Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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sexta-feira, setembro 15, 2006

Diálogos de gente (XVIII) (O impertinente)

- Oh homem! Porque não vestes uma roupa mais nova? Andas sempre que pareces um pedinte!
Quem assim falava era Amália Dias para o seu marido.
- Com esta é que eu me sinto bem – respondeu o Humberto.
- Eu sei! Mas vais fazer uma figura triste a casa do Horácio. Podias fazer-me a vontade! – insistiu a mulher.
- Olha! Já estás pronta? – mudou de assunto o homem.
- É só pegar na carteira...pronto!
E encaminhou-se para fora do quarto em direcção da porta da casa onde moravam, seguida pelo marido que já tirara o carro da garagem.
- Vamos então andando! – disse ele.
E saíram de casa dirigindo-se para a viatura onde Humberto tomou o lugar do condutor.
- Tinhas-me dito que hoje conduzia eu. – recordou a mulher – Senão qualquer dia nem sei guiar.
- Hoje levo eu o carro.
E ao dizer isto, ele ligou o motor.
- Quero ver quando é que eu guio um bocado. Mas o melhor é dizer-te que não quero guiar para tu me dizeres para ser eu a fazê-lo. Tens cá um espírito de contradição! – desabafou a Amália.
E continuou:
- E não estejas sempre a contrariar o Horácio e a Graça, ouviste? Eu nem sei porque é que eles ainda nos convidam. Tu chegas lá e contradizes tudo o que eles dizem!
- Estás a ver? Se eu fosse como tu dizes eles não nos convidavam para passar lá a tarde e lanchar. Se o fazem é porque somos boa companhia – argumentou o Berto.
- Pronto! Está bem! Oh...vais por esse lado? É o mais longo...
- Assim damos um passeio maior – justificou-se o Dias.
- Já que queres dar um passeio maior, podíamos ir pela marginal – sugeriu a mulher.
- Pela marginal demora muito. Por aqui é melhor! – decidiu o homem.
Passados uns quinze minutos, chegaram a casa do Horácio e da Graça Mendonça.
- Tens ali um lugar à sombra! – indicou ela.
- É melhor parar agora ao sol porque quando sairmos o carro está à sombra. – optou ele – Além disso o ar condicionado é para ser utilizado..
- Seja feita a tua vontade, ámen! – resignou-se a mulher.
O casal andava na casa dos quarenta e tinham um filho, André, que tinha agora 18 anos e não gostava muito de acompanhar os pais. Nomeadamente o pai que considerava um chato insuportável.
Bateram à porta do apartamento onde habitava o casal que os convidara a passar a tarde.
- Sou eu, o Humberto! – falou para o intercomunicador.
- Podias dizer que éramos nós – resmungou baixinho a esposa.
Subiram no elevador até ao 4º andar e ao abrir-se a porta depararam com o casal que os aguardava.
Saudaram-se como é da praxe e os quatro foram instalar-se na sala.
- Oh Berto! Queres acompanhar-me a beber um whisky? – perguntou o Horácio.
- Prefiro uma aguardente bagaceira, uma Carvalho, Ribeiro & Ferreira.
- Muito bem! É para já!
E o anfitrião, gentilmente, serviu o visitante.
- Muito obrigado, pá! Esta é muito boa! – agradeceu o Humberto.
Entretanto as senhoras já conversavam sobre um assunto qualquer.
- As nossas mulheres já estão a ter aquela conversa cultural do costume: telenovelas, roupas, fofocas sobre conhecidos e desconhecidos, tempo, empregadas, vizinhos – desdenhou o impertinente funcionário superior dos CTT.
- Sentem-se bem a falar sobre isso...deixá-las! – amenizou o dono da casa.
- É por isso que este país é como é! Que falta de nível! – insistiu o chato.
- Nós também falamos muitas vezes de coisas fúteis, como futebol.
- Mas futebol não é um tema fútil! É o desporto nacional que de vez em quando, por um bambúrrio, faz alguma figura internacional – disse o convidado.
- Não é só sorte! E nem só em futebol temos coisas boas – corrigiu o Horácio.
- Pois! Somos bons em quasi tudo. Até o Prémio Nobel da Literatura não sabe fazer a pontuação! – implicou de novo.
A conversa prosseguiu sempre no mesmo tom, com o Humberto Dias a dizer mal de tudo e todos e a revelar-se um interlocutor intragável.
- E vocês tem a sorte de não ter filhos! Senão é que viam como é a juventude de agora. Uma coisa horrível! – disse, a certa altura, o Berto.
- Oh pá! Sabes muito bem que temos um grande desgosto por não ter filhos. Às vezes podias conter-te um pouco nas tuas afirmações – afirmou, um tanto agastado, o Mendonça.
- Também achas que sou um chato e um impertinente e não sei que mais? – perguntou, irritado, o Dias.
- Acho! Acho eu e acha toda a gente! – atirou-lhe o anfitrião.
- Ah sim? Então porque me convidas para cá vir? – disse, ufano, o contraditor.
- Queres que te explique? Então eu faço-o com muito gosto! – avançou o Horácio, enquanto olhava para as duas mulheres que tinham parado a conversa para ver no que dava o desaguisado – Em primeiro lugar, para permitir que a tua mulher passe uma tarde mais agradável e não tenha que te aturar sozinha. Em segundo, porque nem imaginas o que nos rimos cá em casa os dois, depois de saíres, com as tuas afirmações.
E Amália não pode conter-se, gargalhou alto e disse para o seu marido.
- Agora já sabes porque somos convidados!

