Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

A minha fotografia
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Localização: Maia, Porto, Portugal

quarta-feira, setembro 27, 2006

Uma família burguesa - Apresentação

Depois de No velho mIRC, Regresso ao passado e O viúvo, resolvi meter-me noutra aventura escrevendo e publicando neste blog um outro trabalho de ficção (aquilo a que eu costumo chamar uma blogonovela).
Já fiz muito de preparação e escrevi algumas “partes” (entenda-se: posts) de Uma família burguesa, embora ainda falte a revisão que, muitas vezes, resulta em alterações significativas.
É mais uma aventura pelos caminhos do imaginário mas, desta vez, resolvi meter várias histórias no mesmo saco, algumas delas interligadas.
O número de personagens é também superior ao que usei nos casos anteriores.
Em suma:
O esforço que tenho feito e sobretudo o que me falta ainda fazer, é grande.
Espero estar à altura de escrever alguma coisa que, sendo do tipo literatura “light”, vos possa induzir a vontade de começar a ler e chegar ao fim.
Não faço ideia de com quantos episódios (diria melhor: partes) ela vai ficar no seu final.
Nem sequer tenho a história toda planeada.
As experiências anteriores ensinaram-me que ao escrever, as personagens vão tomando conta da direcção em que devem caminhar as histórias, pelo que espero que isso aconteça de novo.
Vai acontecer, tenho a certeza.
Tenciono começar a colocá-la on-line nos primeiros dias de Outubro.
Se, entretanto, achar um tema interessante para fazer um post que não tenha nada a ver com a blogonovela mas que me pareça oportuno publicar não deixarei de o fazer, a exemplo do que já aconteceu anteriormente.
Portanto, aqui fica a apresentação de Uma família burguesa que, confesso, também tem intuitos publicitários.
É que, como já sabem, não gosto de estar a escrever uma coisa que me dá um trabalhão dos diabos e depois não haver ninguém a ler e a comentar.
Confio na vossa paciência e espírito piedoso.

domingo, setembro 24, 2006

Eurico, o Campos

Dei comigo a fazer um varrimento sobre os sete anos que passei no que era designado na época como ensino liceal, dos meus dez aos dezassete anos, e a tentar determinar qual o melhor professor que tive nessa fase da minha vida passada no Liceu de Alexandre Herculano, do Porto.
A resposta não foi difícil de encontrar:
Eurico.
Eurico Telmo Campos.
Meu professor de Matemática nos quarto, quinto e sexto anos.
Alto, mais magro que gordo, cabelo liso penteado para trás e bem colado à cabeça, olhar matreiro, sorriso malandro, solteiro mas namorando com uma bela filha de refugiados austríacos.
Teria uns...trinta e poucos anos.
Como dava boleia na sua velha carripana à professora de Geografia, a Maria Lúcia Santos, a rapaziada inventou uma ligação quente entre os dois. Pura má-língua (penso...).
Passava as aulas a caminhar entre as carteiras individuais onde nos sentávamos nós, alunos, com as passagens necessárias pelo quadro afim de escrever o que entendia necessário.
Não queria que usássemos o livro que mais não fosse para resolver problemas, pois neste seu deambular ía-nos ditando um conjunto de apontamentos que nós tínhamos de escrever integralmente no Caderno Diário e que constituíam um verdadeiro manual.
Ainda hoje guardo essas notáveis lições em que tudo o que dizia respeito a números reais, ou sucessões, ou derivadas, ou geometria no espaço, ou trigonometria ou o mais que fizesse parte dos programas obrigatórios ficava registado de forma sistematizada e clara, além de ilustrada com inúmeros problemas de aplicação.
O mestre não gostava mesmo nada que alguém anotasse esse saber sem ser no Caderno.
- Nada de escrever em folhas soltas, meus senhores! Já sei que depois nunca mais passam a matéria para o Caderno e um dia a folha leva-a o vento – repetia inúmeras vezes.
O Zé Manel Lluvet, e estou a falar agora da turma do sexto ano, era useiro e vezeiro em esquecer-se desse fundamental elemento didáctico. O Eurico ía-lhe chamando a atenção mas o rapaz não atinava: volta e meia lá estava o moço a escrever numa folhinha.

