Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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sexta-feira, setembro 08, 2006

O "Cinco minutos"

No dia oito de Dezembro do ano transacto publiquei um texto com o título “A avó Joana” no qual contava umas historietas relacionadas com a avó paterna de minha mãe.
Hoje resolvi fazer uma incursão pelos antepassados da linha materna da minha falecida progenitora.
O assunto tende a ser maçador para quem o lê, mas prometo tentar reduzir essa característica ao mínimo.
Os avós maternos da mãe Julieta, Úrsula e António Gomes, viviam em Valença do Minho, terra bonita do Alto Minho e principal fronteira com a Galiza.
Tiveram sete filhos:
Maria, a mais velha, casou com um capitão do Exército e foi viver para Viana do Castelo. Ainda a conheci, já muito velhinha. Teve oito filhos. Outros tempos!
António, o “Cinco minutos”. Sobre este escreverei mais abaixo.
João, que trabalhou sempre na agricultura, era o mais buçal de todos. Não lavava os dentes e morreu com cerca de oitenta anos mas com os dentes naturais todos (sujos mas sãos).
Fernando, o padre, também viveu a maior parte da vida em Valença (Segadães) e nunca me pareceu muito místico. Costumava dizer para as sobrinhas: “primeiro a obrigação e depois a devoção; se não puderem ir à missa porque tem tarefas a desempenhar, rezem em casa”. Conheci-o razoavelmente e sempre me pareceu um tipo inteligente e culto.
Susana, que faleceu cedo e nunca conheci. Tem um filho com mais de noventa anos, o Fernando, que casou em Leiria e ainda lá vive. É, juntamente com a minha tia e madrinha Maria José, um dos dois sobreviventes da geração seguinte.
Delfina, a minha avó, faleceu com pouco mais de cinquenta anos e nunca a conheci. Radicou-se em Vila Praia de Âncora.
Rosa, ficou solteira e viveu sempre com o padre.
Arminda, também celibatária, que chorava por tudo e por nada, foi também a companheira de quasi toda a vida do padre e da irmã Rosa. Quando o mano Fernando foi operado para ablação da próstata, lacrimejava dizendo: “E agora o nosso padre ficou ôco, coitadinho!”.
Com excepção da Susana e da Delfina, os outros cinco faleceram com mais de oitenta, ou mesmo noventa anos.
O que mais viveu foi o António que se finou um ou dois anos antes de completar o centenário.
Era o mais débil enquanto jovem. Estava sempre adoentado e os pais não sabiam que futuro lhe dar, até que resolveram que ficaria a trabalhar na loja que tinham e que, entre outras coisas, cambiava dinheiro, nomeadamente escudos e pesetas.
Assim se iniciou o frágil rapazito (que eu conheci como um velhote bem corpulento) nas artes do negócio. Quando era muito solicitado pela clientela, respondia sistematicamente:
- Cinco minutos!
- Daqui a cinco minutos eu atendo!
- São só cinco minutos!
Não demorou muito tempo que ficasse conhecido em toda a vila como o "Cinco minutos”.
Quando criou uma casa de câmbios não deixou de a baptizar com o nome de “Casa de Câmbios Cinco Minutos”.
Os anos foram passando e o António foi enriquecendo, chegando a fazer uma fortuna considerável. Era o ricaço da família!
Casou com Virgínia e teve um filho, também António, que trabalhou sempre com o pai.
Este casou com Luciana e tiveram uma única filha a quem baptizaram com o nome da avó: Virgínia. Mas, na família toda a gente a conhecia como Pochinha. Tem mais cinco ou seis anos do que eu.
É bem conhecida a história de, num dos primeiros aniversários da neta, o velho António lhe ter oferecido um pote ou penico parcialmente revestido a ouro.
Mas era um forreta, o homem!
Quando vinha ao Porto, de comboio, trazia o almoço de casa, bem embrulhado para não arrefecer e comia no combóio durante a viagem ou depois de chegar.
Sabe-se que tinha uma amante no Porto, que vivia só com duas filhas e que ele pagou os estudos às raparigas que lograram tirar cursos superiores. Naquele tempo era obra!
Também é conhecido que, já depois dos oitenta anos, confidenciou à prima Felisbela, irmã mais velha da minha mãe, que ainda tinha uma amante, sempre no Porto para ser mais discreto.
A minha tia perguntou-lhe:
- Ó Tone! Mas tu com essa idade já não consegues fazer nada!
- É só para a ver nua! – respondeu o velho devasso.
A sessão demoraria só cinco minutos?

