Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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quinta-feira, setembro 21, 2006

A tropa

Em 19 de Novembro de 2004, quando o Dr. Paulo Portas era ministro da Defesa Nacional, foi extinto oficialmente o Serviço Militar Obrigatório (SMO).
Acabou a tropa!
A tropa era entendida pelo comum dos cidadãos como o período em que os jovens do sexo masculino tinham, obrigatoriamente, de se integrar nas estruturas de Exército, da Armada ou da Força Aérea, para cumprirem um período de instrução e outro de execução de tarefas ou missões no âmbito de um desses ramos das Forças Armadas.
Não sei quando começou a tropa, mas foi há muitas décadas, séculos talvez, presumivelmente com intermitências.
Quando era rapazinho, mais precisamente até 1961, ano em que começou a Guerra Colonial, lembro-me de ver os mancebos que eram apurados para o serviço militar, no próprio dia da inspecção, virem para a rua em grupos, já bem bebidos, tocando e cantando a sua satisfação por terem sido apurados. Era a prova oficial de que eram tipos sadios. Os que ficavam livres por cunha também estavam satisfeitos embora não o manifestassem publicamente, por decoro. E havia os que livravam por doença ou mal formação. Esses eram os menos alegres, mesmo quando a causa da recusa por parte dos médicos inspectores fosse um simples pé chato.
Isto presenciei eu em aldeias ou vilas. Também nas cidades me lembro vagamente de ver essas trupes jovens e folgazonas.
Antes desse período em que fui testemunha ocular dos factos descritos, penso que, pelo menos nos anos sequentes ao fim da Segunda Grande Guerra, também teriam ocorrido.
Mas o que eu mais gostaria de relevar é que, apesar de o fazer inconscientemente (penso), essa rapaziada estava a comemorar o segundo corte do cordão umbilical.
Brevemente saíriam de casa dos pais, com grande mágoa das mães, principalmente; abandonariam a sua terra natal; iriam conhecer outra vida, outras terras, outras gentes.

Emancipados.
Essa era umas das grandes vantagens que tinha o Serviço Militar Obrigatório: a libertação das tutelas paterna e materna!
Ela era particularmente útil para aqueles moços que tinham sido educados com demasiada protecção familiar. Muitos desses regressavam radicalmente modificados. Muitos outros já não mais queriam viver no torrão onde haviam nascido.
Num aparte, queria lembrar que todos os recrutas tinham de rapar o cabelo “à escovinha”. Curtíssimo. Ao contrário do que eu muitas vezes ouvi dizer, que era para não se aterem a mariquices e se tornarem verdadeiros homens, a razão da obrigatoriedade desse corte residia muito prosaicamente na necessidade de evitar que nas casernas os parasitas do cabelo e couro cabeludo proliferassem, pois os padrões de higiene eram, na época, incomparavelmente menos exigentes do que os actuais.
Mas, a partir de 1961, tudo mudou!
A vontade de ir para a tropa desvaneceu-se e transformou-se em vontade de não ir. E com as notícias que eram veiculadas, sobretudo pelos que tinham estado na guerra, cada vez mais crescia a vontade de ficar livre, o que era contrariado por um cerco cada vez mais apertado das autoridades para recrutar o maior número de mancebos possível.
Lembro-me de quando fui à inspecção em 1967 estar lá um rapaz com paralisia cerebral, portanto com toda aquela descoordenação motora que é por demais conhecida. Pois os três médicos inspectores não livraram o moço. Remeteram a responsabilidade dessa decisão para uma junta médica especial.
Durante o período da guerra, além de indesejada pelos jovens, não só pelo risco fortemente acrescido de serem feridos ou mortos mas também pelo período longo que os afastava da família e de uma actividade profissional, a tropa tornou-se cada vez mais impopular.
Depois de 1974 o Serviço Militar Obrigatório foi perdendo importância.
Mas, curiosamente, constato que quem pior fala dela são os que nunca lá estiveram. Provavelmente, ter-lhes-ía feito muito bem passar uma temporada a aprender a obedecer e a desenrascar-se.
Os que lá estiveram acabam por, em muitos casos, a considerar uma experiência pessoalmente enriquecedora.
Mas as coisas são como são e um dia, não sei quando, uma guerra qualquer provavelmente obrigará os responsáveis pela nação a reintroduzir o Serviço Militar Obrigatório.
Antes não fosse preciso!

41 Comments:

Anonymous Fatyly said...

