá isso é verdade, mas é graças ao meu feitio economizador – explicou o Isaac. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Economizador? Tu és um somítico. Um sovina. Um avarento – disse, rindo, o magricela. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;E prosseguiu o ataque: &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Ainda me lembro que me dizias muitas vezes: “Este ano tive não sei quantos contos de prejuízo”. Eu ficava sempre intrigado porque via os teus negócios a prosperarem, tu a fazeres investimentos, a construíres uma bela casa. Até que descobri que afinal não tinhas prejuízo mas, tão somente consideravas que se o lucro de um ano era inferior em x ao do ano anterior, dizias que tinhas tido um prejuízo de x. És mesmo judeu! &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Riram-se os dois. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Como está a tua família de pobrezinhos? – quis saber o visitante. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Tudo bem! Só a minha Raquel é que continua com os problemas nos ossos. O meu filho Moisés está ali ao fundo e os outros estão nas lojas que gerem, como sabes. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;E a tua de ricos? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Está tudo dentro da normalidade, obrigado – respondeu o Jaime. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- E então o que te traz por cá? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Quero comprar duas ou três camisas de popelina, brancas e azuis – disse o cliente e amigo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Que número gastas? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Trinta e seis. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Pois! Número de rapazinho – gozou o Isaac. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Como é um número pequeno, gasta menos pano, portanto tem de ser mais barata. Venho cá esperando um grande desconto – provocou o Jaime. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Já sabes que para ti há sempre um preço especial. Eu venho já! &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;E o comerciante afastou-se um pouco e deu instruções a um empregado. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Vamos ver se não me fazes quinze por cento de desconto! – cogitou o Furtado. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Passado pouco tempo, o Jaiminho já tinha escolhido quatro camisas: duas brancas, uma azul clara e outra bege. Todas lisas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Então quanto é que tenho de pagar? – perguntou o cliente. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Ao preço normal são trezentos euros, mas para ti são...duzentos e setenta. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Só dez por cento de desconto? Tem de ser vinte! – refilou o Jaime. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Vinte? Tu queres que eu vá à falência? – chorou-se o judeu. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Qual falência qual quê? Duzentos e quarenta! &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Só me aparecem clientes destes! Vinte por cento é a minha margem – mais choro do Isaac. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Não me faças rir! Tu tens pelo menos trinta de margem. Mas acho que tens quarenta. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Não! A sério que não posso fazer vinte. Faço-te quinze e não se fala mais nisto. Olha que é artigo do melhor. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;- Quinze? Dá...duzentos e cinquenta e cinco, ou seja, cerca de treze contos cada uma. Pronto, levo! Mas vens comigo ali ao café para pôr a conversa em dia e és tu quem paga, Isaac. Mas não te preocupes que eu peço um café curto. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;E riram-se os dois, de novo.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-115608379121589359?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/115608379121589359/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=115608379121589359' title='28 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115608379121589359'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115608379121589359'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/08/dilogos-de-gente-xvi-o-sovina_22.html' title='Diálogos de gente (XVI) (O sovina)'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>28</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-115599767400086879</id><published>2006-08-19T15:21:00.000+01:00</published><updated>2006-08-19T23:54:32.160+01:00</updated><title type='text'>Fim da Pausa</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Ao fim de mais de mês e meio, sinto que já estou em condições de voltar a escrever e colocar aqui o produto desse trabalho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Portanto, declaro solenemente que estou de volta.