Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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Localização: Maia, Porto, Portugal

quarta-feira, junho 29, 2005

O Senhor Engenheiro

Podem ter acesso à minha Homepage (ou Página pessoal ou Webpage) a partir deste blog.
Quem já a visitou, pode ter lido que este vosso amigo licenciou-se em Engenharia Química, tendo feito a última cadeira em Outubro de 1972 mas, só depois de efectuado um estágio obrigatório de três meses é que me foi concedida a licenciatura. A certidão respectiva tem data de oito de Março de 1973.
E pensam que depois de ter o canudo – efectivamente tenho o diploma à moda antiga, feito à mão, escrito com letra gótica (?), em latim, sobre pergaminho e com um medalhão em prata pendente – passei a ter o direito de usar o título de Engenheiro?
Não!
Para isso é preciso estar inscrito na Ordem dos Engenheiros.

Conheço o caso de um velho professor catedrático que, atingida a idade própria, salvo erro os setenta anos, jubilou.
Era membro da Ordem mas, em face da nova situação, escreveu para lá a dizer que não pretendia continuar como associado.
Pois não querem saber que, alguns dias depois, recebe uma carta a dizer que o seu pedido de demissão tinha sido registado, mas lembrando-lhe que a partir desse momento não poderia usar mais o título profissional de Engenheiro?
Como pessoalmente nunca tive interesse nenhum em inscrever-me nessa associação, nunca tive direito a usar o título profissional.
Na prática, todavia, todos os licenciados são chamados de “Senhor Engenheiro”.
E não só. Os Engenheiros Técnicos também. E muita mais gente.
É de todos sabido a apetência que há por uma grande parte dos nossos compatriotas em ser chamado por Senhor Engenheiro ou Senhor Doutor (ou no feminino, claro está).
Na empresa onde trabalho, nomeadamente os fornecedores, tratam quasi toda a gente por Engenheiro. Quer o seja, quer o não seja. E não é que até hoje, só conheci uma pessoa que, perante tal “promoção”, dizia:
- Eu não sou engenheiro. Gostava muito de o ser, mas não sou, de facto – e soltava uma sonora gargalhada.
Todos os outros calam-se muito caladinhos e lá vem as cartas, os faxes, os e-mails, os telefonemas dirigidos ao Senhor Engenheiro Malaquias ou Barnabé que, muitas vezes nem um curso técnico completo tem.
Acho que isto revela bem a importância de se ter um título em Portugal.
Muitas vezes, quando telefono para determinado destino, depois de dizer o meu nome (Castilho Dias, nunca usando o título) a menina pergunta:
- O senhor é Engenheiro?
Naturalmente que eu respondo afirmativamente.
Pois nem imaginam como as deferências se multiplicam. E agora já não tanto, mas há vinte ou trinta anos, até metia dó.
Mas quero dizer-vos que tenho muito orgulho em ter feito o meu curso. Deu-me muita canseira e muito trabalho.
E até sabe bem ser tratado pelo título. Mas nunca fiz questão em ser chamado como tal. Quem quiser chama, quem não quiser não chama.

Bom!
Vinha isto a propósito de eu não poder usar oficialmente o título profissional.
Acontece que, por razões do interesse da empresa onde presto os meus serviços, recentemente pediram-me para me inscrevesse na Ordem.
Respondi que se a empresa tinha vantagem nisso eu estava disponível a inscrever-me, desde que a entidade patronal tratasse de tudo e tudo pagasse.
E assim foi feito.
Já recebi uma carta a dizer qual o meu número de membro da Ordem.
Portanto, minhas amigas e meus amigos, a partir deste momento muito respeitinho pelo Senhor Engenheiro.