- Eu depois copio, senhor doutor. Juro! – garantia o Lluvet.
(Nota do autor: era senhor doutor e não setôr)
Mas o Eurico ía verificar na aula seguinte e ele não tinha copiado nada.
Até que um dia lhe disse o professor:
- Oh pá! Da próxima vez que te veja a escrever numa folha solta faço-ta engolir.
Não passaram muito dias e, durante uma aula, todos levantaram a cabeça quando o professor se silenciou, repentinamente.
E deparámos com ele muito quieto, parado junto à carteira do Zé Manel.
De repente, num gesto mais rápido que um raio, pegou na folha em que escrevia o esquecido moço, amarrotou-a e meteu-a na boca do Lluvet que entretanto a tinha semiaberta de expectativa. Claro que o rapaz não gostou da brincadeira, mas a gargalhada na sala foi geral.
- Eu avisei-te, não avisei? – perguntou o Eurico enquanto se afastava com aquele ar de gozo que o caracterizava.
O certo é que nunca mais ninguém se esqueceu do fundamental Caderno.
Uma outra vez, estava a ensinar polinómios, se bem me lembro, e foi ao quadro para escrever:
k1...k2...k3...
Ao mesmo tempo dizia em voz alta:
Capa um...capa dois...capa três...
Parou a oralização, voltou a cabeça para a plateia e com um sorriso absolutamente irónico disse:

- Que razia!
E a gargalhada solta por todos nós foi-o em uníssono.
Tinha o Eurico o hábito de nos marcar, em cada período trimestral, dois dos chamados “exercícios escritos de apuramento” e de chamar cada aluno pelo menos uma vez ao quadro para uma avaliação oral dos conhecimentos.
Na última aula de cada período era publicamente atribuída a nota a cada um de nós.
- Número 10. Fulano de tal. Teve doze no primeiro exercício, catorze no segundo, portanto a média é treze. Como teve uma chamada “suficiente” acho que deve levar um treze na pauta. Concorda?
E o aluno dizia de sua justiça.
E o que ficava combinado era sagrado.
No sexto ano, apareceram alguns novos alunos que tinham feito o exame do quinto ano mas vindos de colégios particulares. Eram todos eles alunos mais velhos e muito fracos.
Um deles, o Azevedo, tipo muito dado à música mas pouco aos estudos, era calado e reservado.

- Número 27. Qualquer coisa Azevedo – chamou o Eurico.
Olhou para a caderneta, mirou o aluno, fez um sorriso irónico e disse:
- Zero no primeiro exercício. Zero no segundo. Média zero. Uma chamada em que não abriu a boca (está aqui escrito!), o que equivale a zero. Portanto, vai levar um zero na pauta. Acha justo?
O rapaz balbuciou um “sim”.
Apesar de ser o primeiro período e, segundo consta, ter havido grande polémica na reunião de atribuição de notas, e de o próprio reitor (Martinho Vaz Pires), deputado da nação e pessoa muito temida, ter tentado que não fosse atribuída nenhuma nota inferior a sete, o Azevedo levou mesmo com o zero. E outros apanharam notas inferiores a quatro o que representava a reprovação imediata a Matemática.
O Eurico era implacável com o que ele chamava de nulidades.
No ano seguinte, e como consequência destes acontecimentos, o Dr. Campos foi colocado em Bragança e assim perdi um professor excepcional, pois o Albérico Costa que o veio substituir no sétimo ano não lhe chegava aos calcanhares.
Ainda me recordo de outra cena no terceiro período do sexto ano.

O Miguel Braga, que depois se viria a formar em engenharia mas nunca exerceu a profissão pois dedicou-se inteiramente à música tinha, segundo o método de avaliação do Eurico, um nove. Mas precisava de onze para passar de ano.
Pediu, lacrimejante, ao professor que lhe desse a nota de que precisava invocando que o pai não o deixaria tocar mais (guitarra) se ele reprovasse.
E dizia o Eurico com ar de gozo:
- Ai tu tocas? Ai tu tocas?