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Mas o ritmo de escrita vai ser mais calmo que o do primeiro período. Também já estou mais velho, não é verdade?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Espero continuar a contar com a vossa presença amiga e com os vossos comentários, quer sejam favoráveis ou não.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Obrigado!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;(e desculpem qualquer coisinha)&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-115599767400086879?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/115599767400086879/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=115599767400086879' title='24 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115599767400086879'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115599767400086879'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/08/fim-da-pausa.html' title='Fim da Pausa'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>24</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-115496274566688170</id><published>2006-08-07T15:54:00.000+01:00</published><updated>2006-08-07T16:10:00.250+01:00</updated><title type='text'>Guerra de civilizações</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Este texto é o que se pode chamar um artigo de opinião.&lt;br /&gt;Poucos escrevi ao longo deste ano e meio, mas não posso deixar de o fazer perante o que se está a passar actualmente no Médio Oriente.&lt;br /&gt;Vou dizer o que penso da guerra entre Israel e o Hezbollah.&lt;br /&gt;Dum lado está a civilização judaico-cristã que é a nossa e dos nossos antepassados e, espero, seja a dos nossos descendentes. Pode ter muitos defeitos mas não é, seguramente, a mais primitiva, retrógrada ou malévola de todas.&lt;br /&gt;Do outro uma civilização árabe, fundamentalista, em que o poder religioso se sobrepõe a tudo e todos e em que uns quantos "iluminados" não passam de ferozes ditadores em nome de Alá. Mas não os confundo com os muçulmanos moderados, devo acentuar.&lt;br /&gt;Enquanto a maior parte do mundo ocidental anda a discutir como combater o terrorismo implacável da Al Qaeda, do Hamas ou do Hezbollah, Israel está fazendo o trabalho sujo mas necessário, que nós, os ocidentais, cobardemente, não temos a coragem ou a conveniência de assumir, e enquanto os americanos estão agrilhoados a essa decisão imbecil que foi a de invadir o Iraque, que sendo governado por um sanguinário déspota, estava longe de ser uma real ameaça para o Ocidente.&lt;br /&gt;Apoio totalmente Israel neste conflito contra uma seita terrorista, armada até aos dentes por estados muçulmanos extremistas, de que o Irão é o expoente máximo.&lt;br /&gt;Não sou judeu nem tenho nenhuma particular simpatia por eles.&lt;br /&gt;Mas apoio porque, para o bem ou para o mal, eu estou umbilicalmente ligado à civilização ocidental e não tenho nada a ver com o islamismo radical.&lt;br /&gt;Esta diferenciação civilizacional é a verdadeira essência do conflito que, aliás, está latente em várias partes do mundo e também já eclodiu e persiste no Afeganistão. Mesma na Europa já há fortes sinais desse confronto, nomeadamente na França.&lt;br /&gt;Podem falar-me que por trás dele está o negócio da venda de armas ou o do petróleo ou qualquer outro. Claro que esses interesses económicos são importante, mas não são a essência do problema.&lt;br /&gt;Também me podem dizer que morrem demasiados inocentes. Pois morrem! Mas será que a vida de uma criança de treze anos vale mais do que a de um soldado de dezoito?&lt;br /&gt;Sempre houve e haverá guerras. É bom que as haja? Obviamente que seria muito melhor que as não houvesse. Mas em certos assuntos temos de ser realistas sob pena de os nossos inimigos nos engolirem enquanto fazemos uma imponente manifestação pela paz no mundo.&lt;br /&gt;Também não me interessa saber se o estado de Israel devia ou não ser criado na Palestina. São coisas do passado que não vou agora discutir. Ele existe!&lt;br /&gt;Estaremos perante uma guerra religiosa? Alguns assim pensarão e actuarão em conformidade. Eu acho que é mais uma das questões acessórias, se bem que não seja de descurar.&lt;br /&gt;Termino dizendo que quando há uma guerra que nos toca, mesmo que não directamente, não deve haver ambiguidades: ou se está dum lado ou do outro.&lt;br /&gt;E eu sei, e sempre soube, qual é o meu!&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-115496274566688170?