sábado, junho 25, 2005

Sequestro

Outono de 1982. Viviam-se dias agradáveis, soalheiros.
Eu trabalhava numa empresa sita em Sobrado, no concelho de Valongo, desde Abril de 1979.
Fora criada em 1949, curiosamente o ano do meu nascimento.
Em 1980 foi comprada por um dos maiores grupos empresariais privados portugueses mas, ao contrário das expectativas de todos os que nela trabalhavam, continuou financeiramente debilitada. Ou ainda pior. Os ordenados já eram pagos aos soluços.
Pressentia-se que o fim estava próximo.
Uma das panaceias que a administração usou para tentar evitar o que já era inexorável foi determinar que no chamado sector têxtil, onde quasi só trabalhavam mulheres, em dois turnos, se fizesse uma alteração.
Os dois grupos de funcionárias laboravam alternadamente, isto é, um deles funcionava das seis às catorze, o outro das catorze às vinte e duas. E assim durante uma semana. Passado o fim-de-semana, as operárias trocavam de turno. As que trabalhavam de manhã passavam para a tarde e vice-versa.
Este sistema não tinha nenhuma vantagem especial para a empresa mas, como propiciava, de acordo com o contrato colectivo de trabalho, um suplemento salarial de vinte por cento, agradava às mulheres.
Ora a decisão da administração foi no sentido de acabar com essa alternância e, consequentemente, cessava o tal acréscimo no rendimento.
É bom de ver que as movimentações começaram logo que a mudança foi anunciada para vigorar a partir de determinada segunda-feira.
Dirigentes e delegados sindicais andavam numa roda-viva a travar mais uma luta contra a exploração do patronato.
Um plenário foi convocado. Para as duas horas e assim, aproveitando a mudança de turno, estariam lá as mulheres todas, que eram umas centenas.
Antes de ir dar uma espreitadela ao local da reunião eu, que na altura também era chefe de uma parte das colaboradoras abrangidas pela nova regra, passei pelos salões onde as máquinas estavam quasi todas paradas por ausência das operadoras.
E reparei que uma tal Margarida, jovem, anafada, loira de cabelo curto, mal educada, regateira e delegada sindical, por toda a gente conhecida por Mamuda, estava junto de uma operária. Achei a situação estranha e aproximei-me.
Constatei que a operadora estava a chorar devido às ameaças que a Mamuda lhe fazia por ela não ir ao plenário e se manter com a máquina a trabalhar.
Irritado com a situação, e depois de ter feito algumas perguntas para me certificar que não estava a interpretar mal o que acontecia, disse para a loira:
- Se esta sua colega pretende continuar a trabalhar, a senhora não tem o direito de a estar a importunar. Portanto, saia já daqui!
A delegada sindical ainda ripostou (pareceu-me ouvir qualquer coisa como fascista) mas repeti a ordem em tom mais altissonante e ela lá foi devagarinho para outro lado. Claro que fui atrás dela para evitar que repetisse a cena com mais duas ou três colegas que tinham resolvido continuar a trabalhar.
Daqui a pouco já vão perceber esta referência especial à Mamuda.

