Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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domingo, setembro 03, 2006

Diálogos de gente (XVII) (Homo)

Bruno Gouveia, o Becas, era um tipo de trinta e poucos anos.
Solteiro, alto, elegante, sempre impecavelmente vestido, cabelo liso e relativamente comprido que afastava da frente dos olhos com os dedos ou com um trejeito adequado da cabeça. Caminhava sempre muito hirto, com um passo de “passerelle” e todos os movimentos que fazia eram como que meticulosamente ensaiados diante do espelho. Eram notórios alguns tiques afeminados. A voz era razoavelmente grave, mas o modo de falar era algo afectado. Tinha um emprego estável e razoavelmente remunerado.
Não tinha muitos amigos nem amigas. Íntimos, ainda menos, e não se lhe conheciam amantes nem namoradas.
Vivia com sua mãe Lucrécia, há muito viúva do Gouveia que só lhe dera aquele filho e que ela educara com todo o desvelo e carinho.
Poucas vezes saía de casa sozinho, salvo para ir ao café mais perto e, mesmo lá, geralmente ía com a mamã.
As más-línguas diziam que ele era maricas ou, algumas mais viperinas, cochichavam mesmo que haveria uma relação incestuosa na casa, tal o número de vezes que mãe e filho saíam juntos e o tempo que ele passava dentro da habitação.
Certo dia, recebeu um telefonema de uma colega de trabalho, que vivia perto dele e com quem se encontrava algumas vezes no tal café, que lhe propôs irem almoçar fora no sábado seguinte.
Já por várias vezes que a Cátia Gomes, interessante mulher que andava perto dos trinta anos, lhe havia feito aquele convite. Ele recusara sempre.
Mas desta vez ela conseguiu convencê-lo.
E assim, não sem antes ouvir as habituais recomendações maternas, saiu de casa conduzindo o seu carro, sempre muito limpo, para se encontrar com a colega no restaurante combinado.
Lá chegado, não teve que esperar muito para que visse a Cátia sair da viatura com um provocante vestido branco, curto e semi-transparente.
Durante a refeição, que foi frugal pois ambos queriam manter uma boa silhueta, conversaram sobre vários assunto, inclusivamente de trabalho mas, no final, ela propôs irem num dos automóveis para um sítio fresco já que o calor apertava.
E nada melhor que sob um arvoredo denso que recobria um conhecido monte nos arredores da cidade. Um daqueles locais muito frequentado por namorados e que, à noite, o era também pelos famosos “pestaninhas” ou “espreitinhas”.
A jovem insistiu para irem no carro dela.
Assim, estacionou exactamente onde quis.
- Bruno! Tu és um homem muito bonito. Mas acho que não tens namorada. É verdade? – perguntou a rapariga.
- É! – respondeu ele, laconicamente.
- Que desperdício! E nunca tiveste? – insistiu ela.
- Oh Cátia! Onde é que tu queres chegar? – interrogou o Becas.
- Queres que te diga? Eu digo-te! – disse ela convictamente, enquanto se colocava numa posição em que ele pudesse ver bem as suas coxas descobertas e uma boa parte dos roliços seios destapados.
E prosseguiu:
- Não sei se sabes, mas tu tens fama de ser maricas! Ora eu acho que tu não és nada disso. Acho que és muito tímido, que tens pouca experiência com mulheres e tens um certo receio de te aproximar. Tenho razão, não tenho?
E começou a passar-lhe os dedos suavemente pelas pernas com a óbvia intenção de o excitar.
O homem manteve-se impassível e respondeu:
- De facto, nunca me senti muito atraído por mulheres. Por isso nunca namorei a sério. Tive uns namoricos quando era mais novo mas ao fim de pouco tempo acabava com eles pois não me interessava aprofundar nenhuma relação.
Ela começou a acariciar-lhe a zona fálica que, contudo, continuava inerte.
- Então não gostas mesmo de mulheres! – disse ela – Mas podes estar descansado que o que dissermos aqui dentro será um segredo só nosso.
E continuou:
- E por homens? Sentes atracção? Olha! Vou ser totalmente directa: és homossexual?
O Bruno Gouveia desviou os olhos e fitou o infinito.
Só ao fim de uns dois ou três minutos olhou para a Cátia que tinha ficado positivamente suspensa.
- Sou homossexual! – confessou o Becas, enquanto os seus olhos brilhantes de água olhavam para a companheira.
- Podes estar descansado que eu não digo nada a ninguém – repetiu a jovem mulher – e se quiseres desabafar comigo está à vontade. Acho que deves ter muita coisa dentro de ti que gostarias de deitar cá para fora e não consegues porque não ousas assumir-te.
Cátia deixara de provocar o homem e agora pegava-lhe numa mão que acariciava maternalmente.
- Nem imaginas! Nem imaginas! Não sabes o que é ter a noção de que devo gostar de mulheres quando elas não me excitam. – e prosseguiu, num imenso desabafo – Eu gosto muito de um tipo da minha idade que me corresponde. Mas o pior de tudo é que ele é bi, casado e com um filho. Encontramo-nos uma ou duas vezes por mês e falamos na Net ou ao telefone, embora não com a frequência que eu desejaria.
Cátia sentiu que não devia ser demasiado curiosa, mas não desistiu da insistência:
- Se assumisses a tua homossexualidade não seria melhor?
- Já pensei nisso muitas vezes! Mas acho que não! Tenho quasi a certeza que seria muito pior para mim. Além de ti, da minha mãe, e de alguns homens com quem tive relações, mais ninguém sabe. Rogo-te que guardes isto que agora te disse e nunca o reveles a ninguém – pediu o Bruno.
- Olha, Bruno! Devo dizer-te que a partir deste momento sinto um afecto e uma ternura por ti como nunca senti antes. Respeito totalmente a tua opção sexual e, sempre que quiseres desabafar ou uma companhia feminina para calar as bocas, conta comigo – ofereceu-se a amiga.
- Agradeço imenso! E provavelmente vou aproveitar a tua oferta. Só te quero dizer que não se trata de uma opção. Eu não sou homo por opção mas porque nasci assim e nada disto depende da minha vontade – disse o jovem e começou a chorar.
Ela sentiu os olhos humedecidos. Apertou a mão dele com força e disse-lhe o que lhe pareceu mais oportuno:
- Bruno! Tu ainda vais ser feliz!
- Duvido muito, Cátia, duvido muito! Se tivesse coragem de me assumir, talvez, mas enquanto tiver de guardar tudo isto dentro de mim, nunca serei feliz. Limito-me a ter alguns momentos, poucos, de felicidade.

