Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

A minha fotografia
Nome:
Localização: Maia, Porto, Portugal

domingo, outubro 29, 2006

Uma família burguesa - parte IX

Sozinhos na sala e com o Jocas entretido no seu quarto a brincar, Bárbara não resistiu e beijou suavemente os lábios do amigo.
- Como é a vida, Mário! Há dezasseis anos que me fizeste viver alguns dos melhores dias da minha vida. Foi em Moledo, em Agosto de 1990, nunca o poderei esquecer, que com dezassete anos me deste o primeiro verdadeiro beijo e fizeste de mim uma mulher. Sabes bem que isso marca de forma indelével. Eu gosto muito do meu marido, mas...
- Minha Bárbara! Minha amiga! Não imaginas o efeito que provocas em mim, mas acho que devemos manter um comportamento que não me faça sentir culpado perante o meu amigo e sócio – recuou o belo solteiro.
- Claro que sim! Mas não podia deixar de te dizer o que significaste para mim. E ainda significas. Mas, como se costuma dizer: amores de praia enterrados na areia. E eu para ti não fui mais que outra nova conquista – disse a mulher de olhos de mar.
- Olha que talvez te enganes! Mas...e se preenchêssemos a declaração amigável? – recuou novamente o leal sócio de Ricardo.
- Vamos lá, então!
E começaram a fastidiosa tarefa, feita com muitos risos, provavelmente nervosos.
Tocou o telefone.
Bárbara foi atender.
- Ah! És tu Ricardo? Que se passa?
- Lembrei-me de telefonar ao meu pai para te emprestar o Toyota pois ele tem o carro da empresa. Assim não é preciso nenhum carro de substituição. Se ele pudesse trazê-lo cá esta noite, seria óptimo – disse a voz do outro lado da linha.
- É uma ideia estupenda! Por mim está aprovada – disse ela.
- Pronto! Vou tratar do assunto. Beijinhos e um abraço ao doente. Até daqui a pouco.
- Até já! Não demores – despediu-se a bela loira.
E Bárbara desligou, explicou a Mário o teor da conversa e continuaram a preencher o papel enquanto íam conversando.
A certa altura, Bárbara disse:
- Agora vou ter de preparar o jantar. É a primeira vez que vou cozinhar para ti. A empregada só vem de manhã e eu desenrasco sempre esta refeição. Dantes íamos comer mais vezes a restaurantes. Agora, porque o Jocas é pequenito, quando estou preguiçosa mando vir a comida de fora.
- Está à vontade! – disse ele.
Algum tempo depois entrou Ricardo.
- Então? Tens dores? – perguntou.
- Algumas, mas já tomei o analgésico. O que me deram no hospital já estava a deixar de fazer efeito. Está tudo bem na firma? – quis saber o sócio.
- Está tudo sob controlo! Claro que tu vais fazer falta...
- Eu posso ir para lá e farei o que puder. O que não puder, ponho a estagiária a executar sob as minhas ordens. Mas a fractura é ligeira e um mês de imobilização deve ser suficiente. O ortopedista da urgência o disse – falou o optimista informático.
- Vou ver a Bárbara! Já venho! – e Ricardo dirigiu-se à cozinha.
Mas logo apareceu o filho João que trepou por ele acima para lhe dar um beijo.
- Olá, papá!
- Olá, meu filho! Vamos ver a mamã?
Entraram na cozinha.
- Boa tarde, mulherzinha! – saudou ele enquanto lhe dava um beijo.
- Olá, Ricardo!
- Oh papá, o aleijadinho vai jantar cá? – disse o puto.
Ambos soltaram uma gargalhada.
- Vai, filho, vai! E vai ficar em casa até estar melhor – esclareceu o progenitor.
E mudando de assunto:
- Falei com o meu pai e ele vem cá depois do jantar trazer o Toyota.
- Que bom! – exclamou a mulher.
- Vou fazer um pouco de companhia ao Mário – disse o marido e saiu, sempre com o Jocas às cavalitas.
Passaram-se uns quinze minutos e a campaínha da porta tocou.
- Ah...deve ser a Fernanda. Ela disse que passava por cá para dar uma ajuda e ver-te – informou o anfitrião.
Era, de facto, a funcionária da empresa.
- Posso entrar? Então como está o Sr. Engenheiro? – perguntou.
Conversaram os três durante um pouco até que a Fernanda disse:
- Mas eu vim cá também para dar uma ajuda.
- Vou chamar a minha mulher – correspondeu o Costa Lima filho.
Pouco depois a Bárbara entrou na sala e cumprimentou com dois beijos a Fernanda. Trocadas as saudações costumeiras, esta disse:
- D. Bárbara! Eu vim cá para dar uma mãozinha. Que posso fazer?
- É muita simpatia da sua parte. Olhe! Pode ir tratando aqui da refeição enquanto eu preparo os quartos, especialmente o do Mário – sugeriu a dona da casa.
- Com certeza! Se tiver alguma dúvida eu chamo por si.
A Nanda fez uma pausa e perguntou:
- Então o Eng. Mário sempre vai ficar aqui?
- Sim! Não tem ninguém em casa para tratar dele – respondeu a loira.
- Talvez se arranje! – avançou a morena.
- Sim? Conhece alguém?
- Eu!
Bárbara parou durante uma fracção de segundo mas rapidamente se recompôs.
- Mas ele vai precisar de alguém durante a noite.
- E eu não tenho medo dele! – e riu-se, a bela mestiça, enquanto dizia isto.
- Não sei se será uma boa ideia! – disse, com o mais bem composto sorriso que conseguir colocar no rosto, a Bárbara.
- Não há melhor do que falar com ele – sentenciou a Fernanda.
- Pois... – foi tudo o que disse a educadora enquanto se retirava para os quartos.
Entretanto o anfitrião convidara a informática a jantar com eles. Ela anuiu depois de ter telefonado à mãe.
Algum tempo depois, Bárbara convocou todos para a mesa, já com o filho de barriguinha cheia.
Estavam a começar a comer um bife quando o Mário disse:
- Agora precisava de ajuda!
Os três adultos levantaram-se quasi ao mesmo tempo, mas foi a morena quem tomou a dianteira.
Enquanto cortava a carne foi dizendo:
- Já na cozinha disse à D. Bárbara que acho que o Eng. Mário podia ir para casa dele. Vocês tem um filho pequeno que dá muito trabalho e não estou a ver o Eng. Ricardo ou a senhora a tratar do Eng. Mário durante a noite, por exemplo. Eu prontifico-me a transportá-lo no meu carro e a ficar na casa dele, dormindo lá, até estar em condições de fazer a vida normal. A minha mãe tem cinquenta e cinco anos e pode muito bem passar uns dias sem mim. Claro que irei lá todos os dias. Que diz, Eng. Mário? – expôs, com os outros a beberem as suas palavras, a Fernanda.
- Eu...
Mário fez uma pausa, recuperou e respondeu:
- Eu acho que estou a dar trabalho a demasiadas pessoas. Sinceramente, sinto-me muito grato por tudo o que o Ricardo e a Bárbara estão a fazer por mim, mas esta solução que a Nanda propôs parece-me muito razoável.
Bárbara já tinha percebido que Mário não queria recordar os tempos antigos e calou-se, não sem que intimamente ficasse com muita raiva da outra. Ricardo percebeu que a colaboradora de ambos na empresa estava a jogar uma cartada forte e achou que a decisão devia caber ao amigo. Como ninguém falava, avançou:
- Pois a minha opinião é a seguinte: O Mário tem duas alternativas e acho que deve ser ele a optar.
- Então, com os meus mais sinceros agradecimentos aos dois, opto por amanhã ir dormir a minha casa. Depois combino melhor com a Fernanda como vamos fazer – decidiu o charmoso trintão.
- O juiz decidiu, está decidido! – disse o Ricardo, não podendo esconder um sorriso mordaz.
O sorriso que Bárbara fez era diferente, era triste.
E a grande vencedora, Fernanda, tinha os lindos olhos negros com um brilho cintilante.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Uma família burguesa - parte VIII