E chegamos à tal segunda-feira em que a nova regra iria começar a funcionar.
Como se previam problemas, o director fabril, Eng. Veiga, eu, os meus colegas Jacinto (de que já falei algumas vezes nos meus textos, embora na qualidade de amigo) e Lopes, bem como o Miranda, chefe do Pessoal, decidimos aparecer nas instalações fabris antes das seis.
E as mulheres compareceram ao trabalho. Mas a maioria eram do turno que deveria vir só de tarde. As que acataram a nova regra eram poucas.
Perante a situação, o director decidiu deixar que as coisas continuassem assim e tentar falar com alguém da administração, mais tarde, para combinar a forma de combater a falta de cumprimento do estipulado. Refira-se que a sede administrativa ficava no Porto e não em Sobrado.
Por volta das dez da manhã, já o Eng. Veiga tinha tentado contactar algum administrador, mas sem sucesso.
E então, algumas operárias, lideradas pela Guida Mamuda, deixaram o local de trabalho, entraram na zona de serviços, subiram as escadas de acesso ao gabinete do director e foram falar com ele no sentido de ser revogada a directiva.
Claro que o Veiga não tinha poderes para tal e disse isso às empregadas. Estas, melhor, a Mamuda afirmou então que não iriam para o trabalho sem a anulação da ordem.
Saíram do gabinete e postaram-se na escadaria que ficava uns trinta metros adiante.
Quando, passados alguns minutos o director veio indagar qual a causa do barulho que continuava a ouvir, mas ainda mais ampliado, deparou já com umas dezenas de funcionárias às quais se dirigiu.
Foi recebido com apupos e palavras de ordem (como é habitual nestes casos) e com a intimação de voltar para o gabinete e só sair de lá quando o problema estivesse resolvido.
O director fabril telefonou então para o Porto a informar que estava sequestrado e tinha de falar com algum administrador. Mas de qualquer deles, nem rasto…
Depois ligou para o Miranda e para os três chefes de produção (eu, o Jacinto e o Lopes) a contar o que se passara.
E fomo-nos mantendo em contacto telefónico. Administradores, nada! E o grupo de mulheres liderado pela fogosa peituda continuava na escadaria.
Antes de ir almoçar, resolvi ir ver como estava o engenheiro director. Passei pelo grupo de mulheres, falei com o meu chefe, saí e, quando ia atravessar o grupo contestatário, a Mamuda avançou para mim, empurrou o seu bem almofadado peito contra o meu e gritou:
- Não passa! Não passa!
E logo as outras, num afinado coro:
- Não passa! Não passa!
E regressei ao gabinete donde tinha acabado de sair.
Estava sequestrado.
Não fiquei atrapalhado. Numa primeira fase até achei certa graça. Sempre gostei de situações incomuns.
Telefonamos aos colegas para não irem lá acima sob pena de também ficarem retidos.
E o dia foi passando. Cigarros, estratégias, conversa, tácticas, telefonemas. Nada de comida nem de administradores. Só autorização para ir fazer xixi.
Telefonei à minha mulher que estava grávida de oito meses. Contei-lhe o que se passava.
Ficou aflita, como seria normal, mas fui-lhe dizendo que não havia perigo nenhum e que mais isto e mais aquilo; não queria que se incomodasse excessivamente.
A certa altura da tarde, entra o Miranda. Não aguentava sem nos vir ver. E lá ficou.
Três!
Com o passar das horas, a fome e as palavras de ordem que eram gritadas de vez em quando, as preocupações foram aumentando.
E se aquela horda entrasse por ali dentro e nos agredisse? Cheguei a pensar que ainda seria defenestrado como o Miguel de Vasconcelos.
Nenhum administrador apareceu na sede nesse dia. Estávamos furiosos com eles. A decisão fora de sua responsabilidade e agora deixavam o seu representante na fábrica sem protecção nenhuma. Ainda chamamos a polícia (ou a GNR) mas, como de costume, não adiantou nada.
A tarde aproximava-se do fim.
Era preciso fazer qualquer coisa.
E o Veiga foi chamar uma delegação de duas ou três trabalhadoras para vir falar com ele. Vieram umas trinta para dentro do gabinete. Tive algum medo do que poderia acontecer.
Já não me lembro do que foi dito. Lembro-me que, por volta das dez da noite, se chegou a um acordo. Acho que isso aconteceu porque as mulheres acabaram por perceber que o Veiga não tinha poderes para tomar a decisão que pretendiam e porque elas próprias se queriam ir embora.
E assim acabou o sequestro.
Telefonei imediatamente para casa. Aliás, durante todo esse período, várias vezes o fiz para sossegar a mulher e outros familiares que, entretanto, já tinham sabido da minha desconfortável situação.
Para vos falar francamente, acho que fiquei preso só porque a Guida Mamuda se quis vingar da minha atitude no salão de máquinas e que intencionalmente narrei mais acima.
Nos dias seguintes, progressivamente, as trabalhadoras começaram a cumprir a determinação da administração que, na terça-feira de manhã, finalmente deu sinal de si.
Os salários continuaram a chegar cada vez mais atrasados. Penso que essa foi umas das razões para desmotivar a luta das empregadas. Começaram a perceber que aquela empresa que dava sustento a tanta família (em muitos casos a famílias inteiras; pai, mãe e filhos) estava moribunda.
Lembro-me que um dia uma jovem operária me disse:
- Sabe? Nós nascemos para ser pobres.
Menos de um mês depois nasceu o meu filho.
Cerca de mês e meio mais tarde mudei para outra empresa.
Ainda nela trabalho e, ironia das ironias, foi também comprada pelo mesmo grupo empresarial. Mas desta vez a coisa está a correr bem! Uff…No início de Janeiro de 1983 as máquinas da CIFA-Companhia Industrial de Fibras Artificiais, SA, pararam. Para sempre.

