Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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Localização: Maia, Porto, Portugal

terça-feira, agosto 29, 2006

Vinte e sete anos depois

29 de Agosto de 1979.
29 de Agosto de 2006.
Faz hoje vinte e sete anos que casei.
Tinha trinta anos.
Conheci a Maria Fernanda um ano antes, em Vila Praia de Âncora, terra natal de minha mãe, por coincidência.
Vi-a pela primeira vez sentada na areia da praia, com uma rapazito a brincar na água, junto dela, e pensei:
“ Que mulher fabulosa! Que sorte tem o tipo que é casado com ela!”.
E segui caminho.
Depois vi-a mais algumas vezes, mas já sem a criancinha. Isso aguçou a minha curiosidade. E quando surgiu a oportunidade, meti conversa.
Afinal o rapazinho sempre era filho dela; tinha acabado de se divorciar após pouco mais de um ano de casamento efectivo e mais uns quantos de separação enquanto tratava do divórcio.
Disse-me que o filho, o Mário Rui, quando os avós os tinham vindo visitar uns dias antes, quis voltar com eles. E para não ficar sozinha, já que tinha alugado um quarto, passado muito pouco tempo veio fazer-lhe companhia a prima Dalila.
A jovem mamã caiu-me no goto logo desde o início.
Não sei se foi amor à primeira vista ou não. Só sei que a partir do momento em que a conheci só estava bem na companhia dela. E passamos umas duas semanas bem agradáveis, os três, mais um mocinho que namoriscava a prima: o Vítor.
Eu era o único que tinha carro, um Fiat 127 branco, que nos foi bem útil para as movimentações, sobretudo nocturnas.
Também constatamos que tínhamos nascido na mesma rua (Oliveira Monteiro, ao Carvalhido), em casas que distavam cerca de cinquenta metros: eu em Janeiro, ela em Abril do mesmo ano. Mas nunca os nossos pais se tinham visto, conforme pudemos apurar mais tarde. Outra coincidência, embora seja também verdade que, passados dois anos do nosso nascimento, a família da Maria Fernanda foi viver para Leça do Balio, muito perto do conhecido mosteiro.
Terminadas as férias, a jovem, bela e sedutora mamã regressou a casa dos pais onde vivia com o filho desde a separação do primeiro marido.
Cerca de uma semana depois foi a minha vez de regressar a casa dos meus progenitores, que ficava no Porto, muito perto do já demolido estádio das Antas. Morava com eles.
Na altura tinha uma relação com outra rapariga que as circunstâncias fizeram com que se rompesse muito poucos dias depois.
E continuamos o nosso namoro até sentir, sem margem para dúvidas, que queria que ela fosse a minha mulher.
Daí a falar-se em casamento, decidir, tratar de arranjar casa, enfrentar algumas oposições pelo facto de ela ser divorciada e ter um filho, resolver mais um sem número de questões e colocar as alianças, tudo aconteceu muito rapidamente.
Ou seja, num ano.
Depois veio a vida em comum, momentos bons, momentos maus, situações de grande alegria e comunhão (como quando nasceu o nosso filho Fernando Miguel, mais de três anos após o matrimónio), outras de muito desacerto em que o casamento correu perigo.
Mas, curiosamente, era em momentos mais complicados como o falecimento dos meus pais e dos meus sogros, doenças ou situações de desemprego que a ligação se fortalecia.
Vinte e sete anos!
A paixão já passou há muito tempo, mas sobraram a amizade, as memórias, as cumplicidades, as coisas em comum, o hábito de contarmos um com o outro, a família.