25 Comments:

Blogger Paula Raposo said...

Gostei bastante da forma como abordas a homossexualidade neste teu post. Parabéns! Beijos.

5:55 da tarde  
Anonymous Becas said...

Mais uma história fantástica... era bom que esta forma de nos relacionarmos com a homosexualidade estivesse mais generalizada! Abaixo os juízos de valor....
Acho que estou a ficar viciada em ler as tuas coisas! É grave?
Beijinhos!

9:42 da tarde  
Blogger António said...

Para "Becas":
Minha querida amiga!
Obrigado pela tua visita.
Para te falar com franqueza, acho que não é grave se ficares viciada em ler as minhas coisas.
Até acho que é saudável...
ah ah ah

Beijinhos

10:42 da tarde  
Anonymous Fatyly said...

Gostei muito da forma como abordarte este assunto que ainda
e "tabu" na nossa sociedade tão conservadora onde se preocupam com a homossexualidade e não olham para o que fazem. Se houvesse letreiros na testa talvez deixassem em paz, de uma vez por todas os homossesuxais e as lésbicas.
Para mim, são seres como qualquer um de nós e respeito porque não tenho nada a ver com a sua sexualidade!
Daria pano para mangas, mas fico-me por aqui! Aplaudo-te de pé!
Beijos

10:56 da tarde  
Blogger António said...

Para "fatyly":
Obrigado pela tua comparência e comentário.
E podes aplaudir sentada porque senão ainda ficas com varizes...eh eh

Beijinhos

11:08 da tarde  
Blogger MT said...

Não sei porquê mas nas tuas histórias as mulheres tem sempre uma tendência para serem atiradiças...ahahah
Parabéns por mais um texto bem conseguido...se bem que acho que este tem perninhas para ter uma sequela.

Beijinhos

12:21 da manhã  
Blogger APC said...

[Sobre o comentário de MT]

... São atiradiças e andam pelos trintas! E os homens das histórias acabam por não lhes tocar!...
;-)

LOL... Perdoai, senhor, este fait-divers; este jeu d'esprit inocente!:-)
Gostei. E recuei a uma história minha de "amizade à primeira vista" com um amigo, essa algo diferente mas que me é muito querida.

12:31 da manhã  
Blogger lena said...

bem conseguido António e os meus parabéns por tratares este tema por tu, onde ainda existe algum "tabu"

é assim que gosto de te ler, frontal, apontar o que muitos colocam de parte, este diálogo foi excelente

acredita que são bons melhores amigos, estão sempre lá para ajudar e hoje só posso dizer que ponham abaixo os juízos de valor

estou ao teu lado, o respeito que me merecem é igual a qualquer outra pessoa, são iguais a mim: pessoas!

um beijo, meu amigo e adorei ver que continuas a manter este cantinho para nos deliciares

o meu abraço

lena

10:19 da manhã  
Blogger Menina_marota said...