terça-feira, junho 21, 2005

O Pérola Negra

O Pérola Negra é uma casa de diversão nocturna do Porto.
Diversão para homens, entenda-se.
Casa de alterne, de ataque e de actuações ao vivo.
Foi fundada nos anos sessenta, situando-se desde sempre na rua de Gonçalo Cristóvão, muito pertinho do cruzamento com a rua de Camões.
Fui lá muitas vezes. Ou só ou com amigos. Geralmente beber uma cervejola e ver o “show”. Pouco depois da revolução, especializou-se, durante vários anos, em espectáculos pornográficos em carne e osso. Mais carne do que osso, claro!
O fundador e proprietário, já falecido, fartou-se de fazer dinheiro.
Até de Lisboa vinha malta para ver como era e depois contar como foi.

Situemo-nos agora nos inícios dos anos oitenta.
Eu, o meu amigo Jacinto, de que já falei, nomeadamente aquando da estadia em Paris, e um outro grande amigalhaço, o Paulo, decidimos ir, com as respectivas consortes, fazer uma mariscada a Matosinhos.
Numa noite quente de verão.
Depois de bem comidos e bem bebidos, e recordo que naquele tempo ainda a GNR não usava os famosos balões para medir o nível de alcoolémia no sangue dos condutores, demos um pequeno passeio a pé junto ao mar.
Refrescava e ajudava a fazer a digestão.
Algum tempo depois resolvemos voltar para os carros.
- E que vamos fazer agora?
O habitual seria irmos para casa de um dos casais e tagarelar até às tantas.
Mas este vosso humilde escriba, teve uma ideia brilhante:
- E se fôssemos ao Pérola Negra?
- Grande ideia! – disse logo o Jacinto que era ainda mais louco do que eu.
O Paulo, menos dado a estas coisas da vida nocturna, ficou calado.
E as mulheres, depois de olharem umas para as outras responderam:
- Que horror! E se alguém nos vê? Pensem noutra coisa.
- E pode haver zaragata.
Mas não pude deixar de reparar que tinham um brilhozinho nos olhos, como diz a canção do Sérgio Godinho.
- Olhem que é uma oportunidade única. Vamos os seis e garanto que ninguém se mete connosco – disse eu.
- Claro! E indo com homens como nós ninguém vos vai importunar nem fazer propostas indecentes – apoiou o Jacinto.
Não foram precisos muitos mais argumentos.
A curiosidade de ver como era uma casa de meninas por dentro, a funcionar, e ainda por cima um “show” porno ao vivo, venceu todos os “mas”.
- Vamos lá! – disse a minha mulher.
- Então vamos! – disseram as outras.
O Paulo venceu o retraimento inicial.
E lá nos dirigimos ao famoso Pérola Negra.

