Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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Localização: Maia, Porto, Portugal

terça-feira, abril 25, 2006

Diálogos de gente (IX) (O lambe-botas)

Duarte Nóvoa estava sentado na secretária do seu gabinete a escrever um e-mail de resposta a uma questão suscitada pelo seu superior hierárquico e Director – Geral.
Eis que o seu subordinado Óscar Ribeiro assomou à porta do compartimento e perguntou baixinho:
- O Sr. engenheiro dá licença?
O chefe nem teve de levantar a cabeça para saber quem era:
- Oh Óscar! Eu agora preciso de estar concentrado aqui a redigir um texto para o meu chefe. Falamos daqui a um bocadinho.
- Sim, Sr. engenheiro Nóvoa – respondeu o Ribeiro, ao mesmo tempo que entrava completamente no gabinete e se postava silenciosamente junto à porta.
Ao fim de uns bons quinze minutos:
- Ufa! Finalmente! – suspirou o Duarte, e reparando no outro – Então você ainda está aí, Ribeiro?
- Estava à espera que o Sr. engenheiro acabasse esse trabalho para falar consigo.
- Já lhe disse para não me chamar Sr. engenheiro. Não gosto. Pode chamar-me engenheiro Nóvoa se quiser usar o título, mas sabe muito bem que não gosto muito disso. O meu nome é Duarte Nóvoa – ralhou o “manda-chuva”.
- Pois é! Mas estou habituado a meter sempre o engenheiro e agora, se não usar, não me sinto bem – justificou-se o Óscar.
- Mas afinal qual é o problema, oh Ribeiro? – interrogou o Nóvoa.
- Queria pedir-lhe autorização para logo à tarde me deixar sair. Tenho uma consulta marcada no oftalmologista às quatro horas. Mas eu ainda venho cá depois porque o Sr. engenheiro Nóvoa pode precisar de mim – disse o homem.
- Está muito bem! É sensato olhar pela saúde e a visão deve ser bem vigiada – autorizou o engenheiro.
E continuou:
- E está dispensado para o resto da tarde. Você passa cá muito tempo e até lhe faz bem ir apanhar ar fresco. Senão ainda fica mais doente estando sempre aqui metido.
- Muito obrigado, Sr. Engenheiro! – agradeceu o Óscar – Mas eu gosto de estar aqui porque acho que devo dedicar o máximo de tempo à empresa que me paga.
- Eu agradeço muito a sua dedicação, Ribeiro, mas não quero que prejudique a sua vida privada e familiar. Salvo em situações excepcionais – disse o chefe.
- Sabe que, se não estou cá eu, muitas das outras pessoas não tem tanta dedicação à firma e alguns assuntos ficam adiados. Eu procuro resolver tudo de imediato.
- Eu sei da sua dedicação, Ribeiro! Não precisa de ma lembrar. – afirmou o Nóvoa, já um pouco fatigado dos salamaleques e auto-elogios do outro – Pode retirar-se e, se me fizer o favor, peça ao Nogueira para cá vir.
- Acho que o Nogueira não está cá! Mas eu vou procurá-lo e se estiver eu dou-lhe o recado – prontificou-se o “lambe – botas”.
- O Nogueira não está cá? Mas ninguém me disse nada! – admirou-se o Duarte.
- Eu não tenho a certeza, mas vou já tratar disso. Com licença! – e saiu da sala, o Ribeiro.
- Até que enfim! Este tipo é pior que uma carraça! – desabafou para consigo o Director do Departamento.
Passados alguns minutos, apareceu novamente o Óscar.
- O Sr. Engenheiro dá licença? – perguntou.
- Diga lá, Ribeiro!
- Estive a procurar o meu colega Nogueira mas não o encontrei.
- Mas ele saiu e não disse nada? – perguntou, um pouco irritado, o responsável.
- Parece que saiu e não disse nada a ninguém – enfatizou o “graxista”.
- Isto assim não pode ser!
Mas eis que surge à porta um terceiro homem!
- O engenheiro andava à minha procura?
- Oh Nogueira! Afinal você está cá!
- Estive sempre! Mas de vez em quando tenho umas necessidades fisiológicas para satisfazer – disse o recém-chegado enquanto olhava com cara de poucos amigos para o Ribeiro.
- Entre e sente-se! E você, Ribeiro, pode retirar-se. Já não preciso de si, por enquanto – ordenou o Director.
- Então, com a sua licença, Sr. engenheiro!
E o Óscar Ribeiro saiu, a pensar:
- Este sacana vai ter de me dar um bom aumento! Nem que tenha de passar cá dentro 24 horas por dia.

