Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

A minha fotografia
Nome:
Localização: Maia, Porto, Portugal

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Duas centenas

Duas centenas são duzentos.
Duzentos é um número cardinal cujo ordinal correspondente é duocentésimo.
E o duocentésimo é este post especial que fiz para assinalar o facto.
Os primeiros, pobrezinhos e loucos, foram colocados on-line em 7 de Fevereiro de 2005.
Fazendo a média aritmética, obtemos um valor de cerca de 9 posts por mês.
Todos de texto em prosa, sem imagens nem som. Opção minha que vou manter.
Devo ser muito conservador ou muito teimoso. Ou serei simplesmente coerente?
E estou aqui para continuar até que o dedo me doa.
Já comecei uma nova série de pequenos contos a que chamei “Histórias curtas” e irei continuar a criá-las, intercalando-as com outros textos fora desse âmbito.
Espero que gostem!

Acaba de fazer um ano que deixei de trabalhar mas ainda faltam mais de dois para poder pedir a reforma. Tenho que saber gerir muito bem este tempo para não ficar gordo de físico nem de espírito.

Também está para breve o meu 58º aniversário. O tempo passa veloz, mas preciso de saber correr à velocidade dele pois, caso contrário, ficarei definitivamente para trás.
Digam lá se não é uma bonita idade!
Os presidentes das várias nações, os primeiros-ministros, os líderes carismáticos, os artistas consagrados, os cientistas laureados, os grandes empresários e gestores e ainda muitos outros, habitualmente estão nesta faixa etária que vai dos 45 aos 65 (ou, de forma mais restritiva, dos 50 aos 60) quando obtém a fama e o sucesso.
Não será esse seguramente o meu caso mas isso permite-me pensar que ainda não estou embalado para ser lançado ao lixo.

Está à porta um novo ano.
Em termos objectivos é uma data que se repete periodicamente como muitas outras sem que isso altere minimamente as coisas mas, psicologicamente, pode servir de catalizador de novas ideias.
Ano novo, vida nova, diz-se.
Vale o que vale e é muito pouco, mas é melhor que nada.
Portanto tenham um Feliz Ano de 2007.

E assim fiz um post do tipo 4 em 1.
Já ganhei aos champôs!

sábado, dezembro 23, 2006

Histórias curtas I - Uma noite de Natal

O velho Joaquim vivia só na sua pequena e velha casa do bairro pobre.
A mulher morrera, já fizera três anos.
Os filhos tinham seguido a sua trajectória na vida e estavam longe.
Reformado cedo por invalidez, vivia de uma pensão que mal dava para comer e comprar alguns remédios. Valia-lhe algum dinheiro que os dois rapazes lhe mandavam de vez em quando e a ajuda de alguns vizinhos, também pobres materialmente mas ricos de sentimentos.
Estava frio nessa véspera de Natal.
Mais um que iria passar somente na companhia das memórias de outros que foram bem mais alegres e das dores reumáticas que o atormentavam quasi em permanência.
Comeria uma sopa requentada, um pão com margarina, uma maçã já meia podre, beberia um trago de um tinto carrascão e depois iria para a cama com uma dor no peito que o vinha apoquentando nos últimos tempos. Ainda nada dissera ao médico do Centro de Saúde. E iria mais uma vez chorar a tristeza de ser velho e só.
Estava sentado no sofá sujo e roto quando bateram à porta.
Disse, tão alto quanto podia:
- Entre!
E a porta rangeu enquanto se abria devagarinho: era a vizinha Matilde, que também vivia em solidão, pois ficara sem um filho nas obras já há bastantes anos e sem o seu homem, muito recentemente.
- Posso, Sr. Joaquim?
- Entra Matilde, entra!
Ela aproximou-se do ancião e estendeu-lhe uma marmita amolgada pelo uso:
- Tem aqui um pedacito de um naco de peru que me foram levar a casa. Lembrei-me de lho trazer. Está quentinho.
- Muito obrigado! Entra e senta-te um bocadinho.
- Não posso demorar muito porque deixei o lume aceso.
- Estás a cozinhar? – perguntou o idoso.
- Estou! Este pedaço de peru saiu agora do forno.
- E vais passar a noite sozinha?
- Pois! Não tenho ninguém.
- E não queres vir fazer-me companhia? Comemos aqui os dois, conversamos e depois vamos dormir.
Ela pensou um pouco e depois retorquiu:
- Acho boa ideia! Então vou acabar de cozinhar e venho até cá com a comida.
- Eu podia ir a tua casa, mas tenho dores...
- Não se preocupe, Sr. Joaquim. Eu venho fazer-lhe companhia e assim também não me sinto tão solitária.
- Mas tu tens televisão e aqui não podes ver nada. Eu só tenho este velho rádio.
- Prefiro a companhia de uma pessoa que a da televisão. Então até já!
E a mulher saiu.
Pouco depois de ela voltar com uma cesta razoavelmente farta, começaram a comer e foram conversando.
Já perto da meia-noite disse ele:
- Matilde! Estou com frio. Vou-me deitar. Queres vir para a cama comigo? Assim ficamos os dois mais quentinhos.
Ela não contava com aquela proposta, mas não demorou muito a responder:
- Está bem, Sr. Joaquim! Agora vou arrumar a loiça e dar uma limpadela.
- Eu espero por ti!
E não tardou muito que ambos estivessem na cama, bem agasalhados, conversando até que o velho adormeceu.
Manhã cedo a mulher acordou e levantou-se como era seu hábito.
O homem estava quieto.

A luz do sol bateu-lhe no rosto sereno mas lívido de morte.
A Matilde tocou-lhe e sentiu-o frio e inerte como um pedaço de mármore.