Uns dias depois do encontro de Mário Jorge e Bárbara num café da Maia, e logo após o almoço, conduzia ela o seu Peugeot 206 mas fazia-o absorta nos seus pensamentos.
Ao chegar a um cruzamento em que não tinha prioridade continuou sem parar, ou melhor, parou encostada à porta de um reluzente Honda Civic.
Só uma fracção de segundo antes da pancada a bela loira de olhos azuis se deu conta que ía bater. O choque não foi forte pelo que o cinto de segurança cumpriu muito bem a sua função. Ainda atrapalhada pelo ocorrido, reparou que no carro parado à sua frente, e a olhar para ela, estava o Mário Jorge.
Saiu do carro sem dificuldades e dirigiu-se ao amigo:
- Mário! O que eu fui fazer! Estás bem?
- Estou! Quero dizer, apanhei aqui uma pancada no braço esquerdo mas não deve ser nada de especial. E tu? – perguntou o engenheiro.
- Eu estou bem! A culpa é toda minha! Vamos arrumar os carros e depois eu levo-te ao hospital para ver o braço. Pode estar partido! – disse a jovem mulher, preocupada.
- Está bem! E já vemos se os carros estão em condições de andar – anuiu o homem.
O cruzamento ficava num local com pouco movimento, pelo que não havia grande confusão no trânsito nem muitos mirones.
Verificaram que o Honda do informático estava essencialmente com a porta do lado esquerda bastante amolgada, enquanto o Peugeot da amiga apresentava danos na parte frontal mas que, após uma observação cuidada, não impediam o carro de andar. Só os faróis estavam partidos; o resto era chapa amolgada.
O mais danificado era o Mário pois o cotovelo esquerdo foi, de algum modo, tocado.
Era preciso decidir qual das viaturas usar para irem ao Hospital de S. João, o mais próximo.
Eis que um dos mirones disse:
- O melhor é deixarem aqui os carros e chamar um táxi para os levar.
- Pois! – concordou o sinistrado – eu tenho o número dos Táxis Maia no meu telemóvel. Vou ligar.
- Deixa que eu ligo! – disse a Bárbara.
- Eu conheço melhor o celular. Deixa -me ligar.
E, embora com alguma dificuldade, fê-lo.
Entretanto a Bárbara ligou do seu para o marido.
Ricardo ainda tentou que ela regressasse a casa dizendo que ele trataria do assunto.
- É melhor deixares-me tratar a mim. Além de o Mário ter de ser visto no hospital, também pode ser que eles me queiram tirar alguma radiografia, por precaução, e além disso temos de fazer a declaração amigável. São três da tarde. Hoje nem eu nem o Mário vamos trabalhar. Não te preocupes que a tua mulherzinha já está recomposta do susto e sabe tratar destes assuntos. Se houver alguma coisa de especial eu ligo-te. Está bem, meu amor? – falou ela.
Entretanto chegara um táxi.
- Olha! Chegou o táxi! Vamos fechar os carros e depois vamos directos para o S. João – comunicou para o marido.
- Pronto! Confio nas tuas capacidades. Mas vou-me mantendo em contacto – rematou o Ricardo.
Pouco depois seguiam os dois amigos no banco de trás do táxi.
Bárbara ligou para o infantário a dar conta do ocorrido. Desligado o aparelho disse:
- Que chatice, Mário! O que eu te fui fazer! – e, tocando-lhe levemente no braço – Dói-te? Dói-te?
- Um bocado! Parece que a dor está a aumentar – disse ele, já um pouco mais preocupado.
- Coitadinho do meu menino! – e deu-lhe um beijo na face – E foi logo a ti que eu fui magoar!
- Oh Bárbara! Não te mortifiques. O pior que posso ter é uma fractura sem gravidade e daqui a pouco tempo estou bom. E o braço direito, que é o que utilizo mais, está totalmente operacional – procurou ele acalmá-la.
A viagem decorreu com Bárbara a fazer tantos mimos ao Mário que este já agradecia a Deus, em pensamentos, por aquilo ter acontecido.
Depois de terem chegado ao serviço de urgência, ao homem foi diagnosticada uma fractura no cotovelo, pelo que saiu de lá com o braço engessado. Ela também foi alvo de alguns raios X mas nada foi detectado.
Chegados ao exterior, Ricardo estava esperando-os.
- Então? – perguntou.
- Eu não tenho nada! – disse a Bárbara enquanto o beijava na face e ele a acariciava – Mas o Mário tem uma fractura no cotovelo.
- Vê-se bem! É grave? – perguntou o Ricardo.
- Não! Não é grave! Daqui a um mês venho tirar o gesso e depois vê-se se preciso de fisioterapia. Ah...tenho de comprar um analgésico! – acrescentou o sócio.
- Enfim! Coisas que podem acontecer a qualquer um. Mas podia ser muito pior. Valha-nos isso! – concluiu o Costa Lima mais novo.
- E agora sugiro o seguinte. – falou o Mário Jorge – Vamos para a Maia no carro do Ricardo. Depois vamos levar os carros para as oficinas, ainda com a ajuda do Ricardo, pois eu não posso conduzir. E, se tivermos tempo, ainda preenchemos de tarde a declaração amigável. Senão eu vou a vossa casa à noite e fazemo-lo lá. Amanhã de manhã entregamo-la nas seguradoras.
- É um bom programa – disse o Ricardo – mas tu vives só e não tens quem te ajude a vestir e despir, tens de andar de táxi, etc.
E virando-se para a mulher, perguntou-lhe:
- Oh Bárbara! E se ele ficasse alojado em nossa casa durante uns dias? Eu e tu dávamos-lhe apoio e ficava perto do escritório. Além disso um carro de substituição não lhe serve de nada pois não pode conduzir; para ti é que já seria útil.
- Por mim, aprovo a ideia! E fica durante o mês em que tiver gesso? – disse, rapidamente, a mulher.
- Mas isso seria uma maçada muito grande! Não me parece correcto. E um mês inteiro...nem pensar! Eu posso lá ficar uma noite enquanto resolvo o problema do apoio em casa. Depois tenho de ir à vida – ripostou o ferido.
- Também a culpa de estares assim foi minha! É uma forma de me ressarcir do meu erro – disse ela.
- Então quando formos ao Porto levar o teu carro passamos também por tua casa e trazemos uma mala com as coisas essenciais – alvitrou o Ricardo.
- Mas antes passamos na farmácia, está bem? – disse o Mário Jorge.
- Pronto! Está combinado! Vamos então que já é tempo – disse, resoluta, a jovem mamã.
E pouco depois estavam no local do acidente.
Bárbara levou o carro dela para uma oficina da Peugeot e o marido conduziu o Civic para o Porto com Mário como passageiro.
O Honda Accord ficou no local.
- Depois venho cá buscá-lo – disse o Ricardo.
Cerca de uma hora depois, Bárbara estava em casa para onde se deslocou de táxi depois de passar pelo infantário para dar algumas indicações e trazer o Jocas.
Mais uma hora e eram os homens quem chegava.
- O Mário fica aqui enquanto eu aproveito o táxi que está lá em baixo e vou buscar o meu carro. Depois ainda vou passar pelo escritório para despachar os assuntos urgentes. Vocês podem, entretanto, ir fazendo a declaração amigável – sentenciou o filho do Tó Zé enquanto beijava a mulher e dava uma palmada na cabeça do amigo.
Quando chegou à sede da empresa, teve de contar tudo com algum pormenor.
Foi então que falou a Fernanda:
- Sr. Engenheiro! Eu posso ir para sua casa dar uma ajuda. Se chegar à minha mais tarde não há problema pois a mãe desenrasca-se muito bem sozinha.
- Francamente, não vejo necessidade...
- Porque é homem! Já viu a sua mulher a ter de tratar de tudo? Da cozinha, do filho, de si, do engenheiro Mário...ainda por cima empenado!
- Acho que não é necessário, mas agradeço-lhe muito. Em última análise vinha para cá a minha mãe.
- Olhe, Sr. Engenheiro! Eu vou tratar dos assuntos que tiver que tratar aqui e, quando me for embora, passo por sua casa, se me der licença. Aliás gostava de ver o engenheiro Mário.
- Pronto! Pode ser. Agora vou despachar aqui as coisas mais urgentes. Até já!
E fechou-se no seu gabinete.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Uma família burguesa - parte VII

No dia seguinte à hora do lanche, Bárbara, como de costume, deslocou-se a pé até um café próximo para comer e beber qualquer coisa mas, sobretudo, para desanuviar do ambiente do infantário. Desta vez fê-lo sozinha porque um pequeno problema a reteve e impediu de ir com outras duas educadoras como era habitual.
Sentou-se numa mesa e pediu um galão e meia torrada.
De repente viu entrar o sócio do seu marido, o Mário Jorge, que não costumava aparecer naquele local. Ele também reparou logo nela, pois o seu ar de nórdica chamava sempre a atenção, e dirigiu-se à mesa da loira.
- Olá, Bárbara! – disse.
- Olá, Mário! Não é normal ver-te por aqui – disse ela.
- Pois não! Mas estava perto e vim tomar um café.
E virando-se para uma empregada:
- Um café, por favor!
Olhou para a Bárbara e disse:
- Tu estás com um óptimo aspecto. É raro ver-te. Estás sempre metida no infantário?
Mário Jorge Gomes tinha trinta e quatro anos, era muito alto e um pouco magro, usava o cabelo liso e preto bastante comprido, tinha uma tez clara, os olhos muito escuros e uma voz cava. Uma verdadeira estampa, consideravam as mulheres.
Solteiro, mudava de namorada como quem muda de camisa.
- No infantário e em casa. – respondeu ela – Mas também raramente te vejo.
E ele, em surdina:
- Prefiro que não me vejas e não te ver. Afinal és mulher do meu amigo Ricardo e não quero ser um elemento desestabilizador do casal.
E ela respondeu também muito baixinho, depois de se certificar de que ninguém poderia ouvir ou desconfiar de qualquer coisa, por mais ínfima que fosse:
- Já tenho muita mais maturidade do que nos outros tempos. Não há qualquer problema em conversarmos de vez em quando – como que convidou ela.
- Acredito! Mas deixa estar as coisas como estão! – respondeu ele, obviamente procurando evitar o regresso a uma situação do passado.
Bárbara percebeu e perguntou:
- Tu continuas solteiro, não é verdade? Mas já tens idade para assentares. Deves ter...trinta e quatro! – adivinhou a loira.
- Exactamente! Mais um ano do que tu – disse ele.
E continuou:
- Quando vais lá à empresa ver as novidades? Já temos mais dois funcionários!
- E eu não haveria de saber? Vou lá poucas vezes, confesso, mas algumas; só que tu andas muitas vezes por fora e não me costumas ver – explicou a jovem mamã.
- Sim! Saio mais do que o teu marido. – e, mudando de assunto – Ah...o teu filho está fixe, eu sei. O Ricardo farta-se de falar nele – disse o informático.
- É verdade, Mário! Felizmente está um miúdo cem por cento.
Mas concluiu:
- Bom! Vou andando! Tu continuas um borracho... – provocou ela, entre lábios.
Ele também se levantou, pagou e despediram-se na porta com dois beijos.
Mário Jorge entrou no seu Honda Civic enquanto ela caminhou a pé, em direcção ao local de trabalho, sob o olhar perscrutante do homem.