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/115496274566688170/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=115496274566688170' title='34 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115496274566688170'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115496274566688170'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/08/guerra-de-civilizaes.html' title='Guerra de civilizações'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>34</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-115174467669786555</id><published>2006-07-01T09:50:00.000+01:00</published><updated>2006-07-01T10:08:16.570+01:00</updated><title type='text'>Pausa</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Após mais de dezasseis (16) meses de escrita ininterrupta de cerca de cento e sessenta (160) textos originais, o que dá uma média aproximada de dez (10) por mês, sinto uma forte necessidade de fazer uma pausa.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Não sei quando regressarei em pleno, mas espero fazê-lo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Entretanto, poderá vir um momento de inspiração e, em consequência, aparecer aqui algum post novo, ocasionalmente, de repente.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Quero agradecer a todos os que me tem lido e sobretudo aos que também me tem comentado. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Como já referi mais de uma vez, foi a vossa presença que me fez escrever o que escrevi; senão já teria desistido há muito tempo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;E é também (mas não só) por vós que regressarei.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Saudações para todos e até breve.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-115174467669786555?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/115174467669786555/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=115174467669786555' title='77 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115174467669786555'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115174467669786555'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/07/pausa.html' title='Pausa'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>77</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-115113323611944901</id><published>2006-06-24T08:03:00.000+01:00</published><updated>2006-06-24T08:50:14.483+01:00</updated><title type='text'>A noite de S. João</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;A noite passada, pouco depois de ter acabado o jantar, deitei-me na cama, vestido e sobre a roupa, pensando descansar uns minutos para depois ir dar uma volta a pé.&lt;br /&gt;Afinal era a noite de S. João!&lt;br /&gt;Pois adormeci e só acordei já passava das cinco da manhã.&lt;br /&gt;Isto fez-me pensar em como o tempo passa e, muito mais depressa do que se possa pensar, estamos com os pés para a cova.&lt;br /&gt;E recordei-me que a noite de S. João era sagrada para o meu pai.&lt;br /&gt;Desde miúdo que me lembro dele e de minha mãe saírem, já tarde, pelas onze e tal, e só voltarem pelas quatro ou cinco da madrugada.&lt;br /&gt;Eu e a minha irmã, mais nova dois anos, ficávamos em casa, claro.&lt;br /&gt;Mas connosco ficava a avó paterna, a vovó Mimi, que para lá se mudava por uma noite e um dia para ficar a zelar pelos netos.&lt;br /&gt;Passada essa fase inicial em que a noitada me era restringida, seguiu-se a fase de sair com os pais. Já não me recordo quando fui viver a minha primeira noite de S. João, mas deve ter sido por volta dos dez, doze anos.&lt;br /&gt;Estou a falar da cidade do Porto, pois as festas deste santo popular são comemoradas em mil e uma cidades, vilas e aldeias por esse país fora.&lt;br /&gt;Depois das minhas primeiras experiências como noctívago sanjoanino, não pude deixar de dar certa razão ao meu pai, bairrista como vi poucos, e que dizia ser esta festa única no mundo, pois não havia mais nada além de pessoas que, de facto, nada comemoravam. Gente que, sorridente, batia com o alho porro na cabeça dos outros.&lt;br /&gt;Para quem nunca viveu esta experiência, isto pode parecer profundamente idiota.&lt;br /&gt;Mas não é!&lt;br /&gt;De facto, cria-se uma empatia tal entre todos, que este comportamento prosaico e bizarro se transforma, como que por milagre, num ritual de paz, harmonia, concórdia e verdadeira comunhão entre os homens.&lt;br /&gt;Depois, lá pelas três, vinha o tempo de comer um arroz de cabrito na casa Casais, junto ao jardim de S. Lázaro, que era a tasca de preferência do meu pai (para este fim, bem entendido).&lt;br /&gt;Lembro-me de o velhote ter um cliente e amigo em Cascais, pessoa de bem e com muito garbo, que foi convencido por ele a vir passar uma dessas noitadas ao Porto.