Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

A minha fotografia
Nome:
Localização: Maia, Porto, Portugal

sexta-feira, abril 29, 2005

Bronze nas dunas

O Sr. Américo era um homem dos seus cinquenta e tal anos.
Fanático da praia, costumava ficar numa barraca perto da minha, quero dizer, da minha família.
E como isto aconteceu durante vários anos consecutivos, o conhecimento mútuo surgiu naturalmente.
Além de ser uma defensor acérrimo dos benefícios para a saúde do ar do mar, do exercício físico, dos banhos em água fria (aqui no norte também não era fácil ter água à temperatura da do mar do Algarve), procurava bronzear-se o mais possível (mas com os cuidados inerentes, embora naquele tempo ainda não se falasse no cancro da pele provocado pelo sol).
Pessoa metódica, quasi obstinada, era muitas vezes o primeiro a chegar ao areal. Coisa de que se orgulhava. E brincava connosco, os mais novos:
- Não tem vergonha? Em vez de aproveitarem este iodo e este sol, nas horas em que ele é melhor, bem cedinho, ficam na cama. Que desperdício! Ponham os olhos aqui no velhote!
E fazia todos as manhãs e todas as tardes o seu “cross” pelo extenso areal.
O facto é que era um homem saudável!
O seu gosto em andar bem bronzeado, levava-o a ir passar uma meia hora para as desertas dunas onde, estendida a toalha e removido o calção de banho, se aprazia a bronzear as partes que não podia, por decoro, exibir em público.
Mas à vezes o destino é um pouco maldoso e, numa bela manhã, estando o Sr. Américo com o trajo de Adão (mas sem parra) a bronzear as bochechas, ouve um pequeno ruído.
Ah, maldição!
Não é que um corpulento cão, veraneante não habitual por aquelas paragens, resolve abocanhar o calção de banho do nosso amigo e afastar-se calmamente do local?
O nosso protagonista, atrapalhado como é de calcular, lá começou a chamar o bicho:
- Ó cão! Anda cá! Ó pá! Dá-me cá isso! Então?
Como que a gozar, o cachorro anda um bocado, pára, olha para o nosso herói que nessa altura já se tinha levantado e posto a toalha à volta da cintura, e continua:
(felizmente estava munido de toalha, senão...)
- Ó filho da puta! Dá-me cá os calções!
É o dás! Mais uma paragem. Mais uma olhadela desafiadora. E retoma o percurso para maior irritação do Américo.
Até que, finalmente, e para alívio do banhista, o canídeo largou o trofeu.
A cena parece que demorou uma meia hora (eu acho que teria sido menos, mas o tempo psicológico para a vítima do atrevido canino foi seguramente maior que o tempo real).
Vestidos os calções, o nosso velho amigo lá regressou à base.
Lá chegado, começou a rir-se, a rir-se, a rir-se...e nunca mais parava.
Até que finalmente narrou a sua aventura de nudista roubado arrancando gargalhadas com fartura.
Já não me lembro bem se voltou a ir fazer bronze para as dunas. Acho que sim, mas certamente tomando algumas precauções suplementares.
Uma coisa é certa: a peripécia deu uma boa história (com um toque de erotismo e tudo), ou não deu?