Joana e o marido, Manuel António Félix acabaram de entrar em casa dos Costa Lima onde foram jantar.
Desceram todos para a sala de estar da cave pois, embora o Verão tivesse terminado, ainda era aí que a temperatura estava mais confortável.
Lena e a filha mais nova foram até à cozinha dar uma ajuda à Dina e mantiveram-se conversando. Como professoras que são, o tema favorito era o ensino, mas intermeado de um pouco de culinária.
Desta vez a empregada Fátima não ficou para ajudar.
Passados alguns minutos desceram e encontram Manuel António, António José, Cláudia e Ana Maria a conversar animadamente. A idosa Maria da Conceição ainda estava no seu quarto onde dormiu um pouco e só desceria quando fosse tempo de se sentar à mesa.
- Cláudia! Vou ver a Vó. Queres vir? – perguntou a morena Joana.
- Está bem! E já a podemos trazer para baixo – anuiu a jovem adolescente.
- Nós vimos já! – avisou a Joana.
E subiram para o piso mais elevado.
- Um dos grandes problemas das casas com escadas é o obstáculo que constitui para os idosos. E já nem falo em deficientes – disse Lena, procurando desviar o futebol de tema da conversa.
Sogro e genro são dois portistas muito aferroados e não prescindem de falar sobre o Porto, o Pinto da Costa, os árbitros, e tudo aquilo que faz parte desse espectáculo ímpar para uns e execrável para outros.
Ana Maria escutava-os com atenção e também ía dando o seu parecer, embora não estivesse tão bem documentada como os dois homens.
Lena desistiu de falar e permaneceu observando os outros.
Reparou essencialmente em Ana Maria. Como estava diferente de há poucas noites atrás quando tinham sido Ricardo e Bárbara os visitantes! Mais alegre, atenta, interventiva e apoiava quasi sempre as teses do cunhado.
Passado algum tempo desceu a Cláudia.
- A Vó já está sentada na mesa e a Joana a falar com ela.
- Eu vou ver se o jantar está pronto – disse Maria Helena, levantando-se.
Poucos minutos depois assomou às escadas e chamou:
- Podem lavar as mãozinhas e vir para a mesa. O jantar vai ser servido.
E desapareceu de novo.
A refeição decorreu animadamente e todos participaram nas várias conversas que às vezes se cruzavam e obrigavam o anfitrião a pedir um pouco de ordem.
As senhoras e Cláudia íam ajudando a dedicada Dina para lhe aliviar a carga, embora mais duas pessoas do que o normal não fosse um acréscimo de trabalho por aí além. Mas uma ajudinha sabia sempre bem.
A Avó São, obviamente, estava muito sentada no seu lugar e Ana Maria não deixava de ouvir atentamente o que dizia o professor de Filosofia na Universidade do Porto. E intervinha sempre que lhe parecia oportuno.
Já passavas das onze quando a Joana disse:
- Vamos embora porque amanhã é dia de trabalho!
E levantou-se.
- Espera mais um bocadinho – disse Ana Maria.
- Realmente a Joana tem razão. Ainda temos de ir para Leça e amanhã eu tenho de me levantar cedo – concordou o marido.
- Para a próxima venham jantar a uma sexta ou um sábado – disse, contristada, a Ana Maria.
Terminadas as despedidas e já sem os dois convidados em casa, Lena dirigiu-se à filha:
- Tu hoje estavas bem animada. Gosto de te ver assim.
- O Manel é uma pessoa que me dá gosto ouvir falar e também adoro conversar com ele.
Fez uma pausa e disse:
- Oh mãe? Não achou que havia muita frieza entre ele e a Joana?
- Bom! Eles não vieram cá para falar um com o outro, não é?
- Claro! Mas eu acho que havia! E, se calhar, é por causa de a Joana não poder ter filhos – atirou a filha.
- Não me pareceu que houvesse qualquer problema entre eles – insistiu a mãe.
- Eu não falei em problema, falei em frieza, distanciamento...mas isso de ser estéril pode muito bem ser uma causa de mal-estar dentro de um casal – defendeu Ana Maria a sua tese.
- Olha! Eu um dia destes telefono à Joana para ver se descubro alguma coisa de anormal. Agora vou dar uma ajuda à Dina – prometeu a Lena para acabar com o assunto.
Mas ficou a pensar:
- Talvez tenha razão; o casamento é capaz de estar a atravessar uma crise. Mas esta Ana Maria está a demonstrar demasiado interesse pelo Manel. Não gosto disto!

sexta-feira, outubro 20, 2006

Uma família burguesa - parte VI

Fernanda Mota era cabrita como a irmã. Filha de pai branco e mãe mulata possuía uma tez bastante mais clara, era mais alta e mais bonita, mas tinha um corpo tão escultural como o de Teresa.
O pai abandonara a família alguns anos antes deixando a mulher com sérios problemas financeiros. Mas ela soube preparar as filhas para a vida e agora começava a sentir-se recompensada dos sacrifícios por que passara. A neta Mariana é o seu ai Jesus.
A filha mais nova tinha um namorico com um tal Pedro Alves, rapaz de poucas posses e que, apesar de com ele manter relações íntimas algumas vezes, não era o homem que a preenchia em vários aspectos. Era sobretudo um amigo.
Ao fim de cerca de dez dias, Teresa entrou no gabinete do seu chefe, com um sorriso nervoso e disse:
- Sr. Director! A minha irmã vai hoje ser entrevistada pelo seu filho Ricardo e pelo sócio.
- Eu sei! Eu sei! Pensa que não tenho continuado a acompanhar o assunto? É logo às duas e meia da tarde, e pelo que sei, a nível de currículo está bem posicionada – revelou o Costa Lima.
- Estou tão nervosa! E o senhor então tem tratado do assunto! – afirmou, com um certo ar de admiração.
- Claro! Eu quero o seu bem e o da sua família – respondeu o António José.
- Deus lhe pague! Deus lhe pague! – agradeceu ela.
- Já tem pago! Já tem pago! – pensou ele.
A manhã decorreu com toda a normalidade, exceptuado os pormenores de a Teresa ter partido dois copos e trilhado um dedo numa porta.
Nessa noite, o pai Costa Lima telefonou ao filho:
- Então que tal a entrevista com a Fernanda Mota? – perguntou.
- O pai conhece-a?
- Não!
Teresa já lhe havia mostrado fotografias da irmã, mas o Tó Zé entendeu omitir o facto.
- Pois só lhe digo que é uma brasa! – disse, arrebatado, o filho.
- E vais admiti-la por ser uma brasa?
- Ainda não decidimos! Ela e dois sujeitos apresentam as mesmas hipóteses – revelou o Ricardo.
- Então o factor brasa vai ser determinante. E como quer tu quer o Mário não gostam nada de mulheres, parece-me que, no fundo, já decidiram – quis adivinhar o pai.
- Não é certo! Sabe que uma brasa aqui dentro pode incendiar algumas coisas. Mas, de facto, deve ser ela a escolhida.
- Ficaria muito contente pela D. Teresa que anda nervosíssima e está farta de fazer asneiras. Resolve lá isso depressa para eu não ser destituído do meu cargo sob a acusação de pactuar com alguém que anda a delapidar o património da empresa – gracejou o Tó.
Do outro lado ouviu-se uma gargalhada.
- Esteja descansado, pai! Logo que tomemos uma decisão eu ligo-lhe. E agora vou trabalhar. Um beijo – despediu-se.
- Um beijo também para ti, meu filho! E não te esqueças de me avisar – e desligou.
No dia seguinte, a meio da tarde tocou o telefone directo do director. Este atendeu:
- És tu, Ricardo?
- Olá, pai! É só para lhe dizer que a Fernanda Mota foi admitida com um contrato a prazo de seis meses, renovável por outros seis – disse o engenheiro mais novo.
- Óptimo! Obrigado por teres telefonado. Vou já dizer à D. Teresa. Espero que tenhas tomado uma boa decisão. Um beijo, filho.
- Um beijo, pai!
O director levantou-se, foi à porta e fez sinal a Teresa para entrar.
- Teresa! Acaba de me telefonar o Ricardo a dizer que a sua irmã foi admitida!
Um brilho cintilou nos olhos da mulher, que agradeceu:
- O Sr. Director foi uma pessoa formidável a tratar deste assunto. Nem sei como lhe hei-de agradecer.
- Não há nada para agradecer! A sua irmã foi admitida por mérito próprio. Gosto de a ver assim feliz. E agora vamos trabalhar e veja se não parte mais coisas – gozou o chefe.
- Peço muita desculpa. Mas se for preciso eu pago – disse a mulher, ainda meia tonta.
- Ora! Ora! Não percebeu que eu estava a brincar? Está mesmo desnorteada. Vá tomar um cafezinho para assentar as ideias – recomendou o Director.

