Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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domingo, janeiro 29, 2006

O viúvo - parte X

E, sentada num extremo do sofá triplo com o Zé recostado no outro extremo, a jovem mulher, com o copo de Martini numa mão e um cigarro na outra, começou:
- Nasci em Luanda a vinte e oito de Julho de 1970, como já te disse. Em 1975, tinha cinco anos, vim para o continente com os meus pais e a minha irmã Maria Teresa que tinha só dois anitos. Agora tem trinta e dois e é tão maluca como eu. Saímos à minha mãe. O meu pai era pacato. Até demais.

E continuou:
- Ficamos no Porto. Ao fim de algum tempo, a mamã arranjou emprego como balconista numa boa casa de louças e cristais onde ainda trabalha, mas agora num posto mais elevado, e o pai como vendedor de uma firma importadora de máquinas.
A morena fez uma pausa e acendeu outro cigarro.
O viúvo olhava para ela atentamente e, em vez do Martini, bebia o que ela ía desfiando.
E a mulher continuou:
- Andamos a estudar e até nem éramos más alunas. Mas depois de fazer o 12º, aos dezoito anos, como vês andei sempre bem, não quis estudar mais. Queria ganhar dinheiro para ser independente. Arranjei um emprego numa têxtil de Guimarães.
Em noventa e um, com vinte e um anos, casei com o Rui Manuel que tinha trinta e cinco. Mas a coisa deu para o torto e três anos depois separamo-nos e divorciamo-nos.
Fez uma pausa para beber um gole e continuou:
- Em noventa e sete, tinha vinte e seis de idade, juntei os trapinhos com o Aníbal, indo viver para a Trofa onde ele tinha uma pequena confecção. Ah! Ele tinha...quarenta anos...espera...exacto, quarenta. Mas começou a frequentar uns bares ou coisas do género e a fazer noitadas com uma frequência que não me agradava e seis anos e tal depois deixei-o e fui viver com o sócio dele. Houve um grande escândalo mas eu marimbo-me nessas coisas. Era o Jaime e tinha quarenta e cinco. Eu tinha trinta e três. Como vês, sempre homens um pedaço mais velhos.
Entretanto, em dois mil, o meu pai teve um enfarte que lhe provocou morte imediata. Fiquei bastante fragilizada. Talvez isso tenha contribuído também para a separação do Aníbal. Ele não me deu o apoio de que eu carecia e isso fez-me esfriar.
Nova pausa, novo cigarro, novo gole.
- Fumas bastante – falou, finalmente, o atento ouvinte.
- Não chega a um maço por dia. Mas bebidas deste tipo estimulam a vontade de dar umas passas – respondeu ela – tu não fumas?
- Raramente – respondeu o viúvo – mas depois de jantar sou capaz de fumar um cigarrito.
E a Cristina prosseguiu:
- Agora, em Agosto, eu e o Jaime decidimos separar-nos. Achei que não gostava dele o suficiente e, depois de conversarmos várias vezes sobre o assunto, decidimos acabar. E eu pensei em vir trabalhar com a Lena.
- E não tens filhos? – interrompeu o Novais.
- Não! – respondeu ela – penso que posso ter, mas nunca estive interessada.
- Bom! Já são oito e meia. Tenho de ir buscar a comida. Vens comigo? – disse o Zé.
- Ah! Pensei que eles vinham cá trazer – admirou-se a angolana.
- Não! Anda daí!
- Ok! Vamos lá – concordou a Cris.
Ao fim de cerca de vinte minutos estavam de regresso.
- Que queres beber, Cristina? Vinho maduro ou uma cerveja fresquinha? – perguntou o Zé Luís.
- Depois do Martini é melhor a cerveja. Senão ainda adormeço aqui no sofá – e a morena riu-se, mostrando toda a alvura da sua boca sensual.
- Então também bebo Super Bock. É a que tenho – disse o homem.
- E serve muito bem – disse a vizinha – o mais importante é a companhia.
Sentaram-se e começaram a saborear o bacalhau.
- Depois do que eu te disse, deves pensar que sou maluca ou ninfomaníaca ou outra coisa do género – disse ela.
- Acho que és uma mulher de um tempo diferente do meu. És livre, independente, e fazes da vida o que entendes. Se te sentes bem assim, óptimo. Mas devo dizer-te que não és nada tola. Soubeste aproveitar e conseguiste fazer um bom pé-de-meia. Tens uma casa, móveis e um carro – avaliou o Zé.
- Acho que me percebeste. Isso é bom! Muita gente não me compreende e tratam-me como uma leviana ou uma meretriz de luxo. Nada disso: quando ando com um homem, sou-lhe fiel. Há a excepção de ter trocado o Aníbal pelo Jaime.
- Pois, Aníbal e Soares nunca ligaram muito bem – gracejou o homem.
- Boa, Zé! Tens a tua cabecinha em forma – elogiou a Cristina Soares.
- O Jaime era casado e fomos viver para uma casa que ele comprou e eu mobilei. Assim não fiquei completamente descalça. – orgulhou-se a Cris – O facto de ser casado também ajudou à separação. Nunca esqueceu a mulher completamente, tenho a certeza.
- Eu bem te dizia há pouco que não eras nada parva – recordou o Zé.
- Agora vou comer um bocado sem falar porque a comida já está a ficar um bocado fria – disse ela.
- Também acho! – corroborou o viúvo.
- Mas depois tens de me fazer um relatório da tua vida como eu fiz da minha. Sou um livro aberto. Tu pareces mais reservado. Mas vamos comer e depois falas tu – sentenciou a morena.
- Ok! Eu falo! Não é preciso chamar a polícia para me torturar e obrigar a abrir o bico – e o Zé riu-se.
Ela também.
Enquanto acabavam a refeição, o Novais ía pensando.
- É uma fulana formidável. Esta conversa revelou uma pessoa com uma certa pancada na cabeça mas de uma franqueza notável e uma personalidade muito forte. Estou a gostar dela.
Terminada a refeição e feitas algumas limpezas e arrumos, estiveram uns minutos à janela a apanhar uma aragem fresquinha e a conversar sobre assuntos mais ou menos genéricos: o tempo, o custo de vida, a televisão...até que voltaram a sentar-se nos mesmos lugares do sofá.
- Agora vou beber um whisky e fumar um cigarro – disse o José – também queres?
- Sim, obrigado.
O anfitrião tirou do bar uma garrafa de Old Parr 12 anos, dois copos e disse:
- Vou pôr aqui um bocadinho de música de fundo e depois vou buscar gelo.
Ligou o leitor e colocou nele um disco com música tocada a solo por um pianista. Pouco depois reapareceu com o balde de inox e serviu a bebida on the rocks.
- Agora é a tua vez de te dares a conhecer melhor – falou a ainda jovem mulher.
- A minha vida, apesar de mais longa, foi menos agitada que a tua – começou. Nasci em Fevereiro de quarenta e sete no Porto. Estudei até terminar o 7º ano antigo.
Decidi ir fazer a tropa e depois continuar a estudar. Entrei em sessenta e seis, em sessenta e sete fui para Luanda e regressei em sessenta e nove. Foi um período estupendo.
- Eu só nasci no ano seguinte – interferiu a Cris.
Como já estava habituado a ter dinheiro no bolso e tinha conquistado a minha independência, fui trabalhar para um banco em setenta. Aí conheci a Margarida que tinha praticamente a minha idade e no verão de setenta e um casamos. Fomos sempre muito felizes.
Fez uma pausa, serviu-se de mais um pouco de scotch, verteu também no copo de Cristina e continuou:
- A única coisa que nos faltou foi ter um filho. Mas adaptamo-nos à ideia. Aproveitamos para ter um nível de vida melhor e viajamos bastante. Depois de nos reformarmos aos cinquenta, ainda mais. Até que em Abril apareceu o cancro no estômago da Guida e acabou por falecer no dia dezasseis do mês passado.
- Hoje são onze. Ainda não fez um mês. É muito recente – comentou a morena.
- Foram quatro meses bem difíceis. Depois fiquei completamente só. Mas tenho-me aguentado bem – disse o ex-bancário.
- Deves estar muito carente – disse, com uma voz prenhe de ternura, a visitante.
- Não fazes ideia! Não fazes ideia!
- Coitadinho... – murmurou a Cris.
E o Zé sentiu os pés da sua visita pousarem nas suas coxas.
Olhou para eles e viu que estavam nus, depois mirou-a e ela estava estirada no sofá.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

O viúvo - parte IX

Na terça-feira, quando a Rosa entrou já o Novais estava a tomar o pequeno-almoço.
- Bom dia, senhor Novais! – disse a empregada – o tempo parece que está a piorar.
- Olá, Rosa! – é verdade. É o primeiro cheirinho a Outono, mas ainda vamos ter dias bons.
- Nem que seja pelo Verão de S. Martinho – concordou a mulher.
- Exactamente – disse ele – hoje já bebi o leitinho todo e não o entornei por mim abaixo.
- Ontem foi um caso especial – disse ela – o senhor é uma pessoa muito arrumada e cuidadosa. No melhor pano cai a nódoa, não é?
- E, quando fizer asneira, a Rosa aparece para me salvar.
- Desde que esteja por perto, pode contar comigo – afirmou a Rosa.
- E se estiver longe?
- Nesse caso é mais difícil! – disse a empregada, talvez com um segundo sentido.
- Ah! Parece que vamos...quero dizer, vou ter aqui uma nova vizinha. O Saavedra vendeu o andar a uma senhora que vive sozinha e vai trabalhar para a agência de viagens da Maria Helena – informou o Zé.
- Sim? Ainda não me tinha apercebido de nada. Mas o senhor anda muito bem informado! – ironizou a Rosa.
- Sabe como é! Não trabalho, tenho mais tempo para coscuvilhar – e riu-se, o patrão.
- E é nova ou velha? – quis matar a curiosidade a mulher.
- Eu diria que é mulher para os seus trinta e tal. E nasceu em Luanda.
- Ah! Mas é preta? – picou a mulher.
- Ó Rosa! Não me diga que é racista! – retorquiu o Novais.
- Não, senhor Novais. Sabe que não! Estava a brincar! – corrigiu apressadamente a mulher.
- Daqui a uns dias já a vai conhecer. Depois dá-me o seu parecer. Agora vou lá dentro acabar de me arranjar.
E pouco depois o José Novais saiu, saudando a Rosa como de costume.
Esta, contudo, não ficou muito satisfeita com a novidade. E deixou escapar, mesmo em voz alta:
- E o raio do homem pareceu-me interessado na gaja. São todos iguais. Tantos piropos me faz e, se calhar, já anda a fazer rapa pé à outra.