quinta-feira, abril 20, 2006

Diálogos de gente (VIII) (O faccioso)

- Oh Moreira! Então hoje estás com a beiça? – questionou, em tom provocador, o Santiago.
- Estou é lixado com o árbitro que nos roubou um golo limpo, deixou passar um off-side que deu o golo aos lampiões e ainda marcou um fora-de-jogo contra o Porto quando o avançado estava em posição legal – ripostou, visivelmente exasperado, o António Moreira.
E continuou:
- Assim, em vez de termos perdido por 1-0, deveríamos ter ganho por 2-0. E ainda falam no sistema, estes palermões!
- Pelo que vi, o Benfica jogou melhor que o Porto! – interveio o Anacleto – E desses erros de que falas, acho que só o golo do Porto foi limpo. E esqueceste-te de que houve um penalty que foi perdoado ao Porto por mão na área. E eu não sou vermelhão. Sabes bem que sou portista há mais tempo do que tu.
- Vês, Moreira? – voltou o Santiago à carga – Estás a ouvir o que disse o Anacleto, pá?
- Esse tipo é um lampião disfarçado de portista. – replicou o desenhador enquanto tentava concentrar-se de novo no seu trabalho – E vocês desamparem a loja. Nunca ouviram dizer que não há nada pior para aqueles que trabalham do que aqueles que nada fazem?
- Vamos embora, Anacleto! – disse o Santiago – Este tipo é um doente do Porto e o maior faccioso que eu conheço.
- Vamos lá! – concordou o outro – senão ainda nos atira com o monitor à tola.
- Coitada da mulher dele! – comentou o primeiro – Parece que quando o Porto perde tem de o aturar de mau humor durante dois ou três dias.
- É um tipo porreiro, mas um autêntico doente da bola – arrematou o Santiago.
Passados alguns minutos, ouviu-se outra voz:
- Olá, Moreira! Então ontem apanhamos no pêlo daqueles pernetas?
Era o Silva.
- Com um ladrão dum árbitro como o que estava no campo era impossível ganhar – justificou o António.
- Eles que metessem lá dentro quatro ou cinco que não havia árbitro que chegasse – argumentou o recém-chegado.
- O bandido invalidava os golos todos. – sentenciou o Moreira – O gajo estava era comprado!
- Por acaso até acho que o árbitro errou mais contra nós. Mas o Benfica jogou melhor; especialmente na segunda parte – procurou ser sensato o Silva.
- Aqueles nabos? Se não tivessem o árbitro a favorecê-los perdiam o jogo – insistiu o Moreira.
- Ok, Moreira! Custa-me dizê-lo, mas os mouros foram sempre mais perigosos. Vou andando senão o meu chefe ainda me lixa. E tu não te chateies que não vale a pena – acabou o Silva, aconselhando o colega de trabalho.
Durante cerca de meia hora o especialista em CAD esteve concentrado no seu desenho.
Ao fim desse tempo, apareceu o Cardoso:
- Hoje não falo de futebol. – começou este – Mas o que me dizes à questão da demissão do Director da Judiciária?
- Só te digo que se o governo do Sócrates o demitiu é porque tinha razões para isso – replicou o Moreira.
- Tu é que devias ser militante do PS, pá! Defendes mais o partido do que nem sei o quê!
- E tu já viste um primeiro-ministro com a categoria deste? – respondeu o desenhador António – O Soares e o Guterres estiveram perto, mas nenhum teve a dinâmica deste gajo!
- Deixa estar que tu és pouco faccioso, és! – acusou o Cardoso.
- Faccioso, eu? Procuro ver as coisas como elas são! Só isso! – defendeu-se o homem.
- Isso, isso! – e soltou uma gargalhada, o colega.
- E ainda se ri, este reaça do carago! – resmungou o Moreira.
- Agora sou reaça? Olha! Vou-te deixar trabalhar! – disse o outro – Senão ainda me vão acusar de estar a boicotar o aumento do PIB.
E foi-se, o Cardoso.

domingo, abril 16, 2006

Diálogos de gente (VII) (O corno)