Saltemos de 2003 para Setembro de 2006:
Os negócios de Ricardo e Bárbara estão prósperos. O filho, João Paulo, está quasi a fazer dois anos e é um miúdo traquina e saudável, que já fala bastante.
Formam um casal vistoso e, aparentemente, feliz.
Uns dias antes haviam sido convidados para jantar em casa do Costa Lima, tendo aceite.
Este e a mulher estavam felizes por os receber e sobretudo por terem lá em casa o neto.
Também Cláudia, a prima, estava radiante com as brincadeiras do Jocas.
E a velha bisavó estava mesmo a precisar de uma babete...
A Dina, nos seus cinquenta e um anos, solteirona, baixa e gorda, era a responsável pela cozinha, embora também colaborasse nas limpezas ajudando a empregada externa, Fátima, de vinte e sete anos, vivendo casada num bairro camarário em Contumil e que nessa noite ficou para ajudar a empregada mais velha e ver o menino João.
O miúdo foi o centro das atenções.
Só Ana Maria pareceu sempre um pouco distante. A vida afectiva não lhe corria de feição e isso reflectia-se no seu humor e na sua sociabilidade. Todos repararam nisso, mas ninguém deu demasiada importância ao facto pois já era habitual.
- Fico muito feliz por saber que tudo corre bem lá pela Maia. Na vossa casa, no infantário e na Rimafor – disse o anfitrião.
- Obrigado, pai! – agradeceu o Ricardo.
- E a minha nora continua uma linda mulher e o meu neto já revela as capacidades dos Costa Lima...sem desprimor para as dos Mendes – disse, sorrindo para Bárbara.
- Muito obrigado, querido sogro! Vejo que continua com o seu forte espírito de família. Acho isso muito bonito. E sempre sedutor! – retorquiu a bela trintona.
- Não muito...não muito! Os anos vão passando e os cabelos branqueando...e desaparecendo. – e riu-se, o Tó Zé – Ah...oh filho! E a Fernanda Mota continua a agradar?
- Estamos muito satisfeitos com ela. É muito profissional e competente. Já está há muito integrada nos quadros da empresa, como sabe. Agora somos seis: temos mais uma engenheira informática estagiária e um técnico com contrato a prazo – respondeu.
- Ainda bem! – e o António deixou o assunto morrer por ali.
Eram cerca das dez e meia e o rapazinho começou a dar sinais de sono.
- Bom! Temos de ir andando porque amanhã é dia de trabalho e o João Paulo já tem sono. Agradecemos muito o convite. É sempre um prazer vir a esta casa, agora bem mais acolhedora – iniciou as despedidas o Ricardo.
- Eu ainda vou andar um pouco a pé. Hoje vou sozinho porque não combinei nada com o Armando – disse o pai.
- Tu é que tens de arrebitar, oh Ana Maria! Acho-te muito em baixo, muito pensativa, muito calada. Toma lá um beijo e até um dia destes – despediu-se o jovem empresário de sua irmã.
E pouco depois os três visitantes saíram.
- Lena! Vou vestir-me para dar uma volta! Correu-te tudo bem? – perguntou o marido.
- Estou muito contente por eles terem cá vindo e as coisas correram normalmente. Desta vez até foi mais fácil pois tivemos a ajuda da Fátima – respondeu a mulher.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Uma família burguesa - parte V

Estamos em 2002.
Num fim de tarde muito chuvoso de um dia em que Teresa tinha deixado o seu Volkswagen Polo numa oficina, o engenheiro ofereceu-se para a levar a casa.
Parados à porta, as bátegas de águas eram de tal forma que:
- Teresa! Agora não pode sair. É melhor esperar aqui um pouco. Eu vou ligar para casa e dizer que estou preso no trânsito – alvitrou o chefe.
- De facto, agora não é bom momento para sair – concordou ela.
Os vidros da viatura estavam embaciados, propiciando uma intimidade que o Tó Zé aproveitou para tocar numa mão de Teresa. Esta não a retirou e o homem apertou-a com força. Como resposta, teve um sinal semelhante. A jovem mãe e esposa aproximou-se mais para o lado esquerdo do assento e o homem colocou-lhe um braço à volta do pescoço. Olharam-se e, logo de seguida, os seus lábios tocaram-se ao de leve. Mas não passaram muitos segundos até que um beijo profundo colasse as suas bocas. Quando as separaram, Tó Zé pegou na mão da secretária e colocou-a de modo que ela pudesse sentir o seu falo hirto. Ela apertou-o e disse:
- Finalmente! Não sabe o quanto eu ansiava por este momento.
Abriu lentamente a carcela das calças do homem, extraiu delas o membro quente e duro, e masturbou-o com uma tal mestria que o chefe gemia de prazer.
Um pano de limpar os vidros retirado do seu lugar pelo Tó, foi a salvação para que o interior do carro não fosse salpicado por um sémen vulcânico.
Finalmente, ele falou:
- Que maravilha, Teresa! Acho que nunca me fizeram gozar tanto desta forma.
- Se o Director quiser...
- Por favor! Fora do serviço não me vais chamar mais de Director, ok? E vais-me tratar por tu! – interrompeu o homem.
- Ok, chefe! – anuiu ela, dando uma risada.
Ele riu-se também.
- Trata-me por António, ou Tó Zé, ou Tó.
- Ok, Tó! – disse ela maliciosamente.
O homem abriu o vidro do seu Ford Mondeo e referiu:
- Já viste que quasi não chove?
- Ai meu Deus! Vou-me embora! Mas ficas-me a dever uma coisa – disse ela com um olhar lânguido de desejo.
- Sem dúvida! Amanhã combinamos. Beija-me!
Uniram novamente as bocas e despediram-se.
Quando regressava a casa, a casa nova onde a esposa o esperava, ía pensando:
- Meu Deus! Aos cinquenta e quatro anos ainda sou atraente para uma rapariga com vinte e seis. Ou será o dinheiro que é atraente? Seja como for, parece que está conquistada. Tenho de ter muito cuidado. Enfim! Já não é a primeira vez que me meto numa destas, mas não posso facilitar nem permitir excessos de confiança no trabalho. Serviço é serviço, brandy é brandy. E é bom que seja casada. Assim, ela própria terá mais cautelas. Sempre imaginei que seria uma fera na cama. Não falta muito para o confirmar. Espero não me deixar envolver demasiado. Tenho de ser forte porque, de facto, sinto um fraco por ela.
E assim começou uma relação de dupla infidelidade que se manifestava mais ou menos uma vez por semana, num residencial bem escondida e com um parque de estacionamento que não permitia que as viaturas ficassem à vista de quem passasse à porta. Digo viaturas porque os encontros se processavam à hora de almoço e cada um levava o seu carro, saindo ele normalmente à frente para ir tratando das coisas.

