Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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terça-feira, março 06, 2007

Até já!

Devido aos problemas cada vez mais acentuados que o upgrade que fiz a este blog tem provocado, atingiu-se um ponto em que não é mais possível continuar a trabalhar aqui.
Em consequência, este é o post derradeiro.
Mas não é a despedida.
Este “Eu sou louco!” no Blogger vai aqui continuar à disposição de quem quiser ler, ou mesmo comentar, o seu conteúdo.

E como para grandes males, grandes remédios, criei dois novos blogs no Sapo:

O “Eu sou louco!” em que irei colocando progressivamente todos os textos que aqui estão, mantendo inclusivamente a data do original. Os comentários, naturalmente, não poderão ser levados para o clone.
O seu endereço é:

http://eusoulouco.blogs.sapo.pt

O “Eu sou louco! (II)” em que colocarei on-line todos os novos textos.
O endereço é:

http://eusoulouco2.blogs.sapo.pt/

Portanto, não estou aqui a dizer Adeus!...mas Até já!

Não é por morrer uma andorinha que acaba a primavera.

sexta-feira, março 02, 2007

Histórias curtas XI - O mundo visto duma janela

A D. Maria da Conceição, operária reformada e viúva, vivia sozinha no terceiro andar de um velho prédio de uma das ruas tortuosas e estreitas da degradada zona histórica da cidade.
Tinha sessenta anos, era gorda e usava os cabelos, já quasi todos brancos, apanhados formando um puxo. Ficara sem o seu Manuel, companheiro de tantos anos, havia cinco. Com a sua reforma e a pensão de viuvez tinha o suficiente para ela.
Os três filhos, dois rapazes e uma rapariga, estavam todos casados.
Eles tinham ido para o estrangeiro e estavam bem na vida. Ainda lhe mandavam algum dinheirinho que lhe permitia fazer umas extravagâncias. Gostava sobretudo de ir ao cinema, mas também via telenovelas e filmes na TV, e ía numas excursões domingueiras de tempos a tempos.
A filha, mais nova, vivia perto dela e visitava-a uma ou duas vezes por semana.
Quando jovem, a São fora uma moça bonita e com um corpinho bem feito, mas o passar dos anos tinham feito dela uma mulher anafada e envelhecida, aparentando ter mais anos de vida do que o inscrito no Bilhete de Identidade.
Desde sempre fora muito coscuvilheira e, com o passar dos anos, esse hábito acabara tornando-se quasi um vício.
Muitas vezes, enquanto ía vendo as telenovelas preferidas, levantava-se para ir à janela da cozinha ver o que se passava na rua e, sobretudo, nas habitações dos vizinhos que moravam no prédio que ficava mesmo em frente ao dela. Era fácil ver e ouvir, tão curta era a distância.
Ao seu nível, portanto no terceiro andar, vivia a Sandrinha, cujos pais tinham morrido num desastre de automóvel. Tinha uns vinte e muitos anos e trabalhava nas limpezas. Mas a D. São podia apreciar que quasi todas as noites recebia uma ou duas visitas masculinas.
- Enfim! A vida está má e é preciso comer e vestir – costumava dizer à sua vizinha do lado, a D. Idalina, que vivia com o seu João, ambos reformados.
De cada apartamento dos que ela espiava, talvez inspirada no filme “A janela indiscreta” do Hitchcock, via duas janelas. Uma da cozinha e outra de um quarto. Os restantes compartimentos, ou não tinham luz directa ou davam para as traseiras.
Ao lado da Sandra vivia um casal de meia-idade com um filho ainda novo mas, dessa família Ferreira não conseguia recolher muitos elementos para depois contar às amigas ou guardar para si e fazer as suas elucubrações.
No segundo andar morava um homem, na casa dos trinta, que lá vivera com os avós e mais tarde com a mulher e um filho. Mas tanta pancada o Anselmo dera à Cristina e ao pequeno David que, poucos meses antes, ela debandara com o catraio deixando o homem a dar murros nas mesas e nas paredes quando estava mais bem bebido.
A São ainda chamou a polícia uma vez mas, na presença das autoridades, a mulher disse que não senhor, que ele era um bom marido e um bom pai. Perante essa atitude decidiu não mais “entre marido e mulher meter a colher”.
Ao lado vivia um sujeito que para lá fora há cerca de uma semana, depois da morte da velha Deolinda, uma senhora de provecta idade. Nem sequer sabia ao certo o nome do homem mas, como era alto e magro e vestia sempre de preto, ela alcunhou-o de Drácula.
No primeiro andar já não conseguia ver bem o que se passava, mas num lado vivia a sua parceira de mexericos, também viúva e reformada, a Nazaré, e no outro um casal de velhotes que, desde sempre, tinha sido muito recatado e não dava confiança aos vizinhos. Eram os Moreira que, de vez em quando íam passar uma temporada com um dos seus quatro filhos. Não precisavam daquela casa, mas não queriam deixá-la de tão baixa que era a renda.
No rés-do-chão havia um armazém que estava quasi sempre fechado.
A São, que tinha já dificuldade em descer as escadas de madeira e, sobretudo, em as subir, poucas vezes ía à rua. Três ou quatro saídas por semana para fazer compras. Mas vingava-se e falava com toda a gente procurando novidades e contando o que de novo tinha sabido.
Uma vez por mês ía ao cinema, normalmente com a vizinha Idalina e o João mas fazia questão de pagar os bilhetes e o lanche. Era uma espécie de recompensa pelas vezes que o homem, que se mexia bem, ía às compras e lhe trazia umas coisas que ela lhe pedia.

Uma noite, estava a velha solitária a cocar para dentro da casa do Drácula, e viu pela primeira vez uma jovenzinha, talvez com uns catorze anos.
Quem seria?
Era a altura de descobrir mais: quem era o Drácula?
No dia seguinte foi fazer umas compras e quando regressava viu a Nazaré a sair do prédio que ela, diligentemente, vigiava.
- Olá, vizinha! – saudou a Conceição – então como tem passado?
- Cá se vai andando! As dores nas costas é que dão cabo de mim. De resto, só tenho a tensão alta, o colesterol alto e a figadeira de vez em quando avaria. Para uma velha como eu bem que podia ser pior.
- Assim é que é falar, vizinha! Antes viva com doença do que morta com saúde. – e riu-se a São – Era o que dizia o meu defunto.
- Não me fale em defunto! O pior de todos os meus males é a falta que sinto do meu falecido homem – queixou-se a Nazaré.
- A quem o diz! A quem o diz! Isto sem o meu Manel não tem a mesma graça.
E emendou logo:
- Por falar em graça! Agora tem aí uma miudinha a viver na casa do Drácula. É filha dele?
- De quem? Ahh...do Sr. Azevedo...
- Veja lá como eu ando! O homem está cá há oito dias e eu nem sabia que se chamava Azevedo; por isso pus-lhe a alcunha de Drácula. Mas a miúda é filha dele? – insistiu.
- A Sandrinha disse-me que sim...
- Humm...a Sandrinha já anda a ver se arranja um novo cliente. Mas a rapariguinha não tem mãe? – perguntou a Conceição.
- Parece que a Vanessa...
- Ai a pequena chama-se Vanessa! Bonito nome, por acaso! E tem uns catorze anos, não? Mas continue. Eu estou sempre a interromper. Sabe o que é, lá em casa não tenho com quem falar e quando apanho alguém tenho de desenferrujar a língua. Mas conte! Conte!
A outra riu-se e recomeçou:
- Parece que a Vanessa vivia com a mãe, mas esta foi passar uma temporada para a cadeia, de forma que a mocinha veio para aqui com o pai. Ahh! Tem catorze, sim senhora! A vizinha tem boa pontaria! – e riu-se de novo.
- E ele faz o quê? – quis saber a viúva do terceiro andar.
- Não me diga que não sabe! Trabalha para um cangalheiro. É por isso que anda sempre de preto.
- Ahh...deve ser a farda! – e riu-se a São. Tenho de vir mais vezes à rua. Veja lá como eu ando desactualizada. E que é que fez a mãe?
- Isso não sei! Mas a Sandrinha pode descobrir.
- Claro! – corroborou a São – Mete-o na cama e o gajo cospe tudo cá para fora.
E riram-se ambas,
- Olhe vizinha! Quando souber novidades toque-me à campaínha que quando eu sair à rua venho aqui falar consigo. Agora vou para a parte mais difícil. Subir aquela porcaria de escadas que nunca mais acabam. E rangem todas! Qualquer dia vem tudo abaixo com o meu peso.
E soltou uma gargalhada.
- Adeus D. Nazaré!
- Adeus D. Sãozinha!

Passados dois dias apareceu lá em casa a filha, a Fátima. Era fim de tarde.
A conversa foi rápida. A mulher, com cerca de trinta anos, só queria mesmo saber como estava a velha e mostrou-se apressada:
- Hoje ainda vou fazer por aí umas visitas – avisou, justificando a pressa.
E, de facto, pouco depois saiu:
- Raios partam a rapariga! Sabia-me tão bem conversar um bocado e mal entrou pôs-se logo a bulir.
Quando, em certo momento, foi até à janela da cozinha, viu que a sua Fátima estava em casa do Anselmo com quem brincara em criança e chegara mesmo a namoriscar.
- Humm...afinal a pressa toda era para ir visitar o borrachão que batia na mulher e no filho. Espero que não avance muito com ele. Que se lembre que é casada e que o Francisco é muito bom homem – elucubrou.
Mas não tardou que aparecessem os dois no quarto e ele fosse apressado fechar as portadas da janela.
- Ai a filha da mãe que anda mesmo a pôr os cornos ao marido!
E continuou a pensar:
- Que descarada! A minha vontade era telefonar ao desgraçado para ele os apanhar em flagrante. Mas o melhor é falar com ela. Pode ser que o problema se resolva.
Cerca de meia hora depois viu a filha a sair do prédio.
Imediatamente lhe ligou para o telemóvel:
- Oh Fátima! Precisamos de falar urgentemente. Não podes vir cá acima agora?
- Oh mãe! Fica para outra vez. Estou atrasada e o Francisco hoje, apesar de vir mais tarde, já deve estar a chegar. Adeus. Beijinhos.

Nessa noite, sempre o mais escondida possível para não ser vista, observou que o Drácula Azevedo deitou a filha Vanessa na cama dele. Logo a seguir foi ele que se meteu debaixo dos lençóis. Mas logo se levantou para fechar as portadas da janela.
- Humm...a dormir com a filha de catorze anos? Isto não me está a cheirar nada bem!
No dia seguinte foi chamada pela Nazaré:
Aproveitou para ir comprar uns legumes e uma fruta e depois foi até à porta do prédio rigorosamente vigiado.
- Então, D. Nazaré! Que novidades é que tem? – perguntou.
- Já sei porque foi presa a mulher do Azevedo. Fez um assalto mais o gajo com quem andava. Foram os dois de cana e ela apanhou um ano e tal. A garota, que vivia com ela, foi entregue ao pai que arranjou aqui esta casa não muito cara.
- Muito me conta! Vamos lá ver como é que ele a trata! Não gosto da cara do tipo. Nada! Mesmo nada! – falou a São.
- A Sandrinha diz que ele parece antipático mas depois acaba por ser atraente.
- Ora! Para a Sandrinha quem lhe dá dinheiro é logo boa gente.
- A vizinha não perdoa nada! – comentou, rindo, a Nazaré.
- Olha! Vem ali a minha filha! Depois conversamos mais. Agora quero apanhar aquela! – e rangeu os dentes.
Chamou a filha e quasi que a obrigou a subir com ela ao terceiro andar.
- Então andas metida com aquele traste do Anselmo e pões os cornos a um homem a sério como o Francisco! Toma juízo rapariga! Acaba com isso depressa antes que se descubra tudo e te desgraces.
- Oh mãe! O Anselmo é o homem da minha vida. Sei que ele não é o melhor marido para mim, nem eu o quero. Só quero estar com ele às vezes. Leva-me às nuvens como o Chico nunca levou. E como só se vive uma vez, vou continuar a encontrar-me com ele – disse, de forma bem peremptória, a Fátima.
E continuaram a discutir mas a filha não cedeu!
Queria ser amante do Anselmo e pronto! Enquanto ele a quisesse estaria pronta para se lhe entregar.
Despediram-se com algum azedume que, naturalmente, se viria a dissipar no futuro.
- Toma cuidado, rapariga! – foi o último conselho da velha.