&lt;br /&gt;E lá vieram o Sr. Pereira e a sua mulher, a D. Hortênsia. Um pouco constrangidos, confessaram depois. Mas, após terem vivido essa noite, juraram que nunca haviam visto tal empatia entre as pessoas. E dai por diante e durante alguns anos, lá vinha o casal por aí acima para sentir e gozar a noitada de S. João.&lt;br /&gt;Por voltas dos quinze, dezasseis anos, comecei a ir com os amigos. Primeiro era o bailarico dos bairros, ao fundo de Fernão de Magalhães e já perto do Campo 24 de Agosto, depois pelas ruas da baixa: Santa Catarina, Santo António, Clérigos, Mouzinho da Silveira para ir à Ribeira ou Alexandre Herculano para descer até às Fontaínhas. Nesses anos sessenta foi quando a populaça começou a procurar outros locais, nomeadamente a rotunda da Boavista.&lt;br /&gt;Mas, muito rapidamente, e com a entrada no ensino superior, deixei o grupo de rapazes e passei a integrar um grupo de moços e moças, quasi todos estudantes, e lá fazíamos os nossos comboios para incómodo dos mais pacatos foliões. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Foi nessa altura que começou a ocorrer em força a substituição do tradicional alho porro pelo barulhento e chato martelinho de plástico.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Em má hora! Em má hora!&lt;br /&gt;Depois foi a ausência por causa do serviço militar.&lt;br /&gt;De regresso à terra natal, a noitada deixou de ser em grupos, mas com um ou dois amigos, ou amigas ou então com a namorada da ocasião.&lt;br /&gt;Até que veio o casamento e os hábitos alteraram-se.&lt;br /&gt;Nessa altura já os festeiros se espalhavam por várias zonas da cidade e eu e a minha mulher começamos a ir à Foz, juntamente com outros casais e respectivas proles, ao apartamento de um amigo e sua companheira para depois, em plena praia, deitar um fogo de artifício muito simples e largar balões que, na sua maior parte, caíam na areia ou no mar, um pouco adiante. Quando algum lograva subir era o gáudio da pequenada, e o orgulho dos autores do feito.&lt;br /&gt;Mas esta fase passou.&lt;br /&gt;Depois seguiu-se o período familiar.&lt;br /&gt;Eu, a mulher e os dois rapazes voltamos a calcorrear as ruas da baixa.&lt;br /&gt;Mas rapidamente o mais velho, o meu enteado, desertou e só ficamos três.&lt;br /&gt;Há poucos anos, ficaram só os dois velhotes: uma voltinha pelos Aliados onde não havia muito aperto e, por pressão da mulher (que eu bem o dispensava) ver o fogo de artifício à meia-noite e logo de seguida regressar a penates.&lt;br /&gt;Nos dois ou três últimos anos nem saímos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;br /&gt;São sete e meia da manhã.&lt;br /&gt;O meu filho, com vinte e três anos, acaba de chegar a casa.&lt;br /&gt;- Oh pá! – falei-lhe daqui – Não precisas de fechar a porta à chave porque já estou levantado.&lt;br /&gt;O mais velho, com quasi trinta e dois, já estava a dormir quando me pus a pé.&lt;br /&gt;A mulher também ainda dorme. Ou está na sorna.&lt;br /&gt;E eu estou a acabar de escrever mais umas memórias na esperança de que alguém leia isto daqui a uns anos.&lt;br /&gt;E, de repente, comecei a chorar.&lt;br /&gt;Bolas! Que se passa? Acho que estou mesmo a ficar um velho gagá!&lt;br /&gt;Tenham um bom dia de S. João!&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-115113323611944901?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/115113323611944901/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=115113323611944901' title='57 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115113323611944901'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115113323611944901'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/06/noite-de-s-joo.html' title='A noite de S. João'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>57</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-115056127199655198</id><published>2006-06-17T17:16:00.000+01:00</published><updated>2006-08-05T21:38:54.600+01:00</updated><title type='text'>Diálogos de gente (XV) (O engatatão) (final)</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Jorge Meireles arrancou devagar.&lt;br /&gt;- Como vais ver, Cátia, o apartamento é muito perto do escritório. Cerca de um quilómetro. Até podias ir e vir a pé, quando quisesses – disse o homem.&lt;br /&gt;- É um T0? – perguntou a moça.&lt;br /&gt;- Não! É um T1. Para ti chega perfeitamente. E tem um lugar de garagem. Mas daqui a pouco já vais conhecê-lo em pormenor.&lt;br /&gt;Pouco depois o carro parou em frente à porta da garagem de um prédio novo, com lojas no rés-do-chão, um nível de sobreloja e mais 4 pisos de habitação.&lt;br /&gt;Sob o comando do homem, o portão abriu-se e a viatura entrou e estacionou.