Sábado à tarde.
O cinquentão Augusto Simões, profissional dedicado e sempre atarefado, sabendo que a sua mulher Maria de Fátima tinha um compromisso no exterior com umas amigas, chamara a sua casa e esperava a chegada do seu irmão mais novo.
Serafim tinha menos dez anos que o mais velho.
A mulher tinha menos quinze anos. Ainda não fizera quarenta.
Quando o mano chegou, Augusto, muito circunspecto, disse-lhe:
- Oh Serafim! Preciso de alguém para desabafar.
- Sou todo ouvidos! – incitou o outro.
- Sabes que gosto muito da Fati, mas descobri que ela me trai.
Fez uma pausa. O irmão fitou-o fixamente e com o rosto fechado, mas não disse nada.
Por fim, continuou:
- Eu já há uns tempos que andava desconfiado. Todas, ou quasi todas as tardes de quarta-feira me dizia que ía até à baixa ver se havia alguma coisa interessante para comprar e encontrar-se com umas amigas. E aos sábados a mesma coisa. Mas, neste dia, algumas vezes eu acompanhava-a. Até que resolvi segui-la na última quarta.
- Oh pá! – exclamou o outro.
- Deixa-me acabar! – pediu o Augusto – Vi-a entrar para uma hospedaria. Passado pouco tempo entrou um tipo cuja cara me era familiar. Um colega dela, lá na escola. Ao fim de quasi duas horas, ela saiu e pouco depois ele fez o mesmo. Cada um seguiu o seu caminho e ela regressou a casa.
- Desculpa-me interromper-te! – disse o Serafim – Mas porque desconfiaste?
- Sabes que ultimamente a tenho procurado pouco! – disse o Gusto – Ando com muito trabalho, os anos vão pesando e quando chegam as onze ou onze e meia vou para a cama e adormeço como uma pedra. Dantes, ela ainda me espicaçava e eu correspondia algumas vezes. Outras, dizia que queria dormir e descansar. Actualmente, nem eu nem ela. Não temos relações há algum tempo.
- Estou espantado! E agora? – perguntou o irmão.
- Agora? – e fez uma pausa, de cabeça baixa, o Augusto – Eu gosto muito da Fati. Ainda não sei bem o que fazer. Digo-lhe o que sei ou não? Provavelmente não digo nada e vou tentar reatar uma actividade sexual mais frequente. Para isso preciso de trabalhar menos e descansar um pouco mais. Ela é nova e ainda com muito sangue na guelra. Pensei dizer-lhe tudo, mas o mais certo é perdê-la para sempre. Pode ser que, não falando em nada, a reconquiste. Vou pedir umas férias e propor-lhe fazer uma viagem interessante, ao estrangeiro. Tentar que ela se afaste dele. E às quartas à tarde vou pedir uma dispensa, de vez em quando, para a acompanhar.
- Sabes se ele é casado? – quis saber o mano mais novo.
- Penso que sim. Pelo menos era!
- Podias contactar a mulher dele e contar-lhe. Assim seriam dois a ajudar ao fim da relação – sugeriu o Serafim.
- É uma ideia. Nem me tinha lembrado disso – retorquiu o enganado.
E continuou:
- Vou pensar melhor nessa hipótese, mas primeiro vou tentar o que te disse. Que achas?
- Se não lhe queres dizer nada é porque não estás interessado na separação. Portanto, e considerando que queres salvar o casamento, acho que a tua ideia parece ser boa. Mas não sei se o que há entre eles é meramente carnal ou é mais do que isso. Se ele for casado e também não quiser acabar com o casamento, talvez resulte. Embora a ajuda da mulher dele pudesse ser preciosa – alvitrou o Serafim.
- O pior é se ela resolve querer separar-se dele; assim fica o caminho aberto para a Fati e o gajo – lembrou o marido.
- Tens razão! Sabes que é muito difícil dar conselhos em situações destas, especialmente quando não se conhece um conjunto de detalhes. Não sei bem o que te diga! – confessou o irmão.
- Eu compreendo-te! Mas quis dizer-te isto para desabafar e para que tu soubesses. Pode ser que possas ajudar. Se não for hoje, noutras ocasiões – disse o Augusto – Sabes que já me sinto mais desanuviado?
- Eu gosto muito de ti, mano. Na medida das minhas possibilidades, tentarei ajudar-te a reconquistar a tua mulher e a afastar o outro.
Com os olhos brilhantes, Augusto levantou-se e foi dar um beijo ao irmão.
- Eu sei que posso contar contigo. Mas o papel principal tem de ser meu.

