Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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Localização: Maia, Porto, Portugal

segunda-feira, maio 29, 2006

Está calor!

Está calor!
Muito calor!
E eu não gosto do calor!
Sinto-me no inferno, a respirar pior, a transpirar demais.
Sinto-me um torresmo, não sou mais o mesmo.
Estas temperaturas me embrutecem e entorpecem.
Não sei o que escrever nem o que dizer
Porque fico dormente e ensonado.
Por isso, deixo aqui este desabafo.
Mas digo mais, em tom de sabedor:
As grandes civilizações nasceram em climas frios ou temperados.
Não foi nos desertos nem nas florestas de lianas.
Como gostaria de estar agora nas tundras siberianas!
Frio, agasalhos, alvura muita e alguma cor.
Está calor!
Muito calor!
E eu não gosto do calor!
Venham refrescar-me o corpo e as ideias.
Venham banhar-me em águas frias para eu renascer.
Venham depressa, antes que carbonize e me transforme em tição.
Venham dar-me de novo inspiração.
Venham libertar-me deste cárcere letal.
Atroz.
Feroz.
Que não me deixa ser.
Venham ajudar-me.
Socorro!
Senão eu morro.
Mas não apaguem o fogo interno que há em mim.
Porque então seria mesmo o fim.
Está calor!
Muito calor!
E eu não gosto do calor!

(peço desculpa por este texto que não sei se é um aborto, um nado-morto ou um poema torto)

quarta-feira, maio 24, 2006

Diálogos de gente (XIV) (As "tias")

Tarde de sol, mas não muito calor.
Numa esplanada de Cascais, junto do mar, acabam de se sentar duas velhas amigas.
Leonor Telles de Menezes, também conhecida por Nocas, de 57 anos, e Cláudia de Saavedra e Lencastre, a Quicas, três anos mais nova. Ambas casadas e sem ocupação que lhes seja conhecida.
- Garçon! Por favor! Queria dois cafés. Um normal e outro curto. Quer um curto, não quer querida? – disse a Leonor.
- Sim, filha! Se for café quero curto! Se for outra coisa...bom! Você percebe! – respondeu, maliciosamente, a Cláudia.
- Então é isso mesmo, garçon.
E continuou a mais velha:
- Que conta, minha querida! Quando me convida para sair é porque há fofoca – perguntou a Leonor.
- Pois há! Sabe que coloquei um piercing vaginal? – revelou, baixinho, a mais nova.
- Não me diga! Que coisa interessante! – exclamou a Nocas.
Mas pensou:
- Que fulana tão doida! Deve achar que o brinquinho lhe devolve as características que tinha antes de entrar na menopausa.
E continuou:
- Mas agora tem de me contar tudo! Que excitante!