Agora, o que apoquentava a Conceição era o pai e a filha menor dormirem na mesma cama.
Foi espreitando noite após noite.
Mas o homem de preto tinha sempre o cuidado de fechar as portadas.
Foi reparando no ar triste da garota, que era bem bonitinha.
Até que uma noite mais quente, o sinistro Azevedo deixou a janela aberta e as suspeitas da São confirmaram-se.
Ele mantinha relações sexuais, provavelmente regulares, com a criança.
- Ah! Grande cabrão! Vou fazer queixa de ti! – pensou.
E no dia seguinte ligou para a Polícia Judiciária.
Contou o que sabia e o que tinha visto.
Entretanto não conseguira aguentar e, muito em segredo, dissera à amiga Nazaré o que descobrira. Nos dias seguintes ambas foram visitadas mais de uma vez por assistentes sociais. E outros vizinhos também.
Num final de manhã, passadas umas duas ou três semanas, estava a Maria da Conceição a cozinhar o almoço quando ouviu grande algazarra na rua.
Era a polícia que vinha buscar o Drácula e a filha.
E viu a Nazaré a insultar o vizinho caído em desgraça, arrastando na sua ira quasi toda a gente das redondezas. Nessa tarde não se falou noutra coisa e a São sentia-se orgulhosa do que fizera.
Quando, mais tarde, foi chamada ao tribunal, ficou a saber que não era crime o pai ter relações com a filha, mas que certamente seria condenado por pedofilia.
- Apanhei um pedófilo! – gabava-se ela, orgulhosa.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Histórias curtas X - A ruiva e o namorado

Sónia Gonçalves conhecia Gustavo Galvão desde criança.
Para falar com mais rigor, desde que foram colegas na escola primária e depois no preparatório e no secundário.
Ela foi sempre uma boa aluna, estudiosa, interessada, mas ele era um rapaz brilhante, daquelas inteligências acima da média que sabia muito mais do que aquilo que os programas e os professores exigiam.
Era também um excelente andebolista e não faltava a uma missa semanal pois era muito religioso, um católico praticante.
Além disso eram quasi vizinhos.
Eles e mais três rapazes e duas raparigas andaram sempre juntos até ao 9º ano.
Depois separaram-se, fizeram o 12º e cada um seguiu o seu curso: o Gustavo foi para Engenharia, a Sónia para Jornalismo, a Luciana para a Escola Superior de Educação, o Pedro para Direito, a Joana também para Jornalismo, e o Luís e o Carlos para Desporto.
Os namoricos que até aí houvera tinham sido mais brincadeiras de adolescentes do que relações consistentes e sérias.
Mas agora, na fase terminal dos seus cursos, mais crescidos e maduros, Luís e Joana bem como Pedro e Luciana andavam envolvidos numa relação bem intensa.
Sónia sempre tivera um fraquinho por Gustavo e tentava demonstrá-lo com insistência, até que atingiu o seu intento conseguindo que o rapaz lhe pedisse namoro. Mas, em matéria de sexualidade, ele sempre dissera que queria ir virgem para o casamento e não queria ter qualquer tipo de sexualidade com a amiga de infância antes do matrimónio.
A rapariga, magra mas elegante, com uns cabelos ruivos que condiziam muito bem com as sardas que tinha na cara e no resto do corpo, por vezes lamentava-se ao rapaz das opções dele. Mas o Gustavo era inflexível.
- É pecado! Por isso gasto as minhas energias no desporto.
De vez em quando também se lamuriava com as amigas.
- Mas gosto dele o suficiente para não discutir as suas ideias. Respeito-as e mantenho-me casta sem grande sacrifício. Lá virá o dia em que vou tirar a barriga de misérias - dizia.
O Gustavo, alto e espadaúdo, cabelo cortado muito curto, tez um pouco morena e olhos castanhos, estava agora no último ano do curso.
Já dava aulas e preparava-se para seguir a carreira de docente universitário; eventualmente criar uma empresa de projecto para ter sempre contacto com a vida prática e tentar ganhar mais dinheiro.
Ele era filho único ao contrário dela que tinha mais duas irmãs. Parecidas, todas elas. Tinham puxado à mãe.

Mas, um dia, seriam umas sete da tarde, o telemóvel da Sónia tocou:
- És tu, Joana?
- Sou! Estás bem?
- Sempre, felizmente! – respondeu a namorada de Gustavo.
- Olha! Preciso de falar urgentemente contigo – surpreendeu a também estudante de Jornalismo.
- Urgentemente? Então porque não me dizes já o que tens a dizer?
- Porque quero fazê-lo pessoalmente – disse, com firmeza, a Joana.
- Estás a deixar-me intrigada. Há alguma coisa grave? – perguntou a Sony.
- É relativamente grave mas não te preocupes pois não morreu ninguém nem vai morrer e nem sequer é um caso de doença – procurou sossegar a amiga.
- Mas então não podes mesmo dizer nada? Nem uma dica?
- Nada de nada! Encontramo-nos logo, depois de jantar, no café em frente dos Bombeiros. Não faltes, ok? – voltou a Joana a ser incisiva.
- Pronto! Pronto! Eu estou lá por volta das nove horas. Agora deixaste-me ansiosa.
- Está combinado minha querida! Logo te conto. Xau! – despediu-se a amiga, misteriosa como nunca o fora.
Às nove horas da noite já a Sónia estava sentada numa mesa saboreando um café e um cigarro, coisa que só fazia raramente pois não era do agrado do Gustavo.
- Olá!
Olhou para cima e viu a Joana a despir um casacão e depois a sentar-se junto dela.
Antes de começar a falar deu um beijo à amiga e pediu um café.
- Olha, Sónia! – começou num tom solene.
A outra olhava-a atentamente.
- O que vais ouvir não te vai agradar nada. Mas eu não posso deixar de to dizer.
- Diz! – ordenou a jovem sardenta.
- Hoje à tarde vi o Gustavo e o Carlos a entrarem juntos para uma residencial. Não tenho a certeza absoluta, mas tudo me leva a pensar que eles tem uma relação homossexual – arrasou a Joana.
A amiga nada respondeu; ficou estática, olhar fixo na amiga mas de sobrolho franzido.
E foi a morena quem continuou:
- Depois disso estive a pensar em toda aquela religiosidade e desejo de se manter casto do teu homem. Sempre me pareceu um exagero mas cada um tem os seus princípios, e como ele teve ou tem, não me lembro ao certo, dois padres na família, não me levantou suspeitas.
- Mas tu tens a certeza? – interrompeu a namorada traída.
- Que os vi entrar juntos, isso vi. Mas só isso! Na minha opinião acho que se deve tirar tudo a limpo. Mas tu é que és a namorada dele e, um dia mais tarde, serás a sua esposa. Acho que deves saber com quem andas antes de te comprometeres mais – continuou a dissertar a morena.
- Pois é! Até estou atordoada. Neste momento não sei o que fazer. Tenho de dormir sobre o assunto e deixar que tudo seja mais claro na minha cabeça.
- Oh Sónia! Tu desculpa ter falado nisto, mas achei que esta era a única forma correcta de agir.
- Fizeste bem! Agora vou-me deitar.
- Ainda não falaste com o Gustavo? Nem por telefone? – interrogou a namorada do Luís.
- Não! Nem quero falar! – e desligou o celular.
- Vou perguntar ao Luís se o Carlos tem alguma namorada – pensou, em voz alta, a Joana.
- Pode não ter, mas já teve relações com mulheres. Eu sei de uma que já foi com ele para a cama – afirmou a sardenta.
- Então é capaz de ser bi.
- Pois é! Olha! Vou-me embora! Depois falamos, está bem? – e a Sony levantou-se, beijou a amiga, pagou ao balcão os dois cafés e saiu.

Deitada na cama, luz apagada e olhos molhados, a jovem ruiva começou a rever o filme da sua vida com o grande amigo, agora namorado, que a tinha desde sempre fascinado pela sua figura e inteligência. E lembrou que sempre que ela tentara aproximações ele reagira sempre da mesma forma: rejeitando todo e qualquer avanço.
E lembrou-se ter lido numa qualquer revista que o actor americano Rock Hudson só assumiu a sua homossexualidade poucas semanas antes de morrer com sida e que, para evitar que se falasse dele, fizera um casamento de conveniência com uma rapariga que, aliás, durou pouco tempo. A jovem sentiu-se como a cortina que era usada para tapar o outro lado da vida do seu querido Gustavo.
Tinha de o confrontar com o facto!
De supetão!
Não só para ouvir o que ele tinha para dizer como para ver as suas reacções.
E fá-lo-ía com a maior brevidade possível. Não queria viver situações falsas.

No dia seguinte, logo que acordou após uma noite mal dormida, ligou o celular e pouco depois entraram várias mensagens. Duas eram do Gustavo.
Lavou a cara e a boca para despertar melhor e ligou para ele que atendeu logo de seguida.
- Olá, Sony! Que te aconteceu ontem à noite que liguei várias vezes e deixei duas sms’s? E depois ainda fui a tua casa mas disseram-me que estavas cansada e tinhas ido dormir – falou o jovem.
- E é verdade! Estava cansada e doía-me a cabeça. Não estava disposta para conversas.
- E hoje estás bem?
- Acho que sim! Vamos encontrar-nos hoje? – perguntou ela.
- Podemos ir almoçar juntos. Eu passo pela tua escola à uma, serve?
- Humm...está bem!
- Então até logo e as melhoras! Beijinhos! – disse o rapaz.
- Beijinhos para ti, também! – respondeu a moça.
À hora de almoço, a Sónia saiu do edifício escolar e logo viu o carro vermelho do namorado. Dirigiu-se a ele, entrou, beijou os lábios do Gustavo e este arrancou só parando no parque de estacionamento de um restaurante.
- Gustavo! Não saias já! Quero esclarecer umas coisas contigo – disse ela, com uma voz diferente do habitual.
O quasi engenheiro notou isso e aquiesceu:
- Estão diz o que tens a dizer!
- Gustavo! Tenho fortes suspeitas de que tu sejas homossexual, andes com um homem, um pelo menos, e me estejas a usar como máscara de hetero. Quero que me respondas com toda a sinceridade. Lembra-te que, qualquer que seja a resposta que me dês, a nossa amizade fica intocável. Só poderá ser abalada se tu continuares a mentir e a usar-me – despejou a rapariga.
- Mas quem é que te meteu uma coisa dessas na cabeça? – disse ele, aparentemente descontraído.
- Alguém te viu ontem a entrar para uma residencial com o Carlos – atirou a Sónia.
Agora o Gustavo Galvão ficou calado a pensar que tinha sido descoberto e que entre continuar com uma mentira que um dia seria inevitavelmente posta a nu e com consequências muito mais devastadoras ou dizer já a verdade e tentar que isso não se espalhasse, fez rapidamente a opção:
- É verdade, Sónia! Eu sou gay e só tenho de te pedir desculpa por te ter usado. A minha intenção era não ter namorada para me ocultar dos preconceitos da sociedade, mas tu tanto insististe... Penso que o namoro acaba aqui. Mas quero continuar teu amigo porque sou mesmo muito teu amigo.
As lágrimas deslizavam pela face sardenta da jovem.
- Tenho de desaprender a amar-te e olhar para ti só como amigo. Eu adoro-te, tu sabes, e isto é muito violento para mim – disse ela.
- Também gosto muito de ti, mas eu sou como sou e não consigo mudar. Só me admiro de não teres topado mais cedo. Ahh...e quem está a par do assunto? – procurou ele proteger o seu grande segredo.
- Além do Carlos...deixa-me telefonar!
Pegou no celular e ligou:
- Sou eu! Acabo de ter a confirmação das nossas suspeitas por parte do Gustavo. Já contaste a mais alguém?
Do outro lado respondeu a Joana:
- Não! Ainda não!
- Então faz de conta que isto foi um sonho do qual acordaste e vais esquecer.
- Está bem! O namoro acabou?
- Claro! – disse a rapariga traída.
- E como vais justificar o fim da relação? – perguntou a estudante que estava do outro lado.
- Isso, eu e ele vamos combinar. O importante é que ninguém saiba que o nosso grande amigo Gustavo é como é porque nenhuma de nós o quer ver sendo humilhado. Valeu?
- Valeu!
- Então depois encontramo-nos para falar de tudo menos de uma coisa que não passou de um sonho. Xau. Beijinhos – e a Sónia desligou.
Virou-se para o rapaz e disse:
- Só uma pessoa sabia. Quem te viu com o Carlos. Podes estar descansado que é alguém que gosta muito de ti e não te vai querer prejudicar. E agora vamos almoçar?
E os dois encaminharam-se para a porta do restaurante de mãos dadas.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Histórias curtas IX - Uma avaria eléctrica

- Adriano! Está aqui um foco fundido – falou, num tom de voz mais alto que o costume, a Judite Sampaio.
- Diz, filha! – respondeu o marido que estava a vestir-se.
A mulher saiu do quarto de banho e, já perto do seu homem, repetiu:
- Está um foco fundido ali dentro, na casa de banho.
- Ah...logo, quando vier ao fim da tarde, eu substituo-o. Há luz suficiente e eu agora estou com pressa.
- Está bem, meu querido!
Passado pouco tempo ambos saíram de casa.
A mulher, com vinte e seis anos, alta e magra, mas de uma magreza sadia e que a fazia muito elegante, cabelo abaixo dos ombros, liso e pintado de loiro, cara bonita, ar sensual, foi para a escola onde teria o último dia de trabalho antes de umas curtas férias pascais.
O homem, Adriano Lopes, com quasi trinta anos mas parecendo mais velho, também alto e magro, com um ar macilento e cansado que acentuava as olheiras profundas, os olhos escuros e o cabelo liso e negro. Trabalhava no sector comercial de uma empresa pelo que saía bastante e, algumas vezes, pernoitava noutras paragens.
Quando regressou a casa já a sua Ju, com quem casara há três anos, o esperava deitada na cama. Era assim quasi sempre. A professora era mulher de intensa sexualidade e o Adriano via-se e desejava-se para a satisfazer minimamente. Talvez estivesse aí a origem do seu ar cansado e pálido.
- Meu amor! Anda cá! Vem apagar o fogo da tua mulherzinha que já está a arder.
E o Adriano lá se enfiava na cama para cumprir a sua obrigação conjugal. Às vezes não o conseguia pois a sua resistência tinha limites, mas o medo de que outro ocupasse o seu lugar, ou parte dele, impelia-o a dar o que tinha e o que não tinha. Até já usara Viagra!
Saciada a voracidade da sua mulher, foi buscar uma lâmpada de foco para substituir a que se finara de manhã.
Fez a mudança mas...nada! Repetiu a operação, fui buscar outro foco mas sempre sem resultado.
- Oh Ju! Há aqui um problema qualquer. É capaz de ser o transformador que está escondido no tecto falso que deu o berro. O melhor é chamar o electricista.
- Achas que sim? Então vou telefonar para o Sr. Manuel – disse ela.
- Está bem! Liga!
E a mulher pegou no telefone e seleccionou o nome de Manuel Electricista.
A conversa foi rápida. O Manuel gostava de ir àquele apartamento fazer arranjos pois o aspecto provocador da senhora fazia-o ter uma boa performance sexual ao chegar a casa, o que muito agradava à sua Maria.
Desligou o telefone, a Judite, e falou:
- Ele vem cá amanhã ao fim da tarde. Como sabes, já estarei de férias e não me custa estar aqui para lhe abrir a porta.
- Ok! Amanhã eu vou andar por fora e devo chegar só à noite, mas tarde. Portanto não contes comigo para o jantar.
- Já mo tinhas dito. Mas é pena, meu amor! Por isso, logo à noite vais ter de me compensar – desafiou ela.
- Se tiver forças, Ju!
- Se não tiveres eu uso os meus tónicos secretos e tu arrebitas logo.