&lt;br /&gt;- O lugar de garagem não é aqui. É mais além, mas este carro cabe lá com dificuldade e não vale a pena estar a fazer muitas manobras – justificou o Meireles.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Vamos então sair.&lt;br /&gt;Apeados, dirigiram-se para o elevador e subiram ao último piso. O boss abriu a porta e disse:&lt;br /&gt;- Eu entro primeiro para ligar a electricidade.&lt;br /&gt;Tratava-se de um simpático apartamento, pequeno mas bem e completamente mobilado, o que o tornava bastante acolhedor.&lt;br /&gt;Com algumas luzes acesas, dirigiu-se à empregada e convidou:&lt;br /&gt;- Faz o favor de entrar e estar à vontade. Procede como se já vivesses cá.&lt;br /&gt;- Com licença! – disse a rapariga que avançou para a sala comum enquanto o Jorge abria as persianas e as janelas.&lt;br /&gt;- É preciso arejá-lo. Não venho cá muitas vezes e a empregada só vem fazer limpeza duas vezes por semana. – esclareceu o patrão – Vamos ver o resto.&lt;br /&gt;A rapariga seguiu-o, observando com interesse as várias divisões do flat.&lt;br /&gt;Chegados ao quarto, disse o Jorge deitando-se na cama:&lt;br /&gt;- Experimenta o colchão! Eu gosto dele assim. É duro.&lt;br /&gt;A rapariga apalpou a cama com a mão e falou:&lt;br /&gt;- Também gosto deles duros.&lt;br /&gt;- Quasi que teria apostado que gostas deles duros – disse o homem.&lt;br /&gt;A Cátia ruborizou um pouco e afastou-se da cama.&lt;br /&gt;- Então? Agrada-te?&lt;br /&gt;- É um apartamento muito interessante para uma pessoa ou um casal. Mas acho que só poderia aceitar a sua oferta se o meu namorado viesse viver para cá – jogou ela.&lt;br /&gt;O homem franziu o sobrolho, levantou-se e dirigiu-se à janela.&lt;br /&gt;Passados um ou dois minutos disse:&lt;br /&gt;- É uma hipótese a considerar. Qual é a actividade dele?&lt;br /&gt;- É técnico comercial.&lt;br /&gt;- Então viaja bastante, calculo – tentou adivinhar o Meireles.&lt;br /&gt;- Bastante! – respondeu a rapariga.&lt;br /&gt;- E ele estará de acordo?&lt;br /&gt;- Não sei! Tenho de falar com ele. Nem sequer vivemos juntos, ainda – confidenciou a jovem.&lt;br /&gt;- Acho que vai concordar! – palpitou o empresário.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Podes deitar-te na cama para apreciar melhor o colchão. E também te quero dizer que seria uma pena que uma jovem bonita, inteligente e diligente perdesse um bom emprego por preconceitos ou receios desnecessários.&lt;br /&gt;- Mas eu não tenho preconceitos nem receios, senhor Meireles. Tenho é alguns princípios dos quais dificilmente abdicarei – contra atacou a jovem.&lt;br /&gt;- Mas assim é que eu gosto de uma mulher. Com princípios. – disse o boss – Desde que esses princípios não sejam fundamentalistas, como agora se diz. Por exemplo? Repugnava-te passares algumas horas comigo nesta cama?&lt;br /&gt;- Repugnar? Não! Obviamente que não! Mas não o faria por uma questão de lealdade para com o meu namorado e porque tenho dignidade. Não tenho intenções de subir na vida na horizontal. Se entender que estes princípios se coadunam com os seus, eu falo ao meu namorado na hipótese de virmos ambos viver para cá. Se não concorda e achar que me deve despedir por isso ou não renovar o contrato, eu garanto-lhe que não irei morrer de fome – dissertou a Cátia.&lt;br /&gt;- Pronto! Pronto! Estava só a testar-te! Vejo que és uma verdadeira senhora. Muitos parabéns! – disse o Meireles com um amarelíssimo sorriso.&lt;br /&gt;E pensou com os seus botões:&lt;br /&gt;- Anda para cá que depois a gente conversa outra vez. E senão fizeres o que eu quero vais de vela enfunada no momento próprio!&lt;br /&gt;- Ah! É verdade! – disse a mulher – Eu ontem vi a sua esposa e achei-a uma pessoa muito simpática. E ela também parece que gostou de mim.&lt;br /&gt;- Ok! Vamos então embora porque há trabalho para fazer – rematou o Jorge Meireles visivelmente irritado.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-115056127199655198?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/115056127199655198/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=115056127199655198' title='54 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115056127199655198'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/115056127199655198'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/06/dilogos-de-gente-xv-o-engatato-final.html' title='Diálogos de gente (XV) (O engatatão) (final)'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>54</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-114995275473783717</id><published>2006-06-10T16:13:00.000+01:00</published><updated>2006-08-05T21:34:27.466+01:00</updated><title type='text'>Diálogos de gente (XV) (O engatatão) (parte II)</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Já passava do meio-dia e meia.