- Olhe! Achei que me devia modernizar. Assim o meu engenheiro pensa que tem uma mulher nova. E ele ainda é um homem exigente! – disse a Quicas.
- Se a menina o diz... – anuiu a Leonor.
Mas pensou:
- Olha! Olha! Ainda na semana passada fui para a cama com ele e estava mais murcho que um balão furado.
E falou de novo:
- Mas diga-me: doeu muito?
- Não, menina! Eles deram uma anestesia local. Depois de passar o efeito dela é que doeu um bom bocado – explicou a Quicas.
- E isso não atrapalha no acto? – quis saber a mais velha.
- Não! O meu engenheiro, que é um garanhão, ainda ficou mais assanhado. Parecia um leão! – respondeu a Cláudia.
Pois! Pois! – pensou a outra.
- Mas o que você não sabe é quem eu vi a sair de lá, do especialista – continuou a Quicas.
- Do artista que coloca os piercings?
- Sim, querida! Oiça bem! A Betinha de Barros Thomaz! – informou a Cláudia.
- Não acredito! Essa velha que tem mais de sessenta anos? E ainda por cima viúva. A quem quererá ela agradar? Humm... você sabe alguma coisa? – inquiriu a Nocas.
- Nadinha! Mas para uma viúva rica...sim, porque essa é mesmo rica...andar a colocar piercings, é porque alguém deve estar a receber uma boa nota – palpitou a Cláudia.
- Bom! Ainda o falecido estava vivo e já se dizia que ela gostava de uns rapagões. E fez plásticas a tudo o que é sítio daquele corpinho de velha. Fez mais que você, minha querida! – provocou a Leonor.
- Oh minha amiga! Eu fiz algumas correcções mas não foram assim tantas! – ripostou a visada.
- Não? Oh querida! Fez na cara, no pescoço, nos seios, lipossucções na cinta e nas ancas já foram várias...
- E acha isso muito? É o trivial, menina! Mas nem um peeling fiz! – esclareceu a Quicas – A velha da Betinha de Barros Thomaz é que já fez tanta intervenção que podia estar exposta para os alunos de medicina poderem observar.
- Ai Quicas! Agora você teve pilhas de graça! – e soltou uma gargalhada, a Nocas.
- Pronto, minha linda! Já sabe da novidade! Agora tenho de ir ao cabeleireiro. E quando é que você adere à nova moda? – disse, despedindo-se, a Cláudia.
- Eu? Não sei! Vou pensar nisso e depois falo com a menina para me indicar onde é o artista – respondeu a Nocas.
- Então adeusinho e até à próxima! – disse a Quicas.
E pensou:
- Sempre quero ver se esta velha também vai colocar um piercing...que ridícula!
- Adeus minha querida! Cumprimentos ao seu engenheiro – disse a mais velha.
E pensou:
- Esta gente não se enxerga! Pensa que as plásticas tiram a idade. O homem dela já me disse que na cama ela é pior que uma morta...enfim!