Conversaram ainda algum tempo sobre este e outros assuntos.
Por fim, o mais novo despediu-se e saiu.
E foi pensando consigo mesmo:
- Então o meu irmão é corno! E corno manso! Mas isso é o que mais há! Como se costuma dizer: um homem sem cornos é como um jardim sem flores. Oxalá consiga atingir o objectivo de reconquistar a mulher. Ele gosta mesmo dela. Mas duvido que ela o mereça!

quarta-feira, abril 12, 2006

O meu segundo nascimento

Casei pela primeira e única vez (pelo menos até agora) em finais de Agosto de 1979.
Mas só em Janeiro ou Fevereiro de 1982 a minha mulher ficou grávida.
Todo o período de gestação decorreu com a maior normalidade.
Na altura, as ecografias estavam a começar a ser usadas em obstetrícia e a sua utilização quasi se confinava à determinação prévia do sexo do feto: uma curiosidade. Por isso, resolvemos que não havia necessidade de a satisfazer.

Aquando do nascimento logo se veria!
Assim, foi colocado em discussão qual o nome a dar à criancinha.
Para o caso de ser rapariga, sugeri Diana, Diana Maria, nome com o qual a minha mulher concordou de imediato.
Se fosse um rapaz, sugeri Fernando Abel.
Devo dizer que, para mim, mesmo os nomes próprios não devem ser dados segundo critérios pouco consistentes como o de serem mais ou menos bonitos ou estarem mais ou menos na moda.

Acho que deve ser dado o nome de um ou dois antepassados, sendo um momento para homenagear os ancestrais.
Como o meu pai e o meu sogro eram Fernando, além de a minha mulher e a minha irmã serem Fernanda, e dado que, na geração do meu filho, só havia um outro Fernando, pareceu-me uma escolha lógica.
Abel era o nome do meu avô materno e não havia, nem há, mais ninguém na família registado com ele.

E a combinação agradava-me particularmente...
Mas a futura mamã preferia Miguel ou Nuno. O critério era o “mau critério” de serem bonitos. Quando falou em Miguel, eu lembrei-me do meu bisavô paterno, o compositor e pianista Miguel Ângelo Pereira, o qual já foi, se bem se recordam, merecedor de dois posts, neste blog, no ano anterior.
Como Nuno era um nome sem significado para mim, contrapus Miguel Ângelo ou Fernando Miguel.

E a Maria Fernanda escolheu a última combinação.
E assim ficou assente: ou Diana Maria ou Fernando Miguel.


No dia vinte e nove de Outubro de 1982, uma sexta-feira, a meio da manhã, e porque a parturiente assim mo pediu (e dessas coisas eu não percebia nem percebo muito), lá fomos para o Hospital da Ordem de S. Francisco. Antes, telefonou para a parteira que era uma sua familiar, a Mercedes, transmontana de gema.
Depois de arrumadas as coisas num quarto que nos foi atribuído, fomos para a sala de partos.
Como o momento da expulsão ainda estava atrasado, fui comer qualquer coisa, muito rapidamente, pois a ansiedade já era grande.
Depois dirigi-me novamente para o local onde estava prestes a dar-se o nascimento do meu filho.
Estive a assistir aos primeiros trabalhos mas, a certa altura, a parteira deu-me ordem de expulsão e, muito pesaroso mas sem refilar, vim cá para fora.
Pouco depois chegou a minha mãe.
Diga-se que a minha sogra estava doente com cancro da mama e, por esse motivo, não se deslocou à Ordem.
Fumei uns tantos cigarros enquanto conversava com a “velhota” até que ouvi uma voz da Mercedes a gritar lá de dentro:
- António! É um rapaz e está tudo bem!
E a minha reacção surpreendeu-me!
Agarrei-me à minha mãe e chorei convulsivamente durante muitos minutos.
Acho que desde muito jovem que não vertera tantas lágrimas.
A minha mãe, a certa a altura, já um pouco preocupada, perguntou-me:
- Estás bem? Estás a chorar de alegria ou por outra razão?
- De alegria, mamã, de alegria! – disse, sempre soluçando.

Ao fim de uma semana, surgiu um problema.
O bebé estava amarelo que nem um chinês de raça pura.
Tinha icterícia e o correspondente nível muito alto de bilirrubinas.
E o desgraçado lá ficou no Hospital de S. João, só com um adesivo identificativo colado no peito, integrado num conjunto de “chinocas”, a fazer um tratamento de fototerapia durante dois dias e duas noites.
E lá vieram mais lágrimas.