Decorria o ano de 2003:
- Teresa! – chamou o Costa Lima.
- Diga, Sr. Director! – respondeu a secretária.
- Já lhe disse que o meu filho Ricardo está a constituir uma sociedade com um amigo para criar uma empresa do ramo informático?
- Não! Ainda não me tinha dito nada – respondeu a mulher.
- A sério? Talvez porque ele só mo referiu recentemente. É um tipo empreendedor! E o sócio tem o curso de engenharia informática. Mas vão precisar de meter mais uma ou duas pessoas com formação na área – informou o Tó Zé.
- Sabe que a minha irmã mais nova, a Fernanda, tem formação nesse domínio? – avançou a Teresa, a pensar que talvez estivesse ali uma nova saída profissional para a irmã.
- Já me falou da sua irmã, mas relembre-me, por favor – pediu o Costa Lima.
- Chama-se Fernanda, tem agora vinte e três anos e trabalha numa empresa fraquinha e que paga muito mal. É solteira e livre, tanto quanto sei. Vive na Maia com a minha mãe...
- Pois é! Já me havia falado nisso. É curioso, mas é na Maia que vai ser a sede da empresa. E o meu filho vai casar no fim do ano com a Bárbara. Eles já vivem juntos mas, depois de casarem, vão viver para um apartamento novo na Maia onde ela é sócia de um infantário; aliás, é educadora de infância – interrompeu o António José, movido pelas coincidências.
- Desculpe a ousadia, mas acho que lhe vou pedir para meter uma cunha ao seu filho – aproveitou a secretária.
- Com certeza! – disse o Director – Logo ou amanhã já lhe irei falar para considerar a candidatura da Fernanda.
- Exactamente! Ficar-lhe-ía muito grata se intercedesse a favor da Nanda.
- Claro que sim! Mas a escolha ou escolhas finais serão, naturalmente, do Ricardo e do sócio, o Mário Jorge.
- Claro! Não podia ser de outro modo, mas acho que a minha mana tem bons argumentos para ser admitida – disse, maliciosamente, a Teresa.
- Não sei se esses argumentos chegarão! – e riu-se, o Tó Zé – Espere! Vou ligar já com ele.
E, de imediato, pegou no telefone e fez a chamada para o telemóvel do filho.
Pouco depois:
- Olá, Ricardo! É o pai! – disse.
- Olá! Algum problema?
- Não! Estive aqui a contar à D. Teresa que ías criar uma empresa de informática...
- Já foi criada, pai! E já aluguei o espaço onde vamos trabalhar – corrigiu o jovem empresário.
- Ah...e sempre é na Maia?
- Sim! Na zona central da cidade.
- Mas que bom! Fico contente que esteja tudo a avançar depressa. Nestas coisas, cada dia que passa sem abrires o negócio é dinheiro que estás a perder – regozijou-se o quinquagenário.
- E vais meter dois empregados, não é? – continuou.
- Sim! Estamos a procurar um engenheiro informático para estagiário e, se servir, fica. E também alguém jovem com formação na área e alguma experiência.
- Pois soube agora que a D. Teresa, a minha secretária, tem uma irmã chamada Fernanda, mais nova, que encaixa nesse segundo perfil, e gostaria que ela fosse candidata. Que é preciso fazer? – perguntou o Tó Zé.
- É simples! Que me mande um e-mail com o curriculum que depois eu ou o Mário a chamaremos para uma entrevista. Em princípio seremos os dois a falar com ela – esclareceu o Ricardo.
- E quando prevês que isso aconteça?
- Muito brevemente! Em oito ou dez dias – respondeu o filho.
- Está bem! Então eu vou comunicar isso à D. Teresa e penso que muito depressa tens aí o currículo da Fernanda Mota – disse o António José.

- Sabes o meu endereço, não sabes?
- Claro que sei! Cumprimentos ao Mário e um beijo para a Bárbara. E para ti também.
- Adeus pai! Um beijo.
O director pousou o auscultador e logo explicou o teor da conversa à Teresa.
No dia seguinte já Fernanda tinha o seu curriculum no correio electrónico de Ricardo Costa Lima.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Uma família burguesa - parte IV

Marina Pimenta tem actualmente trinta e um anos, é baixa, roliça mas não gorda, uma cara redonda, muito bonita e bem maquilhada, com os olhos verdes enormes a sobressaírem, cabelo muito loiro e muito curto. Mantém o ar de teenager sedutora que tinha quando, anos antes, fora trabalhar para o escritório do stand de Francisco Torres.
A mãe, Maria Amélia Pimenta, de cinquenta e quatro anos, vive na zona histórica do Porto ribeirinho com o filho Alexandre Pimenta, um sujeito relativamente alto, com um peso adequado à altura, trinta e seis anos de idade mas uma notória calva que ele disfarça usando o cabelo muitíssimo curto, por vezes rapado. É um sócio muito minoritário de um bar nocturno nessa zona histórica da Invicta cidade.

À hora habitual Francisco entrou em casa.
- Boa noite! – disse.
Ninguém respondeu.
- Boa noite! – repetiu.
Continuou o silêncio. Acendeu a luz da sala e viu a mulher sentada com um ar que não lhe conhecia. Uma expressão de furiosa mas com os olhos de quem muito chorara.
- Estás aqui e não dizes nada?
Ela limitou-se a estender-lhe o envelope com a folha lá dentro. Ele olhou, retirou a folha e leu.
Ficou parado a olhar para o papel.
- É verdade, não é? – perguntou a mulher.
Ele continuou parado. Depois sentou-se e gaguejou:
- Claro que não!
- A tua reacção foi de quem está comprometido – notou ela.
- Juro-te que isto é uma falsidade! – insistiu o Chico – Não é verdade!
- Não? Então vou telefonar à Marina para saber o que ela diz.
E pegou no auscultador.
- Ana! Não faças isso! Porque não confias em mim? – foi o que lhe ocorreu dizer.
- Será que posso confiar? Só depois de clarificar totalmente o que há entre ti e a Marina.
E discou o número que Delfina lhe dera.
De repente ele levantou-se, desfez a ligação e disse:
- Para que vais meter ao barulho a rapariga que não tem nada a ver com isto?
- Quero ouvir o que ela tem para dizer – teimou a mulher – E não tornes a desligar, ouviste?
Ela discou de novo; alguém atendeu.
- Daqui fala Ana Maria, a mulher de Francisco Torres. Estou a falar com Marina Pimenta?
- Não! Ainda não chegou do trabalho. Daqui fala a mãe.
- Eu queria falar com a sua filha. A que horas chega?
- Não deve faltar muito.
Durante mais de uma hora Ana Maria tentou falar com a eventual amante do seu marido, mas sem sucesso.
O ambiente no apartamento era de um silêncio e de uma frieza tumulares.
De repente, e para surpresa da mulher, Francisco falou, mas sem muita convicção:
- Desculpa-me! Peço-te desculpa, Ana Maria! Tenho, de facto, um envolvimento com a Marina. Mas eu acabo com isso. Eu ponho-a na rua e o nosso casamento continua como se nada fosse.
- Como se nada fosse? Para já, quem vai para a rua és tu. Faz o favor de ir buscar as tuas coisas mais necessárias e sair. Prevaricaste! Vais lá para fora e pensa bem no que fizeste durante alguns dias. Depois se verá o que se segue.
Ele hesitou, ainda balbuciou qualquer coisa não compreensível mas, depois de uns passos para um lado e outro na sala, dirigiu-se ao quarto, preparou o que achou conveniente e saiu sem nada dizer.
Ele estava completamente apaixonado por Marina! Aquele tempo de espera fê-lo tomar uma decisão. Bem lá no fundo, provavelmente, ficou satisfeito com o ocorrido.
Até Ana Maria se admirou com a rapidez com que ele acatou a sua ordem de despejo:
- Às tantas foi este sonso quem mandou aquela carta nojenta para despoletar a situação. É muito pacato e sossegado, mas para arranjar amantes tem jeito! – pensou ela – Não sei se voltas aqui. Não sei não! Não mostraste nenhum interesse em continuar comigo.
E chorou mais...
Chegado à rua, Francisco guardou as coisas no carro e pegou no telemóvel. Ligou para o celular da amante:
- Olá, Marina!
- Sim! O que foi? – perguntou ela.
- A minha mulher descobriu a nossa relação! – revelou Francisco.
- Foi o que pensei. Quando cheguei a casa a minha mãe disse-me que ela tinha ligado e queria falar comigo. Como nunca me tinha telefonado para cá, calculei que ela poderia ter descoberto alguma coisa. Por isso ordenei à minha mãe para dizer que eu ainda não tinha chegado. E tu onde estás?
- Estou na rua, junto ao carro, com uma mala contendo algumas coisas minhas. Ela pôs-me na rua. Preciso de falar contigo e depois vou dormir para um hotel – disse ele.
- Meu amor! Tu não estás bom da cabeça. Tu vens dormir cá para casa. Precisas de mim e eu preciso de ti. Vamos conversar, repousar, fazer amor. Vem já ter comigo, Francisco. Adoro-te!
- Está bem! Até já! – anuiu o Chico.
Desligou o celular, pôs o carro a trabalhar e arrancou rapidamente.
Se alguém estivesse em casa de Maria Amélia e dos filhos, teria visto um sorriso triunfal no rosto lindo de Marina e ouvido o irmão Alex dizer:
- Como vês, o meu estratagema resultou. Agora és tu que tens de o amarrar e, não tarda muito, estás casada com um tipo que te pode dar uma vida melhor.
- Fizeste um trabalho de mestre, Alex! Muito obrigado! – disse a rapariga enquanto dava um beijo ao irmão.
A Maria Amélia olhava para os dois, embevecida.
E o pouco enérgico Francisco ficou ligado à azougada Marina. Mesmo antes da dissolução do matrimónio com Ana Maria, foram viver juntos para um andar na Baixa portuense.
No início de 1998 tiveram um filho que baptizaram com o nome de Marco António.