E olhando para o resto da rapaziada:
- Ele toca! Ele toca!
Finalmente, condescendeu em fazer uma chamada especial ao Miguel para ver se ele merecia o onze. A coisa correu mal e o músico reprovou mesmo.
Anos mais tarde, vim a saber que esse grande mas polémico professor, amado por uns mas odiado por outros, tinha sido eleito, pelo Partido Socialista, membro da Assembleia que elaborou a Constituição de 1976. Não sei se esteve depois como deputado na Assembleia da República.
Julgo que faleceu relativamente novo.
Para mim foi, sem dúvida, um professor excepcional que não só me ensinou muito de Matemática como me ensinou a gostar dessa hoje tão odiada ciência.

quinta-feira, setembro 21, 2006

A tropa

Em 19 de Novembro de 2004, quando o Dr. Paulo Portas era ministro da Defesa Nacional, foi extinto oficialmente o Serviço Militar Obrigatório (SMO).
Acabou a tropa!
A tropa era entendida pelo comum dos cidadãos como o período em que os jovens do sexo masculino tinham, obrigatoriamente, de se integrar nas estruturas de Exército, da Armada ou da Força Aérea, para cumprirem um período de instrução e outro de execução de tarefas ou missões no âmbito de um desses ramos das Forças Armadas.
Não sei quando começou a tropa, mas foi há muitas décadas, séculos talvez, presumivelmente com intermitências.
Quando era rapazinho, mais precisamente até 1961, ano em que começou a Guerra Colonial, lembro-me de ver os mancebos que eram apurados para o serviço militar, no próprio dia da inspecção, virem para a rua em grupos, já bem bebidos, tocando e cantando a sua satisfação por terem sido apurados. Era a prova oficial de que eram tipos sadios. Os que ficavam livres por cunha também estavam satisfeitos embora não o manifestassem publicamente, por decoro. E havia os que livravam por doença ou mal formação. Esses eram os menos alegres, mesmo quando a causa da recusa por parte dos médicos inspectores fosse um simples pé chato.
Isto presenciei eu em aldeias ou vilas. Também nas cidades me lembro vagamente de ver essas trupes jovens e folgazonas.
Antes desse período em que fui testemunha ocular dos factos descritos, penso que, pelo menos nos anos sequentes ao fim da Segunda Grande Guerra, também teriam ocorrido.
Mas o que eu mais gostaria de relevar é que, apesar de o fazer inconscientemente (penso), essa rapaziada estava a comemorar o segundo corte do cordão umbilical.
Brevemente saíriam de casa dos pais, com grande mágoa das mães, principalmente; abandonariam a sua terra natal; iriam conhecer outra vida, outras terras, outras gentes.

Emancipados.
Essa era umas das grandes vantagens que tinha o Serviço Militar Obrigatório: a libertação das tutelas paterna e materna!
Ela era particularmente útil para aqueles moços que tinham sido educados com demasiada protecção familiar. Muitos desses regressavam radicalmente modificados. Muitos outros já não mais queriam viver no torrão onde haviam nascido.
Num aparte, queria lembrar que todos os recrutas tinham de rapar o cabelo “à escovinha”. Curtíssimo. Ao contrário do que eu muitas vezes ouvi dizer, que era para não se aterem a mariquices e se tornarem verdadeiros homens, a razão da obrigatoriedade desse corte residia muito prosaicamente na necessidade de evitar que nas casernas os parasitas do cabelo e couro cabeludo proliferassem, pois os padrões de higiene eram, na época, incomparavelmente menos exigentes do que os actuais.
Mas, a partir de 1961, tudo mudou!
A vontade de ir para a tropa desvaneceu-se e transformou-se em vontade de não ir. E com as notícias que eram veiculadas, sobretudo pelos que tinham estado na guerra, cada vez mais crescia a vontade de ficar livre, o que era contrariado por um cerco cada vez mais apertado das autoridades para recrutar o maior número de mancebos possível.
Lembro-me de quando fui à inspecção em 1967 estar lá um rapaz com paralisia cerebral, portanto com toda aquela descoordenação motora que é por demais conhecida. Pois os três médicos inspectores não livraram o moço. Remeteram a responsabilidade dessa decisão para uma junta médica especial.
Durante o período da guerra, além de indesejada pelos jovens, não só pelo risco fortemente acrescido de serem feridos ou mortos mas também pelo período longo que os afastava da família e de uma actividade profissional, a tropa tornou-se cada vez mais impopular.
Depois de 1974 o Serviço Militar Obrigatório foi perdendo importância.
Mas, curiosamente, constato que quem pior fala dela são os que nunca lá estiveram. Provavelmente, ter-lhes-ía feito muito bem passar uma temporada a aprender a obedecer e a desenrascar-se.
Os que lá estiveram acabam por, em muitos casos, a considerar uma experiência pessoalmente enriquecedora.
Mas as coisas são como são e um dia, não sei quando, uma guerra qualquer provavelmente obrigará os responsáveis pela nação a reintroduzir o Serviço Militar Obrigatório.
Antes não fosse preciso!

