Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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quarta-feira, fevereiro 15, 2006

O viúvo - parte XV

O José Luís passou a manhã desassossegado.
O enigma que ficara no ar deixara-o preocupado e inquieto.
Depois de almoçar frugalmente voltou para casa bem antes das duas horas. Não queria que a Rosa o visse a entrar em casa da vizinha.
Assim, quando tocou na campaínha eram duas menos um quarto. Ninguém respondeu ou abriu a porta.
- Será que saiu e ainda não voltou? – pensou, nervoso.
Tocou novamente.
Desta vez ouviu um ruído e a porta abriu-se.
- Olá, Zé Luís! – disse a mulher, com a sensação de que aquela forma amistosa de o chamar não ligava muito bem com o que soubera na noite anterior.
- Olá, Cris! – e entrou.
- Anda sentar-te aqui na sala – orientou a jovem mulher.
E ela sentou-se num sofá e indicou-lhe o outro. Cris tinha ocupado propositadamente o maior com roupa e outra tralha.
- Então diz-me lá o que se passa! Estou em pulgas – pediu o homem de meia-idade.
- Tu conheceste alguma mulher da tua idade, em Luanda, chamada Laura? Maria Laura Marques – perguntou.
O Novais pensou só uns segundos, olhou para ela, e disse:
- Laura? Sim, conheci. Mas relativamente mal.
- É a minha mãe! – disse a morena com os olhos muito brilhantes.
- Meu Deus! Como o mundo é pequeno – exclamou o Zé.
- E tiveste relações com ela, não tiveste? – perguntou ela.
- Como sabes? Foi a tua mãe quem to disse? – espantou-se o Novais.
- Claro! Eu ainda não era nascida. Nasci nove meses depois – disse a vizinha intencionalmente.
- Mas...por amor de Deus! Não me digas...não pode ser! – gaguejou o homem, apanhado de imprevisto.
- Não há a certeza!
- Bom! – e largou um profundo suspiro, o Zé.
- Mas ainda há essa possibilidade.
- Mau! Não me deixes nesta angústia, por favor! Diz tudo! – disse o Zé já num tom um pouco agressivo.
E a Maria Cristina contou-lhe tudo o que a mãe lhe tinha dito na véspera.
O Zé, conforme ía ouvindo, ía-se remexendo no sofá e pediu mesmo um cigarro à mulher.
Acabada a narrativa, ela disse:
- Portanto, para acabar com as dúvidas, temos de fazer um teste de ADN para determinar se és ou não o meu pai.
- Pois! Pois claro! – balbuciou o homem
E acrescentou:
- Mas que puta de vida! Que mais me irá acontecer! – e já não suspirava, antes bufava.
- Tem calma, Zé! – disse ela – queres um calmante?
- Não, não é preciso...
- Queres tratar disso? Depois dizes-me em que dia se faz o exame, ok? – perguntou a angolana.
- Vou já tratar disso! – disse o Zé, levantando-se.
E acrescentou:
- É melhor não nos vermos mais, até se saber o resultado.
- Ó Zé! Vamos lá pensar: se fores o meu pai, o que aconteceu é para esquecer e ficas a ter uma filha que nunca tiveste; se não fores, não há problema de maior. Se pensares assim ficas mais calmo. Mas acabaram os contactos íntimos, evidentemente. – aconselhou a rapariga.
- Tens razão! Olha, vou já tratar do assunto. Sabes onde se fazem os exames?
- Não! Mas podes telefonar para o Centro de Saúde que te devem dizer – disse a mulher que estava mais calma e conseguia raciocinar melhor.
- Pois! Vou mesmo lá! Eu depois telefono-te – deu um beijo na face da vizinha e saiu.
Pouco depois saiu a morena para se dirigir ao trabalho.
Eram cerca das cinco da tarde quando o celular de Cris tocou:
- Sim?
- Sou eu, Cristina! Já marquei a colheita para amanhã de manhã – disse o Novais.
- A que horas e onde? – perguntou ela.
- Às nove horas, em jejum, no Instituto de Genética junto ao Hospital Maria Pia – esclareceu o homem.
- Está bem! – disse a vizinha – mas não sei muito bem onde é.
- Se quiseres dou-te uma boleia – sugeriu ele.
- Muito bem! Saímos de casa às oito e meia? – quis saber a mulher.
- É melhor sair às oito. Mais vale chegar adiantado do que atrasado – insistiu o Zé.
- Eu acho que é cedo demais, mas se tu queres, tudo bem! – conformou-se ela.
- Então às oito eu toco à tua campaínha. Ah! Parece que só passado cerca de um mês é que dizem o resultado – informou o viúvo.
- É tão demorado? – foi agora a vez de a Cristina se mostrar impaciente – pensei que fosse mais rápido.
- Pois é! Temos de viver angustiados durante um mês – disse ele, desanimado.
- Pronto! Está combinado! Agora vou trabalhar senão a Lena ainda me põe na rua – brincou ela para camuflar o seu verdadeiro estado de espírito.
- Então adeus e até amanhã – concluiu o homem.
E desligou.
De imediato, a funcionária da agência de viagens telefonou para a mãe.
- És tu, mãe? Sou a Cristina!
- Sou eu, sou! Que se passa? – perguntou a viúva.
- É para te dizer que amanhã já vamos os dois fazer o teste – e não especificou para evitar ser ouvida por terceiros.
- Ainda bem! E quando se sabe o resultado? – quis saber a Laura.
- Demora bastante tempo. Um mês! – esclareceu a filha.
- Tanto tempo? Não haverá um processo de pedir com mais urgência? – disse a mais velha, demonstrando assim que também estava tomada de ansiedade.
- Oh mãe! Se isso fosse possível podes ter a certeza de que o Zé teria pedido uma análise urgente – ripostou a filha.
- Tens razão! Mas agora, ao fim destes anos todos, sinto-me diferente e estou ansiosa por saber o resultado – justificou-se a progenitora.
- Pois vais ter de aguentar! Também quem esperou trinta e cinco anos pode esperar mais um mês, não é? – ironizou a filha.
- Ora! Deixa-te disso! – disse a mãe com um tom pouco amistoso.
- Tens razão! Desculpa a piada de mau gosto.
E concluiu:
- Pronto, mãe. Agora vou trabalhar senão a minha amiga Maria Helena ainda me despede. Adeus. Um beijinho.
- Adeus, minha filha! – e a mãe desligou.
Passados uns momentos saiu uma cliente e a Cris dirigiu-se à amiga:
- Oh Lena! Amanhã vou ter de vir outra vez mais tarde. Tu desculpa-me eu ter começado a trabalhar e estar a faltar de uma maneira inadmissível. Mas é uma questão da maior importância para mim e para a minha mãe. Agora não te posso dizer nada. Talvez um dia...Olha! São coisas da vida!
- Não te preocupes. Eu já percebi que anda qualquer coisa no ar. Mas não te preocupes porque estamos no final de Setembro e há menos que fazer. Eu tenho dado conta do recado e tu tens aprendido com muita facilidade. Aliás, conhecendo-te como conheço, não me admiro nada – rematou a dona da agência.
Nessa noite, a Laura, o José Novais e a Cristina dormiram cada um em sua casa. Sozinhos. Mas todos adormeceram a pensar no mesmo assunto.