sábado, dezembro 16, 2006

Natal e Ano Novo na grande família

Desde que me lembro de mim próprio, e até aos onze anos, passei este período Natalício em Vila Praia de Âncora, vila onde nasceu a minha mãe.
A sua irmã mais velha, Felisbela de seu nome (mas a quem eu chamava de tia Bela) e o seu marido Simão (o tio Mão) eram proprietários de uma pensão que mais tarde se converteu em hotel.
Tinham três filhos, rapazes: O Jorge, o José (Zé) e o Fernando (Nando). A diferença de idades entre eles era de cinco anos e eu era mais novo que o Nando também cinco anos.
Poderei dizer que o Jorge foi o meu primeiro ídolo. Interventivo, autoritário, machão, com perfil de líder, aparecia-me como o exemplo a seguir. Foi o único que fez tropa, ainda antes de começar a guerra colonial; mas escapou por pouco.
O Zé era exactamente o oposto: ainda mais alto e forte que o irmão mais velho era de uma calma olímpica (entendia-se às mil maravilhas com o Sr. Oliveira a quem dei destaque no post anterior), calado, preguiçoso, pouco limpo, a sua personalidade, que já não era muito forte, mirrava perante a do Jorge.
Livrou-se da tropa graças ao pé chato e a uma valentíssima cunha.
A sua preguiça era tal que uma vez foi descoberto a tomar um banho de imersão numa banheira que enchera previamente com água e detergente Omo; estava a ler. Interrogado sobre o que se passava, disse serenamente que assim não precisava de se cansar a esfregar-se. O Omo tirava-lhe o lixo do corpo, disse. Mas não lhe poderia tirar a bondade. Era um bom rapaz e foi durante toda a vida (já faleceu) um bom homem. Bom demais, apetece-me acrescentar.
O Nando era aquele com quem mais eu brincava, obviamente. Era mais baixo do que qualquer dos irmãos e não sendo um líder, pelo menos era mais despachado e expedito que o Zé.
Como durante a época baixa a pensão dos meus tios quasi não tinha hóspedes, fazia-se a ceia de Natal na principal sala de jantar, numa longa mesa bem junto de um estupendo fogão de sala que estava acesso do despertar ao deitar.
Mas, naturalmente, havia outros comensais.
Desde logo os quatro Castilho; o meu pai Fernando, a minha mãe Julieta (a mais nova das quatro irmãs), eu e a mana Fernanda.
De Valença vinha a irmã número dois, a Arminda e o seu marido António (que até era primo direito) com a filha Cecília (Cila), mais nova do que eu uns cinco anos e que era considerada por todos como “um bicho do buraco” devido à sua insociabilidade e mau feitio que a faziam estar sempre agarrada à mãe.
A terceira das quatro irmãs, a Maria José (e a única sobrevivente daquela geração com os seus actuais noventa e um anos mas a quem o Parkinson criou bastantes limitações físicas) vivia também na vila piscatória com o marido António Ribeiro (mas a quem todos chamavam Ribeiro e eu, em particular, de padrinho Ribeiro, pois esses tios eram os meus padrinhos). As relações entre as manas Bela e Zé (também conhecida na vila como a Quinhas) não eram as melhores nessa época, pelo que nos primeiros anos essa parte da família não aparecia. Se era convidada ou não, é coisa que me escapa.
Mas um certo ano, o tio Tone de Valença, outro homem bom e azarado na vida, fez questão de ir buscar toda a família Ribeiro para vir cear à pensão e assim se fizeram as pazes.
Tinha o casal duas filhas: A Julieta (Mimi) da idade do primo Zé e a Delfina (Fininha) mais nova dois ou três anos. Já elas eram adolescentes quando nasceu um terceiro, o António José (Tone Zé).
Mas havia ainda mais pessoas à mesa.
Uma professora primária, solteirona, culta, do reviralho e leitora fidelíssima do jornal “A República” que vivia num quarto da pensão: a D. Maria Portela.
E também as empregadas (criadas, como se dizia) mais antigas e dedicadas se sentavam nessa mesa na noite de Natal. Várias tiveram esse privilégio, mas vou lembrar apenas três: A Ernestina (Tina) que era considerada meia tola, a Idalina e a Esmeralda que viria a falecer com trinta e poucos anos com um carcinoma.
Devo acrescentar que os protagonistas eram os mesmos durante o jantar de Ano Novo, só que desta vez as empregadas não tomavam assento mas entrava sempre a família Oliveira de que falei no texto anterior:
O Antoninho, a Mariinha, o Carlos, a Manela e o Tatuna.
Ocasionalmente havia outros comensais mas vou omiti-los, agora.
Na ceia de 24 de Dezembro o prato forte era o bacalhau cozido com batatas, couves, cenouras e ovos. Mas também o polvo cozido era sistematicamente utilizado. Nunca percebi qual a origem desta tradição familiar. Mesmo mais tarde, quando as noites de Natal passaram a ser na casa dos meus pais, no Porto, nunca a minha mãe se esquecia do saboroso molusco.
Como naquele tempo não bebia álcool, não tenho a mínima ideia de quais os vinhos utilizados.
Claro que não faltava uma vasta gama de doçaria: bolo de prata, bolo índio, bolo negrita, salame de chocolate, leite-creme, pudins e, além de outros, os indispensáveis bolo-rei e rabanadas, quer fritas quer de mel.
E lá estavam as nozes, amêndoas, figos secos, avelãs e os pinhões com casca que também serviam para jogar ao “rapa”.
Na passagem de ano havia ainda a abertura do champanhe e umas chouriças de sangue doces, resultantes da matança do porco que era feita na semana entre as duas festas, de sabor ímpar e que nunca comi em mais nenhum sítio.
A grande árvore de Natal, profusamente iluminada e bem colorida, e um presépio atapetado com espesso musgo que íamos buscar ao monte aquando da procura de um pinheiro o mais perfeito possível, eram ornamentos obviamente sempre presentes.
Um jovem empregado, o Fausto, era o palhaço de serviço: na primeira dessas noites era vestido com uma fatiota de Pai Natal e entrava na grande sala com uma campaínha, anunciando:
- Já deixei os presentes nos sapatos que estão em cima do fogão!
De facto, logo que o enorme fogão a lenha estava frio e limpo, toda a gente lá colocava um sapato e mal o Bouças (nome pelo qual era mais conhecido o Fausto) fazia o seu anúncio e se sentava à mesa para comer umas doçarias – e bem o merecia o nosso Pai Natal – toda a gente se dirigia para a cozinha com a miudagem à frente, a correr.
Era o melhor da festa, com os pequenos ansiosos por saber o que lhes tocara de sorte, e os mais velhos a apreciar a meninada.
Mas também na passagem de ano o Bouças tinha as suas performances: pouco antes da meia-noite aparecia vestido de velho maltrapilho com a ajuda de sacos de serapilheira costurados a preceito, uma maquilhagem adequada e com um letreiro a dizer: ANO VELHO.
Pouco depois da meia-noite e de cumpridos todos os toques entre taças (das quais, invariavelmente saíam duas ou três estilhaçadas) que acompanhavam os votos de um Bom Ano lá voltava o nosso actor, desta vez seminu, vestindo só uma tanga e tiritando de frio, com as palavras ANO NOVO pintadas a vermelho no peito.
Voltando ao Natal, depois era toda a gente a ver as prendas dos outros, coisa que não me agradava muito pois, em vez de poder usufruir o prazer de usar os meus novos brinquedos, eram os grandes que se entretinham a brincar com eles.
O Sr. Oliveira não podia deixar de tirar umas fotos e alguns adultos retomavam a “sueca” com que se haviam entretido durante uma parte da noite.
E, ir para a cama, só bem tarde!
Por isso, nas manhãs seguintes dormia-se quasi até à hora do almoço.
Não posso deixar de referir um dos rituais, para mim mais impressivos, desses dias: a matança do porco.
Numa das manhãs seguintes ao Natal, por volta das nove e meia, dez horas, apareciam os homens contratados para a matança. Eram quatro ou cinco pescadores (penso que andavam na faina do bacalhau mas vinham passar esta quadra a casa) duros e com os rostos tisnados pelo sol, dos quais me lembro só do Pica e do Afonso.
O velho e já queimado banco longo e baixo era colocado no sítio para cumprir o seu papel de altar do sacrifício.
Feitos os preparativos, chegava a altura de ir buscar o suíno que, normalmente, era o mais pesado da pocilga – uma vez o bicho pesava quinze arrobas o que motivou que fosse notícia num pequeno jornal – e que, como que premonitoriamente, começava a grunhir desde logo. E, preso por uma corda (que mais de uma vez rebentou o que obrigou os matulões a caçarem-no à mão) era conduzido pelos contratados, pelos meus primos mais velhos, pelo Bouças e por mais um ou outro empregado da casa, para a tábua onde, a custo, o deitavam.
E os sons que ele imitia eram cada vez mais estridentes e lancinantes. Quando estava bem preso e seguro pelos homens, o Pica, matador exímio, espetava a longa faca no coração do animal. Os grunhidos atingiam o auge até que começavam a esvair-se, assim como o reco se esvaía em sangue que era recolhido num enorme alguidar.
Uma vez, tratando-se de um porco de menor envergadura, os verdugos não estavam tão compenetrados na sua função e deixaram que o suíno se escapulisse com a faca cravada no corpo.
Uma outra vez o Pica não acertou no alvo à primeira o que aumentou o tempo de agonia do bicho.
Depois de bem morto, era o momento de queimar o pêlo para o que se utilizava palha em chamas.
Seguia-se o lavar e rapar, com facas e pedras ásperas, o couro do bicho. Só nesta fase o meu pai consentia que eu me aproximasse da mesa da matança e nela também participavam algumas mulheres, sobretudo vertendo água com regadores sobre a couraça do desgraçado. Com todo o mundo molhado, era o momento de viragem da cena dramática para a divertida.
Finalmente, com a vítima de barriga para o ar, era o momento de a abrir e começar a remover os seus órgãos, pois quasi nada era desperdiçado. Havia uma aplicação posterior para tudo.
Finalmente, já mais leve, era levado para um armazém onde era içado pelas patas traseiras e cheio com ramos de loureiro. A bexiga, inflada com ar soprado por alguém, era colocada como balão ornamental junto da besta derrotada.
Possivelmente esqueci-me de muitos pormenores destes fabulosos períodos de Natal e Ano Novo passados no seio da grande família do meu lado materno, em Vila Praia de Âncora.
Espero que me desculpem por isso e que tenham uma Festas Felizes!
Muito felizes!