segunda-feira, abril 25, 2005

O meu 25 de Abril

A quatro de Fevereiro de 1974 parti para Luanda, a fim de cumprir a parte mais importante do meu serviço militar no NRP Rovuma, como oficial da Armada Portuguesa (NRP=Navio da República Portuguesa). Tropa boa!
O Rovuma era um navio patrulha, fabricado nos estaleiros do Alfeite, se bem me lembro, juntamente com outros da mesma classe e que, por isso, eram iguaizinhos. Ainda navegam.
Tinha uma guarnição de pouco mais de 30 homens, sendo só três os oficiais:
O Comandante Silva Dias, elitista e "bon vivant", casado com a bela francesa Jacqueline, foi mais tarde capitão do porto de Viana do Castelo, como já o havia sido seu pai. Faleceu há 2 ou 3 anos.
O Imediato, Fernando Ribeiro e Castro, jovem oficial do quadro, tinha acabado um ano antes o curso da Escola Naval onde fora considerado o melhor aluno dos últimos vinte ou trinta anos.
Era filho do Governador-Geral de Angola em funções, o Engº Santos e Castro que, nos anos sessenta, fora Presidente da Câmara de Lisboa onde ficou conhecido como o Engenheiro dos Viadutos, pois do seu legado fazem parte vários viadutos que na altura foram muito importantes para desanuviar o já então complicado trânsito na capital. Curiosamente, o número dois na hierarquia provincial (ao tempo, as colónias eram chamadas de províncias ultramarinas) era o candidato a Presidente da República apoiado pela Aliança Democrática liderada por Sá Carneiro (que morreria tragicamente no último dia de campanha). Seu nome, Soares Carneiro.
O irmão mais novo do Fernando, por coincidência, foi este fim de semana eleito como presidente do CDS-PP. É o Dr. José Ribeiro e Castro.
O Fernando, com quem partilhava o camarote no navio, casou no ano seguinte com uma jovem chamada Leonor e hoje tem nove (leram bem...nove) filhos, sendo o presidente de uma associação de pais de famílias numerosas.
Finalmente, o 3ª oficial, que era este vosso escriba, o único miliciano.
Mas porquê tanto ênfase na pessoa do Imediato do navio.
Porque no dia vinte e cinco de Abril de 1974, quando deixavamos o navio que estava atracado ao cais da Base Naval de Luanda para ir almoçar à messe dos oficiais, ía eu começar a descer a prancha quando o Fernando volta a entrar, com uma cara de espanto:
- Houve um golpe de Estado em Portugal. O Spínola tomou o poder.
Eu fiquei embasbacado, porque um sonho de muitos anos aparecia como realidade. Já não sei o que disse ou deixei de dizer. Lembro-me que não tive grandes manifestações de júbilo, naquele momento, pois ainda demorou um ou dois dias a termos a certeza de que o golpe militar resultara, e até porque havia ocorrido um outro pouco mais de um mês antes, nas Caldas da Raínha, que tinha abortado. Mas também a cara de decepção do Fernando, que resmungava:
- Foi o palerma do Tomás quem estragou tudo. Se tivesse deixado o Marcelo fazer o que queria, isto não teria acontecido. Agora tudo isto vai ser independente. Lá se vai o nosso Portugal!
Dizia eu que a cara do Fernando inibia-me de, por educação, ter manifestações de júbilo.
E lá fomos para a messe. Comecei a falar com os meus amigos ou colegas do reviralho, e conforme íamos sabendo novidades, os sorrisos e as manifestações de alegria começaram a subir de tom. Havia grupinhos e falavamos baixinho. Ainda tínhamos de aprender a viver em democracia e liberdade. Nós, e quasi toda a gente.
Curioso, foi também observar o rosto fechado dos oficiais mais graduados. Não se manifestavam, salvo um ou dois. Mas nos dias seguintes começaram a mostrar um sorriso que deixava adivinhar que, ou já eram opositores do regime e estavam a ver em que paravam as modas, ou eram a favor e estiveram de quarentena a mudar a casaca! Alguns não mudaram. Honra lhes seja feita!
E o meu 25 de Abril foi assim!
Sem cravos nem multidões, lá longe, na África meridional.
Parabéns para os que conseguiram chegar ao fim deste texto chatinho, mas pelo menos não escrevi as banalidades do costume. Procurei dar uma imagem com algum ineditismo. Consegui?