Os dias seguintes passaram-se ao ritmo que já se ía tornando rotineiro.
Todas as manhãs o Zé dizia uns piropos à empregada, que se mostrava sempre pronta para responder à letra, ou melhor, dar a entender que não se importava nada de ir viver para casa do Zé. Claro que o viúvo percebia isso muito bem, mas não se queria precipitar.

No sábado de manhã, pelas dez e tal, estava a arranjar-se para mais um encontro bilharístico com o João, quando ouviu a campaínha da porta a soar. Espreitou pelo olho mágico e pareceu-lhe reconhecer a Maria Cristina. Compôs-se e abriu a porta.
- Bom dia, senhor Novais! – disse a vizinha.
- Olá, bom dia! – respondeu o Zé e logo perguntou – precisa de alguma coisa?
- Agora não! Mas amanhã estaria disponível para me ajudar a fazer as ligações da máquina de lavar roupa e mais umas coisinhas? – perguntou.
- Amanhã? Amanhã é domingo. Pode contar comigo. Falta saber se dou conta do recado – disponibilizou-se ele.
- Claro que dá! Depois eu arranjo-lhe uns descontos especiais nas viagens que fizer – brincou ela.
- Sendo assim, a que horas precisa de mim? – quis saber, sorridente, o Zé.
- Da parte da tarde, se lhe der jeito; depois de almoço – disse descontraídamente a Maria Cristina.
- Muito bem! É hoje que vem a parte mais pesada das suas coisas, não é?
- Em princípio seria ontem. Mas eles disseram que lhes dava mais jeito ser hoje. Eu aceitei e, porque fiquei com menos tempo para as arrumações, vim pedir a sua ajuda. Chegaram agora mesmo. Eu acabei de subir e vou abrir-lhes a porta – explicou a jovem mulher.
- Ok! Estarei à espera que me chame amanhã à tarde. Não quer ajuda da parte da manhã? – perguntou com ar cândido o Zé.
- Não, muito obrigado. Acho que basta a tarde – disse ela.
E despediram-se.

No domingo, depois de ter almoçado fora e quando, sentado no sofá, estava quasi a adormecer, ouviu a campaínha.
- Aqui está ela – pensou.
Era, de facto, a Cristina.
- Boa tarde, senhor Novais – disse ela.
- Boa tarde! Estou pronto! Vamos lá, então? – disse o Zé enquanto saía e fechava a porta da sua habitação.
- Sabe que tenho as coisas muito mais adiantadas do que poderia pensar? Os homens das mudanças ajudaram-me muito. Se o cliente fosse macho não seriam tão solícitos, certamente. Tive de lhes dar uma boa gorjeta, claro, mas valeu a pena. Agora já não há muito para fazer. Anda com sorte, senhor Novais – e riu-se.
Entretanto entraram em casa dela.
As coisas estavam, de facto, razoavelmente arrumadas. Notou que faltavam os cortinas, ainda havia muita coisa para arrumar nas gavetas e gavetões, mas o Zé não ficou com dúvidas de que estava a lidar com uma mulher despachada.
- Então o que tem para eu fazer? – perguntou.
- Não se importa de colocar as lâmpadas? Os homens já colocaram os candeeiros quasi todos. Eu vou-lhe dizendo quais as que quero em cada caso, mas dê-me também a sua opinião. Sabe? Acho que lá para as cinco, cinco e meia vou parar. O que ficar por fazer acabo nos dois ou três próximos dias. Já estou cheia de tanta limpeza e arrumação. Quer vir jantar comigo? Num restaurante, claro, porque aqui não dá – discursou a Cristina.
- Se quiser, eu faço umas sandes e comemos em minha casa – sugeriu o Novais.
- Não é má ideia. Escuso de me arranjar. Tomo um banho e visto uma roupa ligeira – anuiu a mulher.
- Ah! Tenho uma ideia melhor! Posso mandar vir comida de fora. Que acha?
- Belíssimo! Tem boa imaginação, senhor Novais – disse a vizinha.
E a tarde passou-se sem grandes conversas. Sob o comando da mulher, eram cerca das cinco horas e tudo estava quasi pronto pois trabalharam quasi sem parar.
Daí a pouco o homem regressou a sua casa.
Tomou um banho e deitou-se um pouco a descansar. Teve o cuidado de acertar o rádio despertador para as sete. Tinha combinado com a Cristina que ela lhe tocaria à campaínha por volta das sete e meia.
Passavam uns dez minutos das sete e meia quando a campaínha tocou. O Zé, de jeans e uma camisa azul clara de manga curta, foi abrir a porta.
Apareceu-lhe uma Cristina com uns jeans muito justos, uma blusa branca, semi-transparente, sem soutien, deixando que uns mamilos hirtos se espetassem no fino tecido, o cabelo curto, molhado, todo penteado para trás, a pele morena, os olhos enormes e uma sensualidade que lhe saía por cada poro.
O homem até ficou embasbacado por instantes, mas lá se recompôs.
- Entre, Cristina! Está com um aspecto muito fresco – balbuciou.
- Obrigado! Espero que a sua casa não seja muito fria – disse.
- Se tiver frio arranja-se processo de a aquecer – disse o malandro do Zé.
- Obrigado pelo seu cuidado, mas referia-se a mim ou à casa? – provocou a mulher.

- A Cristina escolherá! – respondeu o Zé já meio desnorteado.
E mudou de assunto para se controlar melhor.
- Olhe! Vou ligar para o restaurante. Gosta de bacalhau gratinado? Eles fazem-no muito bem.
- Se me recomenda esse prato, confio no seu gosto! O senhor Novais como se chama?
- José Luís Novais! Pode tratar-me por Zé ou Zé Luís. E por tu, se quiser – disse o viúvo com uma visível satisfação estampada na face.
- Muito bem, Zé! Eu sou Maria Cristina Soares e também podes tratar-me por tu: Cristina ou Cris.

- Então vou telefonar, Cristina – disse ele dirigindo-se ao aparelho.
- Como se chama o restaurante? – perguntou ela.
- Mestre Albino. Só serve para fora. Um negócio da China! – esclareceu ele, solicito.
- Pois tu e a Lena é que vão ser os meus guias aqui na Maia – determinou ela,
- Com todo o gosto. Agora vou ligar.
Feita a encomenda ele sugeriu um Martini.

Ela aceitou. Ficou por momentos a apreciar o casal de canários.
- São tão giros! – disse a luandense.
Sentaram-se no sofá e ele não aguentou mais:
- Desculpa a indiscrição, mas tu tens uns trinta e poucos anos, calculo.
- Trinta e cinco. Fiz no dia vinte e oito de Julho.
- Eu sou bastante mais velho do que tu; faço cinquenta e nove no dia três de Fevereiro – disse ele.
- Eu sei! Mas gosto dos homens mais velhos. E tu és lindo com esses cabelos grisalhos. E elegante. Já tive várias relações e todas com homens mais velhos. Não tenho paciência para desmamar crianças.
- Sim? – foi a única coisa que o Zé conseguiu murmurar.
- Eu vou-te fazer um resumo da minha vida – disse a desinibida Cristina – não te levantes para não caíres redondo no chão.
E riu-se com gosto, enquanto o Zé esboçava um sorriso encabulado.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