O porteiro, velhote calmeirão, seguramente um reformado tendo ali um complemento monetário, quando nos viu e ouviu perguntar quanto custava a entrada para seis pessoas, fez uma cara de admiração. Estava habituado a ver as mulheres a entrar sozinhas e sair acompanhadas, mas entrarem acompanhadas era coisa rara, certamente.
Feito o pagamento que, como é normal nestas coisas, dava direito a algum consumo, descemos a larga escadaria e entramos na grande e mal iluminada sala.
A música gravada soava baixo, sem ferir os ouvidos.
Fomos recebidos com toda a deferência.
Escolhemos uma larga mesa não muito perto do “tableau” e sentamo-nos em confortáveis maples.
Vieram as bebidas e, conforme os olhos se iam adaptando ao escuro, as nossas acompanhantes puderam apreciar um prostíbulo em movimento.
As meretrizes estrategicamente dispersas pela sala, quasi todas sentadas, ou sozinhas ou aos pares. Os clientes mais afoitos faziam um chamamento discreto ou íam sentar-se junto da escolhida. Aos mais tímidos ou inexperientes era perguntado pelos empregados de mesa se pretendiam a companhia de uma menina. Outros chamavam os serventes e pediam um conselho sobre quais as raparigas com melhor desempenho. Muitas vezes, os funcionários levavam uma "dama" até à mesa de um cavalheiro para o entusiasmar. Mas a maioria não tinha nem queria companhia.
Os homens mais velhos eram alvo de mais atenções que os rapazotes. Por razões óbvias.
De quando em quando ouvia-se o pum do abrir de uma garrafa de champanhe ou de um espumante mais rasca.
De tempos a tempos saía um parzinho. Depois a menina voltava sozinha.
Tudo sob o olhar atento do patrão.
À uma da manhã começou o espectáculo, com um casal de dinamarqueses, ou lá o que eram, a ter relações sexuais para português ver.
Não deixo de admirar a descontracção dos homens que tem de fazer isto, em frente a um numeroso grupo de mirones, duas vezes por noite e sem fracassarem. E ainda não tinha sido sintetizado o Viagra!
Mas não era o que se passava no palco que despertava a curiosidade das nossas mulheres. Era o comportamento das meninas e dos clientes.
E a mim e aos dois compinchas era observar as nossas mulheres a olhar e cochichar.
Delicioso!
Quando saímos, elas confessaram que tinha sido uma experiência única (não esperava que dissessem que tinha sido uma experiência repetida). Acharam que as pessoas se comportavam muito bem (nem sempre, nem sempre, digo eu!). Mas o que mais as tinha surpreendido tinha sido o facto de as meretrizes não estarem vestidas em trajes ínfimos, com meias de rede, ligas à mostra e peitos impudicamente exibidos – deformação resultante do que viam no cinema, certamente – mas vestidas com toda a normalidade.
- Se visse alguma delas na rua diria que era uma moça que andava a estudar – comentou a minha cara-metade.
Pois é!
As aparências iludem!

sábado, junho 18, 2005

O cortador de carnes verdes

“Um dia vos falarei das minhas aventuras como comandante do Destacamento de Marinha do Cuando. Bom…o destacamento eram trezes homens, incluindo eu. E mais uma lancha de desembarque pequena. Mas que grande tropa eu ia comandar!”.
Foi assim que terminei o texto que publiquei aqui, no primeiro dia de Junho deste ano, com o título: Sobrevoando a savana

Estávamos no final de 1974.
O destacamento era constituído pelo comandante, um sargento, um cabo, cinco marinheiros e cinco grumetes.
Sabem o que distingue um marinheiro de um grumete?
O primeiro é o que fica aprovado no curso de uma das muitas especialidades existentes na Armada. O grumete é o que chumba.
Aprendam que eu não duro sempre!
Os dois meses que passei no Rivungo foram dos mais originais que se podem viver.
Esta povoação do Cuando-Cubango, situada nas margens do rio Cuando, tinha duas ruas. Dispostas em L. A maior era paralela ao rio, e teria uns cem metros. O quartel ficava situado na extremidade do L mais afastada da rua mais pequena, que devia ter cinquenta. Ambas tinham separador central (ora toma!) e eram em terra batida.
O nosso poiso era constituído por uma pequena construção em tijolo rebocado. Aí ficavam meia dúzia de divisões, sendo uma delas o meu quarto. O sargento e o cabo também aí tinham umas instalações tão pobres como a minha.