&lt;br /&gt;Jorge Meireles levantou-se, dirigiu-se à porta do gabinete, abriu-a, e disse:&lt;br /&gt;- Cátia! Por favor prepare-se porque daqui a cinco minutos vamos sair para o almoço.&lt;br /&gt;- Sim, Senhor Meireles!&lt;br /&gt;- Jorge!&lt;br /&gt;- Pois, Jorge. Peço desculpa.&lt;br /&gt;O patrão regressou ao seu compartimento privativo para daí a poucos minutos o abandonar.&lt;br /&gt;- Está pronta? – perguntou à jovem.&lt;br /&gt;- Estou sim, senhor Mei...Jorge.&lt;br /&gt;- Então vamos lá!&lt;br /&gt;Desceram a escada até à garagem onde estava estacionado um magnífico carro preto, da gama alta. Jorge accionou o dispositivo de abertura à distância, abriu a porta do lado direito e fez um sinal com o braço para a secretária entrar.&lt;br /&gt;Esta sentou-se, deixando o patrão a olhar gulosamente para as pernas que ficaram razoavelmente destapadas.&lt;br /&gt;Pouco depois estavam na rua a caminho do restaurante onde normalmente o empresário almoçava.&lt;br /&gt;A conversa foi pouca pois o percurso era curto.&lt;br /&gt;Lá chegados, apearam-se da viatura e entraram.&lt;br /&gt;- Boa tarde, senhor Meireles! – disse um dos empregados enquanto o homem, seguido pela rapariga, se dirigia para a mesa habitual.&lt;br /&gt;Entretanto foi cumprimentando vários comensais que lhe retribuíam a saudação. Vários dos homens não puderam deixar de seguir Cátia com o olhar, alguns deles esboçaram um sorriso, e não deixaram de ser pronunciados, em surdina, alguns comentários relativos à nova companhia do Meireles.&lt;br /&gt;Mal se sentaram, um em frente do outro, apareceu um dos empregados com os cardápios.&lt;br /&gt;- Cátia! Escolha o que quiser. Esteja á vontade. Gosta de marisco?&lt;br /&gt;- Gosto, sim! – disse a rapariga entusiasmada.&lt;br /&gt;- Posso então mandar vir arroz de marisco para os dois? Aqui é muito bem feito. Hoje vou beber cerveja. Gosto de cerveja a acompanhar marisco. Também quer? – perguntou o boss.&lt;br /&gt;- Eu não costumo beber álcool mas, com este calor e com marisco, acho que é uma boa escolha – anuiu a empregada.&lt;br /&gt;- Muito bem! Vou pedir.&lt;br /&gt;Pouco depois, e enquanto trincavam uns aperitivos, perguntou o Jorge:&lt;br /&gt;- Oh Cátia! A quantos quilómetros é que vive do escritório?&lt;br /&gt;- Cerca de trinta. – respondeu ela.&lt;br /&gt;- E vem de transporte público?&lt;br /&gt;- Sim! É mais económico – justificou a moça.&lt;br /&gt;- Sabe que eu tenho aqui perto um pequeno apartamento mobilado que comprei e que não é habitado. Que acha da ideia de vir viver para cá? Aos fins-de-semana iria para sua casa. Seria muito menos cansativo para si e até mais barato – convidou o homem.&lt;br /&gt;- É muito amável da sua parte, mas eu gosto de estar todos os dias com o meu namorado – retorquiu ela.&lt;br /&gt;- Que sorte ele tem! Uma rapariga bonita, sensual, elegante e dedicada não é para todos – comentou o patrão.&lt;br /&gt;Mas insistiu:&lt;br /&gt;- A proposta que lhe estou a fazer só tem vantagens para si. E quando é preciso trabalhar até mais tarde, então as vantagens são enormes.&lt;br /&gt;Entretanto já haviam começado a comer o prato principal.&lt;br /&gt;- Mais dois finos, oh Maurício! – pediu o Jorge.&lt;br /&gt;- É para já, senhor Meireles!&lt;br /&gt;E voltando-se de novo para a jovem:&lt;br /&gt;- Bom! Depois do almoço vamos passar pelo andar. Depois de o ver talvez mude de opinião.&lt;br /&gt;- Terei muito gosto em vê-lo. Mas não é fácil mudar de opinião – respondeu a Cátia.&lt;br /&gt;- Veremos! Veremos! Mas eu não a posso obrigar a mudar-se, claro! – disse o homem.&lt;br /&gt;E continuou:&lt;br /&gt;- Sabe que estou muito satisfeito com o seu trabalho? Embora aqui esteja há poucos dias, já percebi que além de uma bela mulher é também uma profissional competente e dedicada.&lt;br /&gt;- Muito obrigado, senhor Jorge!&lt;br /&gt;- Jorge! Só Jorge! Não me trates nem por senhor nem por Meireles, ok?&lt;br /&gt;- Sim, Jorge!&lt;br /&gt;- E podes tratar-me por tu. Numa empresa quasi familiar como a minha, não se me afiguram simpáticos os formalismos – pretendeu aumentar a intimidade, o quarentão.&lt;br /&gt;- Se assim o desejar...quero dizer...desejares! – anuiu a secretária.&lt;br /&gt;A refeição chegou ao fim. Ainda comeram uma sobremesa, tomaram um café e fumaram um cigarro.&lt;br /&gt;- Se não fosse a maldita lei do álcool eu agora bebia um whisky. Mas já fui apanhado e não quero ficar sem a carta. Agora há aí uns guardas que se acham incorruptíveis. Enfim! Não deixo de lhes dar certa razão. Há muita gente que abusa... – discursou o Meireles.&lt;br /&gt;- E agora vai ser proibido fumar! – disse a moça.