O viúvo - parte VIII

Conforme estava combinado, Zé Luís e o João encontraram-se no café do costume para jogarem bilhar.
Depois da saudação, dos cimbalinos e das primeiras tacadas, que desta vez foram mais certeiras, disse o João:
- Hoje vais lá almoçar connosco, mas desta vez a refeição vai ser mais do que uma mísera omeleta e está a ser feita para três.
- Já que tanto insistes, não te posso dizer que não – disse, sorridente, o convidado.
E acrescentou:
- E depois de almoço ides a minha casa. É a altura de dar as jóias prometidas à tua mulher e de ela escolher as écharpes e o mais que queira. Depois vou ao cemitério. Já encomendei umas flores. O jazigo está limpo pois eu, durante a semana, mandei um fulano tratar disso, mas ficou muito pobrezinho.
- Se não te importares, nós podíamos ir contigo – alvitrou o João Manuel.
- Com certeza!
E continuou o Novais:
- Indo acompanhado não fico tão deprimido.
- E a Rosa tem aparecido? – perguntou o amigo.
- Ah, meu patife! – disse o José – queres tirar nabos da púcara! Tem calma! Só te digo que, depois de reparar bem, é uma mulher bastante interessante. Claro que precisa de um polimento.
- Muito bem! Estou a ver que seguiste o meu conselho – orgulhou-se o Pinto.
- Adiante! Na quarta-feira encontrei-me com uma fulana que conheci na Net. É uma simpatia mas, em vez de fazer tusa era capaz de funcionar ao contrário – e gargalhou.
- Então, nada feito, por esse lado – concluiu o João Manuel.
- Exactamente! – anuiu o Zé.
- Bom! Acabamos esta série e vamos para minha casa, valeu? – sugeriu o homem de S. Mamede.
- Ok!
Durante o almoço, e ao contrário do do sábado anterior, a conversa focou assuntos mais tristes que fizeram todos verter umas lágrimas.
Em casa do Novais, e sobretudo quando se mexeu nas coisas da defunta, houve novamente comoção e choro.
Mas, finalmente, a antiga professora primária Hermínia escolheu as écharpes e também uns lenços de mão e o viúvo seleccionou outros desses lenços.
Depois foi a ida a Agramonte e, novamente, dos olhos de todos brotaram gotas de saudade.
Quando regressou a casa, sozinho, o Zé estava derreado. Comeu uma sandes, bebeu um copo de leite e foi dormir.
O domingo não foi muito melhor. Foi almoçar ao Maia Shopping e foi ver uma comédia. Acabou por se rir e, assim, ficar mais bem disposto para ir a Santo Tirso, desta vez ao domingo pois no sábado não pudera.
Chegado a casa, a tristeza invadiu-o de novo. Deitou-se cedo mas, como tivesse dificuldade em adormecer, tomou um soporífero, fraco, mas suficiente para que dormisse tranquilamente toda a noite num só sono.

Segunda-feira, quinto dia de Setembro.
A manhã apresentava-se com uma neblina que podia prenunciar o fim dos dias mais quentes.
José Luís Novais acordou bem disposto novamente, lavou-se, vestiu-se e quando foi tomar o pequeno-almoço já a empregada estava a trabalhar.
- Bom dia, Rosa! – saudou o patrão.
- Bom dia, senhor Novais! – respondeu a mulher.
- Hoje já não vem tão vaporosa como nos dias mais quentes, que pena... – disse o galanteador.
- Hoje está uma manhã fresquinha. Mas pode ser que aqueça quando o nevoeiro desaparecer – previu a Rosa.
- Oh! Olha que merda! Entornei leite na roupa! – praguejou o Zé.
A Rosa acorreu solícita, olhou e disse:
- Isso limpa-se facilmente. O senhor Novais não se mexa que eu vou já tratar disso.
Pegou num pano seco e noutro húmido e começou a tratar da roupa do Novais.
Nunca antes tinham estado tão perto um do outro. A respiração da mulher tornou-se um pouco ofegante e o patrão, conforme ela lhe tocava no peito e sentia o seu cheiro fresco, percebeu que estava a ficar excitado. O leite derramado não caíra para as calças, o que talvez tenha evitado que os avanços tenham sido maiores e mais definitivos.
Terminada a limpeza, a roupa aparentava ter ficado impecável.
- Muito obrigado, Rosa! – disse ele.
- Não tem nada que agradecer. Não caiu muito leite. Foi fácil.
A mulher notou a protuberância nas calças do Zé, mas fez de conta que nada viu.
Não trocaram mais palavras nessa manhã.
Quando ía sair, o Zé perguntou:
- Não há lista para hoje, Rosa?
- Não senhor.
- Então até amanhã – despediu-se o homem.
- Até amanhã, senhor Novais.
- Ah! Já me esquecia – e parou, o Zé – já pode telefonar ao advogado de que lhe falei. Eu já o contactei a recomendar empenho no seu caso.
- Fico-lhe muito grata – disse a Rosa.
- Então até amanhã – e o Novais, finalmente, saiu.
Quando, por volta das três da tarde, José Luís Novais saiu do elevador no 2º piso, aquele em que se situava o seu apartamento, viu a Maria Cristina a fechar à chave a porta do apartamento que estava para venda.
- Olá, D. Cristina! Parece que a vou ter como vizinha – disse o homem.
- Olá, senhor Novais! Tem razão. Venho viver para aqui. Achei que era um flat adequado às minhas necessidades e não muito caro. E está em bom estado de conservação – esclareceu a morena.
- Mas ainda não está cá a viver, pois não? – perguntou, curioso, o Zé.
- Ainda não! Fiz o contrato-promessa esta manhã e paguei uma parte. Quando for feita a escritura pagarei o resto, mas o senhor autorizou-me a tomar desde já conta da habitação. Fiquei um bocadinho afanada de finanças, mas não recorri a crédito – disse orgulhosa.
- Ainda bem! – aplaudiu o José – assim fica livre de um compromisso mensal que, para muita gente, é bem pesado. E quando é que se muda?
- Durante estes dias vou trazendo as coisas mais leves no meu carro e vou contratar um transporte para me fazer a mudança das mobílias e electrodomésticos na sexta-feira...acho que é dia nove. Durante o fim-de-semana faço as arrumações principais e espero começar a trabalhar com a Maria Helena na segunda-feira – informou, com todo o rigor, a Maria Cristina.
- Se precisar de alguma coisa, eu posso ajudar. Sou reformado e vivo só, portanto... – prontificou-se, simpaticamente, o homem.
- Muito obrigado. E olhe que não me vou esquecer da sua oferta. Para certas coisas os homens dão muito jeito – disse a morena, despachadamente.
- E para outras são as mulheres quem o dão – respondeu na mesma moeda o Zé.
A vizinha sorriu, olhou-o com aqueles belíssimos olhos negros e despediu-se:
-Tem toda a razão! Mas agora tenho de sair para adiantar as coisas e, de hoje a oito dias, estar preparada para um tipo de trabalho que nunca fiz, mas deve ser aliciante.
- Teremos, com certeza, muito tempo para conversar – alvitrou o Zé.
- Seguramente. Vivendo sozinhos, ainda vamos ajudar-nos um ao outro, tenho a certeza. Então adeus! – disse, entrando para o elevador.
O Zé Novais ficou parado na área comum a recordar o que apreciara.
Maria Cristina era uma morena, não muito bonita, pois tinha um nariz talvez demasiado largo e um cabelo negro, muito curto e encaracolado que não seria esteticamente muito belo. Mas, em contrapartida, os seus 163 centímetros de altura e sessenta quilos de peso eram todos feitos de linhas curvas de uma sensualidade extrema. Um bom observador notava que tinha sangue africano a correr-lhe nas veias.
E foi essa sensualidade, o sorriso malandro, os lábios carnudos, os dentes muito brancos e alinhados e, sobretudo, o olhar fulminante que o deixaram perturbado. Mais do que quando a vira pela primeira vez na agência.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

O viúvo - parte VII

Na sexta-feira pela manhã acordou outra vez bem disposto. Não tinha nenhuma música no ouvido como na véspera, mas arranjou-se com mais cuidados que habitualmente. Afinal, dali a pouco a Rosinha estava lá em casa e apetecia-lhe causar boa impressão.
Ainda não eram nove horas e sentiu a porta a ser aberta.
- Ora aqui está a minha flor – pensou – e acho que tem poucos espinhos.
Foi preparar o pequeno-almoço para a cozinha:
- Bom dia, Rosa!
- Bom dia, senhor Novais! – respondeu ela – e olhe que está mesmo um sol que até dá gosto.
- O sol dá gosto, mas o quentinho dele também, quando não é demais, e a Rosa que está ainda mais parecida com uma rosa que de costume, também dá gosto – galanteou o Zé.
- Uma mulher tem de saber andar arranjada, não acha? – disse sem se desmanchar a empregada.
- Claro! Claro! Tem toda a razão! E a Rosa tem-me surpreendido favoravelmente – desabafou o homem.
- Acha, senhor Novais?
- Se acho! Parece mais uma patroa que uma empregada – disparou certeiro o viúvo.
- Quem sabe se ainda não hei-de ser patroa – respondeu com um sorriso malandro dirigido para o homem.
Este sentiu-se tocado e pensou rapidamente que talvez estivesse a andar depressa demais e a meter caraminholas na cabeça da mulher.
- Nunca se sabe! O mundo dá muita volta, não é? – respondeu um tanto encavacado – olhe! Tem a lista das compras a fazer?
- Está ali!
E a Rosa dirigiu-se a um móvel donde pegou num pequeno papel que entregou ao José.
- Muito obrigado! Não é muita coisa – disse ele passando os olhos pelo rol.
- E como é que estava a D. Josefina? – perguntou a mulher.
- Na mesma quanto à doença e ainda mais chorosa por causa da filha. Coitada! Gosto muito da velhota. Sempre foi muito minha amiga e eu dela. Custa-me vê-la agora! Normalmente estou lá meia hora, três quartos de hora, e é um tempo bastante penoso de passar – desabafou o Novais.
Entretanto lembrou-se da promessa que tinha feito à empregada:
- É verdade! Eu já lhe disse que podia escolher a roupa da minha mulher para si? – perguntou.
- Não senhor!
- Então é assim! A Rosa pode levar para si toda a roupa que quiser, menos as écharpes, pois a D. Mina virá cá escolher algumas para ela. Deixe-me ficar os lenços de assoar que eu quero guardar alguns para mim – esclareceu o viúvo.
- Mais uma vez, muito obrigado, senhor Novais!
- Já lhe disse que não tem nada que agradecer. É pura justiça. E além disso o seu corpo é como o da Margarida – disse o homem – e agora vou tratar da minha vida lá para fora e deixá-la para trabalhar à vontade.
- O senhor Novais não incomoda nada – insinuou-se a mulher.
- Vou lá dentro e depois saio – disse ele, fazendo-se despercebido.
E assim aconteceu.