sexta-feira, maio 19, 2006

Diálogos de gente (XIII) (O padre e a beata)

Cármen é uma mulher de trinta e muitos anos, solteira, muito religiosa, que está na Igreja fazendo as suas orações.
- Ora aqui está uma mulher como há poucas! – disse uma voz suave, de homem.
A mulher olhou para trás e viu o padre Jacinto, de sorriso aberto.
- Boa tarde, senhor padre!
- Boa tarde, menina Cármen! É com muito gosto que venho apreciando a sua grande devoção. Estou nesta igreja há pouco tempo mas não podia deixar de reparar que vem cá todos os dias, mais ou menos a esta hora.
- Mas como é que o senhor padre sabe o meu nome? – perguntou a solteirona, timidamente.
- Ora! Ora! Tenho obrigação de conhecer os paroquianos mais assíduos – esclareceu o novo sacerdote.
Era um homem dos seus cinquenta anos, cabelos todos brancos, e com uma figura interessante. Pelo menos era considerado como tal por muitas das mulheres que frequentavam aquele templo católico.
Olhou para toda a nave e viu que só lá estava mais uma velhinha, que também fazia as suas orações, diariamente, àquela hora.
- Quando acabar, gostava de falar consigo, menina Cármen, pode ir ter comigo à sala junto da sacristia? – pediu o sacerdote.
- Com todo o gosto, senhor padre – anuiu a crente que, ao mesmo tempo, teve uma estranha sensação ao longo da coluna. Aquele padre Jacinto deixava-a um pouco fora de si.
- Então até já! – despediu-se o clérigo, que se movimentou com o seu fato preto para a porta de acesso à sacristia.
A mulher seguiu-o com o olhar, observadora e intrigada.
Passados pouco minutos levantou-se e dirigiu-se para a mesma porta.
Abriu-a e viu, sentado a ler uma revista religiosa, o padre.
- Posso entrar?
- Com certeza, menina Cármen! – disse o homem – Vamos então sentar-nos nesta mesinha e conversar sobre o assunto que me levou a chamá-la aqui.
A mulher sorriu e sentou-se em frente do reverendo Jacinto que a olhou com um sorriso um tanto concupiscente.
- Eu sei que é solteira e vive só. Que não tem familiares próximos e não tem namorado. Sabe porque sei isto, não sabe? Porque mo disse em confissão. Claro que eu não o vou revelar a mais ninguém – começou o padre.
A mulher corou, fez um sorriso um tanto amarelado, mas nada disse. E ele continuou:
- Penso que tem disponibilidade para dedicar mais algum tempo às obras da Igreja. Como sabe, a D. Inocência, que organizava as viagens para os paroquianos juntamente comigo, foi a enterrar há dois dias. Deus tenha em paz a sua alma – disse, enquanto levantava os olhos para o tecto.
- Era muito boa senhora! – interveio a simpática beata.
- Pois eu gostava de a convidar para substituir a defunta senhora. – sugeriu o homem – Que me diz?
A mulher ficou com o rosto parado durante uns segundos mas pouco depois fez um belo sorriso e disse:
- Sinto-me muito honrada pelo seu convite. E, em princípio, aceito. Mas gostava que me desse mais um dia para eu lhe responder definitivamente.
- Com certeza! Se quiser, amanhã de manhã eu passo por sua casa para saber a resposta. Ou prefere dar-ma amanhã à tarde, aqui na Igreja? Eu digo isto porque tenho alguma urgência. Gostaria de recomeçar já amanhã a tratar do passeio do próximo fim de semana, pois as acções necessárias foram interrompidas pela curta doença e passamento da D. Inocência.
A mulher pensou um pouco e respondeu:
- Está bem! Pode passar lá por casa. Mas então prefiro que seja hoje à noite. Sempre é mais escuro e não gosto que as más línguas comecem a falar.
- Pois claro! E eu só me propus ir a sua casa porque sei que vive num andar e, portanto, não a vou comprometer, seguramente. Senão nem pensar em lá ir!
- Então, se aparecer por voltas dos oito da noite, até pode jantar comigo.
O padre fez uma cara de espanto pois não contava com tamanha disponibilidade para servir tão devotadamente os desígnios divinos, mas recompôs-se rapidamente. Levantou-se e disse com um sorriso rasgado:
- Eu acompanho-a à porta. E espero que logo ao jantar já possamos conversar sobre a sua actividade.
Ela levantou-se também, começou a caminhar em direcção à porta e rematou:
- Em princípio, eu estou pronta para fazer tudo para agradar a Deus e à Santa Madre Igreja.

sábado, maio 13, 2006

Diálogos de gente (XII) (A alcoólica)