No dia seguinte pelas seis e meia da tarde, tocou a campaínha do apartamento.
- Olá, Sr. Manuel! Faça o favor de entrar – disse, com voz afectuosa, a dona da casa que estava vestida com um roupão de verão, semitransparente, que permitia ver parte das suas formosuras e adivinhar facilmente as outras.
- Com licença, senhora! – e o Manel passou para o interior da habitação com os olhos arregalados a ver aquele corpo em contraluz.
- Ah...deixe-me acender as lâmpadas! Até me esqueci com este calor! – desculpou-se a guerreira.
E continuou:
- Venha atrás de mim que eu levo-o ao quarto de banho onde há o problema.
- Sim senhora! – balbuciou o electricista.
- É aquele foco! – disse, apontando para o tecto.
- Estou a ver! – respondeu o artista – Posso usar este banquinho?
- Sim! Mas é melhor descalçar-se para não o estragar – sugeriu a Judite.
- Tem toda a razão! – e o Manel tirou as sapatilhas que usava.
- Enquanto o senhor arranja isso eu vou preparar uma banheira com gel de espuma para relaxar. Pode estar à vontade! – disse ela.
Mas o Manuel não ficou nada à vontade. Antes pelo contrário.
- Sim senhora! – gaguejou, desconcertado.
E enquanto tratava de reparar a avaria, ía ouvindo o barulho da água com espuma que enchia parte da banheira e dentro da qual se movia a mulher.
Ele deitava uma olhadela de vez em quando mas, a cortina fechada, não lhe permitia ver nada.
Até que:
- Está pronto, minha senhora! – avisou.
- Disse alguma coisa, Manuel? – questionou a dona com uma voz de tal forma sensual que até arrepiou o electricista.
- Sim senhora! Já está pronto! Tive de substituir o transformador.
- Então agora não se importa de me esfregar aqui um bocadinho as costas?
O sujeito, rapaz de vinte e poucos anos, alto e com uma boa figura, achou que aquilo era um descarado convite e respondeu:
- Com todo o prazer! Mas, para não molhar a roupa, vou ter de me despir.
- Claro! Dispa-se e entre aqui na banheira. Até fica a saber como é bom um banho nesta espuma.
E em alguns segundos o jovem estava a mostrar o seu corpo musculoso e o seu falo intumescido, de pé, dentro da banheira.
- Mas que homem, Manel! Deita-te aqui e brinca comigo.
E nem é possível descrever o que foi aquela meia hora seguinte pois, com tanta espuma, pouco se conseguiu ver. É preferível usar a imaginação.
Mas foi prazer carnal, total e absoluto, certamente.
Já saciados, ainda brincaram um pouco até que alguma coisa provocou uma forte irritação nos olhos da jovem.
- Ai! Os meus olhos! Não vejo nada! Esta espuma não costuma fazer-me arder tanto os olhos – queixou-se.
E, com as pálpebras cerradas, abriu uma parte da cortina para apanhar um lençol de banho.
Mas alguém se esquecera do secador de cabelo sobre a peça de pano turco e, pior do que isso, o aparelho eléctrico ficara ligado à tomada da corrente.
Ao puxar o toalhão, o secador caiu na água.
O curto-circuito iluminou todo o compartimento até tudo ficar escuro e em silêncio.
Só passados uns segundos, e refeito do susto, perguntou o Manel:
- A senhora está bem?
- Eu estou, embora a tremer. Nem sei como estou viva!
O homem puxou o fio do secador e desligou-o da tomada. Depois levantou-se e saiu da banheira dizendo:
- Vou enxugar-me e rearmar os disjuntores. É melhor a senhora sair da água e enxugar-se.
Pouco depois, já as luzes estavam acesas e os dois estavam-se secando quando ela perguntou:
- Oh Manuel! Não deveríamos ter morrido electrocutados?
- Felizmente a água é boa condutora e a banheira tinha ligação à terra. Assim, a descarga fez-se através dela e não dos nossos corpos – esclareceu o técnico.
- Graças a Deus! Ainda me custa acreditar que estou bem. Mas nos filmes as pessoas morrem electrocutadas, que eu já vi! – afirmou, ainda pouco esclarecida, a mulher.
- Isso é nos filmes! Actualmente, as regras de segurança, se forem cumpridas, evitam muitos acidentes – esclareceu o jovem.
E continuou:
- Bom! É melhor ir-me embora! A senhora fica bem, não fica?
- Acho que sim!
- Óptimo! Eu ainda demoro um bocadinho a arranjar-me. Mas depois posso ir sossegado?
- Sim! Mas tenho de lhe pagar! – lembrou-se a Judite.
- Um dia destes eu passo cá e trago-lhe a conta – respondeu o Manel.
- Está bem! Telefone-me que eu digo-lhe qual o dia e hora melhores para cá vir. Você é um tipo electrizante, Manel, e eu gosto de descargas!

sábado, fevereiro 17, 2007

Histórias curtas VIII - O menino da mamã

Afonso de Menezes era um sujeito com trinta e cinco anos de idade, filho único de um abastado comerciante e de uma senhora que pouco mais fizera na vida do que apaparicar o seu filho, vigiar atentamente as movimentações do marido para este não cair na tentação das saias (pecado para o qual ele sempre tivera grande propensão) e fazer reuniões três ou quatro vezes por semana com outras senhoras da sociedade onde se discutiam temas tão importantes para o futuro da humanidade como as condições climatéricas do dia, quem era a nova amante do senhor doutor Juiz (uma mocinha sem berço que, ainda por cima, tinha um cabelo horroroso), a colocação de silicone nos seios da esposa do engenheiro da Petrogal (ficou com uns seios que são uma exagero) e, evidentemente, as importantes notícias das várias revistas cor-de-rosa que abundam no mercado.
Como menino mimado, louvado e endeusado pela Umbelina de Menezes, o Afonsinho (que até tinha o nome do primeiro rei de Portugal) estudara imenso. Refiro-me ao tempo de estudo, claro. Estudara tanto, que só acabou o curso de Direito aos trinta e dois anos numa Universidade privada das de menor reputação mas maior facilitação, especialmente porque as propinas eram das mais caras e, portanto, havia alguma obrigação em que os estudantes acabassem os estudos com alguma rapidez senão a escola poderia perder muitos novos clientes.
Afonso saíra à progenitora!
De inteligência rara (poderia ter escrito rarefeita), tinha uma capacidade de trabalho bastante diluída e um dinamismo comparável ao desses moluscos tão simpáticos e indiferentes ao homem como são os caracóis.
Aliás, permitam-me um aparte para dizer que também a senhora sua mãe era parecida com os caracóis (e não digo caracolas pois os bicharocos são hermafroditas). Pelo menos nos cornos, pois o seu Asdrúbal, mais vivaço, dava-lhe a volta com facilidade e ía saboreando empregadas que passavam pela sua loja e outras damas, nomeadamente algumas amigas mais novas da sua amada Umbelina.
Voltando ao jovem doutor Afonso de Menezes, além de colocar as suas capacidades ao serviço do estudo das ciências jurídicas, gostava particularmente de gastar o dinheiro dos papás (mais rigorosamente, do papá) em belos e potentes carros e num guarda-fatos que era um sonho.
Vestia roupas de marca, odorava-se com os melhores perfumes, penteava-se com um cuidado milimétrico e exibia um garbo que era o orgulho da sempre atenta senhora sua mãe.
- O menino hoje não escolheu muito bem a sua gravata. Nem parece seu, Afonsinho! Vai para o escritório falar com os clientes, não se esqueça! Tem de estar o mais apresentável possível. Um senhor doutor advogado não é uma pessoa qualquer.
- Está bem, mamã! Eu vou lá acima mudar a gravata – aquiescia facilmente o estagiário numa firma de conhecidos advogados.
- Muito bem! Mas, por outro lado, esse after-shave que pôr hoje tem um cheirinho divinal – julgava a especialista e grande educadora do filho em matéria de pedantismo.
Mas havia quem tivesse do Afonso de Menezes uma ideia um pouco menos abonatória.
Entre vizinhos, amigos e colegas era mais conhecido por gostar de exibir o seu porte altivo e boa figura, por falar uma linguagem rebuscada num tom afectado e carregando nos "erres", por todos os seus movimentos gestuais serem como que estudados diante do espelho para resultarem o mais aristocráticos possível, por contar algumas aventuras de veracidade duvidosa.
E assim deixava os que o viam e ouviam a olhar uns para os outros com um sorriso sardónico nos lábios e uma pulga atrás da orelha.
Mas, apesar das histórias amorosas que contava, não se lhe conheciam namoros escaldantes, nem com meninas nem com meninos, e da fama de ser meio larilas não se livrava.

Numa solarenga tarde de inverno, estava a dona Umbelina em casa preparando-se para ir visitar uma amiga para mais um encontro cultural quando soou a campainha do portão da rua.
A empregada Marlene, jovem e simpática, abriu-o à distância e depois de ver que era uma rapariga bastante nova fez o mesmo com a porta da casa.
- O que deseja? – perguntou.
- Queria falar com a D. Umbelina. É um assunto urgente – disse a desconhecida.
- E qual é o assunto? – quis saber mais detalhes, a Marlene.
- É particular! Mas de muito interesse para toda a família Menezes.
- Eu vou ver se a senhora já saiu ou ainda está cá em casa. Um momento. Com licença – falou como lhe ensinara a patroa, a rapariga.
Fechou a porta deixando a jovem, bonita mas vestida com a simplicidade de uns jeans, uma camisola, um “anorak” e umas botas altas, a aquecer-se ao sol de inverno.
Passaram pelo menos uns cinco minutos quando a porta se abriu de novo e apareceu a bem tratada Umbelina.
Olhou para a visitante e disse:
- O que deseja?
- Preciso urgentemente de falar consigo, D. Umbelina.
- Mas eu agora tenho de sair para tratar de algo muito importante – retorquiu a madame tentando descartar a bela morena.
- Mas não é seguramente tão importante e urgente como o que eu tenho para lhe dizer – insistiu a Mafalda, assim se chamava a moça.
- Então diga lá! Mas seja rápida, por favor – condescendeu a dona da casa.
- Não posso entrar?
- Diga-me primeiro qual o assunto que é assim tão importante – travou a mais velha.
- Bom! Para ser rápida como pediu, vou directa à questão. Estou grávida e o pai é o seu filho Afonso!
A Umbelina ficou literalmente paralisada e durante um tempo indeterminado não falou. Nem tampouco se mexeu.
- Sente-se bem, a senhora? – acabou por ser a Mafalda a tentar retomar o diálogo.
A madame estremeceu e, finalmente, saiu do torpor em que caíra.
- Desculpe! Acho que ouvi que a menina está grávida do meu Afonso. Terei ouvido bem? – perguntou.
- Foi exactamente isso que eu disse. E vim falar consigo porque o Afonso nega ser o pai. Ora eu sei que é ele, por isso terá de ser feito um teste de ADN. E como sou menor, o seu filho terá de casar comigo.
Estas palavras quasi deitavam a Umbelina definitivamente por terra. Mas aguentou, ainda que com alguma dificuldade.
- Entre! Entre! Eu vou telefonar para o meu filho e para o meu marido – convidou a mamã.
- Com licença.
- Sente-se ali e aguarde um momento, por favor – disse a atordoada mãe do Afonsinho.
Saiu da sala de entrada e dirigiu-se à empregada:
- Marlene! Fique de olho naquela rapariga pois nunca se sabe! – avisou a patroa num arroubo de lucidez, coisa rara.
Depois dirigiu-se a outro compartimento de onde não pudesse ser escutada por mais ninguém e ligou para o querido Asdrúbal:
- Meu amor! Aconteceu uma coisa tremenda! Está aqui uma rapariga muito nova a dizer que está grávida do nosso menino.
O silêncio foi a resposta.
- Alô, Asdrúbal!
- Sim! Eu ouvi! Estava a pensar. Olha, Lininha, já ligaste para o Afonso? – falou, finalmente, o comerciante.
- Ainda não!
- Então telefona e diz-lhe para ir já para casa que eu vou aí ter imediatamente – sentenciou o marido.
- Muito bem! Até já! – e desligou dando um profundo suspiro.
Pouco depois:
- És tu, meu filho?
- Sou mamã! Estou bem! Mas não precisas de me telefonar tantas vezes pois sabes que estou a trabalhar – respondeu o ocupado pedante.
- Olha, filho! O menino tem de vir já para casa! – disse.
- Mas que aconteceu, mamã querida? Está alguém doente? – inquiriu, ansioso, o jurista.
- Não, meu filho! Está aqui uma rapariga muito jovem que diz estar grávida de si.
- Não é possível! E como é que ela se chama? – quis saber o causídico aprendiz.
- Nem lhe perguntei! Com a atrapalhação até me esqueci. Mas eu vou lá saber e já volto. Espere um bocadinho – decidiu a dona de casa.
Passado menos de um minuto.
- Mafalda e tem dezassete anos, disse ela – informou a Umbelina.
- Mas eu não conheço nenhuma Mafalda dessa idade. Vou já para aí. Um beijinho e tem calma que alguma coisa está errada – despediu-se o licenciado.
- Venha com cuidado! Guie devagar! O seu pai também vem para cá – acrescentou ainda a mulher do comerciante sem perceber que já não era ouvida.
Foi então avisar a jovem de que tinha de aguardar a chegada do marido e do filho.
Passado pouco tempo entrou o Asdrúbal, pela porta das traseiras, e foi ter com a esposa.
- Vamos esperar que venha o nosso rapaz. Entretanto vou espreitar a cara da rapariga – disse o homem.
Não demorou muito tempo que chegasse o Afonso. Esbaforido, nem parecia ele.
Também entrou pelas traseiras, pois recebera um telefonema nesse sentido, e começou a falar com os progenitores e a negar que fosse pai de quem quer que fosse.
- O melhor é irmos lá para dentro falar com a rapariga – sugeriu o Menezes mais velho.
E lá foram os três sentar-se junto da paciente Mafalda.
- Mas eu não conheço esta menina de lado nenhum! – afirmou, quasi aterrado, o Menezes mais novo.
- Isso é o que tu dizes! Mas sabes muito bem que temos uma relação há três meses e agora não podes fugir às tuas responsabilidades – afirmou, convicta, a rapariga.
- É uma falsidade! – quasi gritou o trintão – E é fácil provar isso com um teste de ADN. Além disso, já não tenho relações com mulheres há vários meses.
Eis que a rapariga se levantou, sorriu e disse:
- Desculpem! Mas fui escolhida por um grupo de amigos e amigas do Afonso para lhe pregar um susto e tentar saber se isso que ele diz de ter várias amantes secretas seria verdade. Agora vou-me retirar e fazer o meu relatório final.
O velho Asdrúbal foi o primeiro a reagir.
- Espere! Eu pago-lhe bem para não dizer nada sobre a última parte do que disse o meu filho.
- Não vale a pena! Eles disseram que cobririam qualquer oferta que me fosse feita para me silenciar. E agora vou-me retirar.
E saiu sozinha.
- Mas afinal tu és maricas? – inquiriu, com cara de pau, o pai.
- Não, pai! Não sou nada maricas! – retorquiu, choramingando, o estagiário.
- Então como explicas que, com trinta e cinco anos, passes meses sem ter relações com mulheres?
- Só tem uma explicação! Ainda não apareceu uma que me entusiasmasse a sério.
- Uma como a mamã, não é Afonsinho?
E os olhos do Asdrúbal deitaram fogo!