Quando chegou a casa, por volta das duas e meia, telefonou ao João para combinarem uma bilharada para a manhã seguinte.
Depois pegou no “Jornal de Notícias”, que desta vez havia comprado com um objectivo especial, sentou-se na mesa da sala e começou a ler os anúncios classificados de Relax.
- Ora vamos lá ver o que há por estas bandas. Não sei se irei fazer uma visita a alguma destas gajas, mas pelo menos fico mais informado sobre o mercado – pensou, terminando por soltar uma pequena risada.
Dentre os inúmeros anúncios, entre os quais vários de travestis que o surpreenderam pela quantidade, anotou os tópicos dos três ou quatro que viu para serviços na Maia.
Acabou por seleccionar um, que dizia:

MAIA
Marlene
Loira – 22 anos
Mínimo – 20 bombons
De 2ª a 6ª
91 000 00 00

- Já não percebo isto muito bem – pensou – bombons são euros, não há dúvida. Mínimo quer dizer preço mínimo, com certeza, mas depois não está bem claro. Acho que vou telefonar para tirar dúvidas.
E riu-se como um adolescente.
Marcou o número e, do outro lado, atendeu uma voz de mulher jovem, meiga, que disse:
- Boa tarde! Deseja alguma coisa?
- Sim! É a Marlene?
- Sou!
- Olhe! Tenho à minha frente um anúncio que pôs no JN e eu gostava de saber o que é o mínimo – perguntou o intrigado Zé.
- Eu explico com muito gosto – disse a meretriz.
E continuou:
- Vinte euros é o mínimo que consiste em sexo oral e vaginal. Se pretender também anal são cinquenta euros. E uma segunda oportunidade fica por quarenta.
O Zé tomou nota num papel e perguntou:
- Que é isso de segunda oportunidade?
- É uma repetição do oral e vaginal – respondeu a rapariga.
- Ah! E onde é o local da acção? – quis saber o potencial cliente.
- Sabe onde são as Galerias do Visconde de Barreiros?
- Sim, sei, junto da Câmara!
- Quando cá chegar telefona-me que eu dou-lhe as indicações.
- Estou a ver que toma algumas cautelas.
- Tem de ser! Quer vir agora?
- Não! Estava só a pedir esclarecimentos. Mas talvez vá na segunda-feira – disfarçou o José – e a que horas pode ser?
- Das dez às vinte e duas, de segunda a sexta.
- Então muito obrigado e muito boa tarde – e o Zé desligou.
Finalmente desabafou:
- Ufa! Isto está bem montado e tem serviço variado.
Passou a limpo as anotações e exclamou em surdina:
- Ó Marlene! Acho que estás demasiado profissional. Não me deves apanhar! Mas é sempre bom ter um pronto-socorro em stand-by – e riu-se novamente.
Depois do telefonema foi para o sofá ler o jornal e fazer horas até ir ao ginásio gastar umas calorias.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Uma agradável surpresa

Peço desculpa por introduzir este post no meio da história d’ ”O viúvo”, mas não consegui resistir.

Em 19 de Julho do ano passado, coloquei on-line um post com o título “Sonhos e realidade”.
Em certo trecho, escrevi:
“Lembro-me de ter ouvido o meu professor de Filosofia do antigo sexto ano dos liceus, o já falecido Dr. Castanho Fortes, nas aulas de Psicologia dizer...”

De referir que o liceu em causa era o Alexandre Herculano, no Porto.

No passado dia 18, depois de abrir o Outlook para descarregar o correio electrónico (que tinha só 58 e-mails) no meu PC de casa, descobri uma interessante mensagem.
E querem saber o que dizia essa mensagem?
Pois aqui vai:
“Quero informar que o meu pai, o Dr. José Castanho Fortes não faleceu. Está reformado há quase 14 anos (desde 1992), por imperativos legais de idade e vive em Cascais”
Mas que agradável surpresa, heim?
Respondi à mensagem e recebi outra, que dizia a certo ponto:
“Antes de mais nada quero agradecer-lhe as suas palavras.
O meu pai fará 84 anos em Junho e procura manter-se activo.
Mora em Cascais depois de ter vivido alguns anos em São João do Estoril e ter sido professor e director do Liceu Nacional de Cascais.
Por causa da sinusite teve que deixar o Porto e vir para paragens não tão agressivas em termos climáticos”.

E digam lá se a Net não é uma coisa espantosa!

terça-feira, janeiro 17, 2006

O viúvo - parte VI

À hora aprazada da tarde de quarta-feira, lá estava o José Luís parado junto à porta do velho café, do lado de dentro, a tentar descobrir a Júlia. Não viu ninguém que se assemelhasse à descrição que ela havia feito de si mesma e à fotografia que lhe enviara e que não era muito recente. Resolveu sentar-se de forma a estar de frente para a entrada.
Passaram-se cinco, dez, quinze minutos.
Como tinha o número do telemóvel da professora, resolveu ligar-lhe. Antes de carregar na tecla de chamar, olhou para a porta e viu uma senhora que seria, provavelmente, a Júlia Campos.
Levantou-se e fez um discreto sinal com os dedos que ela viu. Imediatamente se dirigiu para a mesa do Novais.
Saudaram-se com um “olá”, deram um beijo e sentaram-se.
- Quero pedir-lhe mil perdões pelo atraso, José! – começou ela.
- De nada! – desculpou o homem – atrasos são coisas que acontecem a qualquer um.
- Muito obrigado pela sua compreensão – disse Júlia.
- Tua. Tua compreensão – corrigiu ele – acho que não seria mau tratarmo-nos por tu, como na Net.
- Evidentemente! Mas, como é a primeira vez que estamos frente a frente, isso provoca alguma intimidação. E o José é um bonito homem, deixe-me que lhe diga...te diga.
- Muito obrigado! – agradeceu ele – és muito simpática.
De facto, a mulher que estava diante dele era mais gorda do que a da fotografia e tinha um rosto marcado que a fazia parecer mais velha. Aparentava ter mais uns sete ou oito anos que os cinquenta e dois que referira. Mas ele continuou gentil:
- E as tuas filhas e o netinho, estão bem? – perguntou o Novais.
- A minha filha mais velha, a Maria do Céu, o marido e o meu Marquinhos estão para o Algarve. Mas penso que estão bem. A mais nova irá para lá quando os outros vieram e está óptima.
E a conversa prolongou-se por mais de uma hora. Mas o Zé Novais não conseguia sentir qualquer tipo de atracção pela senhora que era, no entanto, simpatiquíssima e boa conversadora. Mas a voz roufenha que ele já notara num ou dois telefonemas que lhe fizera anteriormente, agora ainda lhe parecia mais feia. E uma espécie de assobios que a senhora soltava, por vezes, deixavam adivinhar que era asmática.
Quando achou que já lhe dispensara o tempo suficiente, disse-lhe:
- Gostaria imenso de continuar aqui a conversar contigo, mas tenho ainda um assunto a tratar. Depois falamos no MSN.
- Está à vontade – disse ela – teremos muitas oportunidades de estar juntos.
- Claro! – afirmou.
Mas, para si mesmo, pensou:
- Está bem! Espera por essa! Nunca mais me hás-de pôr os olhos em cima.
E depois de mais uns salamaleques e um beijinho de despedida, o Zé afastou-se a pensar:
- Porra! Velha, feia, meia careca, gorda, asmática e ainda por cima com mau hálito. Mas que raio de azar! Já passaste à história, minha filha! Ai Margarida! Que falta tu me fazes! Deixaste-me só e ando eu agora aqui a fazer de D. Juan. Enfim! Mais valia ter ido ver a velhota a Santo Tirso. Mas ainda tenho tempo de ir ao ginásio. É uma maneira de despender energias, mas agora precisava era de dar uma valente queca! Ainda vou às putas! Ai, vou, vou!
Meteu-se no carro e conduziu, de mau humor, até à Maia.