José Alberto Brito é escriturário na Conservatória do Registo Civil.
Com trinta e cinco anos, casado com Luciana Carvalho, um pouco mais nova, nenhum filho nasceu ainda da relação. Esta não tem profissão ou, como se costuma dizer, é doméstica.
- Boa tarde, Luciana! - disse o homem ao entrar no pequeno apartamento de três assoalhadas onde vive.
Não obteve resposta.
- Luciana! Cheguei!
- A Luciana está a dormir há várias horas – ouviu uma voz bem conhecida dizer.
- Oh mãe! Está cá? Não me diga que ela...
- Pois é, meu filho! Mais uma carraspana de caixão à cova – disse, num tom de desaprovação, a quasi sexagenária.
- Esta mulher é terrível! Dá cabo de mim! E onde foi arranjar o vinho, desta vez? – disse, desalentado, o bom Zé, antes de suspirar fundo.
- Deve ter ido lá fora comprar um garrafão de maduro tinto que estava na cozinha com muito menos de metade. Agora não tem nada porque eu o esvaziei – esclareceu a mãe.
E continuou:
- Ainda bem que eu tenho a chave e venho cá. Estive a ver a tua roupa e só tens uma camisa lavada. Pus alguma a lavar e depois levo-a para minha casa para tratar dela.
- Se não fosse a mãe esta casa era uma desgraça. E mesmo assim é o que se vê! – desabafou o José, olhando para vários pontos da cozinha e da sala onde o desarrumo era imenso – E assim agradeceu, implicitamente, à sua mãe, Isaura.
- Eu não percebo porque não te divorcias, Zé! – disse a senhora – Já falamos nisso muitas vezes. Eu sei que tens pena dela e, no fundo, continuas a gostar da Luciana. Tens um bom coração. Bom demais. Mas nem um filho tendes. E acho muito bem, pois com a mãe alcoólica poderia ser uma criança com problemas.
E continuou a falar de pé, com o filho agora sentado num sofá já coçado, os cotovelos apoiados nas coxas e as mãos segurando a cabeça inclinada:
- Já esteve internada a fazer recuperação por duas vezes e ao fim de pouco tempo lá voltou o vício. Já a mandaste para casa da mãe mas ao fim de seis ou sete dias foste lá buscá-la roído pelas saudades. As pessoas já a conhecem como a “bêbeda” e a ti como o “nabo”. Qual o teu futuro? Eu sei que já falamos nisto muitas vezes mas o problema continua. E vai continuar até se tomar uma decisão radical que tem de ser tua. Tens de ter coragem para a deixar. Não conheces outra mulher com qualidades? Aquela tua colega da repartição que é solteira, por exemplo.
- Oh mãe! Já lhe disse muitas vezes que tem toda a razão, mas não me consigo decidir. – disse o Zé – Não sei porquê, mas não a consigo abandonar. E quando está lúcida até é muito boa pessoa.
- O pior é que passa metade dos dias enfiada na cama com um grande pifo ou a andar pela casa como um fantasma quando está na ressaca. – ripostou a velhota – Tu és um mole! Se um dia morro, e não vou ficar cá para semente, não sei o que vai ser de ti. E tenho cá um desgosto por não ter um neto teu. E o teu pai também! Ele nem vem cá para não se incomodar. Quasi que nem fala contigo sobre o assunto. Deus me perdoe, mas se a desgraçada morresse eu ficava toda satisfeita!
- Oh mãe! Não diga isso! Acho que temos de arranjar uma clínica onde ela possa estar mais tempo. A solução é essa, na minha opinião – opinou o Zé Alberto.
- Eu já não acredito nisso! Já esteve em recuperação duas vezes e foi o que se viu – disse a Isaura.
- É uma merda! É uma merda! – libertou-se o coração do José.
Entretanto ouviu-se um barulho vindo do quarto.
- Olha! Parece que se está a levantar! – disse a mãe – Vai lá tu ampará-la antes que dê um trambolhão. Eu vou dar uma arrumadela à casa, porque hoje e amanhã a tua mulher não vai estar em condições. E depois vamos ver!
O José Alberto dirigiu-se ao quarto onde a Luciana estava sentada na cama, pés nus no chão, cabelos desgrenhados, rosto avermelhado, olhos semicerrados.
- Oh mulher! Então andaste outra vez a beber? – censurou o marido.
- Eu? A...be...ber? Só...um...bo...cado. Pou...co – lá foi falando a alcoólica.
- Oh Luciana! Não foi pouco, não senhora! Felizmente a minha mãe veio cá, está a fazer as coisas que tu devias ter feito, e viu um garrafão quasi vazio – corrigiu o Zé.
- A bru...xa...está...cá? A...fa...zer...o quê? – desaforou a Luciana.
- Cala-te mulher! Cala-te!
- Te...nho...se...de! Dá...me...vinho! – disse a mulher.
- Agora vais é beber água e dormir mais, pois não estás ainda em condições de te levantar. Espera aí um bocadinho que já venho – disse o marido.
Enquanto isso, a mulher deixou-se cair para trás, na cama.

terça-feira, maio 09, 2006

Diálogos de gente (XI) (Duas mulheres no café)