quinta-feira, abril 21, 2005

O Quim no urologista

O meu velho amigo Quim, colega do liceu e dos bancos da universidade, gajo porreiro, compincha brincalhão, de refinado senso de humor, inteligente e mulherengo, namorava há uns dois ou três anos a Matilde, miúda catita, sensata e com um coração do tamanho do mundo.
Mas, naquele tempo, a virgindade no casamento era uma questão muito séria para as meninas e o Quim tinha de ir a outras paragens para dar plena satisfação à sua sexualidade, que era coisa que andava sempre a fervilhar naquele corpo jovem e saudável.
Acompanhei-o várias vezes nas suas aventuras de D. Juan ou, mais prosaicamente, de papador e pagador de mulheres.
Pois o Quim resolveu casar-se.
A Matilde era realmente a mulher da sua vida (pelo menos a favorita).
Mas as hormonas não o deixavam descansar. Faziam-lhe um tal nervoso miúdinho que não dava para aguentar. E que se lixasse a fidelidade.
Umas quatro ou cinco semanas antes da boda, e depois de uns momentos bem passados com uma meretriz supostamente asseada, o rapaz começou a sentir uma impressãozita no orgão.
Imaginou que fossem uns gonococos a fazer das suas. Mas os sintomas habituais da blenorragia não apareciam. Nem a ardência na micção, nem o prurido.
E continuou a esperar pela revelação da infecção para aplicar a dose adequada do antibiótico que, em dois ou três dias, o deixaria são como um pêro.
Mas a coisa nem andava nem desandava. A data do casamento aproximava-se e o pobre do Quim já imaginava a terrível situação de, na noite de núpcias, ter de dizer à Matilde que não podia ser nada...mas tinha apanhado uma coisita ligeira numa dessas retretes públicas onde vai todo o tipo de gente e era melhor não arriscar.
Enfim...a coisa estava a ficar negra. O mancebo andava em polvorosa. Tinha da fazer alguma coisa. E fez!
Foi às Páginas Amarelas, procurou um médico urologista, e conseguiu uma consulta para a tarde seguinte.
Coitado! Nos últimos dias nem parecia o mesmo. - Maltita puta! - bradava.
Mas aproximava-se a solução. O médico, ainda por cima um especialista, não deixaria de solucionar o seu problema.
Chegada a hora da consulta, e após uma rápida espera de dez minutos, foi chamado.
- Dá-me licença, Sr. Doutor?
- Faça favor - disse o clínico. Boa tarde. Queira sentar-se.
Cumpridas as formalidades habituais de uma primeira consulta, perguntou o médico:
- Então o que o trás por cá, Sr. Engenheiro?
- Há uns quinze dias atrás - começou o Quim - tive relações com uma prostituta e...e continuou a descrever tudo o que podia com o maior rigor, para que o médico tivesse toda a informação e assim fizesse um diagnóstico correcto.
- Queira desapertar as calças e deitar-se aí, Sr. Engenheiro - disse o doutor.
Já deitado, continuou o Quim:
- Há uma coisa muito importante que eu quero dizer ao Sr. Doutor. Daqui a quinze dias vou casar e...
- Não diga mais - interrompeu o médico. Já sei qual o seu mal.
O Quim fez a maior cara de parvo que é possível imaginar.
- O senhor tem um esquentamento de consciência - rematou o urologista.
O Quim estava meio aturdido. Teria ouvido bem?
- Sabe?! É uma situação muito mais habitual do que as pessoas pensam. Sobretudo com homens casados que fazem um extra fora do matrimónio.
O Quim continuava boquiaberto, mas um sorriso começava a desenhar-se no seu rosto.
- Vou examiná-lo - atalhou o especialista.
Finalmente, concluiu:
- Pode ir descansado para casa. Não tem rigorosamente nada. Vou receitar-lhe umas drageias que são um desinfectante das vias urinárias, mas só tome se quiser.
E ao despedir-se, disparou o doutor num evidente tom irónico:
- Então que corra tudo bem no seu casamento!
Nem por milagre! O Quim nunca mais sentiu impressão nenhuma e acho que nem chegou a tomar uma única drageia.
E no dia do casamento (melhor dizendo, na noite), lá cumpriu as suas obrigações com toda a galhardia.
Hoje, ainda está casado com a Matilde. Tem dois filhos e um netinho.
Mas nunca deixou de dar umas facadinhas no casamento. Aquilo estava-lhe no sangue.
Só mais tarde, quando se divulgou o Síndrome de Imuno-Deficiência Adquirida (SIDA), ele acalmou um pouco. E também por causa da idade, direi eu!
Mas, de toda esta história, a coisa mais deliciosa foi a expressão:
"Esquentamento de consciência".
Só não a usei como título desta prosa porque tornaria o desenlace mais óbvio.
"Esquentamento de consciência" - adoro a expressão!