No dia seguinte, o primeiro do mês de Setembro e quinta-feira, com mais uma manhã soalheira, acordou bem disposto. Tomou banho, arranjou-se, foi ver o correio ao computador e preparou o pequeno-almoço sempre a cantar uma musiqueta qualquer que se lhe pegara no ouvido ao despertar. Pelas nove horas entrou a Rosa.
- Bom dia, senhor Novais! – saudou a empregada.
- Bom dia, Rosa! – respondeu o viúvo rodando de forma a encarar a mulher de frente.
E, como continuava com a euforia matinal, não resistiu, e disse:
- Você está muito jeitosa, hoje. Quero dizer: está sempre, mas hoje está mais...Ah! Desculpe se a ofendi! – travou o Zé.
- Não, senhor Novais! Vejo que está bem disposto. Já não o via assim há muito tempo – elogiou a mulher.
- Pois! Aparece-me aqui em casa uma flor tão desabrochada que...Upa! Hoje parece que estou a tomar um pequeno-almoço de sopas de cavalo cansado – disse o Zé, arrepiando caminho de novo.
Mas, desta vez, a Rosa não pôde deixar de soltar uma sonora gargalhada.
- Mas gosto de o ver assim, senhor Novais. Não lhe faz bem andar a matutar muito nas coisas tão más que aconteceram – sentenciou a empregada.
- Pois é! Olhe, Rosa! Como lhe tinha dito, hoje vou ver a D. Josefina. Almoço por lá. Penso que não é preciso comprar nada de especial, pois não? – disse o Zé.
- Só se for alguma coisa para o jantar do senhor. Amanhã é que dava jeito trazer umas coisinhas; eu faço a lista e de manhã dou-lha – retorquiu a mulher.
- Muito bem! Ai Rosa, Rosa! Você é que me continua a valer. Se não fosse a Rosa que seria de mim? Bendita a hora em que veio trabalhar connosco – desabafou o homem.
Mas continuou:
- E o boxeur do seu marido já voltou para casa?
- Não voltou nem volta! Acabou de vez! – respondeu peremptoriamente a Rosa.
- Já não lhe devem faltar pretendentes para ocupar o lugar do António, não?
- Lá isso é verdade, senhor Novais! Mas tenho de ter muito cuidado para não cair noutra igual. E vou pedir o divórcio! – informou ela.
- Se precisar de advogado, eu conheço um que trata de muitos casos deste género – ofereceu o Novais.
- Agradecia muito!
- Então espere aqui que eu vou buscar o contacto e o endereço. Chama-se Fernando Brandão e tem um escritório aqui na Maia e outro no Porto. Mas primeiro deixe-me ser eu a ligar-lhe. Depois digo-lhe quando o deve fazer. Está bem? – disse o homem – vou então buscar os elementos.
Pouco depois regressou e entregou-lhe um papel manuscrito.
- Serve assim ou quer escrito com computador? – brincou o Zé Luís.
- Eu conheço bem a sua letra. É muito bonita – elogiou ela.
- E a sua? – perguntou o Novais.
- Sabe que eu só tenho o sexto ano de escolaridade! – começou a justificar-se a empregada.
- Eu sei! Mas quanto mais estudos se tem pior é a letra. Nunca ouviu falar na letra de médico? – questionou ele.
- Claro que sim! Acho que o senhor Novais tem razão, como sempre! – lisonjeou ela.
- Nem sempre, nem sempre! Isso é o Cavaco! – e riu-se.
E rematou:
- Bom! Agora vou deixá-la à vontade para trabalhar. Até amanhã! E apareça bonita como hoje – rasteirou o homem.
- Com certeza! – e a mulher conteve-se, ao ver que tinha caído na esparrela – quero dizer, até amanhã e, se puder ser, os meus cumprimentos à D. Josefina.
- Adeus, Rosa! Até amanhã – e fez-lhe um aceno com a mão ao que ela correspondeu.

Já ía no carro a caminho do lar quando disse para si mesmo:
- O sacana do João tinha razão! A Rosa tem pinta. Mas a tal Cristina também me picou como o caraças! O pior é que continuo a seco. Tenho de meter a caneta no tinteiro, senão qualquer dia nem escreve! Como dizia o outro: o exercício da função desenvolve o órgão; e vice-versa, digo eu.
E soltou uma gargalhada.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

O viúvo - parte V

O fim-de-semana foi penoso para o José Luís.
Embora tenha ido ao cinema e visto alguns programas na Televisão que lhe esconderam as memórias de Margarida, quando não tinha nada a distrair-lhe o espírito este afundava-se nas recordações.
Mas isto não era nada que não esperasse. Somente foi mais um alerta para que não se deixasse isolar do resto do mundo e procurasse convivência.
Na segunda-feira trocou umas impressões com a Rosa sobre os seus planos e as listas de compras. Mas olhou para ela de outra maneira. Começou a fazer uma criativa avaliação sobre como seria ela a viver com ele, na sua casa, na sua cama, no restaurante, a visitar amigos ou conhecidos, a receber. Mas essa análise iria demorar algum tempo, seguramente. E a mulher provavelmente precisaria de um bom polimento.
Um aspecto, no entanto, começou desde logo a ter uma nota positiva. A empregada estava vestida de forma muito vaporosa, dado que estávamos num cálido Agosto e ele apreciou, como nunca o tinha feito, os seios e as pernas bem desenhados.
- Nunca tinha reparado em como é tão boa! – pensou para consigo próprio.
Às sete da tarde foi a missa do sétimo dia. Mais um momento que não o ajudou nada a ultrapassar as lembranças da vida em comum. Valeu a conversa com as pessoas depois do acto religioso.

Os dias foram-se passando mais ou menos de acordo com o que tinha planeado. Alguns assuntos relacionados com o falecimento e heranças tiveram de ser tratados.
Passou a despender mais tempo na Internet. Era uma boa distracção e descobriu alguns sites que propiciavam o encontro de pessoas solitárias. Também começou a ter algumas conversas em canais de conversação.
Não tinha praticamente nenhuma experiência no assunto mas foi aprendendo, sobretudo com a ajuda da professora de português com cinquenta e dois anos, do Porto, Júlia Campos, divorciada, que conheceu num desses sites. Esta senhora foi muito simpática e, como já tinha algum tempo nessas andanças, ensinou rapidamente o Zé Luís a usar o MSN. E foram mantendo conversas quasi todos os dias.
Entretanto, na tarde do dia vinte e seis, sexta-feira, resolveu ir à agência de viagens com a qual tratava dos seus passeios turísticos com Margarida. O objectivo era obter uns catálogos para viagens na época baixa, no Outono e Inverno.
- Boa tarde! – disse ao entrar.
- Boa tarde, Sr. Novais – respondeu a proprietária.
Mas, ao reparar na indumentária preta de cliente, perguntou:
- Não me diga que a D. Margarida...
- É verdade! Faleceu no dia dezasseis – completou o José.
- As minhas condolências.
- Muito obrigado.
- Já se esperava, não era? Sabe que eu gostava muito da sua esposa – disse Maria Helena – era duma alegria contagiante.
- Toda a gente simpatizava com ela. E não merecia ter tido tanto sofrimento.
- Era muito nova...
- Tinha só cinquenta e oito anos. Foi muito cedo, é verdade – esclareceu o viúvo.
Maria Helena era uma simpatiquíssima mulher de trinta e nove anos, casada, de estatura baixa e gorducha.
- Desculpa, Cristina! – disse, voltando-se para uma morena com quem estava a conversar quando o Zé Luís entrou.
- Está à vontade! – respondeu a Cristina – e embora não conheça este senhor, não posso deixar de lamentar o sucedido. Peço desculpa por me intrometer, mas não pude deixar de ouvir a conversa – concluiu, voltando os seus olhos negros em direcção ao viúvo.
- Muito obrigado, minha senhora – respondeu este, não deixando de sentir qualquer coisa ao ouvir o tom de voz sensual da morena.
- Deixem-me que vos apresente – disse Maria Helena – este é o senhor José Novais, nosso cliente, e esta é a minha amiga Maria Cristina Soares que vem trabalhar comigo brevemente e que anda a procurar uma habitação aqui perto. Nasceu em Luanda, como eu.
- Muito prazer em conhecê-la – disse ele.
- Igualmente – respondeu ela.
- O senhor Novais não conhece por acaso um T2 para vender ou alugar para os seus lados? – inquiriu a Helena.
- Por acaso há um para venda mesmo ao lado do meu. Se estiver interessada em vê-lo, eu escrevo-lhe aqui o endereço e o contacto do antigo proprietário que já não o habita, aliás – informou o Zé.
- Claro que estou! Pode então dar-me esses elementos? – pediu a mulher da voz grave e sensual.
- Com certeza! Tenho aqui um cartão dos meus e vou escrever no verso – apressou-se o Zé a prestar a informação.
Feitas as anotações necessárias, entregou o cartão a Maria Cristina:
- Eis os elementos de que precisa.
- Muito obrigado pela sua gentileza – agradeceu a Cristina, fulminando o reformado com um olhar como ele raramente vira.
- Mas afinal o que trouxe aqui o senhor Novais? – interveio a dona da agência.
- Vinha ver se já tinha catálogos de viagens para a época baixa – disse o Zé – para a Europa, só.
- Tenho aqui dois que pode levar para casa e analisar à vontade – disse, entregando-lhos.
- E estes tem programas para os países de leste? – quis ele saber.
- Tem, tem! Pode pedir-me mais esclarecimentos ou tirar dúvidas quando quiser – disponibilizou-se a Helena – já sabe que eu estou sempre aqui para o ajudar.
- Verdade absoluta! – comentou o homem, sorrindo.
E continuou:
- Bom! Vou-me retirando e deixando-as à vontade.
- É sempre um prazer ter a sua visita. Embora neste caso... – disse a proprietária.
- Prazer em vê-la Maria Helena. Cumprimentos ao marido. E também foi um prazer conhecê-la, dona Cristina – despediu-se o Zé Luís.
- O prazer foi todo meu! E ainda me prestou um favor. Lamento, de novo, o falecimento da sua esposa.
- Ó Maria Helena! E aqui a D Cristina quando é que começa a trabalhar aqui? – perguntou, curioso, o Zé.
- Na segunda-feira já começa a aprender o negócio. E quando tiver habitação aqui na Maia entra em pleno – explicou a Helena.
- Obrigado, mais uma vez! Então tenham um bom resto de dia. Adeus! – despediu-se e saiu, o Novais.
E as amigas continuaram a conversar.