Maria de Lurdes Salgado, quarenta e cinco anos, estava sentada à mesa de um café, quasi vazio àquela hora, lendo um livro.
Alguém entrou, parou, olhou para a mesa ocupada pela atenta leitora e avançou.
- Olá, Lurdes! – disse.
A outra levantou a cabeça e fitou o vulto em pé mesmo defronte dela.
- Henriqueta! Há quanto tempo! – exclamou com um sorriso aberto – Queres sentar-te?
A recém-chegada puxou de uma cadeira e sentou-se de frente enquanto dizia:
- É verdade! Moramos relativamente perto uma da outra mas nunca nos encontramos. Como está a tua família?
- Sabes que estou divorciada? – disse, quasi em surdina.
- A sério, Lurdes? – admirou-se a Henriqueta Santos, antiga colega dos tempos do liceu – Mas isso é recente, não é?
- Separei-me há três anos e o processo de divórcio ficou concluído há onze meses – respondeu a professora do secundário.
- E tu ficaste com a custódia da tua filha, não foi? Tens só uma filha, se bem me lembro – aventou a empregada bancária.
- Exactamente! O meu “ex” deixou o lar e foi juntar-se com outra mulher. – disse a Lurdes – Um traste!
- Pois! São todos iguais, minha filha! – retorquiu a desempoeirada colega – E já arranjaste um gajo?
- Não! Ainda não estou preparada para isso. Dezassete anos em conjunto é muito tempo e isso deixa marcas – respondeu a Lurdes.
- Por isso mesmo é que tens de arranjar outro para esqueceres essas mágoas. – e continuou, a visivelmente artificial loira – Mas não te cases outra vez! Deves ganhar bem, não precisas de aturar outro tipo.
E prosseguiu:
- Nunca desconfiaste de nada?
- Não! Mas parece que já se encontrava com ela há quatro anos antes de se ir embora. Chorei muita lágrima! – lamuriou-se a professora.
- E quem é a fulana? – quis satisfazer a curiosidade, a outra.
- É uma colega de trabalho! O costume! – disse a Lurdes.
- Pois! Acontece muitas vezes. – concordou a antiga companheira de escola – Mas agora tens de esquecer isso e gozar a vida!
- O trabalho ocupa-me muito. Além das aulas e do tempo que agora tenho de dar a mais, ainda tenho umas explicações de matemática.
- Ó minha menina! Desculpa lá! Mas tu ainda és muito jeitosa e tens é de entrar numa onda nova. Olha que qualquer dia tens isso cheio de teias de aranha – e riu-se, a amiga.
A Lurdes, mais pacata e mais virada para a introspecção, também se riu.
- Olha como tens um sorriso bonito! Aproveita a vida enquanto estás numa idade boa – aconselhou a Henriqueta.
Mas disse mais:
- Eu separei-me do Artur há dez anos. Mal soube que ele me punha os cornos, a primeira coisa que fiz foi pô-los a ele. Vivo com um dos meus dois filhos e nunca mais casei. Conheci...deixa-me ver...cinco gajos até que me fixei com um que era também divorciado; um borracho que tem agora cinquenta. O tipo é rico, uma máquina na cama e vivemos separados. Umas vezes dormimos em minha casa, outras na dele, aos fins-de-semana costumamos ir passear e ficamos em hotéis porreiros e ele paga tudo. Mas a relação é aberta. Ele já dormiu com outras e eu já lhe paguei na mesma moeda. Mas tudo numa boa! E sabes o que te digo? Sou feliz!
A outra ouviu-a atentamente e finalmente, disse:
- Mas tu tens um feitio diferente do meu, Queta! Eu gostaria de casar com outro homem, confesso. E há um tipo lá na escola que me faz a corte de maneira descarada. Mas é casado e eu não quero desfazer um lar como me fizeram a mim.
- E tu sabes se o lar já não está desfeito e só existe na aparência? Deixa-te de pruridos e dá-lhe uma oportunidade. Se agradar, tudo bem. Se não agradar, passas-lhe a guia de marcha.
A Lurdes riu-se e falou.
- Tu és sempre a mesma! Quem me dera ter o teu feitio.
- Mas não te cases! Eu não percebo como quem já viveu um casamento que se desfez ainda pensa em casar. Abrenúncio! Lá para os sessenta e tal, quando te reformares, quando ele só der uma de quinze em quinze dias, e tu já estiveres cheia de celulite, e pneus, e rugas e com poucas necessidades, então casas e fazem umas viagens porreiras – aconselhou, de novo, a bancária.
Mas não parou:
- E agora podes arranjar tipos com toda a facilidade através da Net. Tu que és das matemáticas até nem deves ter problemas nenhuns em mexer na informática. Olha! Eu arranjei dois por essa via. Um deles foi um desastre, mas o outro era cá um naco que nem te digo nem te conto. Oh Lurdes! Afinal para que serve querermos a igualdade se continuarmos a comportar-nos como as nossas avós? Espevita, mulher!
A Lurdes, embora conhecesse a antiga colega, não imaginava que ela tivesse concepções das relações entre homem e mulher tão avançadas.