33 Comments:

Blogger Mushroomdeluxe said...

Esta leitura, com um pouco de jazz em fundo, poderia ser uma cena num filme do Woody Allen. :))

11:32 da tarde  
Blogger Paulo Sempre said...

Bem...é mesmo para rir....
Obrigado
Paulo

12:07 da manhã  
Blogger margusta said...

Existem muitos Humbertos por aí...infelizmente conheço alguns...
Grande Horácio..lol...Gostei!!!

Como estás tu meu amigo?...Tudo bem?


Beijinhos muitos para ti e um bom fim de semana!

12:45 da manhã  
Blogger Leonor C.(nokinhas) said...

Bem descrito um indivíduo do "contra"! Qualquer coisa dá para embirrar. Vá lá que pelo menos o bagaço era bom! Devia ser instituído o prémio nobel da paciência pois muita gente o merecia. Gostei do desfecho porque foi merecido, masolha que indivíduos assim não têm emenda pois está-lhes no sangue! Há mulheres que aturam muito. E homens também porque certas mulheres não ficam atrás!

Bom fim de semana

8:45 da manhã  
Anonymous Fatyly said...

Li, reli e tornei a ler. Engraçado que neste texto suscitou-me o inverso...ela é que é uma impertinente do caraças, tratando-o como uma criancinha- muda a camisola, veste aquelas calças, vai por ali, faz isto...mais isto que pachorraaaaaaaaaaaaaa:)e os amigos talvez riam-se depois de ver e ouvir o monólogo:) dos dois! O filho acha que o pai é um chato, mas com 18 anos todos os consideram, salvo raras excepções...porque atravessam a fase do sabem tudo:):):):)

Não quero no entanto dizer que todos os homens são uns santos...mas aqui sou a favor do Sr.Berto...heheheheh

Gostei e fartei-me de rir!!! Parabéns, beijos ao Sr.Berto e para ti e os teus um bom fim de semana!

Podem bater-me à vontade:):):)

10:28 da manhã  
Blogger António said...

Para "fatyly":
Olá!
De facto a mulher também é uma chatinha!
Cheguei em pensar em dar ao diálogo o título de "Os chatos".
Mas ele é bem pior: é propositadamente do contra, é impertinente, insuportável.
Ela não se quer deixar comandar totalmente e não quer deixar que ele a anule, acabando por ser uma chata.
Obrigado pelo comentário perspicaz.

Beijinhos

1:05 da tarde  
Blogger Paula Raposo said...