Estamos agora no ano de 2000.

O engenheiro Costa Lima teve a notícia de que havia sido promovido a Director de um Departamento técnico da empresa para a qual trabalha. Foi uma boa novidade, já que esperava ser preterido em relação a um colega, mas a Direcção – Geral entendeu dar-lhe o lugar a ele por ser mais novo e ter melhor perfil para o cargo.
Como estava a tratar da renovação da casa que herdara da mãe, o momento não era o ideal pois habitava provisoriamente com a mulher e a sogra na casa desta.
Tinha de se desdobrar para dar resposta a todas as solicitações que requeriam a sua presença.
Com o novo cargo, passou a ter direito a uma secretária pessoal, além de manter as benesses que já tinha e passar a poder usufruir de outras.
Foi considerada pela empresa a possibilidade de transferir, para lhe dar apoio, uma senhora já antiga na empresa mas, feitas as ponderações consideradas como necessárias, acabou por se concluir que melhor seria fazer a contratação de uma nova funcionária.
Os Recurso Humanos encarregaram-se de fazer uma pré-selecção apresentando ao António José, pouco tempo depois, uma relação com cinco candidatas.
Foram estas que o novo Director entrevistou pessoalmente e, por fim, resolveu optar por Teresa Mota, uma jovem com vinte e quatro anos, casada, vivendo na zona da Senhora da Hora, Matosinhos, e com uma filha de um ano. Devido às férias inerentes ao parto, ficou com o seu posto de trabalho pouco seguro na empresa onde trabalhava. Por isso tinha concorrido, não fosse ficar descalça. Era secretária por formação.
O ano de 2000 e o seguinte foram de muito trabalho, não só o correspondente às suas funções, mas também o devido às tarefas particulares do seu chefe e ao facto de filha Mariana ser muito pequena.
Esses longos meses consolidaram uma amizade forte entre o Tó Zé e a jovem cabrita que possuía uma tez mais escura do que o habitual. De estatura média e um corpo de linhas bastante curvilíneas, era atraente, sem ser bonita, no entanto.
Costumava almoçar com o Tó Zé na cantina da empresa, normalmente quando já a maior parte dos outros funcionários haviam terminado a refeição. Por vezes íam comer fora, sobretudo quando tinham de ficar a trabalhar até mais tarde, o que era raro, diga-se em abono da verdade.

domingo, outubro 08, 2006

Uma família burguesa - parte III

Armando João Borges, amigo do Tó Zé desde os tempos do liceu, tem também cinquenta e oito anos. Razoavelmente alto e um pouco pesado, é bastante moreno e os olhos são muito negros e vivos. O cabelo, que foi preto e levemente ondulado, é agora grisalho mas não exibe sinais de calvície. É médico cardiologista.
Inês Leite de Castro, sua mulher, também médica mas com a especialidade de pediatria, tem cinquenta e cinco anos e é fisicamente franzina, mas tem uma energia tremenda. O cabelo branco já pontifica, mas é camuflado por uma pintura castanho acobreada que não a favorece muito, ainda menos com a pele morena que possui.
Tem um filho, José Manuel Borges, também médico, trinta e um anos, alto e bem constituído, cabelos e olhos negros, casado com Dora Maria Sampaio, professora de Matemática, trinta e quatro anos, olhos castanhos e cabelo liso e muito curto da mesma cor; a tez é clara, ao contrário da do marido. Tem um filho de sete anos, João Manuel e vivem na vivenda dos pais dele.

Como a noite estava quente, o ritmo da passada foi mais lento e permitiu, ao contrário de quando caminham mais velozmente, um pouco mais de conversa.
- Então, Tó! Desde quando estás a trabalhar? – perguntou o médico.
- Comecei no dia quatro. Ainda estou a ver as coisas que me encheram a secretária e o computador enquanto estive de férias – retorquiu o Costa Lima.
- Mas tu vais lá de vez em quando durante as férias...
- Quando estou cá no Porto. Se estiver fora não, evidentemente. Mas desta vez só lá fui duas vezes; e porque me chamaram. Já começo a ficar velhote para andar a apagar fogos. Agora é a vez dos mais novos darem o corpo ao manifesto – explicou o Tó Zé.
- E já gozaste as férias todas? – inquiriu o Armando.
- Deixei uns dias para o Natal.
- Também eu – disse o cardiologista.
E continuou:
- E agora vamos ficar caladinhos e aumentar a cadência.
- Sim senhor! O doutor é que sabe e manda. Mas só te digo que se tenho algum enfarte ou AVC te ponho em tribunal por não cumprimento da palavra – ameaçou, sorrindo o António José.
- Mas não há dolo! Não há dolo! Sairei ilibado.
Ao fim de mais de meia hora regressaram às respectivas casas onde, depois de esperarem que o corpo arrefecesse e a digestão das refeições ligeiras estivesse concluída, um refrescante duche os deixou prontos para irem sentar-se em frente à TV durante pouco tempo e depois rumarem à cama, pois o dia seguinte era de trabalho. Parecia que se estavam a copiar um ao outro, mesmo estando à distância.
Quasi todas as cautelas que o Tó Zé tinha com a saúde resultavam das insistências do amigo médico. E ele obedecia, não sem refilar um pouco, por vezes.

Recuemos ao ano de 1995:
Ana Maria havia casado, apenas com dezoito anos, com Francisco Torres, de vinte, apesar da oposição dos pais de ambos. Mas a paixão falou mais alto e levaram a deles avante.
Francisco era um tipo alto e com uma estrutura óssea larga. Um homenzarrão, apesar da sua juventude. E muito calmo, molengão mesmo.
Era sócio de um stand de venda de automóveis enquanto Ana Maria se entretinha a estudar engenharia mas sem grande sucesso.
Pouco mais de dois anos após o casamento nasceu uma filha à qual deram o nome de Maria Cláudia: foi em Abril de 1992.
Num final de manhã soalheira, mas fria, de Março, Ana estava em casa quando resolveu ir ver se o carteiro tinha deixado alguma coisa na caixa do correio. Lá estava um folheto publicitário, uma carta com uma conta para pagar e uma outra que lhe era dirigida com o envelope preenchido manualmente com uma letra muito infantil. Talvez mesmo propositadamente infantil. Regressou à sala onde estava e abriu de imediato esse estranho envelope. Lá dentro só uma folha de papel onde estavam coladas letras recortadas que compunham o seguinte curto texto:
“O seu marido anda com a Marina”.
A jovem esposa sentiu uma breve tontura e sentou-se, ficando a olhar para aquela folha que lhe acabava de estragar o dia. Talvez muito mais do que isso: o casamento.
Ao fim de alguns minutos, pegou no telefone e ligou para a mãe. Atendeu a empregada:
- Olá Dina! A minha mãe está?
- Está sim, menina. Eu vou chamá-la.
Passaram uns instantes e...
- És tu, Aninhas?
- Sou mãe! Acaba de me acontecer uma coisa muito desagradável. – começou – Recebi uma carta anónima e escrita com letras coladas, que diz: “O seu marido anda com a Marina”. Até estou meio atordoada.
- Olha! O Chico não vai almoçar a casa, pois não? Então eu vou comer rapidamente e vou logo de seguida para aí. Não faças nada. É preciso ter calma. Vamos analisar as várias possibilidades antes de agir de forma precipitada. Estou aí por volta das...duas, duas e um quarto. Felizmente hoje não vou mais à escola. Assim estaremos com mais calma. Combinado? – concluiu a Lena.
- Está bem mãe! Mas vou tomar um calmante que tenho para aqui.
- Mas toma uma dose pequena, ouviste? E sossega porque pode ser um rebate falso.
- Então até já, mãe. Um beijo – e a Ana pousou o auscultador.
Mais ou menos à hora aprazada Maria Helena entrou em casa da filha. Beijaram-se e a mãe perguntou:
- Estás bem? E a Claudinha?
- Estou mais ou menos – disse a filha – e a Claudinha está aqui na vizinha do lado a brincar com a filha dela.
- Ainda bem! Assim podemos conversar mais à vontade.
Sentou-se e pediu:
- Mostra-me então esse papel.
A Ana Maria entregou-lhe o envelope com a folha lá dentro.
- Letra disfarçada. Vejamos o que está cá dentro. Pois...a Marina. Tanto pode ser verdade como mentira. Mas deixa pensar. Quem mandou isto que interesse teria? Se for mentira serve para chatear e criar mau ambiente entre ti e o Chico.
Talvez uma antiga namorada ciumenta com esperanças de estragar o casamento. Mas para quê envolver o nome da rapariga? Ou então o inverso: um teu admirador que também vos quer separar. Mas porquê citar a Marina? Poderia ser alguém que quer mal a um ou outro de vós. Mas continuo sem perceber porquê envolver um terceiro. Uma partida de amigo ou amigas? Demasiado mau gosto. Ah...poderia ter sido a própria Marina. Mas...falar nela sendo mentira? Não!
- E não será uma chantagem, mãe? – perguntou a jovem Ana.
- Por etapas? Não me parece. Se fosse chantagem, teria de ser verdade e falaria em provas e em verbas. Sinceramente, penso que o mais certo é ser mesmo verdade. Nesse caso, nas situações que referi antes, ou seja, uma ex-namorada ou admiradora do Chico, ou um teu admirador, já faria sentido falar no nome da empregada do stand. Ou se fosse uma amiga ou amigo teu a avisar-te. Ou se fosse a própria Marina a querer roubar-te o marido.
Fez uma pausa, a Lena, e rematou:
- Não sou polícia nem detective, mas acho que é mesmo verdade.
- Eu tenho também esse pressentimento – disse, com os olhos aguados, a Ana.
- Só há uma coisa a fazer: confrontá-lo com o papel e ver a reacção. Mas só quando ele chegar a casa. Se ele negar, telefona para casa da rapariga. Ou amanhã vai falar com ela. Bom! Essas confrontações directas acabam muitas vezes em zaragata. Não me parece boa ideia. Tens o número do telefone dela? – continuou a mãe a pensar em voz alta.
- E se eu telefonar para o escritório e pedir à D. Delfina o número de casa da Marina?
- Mas ela tem de ser totalmente discreta. Telefona, então! – aconselhou a Lena.
E a jovem esposa ligou para o stand.
Como era habitual, atendeu a funcionária Delfina.
- Está lá? D. Delfina? Não fale o meu nome, por favor.
- Sim! Que deseja? – disse a voz do outro lado da linha.
- Por favor não diga nada ao meu marido nem a mais ninguém. Mas preciso do número do telefone da Marina. Está aí alguém? – falou Ana Maria.
- Pode tomar nota...
E a senhora ditou-lhe um número telefónico.
- Muito obrigado! Está lá? A senhora sabe de alguma coisa do que se passa entre o meu marido e a Marina? – perguntou a jovem tão de repente como lhe ocorrera a ideia.
Do outro lado nada se ouviu durante uns largos segundos.
- D. Ana Maria! Eu não sei de nada. E mesmo que soubesse não me iria meter num assunto que não me diz respeito. Peço desculpa mas terá de perguntar ao seu marido e à Marina – respondeu a voz da Delfina com um tom ligeiramente agastado.
- Claro! Tem toda a razão! Peço-lhe desculpa. Muito obrigado pela colaboração. Boa tarde. Com licença.
E desligou.
Imediatamente começou a chorar.
A mãe procurou acalmá-la e pedia-lhe que ela contasse os pormenores do que dissera a empregada do Francisco.
Ao fim de vários minutos, a Ana Maria finalmente contou à mãe os detalhes, e rematou:
- Não tenho grandes dúvidas! Ele hoje já vai dormir na rua, ou num hotel, ou na casa dessa galdéria.
- Tem calma, filha! Estas situações tem de ser levadas com a maior ponderação possível. Lembra-te que tens uma filha de três aninhos...
- Mãe! Não posso viver na mesma casa nem partilhar a cama com um homem que anda a dormir com outra. Não aguento isso! – disse, exasperada, a Ana.
Ao fim de toda uma tarde complicada para as duas, e quando se aproximava a hora de Francisco regressar, Maria Helena despediu-se da filha e levou a neta, que entretanto regressara da vizinha, com ela.
- Não te precipites, Ana Maria! Por favor, resolve as coisas a bem! – disse, já com a porta do elevador a fechar-se.