domingo, abril 17, 2005

O deslize do Bolinhas

Ano lectivo 1960/61.
Liceu de Alexandre Herculano no Porto.
Turma B do 2º ano.
No intervalo que precedeu uma aula de português, o Bolinhas, alcunha pela qual era conhecido um dos colegas (hoje, psiquiatra e poeta) devido ao seu porte anafado, teve um problema intestinal mesmo, mesmo quando estava a tocar para a entrada. O pobre do rapaz tinha de decidir rapidamente correr para uma casa de banho e chegar atrasado à aula o que, dada a severidade que reinava nas escolas daquele tempo, lhe acarretaria uma falta e alguns dissabores, ou aguentar.
O facto é que não aguentou!
Mas, estóicamente borrado, foi assistir à aula.
Ao contrário do que se poderia pensar, não houve grande alastramento de cheiro.
Mas o desgraçado do Pinduca, o colega que estava atrás dele (hoje engenheiro e presidente de uma importante Câmara Municipal), é que se sentiu fortemente afectado. E não deixou de o dizer várias vezes ao professor Cruz Lopes:
- Sr. Doutor. Aqui cheira muito mal!
- Sr. Doutor. Este menino cheira mal!
(reparem que naquele tempo não havia Setôr nem meio Setôr)
Mas recebia invariavelmente a resposta:
- Cale-se, e preste atenção à aula!
O fedor devia ser imenso pois a cara do Pinduca metia dó, apesar de tentar afastar o cheirete com a mão a funcionar como um leque.
E o Bolinhas, mais vermelho do que nunca, caladinho.
E a aula terminou, 50 minutos depois, ao toque da campaínha.
Seguia-se a aula de francês com uma senhora já velhota, a Drª Florisa Costa.
Começa a aula e pasme-se, o Bolinhas estava exactamente na mesma. Só que ainda mais vermelho pois no intervalo tinha sido bem "cheirado" e bem "gozado" pela malta. Talvez por isso nem tenha tido o discernimento de resolver o problema.
E no Francês o Pinduca continuou:
- Srª. Doutora. Aqui cheira muito mal!
- Srª. Doutora. Este menino cheira mal!

Mas, talvez porque agora o odor estivesse mais disseminado, ao fim de alguns minutos a professora aproximou-se dos dois. Fez uma careta e perguntou o que se tinha passado. Foi o Pinduca, já um bocado amarelo, quem lhe explicou a situação.
E a Drª Florisa lá disse ao Bolinhas para ir lavar-se, tendo tido o cuidado maternal de chamar um contínuo para dar uma ajuda ao moço.
A aula continuou, naturalmente, mas o Pinduca só na hora seguinte voltaria à sua cara normal.
Ao fim de uns 15 ou 20 minutos, lá entrou o Bolinhas com as cuecas embrulhadas em papel de jornal que colocou junto aos pés.
Não sei se tinham sido lavadas ou perfumadas, mas o Pinduca não se queixou mais.
Juro que esta história é rigorosamente verídica, com nomes e tudo.
Eu, que gosto de meditar nas coisas, ainda hoje me pergunto se não terá sido este episódio quem deu o "empurrão" ao Bolinhas para a Psiquiatria!