sexta-feira, setembro 15, 2006

Diálogos de gente (XVIII) (O impertinente)

- Oh homem! Porque não vestes uma roupa mais nova? Andas sempre que pareces um pedinte!
Quem assim falava era Amália Dias para o seu marido.
- Com esta é que eu me sinto bem – respondeu o Humberto.
- Eu sei! Mas vais fazer uma figura triste a casa do Horácio. Podias fazer-me a vontade! – insistiu a mulher.
- Olha! Já estás pronta? – mudou de assunto o homem.
- É só pegar na carteira...pronto!
E encaminhou-se para fora do quarto em direcção da porta da casa onde moravam, seguida pelo marido que já tirara o carro da garagem.
- Vamos então andando! – disse ele.
E saíram de casa dirigindo-se para a viatura onde Humberto tomou o lugar do condutor.
- Tinhas-me dito que hoje conduzia eu. – recordou a mulher – Senão qualquer dia nem sei guiar.
- Hoje levo eu o carro.
E ao dizer isto, ele ligou o motor.
- Quero ver quando é que eu guio um bocado. Mas o melhor é dizer-te que não quero guiar para tu me dizeres para ser eu a fazê-lo. Tens cá um espírito de contradição! – desabafou a Amália.
E continuou:
- E não estejas sempre a contrariar o Horácio e a Graça, ouviste? Eu nem sei porque é que eles ainda nos convidam. Tu chegas lá e contradizes tudo o que eles dizem!
- Estás a ver? Se eu fosse como tu dizes eles não nos convidavam para passar lá a tarde e lanchar. Se o fazem é porque somos boa companhia – argumentou o Berto.
- Pronto! Está bem! Oh...vais por esse lado? É o mais longo...
- Assim damos um passeio maior – justificou-se o Dias.
- Já que queres dar um passeio maior, podíamos ir pela marginal – sugeriu a mulher.
- Pela marginal demora muito. Por aqui é melhor! – decidiu o homem.
Passados uns quinze minutos, chegaram a casa do Horácio e da Graça Mendonça.
- Tens ali um lugar à sombra! – indicou ela.
- É melhor parar agora ao sol porque quando sairmos o carro está à sombra. – optou ele – Além disso o ar condicionado é para ser utilizado..
- Seja feita a tua vontade, ámen! – resignou-se a mulher.
O casal andava na casa dos quarenta e tinham um filho, André, que tinha agora 18 anos e não gostava muito de acompanhar os pais. Nomeadamente o pai que considerava um chato insuportável.
Bateram à porta do apartamento onde habitava o casal que os convidara a passar a tarde.
- Sou eu, o Humberto! – falou para o intercomunicador.
- Podias dizer que éramos nós – resmungou baixinho a esposa.
Subiram no elevador até ao 4º andar e ao abrir-se a porta depararam com o casal que os aguardava.
Saudaram-se como é da praxe e os quatro foram instalar-se na sala.
- Oh Berto! Queres acompanhar-me a beber um whisky? – perguntou o Horácio.
- Prefiro uma aguardente bagaceira, uma Carvalho, Ribeiro & Ferreira.
- Muito bem! É para já!
E o anfitrião, gentilmente, serviu o visitante.
- Muito obrigado, pá! Esta é muito boa! – agradeceu o Humberto.
Entretanto as senhoras já conversavam sobre um assunto qualquer.
- As nossas mulheres já estão a ter aquela conversa cultural do costume: telenovelas, roupas, fofocas sobre conhecidos e desconhecidos, tempo, empregadas, vizinhos – desdenhou o impertinente funcionário superior dos CTT.
- Sentem-se bem a falar sobre isso...deixá-las! – amenizou o dono da casa.
- É por isso que este país é como é! Que falta de nível! – insistiu o chato.
- Nós também falamos muitas vezes de coisas fúteis, como futebol.
- Mas futebol não é um tema fútil! É o desporto nacional que de vez em quando, por um bambúrrio, faz alguma figura internacional – disse o convidado.
- Não é só sorte! E nem só em futebol temos coisas boas – corrigiu o Horácio.
- Pois! Somos bons em quasi tudo. Até o Prémio Nobel da Literatura não sabe fazer a pontuação! – implicou de novo.
A conversa prosseguiu sempre no mesmo tom, com o Humberto Dias a dizer mal de tudo e todos e a revelar-se um interlocutor intragável.
- E vocês tem a sorte de não ter filhos! Senão é que viam como é a juventude de agora. Uma coisa horrível! – disse, a certa altura, o Berto.
- Oh pá! Sabes muito bem que temos um grande desgosto por não ter filhos. Às vezes podias conter-te um pouco nas tuas afirmações – afirmou, um tanto agastado, o Mendonça.
- Também achas que sou um chato e um impertinente e não sei que mais? – perguntou, irritado, o Dias.
- Acho! Acho eu e acha toda a gente! – atirou-lhe o anfitrião.
- Ah sim? Então porque me convidas para cá vir? – disse, ufano, o contraditor.
- Queres que te explique? Então eu faço-o com muito gosto! – avançou o Horácio, enquanto olhava para as duas mulheres que tinham parado a conversa para ver no que dava o desaguisado – Em primeiro lugar, para permitir que a tua mulher passe uma tarde mais agradável e não tenha que te aturar sozinha. Em segundo, porque nem imaginas o que nos rimos cá em casa os dois, depois de saíres, com as tuas afirmações.
E Amália não pode conter-se, gargalhou alto e disse para o seu marido.
- Agora já sabes porque somos convidados!