quarta-feira, outubro 04, 2006

Uma família burguesa - parte II

Ricardo Jorge é o filho mais velho do casal Costa Pinto.
Com trinta e seis anos de idade, alto e moderadamente magro, é parecido com o pai. De olhos e cabelos castanhos, estes levemente ondulados mas sempre com um bom corte e penteados com gel em abundância, ostenta um certo ar de galã do cinema, anos cinquenta.
Formado, como o progenitor, em engenharia electrotécnica, dedicou-se aos computadores e criou uma empresa do ramo em 2003 tendo como sócio o engenheiro informático Mário Jorge Gomes que conhecera numa empresa em que ambos haviam trabalhado.
O escritório da Rimafor fica na Maia, onde vive desde o final desse ano após se ter casado com Bárbara Mendes, mais nova um ano, com quem tinha uma relação já antiga. Tem um filho com dois anos, João Paulo, o Jocas.
Possui um Honda Accord que conduz normalmente com velocidade excessiva.
Os três residem num bom apartamento muito perto do infantário de que Bárbara é sócia maioritária, ela que, por formação, é educadora de infância.
Alta, elegante, loira natural com cabelos lisos e pendentes sobre os ombros, com uns olhos azuis muito claros numa cara bonita, mais parece uma mulher da Europa Central.
Ana Maria é a segunda filha do casal António José e Maria Helena.
Com trinta e cinco anos, estatura média para a sua geração e elegante, tem também cabelos castanhos, mas pintados de loiro.
Casou com Francisco Torres com apenas dezoito anos mas o casamento só durou cinco. Aos vinte e três estava separada e o divórcio não demorou muito pois foi por mútuo acordo. Dessa relação ficou uma filha, Maria Cláudia, agora com 14 anos e que frequenta o 9º ano da escola de Aurélia de Sousa. A tutela da adolescente foi atribuída à mãe.
Só depois da separação é que frequentou um curso de secretariado exercendo actualmente a profissão numa empresa da Boavista.
Não voltou a casar nem a ter mais nenhuma relação durável.
Tem um temperamento instável que pode estar ligado a essa lacuna na sua vida.
Viveu vários anos, só com a filha, num apartamento mas decidiu aceitar o convite dos pais para ir morar para a casa das Antas, após as obras.
Joana Isabel é a terceira filha de Tó Zé e Lena.
Com trinta e dois anos, da altura da irmã mas um pouco mais roliça, é a que apresenta menos semelhanças com os progenitores. Os olhos negros e os cabelos longos e ondulados da mesma cor azeviche, dão-lhe um ar muito hispânico.
É casada há sete anos com um seu antigo professor do curso de Filosofia que frequentou e concluiu, sendo hoje professora dessa disciplina no secundário, em Penafiel, para onde se desloca no seu Golf.
Vive num bom apartamento em Leça da Palmeira com a exclusiva companhia do marido, Manuel António Félix, pois não tem filhos.
O marido é mais velho, quarenta e seis anos, de estatura baixa e um pouco anafado, mas os seus cabelos grisalhos, tez morena, olhos azuis, dentes alvos e bem alinhados num sorriso bonito, um timbre de voz especial, bom conversador, fazem-no parecer uma espécie de sedutor de balzaquianas.

Estamos numa quente noite de início de Setembro.
Depois do jantar em que estiveram presentes os cinco membros da família que habitam a casa, disse o Costa Lima:
- Lena! Vou para a sala da cave. Quando puderes aparece lá porque gostava de falar contigo.
A mulher parou, olhou para ele e respondeu:
- Humm... Essa maneira de falar traz água no bico. Que se passa? Não ias dar um passeio com o Armando?
- E vou! Ele passa por cá. Por isso gostava que não demorasses, sim? Ah... não é nada de especial, mas gostava de trocar umas impressões contigo.
E o Tó Zé desceu as escadas.
- Aqui há gato! – ficou a matutar a dona da casa.
Pouco depois a Maria Helena apareceu na fresca sala onde o marido via TV. Mal a viu, ele desligou o aparelho e indicou o local onde a mulher se devia sentar. Em frente a ele.
- É o seguinte, Lena! A Ana Maria está separada há mais de onze anos. Viveu durante seis anos só com a filha e, tanto quanto sabemos, teve uma vida um tanto desbragada. Felizmente havia sempre alguém que tomava conta da Claudinha, mas não me pareceu que aquela situação fosse muito boa para a formação da miúda. Convidámo-la a vir viver para cá há cinco anos. Reconheço que também houve um certo interesse da nossa parte pois a tua mãe já tem oitenta e um anos e mais uma pessoa pode ser útil no caso de ela ficar acamada ou precisar de um grande apoio.
- Sim! E aonde queres chegar? – interrompeu a mulher.
- Calma! Já lá vou. Dizia eu que a nossa filha levou durante seis anos uma vida desregrada. Infelizmente parece que continua. Agora a nossa neta já não me preocupa tanto, mas a Ana precisava de assentar. E não vejo nada! Tu sabes alguma coisa que eu desconheça? – revelou, finalmente, o que pretendia saber, o engenheiro.
- Oh Tó! Sabes que ela não faz grandes confidências. Tem o seu grupo de amizades e provavelmente é com algum ou alguns deles que se abre. Connosco não, e com os irmãos idem – respondeu a Helena.
E continuou:
- Mas, se fosse a ti, não me preocupava tanto. Ela ficou muito zangada com a instituição matrimónio depois do primeiro casamento...
- Mas, as mulheres procuram sempre um novo homem. – cortou o António José – Este tipo de comportamento salta-pocinhas é mais habitual nos homens.
- Pois é! Mas provavelmente ainda não encontrou o ideal – opinou a Lena.
- E entretanto vai experimentando os tipos todos do Porto e arredores. É pena no meu tempo não ter sido assim... – disse, irónico, o pai da Ana Maria.
- Não sejas mauzinho, António! Se calhar já encontrou mas não é um tipo disponível. E como não lhe interessa mais nenhum, vai-se divertindo com outros – sentenciou a mulher.
O Costa Lima soltou uma gargalhada.
- Afinal a devassa és tu! – disse, retomando o humor que lhe era habitual.
Ouviu-se o toque de uma campaínha.
- Deve ser o Armando! Vai-te vestindo para a passeata que eu faço um pouco de sala. E não te preocupes demais com a Ana. Ela já tem trinta e cinco anos e muita experiência da vida. Sabe o que está a fazer! – disse a professora.
- Espero que sim! Espero que sim!
E subiram ambos as escadas.
Ela ficou no piso térreo e ele foi para o quarto vestir uns jeans velhos, uma T-shirt e calçar sapatilhas.
- Deixe estar Dina, que eu vou abrir a porta. É o Dr. Borges, com certeza – disse a patroa para a empregada.
Instantes depois:
- Olá, Armando! Com o calor que está hoje vocês vão chegar aqui bem transpirados. A Inês e o João estão bons? E o teu filho e a Dora?
- Olá, Leninha! Está tudo bem, felizmente. E cá por casa?
- Tudo corre normalmente, Armando – respondeu a Lena.
- E a tua mãe? Sempre com uma saúde de ferro, não?
- Sim! Se algo correr mal tu és o primeiro a saber. És o médico mais próximo... – disse Lena com um largo sorriso.
- O nosso atleta ainda não está pronto? – perguntou o vizinho.
- Já cá vou! Já cá vou! – ouviu-se a voz grave do Tó Zé vinda das escadas.
E lá foram os velhos amigos porta fora, desta vez até ao estádio do Dragão.