22 Comments:

Anonymous Fatyly said...

Gostei do teu texto bastante interessante. Não entendo, e aqui deixo-te desde já as minhas desculpas, em tudo o que leio que seja relacionado com velhos(detesto a palavra idoso)o interesse absurdo tocando as raias da gozação... no que toca a sexo! Enfim!

(...) Cinco Minutos...deu a resposta que lhe apeteceu ou entendeu...e nem que fosse num minuto, era felizcomo entendia não era? e isso é que importa. Devasso...infelizmente há de facto devassos- novos e velhos!
A vida não é só sexo, para mim sexo é o complemento de algo profundo...chamem-lhe amor, paixão cumplicidade ou o que quizerem!

Jamais conseguiria construir a minha árvore genealógica...não conheci a maioria da familia - avós paternos, tios e primos e os mais próximos a guerra encarregou-se de nos separar!

Gostei muito de ter visto que o mais fracalhote foi maior resistente:):):)

Beijos e um bom fim de semana

10:57 da tarde  
Blogger Caiê said...

Ah! Quem sabe? ... ;)
Eh, eh eh! Como sempre, ri-me a valer com as tuas histórias familiares. Tinhas uma família bem pitoresca.
As alcunhas, antigamente, eram algo que se colava às pessoas - chegavam a catalogar famílias inteiras pela alcunha de um membro!
Toda a minha família tinha UMA alcunha... ainda ta hei-de confessar...
bjs.

12:02 da manhã  
Blogger Silvia F. said...

Olá António! Como o tempo passa mas nunca deixei de frequentar o teu ilustre blog! Parabéns (atrasados) pelos 27 anos de união E pela rica família! ;))

6:20 da manhã  
Blogger Paula Raposo said...

Gostei. Sabes bem que gosto imenso de ouvir as histórias que cada pessoa tem para contar e que são sempre interessantes e que nos levam (a quem as escuta) a aprender alguma coisa. Gosto mais de as ouvir ao vivo, pela tua voz, mas hoje, gostei muito de te ter lido! Recuei só uns três meses. O mais certo, o Cinco Minutos, cumpriu até ao fim a sua alcunha!! Beijinhos, bom fim de semana para ti.

6:45 da manhã  
Blogger Leonoretta said...

ó antonio!
o homem tinha uma amante que custa dinheiro; pagou os cursos as filhas que custa dinheiro;ofereceu um bacio á neta revestido a ouro... e era forreta.
está bem! já começo a acreditar que têm razao quando me chamam forreta

11:02 da manhã  
Blogger wind said...

Muito bem descrita como é teu hábito, vais ao mais ínfimo pormenor e no fim não gozes, mesmo idoso ele tinha todo o direito pelo menos a ver, coitado:)
beijos

1:35 da tarde  
Blogger António said...

Para "fatyly":
Obrigado pelo teu comentário.
Continua a aparecer que eu gosto...eh eh

Beijinhos

4:16 da tarde  
Anonymous GR said...

Estas histórias são uma delícia!
Uma família numerosa, todos (quase) tem uma longa vida!
A narrativa é tão espectacular que, adorava que tivesse muitas folhas!
Parabéns, pelos momentos que nos proporcionas!

GR

9:40 da tarde  
Anonymous Becas said...

António.... Quando é que uma história tua tende a ser maçadora? São sempre fantásticas, com as tuas descrições pormenorizadas e os personagens muito característicos... uma família assim grande tinha de ter um padre a viver com uma irmã... até duas!!!! Sortudo....
Amanhã comento outro familiar... rsrsrs
Beijinhos

12:02 da manhã  
Blogger APC said...

Gostaria de deixar uma pequeníssima nota à Fatyly (eu que detesto a palavra "velhos" e "idosos" lá escapa, lol), para dizer que empatizei sobremaneira com a mensagem do seu 1º parágrafo!;-)

Um "lol" para a Leo, com o lembrete de que ninguém é assim tão forreta... É perguntar aos seus amantes e verão!;-)

E, caro António, pegaste na história com aquele teu saber de toureiro, conduziste-a como um bom piloto e remataste-a como um alfaiate dos que cada vez menos há.