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Hoje não é Dia dos Namorados

14 de Fevereiro.
Hoje faz 24 anos que faleceu a minha mãe.
Foi numa segunda-feira de Carnaval.
Na terça-feira, ao acordar, abri a persiana e olhei pela janela.
Estava tudo coberto de neve.
Nunca mais vi assim a Maia e já cá resido há 27 anos.
Será que a natureza se vestiu de branco especialmente para se despedir da mãe Julieta?

Numa sexta-feira, recebi um telefonema do meu cunhado que na altura vivia com a minha irmã e os dois filhos em casa dos meus pais. Já tinha jantado e ele disse-me que iriam levar a minha mãe para o Hospital de Santo António, para a Urgência.
Já não se vinha sentindo muito bem e tinha muitas dores nos membros inferiores, mas a situação agravara-se.
Comentei para a minha mulher:
- É o começo do fim da minha mãe!
Premonição?
Acho que não, mas tinha a certeza que tinha razão.
Fui logo para lá. Que confusão!
Finalmente lá foi para uma enfermaria.
No sábado fui visitá-la. Falei com os médicos. Não sabiam qual a causa do mal, mas inclinavam-se para um vírus que lhe teria atacado o sistema nervoso e provocado uma paralisia flácida ascendente.
No domingo foi o baptizado do meu filho. Não houve qualquer festa, naturalmente. A minha mãe tinha mandado fazer um vestido novo para usar nesse dia. Não o usou nesse dia mas foi o que escolhemos para lhe servir de mortalha.
Foi a última vez que a vi consciente.
Na 2ª feira de manhã, por voltas das onze horas, telefonou a minha irmã que, por razões profissionais se mexia bem naquele Hospital, a dizer:
- A mamã está em coma nos Cuidados Intensivos.
O horário de visita era só de meia hora e não mais de duas pessoas de cada vez.
Mas a situação agravava-se dia a dia. A causa da doença continuava mal definida. A temperatura do corpo era de 35º centígrados.
No sábado, um médico disse-me que a mãe Julieta já estava num estado de morte cerebral, irreversível.
A segunda-feira de Carnaval foi o dia oficial da morte pois foi quando desligaram as máquinas que a mantinham aparentemente com um sopro de vida. Mas era só aparentemente.
A autópsia, que não foi conclusiva, e o funeral realizaram-se na quarta-feira de cinzas.
Foi sepultada no jazigo da família em Vila Praia de Âncora. Tinha 66 anos.
Dez anos depois o meu pai foi-lhe fazer companhia.

Foi em 1983.
Faz hoje 24 anos!
Mas parece que foi ontem!
Escrevi tudo isto de rajada e não verti uma lágrima.
Acho que as gastei todas esta manhã.

NOTA: Tinha previsto colocar aqui, hoje, mais uma das minhas ”Histórias curtas”, mas o coração ordenou ao cérebro para alterar a programação.

sábado, fevereiro 10, 2007

Um grande susto

Lembram-se de vos falar num tal Fausto (ou Bouças) no texto de 16 de Dezembro último e que intitulei de “Natal e Ano Novo na grande família”?
Não?
Era o jovem empregado dos meus tios Simão e Bela que tinham a pensão onde decorriam as concorridas ceias da grande família.
Já se estão a recordar?
Exactamente!
Esse mesmo!
O que representava o papel de Pai Natal, de Ano Velho e Ano Novo para gáudio de miúdos e graúdos.
De seu nome Fausto Enes da Silva, filho de uma mãe de vários filhos, cada qual com seu pai, vivia miseravelmente num casebre lá em cima, no caminho do monte sobranceiro à terra piscatória: Vila Praia de Âncora.
Ainda muito jovem foi trabalhar para os meus tios e era o parceiro favorito do mais novo dos meus primos, o Nando, pois tinham a mesma idade.
Ali cresceu, dali partiu para a guerra, ali se fez homem e dali se fez marido e pai.
Como ando numa onda de histórias com mortes, alucinações e outras coisas mais ou menos macabras, lembrei-me de uma peripécia ocorrida com o Fausto.
Todas as noites ele saía já tarde do trabalho e subia, através de carreiros que muito bem conhecia, por entre silvados e muros ou muretes feitos de pedras graníticas, por zonas descampadas ou por quintais proibidos, até à pobre casa onde chegava com alguma comida para a mãe e os irmãos.
Foi numa noite invernosa, com chuva intensa e um vento cortante que, em certo ponto do percurso, sem iluminação pública e com a lua escondida deixando tudo mergulhado numa escuridão quasi total, sentiu ser-lhe arrancada a boina que lhe agasalhava a cabeça.
E o rapaz, que ao tempo deveria ter cerca de vinte anos, nem para trás olhou: correu tanto quanto pôde impulsionado pelo pavor de ser seguido por quem lhe havia roubado a útil peça da indumentária.
Chegou a casa a deitar os bofes pela boca.
Apagou as luzes, disse à mãe que tinha deixado cair o embrulho com a comida pelo caminho, trancou bem as portas e janelas, verificou que não havia ninguém nas proximidades e foi dormir.
Na manhã seguinte, acordou a pensar quem lhe teria arrancado a boina.
Vestiu-se e meteu pés ao caminho, monte abaixo, rumo à vila, seguindo o percurso habitual que era, naturalmente, o inverso do da véspera.
Eis que, ao desfazer uma curva do caminho, viu a sua boina pendente de um ramo do silvado, presa por um espinho, bamboleando ao sabor da brisa matinal.
Rui-se a bom rir do pânico em que ficara na noite anterior e quando chegou à pensão não resistiu a contar a história.
Escusado será dizer que nessa manhã, e durante algum tempo, esta desventura do Bouças foi motivo de chacota e gargalhadas em toda a vila.
Para finalizar, deixem-me fazer uma perguntinha inocente: e se isto tivesse acontecido consigo...sim, consigo...junto a um cemitério?

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

7 de Fevereiro, de novo

“Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa-de-forças!”

Foi isto que escrevi como linha orientadora do blog “Eu sou louco” quando o criei no dia 7 de Fevereiro de 2005.

Faz hoje dois anos!

Esse subtítulo mantém-se o mesmo, mas o conteúdo é superior a 200 (duzentos) posts.
Todos de textos em prosa.
Sem fotografias, nem música, nem vídeo.
O mais simples possível.
Quis que este sítio valesse só pelo que aqui fui deixando escrito.
Utilizei os mais variados temas e assuntos:
Memórias, muitas memórias, histórias verdadeiras, mas também muita ficção, curta ou mais ambiciosa em termos de dimensão do trabalho, muitas vezes com um toque humorístico e pretensões de fazer sorrir ou mesmo rir. Mas também crónicas, artigos de opinião, abordagens mais pessoais e íntimas, eu sei lá...

Imensos são os comentários que aqui estão. Também fazem parte do património.
Um obrigado a todos aqueles que os deixaram por cá...e não foram poucos.
Para mim é importante ter um “feed-back” do que coloco on-line.
O que escrevi foi sempre para os que me quisessem ler, tentando usar uma linguagem que fosse compreensível.
Não escrevo para mim. Foi e será sempre essa a minha opção.
Se não tivesse leitores não valeria a pena escrever.
Também agradeço aos que leram mas não comentaram. São mais do que eu pensava. Depois de recentemente ter feito umas contas simples (com base no número de visitantes que o meu totalizador indica) acho que visitam este blog cerca de 100 pessoas por dia; considerando que só metade lê um texto, então teria 50 leitores por dia, em média.
Nem que fossem 30 ou 40.
Sinto-me orgulhoso!

Ao longo destes vinte e quatro meses conheci aqui muitas pessoas. Algumas tive oportunidade de contactar pessoalmente, lá fora, no chamado mundo real.
Fiz amizades.
Foi bom!

“...O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa-de-forças!”

Sinceramente, e perdoem-me a imodéstia, acho que valeu a pena.
Mas se algum dia, próximo ou afastado, acharem que já não vale mais a pena, peço-vos que me prendam à camisa-de-forças.
Por favor!

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Histórias curtas VII - O "gang" dos pestaninhas

João, Mário e António eram três tipos que tinham o que poderei chamar de uma tara, perversão ou desvio sexual.
João, com trinta e poucos anos, era um velho viciado em espreitar outras pessoas em atitudes ou ambientes íntimos. Um voyeur! Desde há muitos anos que passava as horas livres à cata de casalinhos, ou nas dunas da praia, ou nos matagais, ou cocando para o interior das casas e dos prédios ou, principalmente, deitando o olho para dentro de carros onde estivessem parelhas em atitudes amorosas ou libidinosas. E a vida sexual dele resumia-se a isto e às masturbações que completavam o visionamento.
Mário e António eram dois rapazolas no final da adolescência que também se pelavam por umas espreitadelas para os sítios proibidos. Andavam quasi sempre juntos e travaram conhecimento com o João numa sessão nocturna em que estavam os três ao redor de uma única viatura da qual, em dado momento, saiu um tipo gigantesco que os fez fugir a toda a velocidade. Pararam a uns duzentos metros de distância, ofegantes. O João, o mais especializado, disse:
- Meus meninos! O que fizeram hoje nunca mais deve ser repetido. Quando tiverem de dar de frosques, deve ir cada um para o seu lado. Valeu?
Os outros concordaram e, enquanto se refaziam do esforço da corrida, foram conversando.
Desde essa noite que estes três pestaninhas, nome pelo qual são bastante conhecidos estes mirones compulsivos, passaram a andar muitas vezes juntos, sendo o João o líder natural, não só por ter a maior pancada na mona como por ser um profundo conhecedor das técnicas da espreitadela, minimizando os riscos, e ainda por saber de muitos outros locais onde poderiam ir exercer esta interessante prática sexual.
As sessões mais excitantes eram as que ocorriam à noite, em locais mal iluminados, onde estacionavam automóveis com duas pessoas. Normalmente eram um homem e uma mulher mas, algumas poucas vezes, calhava um par do mesmo sexo. E aí a excitação atingia o pico pois filmes desses eram mais raros e ainda mais estimulantes.
Era vê-los a correr muito agachados, tão velozes que mais pareciam grandes lebres, a procurarem o carro em que a visibilidade para o interior fosse melhor e os ocupantes estivessem mais distraídos para nem darem pela presença dos maganões.
Há alguns anos, um amigo do expert João tinha tido o azar de se distrair e o sujeito que estava dentro da viatura, já totalmente saturado de tanta pestanada, enfiou dois balázios na cachola do desgraçado que ficou logo ali esticado até chegar o delegado de Saúde. Fora uma noite trágica, mas memorável. Durante muitos meses a actividade baixou. Ou melhor, passou a ser exercida noutros locais e com muito maior discrição.