Podes não acreditar...mas este teu texto comoveu-me muito. Nasci em Angola em 1951, em 61 foi o começo da guerra colonial, que nos meus 10 anitos apercebi-me da chacina que foi no estalar da guerra. Depois, ah António depois...até hoje não consigo esquecer o olhar opaco, triste, abandonado de milhares e milhares de jovens que desembarcarem no porto de Luanda, deambulando pela cidade, rumo ao Grafanil e enfiados em matas que nunca imaginaram o que era.
Visitava habitualmente o hospital e cadeia militar e "toda aquela carne para canhão" era um dó d'alma. Alinhados os de cá com os nascidos lá, brancos e pretos...numa guerra tão estúpida, como se houvesse guerras intelgentes:(...e se ir à tropa era sinónimo de se tornarem homens (assim se pensava)...bem já não vejo a porra do teclado... não consigo escrever mais nada, porque dói muito recordar o que tento esquecer.
Oxalá que não venha mais nenhuma guerra, mas se vier o destino assim o ditou. dassssssssssss!!!!
Beijos sinceros e parabéns pelo magnífico texto!

1:52 da tarde  
Blogger wind said...

Excelente prosa onde focaste um tema, que não sei porquê, ninguém toca.
Concordo em tudo contigo, sóacrescento que a guerra colonial foi uma coisa tão idiota, uma guerra perdida à partida e onde os nossos soldados, muitos dos que voltaram, vieram com "marcas" que até hoje têm.
António obrigada por teres tocado neste tema, que parece ser tabú!
beijos

2:52 da tarde  
Blogger António said...

Para "fatyly":
Obrigado pelo teu comentário.
Não preciso de escrever mais nada porque disseste tudo (nas linhas ou nas entrelinhas).
Um beijinho para ti

6:42 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

no ano de 1961 nasci eu. olha que grande benefício para a humanidade.

mais ou menos em 68 dava na televisão, pelo natal, dias a fio, os soldados a adizerem "adeus até ao meu regresso". e tudo me fazia confusão e os meus pais não diziam nada.

assisti também à partida e á chegada do meu tio que tinha ido combater em angola num navio atulhado de magalas.

e mais tarde fiquei escandalizada quando soube que andava a aprender que Damao, goa e diu ainda pertencia ao território portugues quando ja nao era.

penso que uma guerra na europa por questoes de mentalidades, ou economicas nao se poe actualmente. mas contra outras potencias, nomeadamente orientais, nomeadamente apoiadas pelos estados unidos, talvez, talvez...

abraço da leonoretta

8:48 da tarde  
Blogger Heloisa B.P said...

"Antes nao fosse preciso"
*****************************DIGO "AMEN"! E... digo-o como MAE, como MULHER e, como CIDADA!!!
"ANTES NAO FOSSE PRECISO"!!!!!!!!

Caro amigo, perdoe minha prolongada ausencia! sabe ja', que nao e' de minha "vontade" mas, agora, para alem dos "velhos achaques" caracteristicos do envelhecimento, temos AINDA UMA BELA DE UMA MUDANCA_RESIDENCIA E CIDADE_!!!
Mas, assomou-me a saudade de suas "LOUCURAS" e, vim espreitar a janela ( de mansinho...) contudo vi aqui um ASUNTO MUITO SERIO e, que daria pano para mangas! mas... destaco apenas isto (MUITISSIMO HAVERIA A DESTACAR E A DIALOGAR):

"Brevemente saíriam de casa dos pais, com grande mágoa das mães, principalmente; abandonariam a sua terra natal; iriam conhecer outra vida, outras terras, outras gentes.
Emancipados"
********************POIS E'!!!!!!!LADO BOM!LADO MENOS BOM (PARA AS MAES....)!
Cabe-me porem, acrescentar que TODOS OS MEUS FILHOS CUMPRIRAM O DITO SERVICO MILITAR_ISTO E'_:*FORAM A TROPA*_ excepto os dois mais novinhos que ja' nao eram la' muito precisos, mas.. eles la' foram a "INSPECCAO"!!!!!
Bom, eu, sou um tanto suspeita, nao so' como mulher e mae, mas... porque sou FILHA, NETA E ATE' SOBRINHA DE MILITARES DA "VELHA GUARDA"!!!
Por mim, o IDEAL, era nao serem precisas TROPAS!!!!!!! Mas... ai. eu, e, as minhas UTOPIAS!!!!!
Deixo-Lhe um muito AMIGO ABRACO!
Voltarei, tao depressa quantoa MUDANCA me deixe!!