segunda-feira, setembro 11, 2006

Andei de Metro!

Hoje, dia 11 de Setembro do ano da graça de 2006, andei pela primeira vez no Metro.
No Metro do Porto, pois no de Lisboa e até no de outras cidades já tinha viajado.
Vivendo na Maia, a estação que melhor me serve é a do Fórum – Maia e a linha correspondente, a Verde, que já foi inaugurada há muito mais de um ano. Já havia mesmo adquirido um tiquet com um chip electrónico e não sei se mais alguma dessas coisinhas que fazem uns milagres muito giros (o Andante), que permite carregar e descarregar viagens. Pagando, claro!
Mas nunca tinha estreado o nóvel meio de transporte da zona do Grande Porto.
Não me perguntem porquê, pois não sei. Talvez o hábito do automóvel. Mas isso não interessa muito, em boa verdade.
Pois hoje, eu e a minha mulher (que já é especialista neste assunto de andar de Metro) resolvemos ir nele até ao centro do Porto, mais precisamente ao Coliseu, para comprar bilhetes para o musical Cats. E fazendo-o para um dos últimos espectáculos, o do dia 26, pudemos escolher dois estupendos lugares, na 3ª fila, coxia central, pela módica quantia de 50 euros cada entrada. É caso para dizer, metendo o nojo habitual, que com gente fina é outra coisa.
O trajecto seguido pelo novo comboio é quasi o mesmo que o antigo, o da CP, que eu utilizei anos a fio para ir até à estação da Trindade de onde seguia a pé para a Efacec Ambiente onde trabalhei muitos anos.
Hoje saí na paragem seguinte, a do Bolhão, a primeira enterrada neste trajecto que vai do Castêlo da Maia (é assim mesmo: Castêlo e não Castelo) até ao Estádio do Dragão.
Resumindo e concluindo: achei o transporte não muito rápido pois tem muitas paragens, não muito confortável, mas com um conjunto de modernices que o tornam simpático.
Mas, sinceramente, fiquei com saudades do velho comboio mais rápido, com assentos almofadados, com WC.
Enfim...até nos transportes, os comboios de plástico vieram substituir os mais tradicionais.
Mas que viva o progresso!
Estava a começar a escrever este texto referindo a data.
E não pude deixar de me lembrar que hoje faz cinco anos o ataque aéreo dos árabes fundamentalistas nos EUA.
Ainda bem que optei por viajar de metro e não de avião.