Numa quente noite de estio, no alto de uma arriba que tombava abrupta para um estreito areal junto ao mar e que era um dos locais favoritos para os mais ou menos apaixonados estacionarem, estava o espaço cheio de carros. Os três membros do gang dos pestaninhas lá apareceram dispostos a, mais uma vez, arrostarem com todos os perigos, quais Gamas ou Cabrais, e satisfazerem a sua doentia curiosidade.
Falavam pouco e baixinho, e entendiam-se sobretudo por gestos.
A visibilidade era boa, ao contrário do que acontecia no inverno em que o rápido e quasi total embaciamento dos vidros muitas vezes só permitia que estivesse disponível a parte áudio.
O João Pestana, como também era conhecido o sabidola, estava junto de um carro muito compenetrado na acção que decorria no seu interior e ía afagando-se como tanto gostava de fazer.
O António estava filado noutro par e o Mário num terceiro.
Eis que este fez sinal ao jovem parceiro para se aproximar.
- São dois gajos! Vamos ver o que fazem os paneleiros. Para já só estão a conversar, mas não deve demorar muito que entrem em acção – disse, quasi num sussurro.
E acrescentou:
- Aguenta aí um bocadito que eu vou chamar o João. Ele delira com estes casalinhos de rabetas.
- Ok! Vai, que eu aguento aqui os cavalos.
Pouco depois estavam os três reunidos junto do Volkswagen Golf à espera que os namorados iniciassem uma forma mais arrebatada de demonstrarem o seu amor e o seu desejo.
De repente abriram-se simultaneamente as quatro postas do carro, o que fez com que os dois mais novos caíssem ao chão, e de lá de dentro saíram quatro mangas que imediatamente agarraram um dos mirones. Foi o Mário, o azarado. Entretanto, os outros dois piraram-se a grande velocidade esquecendo-se por completo da amizade que tinham pelo parceiro.
E, na luta desigual de quatro contra um, ainda por cima sem poder gritar pois imediatamente lhe tinham colocado uma fita adesiva na boca, começaram a despi-lo e a lançar a roupa para o fundo do abismo até que o pobre coitado ficou nu.
Mas, não satisfeitos com isto, os quatro amarraram o desgraçado de mãos e pés, meteram-no na viatura (onde ele se vingou fazendo uma valente mijadela) e foram largá-lo, depois de desamarrado, no meio de uma praça que nessa noite estava cheia de gente a tentar refrescar-se com uma ligeira brisa que estava a começar a soprar das bandas do oceano.
Os sorrisos, as gargalhadas e alguns gritos histéricos acompanharam a fuga do Mário para casa correndo com as mãos a taparem os genitais.
- Em bem digo que o mundo está maluco!
- Mas que pouca-vergonha!
- Mas o gajo está mesmo nu!
- Tapa aí os olhos às crianças!
- Até tem um bom corpinho, o moço!
Foram algumas das exclamações que se puderam ouvir.
Entretanto o fugitivo chegou a casa, que era a dos seus pais, saltou o muro do quintal e entrou sorrateiramente logo se dirigindo para o seu quarto onde vestiu uns boxeurs e se deitou na cama.
Quando a mãe Amália, por volta da meia-noite e antes de ir para os seus aposentos, foi dar uma espreitadela ao quarto do seu Marinho, ficou admirada por ele já estar a dormir.
E a partir dessa noite, quebrado o código de honra, desfez-se o agrupamento dos três pestaninhas ficando o Mário a trabalhar por conta própria.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Histórias curtas VI - Noite de trovoada

Fátima Azevedo era uma solteirona, fervorosa cristã, que vivia sozinha numa velha casa de lavoura que fora dos seus pais.
Tinha perto de trinta e oito anos e trabalhava na Câmara Municipal da vila sede do concelho.
Mal fizera o 12º ano, o pai arranjara-lhe o emprego que manteve até hoje e onde se esmera para ser boa funcionária.
Era a única filha de Zeferino e Carmelinda: o homem amanhara uma razoável propriedade da família situada adjacente à casa e acumulava com funções de jardinagem na Junta de Freguesia.
Mas, ainda cedo, problemas de saúde começaram a impedi-lo de fazer trabalhos pesados e, ao fim de mais uns anos, quando a sua Fatinha foi para a edilidade, vendeu grande parte dos terrenos por bom dinheiro e dedicou-se à nobre actividade de nada fazer.
A mulher tratava dos assuntos domésticos e dos animais que viviam no piso térreo da habitação.
O andar superior era destinado aos três membros da família.
Há cerca de quatro meses faleceu, de cancro na próstata, o velhote.
A mulher não resistiu muito mais tempo. Três meses depois, uma pneumonia acarretou-lhe várias complicações que culminaram no seu passamento.
A filha foi o amparo dos pais na velhice e na morte.
- Não fez mais do que a sua obrigação – diziam uns.
- Mas há muitos que nem a obrigação fazem – comentavam outros.
- Era filha única! Se fossem meia dúzia, tinham andado a empurrar uns para os outros e os velhos acabavam num asilo ou no hospital – sentenciavam alguns.
E assim a Fátima se viu sozinha na vida.
Não era bonita. Tinha os dentes acavalados, os olhos pequenos e o nariz adunco, mas era razoavelmente elegante.
Tivera vários pretendentes mas, ou ela ou os pais, sempre lhes acharam defeitos e assim foi ficando solteira, até hoje.
Tem ainda uma muito antiga paixão por um colega da escola primária, o Jaime, mas este nunca lhe prestou a atenção que ela gostaria. Entretanto casou e já tem dois filhos espigadotes.
A casa, depois da venda dos terrenos pelo Zeferino, sofreu umas transformações no rés-do-chão, sobretudo para converter umas pocilgas em garagem para dois carros pequenos: um do pai e outro da filha.
O acesso ao andar que servia de habitação era feito por uma escada de granito, no exterior.
Era tudo muito velho. O Zeferino, com uma pequena reforma, queria gastar pouco do dinheiro que tinha a render em Certificados de Aforro pois estava destinado a fazer face a despesas com doenças. E tinha razão pois acabou por dispender algum com a sua enfermidade final. Também a mulher não ficou barata na morte. Mas ainda sobrou uma boa maquia para a Fátima.
Por tudo isso, o soalho de tábuas de madeira, excepto na cozinha, rangia sob os passos de quem o pisasse. As janelas tinham duas abas envidraçadas com cortinas e, no interior, havia umas portadas em madeira que, já empenadas, eram difíceis de ser bem fechadas e assim dar maiores garantias quanto à não entrada de indesejáveis.
O Monge, pastor alemão velho mas ainda bonito de bem tratado que era, constituía a guarda avançada da casa e propriedade circundante, agora bem pequena.

Estávamos no início do Outono e ainda não viera nenhum daqueles temporais que a Fatinha tanto temia. Desde pequena que tinha pavor às trovoadas e agora só, naquela casa lúgubre, fria e isolada de todas as outras da povoação, às vezes pensava em como reagiria perante uma tempestade das fortes.
Na procelosa noite sequente a um dia de temporal, a amedrontada Fátima fechou todas as portas e janelas o melhor que conseguiu. Encarcerou-se no seu quarto juntamente com o fiel Monge e preparou-se para dormir, não sem antes tomar um calmante dos que usava quando tinha insónias.
Ouvia-se o sibilar de uma ventania desenfreada lá fora, os ruídos das ramas das árvores, mesmo que distantes, o bater da água nas vidraças. Um tremelicar da luz precedeu um ribombar barulhento e amedrontador.
A Fátima tremeu ao pensar que, pela primeira vez, iria estar sozinha debaixo de uma trovoada. Após aquele primeiro sinal de aviso resolveu deitar-se. Não teve tempo. Um novo trovão atordoou a sua cabeça e pouco depois a luz apagou-se.
Rastejou até à cama, subiu para ela, meteu-se debaixo da roupa e chamou o cão:
- Monge! Anda para o pé de mim!
E o animal subiu para se enroscar sobre os lençóis e cobertores junto da dona.
Com a escuridão, podia ver-se a luz dos relâmpagos a penetrar no quarto através das frinchas das velhas portadas. O som estrondoso que se lhes seguia deixava a mulher cada vez mais aterrorizada.
Meteu a cabeça debaixo da roupa na tentativa de nada ver e nada escutar.
De repente, ouviu o soalho ranger algures dentro de casa. Sentiu martelar-lhe nos ouvidos uns passos que se íam aproximando da porta do seu quarto. Lentos, cadenciados e cada vez mais audíveis. Chegou-se para junto do cão, moveu a cabeça para fora dos panos e disse:
- Monge! Fareja quem está lá fora!
Mas logo um novo relâmpago a fez ver um vulto dentro do seu quarto.
A mulher estava em pânico!
Enroscou-se de novo debaixo dos tecidos que cobriam a cama e ficou à espera de ser atacada. Várias facadas? Um golpe certeiro de machado? Ou seria um violador?
E o cão não reagia. Maldito!
Um novo estrondo fê-la tapar os ouvidos com as mãos.
Mas o soalho dentro do quarto rangia sob os passos pesados e compassados daquele que seria, certamente, o seu carrasco. Ouvia-lhe a respiração.
Paralisada, esperou a estocada final rezando pela salvação da sua alma.
E foi ficando assim, petrificada, incapaz de se mover, vencida pelo medo, à espera do ataque do seu algoz.
- Ajudai-me, Senhor! – pensava.
- Avé Maria, cheia de Graça... – orava.

Eram cerca das dez horas da manhã quando tocou o telefone.
Ouviu-o porque tudo agora era silêncio. A tempestade parecia ter passado.
Apercebeu-se de que tinha acordado. O Monge já estava sentado no chão.
Olhou ao redor e não viu marcas de nenhum assaltante.
Entretanto o telefone parou de tocar.
Sentia outra disposição, agora. Destapou-se e saltou para fora da cama. Foi abrir as postadas das janelas. Caminhou resoluta para a porta e colocou a mão na chave. Rodou-a, ainda um pouco a medo, e abriu-a com um pontapé:
- Monge! Busca!
O canino saiu do quarto e ela seguiu-o, primeiro com o olhar depois caminhado atrás dele. Tudo parecia normal.
Voltou ao quarto e espreitou para debaixo da cama e para dentro do guarda-roupa; nada nem ninguém lá estava escondido.
Aproximou-se duma das janelas e olhou atentamente para as casas menos afastadas: havia estragos.
Vizinhos com os seus bens atingidos estavam já a tentar reparar os danos. Muitos ramos de árvores espalhados no chão. Arbustos derrubados. Pequenas extensões de muros tombados. Telhas quebradas nos pavimentos. Vidros partidos. A confirmação, se necessária fosse, de que houvera borrasca forte durante a noite.
Abriu a vidraça.
- Então, Fatinha! Mas que temporal tivemos esta noite! E ainda não há luz. Tem muitos estragos? – disse um homem de meia idade com um aspecto campesino que ía a passar nesse momento junto à casa isolada.
- Ainda não vi! Só acordei agora – respondeu a mulher.
Um carro parou junto da casa. De lá saiu o colega Alberto:
- Estás bem, Fátima? Como não apareceste no trabalho à hora habitual pensamos que tivesses tido problemas. E como não atendeste o telefone, resolvi vir cá.
- Obrigado, Alberto! Adormeci tarde por causa da tempestade. Mas ainda tenho de ver se há alguns danos na propriedade.
- Ainda não há luz em muito sítios mas logo, a meio da tarde, já tudo deve estar normalizado. É o que diz a malta dos Serviços.
- Com a luz do dia dá para fazer uma vistoria, sobretudo ao telhado. É fácil. Subo ao sótão e vejo se entrou água.
- Parece que estás bem! – opinou o Berto.
- Agora estou! Mas passei uma noite horrível. A trovoada deixa-me em pânico e agora que vivo aqui sozinha, é muito mais complicado.
- Tens de te casar, rapariga! Quanto mais não seja nas noites de trovoada – disparou, trocista, o colega.
- A brincar que o digas! A brincar que o digas! – respondeu ela, lembrando-se da pavorosa noite em que o sono acabara por vencer o medo.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Traz a faca para matar o ladrão!

Os meus pais, Fernando e Julieta, conheceram-se nos finais dos anos 30 do século passado. Praticamente em cima do início da II Grande Guerra. Durante o conflito eles, como muitos mais, retraíram-se em relação à união pelo casamento pois, apesar de Portugal não estar directamente envolvido nas batalhas sofria, como todo o mundo, nomeadamente a praga do racionamento de produtos de primeira necessidade.
Não é pois de admirar que, só em 1946, tenham dado o nó matrimonial numa modestíssima cerimónia pois os tempos ainda eram de vacas magras.
Não posso deixar de fazer aqui uma referência ao facto de, tanto quanto sei, ter sido nesses anos do pós-guerra que se bateram todos os recordes de natalidade a nível mundial.
Eu sou um produto dessa fúria reprodutora à qual se seguiu uma descida contínua e imparável do número de nascimentos ao longo dos anos que, aliás, ainda prossegue.
Ora são os filhos do após guerra, como eu, que estão agora a passar à reforma e a depauperar as finanças públicas de inúmeros países.
Pela parte que me toca peço desculpa aos mais novos, embora não tenha responsabilidades no assunto, como devem imaginar.
Mas voltemos ao tema inicial.
Os meus progenitores foram viver para a Rua de Oliveira Monteiro, 1015, ao Carvalhido. No Porto, claro!
Era uma pequena casa alugada, térrea, com uma só janela virada para a frente e lá vivi até aos sete anos. Valia ter um quintal de dimensões razoáveis onde eu e a mana Fernanda brincávamos a maior parte do tempo (se as condições climatéricas o permitissem).
Talvez porque a habitação tinha poucas condições, talvez porque era benquisto por toda a família, talvez porque a minha mãe ficava mais desafogada para tratar da bebé mais pequerrucha, eu ía passar algumas temporadas, quer a Vila Praia de Âncora quer a Valença do Minho, para casa de tias. E bem gostava de o fazer...
Lembro-me de só uma noite ter vertido umas lágrimitas de saudades pelos meus pais quando já estava só e deitado na cama para adormecer. De resto, sempre gostei de andar por aqui e por ali. Diziam que era ave de arribação. Sempre fui, de facto.
Tudo terminou com a entrada na primária.
Em Setembro de 1956, tinha sete anos e acabada de fazer a 1ª classe, mudámos para a moradia das Antas. Também alugada, diga-se, mas com dois pisos, um pequeno jardim nas traseiras e, sobretudo, muito maior e mais moderna.
A velha casinha já foi há muito demolida mas o espaço por ela outrora ocupado ainda está vago. Situa-se num gaveto da Oliveira Monteiro com a Rua da Constituição. A casa adjacente, habitada nesses já remotos tempos por uma senhora de idade (a D. Maria Caldas) ainda lá está com as suas duas janelas.