Sua amiga,
Sua admiradora,
Heloisa.
************

10:28 da tarde  
Anonymous Becas said...

Ler o teu post transportou-me mais uma vez à infância... ao tempo em que assistia à Guerra Colonial do lado de cá! (Assistir não era própriamente... não tinha nada a ver com o fenómeno que acontece nos dias de hoje em que podemos ver uma pessoa no próprio momento da sua morte. É horrível!)
Quando tinha quase 6 anos, em 1969, o meu vizinho e amigo Gabriel, foi para a tropa. Não sei como mas soube mais tarde que era "madrinha de guerra" dele... a minha mãe encontrava-me à noite a chorar, com a fotografia do Gabriel debaixo da almofada. E víamos sempre as emissões referidas pela Leonoretta em que os soldados vinham dar uma mensagem à família! Era na altura do Natal o que provocava ainda mais comoção lá em casa...
E os aerogramas??? Tão ansiados, de fino papel amarelo, azul ou verde claro, traziam as boas notícias do Ultramar.
A minha recordação desses factos é a do olhar de uma criança de 6 ou 7 anos... ficou esta relação de madrinha e afilhado que perdura no tempo com muito carinho!!!!
Parabéns pelo teu texto, António!
Beijossssssssssssssszzzzzzzzzzzzz

10:37 da tarde  
Blogger Unicus said...

temo que tenhas razão quanto á introdução do serviço militar obrigatório. O mundo é um barril de pólvora prestes a rebentar.
Abraços António

10:43 da tarde  
Blogger António said...

Para "becas":
Olá minha amiguinha especial!
Obrigado por teres comentado.
De facto, com a tua idade não podes ter muitas recordações da Guerra Colonial.
Tens q.b.!
Eu, que já sou um carcaça do carago, é que tenho muitas.
Muitas e quasi todas boas, felizmente.

Beijinhos

10:55 da tarde  
Anonymous GR said...

Um texto sério, extremamente bem escrito, como é habitual em ti.
A descrição está impecável, com grande delicadeza, não ferindo susceptibilidades!
Lembro-me de ver jovens que iam para a tropa de cabeça rapada e olhar triste!
Um outro na minha terra, com 19 anos suicidou-se, não numa árvore mas numa cerca baixa, quando o encontraram passados uns dias o cão estava junto ao cadáver!
A tropa, apesar de não ter tido nenhum familiar lá, transporta-me para tempos muito conturbados e tristes. Contudo, penso que devia ter continuado haver a recruta de quatro meses (no mínimo).
Os homens falam da tropa com um certo saudosismo (!) não “por ter sido uma experiência enriquecedora”, mas (digo eu) pela cumplicidade que os uniu!
Quantos deles estando num país estrangeiro, sozinhos, com medo, sem condições, à espera de matar ou morrer, da mina (invisível) que podia aparecer.
Homens que ainda hoje, guardam segredos; das lágrimas que (lá) não esconderam, da dor que sentiram, pela morte do amigo, da saudade da família, do filho que nunca viram. Choravam e pensavam na família, na terra, sentiam os aromas, faltava-lhes a Paz.
Ouço sempre contar histórias engraças de amizade e confraternização, mas nunca, dos gritos loucos que deram quando dez ou vinte seus camaradas calcaram a mina e uns cegaram, outros ficaram paraplégicos, outros ainda sem membros, para além dos desaparecidos e despedaçados! Perdemos milhares e milhares de jovens!
Quem sou eu para pensar assim, frente a ti António, que lá andas-te, durante tanto tempo. Felizmente nada te aconteceu!

Parabéns, um bom momento de leitura.

Bjs,

GR

11:16 da tarde  
Blogger Papoila said...

Olá António:
Um tema que considero corajoso teres tcado. Parece que ninguém quer falar disso... Estive na guerra em Angola casada com um oficial miliciano médico que não teve adiamento por se ter casado comigo (perigosa associativista académica). Vivi em Moçambique até 1978.
Ainda é doloroso falar de algumas situações.
Oxalá não seja necessário voltar a tornar obrigatório o serviço militar por razões belicistas.
Beijo

11:17 da tarde  
Blogger margusta said...