Durante essa noite e no fim-de-semana, dentre as muitas coisas que fez, incluindo a visita à sogra que continuava sem aparentar melhoras, merecem relevo as várias e animadas conversas que manteve com a professora Júlia. E acabaram mesmo a combinar um encontro para a tarde da quarta-feira seguinte, no café Aviz, no Porto.
O José Luís Novais não iria morrer de inanição, seguramente!

terça-feira, janeiro 10, 2006

O viúvo - parte IV

Na manhã de sábado, dia quente de Agosto, José Luís dirigiu-se a pé até um café da zona onde muitas vezes, sobretudo nesse dia da semana, se encontrava com o João Manuel para jogarem bilhar. Bilhar livre. O “snooker” era jogo de aprendizes, costumava dizer.
Chegou por volta das onze, tomou um cimbalino e foi ensaiando umas tacadas. Pouco depois chegou o Pinto.
- Então Zé? Como estás? – perguntou logo que se aproximou do viúvo.
- Bem! Quero dizer, vai-se sobrevivendo! É tudo muito recente e isto parece-me ainda um sonho – desabafou o homem com calça e T-shirt pretas.
- Olha! Queres vir almoçar lá a casa? – convidou o João.
- Sou capaz de aceitar – respondeu o José.
- Então vou já ligar para a Mina. Mas acho que não há problema em termos mais um comensal.
Pouco depois, veio a resposta:
- Não há problema! Vais comer umas omeletas de fiambre ou queijo ou mesmo de camarão. Serve?
- Ó João! E achas que eu me ía pôr com esquisitices? – sorriu o Novais.
E continuou:
- Por acaso quero falar com a Mina e depois também gostava de saber a tua opinião sobre umas coisas em que estive a matutar ontem, depois de vir do lar.
- Ah! É verdade! E a velhota? – perguntou o amigo de São Mamede.
- Foi chocante e doloroso. Tu imaginas!
- Claro! Estes últimos dias também tem sido tramados – ajuizou o João.
- Hoje não estou a dar uma tacada de jeito. Três ou quatro carambolas cada uma. Acho que nunca joguei tão mal – lamentou-se o Zé Novais.
- Eu também! Não estamos concentrados no jogo. Mas sobre que querias falar comigo? – disse o amigo.
- É uma conversa para termos os dois sozinhos, depois de almoço. Podemos andar um bocado a pé e em digo-te. Mas trata-se de questões do foro íntimo.
- Estou à tua disposição para ajudar no que puder. Mas em coisas que envolvam a privacidade é mais complicado! – acautelou-se o João Manuel Pinto.
- Não é nada! Mas depois falamos.
Pouco tempo decorrido, e considerando que o jogo estava a sair muito mal aos dois, resolveram positivamente pousar o taco e rumar à vila no extremo nascente do concelho de Matosinhos.
Uma vez chegados a casa do casal, o Zé Novais disse a Mina o que tinha decidido em relação às roupas da falecida.
- Acho bem! – concordou a dona da casa – mas eu gostava de ficar com duas ou três écharpes da Guida.
- Mas vais ficar com outra coisa, também – disse o viúvo – quero dar-te aquele colar de prata e o broche que emparelha com ele.
- Agradeço-te Zé! Sei que são jóias valiosas mas, sinceramente, o valor estimativo é o mais importante – retorquiu ela.
- Eu sei! Por isso tos ofereço. E digo-te mais: foi ela quem me disse para o fazer.
- A nossa Guidinha? – perguntou sensibilizada a amiga – aceito com muito gosto, mas muita mágoa, também.
- E também vais ficar com o colar de pérolas – prometeu o Zé.
E concluiu:
- Afinal a quem havia de dar estas coisas? Mas algumas ficam comigo. E vou dar aquela pulseira em ouro à minha cunhada.
- Muito obrigado, Zé. Olha! Agora vou preparar o almoço. É coisa leve e barata. Queres uns camarõezitos na omeleta? – perguntou Mina.
- Ó rapariga! Então isso é pergunta que se faça?
- Até já! – e a mulher afastou-se em direcção à cozinha.
Terminada a refeição, em que se falou de vários assuntos mas se evitaram os temas mais dolorosos, os dois amigos foram dar uma volta a pé.
Pouco depois de terem saído da pequena mas simpática vivenda onde haviam tomado a refeição, o José Luís começou:
- Sabes, João? Já planeei como vou passar os dias, quero dizer, os dias comuns. Mas há duas questões sobre as quais gostaria de ouvir a tua opinião.
- Por mim, sou todo ouvidos! – prontificou-se o amigo.
- Uma é o isolamento, a solidão de viver sem ninguém para conversar em casa, para me socorrer em caso de indisposição ou doença. Não poderei ficar a viver sozinho muito tempo. Já nos tempos de casado, muitas vezes disse à Margarida que, se ela fosse primeiro, podia ter a certeza que arranjava outra logo a seguir. Nunca pensei que essa situação se tornasse real. Sempre admiti como quasi certo que morreria antes dela. Mas não conheço ninguém disponível.
Conheci algumas senhoras na Internet, sobretudo nos blogs, mas a maior parte são de longe e, nos últimos tempos, nem tenho andado muito na rede.
- Pois! É um assunto...
- Desculpa, pá! Deixa-me expor tudo e depois comentas, está bem? – interrompeu o viúvo.
- Certíssimo! Continua – concordou o João Pinto.
- A outra é a questão sexual enquanto não arranjar uma nova parceira. Se arranjar, bem entendido. Passei quatro meses sem relações e sem carinhos, e embora não seja um jovem, ainda tenho as minhas necessidades.
A Rosa era uma boa saída, pensei. Mas ela provavelmente quereria mais do que umas quecas avulsas. E agora, estando sem homem, provavelmente não deixaria fugir a oportunidade para me apanhar e fazer de mim o pilar para se agarrar no futuro.
Há sempre a solução de recorrer aos serviços de uma prostituta. Com preservativo não haveria problemas, e não surgiriam certamente conflitos de afectos ou interesses materiais pelo meio. Seria uma solução provisória, naturalmente – terminou o Zé Luís a sua exposição.
- É complicado opinar sobre essas matérias – começou o João a falar.
E continuou:
- Sobre a primeira questão, e elas acabam por estar ligadas, acho que de facto precisas de uma parceira. Falaste em conhecimentos da Net. Porque não? Há sites de procuras de parceiros e podes conhecer aí pessoas daqui da zona, e não só, e marcar encontros. Depois verás se alguma te atrai em particular. Mas agora deixa-me dizer-te uma coisa: estás a considerar a Rosa só numa perspectiva de mulher para dar umas quecas. Eu consideraria a possibilidade de ela poder integrar o lote das futuras parceiras.
- Sim? Vou pensar nisso! – cogitou o Zé.
- Em relação à segunda questão, não vejo problema nenhum em ires às putas. E riu-se de forma tal que contagiou o amigo.
- Em resumo: Procurar uma parceira na Net e não só, evidentemente, e considerar a possibilidade da Rosa. E no período de transição aproveitar o que vier à rede e, se necessário, utilizar os serviços de uma profissional. E se eu me apaixono por ela? – e agora foi a vez do Zé se começar a rir.
- Não te rias muito que não serias o primeiro nem o último – fez notar o amigo também a rir-se.
Pararam.
- Vamos para trás? – sugeriu o Zé.
- Pode ser – aquiesceu o amigo
Não estavam muito longe de casa pois, durante a conversa, o passo tinha sido lento e, de vez em quando, tinham estacado instintivamente para expor melhor as ideias.

sábado, janeiro 07, 2006

O viúvo - parte III

Depois da conversa com a empregada Rosa, José Luís Novais arranjou-se e foi ao café. Comprou e leu um pouco do Expresso e voltou a casa para pegar no Peugeot 307 e ir dar a má nova à sogra.
Almoçaria algures. Talvez em Santo Tirso.
Eram cerca das duas e meia quando estacionou junto do lar onde se encontrava interna a D. Josefina Cunha, agora com setenta e nove anos de idade.
Casara aos vinte e seis com o bancário Fernando Dias de trinta e dois anos. Cerca de um ano e meio depois nasceu a única filha do casal, a agora falecida Margarida. Foi sempre doméstica. E mesmo depois da morte prematura do marido aos quarenta e cinco anos, quando a Guidinha, como chamavam à filha, tinha onze anos, conseguiu sobreviver graças à pensão de viuvez, a algum dinheiro que o Fernando havia herdado e gerido com rigor e ainda a alguns tipo de doces e bolos que confeccionava em casa e vendia a duas ou três pastelarias.
Era alegre e de bom trato. A filha puxara a ela.
Em Maio de 2004 teve a trombose cerebral que a deixou paralisada do lado direito e sem fala. Em Abril do ano seguinte, e devido à grave doença da filha, anuiu a ser internada no lar à porta do qual estava agora o seu genro.
Este, trajando de preto, sabia que mal ela o visse assim vestido ficaria a saber que perdera a sua filha tão querida. Subiu uns degraus devagar e anunciou ao porteiro que vinha visitar a D. Josefina Cunha.
- Um momento, por favor! – pediu.
Depois de trocar algumas palavras ao telefone com alguém, disse:
- A senhora está no quarto.
- Muito obrigado – agradeceu o viúvo.
E caminhou lentamente até ao aposento. Bateu levemente com os dedos na porta mas não obteve resposta. Repetiu a batida com um pouco mais de força mas o resultado foi o mesmo.
Com cuidado e lentamente, para fazer pouco barulho, abriu a porta e entrou. A velha senhora estava sentada num sofá, numa semi-obscuridade, dormindo. Devagar, subiu a persiana para iluminar o quarto, simples mas com o essencial, e limpo.
A D. Fina continuava a dormir. Tossiu perto do ouvido ao mesmo tempo que lhe afagava a mão esquerda e os cabelos muito brancos.
Finalmente a sogra abriu os olhos. Zé Luís, propositadamente, colocou-se diante dela, bem iluminado pela luz que penetrava pela janela e disse:
- Está a ver a roupa que tenho vestida, não está?
A doente fixou-o durante uns segundos, e os seus olhos como que deram um grito de dor antes de começarem a verter lágrimas.
O genro abraçou-a e assim estiveram durante algum tempo, até que o Novais falou:
- Aconteceu na terça-feira de manhã. O funeral foi na quarta depois de almoço para Agramonte. Ontem estive a tratar de vários assuntos burocráticos e a descansar. Não quis que a senhora soubesse por outras pessoas mas por mim, pessoalmente. Por isso não telefonei a dizer nada.
A Josefina olhou para ele com ar condescendente e apertou-lhe a mão com toda a força que podia.
Olhar para aquela mulher, velha, doente, a quem tinha acabado de morrer a única filha e que não conseguia exteriorizar a sua dor senão com um ruído quasi inaudível, movimentando a cabeça e a mão esquerda mas sobretudo com os olhos, era pungente. Nunca a expressão “os olhos são o espelho da alma” fora tão adequada.
Zé Novais ficou a fazer companhia à sogra durante cerca de uma hora. Contou-lhe alguns pormenores e omitiu outros. Mentiu muito quanto ao sofrimento da Guida durante as últimas semanas.
A anciã ainda tentou por várias vezes escrever num bloco-notas com a mão que funcionava, mas só saíram uns gatafunhos não perceptíveis pelo Zé.
Finalmente, o viúvo deixou o quarto e a mãe da sua mulher com um olhar vitrificado pregado nele.
No átrio interior, pediu para falar com a D. Luísa, uma das responsáveis pelo lar, a quem contou o sucedido e pediu uma maior atenção à familiar nos tempos mais próximos.
Quando chegou cá fora, pensou em voz alta:
- Coitada! Também não vai durar muito.