Ultrapassado este problema, e passados poucos meses, verificou-se que a “moleirinha” tinha fechado precocemente.
- Oh Sr. Doutor! E se a massa encefálica crescer e não couber dentro da caixa craniana?
- Serra-se a caixa – disse o desalmado que, ainda por cima, tinha sido o responsável pelo acelerar do processo devido a ter-lhe receitado cálcio em excesso.
É claro que nunca mais fui consultar esse pediatra odioso.
Mas o rapazinho era cabeçudo pelo que não aconteceu o pior cenário que imaginei.

E a vida continuou...
Hoje o Fernando Miguel tem vinte e três anos e é a coisa mais importante na minha vida (apesar de me fartar de lhe dar na cabeça).
É o único varão capaz de transmitir o nome Castilho Dias. Tudo o resto são mulheres cujos filhos adoptam, normalmente, o apelido dos pais dos seus rebentos como principal.
Como eu gostaria de ter muitos netos Castilhinhos...

PS: Também eu fui o único capaz de transmitir o nome. Um primo que também o poderia fazer desapareceu em Angola, em 1974, quando cumpria o serviço militar obrigatório como comando, supostamente raptado pela UNITA...até hoje.

Aqui fica o seu nome: Manuel Francisco.

sábado, abril 08, 2006

Diálogos de gente (VI) (Mentiroso compulsivo)

Abílio e Maria do Céu esperam uma visita para jantar.
Ele está sentado num sofá da sala e ela afadiga-se a terminar a feitura da refeição com ajuda de um empregada.
Pouco depois toca a campaínha.
- É o Eng. Teles da Silva – diz ele, enquanto se levanta e caminha para a porta.
Toma o auscultador do intercomunicador e vê que é, de facto, o seu novo cliente.
- Vou abrir a porta, Sr. Eng. – fala, e logo de seguida carrega no botão.
Coloca-se à porta da habitação e aguarda que o elevador se abra. Isso acontece em menos de um minuto.
- Então muito boa noite, Sr. Eng. – saúda – é uma honra recebê-lo na minha casa. Faça o favor de entrar.
E franqueia a porta ao visitante.
- Boa tarde, Sr. Fonseca – responde o recém-chegado, enquanto entra no apartamento.
- Vamos aqui para a sala e tomamos um “drink” antes de jantar.
- Com licença – diz o Teles, enquanto entra no aposento.
- Queira ter a bondade de se sentar. Pode ser nesse sofá – indica o anfitrião.
- Qual a sua preferência, Sr. Eng.? Um Martini? Mas aqui tenho de tudo; felizmente a casa é farta – diz o Abílio.
- Sim. Pode ser um Martini – aceita o cliente.
Enquanto serve a bebida, o Fonseca não deixa de falar:
- Como pode ver, tenho aqui uma casa muito jeitosa. E sabe em que me inspirei para a decoração desta sala? Na do Prof. Freitas do Amaral com quem me dou muito bem – diz o homem.
Entretanto entra a Maria do Céu que, por pedido do marido, se adornara com as melhores jóias que tinha.
- Olhe! Está aqui a minha Maria que não me deixa mentir.
E faz as apresentações:
- Esta é a minha esposa, Maria do Céu. Este é o Sr. Eng. Teles da Silva.
O homem levanta-se e cumprimenta de mão a dona da casa.
- Muito prazer, minha senhora – diz ele – e peço desculpa pela maçada que lhe venho dar. Mas o seu marido insistiu tanto...
- O prazer é meu – responde a mulher – e não é maçada nenhuma, antes pelo contrário. Gosto de ter convidados em casa.
- Agora podem sentar-se – diz o vendedor.
E continua:
- Também conheci o Eng. Amaro da Costa, mas com esse não tinha tanta confiança – prossegue o Abílio.
- Também faleceu muito novo! – intervém o visitante.
- E era um homem muito inteligente. Mas acima de todos admirava o Sá Carneiro. Conheci-o também. E à Snu. Que mulher com categoria! Chegou a pedir-me para escrever um livro com as minhas memórias. Está aqui a minha Maria que não me deixa mentir – continua o Abílio, olhando para a mulher.
Esta, com um sorriso de tom levemente amarelado afivelado no rosto já com algumas rugas, confirmou com um tímido movimento da cabeça.
- Mas o Sr. Fonseca escreve? – pergunta o admirado Teles da Silva.
- Tenho umas coisas escritas. Ando agora a ver se publico. Mas, naquele tempo, já nem sei bem como, chegaram às mãos da Dr.ª Snu Abecassis uns sarrabiscos meus e ela ficou muito bem impressionada – e voltando-se para a mulher – Maria! Daqui a quanto tempo vamos jantar?
- Daqui a uns cinco minutos. A empregada ficou a tratar das coisas – responde a mulher.
- Então o Sr. Eng. vive numa vivenda na Foz, não é verdade? – pergunta o homem da casa.
- Oh Sr. Fonseca! Isso seria muito interessante, mas só tenho um apartamento em Matosinhos – responde, um tanto intimidado, o convidado, bem mais novo que o outro.
- Mas lá irá chegar! – profetiza o visitado – eu já vivi numa, na Boavista, mas depois de os meus filhos casarem preferimos um apartamento mais pequeno e mais acolhedor.
A Maria do Céu levanta-se e vai à cozinha.
Pouco depois estavam todos sentados à mesa.