Querido António,
...acredito que a tropa fazia os nossos homens " mais homens", e para isso basta-me fazer a comparação entre e não digo os jovens de agora , mas os homens que conheço na casa dos 40 e dos 50 anos, e existe uma maneira de estar na vida e de encarar as coisas muito diferente...
Eu acho que quem foi militar e atenção estou a falar das pessoas que conheço têm muito mais garra!...
Uma instrução nem que fosse de 6 meses, acho que não fazia mal nenhum aos nossos rapazes e olha que tenho 3..lol...mas sem pensar em guerra isso não...

Quanto á guerra colonial era ainda pequenita mas lembro perfeitamente das lágrimas da minha mãe , pois tive um irmão em Angola e outro na Guiné.Vieram bem graças a Deus.

Lembro-me das noites de Verão isto já depois do meu irmão mais velho voltar de Angola nos contar as histórias lá vividas e nos mostrar os inúmeros slides e fotos que por lá fez.Bom e depois dele voltar lá pude eu cortar as trançinhas...lol..ele é meu padrinho de baptismo e a minha mãe lá me ionvcluíu na promessa para ele voltar em bem que eu não cortava o cabelo na sua ausência..lol...


Beijinhos para ti muitos!

Ah....já pensas-te em abrir um consultório de psicanálise ;) penso que te safavas muito bem..sabes ao que me refiro :)))

11:53 da tarde  
Anonymous Fatyly said...

para "gr"...precisamente tocaste em algo que não se via...mas eu do lado de lá vi, senti e ouvi essas lágimas, esses gritos contidos, as cartas que nos pediam para ser enviadas, e a cumplicidade de tantos jovens perdidos num contentor de grandes dimensões(Angola) quando tinham saído de uma caixinha de fósforos(Portugal). Também havia coisas boas mas infelizmente para muitos prevaleceram as más. A salvo e já de regresso também havia o exagero... que ao verem uma formiga contavam com ar de heróis que tinham morto uma manada de elefantes.
A tropa é de facto uma escola de educação, cumprimento de regras, blá, blá...manual de instrução que deveria ser inserido por milagre da natureza aos pais na hora em que nascemos.
A todos os jovens militares que ainda hoje são enviados para as guerras, sem cor, nacionalidade ou credo...o meu maior respeito!

9:09 da manhã  
Blogger Paula Raposo said...

Um texto sóbrio. Gostei. Beijos.

10:02 da manhã  
Blogger António said...

Para "gr":
Obrigado pelo teu excelente comentário.
Deixa-me só fazer um pequeno esclarecimento:
quando escrevi "experiência pessoalmente enriquecedora" estava a referir-me fundamentalmente ao aprofundamento que se tem do homem e dos seus comportamentos. É enriquecedora fundamentalmente neste aspecto, embora noutros também o seja, naturalmente.

Beijinhos

1:28 da tarde  
Blogger hodiguitria said...

Enquanto isso não acontece fazem-se reality shows baseados na vida militar...será benéfico para a Instituição? Quanto à Guerra Colonial...não comento: o meu pai esteve lá e, graças a Deus, voltou, mas muitos não tiveram a mesma sorte.

3:10 da tarde  
Blogger Lmatta said...

Gostei do teu teixto
beijos

6:51 da tarde  
Blogger Caiê said...

Se eu vivesse em Israel, também iria à tropa dado que lá o serviço militar é obrigatório (também) para as mulheres. Não me consigo imaginar no exército, livra! Mas imagino-me bem na marinha! ahahahah! Seguia a tradição familiar!

10:39 da tarde  
Blogger Anjinha said...

OWaaaaaaaa :o)

Passei só para desejar um optimo fim de semana :o)

Beijinho

10:52 da tarde  
Blogger APC said...