Ena, António!! Impertinente do raio do homem!! Adorei o diálogo, adorei o desfecho!! Beijinhos.

1:10 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

o impertinente ou os impertinentes?

falta de tacto da mulher. já que ela quer que ele estacione á sombra é melhor dizer-lhe para ele estacionar ao sol e assim sem ele saber está a fazer-lhe a vontade. com papas e bolos...

abraço da leonoreta

1:56 da tarde  
Anonymous GR said...

António,

Incrível!
Mais um retrato fiel, do homem português nascido nos anos 40.
O senhor sabe tudo! Sempre aborrecido! Contraria tudo e todos!
Nunca está bem nem com os amigos, nem nos locais (sejam eles quais forem), nem com a família. Todos dizem e fazem disparates, menos ele. É sempre detentor da verdade e da razão! Grande sofrimento aqueles que vivem com esta “espécie”.
Ainda bem que estão em extinção!
Ainda bem que o casal amigo não é hipócrita e lhe vai dizendo as verdades!
Gostei muito do texto!
Cada vez as tuas narrativas, são mais envolventes.

Bjs,

GR

2:35 da tarde  
Blogger Papoila said...

Delirante! Delirante! Ri com prazer.
Parabéns António.
Beijo

2:53 da tarde  
Anonymous tb said...

por acaso também acho que são os dois. E abundam os espécimes, tanto masculinos como femininos...
A tua arte de os descrever, está sempre sem chatice nenhuma!... :)
Jinhos

5:06 da tarde  
Blogger Caiê said...

Quem diz o que quer... ouve o que não quer! :)

8:45 da tarde  
Blogger António said...

Para "GR":
Olá, Guida!
Obrigado por mais este comentário, fidelíssima leitora.

Beijinhos

9:47 da tarde  
Blogger Anjinha said...

Owa :o)

Lololol e nao é que o homem é mesmo chato??? lololol
mas está muito fixe :o)

Beijinho e bom fim de semana

10:30 da tarde  
Blogger APC said...

Eheheheheheh :-)))

De onde irá este homem tirar estas inspirações, caramba? ;-)

Um beijinho!

1:55 da manhã  
Blogger magarça said...

Até os impertinentes fazem falta, nem que seja para alegrar o serão dos amigos :). Este texto deu-me a primeira gargalhada do dia.

12:40 da tarde  
Anonymous Ana Joana said...

Olá António,

Grrrrrrrr, que tipos chatos estes "contras" cinzentões, azedos com a vida. Conheço bem demais....

Mais uma boa descrição.

Beijinhos
Ana Joana

2:50 da tarde  
Blogger António said...

Para "ana joana":
Bem re(aparecida)!
É sempre um prazer sentir-te por aqui.

Beijinhos

3:40 da tarde  
Blogger Peter said...

Cenas do quotidiano, sempre bem retratadas, então o final é magnífico.

4:06 da tarde  
Blogger Rosa Silvestre said...

Cenas de um casal de "chatos", aborrecidos com a vida, fazem-me recordar um casal de tios, é mesmo para rir...Parabéns, gostei do blog!

4:18 da tarde  
Blogger amita said...

Loool. São mesmo uns chatos. Ele porque faz parte da sua natureza, ela porque foi contagiada, sendo também uma defesa. Um final excelente e muito merecido.
Bjinhos

6:19 da tarde  
Blogger wind said...

Como estou de poucas palavras ultimamente, excelente como é teu costume, e o Dias é mesmo intragável credo!:)
beijos

10:06 da tarde  
Blogger BlueShell said...

Continuas em "alta" , meu amigo!

beijo azul...de uma concha que ...por ser azul...é diferente das demais!

BlueShell

4:54 da tarde  
Anonymous Cris said...

Bolas!
Vou daqui danada!
Então pões-me aqueles dois cromos nos quarenta????
Grunnnnnnffff!!!!

E, isto, é por ser aqui, ouviste?
Se fosse lá em casa, ias ver o que te dizia!


Rssss!!!!