sábado, dezembro 09, 2006

Antoninho Oliveira

Desde que me conheço, a família Oliveira faz parte do meu mundo, ou pela presença física ou mental.
O patriarca, António de Oliveira, nasceu em 1904 proveniente de famílias rurais do Minho litoral e de outros pontos do norte do país.
Desde novo ía passar alguns períodos para Vila Praia de Âncora. Aí teve alguns namoros mas nenhum acabou em casamento, sendo que um deles acabou mesmo em tragédia. Mas isso são contas de outro rosário que não se reza nesta missa.
Nenhum?

Minto!
Em 1946 casou com a Maria do Faro que tinha nascido em 1927. Feitas as contas, poderá verificar-se que nessa data ele tinha quarenta e dois anos e ela dezanove.
Vinte e três anos de diferença!
A Mariinha, como lhe chamavam (atenção que os dois i’s devem ser lidos separadamente, sendo a sílaba tónica a segunda dessas vogais), era proveniente de Valença, de famílias modestas, e estava a trabalhar em Âncora o que propiciou o conhecimento entre ambos.
Do matrimónio nasceram três filhos:
O Carlos Manuel, nascido como eu em 1949, a Maria Manuela que viu a luz do dia em 1950 (um anos antes da minha irmã) e o António Manuel (mais conhecido pelo Tatuna pois tivera algumas dificuldades em começar a falar) que abriu os olhos em 1952.
A família vivia no Porto, na zona de Paranhos, e o Oliveira era comerciante de fazendas.
Mas tinha outros rendimentos, nomeadamente de aplicações em acções e obrigações e de rendas de prédios urbanos. Muitos desses bens herdara de seu pai.
Estas cinco pessoas foram, nomeadamente durante os anos 50, os principais amigos da minha família (estou, no entanto, a excluir alguns tios e primos com quem tínhamos relações particularmente sólidas). No Porto era frequente encontrarmo-nos aos domingos, ou em casa de uns ou em casa de outros. Nas férias lá estávamos todos na vila piscatória mas dotada de uma magnífica praia (se esquecermos as nortadas e a baixa temperatura da água do mar).
Mas nessa década ainda o Algarve não era destino de férias para quasi ninguém.
As imagens que tenho do Antoninho (pois este, como já devem ter adivinhado era, nem mais nem menos, o António de Oliveira) são as de um sujeito de estatura média, uma proeminente barriga e uma vasta calva no topo da cabeça rodeada de cabelos grisalhos claros por todos os lados menos por um e um livro, cuidadosamente encapado com papel para não o estragar, debaixo do braço.
Mas, mais do que isso, o que ressaltava do Antoninho Oliveira (Sr. Antoninho ou Sr. Oliveira como respeitosamente lhe chamávamos, mas título que eu omito neste texto) era a sua extraordinária calma. Não tinha horas para nada. Ía para um determinado destino e se calhasse de encontrar alguém no percurso que lhe desse “trela”, era certo e sabido que pelo menos uma hora de conversa estava garantida.
A família rapidamente se habituou a fazer de conta que o relógio não existia.
Naquela altura, o Oliveira tinha um dos mais conhecidos e melhores carros da época, o Volvo “malotinha”, salvo erro com a matrícula OP-14-04, com auto-rádio de origem e tudo. Como o pai Castilho não tinha automóvel nesse tempo, andávamos muitas vezes à boleia no carro vermelho escuro (as senhoras provavelmente encontrariam um nome mais adequado para a sua cor mas...espero que me tenha feito entender).
Claro que nunca chegava a horas, o que deixava o meu pontualíssimo pai, apesar de todo o esforço de auto controlo que fazia, por vezes perto da loucura.
E havia os passeios dominicais, mais de uma vez com os quatro adultos e as cinco criancinhas dentro da máquina. Mas o Antoninho conduzia sempre devagarinho...
Era o Oliveira sócio do F. C. do Porto e tinha um número muito baixo pois conseguira fazer uma coisa que era permitida na época: herdar o do seu pai.
Quantas vezes chegou ele ao seu lugar cativo na bancada central do estádio das Antas e já o jogo tinha passado mais de metade da segunda parte.