"Mas as coisas são como são e um dia, não sei quando, uma guerra qualquer provavelmente obrigará os responsáveis pela nação a reintroduzir o Serviço Militar Obrigatório" (cit).
... Talvez que não; a Suissa não tem estado nada mal como está!
No entanto, isso que dizes, da tropa enquanto oportunidade de excepção para os indivíduos se tornarem mais "crescidos" (mais maduros, mais capazes) não deixa de ter o que se lhe diga, pois claro. O cumprimento de regras, a adaptação a papéis e a situações extremas, a partilha e a camaragem, a noção de grupo, a responsabilidade por si e pelos outros... Tudo isto eleva a aquisição de competências pessoais e sociais imprescindíveis, sem dúvida. Todavia, se o necessário é formação e treino-limite, estamos a falar numa língua; se queremos mandar a miudagem (e reparo que falaste só nos rapazes) toda para a tropa sem qualquer necessidade real de militarização, já é outra conversa.
Mas, a bem dizer, nem me apetece tê-la, hoje. Primeiro, porque me confesso insuficientemente documentada para poder ter uma opinião de algum valor; depois porque opero como formadora civil no seio das forças armadas e policiais e tenho mais contras que "a-favores" sobre diversas práticas que considero hoje ultrapassadas e mero "fogo-de-vista", e temo revelar-me levianamente injusta se me dedicar a uma apreciação geral da coisa no aqui-e-agora; depois sou "filha da guerra" (Moçambique) - e de quem a fez - e outros quinhentos me sairiam a despropósito e não sou menina de despropósitos (lol, e é que hoje nem parece!;-) e, por fim, ainda vagueio no comentário da Fatyly (riquíssimo e respeitável contributo!).
O teu texto, claro, está do melhor!
Um beijinho te deixo (do melhor também, heim?:-))

3:04 da manhã  
Anonymous Fatyly said...

apc...obrigado pela tua apreciação, mas o que escrevi foi apenas uma realidade vivida, que em termos de educação que recebi dos meus pais -respeitar tudo e todos para que nos respeitem - é bem dificil ajuizar o que se passou, passa e passará na mente de quem é mandado para as guerras, rapazes e raparigas.

Houve muitos casos que me marcaram, mas há um que ficou no meu coração. Não sei se já o contei mas deixo-o aqui para verem o tal lado da barricada que é ocultada ou esquecida pelos narradores de histórias: numa das visitas ao hospital militar, eu e um amigo meu, talvez os mais fortes do grupo ou por sermos, até hoje, dadores de sangue:), iamos à ala dos que raramente se safavam. Por vezes o estômago vinha à boca, mas eu sabia que para a maioria seria o último toque, o último carinho. Cheguamos e lá nos distribuimos pelas enfermarias, ou melhor...barracões! Logo que entrei só se ouvia uma voz naquele silêncio sepulcral...Carmo, oh Carmo! O Zé, enfermeiro disse-me: chegou ontem, está em coma mas não pára de chamar pela Carmo. Na documentação não fazemos a mínima ideia quem seja a Carmo! Fomos os dois com o Zé, abeirei-me da cama e aquele homem num rol de ligaduras de braço semi levantado, como a procurar e Carmo, oh Carmo! Abeirei-me, acariciei-lhe a cabeça, beijei-o na face sobre as ligaduras, dei-lhe a mão e disse: tou aqui, acalma-te, tou aqui. A mão dele apertou-se com toda a força na minha e começou a sossegar, a sossegar...que adormeceu.
Onde os seus dedos se apertaram fiquei com a mão negra , e o Zé lá me fez o curativo:):):)
Sentei-me nos degraus da camarata e disse ao meu amigo, vai tu que que tenho que respirar fundo.
Quando horas depois já de saída, nos portões da entrada, oiço o Zé...perem...e olhando para mim disse-me: Maria ...fulano já morreu e morreu tão tranquilo, obrigado e abraçou-me. Chorei, como choro quando me recordo
dessa que foi uma escola de vida, de um voluntariado sem precedentes, o lado reverso e oculto da moeda mais nojenta: a guerra!
Mas também tivemos casos hilariantes com tantos militares que graças a Deus recuperaram e voltaram para Portugal ou ficaram em Angola porque era a terra deles.
Nunca fui lamechas, sempre fui à luta pela vida...mas eduquei as minhas filhas...que na vida nada se faz sem trabalho, garra, humanismo e sobretudo viver um dia de cada vez, tirando sempre o lado positivo das coisas...porque a VIDA é a melhor recruta que temos!

Quando vou dar sangue...passo por enfermarias...um olá, um beijo, um carinho...a tanta gente SÓ...acho que faz bem a quem recebe, como me faz bem a mim! Hoje eles...amanhã quem sabe senão serei eu...hem?

Desculpem uma vez mais e em especial a ti António por "abusar" deste teu espaço.

Beijocas e venha de lá mais histórias da tropa, porque se o foste deves ter carradas!!!!

11:27 da manhã  
Blogger António said...

Para "apc":
Obrigado pelo teu já habitual e precioso contributo.
Só quero deixar uma ressalva.
Eu só falei nos rapazes porque o SMO sempre foi só para rapazes.
As raparigas que foram integradas nas Forças Armadas fizeram-no voluntariamente.

Beijinhos

2:21 da tarde  
Blogger António said...