O casamento perdura e penso que vai durar até que a morte nos separe.

terça-feira, agosto 22, 2006

Diálogos de gente (XVI) (O sovina)

Isaac Woźniak é um judeu polaco, comerciante com três lojas de pronto-a-vestir e pertencente à classe média alta.
É filho único do falecido Jacob Woźniak que se refugiou em Portugal logo no início da II Grande Guerra com a mulher Sara e o menino, sendo o fundador do primeiro dos estabelecimentos comerciais, na altura uma casa de fazendas.
Isaac era então pouco mais que um bebé e agora tem quasi setenta anos. Casou com uma judia austríaca, Raquel, cujos pais também eram refugiados. Mas a mulher nasceu já em terras lusitanas.
Tem três filhos rapazes e cada um gere uma das lojas.
O homem costuma estar mais tempo nesta, onde decorre a acção, mas vai às outras pelo menos uma vez por semana.
- Bom dia, Isaac!
Ao ouvir a voz reconheceu-a imediatamente.
Levantou a cabeça do livro em que escrevia e olhou para o seu amigo Jaime Furtado.
- Olá, Jaiminho! – ripostou.
O diminutivo vinha dos tempos do liceu onde haviam sido colegas de turma e resultava de o recém-chegado ser um tipo baixo e franzino, em contraponto com o homenzarrão que era o comerciante.
E continuou:
- Já não aparecias por cá faz uns tempos! Estás sempre na mesma! Se engordasses com a idade, como seria normal, davas-me muito mais dinheiro a ganhar comprando nova roupa mais larga. E sorriu.
- Tu tens é inveja de não ter a minha elegância! – respondeu o Furtado, sorrindo também. Deram um aperto de mão.
- Elegância? Magreza, diz! Só há uma coisa que te invejo: poupas muito dinheiro em comida e em roupa – discordou o judeu.
- Oh homem! Tu só pensas em poupar nos gastos e em ganhar mais. Qualquer dia bates a bota e a tua fortuna fica cá – criticou o Jaime.
- Fortuna? Tenho alguma coisa, lá isso é verdade, mas é graças ao meu feitio economizador – explicou o Isaac.
- Economizador? Tu és um somítico. Um sovina. Um avarento – disse, rindo, o magricela.
E prosseguiu o ataque:
- Ainda me lembro que me dizias muitas vezes: “Este ano tive não sei quantos contos de prejuízo”. Eu ficava sempre intrigado porque via os teus negócios a prosperarem, tu a fazeres investimentos, a construíres uma bela casa. Até que descobri que afinal não tinhas prejuízo mas, tão somente consideravas que se o lucro de um ano era inferior em x ao do ano anterior, dizias que tinhas tido um prejuízo de x. És mesmo judeu!
Riram-se os dois.
- Como está a tua família de pobrezinhos? – quis saber o visitante.
- Tudo bem! Só a minha Raquel é que continua com os problemas nos ossos. O meu filho Moisés está ali ao fundo e os outros estão nas lojas que gerem, como sabes.
E a tua de ricos?
- Está tudo dentro da normalidade, obrigado – respondeu o Jaime.
- E então o que te traz por cá?
- Quero comprar duas ou três camisas de popelina, brancas e azuis – disse o cliente e amigo.
- Que número gastas?
- Trinta e seis.
- Pois! Número de rapazinho – gozou o Isaac.
- Como é um número pequeno, gasta menos pano, portanto tem de ser mais barata. Venho cá esperando um grande desconto – provocou o Jaime.
- Já sabes que para ti há sempre um preço especial. Eu venho já!
E o comerciante afastou-se um pouco e deu instruções a um empregado.
- Vamos ver se não me fazes quinze por cento de desconto! – cogitou o Furtado.
Passado pouco tempo, o Jaiminho já tinha escolhido quatro camisas: duas brancas, uma azul clara e outra bege. Todas lisas.
- Então quanto é que tenho de pagar? – perguntou o cliente.
- Ao preço normal são trezentos euros, mas para ti são...duzentos e setenta.
- Só dez por cento de desconto? Tem de ser vinte! – refilou o Jaime.
- Vinte? Tu queres que eu vá à falência? – chorou-se o judeu.
- Qual falência qual quê? Duzentos e quarenta!
- Só me aparecem clientes destes! Vinte por cento é a minha margem – mais choro do Isaac.
- Não me faças rir! Tu tens pelo menos trinta de margem. Mas acho que tens quarenta.
- Não! A sério que não posso fazer vinte. Faço-te quinze e não se fala mais nisto. Olha que é artigo do melhor.
- Quinze? Dá...duzentos e cinquenta e cinco, ou seja, cerca de treze contos cada uma. Pronto, levo! Mas vens comigo ali ao café para pôr a conversa em dia e és tu quem paga, Isaac. Mas não te preocupes que eu peço um café curto.
E riram-se os dois, de novo.