O convidado acaba de sair, e Maria do Céu diz para o marido:
- Oh homem! Porque és tu assim? Se o Eng. descobre que nunca conheceste nem o Freitas nem o Amaro da Costa nem a Snu, que ainda escreves pior do que eu e não vais publicar livro nenhum, que nunca vivemos na Boavista nem em nenhuma vivenda, ainda vai o negócio por água abaixo.
- Ora! Eu não sou mentiroso. Exagerei um bocadito mas convém dar alguns ares de importância. São técnicas de marketing, Maria. Técnicas de marketing. Além disso tu não me deixas mentir – e, dito isto, o Abílio afasta-se.
- Para viver trinta e tal anos com um mentiroso compulsivo é mesmo preciso ter uma paciência de Job – cogitou a mulher.

quarta-feira, abril 05, 2006

Diálogos de gente (V) (Emotivo)

Nuno conduzia o seu Ford Focus cinza metalizado por uma velha estrada na direcção do mar.
O tempo era estival e o ar condicionado provava ser um acessório importante.
A seu lado seguia a namorada, Diana.
- Oh Di! Queres ir mesmo para a praia ou vamos antes dar uma volta a pé pela marginal e depois sentar e tomar qualquer coisa numa esplanada? – perguntou o jovem.
- Por mim ía para a areia. Aproveitava e bronzeava-me mais um pouco. E mais tarde podemos tomar um banho no mar – respondeu a moça.
- Pronto, minha querida! Seja feita a tua vontade. Ámen! – brincou ele.
E continuou a conduzir a baixa velocidade enquanto conversava com a companheira. Não viviam juntos, mas várias vezes tinham abordado o assunto e, mais cedo ou mais tarde, tomariam uma decisão nesse sentido.
A certa altura, a jovem apercebeu-se de que um ciclista que seguia junto da berma da estrada deu uma guinada para dentro da mesma. Assustou-se e, instintivamente, gritou:
- Cuidado! Olha o ciclista!
O condutor, um sujeito emotivo, comportou-se como tal.
- Porra, Diana! Cala-te! Eu sei muito bem o que estou a fazer! Já tenho carta há mais tempo do que tu e não sou um nabo a conduzir. Faço-o melhor a dormir do que tu acordada! – berrou.
A rapariga, já habituada a estas explosões do rapaz, preferiu não responder para ver se ele se acalmava.
Mas o Nuno ainda não tinha desabafado completamente:
- Com o teu grito é que podias provocar um acidente. Já sabes que não quero que interfiras com a minha condução. Se não gostas, para a próxima eu venho sozinho e tu trazes o teu carro ou vens a pé ou de autocarro. Comigo é que não vens. Raios te partam!
E bufou, como que mais aliviado.
- Se este tipo continua a reagir assim, mando-o à merda! Tenho de pensar bem se me vou unir a ele. Ao fim e ao cabo há muitos homens e como eu até sou bem jeitosa, não faltará quem goste de mim – pensou a Diana.
Depois de mais uma cena, o moço calou-se e não abriu a boca até chegarem à praia. Ela fez o mesmo.
Estacionou a viatura, e saiu. Ela permaneceu lá dentro. Ele deu a volta e foi-lhe abrir a porta.
- Então, Diana? Desculpa lá o meu descontrole, mas tu já sabes como sou. Vamos então até lá baixo, para a areia? – disse ele com os melhores modos do mundo.
Já lhe tinha passado o acesso de fúria e estava calmo como se nada tivesse ocorrido.
Ela já sabia que isto iria acontecer. Era habitual nele.
Embora ainda magoada, saiu e dirigiu-se para a mala do carro donde retiraram os atavios que acharam mais convenientes.
A tarde decorreu com toda a normalidade. Conversaram calmamente sobre vários assuntos, banharam-se e no final de uma tarde bem passada regressaram ao carro.
Ele conduziu-a a casa.
Depois de se beijarem e já com a porta do seu lado aberta, a Diana disse:
- Oh Nuno! Depois temos de falar sobre o teu comportamento desta tarde, no carro.
- Ora! Deixa-te disso! Já sabes que eu sou assim. É superior às minhas forças, mas passa-me depressa. Já nem sei porque me exaltei tanto.
E era verdade!