&lt;br /&gt;- Pois! Mas este salão é grande e não vai ficar abrangido. Parece que só terão de criar uma zona de fumadores e outra de não fumadores. Vamos então ver o andar, Cátia?&lt;br /&gt;- Vamos, sim, Jorge!&lt;br /&gt;- Ora assim é que é! Tratamento informal e familiar.&lt;br /&gt;Levantaram-se. Foram aos lavabos e pouco depois estavam de novo dentro do automóvel.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-114995275473783717?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/114995275473783717/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=114995275473783717' title='37 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/114995275473783717'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/114995275473783717'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/06/dilogos-de-gente-xv-o-engatato-parte.html' title='Diálogos de gente (XV) (O engatatão) (parte II)'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>37</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-114934051117199127</id><published>2006-06-03T14:07:00.000+01:00</published><updated>2006-08-05T21:33:31.916+01:00</updated><title type='text'>Diálogos de gente (XV) (O engatatão) (parte I)</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Jorge Meireles é um pequeno empresário quarentão e engatatão.&lt;br /&gt;Recentemente, contratou como secretária, com vínculo precário, uma bela morena de vinte e poucos anos: Cátia Fagundes&lt;br /&gt;- Bom dia, Cátia! – cumprimentou o patrão ao entrar na saleta que dava acesso ao seu gabinete.&lt;br /&gt;- Bom dia, senhor Meireles! – respondeu a jovem, ainda timidamente.&lt;br /&gt;- Daqui a dez minutos venha ao meu gabinete, por favor – ordenou o Jorge.&lt;br /&gt;- Sim, senhor Meireles! – afirmou a secretária.&lt;br /&gt;- Olhe, Cátia! Não gosto dessa forma tão formal de me tratar: Senhor Meireles! Daqui para a frente vai chamar-me só de Jorge, Ok? Isto é uma empresa pequena e assenta-lhe muito melhor um ambiente familiar – determinou o empresário, entrando no gabinete.&lt;br /&gt;Passado o período estipulado, a Cátia bateu na porta do Jorge:&lt;br /&gt;- Posso entrar, senhor Meireles?&lt;br /&gt;- Sim, Cátia! Entre! – respondeu o boss.&lt;br /&gt;- Com licença! – e a moça avançou.&lt;br /&gt;- Olhe! Queria que me fizesse telefonemas para as pessoas que estão nessa lista, por favor. – e ao mesmo tempo entregou-lhe um papel manuscrito – Se tiver alguma dúvida pode perguntar-me.&lt;br /&gt;- Começo já a fazer ligações? – quis saber a novata.&lt;br /&gt;- Deixe ver! Nove e doze! Não! Daqui a uns dez minutos. A esta hora a maior parte desses mandriões ainda não estão a trabalhar – esclareceu o Meireles.&lt;br /&gt;E continuou, olhando de alto a baixo a bonita e elegante morena, vestida com uma saia vermelha, travada, com uma racha lateral e deixando os joelhos à vista, e com uma blusa branca e desabotoada de modo que se podia ver um pouco dos roliços seios. Os sapatos abertos, também encarnados, tinham um salto suficientemente alto para dar um contorno mais apelativo às pernas:&lt;br /&gt;- Está muito bonita, Cátia! Essa roupa fica-lhe muito bem!&lt;br /&gt;- Obrigado, senhor Meireles! – disse a rapariga, baixinho&lt;br /&gt;- Jorge! Sinto-me mal quando me chama de Senhor Meireles. Quero ter consigo uma relação muito amistosa – insistiu ele.&lt;br /&gt;- Sim! Jorge! – falou, timidamente, a jovem.&lt;br /&gt;- Hoje vai estar um dia quente! O que vale é o ar condicionado que temos aqui. E o do carro, também! O seu carro tem ar condicionado? – disse o Jorge.&lt;br /&gt;- O meu carro é muito velhinho e não tem esses requintes – respondeu a jovem.&lt;br /&gt;- Então hoje convido-a para ir almoçar comigo. Uma mulher linda e elegante como você dá um ar ainda melhor ao meu automóvel – disse o homem.&lt;br /&gt;- Não sei se deva...&lt;br /&gt;- Mas tem algum problema? É normalíssimo o patrão almoçar com a secretária. Tem de se ir habituando – insistiu o boss.&lt;br /&gt;- Mas o meu namorado pode não gostar! – tentou esquivar-se a morena.&lt;br /&gt;- O seu namorado nem precisa de saber! E pode ser um almoço profissional, em que falamos de assuntos de serviço. Isso vai acontecer muitas vezes. – teimou o Jorge – E eu faço questão!&lt;br /&gt;- Se o senhor Mei...&lt;br /&gt;- Jorge! Só Jorge!&lt;br /&gt;- Se o Jorge insiste...&lt;br /&gt;- Está a ver como é inteligente? – disse o Meireles com um sorriso triunfante.&lt;br /&gt;- Posso retirar-me agora para começar a fazer os telefonemas? – perguntou ela.&lt;br /&gt;- Sim, Cátia! Embora seja um prazer estar aqui e poder olhar para si. – galanteou o homem – Mas vá então começar a fazer as ligações. Quando precisar de si, eu chamo-a.&lt;br /&gt;- Então, com a sua licença – e a rapariga rodopiou e saiu.