sábado, abril 16, 2005

A cidade surpreendente

Este é o nome de um blog que conheci ontem e que me parece ser do melhor que há sobre a minha cidade do Porto.
O endereço é:
http://cidadesurpreendente.blogspot.com/

segunda-feira, abril 11, 2005

Eu, borboleta

Finais de Novembro de 1956.
Eu frequentava a 2ª classe.
Turma só de rapazes pois Salazar não gostava de promiscuídades.
Numa aula que se previa normal, a jovem e bonita professora D. Ester, deu-nos a novidade:
As mestras iriam organizar um espectáculo de Natal para ser assistido pelos familiares dos alunos.
Claro que a rapaziada ficou em alvoroço. Mas as informações não tinham terminado e a D. Ester continuou:
(já passaram muitos anos e o que retenho é só uma pequena parte de todas as peripécias ocorridas)
O espectáculo seria constituído por vários quadros, neles participando activamente só uma parte dos alunos de todas as classes.
E outras coisas disse. Recordo que, não sei se nessa manhã ou noutra qualquer, fiquei a saber que era um dos escolhidos.
E qual o meu papel?
Borboleta! Isso mesmo! Eu, borboleta, com mais quatro miúdos da 2ª e cinco da 1ª classe.
O número consistia numa dança das mariposas ao som do Danúbio Azul e com uma interessante coreografia criada pelas professoras.
Lembro-me que havia também um quadro com gafanhotos saltitantes, outro com os 7 anões (acho que a Branca de Neve não entrava...o Salazar não deixava), um mocito da 4ª classe recitava um poema, um grupo coral cantava e outros números que já esqueci.
Mas voltemos às borboletas.
Tivemos que confeccionar um fato especial (o trabalho de guarda- roupa foi excelente), todo negro, muito justo ao corpo e cabeça, diria que muito parecido com o dos actuais mergulhadores, mas o material era um tecido, talvez flanela.
E as asas, brancas para os mais novos, amarelas (amarelo torrado) para os mais velhinhos - portanto para mim - eram de um tecido fino e macio, penso que seda artificial, com uma armação de arame, cosidas aos braços e deles pendentes. Quando os braços se elevavam e baixavam, as asinhas agitavam-se de uma maneira graciosa.
Nas semanas em que as vestimentas eram confeccionadas íam decorrendo os ensaios.
Até que chegou o grande dia!
(na tarde de um sábado, no fim das aulas do primeiro período, ainda recordo)
Vestiram-me em casa. Fizeram-me um sinal artificial na carinha laroca com o carvão de um fósforo queimado. E puseram-me um pouco de um bâton levemente rosado nos lábios.
E lá fomos.
Eu nos bastidores (com os outros artistas), os papás e a mana sentados na plateia.
E a coisa correu bem! Ninguém trocou o passo!
As professoras (Ester, Palmira, Maria da Graça e Maria Adelina) estavam radiantes...e tinham motivo para isso. O show fora um sucesso. E eu senti-me gente.
Agora já sabem como é que fui, durante algumas semanas, uma borboleta.
Quem esboçou risinhos malandros ao ler o título, lixou-se!
Bem feito!
Já se tinham esquecido da inocência da vossa infância?

Já como ácaros!