30 Comments:

Anonymous Maria Papoila said...

António, gostei do episódio, como sempre. Ainda estou arir com aqueles três a adormecer a pensar no mesmo... principalmente na facilidade em adormecer...eheheheh!
E tu, estás melhor? Beijo

7:50 da tarde  
Blogger Paula Raposo said...

E não é caso para menos, todos a pensarem no mesmo! Gostei deste episódio. Beijinhos para ti.

7:57 da tarde  
Blogger Leonor C.(nokinhas) said...

Será que adormeceram?...Tomara já que o teste esteja pronto!

Obrigada pela tua visita. Aquele acontecimento foi há vinte e nove anos mas deixou marcas, como deves calcular.

Beijinhos

8:41 da tarde  
Blogger Su said...

opsss até eu vou dormir em minha casa, sozinha e vou pensar no assunto...ai ai o que és capazde fazer com a tua escrita:)))))

jocas maradas

9:12 da tarde  
Blogger The Woman +K(P) said...

Bommm mais um impasse...
Aguardemos...
jinhos estou a gostar, sem duvida.

9:15 da tarde  
Blogger pinky said...

1 mês? tanto tempo? fogeeeeee ! e um mês na blogoesfera corresponde a quantos dias? 1 mês= 1 dia? cooooooooool, isso quer dizer que a resposta saí já amanhã verdade? hahahhaha eu sei eu sei...dream on!

10:43 da tarde  
Anonymous GR said...

Cada vez desperta mais interesse!
Um mês???!!!
Com uma cunhazita, podia ser mais rápido!
Até eu senti a ansiedade do Zé Luís!
Coitado!
Terrível situação!
Gostei do último parágrafo!

ADORO esta história!

Bj

GR

11:18 da tarde  
Blogger António said...