Como viviamos muito perto do estádio, frequentes vezes o nosso amigo vinha a nossa casa depois do jogo.
Lembro-me que uma vez, num dia 4 de Setembro, domingo de bola, ele ficou lá até depois da meia noite porque, por coincidência o seu aniversário e o de minha mãe eram a 5 desse mês; e assim, logo no início do festivo dia se abriu uma garrafa de champanhe para comemorar.
Foi esse desprezo pelo tempo, esse saber viver ao ritmo do que nos dá prazer e que eu nunca mais encontrei em ninguém, que certamente lhe permitiu ser o ídolo da criançada, sempre a contar as suas histórias, reais ou inventadas, que faziam a nossa delícia.
E também a sabedoria que dele, autodidacta, imanava.
Penso que ocupou, pelo menos parcialmente, o lugar dos avôs que eu jamais conheci.
É, sem dúvida, uma figura inolvidável para mim, apesar de já ter falecido em 1976 com setenta e dois anos de idade.
Daí este texto ser, essencialmente, uma homenagem sentida a esse homem bom.
Mas o Oliveira tinha um hobbie que lhe ocupava muito tempo: a fotografia.
A preto e branco, sempre!
Passava horas à espera que o sol ou as nuvens estivessem na posição pretendida para disparar a sua máquina, mesmo que houvesse algo mais relevante em primeiro ou segundo plano. Também fazia a revelação numa câmara escura que tinha em casa. Era um amador que pedia meças a muito profissionais. Na casa dos meus pais havia alguns dos seus trabalhos colocados nas paredes. Penso que o seu espólio fotográfico está guardado pelos filhos que também conservam o sempre eterno Volvo.
Um vez, numa passagem de Ano, apareceu em Âncora com aquele que foi o primeiro gravador de som que vi em toda a minha vida. Era do tipo bobinas (as cassetes só apareceriam alguns anos mais tarde), e foi durante algum tempo uma coqueluche. Ele, mais o meu tio Simão e o primo mais velho, o Jorge, chegaram a gravar a peça de Júlio Dantas “A ceia dos cardeais” ( Em que pensas cardeal? – Em como é belo o amor em Portugal!) numa simulação de teatro radiofónico, mas todos queriam deixar gravada a sua voz, incluindo a criançada como não podia deixar de ser.
Noutra ocasião propôs ao meu pai um negócio de compra de pentes em sociedade, já que se tratava de um material de muito bom preço (lembro que nesses anos 50 os homens não utilizavam escova para o cabelo: só pente!). O pior foi que, quando quiseram começar a vendê-los para ganharem o seu quinhão, verificaram que sendo feitos de um plástico inadequado ou mal fabricados, com cada passagem do utensílio pelo cabelo caíam vários dentes (do pente, obviamente) do que resultou terem decidido não os lançar no mercado. E foi assim que lá em casa nunca mais se comprou um pente, pelo menos até eu ir para a tropa.
Outro pormenor curioso foi o de o Antoninho...
E agora será a altura de tentar saber porque toda a gente, nomeadamente em Vila Praia de Âncora, o tratava por Antoninho em vez de António. Ainda hoje, quem o conheceu se refere a ele usando o diminutivo.
Não há nenhuma razão cientificamente comprovada, mas eu penso que se deve ao facto de ter ficado solteiro até tão tarde, o que fez perdurar a terminação em “inho” ad aeternum.
Mas voltemos ao tal pormenor curioso:
Como a filha Manela tinha nascido no exacto dia da Princesa Ana, filha de Isabel II de Inglaterra (15 de Agosto de 1950), alguns anos mais tarde resolveu escrever à Rainha a dar-lhe conta do facto e, passados uns meses, recebeu uma missiva com o timbre da família real britânica, remetida de Buckingham, com um texto adequado mas que neste momento não recordo.
Ontem à tarde, e com o objectivo de preparar esta prosa, telefonei à Maria do Faro para lhe pedir algumas datas e estivemos quasi uma hora ao telefone.
O filho Carlos está ligado profissionalmente ao audiovisual e deu-lhe três netos.
A Nelinha tirou o curso de engenharia química, como eu na FEUP, e ficou solteira.
O Tatuna é o responsável pelo agora remodelado armazém de fazendas (que há muito vende sobretudo a retalho) e tem dois filhos.
Depois do que disse e do que não disse, já está mais do que claro que o Antoninho Oliveira foi uma pessoa que esteve muito presente, e de forma marcante, na minha vida e não só até 1961, ano em que o facto de ter falecido o meu tio Simão em Âncora veio provocar uma descontinuidade na relação entre as duas famílias que foi complementada por, em 1963, o meu pai ter comprado o seu primeiro (e único, diga-se desde já) automóvel.
Apesar de tudo, as relações prolongaram-se ao longo dos anos.
E, mesmo caindo no erro de me repetir, vos digo que duma coisa todos poderão estar certos: jamais esquecerei o Sr. Antoninho Oliveira.

terça-feira, dezembro 05, 2006

The making of...Uma família burguesa

A exemplo do que aconteceu quando terminei a publicação on-line de “O viúvo”, achei interessante divulgar o conteúdo do ficheiro Word onde, antes de começar a escrita de “Uma família burguesa”, fiz a preparação do trabalho.
Como devem calcular, os elementos iniciais foram sucessivamente modificados e ampliados pois não havia, no princípio, uma história completamente definida.
Só tracei algumas linhas gerais para a trama, sendo esta progressivamente preenchida conforme a escrita avançava.
O conteúdo que vos apresento no final deste texto introdutório é, portanto, a versão final da que foi elaborada mais de dois meses antes.
Lendo este preâmbulo e dando uma olhadela pelo anexo, e digo isto porque seria muito fastidioso lê-lo todo, penso que fica claro para o leitor qual o método criativo por mim utilizado.
Podem reparar no enorme detalhe com que defini as personagens. Fi-lo com o propósito de, mais tarde, se fosse preciso usar algumas das suas particularidades, essa compilação já estivesse feita de forma a não haver incongruências.
Quero aqui agradecer publicamente a ajuda dada pela Manela, pela Teresa, pela Lurdes e pelo João no meu esclarecimento sobre assuntos que não dominava suficientemente e com o objectivo de que a narrativa fosse o mais realista, correcta e coerente possível.
Finalmente, gostaria de referir que hoje, com o trabalho concluído, provavelmente ter-lhe ía dado outro título: porque não...“Segredos”?

Apresento de seguida o conteúdo final do ficheiro que referi.


AS PERSONAGENS

António José da Costa Lima (Tó Zé) (o pai)

O pai, nascido a 21 JAN 48 (58 anos), 1,72 m de altura, 75 kg de peso, cabelos quasi todos brancos (outrora castanhos), já bastante raros no topo da cabeça e cortados curtos.
Engenheiro Electrotécnico de profissão, ocupa uma posição de director de Departamento que lhe permite auferir um bom rendimento. A empresa fica junto à Via Norte (Matosinhos).
Vive no Porto, na zona das Antas, numa vivenda sita numa rua perto da Av. dos Combatentes, na companhia da mulher, da sogra, da filha Ana Maria, divorciada e da neta.
Tem um Toyota Corolla e um carro da empresa (Ford Mondeo)
Portista.
Costuma andar a pé o mais que pode e muitas vezes à noite sai como um vizinho médico, da mesma idade, com quem estudou no liceu: o Armando João Cerqueira Borges.
Segundo filho do engenheiro civil José António Correia de Lima (1917 -1995) (que, portanto, faleceu com 78 anos com ataque cardíaco) e de Maria Arminda Soares da Costa (1923 -1999) (que faleceu aos 76 anos de cancro do pulmão), doméstica, que mandaram fazer a casa das Antas no início dos anos 50, hoje bastante modificada (modificação feita em 2000 / 2001).
A casa ficou, por herança, para o Tó Zé.
Tem um irmão mais velho, nascido em 1946, Jorge Alberto da Costa Lima, engenheiro em Lisboa e um mais novo, nascido em 1950, Miguel Fernando da Costa Lima, advogado também em Lisboa.
Tem uma relação com a sua secretária Teresa desde 2002.

Maria Helena Marques Pinho (a mãe)

A mãe, nascida a 31 MAI 48 (58 anos), 1,62 m de altura, 60 kg de peso, cabelos outrora castanho claros, agora brancos mas pintados de claro com madeixas aloiradas; são relativamente curtos.
Licenciada em História, é professora no Alexandre Herculano.
Casou com António José em OUT 69, sendo ambos ainda estudantes, pois ficou grávida em Agosto
Tem um Ford Fiesta.
Filha de Joaquim da Silva Pinho (1924 –1989), contabilista, faleceu de cancro na próstata, e de Maria da Conceição Carreira Marques que vive com a filha.
Tinha uma irmã, Maria Margarida Marques Pinho, que foi para o Brasil e lá morreu em 2004.