Para "fatyly":
Bonito e comovente este teu último depoimento.
Mas deixa-me perguntar-te?
Porque não crias o teu blog e nele contas as tuas histórias de vida (e de morte) e outras?
Aqui, ficam escondidas, praticamente invisíveis a quem circula pelos blogs, e é uma pena.
Quanto às minhas histórias da tropa, já fiz muitos posts com as experiências por mim vividas.
Estão lá mais para trás, também já um tanto escondidas.

Beijinhos

2:33 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

desta vez sou eu que venho dizer-te obrigado pelo teu comentario. desta vez nao havia ironia, rss
mas para a semana há e de que maneira. penso que sabes que "de improviso" nao tem nada de improvio. faço tudo com relativa antecedencia.
assim ja o titulo do blog é uma ironia, rss

pensei em apanhar uma historia nova da tua parte. amanha ou depois, certamente.

abraço da leonoreta

10:13 da tarde  
Anonymous Fatyly said...

António...não crio porque além da falta de geito, o tempo é doseado pelos mais diversos afazeres e esse seria um acréscimo porque nem sempre posso ou apetece vir até aqui:):):)

Já li quase todas as tuas...escondidas lá para trás...e as minhas embora verdadeiras, conto-as a talho de foiçe...sempre na continuidade de um tema exposto por alguém.

Um bom fim de semana

10:58 da tarde  
Blogger SaltaPocinhas said...

A tropa não deve ser obrigatória, foi uma boa medida.
Mas conheço muitos meninos que andam a passear os livros pelas escolas secundárias ou pelos primeiros anos de universidade a quem fazia muito bem passarem por lá uns meses! Fazia-lhes bem!

11:44 da tarde  
Blogger APC said...

Certo, certo, certo... Bem sei que estamos a falar do Serviço Militar que era e deixou de ser Obrigatório, porém:

- Se a tropa é uma importante fonte de experiências e competências importantes;
- Se quem a fez, dela guarda a memória de um tempo de eleição;
- Se é possível que um dia venhamos a precisar de um contingente militarizado e etc...
Porque vês com bons olhos o regresso à obrigatoriedade da rapaziada mas não da "raparigada" (lol)? Eis a pergunta desta tua "blogalistada"!!!
Bom... Até eu já me estou a rir com o que receio parecer impertinência [daqui a nada tou "como o outro"! E, tanto vai parecento, que às tantas é!;-) Mas a intenção é sempre das melhores, e eu sei que sabes disso.
E pronto, agora vou agradecer-te, já sabes... Mão pode falhar (!):
"Obrigada pelo teu comentário no meu blog"! Eheheheheh ;-))))

2:20 da manhã  
Blogger APC said...

Fatyly... Obrigada!
Belo gesto (o de ontem, o de hoje e, acredito, os de amanhã).
:-*

E "tanta gente só" nos momentos mais frágeis da vida, pois é!
Em gaiata eu já tinha uma certa tendência para visitar alguns lugares "meio estranhos", como o Hospital Júlio de Matos, por exemplo (sem saber que os caminhos me lá levariam tempos mais tarde), mas uma coisa faço há algum tempo e aqui me confesso: por vezes, quando tenho que trabalhar no PC até tarde e, ao fim da noite, já só sobra um pedacinho para beber um café rápido e está quase tudo fechado, eu e o meu parceiro vamos tirar um cafezito de máquina, ora às bombas de gazolina (e bebêmo-lo no carro), ora ao Hospital Fernanda Fonseca (vulgo Amadora-Sintra)... Não lhe acho bizarria alguma e, ali à porta das urgências, a ver chegarem as ambulâncias, tenho observado e pensado muita coisa acerca dos cuidados e do apoio psicológico que se prestam em momentos de crise individual.
Como fico cá fora (logicamente), apanho muito pouco, mas duas coisas me afligem sobretudo: precisamente a solidão que algumas pessoas levam consigo quando ali entram, assustadas, sem saber se aquele ataque cardíaco lhes tirará a vida, por exemplo; e o desespero dos que cá ficam fora (pais, filhos, companheiros...).
Isto também não vinha nada a propósito, mas aconteceu-me a vontade de o partilhar, pronto!