PS - Apesar de eu continuar no 1º parágrafo da Fatyly!;-)

12:08 da manhã  
Blogger António said...

Para "GR":
Querida Gui!
Obrigado pela tua presença activa, como habitualmente.
Parece que a minha esperança de vida é elevada, não?
eh eh

Beijinhos

2:34 da tarde  
Blogger António said...

Para "Becas":
Minha querida e especial amiga.
Gosto de te ver comentar o que escrevo.
Agora fico à espera da opinião sobre outro familiar, como prometeste...eh eh

Beijinhos

2:36 da tarde  
Blogger PF said...

hehehheheh....Adorei o desfecho!
Não teve nada de enfadonho.
Como era de calcular, "homem que é homem tinha de ter uma amante"!...
hahahaha...nem que fosse só para a ver nua!
Fantástico, António. Adorei.
Continuas a escrever de forma deliciosa.
Um beijnho

3:12 da tarde  
Blogger Ranhette du Nez said...

Tu est riche maintenaint?
je suis contet pour toi. Moi non plus. J'ai pas de largent. Je besoins imense. Je crois que besoins de emprenhê mon bateau. Tam pis!

Ranhette

3:13 da tarde  
Blogger MT said...

Mais uma perola. Se consideras este texto chato...acho que não consegues escrever nada realmente chato.
Gostei do Cinco Minutos, devia ser uma personagem...

Beijinhos

2:56 da manhã  
Blogger Ana Luar said...

Sensacional esta maneira pormenorizada de contar uma história. Acho que é a 1ª vez que aqui venho... e confesso que fiquei com vontade de me afundar no sofá e ficar de olhos presos na próxima história que já deves estar a escrever.

1:55 da tarde  
Blogger Anjinha said...

owa :o)
digo te que o texto nao é nada de maçador ou coisa parecida :o)

A historia tá muito interessante.
voltarei :o)

espero ver-te pelo meu cantinhu dentro de "5minutos" :oD

BEijinho

2:49 da tarde  
Blogger Ranhette du Nez said...

q'est que je dis?
bahhh! j'aime mon bateau. et je suis habitué a etre capitaine. se tu me dis que j'ai un estatute importante, bahhhh, je ne sais pas, je besoin de etre sure.

Renhette

4:04 da tarde  
Blogger magarça said...

Encontro alguns pontos em comum com a minha família, também minhota.

12:38 da manhã  
Blogger magarça said...

Olá António!
Ora aqui vai, muito resumidamente: o meu bisavô paterno, professor primário, era de Estorãos, uma aldeia próxima de Ponte Lima. A família continuou a crescer nessa mesma aldeia. O meu avô materno, filho de um militar e sobrinho de um padre, também nasceu no Minho, em Viana de Castelo.
Não me admirava que os nossos antepassados se tivessem cruzado numa rua qualquer...

r., também magarça no odiaoportuno.blogspot.com

10:56 da manhã  
Anonymous hodiguitria said...

Ahahahahahahahahha! Se calhar nem isso! :)

11:05 da manhã  
Blogger JUMENTO said...

"Louco!!!
"Louco eu?"

Pode ser,
Afinal,
Quem são os loucos?

São os diferentes,
Os autênticos,
Os corajosos.

São corajosos porque pagam o preço da incompreensão,
Porque assumem a sua própria covardia, sua pequenês e a sua insignificância.
Assim, reconhecem a (in)significância do outro, e não se importam,
Nem com a sua, nem com a do outro.

Não se importam com o julgamento,
Com a sentença condenatória por não estar enquadrado em “padrões aceitáveis”,
Também não condenam os julgadores,
Simplesmente não julgam.

Olhamos para outras pessoas,
E enxergamos nossa própria imagem,
Essa verdade assusta.

Na verdade não há verdade,
Apenas uma viagem.

(É melhor ocultá-la...?
Pura hipocrisia,
Pois todos sabem,
E disfarçam.)

Quem não disfarça é o louco!
Autoria: Jorge Henrique Ribeiro da Silva
Criação: Rio de Janeiro, 18 de Março de 2008.

6:23 da tarde  

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