Ricardo Jorge Pinho da Costa Lima (o 1º filho)

O filho, nascido a 02 MAI 70 (36 anos), 1,78 m de altura, 75 kg de peso, cabelos castanhos.
Formado, como o pai, em Engenharia Electrotécnica, mas em electrónica e não correntes fortes.
Trabalha numa empresa de informática da qual é sócio juntamente com Mário Jorge Silveira Gomes.
A empresa (Rimafor) foi fundada em 2003, ano em que casou com Bárbara com quem já tinha uma relação de vários anos.
Além de Fernanda Mota e Elias Santos, admitidos em 2003, em 2006 a empresa meteu mais uma engenheira informática estagiária, Mónica Campos, e um técnico, Raul Parente.
Casou com Bárbara em 08 DEZ 03 (com 32 anos) e tem um filho nascido em 10 OUT 04 (2 anos) chamado João Paulo Mendes da Costa Lima (Jocas).
Vive na Maia.
Tem um Honda Accord.
Tem como colaboradora Fernanda, irmã de Teresa, secretária e amante do pai.

Ana Maria Pinho da Costa Lima (a 1ª filha)

A filha mais velha, nascida a 18 SET 71 (35 anos), 1,65 m de altura, 56 kg de peso, cabelos castanhos mas pintados de loiro, tapando somente o pescoço, casou em 12 FEV 90 (tendo 18 anos) com Francisco mas divorciou-se em 21 MAR 95 (23 anos) após 5 anos de casamento.
Secretária de profissão trabalha numa empresa privada na Boavista, Porto.
Vive com a filha Maria Cláudia de Lima Neves Torres, nascida a 24 ABR 92 (14 anos) na casa dos pais. Esta frequenta o 9º ano na Aurélia de Sousa.
Tem um Renault Clio.
Desde o divórcio tem tido várias relações mais ou menos passageiras. De momento não tem nenhuma estabilizada.
Tem uma paixão secreta por Manuel António, o cunhado.

Joana Isabel Pinho da Costa Lima (a 2ª filha)

A filha mais nova, nascida a 02 JAN 74 (32 anos), 1,66 m de altura, 62 kg de peso, cabelos castanhos, quasi negros, longos e ondulados, a mais morena, e com um ar hispânico, casou em 29 AGO 99 (25 anos) com Manuel António. Não tem filhos. Um problema que a afecta, inibe-a de poder gerar filhos. Pensam numa adopção.
Professora de Filosofia no secundário.
Tem um Volkswagen Golf.
Vive em Leça da Palmeira.
Dá aulas em Penafiel.

Bárbara Correia Mendes (a nora)

A mulher de Ricardo, nascida a 20 AGO 73 (33 anos), 1,70 m de altura, 65 kg de peso, loira natural com cabelos abaixo do pescoço e lisos, olhos azuis, com um ar de mulher da Europa central, casou com Ricardo em 08 DEZ 03 (com 29 anos) e tem um filho nascido em 10 OUT 04 (2 anos) chamado João Paulo Mendes da Costa Lima (Jocas).
Educadora de infância, é proprietária de um infantário na Maia, onde vive.
Tem um Peugeot 206.
Filha de Luís da Fonseca Mendes (1954 – 52 anos) e de Raquel Martins Correia (1956 – 50 anos), ambos bancários reformados.
Procurou ter uma relação com um antigo namorado: Mário Jorge Silveira Gomes, engenheiro informático e sócio do seu marido Ricardo. No entanto foi mal sucedida.
Só eles sabem que foram namorados pois tal aconteceu quando se conheceram na praia eram muito jovens (1990), tinha ela 17 anos e ele 18. Foi uma relação muito curta mas intensa.

Francisco Moreira das Neves Torres (o ex-genro)

O ex-marido de Ana Maria, nascido a 06 FEV 70 (36 anos), 1,82 m de altura, 95 kg de peso, cabelo preto e ondulado, casou a 12 FEV 90 (20 anos) com Ana Maria, de quem tem a filha Maria Cláudia de Lima Neves Torres, mas divorciou-se em 21 MAR 95 (25 anos), após 5 anos de casamento.
Proprietário de um stand de venda de automóveis, no Porto, com mais 3 sócios.
Dinis Azevedo, 35%; Francisco, 30%; José Moreira, 25% e Joaquim Moniz, 10%.
Em Agosto, José Moreira compra 15% a Francisco ficando como maioritário:
José Moreira, 40%; Dinis Azevedo, 35%; Francisco Torres, 15% e Joaquim Moniz, 10%.
Tem um Renault Mégane.
Casou de novo com Marina de Castro Pimenta, nascida a 12 SET 75 (31 anos) e vive no Porto (na Baixa). Divorciou-se por cauda dela quando a então empregada tinha 19 anos. Tiveram um filho em 06 JAN 98 (8 anos): Marco António Pimenta Torres.
O irmão desta, Alexandre de Castro Pimenta (Alex), nascido a 02 JAN 70 (36 anos) tem um papel importante. Provém de uma família humilde. Tem procurado conquistar Ana Maria, sem sucesso.

Manuel António dos Santos e Sousa Félix (o genro)

O marido de Joana, nascido a 02 OUT 60 (46 anos), 1,67 m de altura, 70 kg de peso, moreno, cabelos grisalhos, olhos azuis e um belo sorriso, o tipo que agrada às balzaquianas (e não só) casou em 29 AGO 99 (38 anos) com Joana que fora sua aluna no curso de Filosofia. Não tem filhos. E não é favorável à adopção
Professor universitário no curso de Filosofia.
Vive em Leça da Palmeira.
Tem um Ford Focus.

Maria da Conceição Carreira Marques (a sogra)

A mãe da Maria Helena nasceu em Vila Real em 23 ABR 25 (81 anos) e é viúva do comerciante Joaquim da Silva Pinho, que nasceu em Amarante em 1924 e faleceu em 1999 (com 75 anos). Foi sempre doméstica.
Teve duas filhas: Maria Helena e Maria Margarida (falecida em 2004, no Brasil, com 53 anos).
Tem boa saúde, apesar do reumatismo e artroses, dolorosos.

Aldina da Cruz Silva (Dina) (empregada interna)

A empregada permanente, nascida a 13 MAR 55 (51 anos), 1,53 m / 60 kg, trabalha para a família desde 1973 (tinha 18 anos e veio da zona do Marão directamente para serviçal).

Maria de Fátima Oliveira Silva (empregada externa)

A empregada (1,60 m / 57 kg) que vai todas as manhãs dos dias de semana, das 09:00 às 12.00 ajudar em vários afazeres domésticos. Obedece à Aldina.
27 anos, casada.
Vive em Contumil, Porto.