Agora, outra (apenas "porque sim"): o meu bom amigo "X" tem agora 59 anos e, reformado que está, leva uma vida muito interessante, entre as ervas medicinais a que se dedica de corpo e alma, as formações sobre agricultura biológica e outras em que participa, os seus projectos de voluntariado em Angola, já em marcha e para valer ainda este ano, etc. Porque vos falo dele? Porque é ex-combatente e ainda hoje a imagem de uma emboscada por ele liderada, e onde viu morrer a maioria dos homens do seu grupo, não lhe sai da cabeça. Curioso é também que, não sendo sequer nascida nessa época, eu viesse a testemunhar as suas marcas matreiras nos dias de hoje: não faz muito tempo, ele foi hospitalizado, deixando-me com o coração nas mãos. Detritos da granada que aos 21 anos lhe entraram pelo corpo deixando-o seis meses imóvel na cama de um hospital foram-se deslocando... O joelho foi submetido a uma cirurgia arriscada, ou a pernaria deixaria de se mexer. Mas fica por retirar outro pedaço bem traiçoeiro... É que, tendo em conta o local do cérebro onde se alojou, não se consegue prever com exactidão, as consequências de operar ou de deixar ficar, temendo-se ambas.
Aqui fica também, em jeito de homenagem. Uma guerra... Tanto sofrimento, quantas vidas perdidas, injustiçadas, outras lixadas, esquecidas ou lembradas...
Pronto, era só!

O António perdoa-me, não perdoas António? Mais que não seja porque és um querido! :-)

2:50 da manhã  
Blogger APC said...

* Não (e não "mão); perna (e não "pernaria:-|

2:52 da manhã  
Anonymous Ranhette said...

Ah bom! Tu est de vacances encore? Tu vas espatifê tout l'argent que malandrin te donnê.

Ranhette

9:30 da manhã  
Blogger António said...

Para "fatyly":
Minha amiga!
Tu é que sabes...mas tenho pena, pois pressinto que terias muitas coisas interessantes para nos contar.

Beijinhos

9:57 da manhã  
Blogger António said...

Para "fatyly" e "apc":
Estou a pensar criar um blog para lá transcrever as vossas histórias...eh eh.
Estejam há vontade!
Este espaço é para ser utilizado como entenderem os leitores.
(salvo o spam e as grosserias que vão para o lixo)

Beijos para as duas.

10:11 da manhã  
Blogger António said...

Para "apc":
Escreveste ali em cima:

"- Se a tropa é uma importante fonte de experiências e competências importantes;
- Se quem a fez, dela guarda a memória de um tempo de eleição;
- Se é possível que um dia venhamos a precisar de um contingente militarizado e etc...
Porque vês com bons olhos o regresso à obrigatoriedade da rapaziada mas não da "raparigada" (lol)? Eis a pergunta desta tua "blogalistada"!!!".

Devo acentuar que, no meu texto, não faço a defesa do SMO.
Limito-me a fazer uma rectrospectiva do mesmo (ao estilo de memórias) e a salientar alguns aspectos positivos que ele tinha, sobretudo para alguns indivíduos.
Para mim foi uma grande experência humana mas um atraso de 3 anos, profissionalmente.
Sobre um SMO também para mulheres...nunca pensei nisso, mas acho que só existe em Israel (por razões compreensíveis).
Portanto...

Beijinhos

10:24 da manhã  
Anonymous Fatyly said...

apc...o teu maridão é um dos muitos"marcados" dessa malfadada guerra e algum governo se preocupou com o amainar dessas marcas? Salvo raras excepções julgo que sim! A minha solidariedade e vai correr tudo bem porque o seu "voluntariado e cultura de ervas medicinais" necessitam muito dele, aqui, lá o acolá! Força aí porque quem bebeu água do Bengo supera as raízes do medo e acredita sempre num SIM!
Hospital Amadora-Sintra, o meu e vezes sem conta...tal como tu...vejo o procurar/aflitivo/espera desse cenário. Digam o disserem, para mim é um dos melhores hospitais.

As minhas duas últimas aflições...o nascimento das minhas duas netas que são lindas como a avó heheheheheh

Mas conheço os que pela noite, quer ali quer noutro por ex.S.José procuram um lugar para dormir.