Depois de chegar a casa, pôs-se à vontade pois não tencionava voltar a sair.
Telefonou ao amigo João Manuel para combinar uma bilharada na manhã seguinte.
Depois sentou-se a pensar.
E começou a planear como seriam os seus dias normais.
Continuaria a levantar-se pelas oito horas, todas as manhãs. Tomaria banho, depois o pequeno-almoço e estaria um pouco no computador. Quando estivesse inspirado escreveria, ou para o seu “site”, ou a crónica semanal para o jornaleco da terra.
Depois saíria por volta das dez e meia ou onze e iria até ao café e fazer umas compras. A Rosa, que estaria lá todos os dias das nove às onze, poderia auxiliá-lo a fazer uma lista diária de produtos a adquirir. E tinha alguém com quem falar um pouco. Era importante falar, conviver, não se deixar ficar no isolamento de um buraco.
Almoçaria fora.
A tarde seria dedicada a andar um pouco a pé, se o tempo estivesse favorável, a ouvir música, a ler, ir outra vez ao computador, dormir um pouco se tivesse vontade, tomar um copo de leite e umas bolachas como merenda, jantar uma refeição muito ligeira, com saladas e fruta como elementos base, e depois alguma coisa que tivesse comprado de manhã: uns rissóis, ou croquetes, ou bolos de bacalhau, ou bola de carne, ou croissants com fiambre, enfim, o que viesse à cabeça.
Iria também manter o hábito de ir ao ginásio às segundas, quartas e sextas, ao fim da tarde.
À noite veria o telejornal, e depois seria um pouco ao acaso: vídeo ou DVD, televisão, música, leitura, ida ao café, ao cinema ou a casa de algum amigo, recepção de algum outro, computador, ou mesmo deitar-se mais cedo.
Este seria o seu programa base de vida. Depois haveriam as variantes, mas essas ficavam mais ao sabor do imprevisto.
Também iria ver a sogra duas vezes por semana. Em princípio, aos sábados ou domingos e às quartas. E telefonaria todos os outros dias.
Mas duas coisas o preocupavam mais que as outras:
Uma era o isolamento, a solidão de viver sem ninguém para conversar em casa, para o socorrer em caso de indisposição ou doença. Não poderia ficar a viver muito tempo sozinho.
A outra era a questão sexual enquanto não arranjasse uma nova parceira, se arranjasse.
E assim chegou a hora de comer qualquer coisa.
No dia seguinte, sábado, falaria com o amigo sobre isso.

terça-feira, janeiro 03, 2006

O viúvo - parte II

Eram cerca das nove da manhã quando tocou a campaínha.
Zé Luís já estava a pé, embora ainda não se tivesse arranjado.
Ao princípio da noite anterior tinha telefonado a Rosa para ela aparecer no apartamento por volta das nove horas. Fora ela, seguramente, quem tocara. Embora tivesse chave, talvez porque não quisesse entrar sem ter a certeza que o patrão estava em condições de a receber, optou por fazer soar a campaínha.
O José vestiu o roupão, compôs o cabelo e foi abrir a porta:
- Bom dia, Rosa! – disse.
- Bom dia, senhor Novais! – respondeu a empregada.
- Entre para a sala, por favor – indicou o dono da casa.

Rosa era uma mulher com quarenta anos, com uma constituição semelhante à da falecida Margarida. Tinha uma cara bonita e bem arranjada. O mesmo acontecia com os cabelos castanhos, da cor dos olhos, ondulados.
Tinha feito o sexto ano de escolaridade e lia e escrevia com muito poucos erros.
Era casada com um sujeito de má catadura. O António, que já fora toxicodependente, ganhara contudo o vício do álcool e, não poucas vezes, dava uns tabefes na mulher. Mas como era baixo, franzino e mais velho dez anos, ela defendia-se bem! Trabalhava como empregado de mesa em cafés, mas perdia o emprego inúmeras vezes devido a problemas de etilização.
Casara com ele porque ficara grávida de uma menina que, agora com vinte anos, estava a viver no Canadá com o marido.
Trabalhava para os Novais há cerca de três anos.
Quando a Margarida adoeceu, verificando que as duas horas de trabalho diário não eram suficientes, perguntou quanto tempo precisariam dela diariamente. Entendeu-se que, além dessas duas horas da manhã, ela faria mais duas à tarde e uma à noite. Para isso teve de se despedir de uma outra casa onde também fazia serviço doméstico. Estas várias idas diárias a casa do Zé Luís eram facilitadas pelo facto de ela morar bastante perto.

Uma vez na sala, Zé Luís disse à empregada para se sentar, tendo ele feito o mesmo.
- Rosa! – começou – em primeiro lugar quero agradecer-lhe todo o esforço que fez durante estes quatro meses para que esta casa se mantivesse limpa e a minha mulher tivesse um fim com a maior dignidade possível.
- Não fiz mais do que a minha obrigação, pois os senhores pagavam-me para isso – respondeu ela.
- Fez! Fez! – contrariou o viúvo – você ficou muitas vezes aqui mais tempo do que o contratado e fez o seu trabalho junto da Margarida com a dedicação e o carinho de uma enfermeira. Portanto, fez mais do que a sua obrigação.
E continuou:
- Por isso, vou-lhe dar uma compensação.
Levantou-se, pegou num livro de cheques e numa esferográfica e preencheu um deles, entregando-o de seguida à mulher.
- Mas, senhor Novais... – disse e, depois de olhar para o valor, acrescentou – tanto dinheiro! Acho que é demais.
- O dinheiro é meu e eu é que sei quanto a Rosa merece. Espero que não o mostre ao seu homem, senão é mal aplicado, como sabe melhor que eu.
- Muito obrigado, senhor Novais – agradeceu a mulher um pouco perturbada.
- Eu vou falar com os meus amigos de S. Mamede, mas parece-me que não conheço ninguém com um corpo parecido com o da minha mulher, além de si. Portanto, poderá ficar com a roupa dela de que goste mais. A que não quiser entregarei a uma instituição de caridade. Mas deixe-me falar com a D. Mina, primeiro.
- O senhor Novais sempre foi meu amigo. Mas isto é demais. Até me sinto envergonhada.
- Ora! Sabe que faço isto sem segundas intenções. É uma decisão que tomei e que me parece correcta.
E, mudando de assunto:
- Agora queria combinar consigo um horário para continuar a vir fazer os trabalhos que executava cá em casa, mais os da minha mulher. Excepto cozinhar, claro.
- Antes de combinarmos isso, gostaria de lhe dizer uma coisa que ainda não sabe – disse a Rosa, já com um tom rosáceo intenso na face.
- Sim? Diga à vontade – sossegou-a o viúvo.
- Eu pus o meu homem, o António, na rua. Quer dizer: ele foi viver com um irmão – revelou a empregada.
- Muito me conta!
- Eu já estava farta dele e das bebedeiras e da pancada que ele me dava – esclareceu a mulher.
- Lamentável o comportamento dele. Só me admiro como aguentou tanto tempo a situação – opinou o Zé Luís.
- Faltava-me a coragem para tomar uma atitude. Mas há umas três semanas, já a senhora estava muito mal, e depois de me ter dado duas bofetadas, disse-lhe que no dia seguinte ou iria embora ou eu faria queixa à Polícia e chamava os da SIC ou da TVI para todo o mundo ficar a saber quem ele era. O facto é que resultou. No dia seguinte, ainda se desculpou, como de costume. Chorou, mas eu fui implacável. Tinha de acabar com aquilo de uma vez por todas – contou a Rosa.
- Eu não tenho nada a ver com a sua vida particular mas, se me permite uma opinião, acho que fez muito bem – comentou o Zé.
E continuou:
- Agora também está sozinha, como eu. Mas vamos então combinar o seu horário? Qual o tempo que acha necessário?
- Eu dantes vinha todos os dias das nove às onze. Posso continuar com esse tempo.
- Muito bem! E para fazer os trabalhos da minha mulher?
- Agora é só uma pessoa. Acho que basta vir dois dias por semana das duas às quatro. Pode ser às terças e quintas – alvitrou a Rosa.
- Por mim está bem. Portanto seriam catorze horas. Dantes eram dez por semana – resumiu o Novais.
- Se se verificar que é preciso fazer alguma alteração, depois falamos – disse a empregada.
- Muito bem! Pode começar já na segunda-feira? – perguntou o patrão.
- Sim, senhor Novais.
- Pronto, Rosa! Você tem a chave de casa, não tem?
- Tenho, sim – respondeu a mulher.
- Depois eu falo-lhe na questão da roupa da minha mulher – relembrou o Zé Luís enquanto se levantava.
Ela levantou-se também e estendeu a mão ao viúvo.
- Muito obrigado por tudo, senhor Novais.
- Vá lá! Vá lá! Eu é que lhe estou muito grato – rematou o homem.
A empregada saiu e o José Luís Novais não pode deixar de comentar para com os seus botões:
- Interessante, esta mulher!