O que vou contar a seguir não foi por mim presenciado. Penso que ainda não era nascido.
Tinha a casa de Oliveira Monteiro uma só porta alta e estreita, com duas portadas que subiam até à esquadria de granito e dois postigos de vidro martelado e com grades em ferro na parte exterior, um em cada uma das duas metades da porta.
Rezam as crónicas familiares que, uma noite, já bem depois das doze badaladas terem soado no sino da Igreja, se ouviu um estranho abanar da porta da rua.
O meu pai, decidido, foi averiguar o que se passava enquanto a mulher ficava na cama.
E viu claramente uma sombra, provavelmente as mãos de um homem, a abanar a porta.
E falou baixinho para a que haveria de ser minha mãe:
- Oh Leta! Traz cá a faca para matar o ladrão!
A Julieta não gostou muito da ideia mas, perante a insistência do marido, lá foi buscar o maior facalhão que tinha na cozinha.
Agora bem armado, o Fernando ousou abrir a porta num rompante e...que viu ele?
Um gato pendurado na grade de um dos postigos e que imediatamente se pôs em fuga.
Mas a história correu célere pela família e, não poucas vezes ao longo dos anos, eu ouvi-a ser contada.
E outras tantas escutei os meus parentes a perguntarem ao pai:
- Oh Fernando! Eu queria era ver se você matava mesmo o homem se fosse um ladrão!
E o meu pai fazia um sorriso de tons levemente amarelados e dizia:
- Se tivesse mesmo de ser!...

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Histórias curtas V - Viajando à boleia

Marta e Sandra eram duas jovens estudantes do 9º ano.
Estudantes é uma maneira eufemística de dizer pois, de facto, já ambas tinham dezanove anos e uma carreira académica a marcar passo.
Eram do tipo de adolescentes que se interessam mais por rapazes, música, charros, cervejas, chats, telemóveis, farras, discotecas, sexo, jogos de vídeo, cigarros, shots e outros assuntos bem mais enriquecedores do que estudar. Mas fizeram alguns esforços louváveis como “comer”, num espectacular ménage à trois, um professor ainda jovem, para este lhes dar uma nota que permitisse uma transição de ano. Pelo menos da fama não se livram.

Acabaram por ir para o curso nocturno.
Esta época escolar tinha terminado muito mal, para não variar.
Mas o que lhes interessava agora era cumprir um plano gizado durante o ano: percorrer o país à boleia.
Até já tinham previsto ir para o estrangeiro no ano seguinte.
Marta, baixa, roliça e loira com os cabelos curtos, era filha de uma mulher gorda que deixava vislumbrar como seria a filha uns anos mais tarde. Era divorciada do pai da azougada rapariga e tinha um filho, bastante mais novo que a moça, do homem que vivia lá em casa uns dias mas não outros. Trabalhava a dias em casas particulares.
Sandra, magra, morena, ar de cigana, vivia com a mãe e um pai muitas vezes ausente para cumprir uns tempos na prisão por furtos não muito graves. Tinha mais dois irmãos, rapazes, que andavam ao Deus dará consumindo drogas e seguindo as pisadas do pai, apesar de só terem mais dois e três anos que a rapariga. A mulher, muito magra, trabalhava como operária e era o pilar da família, se é que assim lhe podemos chamar.
Passada pouco mais de uma semana do fim das aulas, as amigas estavam na berma de uma estrada pedindo boleia.
Levavam um saco-cama cada uma, alguma coisa para comer e beber, preservativos, material para fazer uns charros, pouca roupa e ainda menos dinheiro: uns euros que para pouco chegariam. A ideia era irem sacando algum durante a aventura. A gorducha levava uma garrafa de whisky que, à socapa, retirara dum armário de casa.
Vestindo uns curtos calções de denin já coçado, umas shirts de alças (há quem lhes chame canotas) justas e curtas que deixavam antever uns seios opulentos mas bem firmes na rechonchuda e outros de pequeno volume mas com mamilos bem salientes na colega. Nenhuma delas usava soutien. Calçavam umas sapatilhas de qualidade razoável roubadas numa loja alguns dias antes.
Não lhes foi difícil que um carro parasse ao fim de poucos minutos.
Era uma viatura de gama alta conduzida por um tipo de uns cinquenta anos com uma magnífica aparência.
- Então para onde querem ir as meninas? – perguntou, enquanto apreciava as moças.
- Para onde calhar! Vamos dar a volta a Portugal à boleia – respondeu a faladora e extrovertida Marta.
- Então querem aventura? Podem entrar! – disse o condutor – Vamos conversando enquanto viajamos.
A redondinha entrou logo para a frente deixando que a morena fosse para trás.
Mal se sentou, a Sandra reparou que o casaco do homem estava pendurado junto à outra janela. E enquanto o incauto ía conversando com a loira, a amiga ía-se entretendo a verificar o dinheiro que havia na carteira que já palmara de dentro do casaco. E retirou cerca de metade das notas.
Pouco depois, disse:
- Oh Marta! Vamos ficar aqui e apanhamos uma boleia para a praia?
- Já? – perguntou o homem.
A amiga olhou para trás e percebeu um sinal da companheira.
- Pois! Senão passamos o tempo a andar de carro.
E apearam-se pouco depois. A pesca tinha sido rendosa.
Seguiu-se uma boleia com um camionista: rapaz novo, musculado e rude.
Foram as duas para a frente, naturalmente.
Não tardou muito que o malandreco fizesse uma proposta.
- E que tal pararmos e vires comigo apanhar flores? – disse, dirigindo-se à loira, enquanto lhe punha uma mão na coxa – És muito boazona, sabias?
- E que ganho eu em apanhar flores? Nem tenho jarra para as pôr! – e riu-se, a rapariga.
- Que tal dez euros?
- Dez? Vinte e cinco é o mínimo – replicou a doidivanas.
E repetindo estas tácticas quasi diariamente, foram ganhando o suficiente para comerem, dormirem debaixo de um tecto, irem a umas discotecas e até comprarem umas roupinhas novas.
Às vezes uma delas passava a noite com um dos felizes incautos, que além de pagar pelo amor acabava mais leve, não só de notas mas de outros objectos que as arrojadas viajantes achavam bonitos ou valiosos.
Compraram umas sacas para lá porem esse espólio de que muito se orgulhavam.
- Oh minha! Isto é que tem sido umas férias bué de boas, heim? – perguntava uma.
- Demais, minha, demais. Nunca pensei que fosse tão fácil! – respondia a comparsa.
E prosseguiram felizes e contentes a sua volta a Portugal à boleia.
Num dia em que o sol já ía baixo mas o calor era ainda intenso, propôs a Sandra:
- Vamos dormir na praia?
- Bora lá miga! – concordou a gorducha.
Polegar em riste, coxas bem à mostra, e não tardou que parasse um sujeito, gordo como um chibo, cara vermelhuda e guiando um carro dos bons.
- Para onde querem ir? – perguntou.
- Para a praia – respondeu a magra, por esta vez.
- E tem onde dormir?
- Vamos dormir na areia que está bué de calor.
- E se dormíssemos os três? Mas num quarto bem ventilado – perguntou o tipo com a desfaçatez de homem vivido.
- Isso talvez se arranje! Mas não é de borla! – disse a loirita.
- Vinte e cinco euros para cada uma! – ofereceu o maganão.
- Cinquenta por uma bacanal com dois borrachos como nós? Nem pensar! Cinquenta, mas para cada uma. É pegar ou largar! – contrapôs a Marta.
O homem pensou só durante uns segundos.
- Ok! Mas pago metade antes e metade depois – disse o barrigudo.
Elas entreolharam-se e mais uma vez a gordefa falou:
- Está bem! Mas pagas o jantar às duas.
- Combinado! Entrem!
A pensão onde o automóvel parou não era muito longe.
Comeram bem, beberem melhor e, pouco depois, lá foram para o quarto.
Só o homem teve de se identificar, o que era a situação favorita das moças.
Ainda com as barriguinhas cheias, elas começaram a provocá-lo.
E não demorou muito que ele estivesse ao rubro.
Duas mocinhas assim novinhas, ovelhinhas de carne tão tenra e tão gostosa para ser comida eram uma sobremesa muito especial.
Tão especial que mal o homem explodiu de prazer, teve uma fortíssima pontada na cabeça. Só teve tempo para dizer:
- Ai a minha cabeça!
E ficou como morto.
Elas desataram aos gritos e acabaram por se escapulir no meio da confusão indo dormir numa praia, por ironia.
No dia seguinte, a autópsia revelaria que a causa da morte fora uma embolia cerebral, mas já as aventureiras íam a bordo de uma furgoneta guiada por um quarentão desprevenido.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Histórias curtas IV - Detective privado

O Joaquim Silva era um antigo militar da Guarda Nacional Republicana que deixou a actividade depois de ter sido acometido de um enfarte de miocárdio.
Tinha cerca de sessenta anos e um corpanzil de gorila.
Apesar de não ter muita instrução, possuía uma boa biblioteca de livros policiais que já lera mais de uma vez. Desde Poirot a Sherlock Holmes, passando por Maigret, todos os detectives da ficção policial eram os seus heróis.
Por isso, quando se reformou, resolveu tornar-se detective privado.
Tinha a sua pistola Beretta 81, calibre 7.65, e a máquina fotográfica Canon que, apesar de antiga e desactualizada, lhe servia muito bem para fotografar, até com zoom.
Criou um espaço na sua casa térrea para instalar um pequeno escritório em cuja secretária estavam pousados uma máquina de escrever e um telefone além de outros objectos menos importantes. Não se entendia muito bem com essa coisa dos computadores pois isso era para a malta mais nova, dizia. Nas estantes, além de uns dossiers, lá estava a livralhada policial.
E não se pode esquecer o velho Ford Fiesta preto, companheiro fundamental para cumprir as missões que encarava com todo o empenho, nem o telefone celular, novinho e capaz de tirar fotografias de forma mais discreta mas cujo manejo lhe dera muito trabalho a aprender.
A mulher com quem casara em segundas núpcias, Olinda de seu nome, tinha menos treze anos do que ele. Trabalhava em casa fazendo uns bordados e umas rendas que depois vendia sobretudo para lojas, mas também para alguns particulares.
O uso de betabloqueadores resultante do problema cardíaco que tivera e o obrigava a uma medicação constante acentuara aquilo que a idade já gerara naturalmente: disfunção eréctil (a que ele chamava, com tristeza, “falta de tusa”).
Mas lá ía consolando a sua Olinda como podia.
Os seus clientes eram sobretudo esposas ou maridos que supunham andar a ser traídos.
Quando o trabalho começava a faltar, punha um anúncio no jornal e não tardavam a aparecer mais umas investigações para executar.
As revelações fotográficas eram feitas num fotógrafo profissional com quem fizera um pacto de silêncio.
E assim se ía entretendo e ganhando mais algum dinheirinho, evitando ter de sobreviver somente com a curta pensão que recebia depois de tantos anos de dedicação à GNR.
Com maior ou menor dificuldade ía resolvendo quasi todos os casos que lhe apareciam.
Por vezes nada descobria de comprometedor e os clientes recusavam-se a pagar.
- Se o senhor não descobriu que o meu marido me trai, é porque não fez o trabalho como devia ser, portanto não lhe pago rigorosamente nada – dizia-lhe uma madame.
- Mas, minha senhora, se o seu marido lhe é fiel a senhora até devia estar feliz – ripostava, na sua bonomia, o detective Silva.
- E quem é que lhe disse que eu queria que ele fosse fiel? – surpreendia-o a cliente.
- Bom! Sendo assim, além de um detective, devia ter contratado uma menina que o seduzisse – ironizou o Joaquim.
- Não quero saber das suas sugestões para nada. Não descobriu, não recebe! – e a madame fechou-lhe a porta na cara.
E lá voaram uns patacos ao paciente investigador policial.
No entanto, felizmente, a maioria dos contratantes cumpriam o que haviam acordado com o determinado e zeloso fã de Hercule Poirot.

Num belo fim de tarde de primavera, o Joaquim Silva entrou em casa satisfeito da vida.
Foi dar um beijo na sua querida Olinda e depois sentou-se na confortável cadeira que usava para trabalhar na secretária.
O correio do dia ainda lá estava pois não tivera tempo de vir a casa desde que saíra, de manhã.
Deu uma olhadela por tudo e começou por abrir um envelope que trazia um cheque.
- Aqui está ele! Deu trabalho mas valeu a pena – pensou.
- E que será isto? Não tem remetente!
E abriu um envelope grande e mais pesado que o normal.
Tirou um papel e umas fotografias.
Começou a vê-las e por cada uma que via ía ficando mais branco e com uma cara perfeitamente aparvalhada.
Não conseguiu olhar para todas. Pegou no papel que as acompanhavam e leu:

Caro detective Joaquim Silva:
Contratei um colega seu para seguir o meu marido e, como pode ver pelas fotos que anexo, ele comprovou que a puta da sua mulher é amante do sacana do meu homem.
Agora espero que dê umas cornadas na sua Olinda que eu vou fazer o mesmo com o safado do meu marido que, brevemente, será ex-marido.