Para "GR":
Pois é verdade!
Os resultados de um teste de ADN só são entregues um mês depois da colheita.
Tive de inquirir isto junto de uma distinta clínica e bloguista para não ser apanhado com o pé na poça.
Estou a ficar um profissionalão...ah ah ah

Beijinhos

11:37 da tarde  
Blogger MT said...

O Zé não é concerteza cardiaco, porque senão com toda esta agitação já tinha tido um pequeno precalço.
Continuo a gostar

Beijinhos

11:49 da tarde  
Blogger Xuinha Foguetão said...

Ora bem!

Que grande enredo!

Sim sr.

Fico à espera do próximo.

Venha ele.

Beijos

10:26 da manhã  
Blogger wind said...

Situação complicada para o Zé que na eventualida de ter cometido incesto, gosta da " filha".esperar 1 mês vai ser agonizante! Esperemos que o Zé não seja o pai:) beijos

11:58 da manhã  
Blogger hodiguitria said...

Isto está digno de um Hitchcok! Espero que o Zé seja o pai da Cris, ehhehehe - só para complicar um bocadinho mais! :)

12:55 da tarde  
Blogger Mitsou said...

Bom, estou em dia, António.
Agora é esperar pelo resultado do teste :) Mas não demores muito, ok?

Beijinhos, amigo, e um óptimo fim-de-semana

5:17 da tarde  
Blogger Zica Cabral said...

adorei este episodio e fica em "pulgas" para saber mais da saga do Zé Luis e sus muchachas............Deixaste-me em supense e isso é uma arte tb.......
beijinhos grs
Zica

9:25 da tarde  
Blogger pinky said...

tens um desafio á tua espera no pink, se te apetecer, é claro, parece-me não ser bem a "tua onda", mas lá ficou, para se te apetecer.
bjkas e bom fim de semana!

2:14 da manhã  
Blogger Lumife said...

Sempre leitura de interesse.

Bom fim de semana.

4:13 da tarde  
Blogger sonamaia said...

E a teia está cada vez maior e o suspense está instalado..Será, não será??? Devias dedicar-te a escrever policiais!! Tens jeito!! Se pudesse ia espreitar o final, mas não posso, não é?? Publica o resto e não faças esperar mais os teus leitores assíduos!!

Beijinhos

4:58 da tarde  
Blogger António said...

Para "sonamaia":
Obrigado pela tua visita.
Devo dizer-te que poderia inventar mais uma complicação qualquer e prolongar por mais umas semanas esta história.
Mas acho que está chegado o momento de a terminar.
Mais três (ou quatro) episódios e será o fim!
Depois farei um interregno nas histórias por fascículos.
E um dia voltarei com uma outra.
Espero!

Beijinhos

6:41 da tarde  
Blogger Malae said...

Querido António! Aqui estou eu de novo de volta, O tempo continua a escassear, mas tudo se continua a compor.

Confesso que tenho vindo espreitar para colocar a leitura em dia e estou a adorar este "Víuvo". Extraordinária a tua escrita, a tua capacidade de criares enredos, de desenvolveres a estória, de dares forma às tuas personagens.

Tens evoluido na construção das tuas estórias. Estás cada vez mais esmerado nas tuas criações. E especialista em agarrar os teus leitores.

Espero que "esse mês" necessário passe rápido. Deixas aqui um belo dilema. Mas não sei porquê acho que se eles fossem pai e filha seria uma boa maneira de demonstrar que a verdade deve ser exposta porque aparece sempre. Mas não sei se vejo o Zé com a Rosa.

Bem, já me estou a "meter" na tua escrita!

É sempre um prazer ler-te! E passado um ano, desde que te acompanho, a verdade é que te manténs fiel a ti mesmo, cada vez mais apurado e capaz, sempre, de suspreender!

Desculpa o testamento! =)

Beijinhos amigos,
Malae

PS: É verdade: uma amiga minha que trabalha no Destak, faz uma coluna onde divulga alguns blogs. Dás-me autorização para lhe falar do teu a ver se ela o coloca lá? Acho que era um destaque mais que merecido!********

11:40 da tarde  
Anonymous GR said...

António,

Até nem costumo a meter-me na conversa!
Mas diz sim à Malae, melhor que ninguém, a tua amiga sabe que tu escreves bem!
Se ela o diz!!! Não há que duvidar!
“Ilha Lorosae” é um blog belíssimo, com textos por vezes nostálgicos, terminando sempre com palavras de esperança.
Depois o Destak, é lido (gratuitamente), por um grande número de pessoas de todas as idades! Até colocar uma das tuas crónicas!!! Porque não! Para já é execelente, mencionar o nome do blog! Depois…
Anda lá, qualquer dia estão a pedir-te para editares. O livro!
Já tens material! Poderia ser as crónicas, as histórias, cujo título seria “Eu sou louco!”
É desta vez!