Pois é verdade!
No dia 17 de Fevereiro do ano da graça (ou da desgraça, vamos ver, que esta falta de chuva não me agrada nada!) de 2005, escrevi um texto com o título: "Vou comer ácaros!" (quem não leu pode fazê-lo e não tem de pagar nada!).
Nele prometi que vos daria conta de como decorreriam as minhas tainadas acarídeas.
Pois bem! Já comecei há quasi duas semanas e nem vos digo nem vos conto. Aquilo é um pitéu requintado e saboroso. E ainda falam no caviar, nas ostras, na lagosta e noutras coisas finas! Depois de colocar umas gotinhas debaixo da língua (aplicação sub-lingual...vejam bem o que não tenho aprendido graças aos micróbios!) logo de manhã, a boquinha fica com um paladar que nem o mel dos deuses.
Basta essa dose diária para ficar satisfeito. Até já engordei 1,5 kg.
E pronto! Agora são mais 3 anos a deliciar-me com este petisco e depois a alergia deve ter acabado. Ou se calhar ainda sou eu quem acaba primeiro...cruzes, credo, canhoto, lagarto, lagarto, lagarto, abrenúncio, saramago...
Foi por já ter planeado falar nestes bichinhinhos (não é engano,não senhor, foi mesmo assim que quis escrever) que, no texto anterior, não os referi. Senão ainda provocava uma indigestão a alguém.
Ahh...quem quer experimentar?

sábado, abril 09, 2005

Discriminação animal

Todo o mundo conhece os chamados animais domésticos.
Nas zonas urbanas, os mais frequentes e amimados são os cães e os gatos, nas suas variadas raças. Em muita habitação, com ou sem jardim ou quintal, lá estão eles.
Mas outros merecem menção: os canários, pintassilgos, pintarroxos, os engraçados papagaios e ainda os peixinhos, quer o solitário vermelhinho quer os múltiplos habitantes dos mais sofisticados aquários com maternidade e tudo.
E os cágados, quer os "mignon" que tem um local especial dentro de casa, quer os maiores que se instalam nos jardins.
E há os mais raros: ofídios rastejantes, pequenos tigres, enfim...fiquemos por aqui que não me lembro de mais.
Se formos para as áreas rurais, teremos muitos outros animais que, para ricos ou para pobres, tem os cuidados necessários, ou mais do que isso, dos seus proprietários: as galinhas, patos, perús, gansos, cisnes, coelhos, vacas, ovelhas, cabras, porcos, cavalos e outros. Não pretendo ser exaustivo pois isto não é um estudo científico, como devem calcular.
Mas o que me levou a tratar este tema da discriminação animal não foi esta bicharada que atrás enunciei.
São os outros. Os malditos, os indesejados, os horrendos, os discriminados.
Comecemos pela formiga, a comunitária e laboriosa formiguinha que a famosa fábula transmitida oralmente de pais para filhos tem atravessado gerações. Mas outros insectos nos acompanham fielmente mal-grado a furiosa perseguição de que são vítimas: as aranhas com as suas artísticas teias, as centopeias, engraçadíssimas com tanta perninha, as baratas, os peixinhos de prata.
As pulgas, percevejos e piolhos. Como é gira a distracção que estes proporcionam ao ser catados nas cabecitas mais sujas das criancinhas e o estalido que produzem quando esmagados entre as unhas dos polegares das mamãs. E a conhecida habilidade das pulgas para serem amestradas e se tornarem artistas de circo, sem falar na famosa cena de um filme de Charlot cujo nome agora não recordo?
E os ratos e ratazanas, também imortalizados em fábulas como a do flaurista ou a do João Ratão e da Carochinha, sem esquecer a utilização que deles fizeram grandes nomes da literatura como Victor Hugo que, na mais romântica de todas as obras que conheço, Les misérables, os converte nos melhores companheiros de Jean Valjean nas suas passagens pelos oitocentistas esgotos de Paris? Ah...e o rato Mickey, claro!
E as moscas, mosquitos, falenas e outros insectos voadores? Quanta diversão e libertação de tendências agressivas não tem provocado à pequenada o caçar moscas e depois tirar-lhes as asas, depois a cabecita e por fim as patinhas?
As abelhas, vespas e correlativos. Nem é preciso falar da utilidade das abelhinhas, pois não?
E as minhocas, lesmas e caracóis (petisco em muita zona do país) que também são um belo entretimento da miudagem? Caracol, caracol, põe os corninhos ao sol...
E mais haveria; mas vou parar por aqui na enumeração que já vai longa, quiçá fastidiosa.
A minha intenção ao falar nestes animaizinhos mal amados, é pôr em relevo a hostilidade de que é alvo, por parte dos humanos, todo este conjunto de pequenos bicharocos que fazem questão em partilhar a sua vida connosco.
Pensem bem e deixem-se de discriminações!