A conversa continuou durante mais uns minutos até que a Henriqueta saiu.
A Lurdes continuou com o livro fechado, olhar fixo num ponto distante e invisível, o pensamento a voar.
Finalmente mexeu-se. Pagou a conta, levantou-se, deixou escapar um sorriso e pensou:
- Ah professor Matias! Talvez venhas a ter uma surpresa!

sexta-feira, maio 05, 2006

Reflexão

Uma pergunta que ao longo da vida me tem feito muitas vezes:

“Do que mais gostas numa mulher?”

As respostas foram muitas ao longo do tempo: umas mais sérias, outras mais brincalhonas.
Que tenha um bonito rosto, que tenha um corpo esbelto, que seja inteligente, que tenha uns olhos lindos, que tenha uns lábios sensuais, que seja asseada, que seja uma fada do lar, que tenha uma forte carga erótica, que seja loira, que tenha uns seios bem feitos, que tenha uma voz meiga, que seja fiel, que seja rica, que tenha uns belos cabelos, que tenha uma tez morena, que saiba falar, que saiba rir, que tenha sentido de humor, que seja culta, que saiba conversar, que seja terna, que me satisfaça sexualmente, que me dê filhos, que seja nova, que seja madura, que seja simples, que...que...
Ao fim de todos estes anos, já sei a resposta definitiva (saberei mesmo?):

Que goste de mim!

segunda-feira, maio 01, 2006

Diálogos de gente (X) (Três no escritório)