Teresa de Sousa Mota (secretária de António José Lima)

Nascida em 21 FEV 76 (30 anos), 1,63 m / 59 kg, é secretária do chefe da família desde 2000 (tinha 24 anos), tendo começado uma relação com o Costa Lima em 2002, quando as obras da casa motivaram alguma confusão.
Casada desde 10 DEZ 97 (21 anos) com Alberto Lopes Martins, nascido a 12 OUT 70 (36 anos), vendedor, tem uma filha, Mariana, nascida em 20 MAR 99 (7 anos).
Tem os encontros íntimos à hora de almoço.
Mestiça, mais escura que a irmã Fernanda.
Vive na Senhora da Hora, Matosinhos.
Tem um Volkswagen Polo

Fernanda de Sousa Mota (colaboradora de Ricardo e irmã de Teresa)

Nascida em 12 JUL 80 (26 anos), trabalha na empresa de Ricardo e Mário Jorge desde a fundação (em 2003 – tinha 23 anos)) pois tem formação em informática.
Mestiça cabrita como a irmã, mas com corpo escultural, alta e mais bonita que a irmã (1,70 m / 60 kg).
Vive com a mãe, mulata, na Maia.
O pai, branco, fugiu de casa com as filhas adolescentes.
Tem um Renault Clio.
Anda muito com um amigo, Pedro Luís Mesquita Alves, com quem tem contactos íntimos mas pouco frequentes.

Os amiguinhos de Maria Cláudia (filha de Ana Maria)

Da escola: Miguel
Sara
Andreia
Filipe
Gonçalo
Judite

Da vizinhança: João (neto do Armando Borges)
Paula
Leonor
Ilídio

Marina de Castro Pimenta (a mulher de Francisco)

Nascida a 12 SET 75 (31 anos), começou a viver com Francisco aos 19 anos.
1,58 m de altura, 55 kg de peso, cara redonda e muito bonita com uns olhos verdes, enormes, a sobressaírem; mantém quasi inalterado o encanto de teenager.
Trabalha com o marido, Francisco, no stand de automóveis.
Foi trabalhar para o stand em 1993 com 17 anos.
Pai desconhecido.
Tem um Volkswagen Polo.

Alexandre de Castro Pimenta (Alex) (irmão de Marina)

Nascido a 02 JAN 70 (36 anos), 1,77 m de altura, 77 kg de peso, cabelo muito curto para disfarçar a já notória calva.
Sócio minoritário de um bar nocturno na zona histórica do Porto onde vive com a mãe, Maria Amélia de Castro Pimenta (54 anos).
Pai desconhecido.
Tem um Renault Clio.

Mário Jorge Silveira Gomes (sócio de Ricardo)

Nascido a 30 JUL 72 (34 anos), 1,82 m de altura, 74 kg de peso, cabelo longo e liso, preto, mas de tez clara, olhos muito negros, voz cava, uma verdadeira estampa.
Solteiro, mas com muita facilidade em arranjar namoradas que aguenta durante pouco tempo.
Engenheiro informático.
Vive no Porto, na Arca d’Água.
Tem um Honda Civic.
Vai evitar ter um caso com a mulher do sócio, Bárbara.

Armando João Cerqueira Borges (vizinho e amigo)

Nascido a 27 MAR 48 (58 anos), 1, 75 m de altura e 80 kg de peso, com ar hispânico (os Borges era de ascendência espanhola), ainda com bastante cabelo cor de prata, médico cardiologista, casado com Inês Leite de Castro, nascida a 27 AGO 51 (55 anos), médica pediatra, 1,57 / 50 kg, franzina mas com muita energia. Cabelo branco mas pintado com uma cor castanho acobreada que não lhe ficava muito bem com a pele morena, olhos castanhos. Casaram em 30 MAR 74 (ele com 26 anos e ela com 22)
Tem um filho, José Manuel de Castro Cerqueira Borges, nascido a 17 JUN 75 (31 anos), médico no IPO, moreno, 1,80 / 77, cabelos e olhos negros, casado com Dora Maria de Morais Sampaio, nascida a 22 SET 72 (34 anos), 1,64 m / 68 kg, cabelos liso castanhos e muito curtos e olhos da mesma cor, professora de Matemática, e um filho, João Manuel Sampaio Borges, nascido a 12 JUN 99 (7 anos).
Casaram a 10 JAN 98 (ele com 22, ela com 25).
Ele tem um Renault Laguna e ela um Ford Focus.

Sónia Filipa Soares Silva (cabeleireira no “coiffeur” de Ana Maria e Cláudia)

Nascida a 30 de Agosto de 1984 (22 anos), morena, cabelo negro muito curto, boca grande com lábios grossos, belos dentes, 1,60 m e 63 kg, não esconde alguns genes africanos.

A CASA

Foi construída pelos pais do Tó Zé no início dos anos 50.
Depois da modificação profunda efectuada, parte em 2000, mas sobretudo em 2001, após o falecimento da mãe:
pequeno jardim frontal e lateral esquerdo, passagem de viaturas na lateral direita, terraço nas traseiras e todo o fundo ocupado por garagem para 4 carros.
1º piso – Entrada, grande sala com passagem para escritório, copa, casa de banho; e ainda lavandaria, outra casa de banho e arrumos.
2º piso – Quatro quartos, sendo dois com casa de banho privativa o do casal Costa Lima e o de Ana Maria), mais dois quartos (um de Cláudia e outro da avó) e uma casa de banho.
Cave – Sala de estar, garrafeira, arrumos e sala de bilhar, além de um quarto (da empregada Aldina) e de uma casa de banho.