És um pratinho cheio, António!
Beijitos!
Já me fartei de rir!
Tinha saudades, acredita!
Haja Deus que perceba de informática, que me pôs o pc como novo :-)

PS: Sou mãe caloira, sabias? A Maria João já está a ser praxada!
Coitadita! Até dói!
Aqui em Braga´os "doutores" não têm dó nem piedade!
Mal os desgraçados dos caloiros põem o pé na universidade já estão a levar pela medida grande.
Mas ela está tão feliz e eu tão vaidosa que não resisti a contar-te.
Desculpem a imodestia mas estou tão vaidosa que não resisti! Eheheheh!

8:24 da tarde  
Blogger MT said...

Quero acreditar que a tua ideia do que as mulheres falam seja diferente de : "As nossas mulheres já estão a ter aquela conversa cultural do costume: telenovelas, roupas, fofocas sobre conhecidos e desconhecidos, tempo, empregadas, vizinhos – desdenhou o impertinente funcionário superior dos CTT."
Tirando esta parte, gostei imenso.

Beijinhos

1:08 da manhã  
Blogger a sua vizinha said...

Esse é mesmo retorcido! Ainda bem que não me calhou um assim pela porta, chiça! Às vezes digo mal dos homens,mas não há regra sem excepção! A propósito, vizinho, não sei o que me deu... não estou nada boa...

Beijinhos

10:51 da manhã  
Blogger hodiguitria said...

:) Muito bem engendrada a história, gostei!

2:14 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Quantas vezes , quantas vezes mesmo , istyo acontece precisamente assim. Está bem imaginado, parabéns!
Intemporal.blogs.sapo.pt

4:00 da tarde  
Blogger margusta said...

Querido António,
...passo para te deixar um beijinho e agradecer o teu ultimo comentário...

Aliás adoro todos os teus comentários :))) acho que me compreendes sempre na perfeição. É como se lesses nas entrelinhas daquilo que escrevo...chegas sempre lá ;)...não fosses tu um capricorniano..

Fica bem meu amigo!

4:00 da tarde  
Blogger Lmatta said...

estou gostando
beijos

5:03 da tarde  
Blogger Ana Luar said...

Que grandes chatos os dois... mas confesso que me ri perante a impertinência do senhor.rsrsrrs O texto está o máximo parabéns.

9:12 da manhã  
Blogger Heloisa B.P said...

Como sempre EXCELENTE!_Iniciei a leitura sorrindo, fui aumentando a 2largura do sorriso2 e a meio ja' estava a gargalhada!
_destaco esta parte, mas todo o TEXTO E' PASIVEL DE SER DESTACAVEL!

"- Quero ver quando é que eu guio um bocado. Mas o melhor é dizer-te que não quero guiar para tu me dizeres para ser eu a fazê-lo. Tens cá um espírito de contradição! – desabafou a Amália.
E continuou:
- E não estejas sempre a contrariar o Horácio e a Graça, ouviste? Eu nem sei porque é que eles ainda nos convidam. Tu chegas lá e contradizes tudo o que eles dizem!
- Estás a ver? Se eu fosse como tu dizes eles não nos convidavam para passar lá a tarde e lanchar. Se o fazem é porque somos boa companhia – argumentou o Berto.
- Pronto! Está bem! Oh...vais por esse lado? É o mais longo...
- Assim damos um passeio maior – justificou-se o Dias.
- Já que queres dar um passeio maior, podíamos ir pela marginal – sugeriu a mulher.
- Pela marginal demora muito. Por aqui é melhor! – decidiu o homem.
Passados uns quinze minutos, chegaram a casa do Horácio e da Graça Mendonça.
- Tens ali um lugar à sombra! – indicou ela."
********************FANTASTICO!
E... saio de largo SORRISO!!!
Deixo-Lho em conjunto com meu Amigo ABRACO!
Heloisa.
************

10:36 da tarde  
Blogger Ana Maria said...

olá antónio Castilho.
obrigado pela leitura agradavel.

9:40 da manhã  

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