O corpulento ex-GNR estava lívido e permaneceu durante um tempo indeterminado sentado na cadeira. Começou a ficar mal disposto. Sentiu uma dor no peito e no braço que lhe era familiar. Levantou-se, deu dois passos e caiu redondo no chão.

domingo, janeiro 07, 2007

Histórias curtas III - A mulher da janela

Luciano casou com Judite há cerca de dois anos.
Foi nessa altura que compraram um pequeno apartamento num arrabalde da grande cidade e para lá foram viver. Recorreram ao crédito bancário como é corrente depois de o mercado do arrendamento se ter degradado até ficar moribundo.
Todas as noites, depois do jantar, costumavam ir os dois tomar um café num estabelecimento que ficava a uns quinhentos metros de casa. Iam a pé, salvo se as condições climatéricas não fossem as mais recomendadas para andar na rua.
Muito recentemente, a Judite deu à luz um rapazinho a quem puseram o nome de Carlos.
De então para cá, o homem começou a ir sozinho ao café depois de dar a ajuda habitual à mulher. Mas, normalmente, não demorava mais de uns vinte minutos, salvo se encontrasse alguém conhecido com quem conversava um pouco. Mesmo assim nunca se deixava retardar pois a Ju estava habituada à sua companhia e ao seu auxílio.
Numa das primeiras noites em que caminhou sozinho, a uma hora em que ainda havia muito claridade natural, reparou que numa janela de um primeiro andar elevado, situado a cerca de meio caminho entre a sua habitação e o café, estava uma belíssima jovem que o olhava com os seus enormes olhos negros de forma insistentemente provocadora.
E a cena repetiu-se nas noites seguintes. Quando regressava, já ela não estava à janela.
Aquele rosto lindo era de tal forma apelativo que o Luciano começava a ficar ansioso por a ver ainda não tinha saído de casa.
Ela nada dizia e ele também não. Pensava que qualquer ousadia ali, tão perto da sua morada, teria um risco elevado que ele temia correr. Mas não lhe faltava vontade de entabular conversa.
Até que, certa noite, estava ele a uma escassa dezena de metros de passar sob a janela quando a misteriosa rapariga deixou cair um papel amarrotado em bola e desapareceu da vista do Luciano.
Ele baixou-se, meteu-o no bolso e só quando tomava o café é que o leu:

“Sou uma Rosa que tem falta de água e pode estiolar
Rosa367@netcabo.pt

A partir do dia seguinte, quando o computador que partilhava com a mulher estava livre e ela na cama, trocava uns e-mails com a Rosa. Depois passaram a conversar em chat.
Ela era muito esquiva a todas as perguntas que ele lhe fazia, o que punha em redemoinho os seus pensamentos e lhe fazia crescer a vontade de a conhecer melhor. Porque não pessoalmente?
A situação prolongou-se durante mais de três semanas e, quando ele passava junto à janela já lhe abria um largo sorriso no que era correspondido pela Rosa.
Entretanto ela foi-lhe dizendo que vivia com os pais, que andava a cursar Direito, e que mal ele desaparecia na curva a caminho do café se retirava da janela e ía sentar-se a estudar.
O coração do Luciano começava a bater com mais força quando passava perto da enigmática mulher.
Até que, uma noite, recebeu um e-mail que dizia:
“Amanhã estou sozinha em casa. Vou deixar a porta do meu apartamento somente encostada. Entra sem medo. Se a do prédio estiver fechada, toca à campaínha que eu abro-a cá de dentro. Quero ver-te de perto e quero que me conheças melhor”.
Ele tremeu!
Finalmente iria poder estar perto da Rosa!
Na noite seguinte, enquanto caminhava ía olhando tão discretamente quanto possível para todos os lados e, quando se aproximou da porta 367 encostou-lhe o ombro e entrou rapidamente. Fez o mesmo no apartamento. Desta vez o coração parecia querer saltar-lhe do peito.
Ouviu uma voz linda, dizer:
- Eu estou aqui no meu quarto. Orienta-te pela voz e vem cá.
Ele assim fez até que parou diante de uma porta encostada. Era lá de dentro que vinha o cântico de sereia.
- Entra! – disse a jovem.
Ele empurrou a porta lentamente, com dois dedos, e abriu-a.
Viu uma cadeira de rodas com uma mulher sentada, de costas para ele.
- Entra e vai para junto da janela, meu amor – orientou ela.
O Luciano assim fez. Agora, podia vê-la sentada numa cadeira de rodas com o rosto lindíssimo a sorrir e o peito a arfar. Desceu mais a mira do seu olhar e viu que a Rosa tinha ambas as pernas amputadas pouco abaixo das virilhas.
A surpresa deixou-o mudo e o rosto fechou-se.
- Desculpa, meu amor, mas queria que soubesses isto deste modo. Em directo e sem preparações.
- Pois! – balbuciou o homem – De facto apanhaste-me completamente desprevenido.
E não sabia se havia de sair imediatamente ou ser simpático e permanecer junto dela.
Ficou.
Conversaram durante mais de meia hora e ela contou-lhe, com as lágrimas a correr, o acidente que lhe transformara a vida. Disse-lhe que não se chamava Rosa mas Mafalda e se comparava a uma rosa desmembrada removida do roseiral.
Finalmente, ele despediu-se beijando aqueles lábios de framboesa.
Regressou a casa com uma confusão de sentimentos: tristeza, compaixão, irritação, ternura, fúria...
Dormiu mal. A Ju até lhe disse de manhã:
- Esta noite estavas muito agitado. Aliás, tens estado assim há várias noites. Que se passa contigo? – quis ela saber.
- Nada, mulherzinha! Nada de especial, é só algum stress do trabalho que vem comigo para casa e para a cama – mentiu ele.
E, na noite seguinte, fez um novo percurso para o café.
Um percurso mais longo e que não passava junto da janela da Rosa.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Histórias curtas II - O crime perfeito

O Tenório era um finório.
Sempre vivera de expedientes, sem um trabalho seguro e consistente, e gostava de mostrar ser um macho. Dizia poder aquilo que não podia e ter aquilo que não tinha. Um bazófias.
E bem esperto fora ao casar-se, depois de vários anos de vida mais ou menos em comum, com a Miquelina.
Esta, trabalhadora e submissa, era o exemplo acabado de quem se deixou converter num ponto bem pequenino deixando para o seu amor de juventude o palco e as luzes.
Mas para o seu homem andar bem vestido, com os sapatos engraxados, brilhantina no cabelo e bigodinho de arame, esfalfava-se ela para ganhar um salário numa fábrica e para tratar da casa e do marido durante o resto do tempo.
Do Tenório e do filho Tiago, rapaz que não negava a paternidade ao navegar na vida como um barco que parava em cada mulher como se fosse um porto. Ultimamente andava metido com uma alternadeira dum bar manhoso que, segundo as más-línguas, o ía sustentando e aos seus vícios. Raramente vinha a casa dos pais e sabe Deus por onde andaria.
Também no prazer pelos copos os dois eram parecidos bem como no gosto de dar umas porradas nas mulheres.
Volta e meia, a Miquelina aparecia com um olho negro ou com umas nódoas noutras partes do corpo que, ao contrário do que dizia, não eram resultado de fogosas noites de sexo mas de umas “pancadinhas de amor”.
A diferença de gerações não era nada notória nos dois homens e para isso seguramente contribuíram os bons conselhos que o Tenório dera ao herdeiro. Alguns bons conselhos e muitos maus exemplos, diga-se.
Mas, com o passar do tempo, a Miquelina começou a detestar o amor da sua juventude e da sua vida. Começou a ficar farta do fala-barato e custa-caro. Cada vez mais saturada. Cheia até à ponta dos cabelos.
Numa tarde outonal de um domingo em que o homem ficara a dormir de tarde para curar a bebedeira do sábado à noite, e em que uma chuva miudinha afastava as pessoas das ruas daquele bairro de casas de renda económica, foi a mulher fechar a persiana da janela no quarto de casal do pequeno apartamento no 3º andar elevado onde viviam.
Mas não conseguiu.
Estava presa em cima e teimava em não obedecer aos puxões que a Miquelina dava na fita enroladora.
Só havia uma solução: tentar que o homem anuísse em dar uma ajuda.
Nessa altura já ele se levantara do sofá da sala onde adormecera e estava a engalanar-se para mais uma saída.
Mas, para não chamar alto e assim ferir os ouvidos sensíveis do consorte, ela preferiu chegar junto dele e dizer:
- Oh homem! A persiana do nosso quarto não desce. Podes ir lá dar um jeito?
- Não desce? E que raio é que tu fizeste para ela não descer? É sempre a mesma merda! Mexes numa coisa...estragas! – refilou o cada vez menos querido marido.
- Eu sei que faço muitas asneiras, Tenório, mas tu tens habilidade para arranjar estas coisas. Vai lá, está bem? – disse a mulher numa representação cénica de alto gabarito.
- Pronto! Eu vou já! – condescendeu o chefe da família.
E pouco depois a vidraça estava aberta e o homem sobre o parapeito da janela. Após algumas tentativas infrutíferas, berrou:
- Oh Lina! Traz-me a caixa das ferramentas e acende a luz.
Ela foi buscar o material e aproximou-se da janela entregando-lhe a velha peça de madeira carunchosa onde estavam guardadas as coisas com que eram feitos os arranjos em casa.
Ele segurou-a com uma mão e a Miquelina, rápida como um raio, deu-lhe um forte empurrão.
O corpo do Tenório tombou para o exterior e a força da gravidade fez o resto.
Ainda se ouviu um grito estridente mas que depressa se tornou abafado e, logo a seguir, um barulho surdo atestava que o homem tinha atingido o fim da viagem.
A Miquelina veio à janela e gritou:
- Socorro! Acudam! O meu homem caiu à rua!
E repetiu. E repetiu.
Mas interiormente, sorriu e pensou:
- Acabou a escravidão!
O Tenório jazia ensanguentado e um líquido vermelho ía lentamente tingindo o pavimento molhado junto do corpo inerte.
Alguém chamara o 112.
Depressa levaram o homem, mas já era cadáver.
Depois, tudo se processou como mandam as regras: autópsia, luto, burocracias, funeral, investigação sumária e, como vira muitas vezes na televisão, a Miquelina achou que tinha cometido o crime perfeito.

Durante os dias em que tudo isso decorria, a persiana continuava teimosa, sem baixar.
Com a auto-estima no alto, certo dia a Miquelina decidiu-se.
- Raios partam a persiana que não desce! Mas eu trato do assunto.
E, resoluta, abriu a parte envidraçada e empoleirou-se no balcão para dar um esticão forte na maldita.
E conseguiu!
A teimosa cedeu e desceu, mas a Miquelina também desceu indo cair mesmo junto do sítio onde jazera o corpo do seu antigo amor.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Duas centenas

Duas centenas são duzentos.
Duzentos é um número cardinal cujo ordinal correspondente é duocentésimo.
E o duocentésimo é este post especial que fiz para assinalar o facto.
Os primeiros, pobrezinhos e loucos, foram colocados on-line em 7 de Fevereiro de 2005.
Fazendo a média aritmética, obtemos um valor de cerca de 9 posts por mês.
Todos de texto em prosa, sem imagens nem som. Opção minha que vou manter.
Devo ser muito conservador ou muito teimoso. Ou serei simplesmente coerente?
E estou aqui para continuar até que o dedo me doa.
Já comecei uma nova série de pequenos contos a que chamei “Histórias curtas” e irei continuar a criá-las, intercalando-as com outros textos fora desse âmbito.
Espero que gostem!

Acaba de fazer um ano que deixei de trabalhar mas ainda faltam mais de dois para poder pedir a reforma. Tenho que saber gerir muito bem este tempo para não ficar gordo de físico nem de espírito.

Também está para breve o meu 58º aniversário. O tempo passa veloz, mas preciso de saber correr à velocidade dele pois, caso contrário, ficarei definitivamente para trás.
Digam lá se não é uma bonita idade!
Os presidentes das várias nações, os primeiros-ministros, os líderes carismáticos, os artistas consagrados, os cientistas laureados, os grandes empresários e gestores e ainda muitos outros, habitualmente estão nesta faixa etária que vai dos 45 aos 65 (ou, de forma mais restritiva, dos 50 aos 60) quando obtém a fama e o sucesso.
Não será esse seguramente o meu caso mas isso permite-me pensar que ainda não estou embalado para ser lançado ao lixo.

Está à porta um novo ano.
Em termos objectivos é uma data que se repete periodicamente como muitas outras sem que isso altere minimamente as coisas mas, psicologicamente, pode servir de catalizador de novas ideias.
Ano novo, vida nova, diz-se.
Vale o que vale e é muito pouco, mas é melhor que nada.
Portanto tenham um Feliz Ano de 2007.