A tropa só seria benéfica para a rapaziada e raparigada...se fosse para jogar ao berlinde, malha, saltar à corda, corridas de carros de rolamentos, ao lenço ou simplesmente à macaca...porque substitua a play-stations...ohhhhhh mãe quero o telemóvel XPTO, as discotecas de bate panelas e por aí fora....gargalhadas!!!! Até os reformados teriam fazer de novo a recruta:):):), ai ai se eu pudesse rapava à escovinha o penacho do V.Loureiro, ao Rosa Coutinho punha-lhe uma pasta de múcua, cajú e gindungo...e mais não digo senão vou borda fora:):):):):):):)

Esta tropa vai longa, oh António...e em dar por isso já comi a cesta de pitangas, mangas, goiabas, tambarinos e maboques. Não conhecem? procurem que é super bom!

apc...força e em frente marche...quem se mete com António é o que dá...um blogue???? balha-me Nª.Srª. da Muxima ou do Monte ou o kimbandeiro mais perto!!!!

Munguénê e ou inté...vou agorinha no Kurikutelacom uma baita de um sorriso nos xipala:)::):)

10:40 da manhã  
Blogger PF said...

Gostei muito desta tua reflexão sobre a tropa.
Concordo com muitas das coisas que dizes, principalmente o simbolismo que a tropa tinha de corte com a meninice, com os pais e emancipação dos jovens!
De facto, hoje tudo está banalizado, desde o amor à guerra... mas sinceramente também sou da opinião que a tropa deveria continuar obrigatória, pelo menos para quem não tivesse uma boa justificação para se livrar. E, não digo isto pela defesa do país, em si, mas sim pelo amadurecimento dos jovens que hoje em diz parecem mais irresponsáveis que nunca.
Perderam-se valores porque também não se vivem experiências marcantas como outrora, não concordas, António?
Antes passava-se fome, trabalhava-se desde a juventude tenra, ajudava-se os pais para sobreviver e trazer o pão para casa, ganhava-se um par de sapatos para calçar aos Domiingos.... enfim...eras tempos duros, segundo o meu pai testemunha, porém, as pessoas jovens tornavam-se mais adultas, mais sensatas e responsáveis, com uma noçao muito diferente da vida e do seu valor.
Hoje parece que vivemos um tempo, nao de liberdade, mas sim de libertinagem...em que ospais não têm tempo para formar os filhos e compram-nos dando tudo o que eles pedem.... quem serão os governantes do futuro? Que bases e maturidade terão os pais do amanhã?
Confesso que é um pouco assustador, para mim, pensar nestas questões...
Bom texto, como sempre!
Parabéns

12:25 da tarde  
Blogger António said...

Para "fatyly":
Será que percebi bem?
Estás a pensar na possibilidade de criar um blog?

Beijinhos

1:24 da tarde  
Blogger APC said...

António: muito obrigada, e, uma vez mais, desculpa o abuso. E olha: para além da concórdia prévia, ainda encontrei mais duas: no "antes não fosse preciso" e nos beijinhos! Eheheh :-)
Quem sabe, num próximo conto teu, a Cátia é uma guerrilheira?;-)))

Fatyly: "maridão"?... Lololol... Não, nada disso; mão seria o meu querido amigo a ter que aturar uma mulher destas, eheheheh. Já teve a sua dose; aliás, uma mulher fantástica. Cria lá o blog (que ele está a fazer o mesmo "sob ameaça";-) e logo se trocam galhardetes!:-)))

3:42 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

fico á espera e curiosa pela tu novela. da maneira como és preciso na caracterização dos personagens tanto fisica como psicologica e... socialmente, imagino a "trabalheira" que nao tens tido para que tudo saia no minimo perfeito.

abraço da leonoreta

4:27 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

O Orlando Dias Agudo lança um desafio aos escritores... veja em http://cemhora.blogspot.com

5:03 da tarde  
Blogger Peter said...

É como dizes:

"curiosamente, constato que quem pior fala dela são os que nunca lá estiveram. Provavelmente, ter-lhes-ía feito muito bem passar uma temporada a aprender a obedecer e a desenrascar-se.
Os que lá estiveram acabam por, em muitos casos, a considerar uma experiência pessoalmente enriquecedora."

Mais nada!

10:44 da tarde  
Anonymous Fatyly said...

Eu não vou criar blogue nenhum e desculpa essa do maridão oh apc...mas foi pelo teu comentário "parceiro"...
e tou prontinha para ir à tropa, aceitam-se recrutas fora da validade???? é que é já a seguirLOLLLLLL

Beijos e desculpem o incómodo desta troca de opiniões

10:56 da tarde  
Anonymous tb said...

Um assunto que dava para escrever sem fim.
Espero que não seja necessário, António.
A guerra apenas aproveita aos que dela não morrem, nem lá põem os pés. Comandam do alto das suas torres...
Beijinhos

3:34 da tarde  

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