A HISTÓRIA

1) Descrição muito sucinta da família e localização e história da casa. Caracterização do Tó Zé e da Lena.
2) Caracterização dos filhos e consortes. Conversa do casal sobre a Ana Maria. Armando Borges chega à casa.
3) Caracterização da família Borges, os vizinhos. Caminhada do Tó Zé e do Armando.
4) Passado: 1995 – Separação de Ana Maria e Francisco. O papel de Maria e Alex.
5) Passado: 2000 e 2002 – A relação Tó Zé / Teresa (a secretária).
6) Passado: 2003 – A contratação de Fernanda por Ricardo.
7) Ricardo e Bárbara visitam a casa de Costa Lima.
8) Bárbara e Mário Jorge encontram-se no café. Descrição de Mário.
9) Visita de Joana e Manuel António a casa dos Costa Lima. Ana Maria nota frieza no casal e conversa muito com o cunhado.
10) Bárbara bate no carro de Mário e magoa-o no braço. Leva-o ao hospital e passa a ir todos os dias à empresa Rimafor para ver as melhorias. Mário recusa uma relação com Bárbara.
11) Fernanda aproveita e vai ajudar muito o Mário.
12) Lena telefona à filha Joana para saber como vai o casamento.
13) Lena conversa com Ana Maria sobre as divergências no casal quanto à adopção.
14) No dia seguinte ao acidente, ao fim do dia, Fernanda leva Mário para casa dele e começa a cuidar do patrão. Mantém um hábil afastamento com o objectivo de fazer com que ele goste dela por muito mais do que pelo corpo e por sexo.
Acabam por estabelecer um relacionamento e ela instalasse em casa dele.
15) Ana Maria vai a Leça a casa de Joana e Manuel António. Vai começar a ser visita assídua.
16) Ana Maria marca um encontro com o Manel e propõe-lhe terem um filho que seria criado por ele e pela Joana. Assim os riscos da adopção seriam menores. Este fica de lhe dar uma resposta em 2 dias.
17) O stand de Francisco começa a dar menos lucro. Marina conversa com ele e sugere que venda parte das cotas da sociedade e com esse dinheiro da venda se torne sócio maioritário do bar onde trabalha Alex. Francisco aceita, vende parte da cota e compra parte do bar Borda d’água (do qual Alex tinha 5%, Renato Delgado 55% e Gilberto Silva 40%). Compra 50% de Renato mais 5% para o Alex. O negócio é fechado em Setembro de 2006, depois do negócio do stand, em Agosto
O bar tem uma empregada de 55 anos que faz as limpezas e prepara alguns petiscos, a D. Alzira Sousa. É relativamente alta e magra e o pouco dinheiro de que aufere não lhe permite esconder as cãs, já abundantes.
Alex convence Marina, e muito facilmente o Chico a contratarem umas meninas para acompanhar os clientes do bar.
18) Dois dias após o encontro secreto, Manel telefona a Ana Maria para terem um novo encontro. Ficou combinado para uma semana depois do primeiro, no mesmo local e à mesma hora. Ajustam pormenores. Tem o 1º encontro.
19) Vem as respostas aos anúncios: 28. Mas depois de seleccionadas, ficam só 10.
Começam as entrevistas. No final ficam 4 (Uma cabeleireira – Sónia (Vanessa, 22 anos), uma balconista – Ana Rosa (Andreia, 25 anos) e duas desempregadas – Fátima (Cátia, 24 anos), Lurdes (mantém o nome verdadeiro, 21 anos).
Uma das aceites, Sónia, é cabeleireira no estabelecimento frequentado por Ana Maria e Cláudia.
20) O 2º encontro de Manuel António e Ana Maria. Ana Maria procura dar o máximo de prazer ao cunhado. Ela está na ovulação.
21) Sónia (Vanessa) inicia uma relação com Alex. Passado algum tempo, vê Cláudia a almoçar com o pai, o Francisco do bar.
Pensa em fazer chantagem com o Francisco, ameaçando-o de contar o que se passa no bar, à filha ou à mulher; conta a Alex mas este proíbe-a de o fazer, zanga-se, abandona-a e despede-a. Depois conta o sucedido ao Chico. Passados uns dias aparece um cliente novo a perguntar por meninas para sair. Chico, prudente, diz que aquilo não é um a casa de meninas. O cliente aprece mais vezes e eles suspeitam que a casa está sob vigilância devido a uma queixa da Sónia, despeitada. Mas depois deixou de aparecer.
22) Na 2ª quinzena de Outubro Lena descobre um caroço na mama esquerda. Fala de imediato com o Armando que lhe marca uma consulta no IPO. Resultado. Cancro da mama, embora em estado embrionário. Precisa de fazer mastectomia parcial. Depois faz quimioterapia durante seis meses.
23) O marido de Teresa sai de casa por causa de outra mulher e ela pretende que Tó Zé lhe dê mais atenção.
O engenheiro diz que não pode deixar de apoiar a sua mulher naquele momento difícil. Teresa conforma-se.
24) Ana Maria não tem menstruação no final de Outubro. Em meados de Novembro vai fazer um exame que confirma a gravidez. Diz que está grávida ao Manel, mas combinam que os encontros continuam. Devido ao estado da mãe decide aguardar algum tempo (até a mãe acabar a quimio) até dizer que está grávida ao resto da família.
25) Mário e Fernanda, em finais de Novembro, anunciam que vão casar e que ela está grávida
26) Lena termina a quimio em Fevereiro e os resultados são francamente animadores.
27) Ana Maria, já sabendo que tem um rapaz (Manuel José) no ventre e com 4 meses de gravidez, revela finalmente o seu estado à família. Diz que não diz quem é o pai porque não quer nada com ele. Antes diz à mãe e esta ao pai. Cláudia não reage bem a princípio mas a intervenção inteligente dos outros acabam por a fazer aceitar. A avó São tem um papel fundamental.
Passou um ano (Setembro de 2007)
28) Bárbara engravida de novo.
29) Fernanda e Ana Maria dão à luz. Ana Maria decide dar o filho em adopção a Manuel António e Joana, mas mantém a relação com o pai da criança.
30) Sónia aparece morta no rio Douro. Apesar de Alex ter sido interrogado, nada de substancial havia contra ele. Passado cerca de um mês é detido e preso o presumível assassino.
31) Embora já curada, Lena resolve revelar a Armando o seu segredo: Joana é filha dele. Conversam sobre se Joana deverá ou não saber a verdade. Como ela não tem filhos, decidem que é melhor não lhe dizer nada nem a mais ninguém.

LOCALIZAÇÕES

No Porto – A casa com Tó Zé, Helena e a mãe, Ana Maria e a filha e Dina
Mário Jorge
Francisco / Marina
Alex e mãe
Empresa onde trabalha Ana Maria
Stand de automóveis
Fátima
Bar onde trabalha Alex

Na Maia – Ricardo / Bárbara / Jocas
Fernanda e a mãe
Empresa de informática de Ricardo e Mário Jorge
Infantário de Bárbara

Em Matosinhos – Joana / Manuel António
Teresa e marido

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Uma família burguesa - parte XXIV e última

O interrogatório do Alexandre Pimenta na Polícia Judiciária não lhe acarretou qualquer problema. Todos os temores de que ficara possuído não se concretizaram e acabou por sair muito mais aliviado.
- Eu não te disse? – falou o cunhado – Tudo correu da melhor maneira possível. E era natural que eles quisessem fazer-te perguntas.
- Bom! – desabafou o cabeça rapada – Desta vez parece que me safei.
E deu um suspiro bem do fundo da alma.
Já Novembro ía avançado quando foi notícia, em tudo o que era órgão de comunicação social, que fora constituído arguido, ficando detido, um homem ligado a redes de prostituição suspeito de ser o assassino de Sónia.
Foi o alívio total para o Alex!
E pôde voltar a dedicar-se ao negócio, agora com outras meretrizes pois das iniciais já nenhuma restava, com uma tranquilidade que muito bem lhe sabia.
- A Sónia era um estupor! Mas não deixo de ter pena dela. E sobretudo de lamentar que tenha morrido tão nova e daquela maneira – dizia várias vezes.