&lt;br /&gt;E o Jorge Meireles pensou com os seus botões:&lt;br /&gt;- És muito boa, filha! Hei-de papar-te todinha! E não vai demorar muito, pois senão vais para o olho da rua quando acabar o contrato. E o teu namorado até deve ficar mais bonito adornado com um par de cornos.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-114934051117199127?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/114934051117199127/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=114934051117199127' title='39 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/114934051117199127'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/114934051117199127'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/06/dilogos-de-gente-xv-o-engatato-parte-i.html' title='Diálogos de gente (XV) (O engatatão) (parte I)'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>39</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-114893578828972339</id><published>2006-05-29T21:46:00.000+01:00</published><updated>2006-05-29T21:56:55.666+01:00</updated><title type='text'>Está calor!</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Está calor!&lt;br /&gt;Muito calor!&lt;br /&gt;E eu não gosto do calor!&lt;br /&gt;Sinto-me no inferno, a respirar pior, a transpirar demais.&lt;br /&gt;Sinto-me um torresmo, não sou mais o mesmo.&lt;br /&gt;Estas temperaturas me embrutecem e entorpecem.&lt;br /&gt;Não sei o que escrever nem o que dizer&lt;br /&gt;Porque fico dormente e ensonado.&lt;br /&gt;Por isso, deixo aqui este desabafo.&lt;br /&gt;Mas digo mais, em tom de sabedor:&lt;br /&gt;As grandes civilizações nasceram em climas frios ou temperados.&lt;br /&gt;Não foi nos desertos nem nas florestas de lianas.&lt;br /&gt;Como gostaria de estar agora nas tundras siberianas!&lt;br /&gt;Frio, agasalhos, alvura muita e alguma cor.&lt;br /&gt;Está calor!&lt;br /&gt;Muito calor!&lt;br /&gt;E eu não gosto do calor!&lt;br /&gt;Venham refrescar-me o corpo e as ideias.&lt;br /&gt;Venham banhar-me em águas frias para eu renascer.&lt;br /&gt;Venham depressa, antes que carbonize e me transforme em tição.&lt;br /&gt;Venham dar-me de novo inspiração.&lt;br /&gt;Venham libertar-me deste cárcere letal.&lt;br /&gt;Atroz.&lt;br /&gt;Feroz.&lt;br /&gt;Que não me deixa ser.&lt;br /&gt;Venham ajudar-me.&lt;br /&gt;Socorro!&lt;br /&gt;Senão eu morro.&lt;br /&gt;Mas não apaguem o fogo interno que há em mim.&lt;br /&gt;Porque então seria mesmo o fim.&lt;br /&gt;Está calor!&lt;br /&gt;Muito calor!&lt;br /&gt;E eu não gosto do calor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(peço desculpa por este texto que não sei se é um aborto, um nado-morto ou um poema torto)&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/10684140-114893578828972339?l=eusoulouco.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eusoulouco.blogspot.com/feeds/114893578828972339/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=10684140&amp;postID=114893578828972339' title='38 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/114893578828972339'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/10684140/posts/default/114893578828972339'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eusoulouco.blogspot.com/2006/05/est-calor.html' title='Está calor!'/><author><name>António</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03314870115644805735</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://3.bp.blogspot.com/_7080yISxA4o/SaQIGJ7sYEI/AAAAAAAAAEs/URgtPM3KB3g/S220/CD+JUL+08+001.JPG'/></author><thr:total>38</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-10684140.post-114847588238089626</id><published>2006-05-24T13:58:00.000+01:00</published><updated>2006-08-05T21:31:01.596+01:00</updated><title type='text'>Diálogos de gente (XIV) (As "tias")</title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Tarde de sol, mas não muito calor.&lt;br /&gt;Numa esplanada de Cascais, junto do mar, acabam de se sentar duas velhas amigas.&lt;br /&gt;Leonor Telles de Menezes, também conhecida por Nocas, de 57 anos, e Cláudia de Saavedra e Lencastre, a Quicas, três anos mais nova. Ambas casadas e sem ocupação que lhes seja conhecida.&lt;br /&gt;- Garçon! Por favor! Queria dois cafés. Um normal e outro curto. Quer um curto, não quer querida? – disse a Leonor.&lt;br /&gt;- Sim, filha! Se for café quero curto! Se for outra coisa...bom! Você percebe! – respondeu, maliciosamente, a Cláudia.&lt;br /&gt;- Então é isso mesmo, garçon.&lt;br /&gt;E continuou a mais velha:&lt;br /&gt;- Que conta, minha querida! Quando me convida para sair é porque há fofoca – perguntou a Leonor.&lt;br /&gt;- Pois há! Sabe que coloquei um piercing vaginal? – revelou, baixinho, a mais nova.&lt;br /