Margarida Torres e Teresa Brandão eram as duas únicas ocupantes de um dos gabinetes da Contabilidade na empresa onde trabalhavam
Ambas casadas, na casa dos trinta e tal, eram duas bonitas mulheres, casadas e com um filho cada uma.
Mas a primeira vestia-se de forma mais provocante, era mais sensual, e não havia homem que ao passar por ela não a olhasse de forma mais ou menos concupiscente.
- Bom dia, minhas lindas – saudou o colega Tomás da Costa mal entrou na sala de ambas.
- Bom dia, Tomás! – responderam em uníssono.
- Oh menino Tomás! Não vens chatear a gente, pois não? – perguntou a Margarida.
- Mas eu não te chateio, Guidinha! – ripostou o homem – Como é que eu podia chatear a mais bela mulher à superfície da Terra? Ai minha querida! Quando é que vens cair nos meus braços?
- Lá vens tu cantar-me a canção do bandido! – disse a Margarida – Vai fazer o teu trabalho que é para isso que te pagam. Não é para vires aqui desviar-nos a atenção do que temos para fazer.
Mas o Costa, quarentão recentemente divorciado, não desarmou:
- Guidinha! Eu para produzir trabalho com alto rendimento preciso de vir aqui ver os teus lindos olhos verdes, sentir o perfume que exalas do teu corpo de ninfa, cegar-me com o brilho dos teus cabelos doirados, inebriar-me a escutar a tua voz sensual.
Nenhuma delas conseguiu evitar um largo sorriso, mas a loira aconselhou, tentando ser muito séria:
- Pronto! Agora que já te inspiraste, podes pôr-te a andar!
- Agora sim, vou trabalhar! O dia que nasceu turvo para mim, já se iluminou – e saiu, sorrindo, o Tomás.
- Coitado do homem! – disse a mais discreta Teresa, que contrastava com a amiga por ter uns cabelos e uns olhos muito negros e arranjar-se de uma maneira mais simples.
- A mulher pôs-lhe os cornos e agora nós é que temos de o aturar a ele mais às suas carências – comentou a loira.
- Mas deixa-me dizer-te, Guida! Ele anda perdidinho por ti! – afirmou, num tom de quem tem a certeza, a morena.
- Isso sei eu! Mas está com azar! De mim não leva nada! – respondeu, peremptoriamente, a visada.
Tocou o telefone, a Teresa atendeu e a conversa morreu ali.
Tinha decorrido mais ou menos meia hora quando:
- Aqui estou eu de novo, Guidinha! – disse o Tomás enquanto entrava.
- Outra vez? – fingiu admirar-se a loira.
- Já estava a perder inspiração e tive que vir aqui à fonte absorver mais uma dose – disse o colega.
- Então inspira-te caladinho e põe-te na alheta depressinha, está bem? – ordenou a Margarida.
- Ok! Eu não digo mais nada! – afirmou o Tomás, calando-se e aproximando-se devagarinho da Guida que estava atenta ao que lia nuns papéis.
Postou-se ao lado dela e passou-lhe a mão, suavemente, pelos cabelos.
- Oh Tomás! Tu és demais! – refilou a mulher – Ainda apanhas uma bofetada! Ai apanhas, apanhas!
- Eu só estou a fazer o que mandaste! – justificou-se o homem – Inspirar-me em silêncio. Mas só tocando-te consigo ter alento e talento para mais de meia hora. Olhar-te, só alimenta a carga para trinta minutos.
- Olha, Tomás! O que tu querias sei-o eu. Mas estás com azar. Comigo não te safas – avisou a Guida.
- Nunca se sabe! Nunca se sabe! – disse ele em tom de desafio.
- Se estás à minha espera, bem ficas divorciado o resto dos teus dias. Divorciado e a seco – avisou de novo a loira.
- Queres vir tomar um cafezinho comigo? – convidou o homem, mudando o rumo da conversa.
- Daqui a pouco vou mas não é contigo, não! – disse, secamente, a Margarida.
- Bom! Já recarreguei para uma horita, mais ou menos. Vou trabalhar até à próxima carga – disse o homem, saindo a sorrir, como sempre.
- Oh, Guida! Se não te impões de uma vez, ele não te larga! – aconselhou a Teresa.
- Eu sei! Mas, no fundo, até gosto de ouvir alguns dos piropos que ele me diz – confessou a loira.
- Tu lá sabes! Mas o comportamento dele configura perfeitamente um crime, ou lá o que é, de assédio sexual – disse, convictamente, a morena.
- Deixa lá o homem! Qualquer dia arranja uma gaja que o satisfaz e acalma logo – pôs a Guida água na fervura.
- Não sei, não! Olha que ainda estava com a mulher e já te fazia rapa-pé.
- Eu sei, Teresa! Mas era poucochinho – disse a outra.
- Olha, Guida! Só te digo que se não o pões em sentido, qualquer dia ele pode chegar a extremos que tu nem estás a imaginar.
- Não dramatizes, Teresa! Eu sei pôr-me no meu lugar! – e a Margarida sossegou a colega.
- Espero que o teu lugar não seja debaixo dele! – preveniu a Teresa.
- Oh filha! Parece que estás com ciúmes! Já viste que o homem até é bem jeitoso?
O telefone tocou e a morena atendeu.
- Pois é, queridinha! Tens é dor de cotovelo! – pensou a Guida.