domingo, janeiro 01, 2006

O viúvo - parte I

José Luís estava sentado num confortável sofá da sala do seu apartamento de três assoalhadas, na Maia, a pensar como tinham sido complicados os últimos quinze meses.
Depois de muitos anos de uma vida com qualidade, a sogra tivera um acidente vascular cerebral que a deixara paralisada do lado direito e praticamente sem voz. Ele e a mulher, Margarida, ambos reformados, passaram a ter que carregar com o trabalho de dar assistência à D. Josefina que, na altura da eclosão da doença, tinha setenta e sete anos.
Mas bem pior fora o mal que, em quatro meses, fizera com que a sua companheira durante trinta e quatro magníficos anos fosse consumida progressiva e velozmente por uma neoplasia gástrica.
O som da campaínha fê-lo parar com o visionamento do filme maldito e levantar-se para abrir a porta ao seu grande amigo.
- Como estás hoje, Zé? – perguntou o João Manuel enquanto entrava e dava uma amistosa palmada na face do anfitrião.
- Não muito bem! – respondeu o Zé Luís – ainda bem que vieste; a solidão conduz-me para pensamentos depressivos.
E esfregou com a mão a parte superior da cabeça sem pêlos do amigo, como gostava de fazer. Só nas têmporas e na nuca havia cabelos. Muito brancos, diga-se.
- É tudo muito fresco! – interveio o amigo – e eu percebo bem como uma companhia é fundamental nestes momentos. A Rosa não está cá?
- Não! Disse-lhe para não vir hoje à tarde – esclareceu o José – ela foi espectacular durante estes quatro meses. Merece um fim-de-semana mais prolongado para descansar e tratar das coisas dela.
- Totalmente de acordo! Foi de uma dedicação maternal. Tiveram uma sorte tremenda com a empregada que arranjaram – comentou o João Manuel.
- Tenho de a recompensar. Mas tu e a Mina também fostes uma presença importantíssima – elogiou o viúvo.
- Vocês precisavam de ajuda. Nós tínhamos tempo e vontade de apoiar. Afinal para que servem os amigos? – justificou o João.
- Mas vocês excederam-se! – afirmou, peremptório, o Zé Luís.
- Deixa! – tentou desviar o assunto o visitante – dormiste bem?
- Tomei umas pastilhas e dormi optimamente. Mas não deixo de pensar no sofrimento porque passou aquela mulher tão boa e sempre tão alegre. Cheguei a pensar em pedir uma eutanásia, mas não tive coragem de fazer a proposta ao Dr. Macedo. Sei que ele é católico e, portanto, nunca iria aceitar ser actor numa cena dessas – confessou o homem todo vestido de negro.
- Tu chegaste a abordar o assunto comigo e eu disse-te isso mesmo – corroborou o velho colega bancário – não queres vir tomar um café para espairecer?
- Dizes bem! – anuiu o Zé enquanto olhava o relógio – vamos a pé.
- Claro! – apoiou o amigo – apesar de estarmos em Agosto, a temperatura está amena.
- Faz bem à alma caminhar e conversar um pouco.
- Ah! E já informaste a tua sogra do que aconteceu? – interrogou o visitante.
- Ainda não! Quero fazê-lo pessoalmente e anteontem foi o passamento e ontem o funeral. Hoje não estava com disposição para isso. Acho que irei lá amanhã.
E os dois saíram não sem que antes o dono da casa desse uma olhadela à gaiola com os dois canários cujo canto muito gostava de ouvir.

José Luís Novais era um homem de cinquenta e oito anos. Com 1,70 metros e 72 quilos de peso, abundante e bem penteado cabelo grisalho já bastante claro, depois de completar o 7º ano dos liceus fora cumprir o serviço militar para Luanda de onde regressara em finais de 1969. Rapidamente arranjou um lugar como bancário no Porto, sua terra natal. Aí conheceu uma colega poucos meses mais nova, Margarida Cunha Dias, jovial e dinâmica, com 1,58 metros de estatura e que, embora um pouco anafada, tinha uma silhueta muito agradável. Aloirada e com uns belos olhos azuis, fazia-se notar pela sua alegria e bom humor constantes. No Verão de 1971 casaram. Nunca tiveram filhos, o que lhes facilitou uma boa vida e bastantes viagens turísticas.

Zé passava o tempo no ginásio, dando longas caminhadas a pé, ouvindo música, lendo jornais e algumas obras literárias, na Internet, onde tinha um blog, e escrevia umas crónicas semanais para um pequeno jornal local.
Guida era filha única, mas Zé Luís tinha um irmão quatro anos mais velho que, quando estudava Letras em Coimbra conheceu aquela que mais tarde viria a ser sua mulher. Maria Fernanda e Manuel João formaram um casal de professores e viveram sempre na cidade do Mondego. Os seus dois filhos já são hoje homens casados.
Quando tinham cinquenta anos de idade, ambos os membros do casal de bancários foram convidados a ir para uma situação de pré-reforma.

O mesmo aconteceu com o grande amigo e colega de ambos, João Manuel Pinto, dois anos mais velho, alto de 1,75 metros e magro, e que constituía com a mulher, Hermínia Magalhães, com menos três anos que o marido e professora primária, os grandes parceiros do casal originário do Porto mas vivendo no T2 da Maia.
Mina tinha 1,65 metros e era magra; fora loira, mas agora os cabelos eram todos brancos e sem pintura, curtos e sempre bem penteados. Mantinha os belos olhos azuis. João e Mina tinham três filhos, Paulo, Sofia e Susana, já casados e que lhes deram, até ao momento, três netos.
Vivem em S. Mamede de Infesta, relativamente próximo, portanto.

De regresso ao apartamento de Zé Luís, os velhos companheiros prosseguiram a longa conversa que tinham mantido mas, por condução do João, falando o menos possível dos tempos tristes. João Manuel sabia que o amigo, sem mulher, sem filhos, sem pais, com o irmão longe e a sogra num lar na zona de Santo Tirso, precisava como nunca de companhia.
- Ó Zé! Vou telefonar à Mina e dizer que vais lá jantar connosco – convidou o João.
- Ó pá! Já vos dei maçadas mais que suficientes. Há um limite para tudo. Vocês precisam de descansar. Eu vou ali fora comer uma coisa ligeira e depois venho fazer aqui umas pequenas arrumações. Tomo o comprimido e adormeço como um anjinho papudo – disse, bem disposto, o Zé.
- E não vais cair em melancolia?
- Não! Estando com a cabeça ocupada não há problema. E sabes muito bem que já estava preparado para isto. Quando a morte é súbita exerce uma acção muito mais violenta nas pessoas queridas.
- Tu é que sabes! Mas nós teremos muito prazer na tua companhia – concluiu o visitante.
- Amanhã à tarde vou falar com a minha sogra e vou agora chamar a Rosa para vir cá de manhã para combinarmos as coisas para o futuro. E dar-lhe um dinheiro extra.
- É altura de a D. Josefina saber a verdade. Mas ela já está
bem preparada para este desfecho – sentenciou o João Manuel.
- Sim! Mas dizer a alguém que a filha morreu é sempre uma tarefa complicada e bem pior deverá ser ouvir isso – disse, pensativo, o recém-viúvo.
- Já estudaste a forma de abordar o assunto? – perguntou, curioso, o João.
- Já defini a forma de abordagem. Depois, improviso. Não vale a pena preparar as coisas com muita minúcia porque acaba por sair tudo ao contrário – disse, sorrindo.
- Isso é verdade! – corroborou o outro – olha, então vou andando.
- Quando quiseres aparecer por cá, já sabes: é só fazer um telefonema para confirmar que estou e não tenho nenhum compromisso.
- A missa de 7º dia é na segunda às sete, não é? – perguntou, para simples confirmação, o visitante enquanto ía vestindo um blusão fresco.
- Exactamente!
- Tem uma boa noite! – despediu-se o João.
- Dá cumprimentos à Mina. E passem bem! – rematou o Zé já com o amigo a entrar para o elevador.