sexta-feira, setembro 08, 2006

O "Cinco minutos"

No dia oito de Dezembro do ano transacto publiquei um texto com o título “A avó Joana” no qual contava umas historietas relacionadas com a avó paterna de minha mãe.
Hoje resolvi fazer uma incursão pelos antepassados da linha materna da minha falecida progenitora.
O assunto tende a ser maçador para quem o lê, mas prometo tentar reduzir essa característica ao mínimo.
Os avós maternos da mãe Julieta, Úrsula e António Gomes, viviam em Valença do Minho, terra bonita do Alto Minho e principal fronteira com a Galiza.
Tiveram sete filhos:
Maria, a mais velha, casou com um capitão do Exército e foi viver para Viana do Castelo. Ainda a conheci, já muito velhinha. Teve oito filhos. Outros tempos!
António, o “Cinco minutos”. Sobre este escreverei mais abaixo.
João, que trabalhou sempre na agricultura, era o mais buçal de todos. Não lavava os dentes e morreu com cerca de oitenta anos mas com os dentes naturais todos (sujos mas sãos).
Fernando, o padre, também viveu a maior parte da vida em Valença (Segadães) e nunca me pareceu muito místico. Costumava dizer para as sobrinhas: “primeiro a obrigação e depois a devoção; se não puderem ir à missa porque tem tarefas a desempenhar, rezem em casa”. Conheci-o razoavelmente e sempre me pareceu um tipo inteligente e culto.
Susana, que faleceu cedo e nunca conheci. Tem um filho com mais de noventa anos, o Fernando, que casou em Leiria e ainda lá vive. É, juntamente com a minha tia e madrinha Maria José, um dos dois sobreviventes da geração seguinte.
Delfina, a minha avó, faleceu com pouco mais de cinquenta anos e nunca a conheci. Radicou-se em Vila Praia de Âncora.
Rosa, ficou solteira e viveu sempre com o padre.
Arminda, também celibatária, que chorava por tudo e por nada, foi também a companheira de quasi toda a vida do padre e da irmã Rosa. Quando o mano Fernando foi operado para ablação da próstata, lacrimejava dizendo: “E agora o nosso padre ficou ôco, coitadinho!”.
Com excepção da Susana e da Delfina, os outros cinco faleceram com mais de oitenta, ou mesmo noventa anos.
O que mais viveu foi o António que se finou um ou dois anos antes de completar o centenário.
Era o mais débil enquanto jovem. Estava sempre adoentado e os pais não sabiam que futuro lhe dar, até que resolveram que ficaria a trabalhar na loja que tinham e que, entre outras coisas, cambiava dinheiro, nomeadamente escudos e pesetas.
Assim se iniciou o frágil rapazito (que eu conheci como um velhote bem corpulento) nas artes do negócio. Quando era muito solicitado pela clientela, respondia sistematicamente:
- Cinco minutos!
- Daqui a cinco minutos eu atendo!
- São só cinco minutos!
Não demorou muito tempo que ficasse conhecido em toda a vila como o "Cinco minutos”.
Quando criou uma casa de câmbios não deixou de a baptizar com o nome de “Casa de Câmbios Cinco Minutos”.
Os anos foram passando e o António foi enriquecendo, chegando a fazer uma fortuna considerável. Era o ricaço da família!
Casou com Virgínia e teve um filho, também António, que trabalhou sempre com o pai.
Este casou com Luciana e tiveram uma única filha a quem baptizaram com o nome da avó: Virgínia. Mas, na família toda a gente a conhecia como Pochinha. Tem mais cinco ou seis anos do que eu.
É bem conhecida a história de, num dos primeiros aniversários da neta, o velho António lhe ter oferecido um pote ou penico parcialmente revestido a ouro.
Mas era um forreta, o homem!
Quando vinha ao Porto, de comboio, trazia o almoço de casa, bem embrulhado para não arrefecer e comia no combóio durante a viagem ou depois de chegar.
Sabe-se que tinha uma amante no Porto, que vivia só com duas filhas e que ele pagou os estudos às raparigas que lograram tirar cursos superiores. Naquele tempo era obra!
Também é conhecido que, já depois dos oitenta anos, confidenciou à prima Felisbela, irmã mais velha da minha mãe, que ainda tinha uma amante, sempre no Porto para ser mais discreto.
A minha tia perguntou-lhe:
- Ó Tone! Mas tu com essa idade já não consegues fazer nada!
- É só para a ver nua! – respondeu o velho devasso.
A sessão demoraria só cinco minutos?