E assim fiz um post do tipo 4 em 1.
Já ganhei aos champôs!

sábado, dezembro 23, 2006

Histórias curtas I - Uma noite de Natal

O velho Joaquim vivia só na sua pequena e velha casa do bairro pobre.
A mulher morrera, já fizera três anos.
Os filhos tinham seguido a sua trajectória na vida e estavam longe.
Reformado cedo por invalidez, vivia de uma pensão que mal dava para comer e comprar alguns remédios. Valia-lhe algum dinheiro que os dois rapazes lhe mandavam de vez em quando e a ajuda de alguns vizinhos, também pobres materialmente mas ricos de sentimentos.
Estava frio nessa véspera de Natal.
Mais um que iria passar somente na companhia das memórias de outros que foram bem mais alegres e das dores reumáticas que o atormentavam quasi em permanência.
Comeria uma sopa requentada, um pão com margarina, uma maçã já meia podre, beberia um trago de um tinto carrascão e depois iria para a cama com uma dor no peito que o vinha apoquentando nos últimos tempos. Ainda nada dissera ao médico do Centro de Saúde. E iria mais uma vez chorar a tristeza de ser velho e só.
Estava sentado no sofá sujo e roto quando bateram à porta.
Disse, tão alto quanto podia:
- Entre!
E a porta rangeu enquanto se abria devagarinho: era a vizinha Matilde, que também vivia em solidão, pois ficara sem um filho nas obras já há bastantes anos e sem o seu homem, muito recentemente.
- Posso, Sr. Joaquim?
- Entra Matilde, entra!
Ela aproximou-se do ancião e estendeu-lhe uma marmita amolgada pelo uso:
- Tem aqui um pedacito de um naco de peru que me foram levar a casa. Lembrei-me de lho trazer. Está quentinho.
- Muito obrigado! Entra e senta-te um bocadinho.
- Não posso demorar muito porque deixei o lume aceso.
- Estás a cozinhar? – perguntou o idoso.
- Estou! Este pedaço de peru saiu agora do forno.
- E vais passar a noite sozinha?
- Pois! Não tenho ninguém.
- E não queres vir fazer-me companhia? Comemos aqui os dois, conversamos e depois vamos dormir.
Ela pensou um pouco e depois retorquiu:
- Acho boa ideia! Então vou acabar de cozinhar e venho até cá com a comida.
- Eu podia ir a tua casa, mas tenho dores...
- Não se preocupe, Sr. Joaquim. Eu venho fazer-lhe companhia e assim também não me sinto tão solitária.
- Mas tu tens televisão e aqui não podes ver nada. Eu só tenho este velho rádio.
- Prefiro a companhia de uma pessoa que a da televisão. Então até já!
E a mulher saiu.
Pouco depois de ela voltar com uma cesta razoavelmente farta, começaram a comer e foram conversando.
Já perto da meia-noite disse ele:
- Matilde! Estou com frio. Vou-me deitar. Queres vir para a cama comigo? Assim ficamos os dois mais quentinhos.
Ela não contava com aquela proposta, mas não demorou muito a responder:
- Está bem, Sr. Joaquim! Agora vou arrumar a loiça e dar uma limpadela.
- Eu espero por ti!
E não tardou muito que ambos estivessem na cama, bem agasalhados, conversando até que o velho adormeceu.
Manhã cedo a mulher acordou e levantou-se como era seu hábito.
O homem estava quieto.

A luz do sol bateu-lhe no rosto sereno mas lívido de morte.
A Matilde tocou-lhe e sentiu-o frio e inerte como um pedaço de mármore.

sábado, dezembro 16, 2006

Natal e Ano Novo na grande família

Desde que me lembro de mim próprio, e até aos onze anos, passei este período Natalício em Vila Praia de Âncora, vila onde nasceu a minha mãe.
A sua irmã mais velha, Felisbela de seu nome (mas a quem eu chamava de tia Bela) e o seu marido Simão (o tio Mão) eram proprietários de uma pensão que mais tarde se converteu em hotel.
Tinham três filhos, rapazes: O Jorge, o José (Zé) e o Fernando (Nando). A diferença de idades entre eles era de cinco anos e eu era mais novo que o Nando também cinco anos.
Poderei dizer que o Jorge foi o meu primeiro ídolo. Interventivo, autoritário, machão, com perfil de líder, aparecia-me como o exemplo a seguir. Foi o único que fez tropa, ainda antes de começar a guerra colonial; mas escapou por pouco.
O Zé era exactamente o oposto: ainda mais alto e forte que o irmão mais velho era de uma calma olímpica (entendia-se às mil maravilhas com o Sr. Oliveira a quem dei destaque no post anterior), calado, preguiçoso, pouco limpo, a sua personalidade, que já não era muito forte, mirrava perante a do Jorge.
Livrou-se da tropa graças ao pé chato e a uma valentíssima cunha.
A sua preguiça era tal que uma vez foi descoberto a tomar um banho de imersão numa banheira que enchera previamente com água e detergente Omo; estava a ler. Interrogado sobre o que se passava, disse serenamente que assim não precisava de se cansar a esfregar-se. O Omo tirava-lhe o lixo do corpo, disse. Mas não lhe poderia tirar a bondade. Era um bom rapaz e foi durante toda a vida (já faleceu) um bom homem. Bom demais, apetece-me acrescentar.
O Nando era aquele com quem mais eu brincava, obviamente. Era mais baixo do que qualquer dos irmãos e não sendo um líder, pelo menos era mais despachado e expedito que o Zé.
Como durante a época baixa a pensão dos meus tios quasi não tinha hóspedes, fazia-se a ceia de Natal na principal sala de jantar, numa longa mesa bem junto de um estupendo fogão de sala que estava acesso do despertar ao deitar.
Mas, naturalmente, havia outros comensais.
Desde logo os quatro Castilho; o meu pai Fernando, a minha mãe Julieta (a mais nova das quatro irmãs), eu e a mana Fernanda.
De Valença vinha a irmã número dois, a Arminda e o seu marido António (que até era primo direito) com a filha Cecília (Cila), mais nova do que eu uns cinco anos e que era considerada por todos como “um bicho do buraco” devido à sua insociabilidade e mau feitio que a faziam estar sempre agarrada à mãe.
A terceira das quatro irmãs, a Maria José (e a única sobrevivente daquela geração com os seus actuais noventa e um anos mas a quem o Parkinson criou bastantes limitações físicas) vivia também na vila piscatória com o marido António Ribeiro (mas a quem todos chamavam Ribeiro e eu, em particular, de padrinho Ribeiro, pois esses tios eram os meus padrinhos). As relações entre as manas Bela e Zé (também conhecida na vila como a Quinhas) não eram as melhores nessa época, pelo que nos primeiros anos essa parte da família não aparecia. Se era convidada ou não, é coisa que me escapa.
Mas um certo ano, o tio Tone de Valença, outro homem bom e azarado na vida, fez questão de ir buscar toda a família Ribeiro para vir cear à pensão e assim se fizeram as pazes.
Tinha o casal duas filhas: A Julieta (Mimi) da idade do primo Zé e a Delfina (Fininha) mais nova dois ou três anos. Já elas eram adolescentes quando nasceu um terceiro, o António José (Tone Zé).
Mas havia ainda mais pessoas à mesa.
Uma professora primária, solteirona, culta, do reviralho e leitora fidelíssima do jornal “A República” que vivia num quarto da pensão: a D. Maria Portela.
E também as empregadas (criadas, como se dizia) mais antigas e dedicadas se sentavam nessa mesa na noite de Natal. Várias tiveram esse privilégio, mas vou lembrar apenas três: A Ernestina (Tina) que era considerada meia tola, a Idalina e a Esmeralda que viria a falecer com trinta e poucos anos com um carcinoma.
Devo acrescentar que os protagonistas eram os mesmos durante o jantar de Ano Novo, só que desta vez as empregadas não tomavam assento mas entrava sempre a família Oliveira de que falei no texto anterior:
O Antoninho, a Mariinha, o Carlos, a Manela e o Tatuna.
Ocasionalmente havia outros comensais mas vou omiti-los, agora.
Na ceia de 24 de Dezembro o prato forte era o bacalhau cozido com batatas, couves, cenouras e ovos. Mas também o polvo cozido era sistematicamente utilizado. Nunca percebi qual a origem desta tradição familiar. Mesmo mais tarde, quando as noites de Natal passaram a ser na casa dos meus pais, no Porto, nunca a minha mãe se esquecia do saboroso molusco.
Como naquele tempo não bebia álcool, não tenho a mínima ideia de quais os vinhos utilizados.
Claro que não faltava uma vasta gama de doçaria: bolo de prata, bolo índio, bolo negrita, salame de chocolate, leite-creme, pudins e, além de outros, os indispensáveis bolo-rei e rabanadas, quer fritas quer de mel.
E lá estavam as nozes, amêndoas, figos secos, avelãs e os pinhões com casca que também serviam para jogar ao “rapa”.
Na passagem de ano havia ainda a abertura do champanhe e umas chouriças de sangue doces, resultantes da matança do porco que era feita na semana entre as duas festas, de sabor ímpar e que nunca comi em mais nenhum sítio.
A grande árvore de Natal, profusamente iluminada e bem colorida, e um presépio atapetado com espesso musgo que íamos buscar ao monte aquando da procura de um pinheiro o mais perfeito possível, eram ornamentos obviamente sempre presentes.
Um jovem empregado, o Fausto, era o palhaço de serviço: na primeira dessas noites era vestido com uma fatiota de Pai Natal e entrava na grande sala com uma campaínha, anunciando:
- Já deixei os presentes nos sapatos que estão em cima do fogão!
De facto, logo que o enorme fogão a lenha estava frio e limpo, toda a gente lá colocava um sapato e mal o Bouças (nome pelo qual era mais conhecido o Fausto) fazia o seu anúncio e se sentava à mesa para comer umas doçarias – e bem o merecia o nosso Pai Natal – toda a gente se dirigia para a cozinha com a miudagem à frente, a correr.
Era o melhor da festa, com os pequenos ansiosos por saber o que lhes tocara de sorte, e os mais velhos a apreciar a meninada.
Mas também na passagem de ano o Bouças tinha as suas performances: pouco antes da meia-noite aparecia vestido de velho maltrapilho com a ajuda de sacos de serapilheira costurados a preceito, uma maquilhagem adequada e com um letreiro a dizer: ANO VELHO.
Pouco depois da meia-noite e de cumpridos todos os toques entre taças (das quais, invariavelmente saíam duas ou três estilhaçadas) que acompanhavam os votos de um Bom Ano lá voltava o nosso actor, desta vez seminu, vestindo só uma tanga e tiritando de frio, com as palavras ANO NOVO pintadas a vermelho no peito.
Voltando ao Natal, depois era toda a gente a ver as prendas dos outros, coisa que não me agradava muito pois, em vez de poder usufruir o prazer de usar os meus novos brinquedos, eram os grandes que se entretinham a brincar com eles.
O Sr. Oliveira não podia deixar de tirar umas fotos e alguns adultos retomavam a “sueca” com que se haviam entretido durante uma parte da noite.
E, ir para a cama, só bem tarde!
Por isso, nas manhãs seguintes dormia-se quasi até à hora do almoço.
Não posso deixar de referir um dos rituais, para mim mais impressivos, desses dias: a matança do porco.
Numa das manhãs seguintes ao Natal, por volta das nove e meia, dez horas, apareciam os homens contratados para a matança. Eram quatro ou cinco pescadores (penso que andavam na faina do bacalhau mas vinham passar esta quadra a casa) duros e com os rostos tisnados pelo sol, dos quais me lembro só do Pica e do Afonso.
O velho e já queimado banco longo e baixo era colocado no sítio para cumprir o seu papel de altar do sacrifício.
Feitos os preparativos, chegava a altura de ir buscar o suíno que, normalmente, era o mais pesado da pocilga – uma vez o bicho pesava quinze arrobas o que motivou que fosse notícia num pequeno jornal – e que, como que premonitoriamente, começava a grunhir desde logo. E, preso por uma corda (que mais de uma vez rebentou o que obrigou os matulões a caçarem-no à mão) era conduzido pelos contratados, pelos meus primos mais velhos, pelo Bouças e por mais um ou outro empregado da casa, para a tábua onde, a custo, o deitavam.
E os sons que ele imitia eram cada vez mais estridentes e lancinantes. Quando estava bem preso e seguro pelos homens, o Pica, matador exímio, espetava a longa faca no coração do animal. Os grunhidos atingiam o auge até que começavam a esvair-se, assim como o reco se esvaía em sangue que era recolhido num enorme alguidar.
Uma vez, tratando-se de um porco de menor envergadura, os verdugos não estavam tão compenetrados na sua função e deixaram que o suíno se escapulisse com a faca cravada no corpo.
Uma outra vez o Pica não acertou no alvo à primeira o que aumentou o tempo de agonia do bicho.
Depois de bem morto, era o momento de queimar o pêlo para o que se utilizava palha em chamas.
Seguia-se o lavar e rapar, com facas e pedras ásperas, o couro do bicho. Só nesta fase o meu pai consentia que eu me aproximasse da mesa da matança e nela também participavam algumas mulheres, sobretudo vertendo água com regadores sobre a couraça do desgraçado. Com todo o mundo molhado, era o momento de viragem da cena dramática para a divertida.
Finalmente, com a vítima de barriga para o ar, era o momento de a abrir e começar a remover os seus órgãos, pois quasi nada era desperdiçado. Havia uma aplicação posterior para tudo.
Finalmente, já mais leve, era levado para um armazém onde era içado pelas patas traseiras e cheio com ramos de loureiro. A bexiga, inflada com ar soprado por alguém, era colocada como balão ornamental junto da besta derrotada.
Possivelmente esqueci-me de muitos pormenores destes fabulosos períodos de Natal e Ano Novo passados no seio da grande família do meu lado materno, em Vila Praia de Âncora.
Espero que me desculpem por isso e que tenham uma Festas Felizes!
Muito felizes!