domingo, outubro 01, 2006

Uma família burguesa - parte I

No início dos anos cinquenta, o engenheiro civil José António Lima fez construir uma vivenda na zona das Antas, na cidade do Porto, para onde foi viver com a esposa Maria Arminda e os três filhos, ainda muito jovens, Jorge, António José e Miguel.
Constituída por um piso térreo, um piso elevado, uma cave e um sótão, ali viveram até à morte: a dele em 1995 e resultante de um ataque cardíaco, a dela quatro anos depois causada por um problema maligno nos pulmões.
Nessa altura, já os irmãos Jorge e Miguel da Costa Lima estavam a viver na região de Lisboa. O mais velho trabalhando como engenheiro civil e o mais novo como advogado.
Os falecidos eram pessoas de posses e as partilhas, ao contrário do que acontece muitas vezes, não foram complicadas, tendo o irmão do meio, António José, o único residente no Porto, ficado na posse da casa das Antas.
Mal se viu como proprietário da vivenda, agora velha e sem o conforto proporcionado pelas tecnologias mais recentes, decidiu remodelar completamente a habitação e ir para lá viver.
O financiamento obteve-o, rapidamente, graças aos seus bons conhecimentos na banca, dando por garantia a moradia geminada da sogra que seria vendida depois de concluída a modernização da vivenda das Antas. Desde o passamento do pai já ele e a mulher lá viviam com as respectivas mães.
As obras, caras e morosas, começaram em finais de 2000 e só terminaram em Dezembro de 2001.
E assim, no início do ano seguinte, o engenheiro electrotécnico António José da Costa Lima e a sua esposa Maria Helena Marques Pinto instalaram-se na renovada casa, na companhia da filha Ana Maria e da jovem neta Maria Cláudia, resultante do casamento já oficialmente dissolvido.
Juntamente com eles continuou a viver a já octogenária mãe de Maria Helena que, apesar da sua idade, conservava uma saúde física e mental invejáveis: Maria da Conceição.
O quinto morador era a empregada Aldina, mas que todos tratavam por Dina e que trabalhara para os pais do proprietário original desde os dezoito anos, sempre como interna.

Estamos no segundo semestre de 2006:
O engenheiro António José tem cinquenta e oito anos, os mesmos da sua consorte.
Ele é Director de Departamento de uma empresa privada na zona da Via Norte e ela professora de História na escola secundária Alexandre Herculano.
É por Tó Zé que o engenheiro Costa Lima, assim tratado em ambientes mais formais, é conhecido na intimidade.
É um tipo de estatura média, e com um peso não muito elevado em relação à altura e à idade. Os cabelos, outrora castanhos como os olhos, são agora quasi todos brancos e bastante raros no topo da cabeça. Usa-os bastante cortados.
Por motivos profilácticos, costuma andar bastante a pé e várias vezes sai à noite para caminhar com um vizinho médico com quem estudou no liceu: o Armando Borges.
Quando o tempo está mais agressivo, vão para a cave jogar bilhar ou conversam na sala de estar existente nesse piso subterrâneo.
Tem carro próprio, um Toyota Corolla, mas normalmente utiliza a viatura que a empresa colocou à sua disposição: um Ford Mondeo.
Maria Helena é também de estatura média, e mantém uma elegância de realçar. Os cabelos, que em tempos mais recuados eram castanhos como o são ainda os olhos grandes e bonitos, só não mostram a sua alvura pois são coloridos em tons de castanho claro e com madeixas aloiradas. Usa-os curtos, tapando somente o pescoço.
Lena, como é conhecida mais intimamente, quando casou ainda era estudante, aliás como o Tó Zé, pois uma gravidez extemporânea fez precipitar o matrimónio.
Assim, cerca de seis meses após o casamento nasceu o primeiro filho do casal: Ricardo Jorge. Menos de ano e meio depois nasceu o segundo, neste caso uma rapariga, Ana Maria. E, ao fim de mais de três anos desta ter vindo ao mundo, apareceu o último rebento: Joana Isabel.

A vivenda actual só na fachada e nas áreas não cobertas apresenta muitas semelhanças com a original. O interior foi totalmente alterado.
Possui um pequeno jardim adiantado à edificação que se prolonga pelo lado esquerdo desta, vista da rua. O lado direito e a parte traseira são pavimentados para a circulação das viaturas.
Ao fundo, existe uma garagem fechada onde são guardados os dois automóveis do Tó Zé, além do Ford Fiesta de Maria Helena e do Renault Clio de Ana Maria. E lugar acobertado para mais não há.
O muro que confina com o passeio tem cerca de metro e meio de altura e é encimado por uma armação trabalhada em ferro pintado de verde-escuro que contrasta com a cor bege de todos os revestimentos das partes cimentadas. Tem um portão para as pessoas e um outro para as viaturas.
A porta de entrada na vivenda, também ela verde, tem uma cobertura protectora na parte exterior.
O piso térreo é constituído por uma entrada que dá acesso a uma sala enorme onde fica, na extremidade mais ao fundo e à esquerda, vista por quem entra, a zona das refeições. Na área restante há duas zonas de lazer. Uma mais usada no verão e outra quando o tempo é mais frio, ressaltando nesta um requintado fogão de sala.
No lado direito, ao fundo, há as escadas principais que dão acesso ao piso de cima e à cave. Sob elas, e numa solução arquitectónica bem imaginada, estão umas instalações sanitárias.
Na zona esquerda deste piso, situam-se o escritório, a copa, a cozinha, outros lavabos e uma escada mais estreita, de serviço, que permite as subidas e descidas para os dois outros níveis. Na parte exterior da cozinha, existe uma estrutura fechada e envidraçada, anexa à habitação, que é a lavandaria.
No piso superior há dois quartos com closet e casa de banho privativa, voltados para a frente, onde dormem o casal num deles e a filha Ana Maria no outro. Lateralmente há mais dois quartos: um da jovem Cláudia e, no lado oposto, o de sua avó Maria da Conceição a quem ela trata por Vó São, Vovó ou, simplesmente, Vó. No canto junto ao quarto da anciã está a escadaria principal. No lado oposto há ainda uma outra casa de banho, que serve os utentes desses dois aposentos, junto das escadas de serviço.
A cave inclui, do lado esquerdo, uma boa sala de estar que é bastante fresca no tempo quente, e do direito o quarto da Dina, uma casa de banho e uma pequena garrafeira. As escadas ficam na vertical das outras.
Na zona da frente há um enorme compartimento para arrumos e, no centro, um grande espaço com uma mesa de bilhar.
A “nova” casa foi equipada com os mais modernos equipamentos, as canalizações e instalação eléctrica mudadas, e até um sofisticado sistema de segurança foi instalado. O Tó Zé não quis um cão, tão habitual neste tipo de habitação monofamiliar, pois tivera um em jovem cuja morte muito lhe doera e jurou nunca mais querer viver com um desses dedicados animais.
Aproveitaram algumas mobílias antigas quer da própria casa quer da dos pais de Maria Helena e, naturalmente, compraram outras.
Enfim! Vivem com todo o conforto.