sábado, agosto 19, 2006

Fim da Pausa

Ao fim de mais de mês e meio, sinto que já estou em condições de voltar a escrever e colocar aqui o produto desse trabalho.
Portanto, declaro solenemente que estou de volta.
Mas o ritmo de escrita vai ser mais calmo que o do primeiro período. Também já estou mais velho, não é verdade?
Espero continuar a contar com a vossa presença amiga e com os vossos comentários, quer sejam favoráveis ou não.
Obrigado!
(e desculpem qualquer coisinha)

segunda-feira, agosto 07, 2006

Guerra de civilizações

Este texto é o que se pode chamar um artigo de opinião.
Poucos escrevi ao longo deste ano e meio, mas não posso deixar de o fazer perante o que se está a passar actualmente no Médio Oriente.
Vou dizer o que penso da guerra entre Israel e o Hezbollah.
Dum lado está a civilização judaico-cristã que é a nossa e dos nossos antepassados e, espero, seja a dos nossos descendentes. Pode ter muitos defeitos mas não é, seguramente, a mais primitiva, retrógrada ou malévola de todas.
Do outro uma civilização árabe, fundamentalista, em que o poder religioso se sobrepõe a tudo e todos e em que uns quantos "iluminados" não passam de ferozes ditadores em nome de Alá. Mas não os confundo com os muçulmanos moderados, devo acentuar.
Enquanto a maior parte do mundo ocidental anda a discutir como combater o terrorismo implacável da Al Qaeda, do Hamas ou do Hezbollah, Israel está fazendo o trabalho sujo mas necessário, que nós, os ocidentais, cobardemente, não temos a coragem ou a conveniência de assumir, e enquanto os americanos estão agrilhoados a essa decisão imbecil que foi a de invadir o Iraque, que sendo governado por um sanguinário déspota, estava longe de ser uma real ameaça para o Ocidente.
Apoio totalmente Israel neste conflito contra uma seita terrorista, armada até aos dentes por estados muçulmanos extremistas, de que o Irão é o expoente máximo.
Não sou judeu nem tenho nenhuma particular simpatia por eles.
Mas apoio porque, para o bem ou para o mal, eu estou umbilicalmente ligado à civilização ocidental e não tenho nada a ver com o islamismo radical.
Esta diferenciação civilizacional é a verdadeira essência do conflito que, aliás, está latente em várias partes do mundo e também já eclodiu e persiste no Afeganistão. Mesma na Europa já há fortes sinais desse confronto, nomeadamente na França.
Podem falar-me que por trás dele está o negócio da venda de armas ou o do petróleo ou qualquer outro. Claro que esses interesses económicos são importante, mas não são a essência do problema.
Também me podem dizer que morrem demasiados inocentes. Pois morrem! Mas será que a vida de uma criança de treze anos vale mais do que a de um soldado de dezoito?
Sempre houve e haverá guerras. É bom que as haja? Obviamente que seria muito melhor que as não houvesse. Mas em certos assuntos temos de ser realistas sob pena de os nossos inimigos nos engolirem enquanto fazemos uma imponente manifestação pela paz no mundo.
Também não me interessa saber se o estado de Israel devia ou não ser criado na Palestina. São coisas do passado que não vou agora discutir. Ele existe!
Estaremos perante uma guerra religiosa? Alguns assim pensarão e actuarão em conformidade. Eu acho que é mais uma das questões acessórias, se bem que não seja de descurar.
Termino dizendo que quando há uma guerra que nos toca, mesmo que não directamente, não deve haver ambiguidades: ou se está dum lado ou do outro.
E eu sei, e sempre soube, qual é o meu!