Abordas com coragem, mas ao mesmo tempo de uma forma tão simples, a homossexualidade, que tão mal tolerada é, nos países que se dizem civilizados, porque mesmo aqueles que se dizem de espírito aberto, no que toca a ela, acabam por cair no mesmo erros dos demais...

Excelente texto, contado de uma forma tão simples, mas é nisso mesmo que reside o encanto dos teus textos.

Um abraço e boa semana ;)

2:29 da tarde  
Anonymous GR said...

Mais uma história de vida e de afectos. Narrada de forma aberta e despreocupada.
Este é um problema que afecta muita gente. Na realidade ainda hoje no café comentaram que indivíduo (com responsabilidade social), estava de mão dada com um homem (a mais de 500 km da sua terra) mas já anda uma foto a circular!
É triste ter que se viver escondido, camuflado de algo que não lhe pertence, nem nunca será!
Parabéns por mais um magnífico texto.

Bjs,

GR

11:45 da tarde  
Blogger António said...

Para "GR":
Querida Guida!
Mais uma vez obrigado pela tua presença, comentário e apoio.
Até breve!
eh eh

Beijinhos

9:45 da manhã  
Blogger Leonoretta said...

ai meu deus! de vez em quando abordas assuntos muito... tão... que eu engasgo-me para comentar.

bem! para mim a homossexualidade não é crime. alguns estudos dizem que é defeito do adn. ou seja, assim como o sidroma de down, trissomia do cromossoma 23, a homossexualaidade é devida á trissomia do cromossoma da sexualidade. vou por aaí.

abraço da leonoreta

10:22 da manhã  
Anonymous ranhette said...

Avec un non comme ça "Becas" le garçom besoin de etre maricon.

Ranhette

10:24 da manhã  
Blogger hodiguitria said...

Gostei muito da história, parece-me muito verosímil embora tenha pena que assim seja: é muito triste a discriminação, mas mais do que isso, a auto-discriminação - eu gosto de acreditar que em muitos casos é esse o maior problema para a não assunção de qualquer coisa que sejamos e não achemos "normal"!Bjs ;)

10:38 da manhã  
Blogger Ranhette du Nez said...

Une femme pirate qois?

Mille milliond du sabords!!!!

Repetez ça. Je suis pacifique mais je te desafie pour un duelo de espadé se tu choses comme ça.

Renhette

4:07 da tarde  
Blogger wind said...

Sublime!
Belíssima descrição física e depois toda a descrição psicológica e emocional porque passa um homossexual que não se pode assumir.
Parabéns António!:)
Desculpa só hoje te comentar, mas como mudaste a continuidade das tuas postagens, despistaste-me:)
beijos

7:26 da tarde  
Blogger APC said...

Kais kromossomas, kais k!!!...

:-*

1:09 da manhã  
Blogger Ricardo Barbosa said...

Será o Castilho Dias que eu conheço e que esteve no Atlantis no princípio de Agosto?

3:01 da manhã  
Blogger Ovelha Negra said...

Toninho, que saudades! ;) Como tás? Ainda a escrever deliciosamente...
era muito bom que toda a gente fosse assim tão tolerante à diferença.
beijocas grandes

9:48 da tarde  
Blogger margusta said...

Meu querido amigo António,
...agora passo só para te deixar um beijinho de boa noite...amanhã volto para te ler...

Um beijo suspenso em azul :)))

1:32 da manhã  
Blogger margusta said...

Xiiiiiiiiii..António..até eu fiquei comovida com o sofrimento do Bruno!
...realmente deve ser terrivel para quem nasceu assim ter que se esconder da sociedade.
Existem aqueles que o fazem por opção...existem outros que já conheci que gostam de ser escandalosos e provocar as pessoas...mas quando já se nasce assim se é discreto se tem medo de ser julgado pela sociedade, deve ter um sofrimento atroz!...
Gostei do modo sensivel como tratas-te este tema.
Beijinhos para ti querido amigo!

4:14 da tarde  
Blogger pinky said...

temática complicada essa...tenho vários amigos gays e a sorte é q são todos liberados e sem problemas, senão acredito que seriam umas pessoas muito menos "gay".. kiss kiss and welcomme back

2:39 da manhã  
Blogger Menina_marota said...

Passei para ler-te... para quando outro dos teus maravilhosos textos?

Um abraço e bom fim de semana ;)

2:55 da tarde  
Blogger PF said...

Tema polémico, sem dúvida.
Algo que mexe com toda a gente..
Gostei da forma como expuseste o assunto e como transmitiste o respeito que todas as pesosas devem ter por quem é homossexual.
Não podia deixar de ler.
Parabens pela ousadia em tocar neste "tabu" e pela postura que deste à Cátia. Louvável.

3:24 da tarde  
Blogger tb said...

meu querido António:
Uma forma espantosamente humana e amiga de abordar um problema que ainda a muitos(as) afecta.
Parabéns!
Beijinhos

6:55 da tarde  

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