domingo, setembro 03, 2006

Diálogos de gente (XVII) (Homo)

Bruno Gouveia, o Becas, era um tipo de trinta e poucos anos.
Solteiro, alto, elegante, sempre impecavelmente vestido, cabelo liso e relativamente comprido que afastava da frente dos olhos com os dedos ou com um trejeito adequado da cabeça. Caminhava sempre muito hirto, com um passo de “passerelle” e todos os movimentos que fazia eram como que meticulosamente ensaiados diante do espelho. Eram notórios alguns tiques afeminados. A voz era razoavelmente grave, mas o modo de falar era algo afectado. Tinha um emprego estável e razoavelmente remunerado.
Não tinha muitos amigos nem amigas. Íntimos, ainda menos, e não se lhe conheciam amantes nem namoradas.
Vivia com sua mãe Lucrécia, há muito viúva do Gouveia que só lhe dera aquele filho e que ela educara com todo o desvelo e carinho.
Poucas vezes saía de casa sozinho, salvo para ir ao café mais perto e, mesmo lá, geralmente ía com a mamã.
As más-línguas diziam que ele era maricas ou, algumas mais viperinas, cochichavam mesmo que haveria uma relação incestuosa na casa, tal o número de vezes que mãe e filho saíam juntos e o tempo que ele passava dentro da habitação.
Certo dia, recebeu um telefonema de uma colega de trabalho, que vivia perto dele e com quem se encontrava algumas vezes no tal café, que lhe propôs irem almoçar fora no sábado seguinte.
Já por várias vezes que a Cátia Gomes, interessante mulher que andava perto dos trinta anos, lhe havia feito aquele convite. Ele recusara sempre.
Mas desta vez ela conseguiu convencê-lo.
E assim, não sem antes ouvir as habituais recomendações maternas, saiu de casa conduzindo o seu carro, sempre muito limpo, para se encontrar com a colega no restaurante combinado.
Lá chegado, não teve que esperar muito para que visse a Cátia sair da viatura com um provocante vestido branco, curto e semi-transparente.
Durante a refeição, que foi frugal pois ambos queriam manter uma boa silhueta, conversaram sobre vários assunto, inclusivamente de trabalho mas, no final, ela propôs irem num dos automóveis para um sítio fresco já que o calor apertava.
E nada melhor que sob um arvoredo denso que recobria um conhecido monte nos arredores da cidade. Um daqueles locais muito frequentado por namorados e que, à noite, o era também pelos famosos “pestaninhas” ou “espreitinhas”.
A jovem insistiu para irem no carro dela.
Assim, estacionou exactamente onde quis.
- Bruno! Tu és um homem muito bonito. Mas acho que não tens namorada. É verdade? – perguntou a rapariga.
- É! – respondeu ele, laconicamente.
- Que desperdício! E nunca tiveste? – insistiu ela.
- Oh Cátia! Onde é que tu queres chegar? – interrogou o Becas.
- Queres que te diga? Eu digo-te! – disse ela convictamente, enquanto se colocava numa posição em que ele pudesse ver bem as suas coxas descobertas e uma boa parte dos roliços seios destapados.
E prosseguiu:
- Não sei se sabes, mas tu tens fama de ser maricas! Ora eu acho que tu não és nada disso. Acho que és muito tímido, que tens pouca experiência com mulheres e tens um certo receio de te aproximar. Tenho razão, não tenho?