Peço desculpa, a ti e à Malae, por esta minha intromissão.

Bom fim-de-semana,
Um beijinho para os dois,

GR

1:29 da manhã  
Blogger lena said...

Excelente como consegues dar a volta,
e como cada vez te encontro mais seguro na forma como escreves esta estória
O meu apelo continua : tenta publicar meu amigo

Vamos aos personagens, a Cris já deves ter percebido é das minhas personagens preferidas, muito forte, convicta e determinada, embora desde sempre o Zé Luis seja um personagem especial, para mim, esse quase que se me cruzar mas ruas, certamente que o reconheço,
Adorei a frontalidade da Cris e a prontidão do Zé em querer ser mesmo ele a tratar de tudo
Agora espero 1 mês, tanto tempo, para ter a certeza que ele não será o pai da Cris, não penses que isso me repugna, afinal quantos casos não há assim, em que a “guerra” separou e mais tarde a vida os juntou sem saber quem é quem, aconteceu e certamente que se for filha, o Zé vai ultrapassar bem a situação e é algo muito dele que vai receber com um amor verdadeiro
Mal passada a noite dos três, faço idéia quantos voltas não deram na cama, eu bem tentei espreitar mas as portas estavam fechadas, eh eh eh
Não ligues muito às minhas brincadeiras já te disse que vivo com os personagem, só assim consigo prender-me ao que vou lendo

E tu tens esse essa, maneira tão especial que vais desvendando cada pormenor com tanto entusiasmo que é difícil ficar indiferente ao que se vai lendo

Continuo a adorar, não me deixeis é um mês à espera do resultado, embora saiba que na realidade é assim.

Aqui tudo passa mais rapidinho meu amigo, eu sei disso, estava só uma vez mais a brincar

Fica com um beijo meu e um bom fim de semana

lena

12:02 da tarde  
Blogger António said...

Para "GR":
Obrigado pelo empurrão.
Já pedi à Malae para falar no meu blog à amiga que trabalha no Destak.

Beijinhos

2:37 da tarde  
Blogger Heloisa B.P said...

CARO ANTONIO*,
Atrasada, mas, ca' estou!_Nao suponha o "Atraso", como falta de Interesse_NAO!_NAO E'_!
O ENREDO continua prendendo e, agora deixa-nos Suspensos nesta espera!...
Nao me vou repetir, nas minhas apreciacoes, porque me tornaria monotona!
AGRADECO, DE CORACAO, SUAS VISITAS E SUAS PALAVRAS!
UM ABRACO!
VOLTAREI, mal possa!!!!!!!
TENHA UM AGRADAVEL FIM DE SEMANA!
Heloisa.
**************

6:00 da tarde  
Blogger Betty Branco Martins said...

Querido António

Bom! não sei se conseguiram dormir!!! mas motivo para tirar o sono, lá têm!!! coitado do viuvinho que não tem descanso!

Estou a adorar a tua história :)

Sempre a tua "riqueza" em pormenores.

Beijinhos

6:25 da tarde  
Blogger {-Sutra-} said...

Cá continuo a seguir as peripécias do Novais.

Bom fim de semana

Beijo doce

7:47 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

se por acaso ele é o pai dela o que aconteceu nao se esquece nunca.

entretanto andam um mês a penar ansiosos à espera do resultado.

lembras-te do "simplesmente maria"? eu era pequena, sete ou oito anos, mas acompanhava o episodio com a minha mãe como se aquilo fosse tudo verdade... rssss

abraço da leonoreta

8:47 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

pois de facto nao publiquei nada hoje como geralmente faço todos os sabados.

fi-lo propositadamente.

é que amanha o ex improviso faz um ano. e sendo assim... publico amanha.

abraço da leonor

10:36 da tarde  
Blogger lazuli said...

Este suspense mata-me...
Continua.
Beijos

11:36 da tarde  
Blogger Luís Monteiro da Cunha said...

Pudera...
E não haviam mesmo de pensar em quê?...lol

E não devem ter tido lá muitos bons sonhos....


Abraço

11:55 da tarde  
Blogger margusta said...

Querido António ,
...aqui estou para começar a pôr a leitura em dia...
Sou malandrinha :)) já esptreitei o final...

Dificil aguentar um mês naquela ansiedade...a Cristina aparenta uma falsa calma.

Beijinhos e até já

1:36 da manhã  

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