Os indivíduos primários são assim: as impressões limitam o seu efeito a um curto intervalo de tempo.
- Mas então tens de ir a um médico que te dê uma porcaria qualquer para não explodires tanto e tantas vezes. Um dia há uma explosão atómica e morre tudo – alvitrou a moça.
- Está bem! Está bem! Qualquer dia vou ao médico. Mas isto não se resolverá com umas mezinhas? – retorquiu ele.
E riram-se ambos.

sábado, abril 01, 2006

O toque rectal

Durante os anos noventa era eu quarentão e começaram a aparecer-me uns achaques, como que dizendo:
“Oh pá! Lembra-te que já não és um jovem.”
O que mais me apoquentava era o estômago. E como é normal, fui consultar um velho gastrenterologista do Porto que fora considerado um dos melhores, senão o melhor clínico da especialidade, alguns anos antes. Uma doença afastou-o do exercício da profissão e, quando regressou, já tinha perdido alguma clientela.
Chamava-se Hernâni Vasconcelos.
Não sei se ainda é vivo mas, se o for, já é seguramente muito velhinho.
As suas consultas eram exaustivas. Media a temperatura, tinha um pequeno aparelho de raios X, fazia uma análise à urina, perguntava ao paciente tudo e mais alguma coisa...enfim, praticava um acto médico digno desse nome.
E, nos seus clientes do sexo masculino com mais de quarenta anos, não deixava de fazer o toque rectal.
Para os menos bem informados ou mais distraídos, devo esclarecer que o referido toque consistia em introduzir um dedo (com uma luva calçada, evidentemente) no ânus do desgraçado para fazer a apalpação da próstata.
A operação não era dolorosa fisicamente.
Mas psicologicamente era um verdadeiro atentado à minha masculinidade e orgulho de macho.
Que diabo! Um homem e enfiar-me o dedo pelo cu acima era uma afronta que só perdoava ao velho doutor porque sabia que era feita para me proteger de qualquer problema nesse órgão tão importante para a vida sexual. E, ainda por cima, nunca soube qual o dedo que ele utilizava. Pois! Estava de costas! Era como se fosse violado à falsa fé.
Sempre que lá ía, o clínico não deixava de perguntar:
- Oh senhor engenheiro! Da última vez que cá veio fizemos o toque rectal?
- Fizemos sim, senhor doutor! – respondia eu, prontamente, mesmo que fosse mentira.
Mas o homem era esperto e por vezes dava a volta:
- Mas já cá não vem há muito tempo. É melhor ver como está isso!
E pumba! Lá vinha a traumatizante penetração anal.
Felizmente, como o órgão costumava estar em condições, às vezes o Dr. Hernâni dispensava-me dessa verificação.
Devo deixar aqui bem expresso que não fiquei minimamente viciado.
Uff...

Muito recentemente fui consultar um urologista e, como não podia deixar de ser (até porque estou um bom pedaço mais velho) o médico lá me fez o famigerado toque. Depois das apalpadelas da praxe, disse:
- A sua próstata parece a de um rapaz de vinte anos!
Só vos digo que esta afirmação fez-me esquecer completamente o vexame de que acabara de ser vítima e senti-me como que renascido.
Mas, passados uns instantes, pensei:

- Ora! Se tivesse o tesão de um rapaz de vinte anos é que era bom!