E começou a passar-lhe os dedos suavemente pelas pernas com a óbvia intenção de o excitar.
O homem manteve-se impassível e respondeu:
- De facto, nunca me senti muito atraído por mulheres. Por isso nunca namorei a sério. Tive uns namoricos quando era mais novo mas ao fim de pouco tempo acabava com eles pois não me interessava aprofundar nenhuma relação.
Ela começou a acariciar-lhe a zona fálica que, contudo, continuava inerte.
- Então não gostas mesmo de mulheres! – disse ela – Mas podes estar descansado que o que dissermos aqui dentro será um segredo só nosso.
E continuou:
- E por homens? Sentes atracção? Olha! Vou ser totalmente directa: és homossexual?
O Bruno Gouveia desviou os olhos e fitou o infinito.
Só ao fim de uns dois ou três minutos olhou para a Cátia que tinha ficado positivamente suspensa.
- Sou homossexual! – confessou o Becas, enquanto os seus olhos brilhantes de água olhavam para a companheira.
- Podes estar descansado que eu não digo nada a ninguém – repetiu a jovem mulher – e se quiseres desabafar comigo está à vontade. Acho que deves ter muita coisa dentro de ti que gostarias de deitar cá para fora e não consegues porque não ousas assumir-te.
Cátia deixara de provocar o homem e agora pegava-lhe numa mão que acariciava maternalmente.
- Nem imaginas! Nem imaginas! Não sabes o que é ter a noção de que devo gostar de mulheres quando elas não me excitam. – e prosseguiu, num imenso desabafo – Eu gosto muito de um tipo da minha idade que me corresponde. Mas o pior de tudo é que ele é bi, casado e com um filho. Encontramo-nos uma ou duas vezes por mês e falamos na Net ou ao telefone, embora não com a frequência que eu desejaria.
Cátia sentiu que não devia ser demasiado curiosa, mas não desistiu da insistência:
- Se assumisses a tua homossexualidade não seria melhor?
- Já pensei nisso muitas vezes! Mas acho que não! Tenho quasi a certeza que seria muito pior para mim. Além de ti, da minha mãe, e de alguns homens com quem tive relações, mais ninguém sabe. Rogo-te que guardes isto que agora te disse e nunca o reveles a ninguém – pediu o Bruno.
- Olha, Bruno! Devo dizer-te que a partir deste momento sinto um afecto e uma ternura por ti como nunca senti antes. Respeito totalmente a tua opção sexual e, sempre que quiseres desabafar ou uma companhia feminina para calar as bocas, conta comigo – ofereceu-se a amiga.
- Agradeço imenso! E provavelmente vou aproveitar a tua oferta. Só te quero dizer que não se trata de uma opção. Eu não sou homo por opção mas porque nasci assim e nada disto depende da minha vontade – disse o jovem e começou a chorar.
Ela sentiu os olhos humedecidos. Apertou a mão dele com força e disse-lhe o que lhe pareceu mais oportuno:
- Bruno! Tu ainda vais ser feliz!
- Duvido muito, Cátia, duvido muito! Se tivesse coragem de me assumir, talvez, mas enquanto tiver de guardar tudo isto dentro de mim, nunca serei feliz. Limito-me a ter alguns momentos, poucos, de felicidade.