A Ana Maria estava próximo de ter de deixar de amamentar a criança pois ao fim de quatro meses o leite começava a faltar.
Chegara o momento da grande decisão!
Ou deixava agora o filho bebé entregando-o à irmã ou, provavelmente, nunca mais se conseguiria separar dele.
E foi num dos encontros semanais que teve com o Manuel António que resolveu abordar o assunto.
Este mantivera-se silencioso pois não queria pressionar a cunhada. Mas não sabia se ela iria ou não abandonar, se é assim que se pode dizer, o filho.
Das conversas que ía mantendo com a Ana, foi fortalecendo a ideia de que ela iria mesmo cumprir a palavra. Pelo menos nesse aspecto. Quanto a deixá-lo de vez, não tinha a mesma opinião, já que o amava verdadeiramente. Disso tinha a certeza.
- Manel! – disse, quando pela enésima vez entraram num quarto daquela hospedaria que era o seu lar.
E prosseguiu, solenemente:
- Muito brevemente vou deixar de amamentar o Manuel José. Acho que é o momento de propor que sejam vocês a criá-lo desde já, enquanto não se resolve o processo de adopção. Para isso resolvi ir a vossa casa e falar no assunto. Só depois direi da minha decisão ao resto da família.
- E a Cláudia não se oporá?
- É o único verdadeiro problema, já que está a afeiçoar-me imenso ao irmãozinho e, sendo muito jovem, pode não compreender bem a minha atitude. Vou falar com ela a sós e dizer-lhe da minha intenção, mas terei de usar de toda a minha capacidade de persuasão.
Parece-me uma boa ideia! – concordou o cunhado.
Pouco demorou para que a Ana Maria, na véspera de um dia em que sabia que a filha não tinha aulas durante a tarde, lhe dissesse:
- Cláudia! Amanhã à tarde gostava que viesses dar uma volta comigo porque quero que conversemos sobre uma decisão que a mãe tem de tomar.
- Amanhã à tarde? Tenho uns trabalhos para fazer e coisas para estudar – respondeu a jovenzinha.
- Prometo que não te faço perder mais de uma hora. Está bem? É muito importante para mim.
- Pronto, mãe! Está combinado.
E, no dia seguinte, depois de almoço, saíram as duas no Renault Clio da Ana perante o olhar interrogador da Maria Helena.
Dirigiram-se à antiga praça de Velásquez, agora com o nome de Francisco de Sá Carneiro, e lá estacionaram a viatura.
Depois de algum silêncio, a Ana Maria começou:
- Cláudia! Tu já tens quinze anos e estás uma mulherzinha. Eu tenho em mente, já há algum tempo, fazer feliz a tia Joana. Como sabes ela não pode ter filhos e, embora queira adoptar, o Tio Manel tem medo de dar esse passo pois não sabe qual a genética que a criança transportará. Ora eu lembrei-me de lhes propor que adoptassem o Manuel José. O tio não se oporia, certamente, à adopção, e eles poderiam finalmente constituir uma família. Eu, embora gostasse de criar o teu mano, não deixarei de o acompanhar no seu crescimento e já te tenho a ti. Tu estarás numa situação semelhante à minha. Não terás o Mané em casa mas estará bem entregue e poderás estar com ele imensas vezes. Talvez esteja a ser demasiado altruísta, mas são gestos como estes que nobilitam as pessoas. Ficarei muito orgulhosa em tornar felizes os teus tios de quem tanto gosto.
Fez, finalmente, uma pausa e perguntou:
- Gostava de saber a tua opinião sobre o assunto, Cláudia!
A jovem, positivamente a sorver as palavras da progenitora demorou um pouco a responder, mas disse:
- Acho que o que pretendes fazer é muito bonito! Mas já não sei o que me vai parecer a nossa casa sem o maninho. Se fizeres isso vou ficar triste.
- Também eu, minha querida! Também eu! Por isso quero resolver o assunto o mais depressa possível, pois se demoro mais tempo não me conseguirei separar dele. E contigo também se passará o mesmo. Só não o fiz mais cedo por causa da amamentação – continuou a mais velha.
- Mamã! Tu é que decides! Eu apoiar-te-ei sempre, já sabes isso.
- Obrigada, minha querida! – e abraçou-a lacrimejante.
Choraram ambas, aliás.
Até que a Cláudia perguntou:
- Mas achas que o tio Manel vai aceitar sem saber quem é o pai? Pode ter problemas hereditários, não é?
- Tanto quanto conheço, não tem. Mas se o teu tio se mantiver reticente em relação a adoptar um sobrinho, então o problema é dele. Eu terei feito aquilo que a minha consciência e o meu coração mandaram.
Trocaram mais algumas ideias, deram um pequeno passeio e voltaram para casa pois a moça tinha os afazeres escolares, mas não sem que a Ana Maria lhe tenha pedido encarecidamente para não dizer nada a ninguém sobre aquela conversa, tendo a jovem aquiescido.

Nesse mesmo dia telefonou ao cunhado.
- Olá, Ana! – disse o Manuel António.
- Manel! Já falei com a Claudinha sobre a vossa adopção do nosso filho. Reagiu muito bem! Portanto, agora queria ir a vossa casa o mais depressa possível e falar convosco. Claro que tu já sabes tudo e vais ter de ensaiar muito bem o teu papel. Se puder ser hoje ou amanhã seria óptimo, porque se fico mais tempo com o meu filho não terei coragem para o entregar, mesmo a vós.
- Está bem, Ana! Por mim não há problema. Liga para a Joana, por favor, para confirmar a disponibilidade dela.
- Ok, Manel! Vou já ligar. Beijinhos para ti, querido papá – despediu-se ela.
Logo de seguida ligou para a irmã, mas só conseguiu falar com ela um pouco mais tarde.
Ficou combinado que se deslocaria ao apartamento de Leça da Palmeira, à noite.
E, por volta das nove e meia, já lá estava.
Depois das saudações habituais e de conversarem um pouco sobre o estado de saúde da Maria Helena, a visitante disse:
- Quero falar convosco sobre uma assunto muito sério.
Pausou, para que os outros se concentrassem nas suas palavras e continuou:
- Vocês estão com um problema para resolver que nunca mais está decidido. Estou, claro, a falar da questão da adopção. O principal óbice parece ser o Manel com o seu temor de que a criança seja portadora de problemas de natureza hereditária. Pois tenho uma proposta a fazer-vos. É-me doloroso o que já decidi, mas acho que vocês merecem ser felizes. Querem adoptar o meu filho Manuel José?
A Joana ficou estática, muda.
O Manuel representou muito bem. Manteve um silêncio relativamente longo e depois respondeu:
- Acho que posso falar pelos dois. Primeiro, quero realçar a extraordinária nobreza da tua proposta. Em segundo, aceitamos de bom grado adoptar uma criança tão linda e tão saudável. Podes crer que será para nós como um filho.
E virando-se para a mulher:
- Joana! Então não falas?
Finalmente a irmã mais nova reagiu:
Levantou-se, abraçou a Ana e choraram ambas.
O homem acabou por se juntar a elas e verteu também umas lágrimas. Agora tinha a certeza de que o seu filho seria criado por si.
Passados estes momentos de comoção geral, sentaram-se de novo e conversaram, nomeadamente na necessidade de o bebé passar imediatamente a viver com o casal, independentemente do processo de adopção.
- É verdade, Manel! Em relação ao pai biológico, embora continue a nada revelar sobre ele, informei-me e julgo que não há problemas familiares graves. Espero que isso te descanse – disse a Ana.
- Claro que sim! E no fundo, o nosso filho vai ter o sangue da Joana. Que mais poderíamos nós desejar? – respondeu o anfitrião.
E o serão terminou com a Ana Maria despedindo-se, alegando que ainda tinha de ser ela a cuidar do Manelinho.
Quando conduzia para casa, pensava:
- E tu, meu amado Manuel António, estarás sempre nas minhas mãos. Quem sabe se não terei um outro filho teu?

Logo no dia seguinte, ao jantar, Ana Maria revelou a sua intenção aos restantes familiares residentes na casa das Antas.
Os encómios vieram de todas as bocas:
- Não sei se te deixaste engravidar propositadamente para presenteares a tua irmã mas, mesmo que não o tenhas feito, funcionou como tal. És meio maluca, mas conseguiste fazer qualquer coisa de notável – disse o pai António José.
E outros elogios tornaram a Ana Maria na raínha da noite.
Até a própria Vó São não pôde deixar de dizer do alto dos seus oitenta e dois anos:
- Aninhas querida! Afinal valeu a pena entrar neste século e viver até hoje.