sábado, abril 02, 2005

Tampere - Suomi

Mas que título tão esquisito, dirão!
Calma! Eu explico:
Tampere é uma cidade da Finlândia, com cerca de 200.000 habitantes (actualmente), 180 km a norte de Helsínquia.
Suomi é Finlândia em finlandês (agora meti mesmo nojo, não meti?).
E a que propósito vem isto?
Bom! Vou contar uma historieta verídica.
Em Julho de 1980, tinha eu os meus vigorosos 31 aninhos, fui incumbido pela empresa para a qual trabalhava (que entretanto faliu e me deixou no desemprego, embora por muito pouco tempo) de ir tratar de um assunto a Tampere.
Um dia para a viagem que me deixou arrasado e, quando à uma da matina cheguei ao quarto do hotel, fui logo dormir tapado por uma daquelas cobertas de penas que são levezinhas e muito quentinhas (já tinha experiência no seu uso, senão teria tido algumas dificuldades de adaptação). Conhecem?
Depois foi um dia de trabalho.
Como iria ficar ainda outro a tratar do assunto que lá me levou (tudo pago pelo patrão, pois claro; se calhar foi por isso que a empresa faliu...), depois de jantar resolvi ir a um bar onde havia muita malta nova. E umas finlandesas de estoiro.
Como as mesas não eram muitas mas eram grandes, estavam ocupadas. Mas depressa percebi que me podia sentar onde quisesse. E, ao ver ali bem perto uma loira de sonho e uma morena (também há gente mais escura lá para cima) de arrepiar, sentei-me junto delas a beber qualquer coisa que já não sei o que era (nem interessa; às tantas fazia propaganda de borla).
Puxei dos meus galões de latino morenaço e toca a mandar umas boquitas no meu inglês macarrónico. As miúdas responderam e cá o rapaz já estava a palpitar com qual delas iria passar uma horitas em beleza.
E porque não as duas? Puxa! Até já estava a suar (diga-se que o tempo estava bom e a temperatura bem amena).
Eis que, de repente, os dois borrachos desatam a beijar-se na boca com um carinho que me deveria comover mas, de facto, quasi me fez cair da cadeira.
Bom! Mas não pensem que desisti! Pelo contrário. Agora é que a ideia do "ménage à trois" estava a ganhar força. Continuei a mandar uns bitaites (depois de as mocinhas terem desgrudado, claro!) mas a coisa não estava a resultar muito para o meu lado.
Chegam então uns amigos loirinhos e agora eram beijinhos para os rapazes.
Dasse...já estava a ficar lixado! Então estava ali um garanhão latino, no meio das nórdicas e ía ficar a seco?
Pois fiquei, fiquei,,,
Pouco depois pirei-me, com uma mona que parecia um melão inchado!
E foi hotel...xixi...cama (aquelas cobertas de penas são mesmo uma maravilha!).
No dia seginte mais trabalhinho e à noite fui cedinho para a cama pois tinha de madrugar para apanhar o primeiro avião de regresso.
Já agora deixem-me dizer, antes de rematar esta prosa, que foi giro ver um dia com luz durante umas 20 horas e só as restantes é que eram de obscuridade.
E também que naquela terra não havia persianas. As janelas eram duplas e no interior só existia um reposteiro. Nada de cortinas.
E também que, visto do ar, Suomi (nojo, outra vez!) é mesmo o país dos mil lagos.
Mas voltando à vaca fria: para falar verdade, acho que o meu problema é que não sou bom a engatar em inglês. Só em português, mesmo!
Ahhh...alguns anos depois soube que naquela cidade as mulheres eram mais de 60% da população. Por isso!!!