Havia ainda uma segunda construção relativamente sólida onde dormiam os outros dez bravos.
Um coberto onde um assalariado autóctone, o João Jacare cozinhava.
Um outro onde estava a mesa para se tomarem as refeições e havia dois frigoríficos a petróleo.
Tínhamos um galinheiro e uma pocilga.
Uma torre de vigia em madeira.
A lancha de desembarque (não que andássemos a treinar para invadir a Normandia, mas porque tendo fundo chato permitia navegar no estreito rio que tinha muitos bancos de areia) e, ainda, dois jeeps.
No aglomerado havia também um pequeno quartel do Exército (cerca de trinta homens, todos angolanos, dos quais só o alferes e dois furriéis eram brancos), a Administração de Posto, um pequeno hospital (que nunca funcionou), uma mini esquadra da Polícia com quatro agentes, a casa onde vivia o Sr. Lebre, mulato que administrava a localidade, a casa dos dois Pides, a do Camassango, um sujeito que era o responsável pela “investigação agrária” (o rapaz tinha um gira-discos com um som pior que horroroso, mas era com a sua música que lá fazíamos os bailes nocturnos duas ou três vezes por semana, com música africana, pois claro, senão as raparigas íam embora), a casa dos dois enfermeiros, negros e beberrões, e acho que não me esqueci de nada.
Uma coisa importante. Havia luz eléctrica. Água e saneamento é que nem pensar!
O resto eram cubatas feitas de terra seca com cobertura de folhas de uma árvore de que não sei o nome.
Nunca soube exactamente quantas pessoas ali viviam. Mas deviam ser muito mais de um milhar.
O avião que para lá me transportara, todas as semanas levava o correio, o jornal Expresso (um luxo onde eu lia as novidades da revolução) e a comida que só dava para quatro dias.
Para comer nos outros três era preciso ir para a savana caçar. E que boa carne saboreei! Até javali comi, qual Obélix!
Uma vez por mês, vinha pela picada um camião com as bebidas. Calhavam duas cervejas e um refrigerante a cada um, por dia. Alguns bebiam tudo numa semana, ou menos. Depois, tinham que se saciar com água tratada em filtros porosos ou compravam as bebidas engarrafadas aos que tinham espírito mais comercial.

Depois desta fastidiosa tentativa de vos explicar o que era o Rivungo, vou-vos falar do Lima.
Era um dos grumetes, natural do Minho, e que fora empregado num talho. Cortador de carnes verdes, portanto. Quando a falta de comida ou o insucesso nas caçadas exigiam que se matassem uns frangos ou uns leitões da nossa pecuária, era ele quem se encarregava de dar a facada letal e fazer o trabalho de talhante. E era impecável nessa função. Elemento imprescindível, portanto.
Uma manhã, entrava eu com as minhas calças de bombazina castanhas, sapatilhas em bota e T-shirt preta (nunca andávamos fardados, pois aquilo era uma tropa muito especial) na edificação onde ficavam os meus aposentos, e vi o Lima estendido no chão e outro dos nossos a dar-lhe bofetadas na cara.
Perante tal cena, engrossei a voz para ficar mais comandante e gritei:
- Mas que merda é esta? Larga imediatamente o rapaz!
O moço, cujo nome não recordo, olhou para mim com um ar assustado e disse:
- Ó senhor tenente! Eu não lhe estou a bater. Foi ele que desmaiou e estou a tentar acordá-lo.
Imediatamente comecei a ajudá-lo em tão prestimosa tarefa dando uns tabefes no Lima.
Ao cabo de um ou dois minutos o rapaz começou a voltar a si.
Mandei o outro buscar um copo com água (era preciso poupar as outras bebidas para momentos mais solenes) e, enquanto o valente minhoto se recompunha, perguntei ao socorrista:
- Mas porque é que ele desmaiou?
- Porque se picou num dedo e quando viu sangue, caiu redondo.
Eu não queria acreditar.
- Estás a gozar comigo? – disse um tanto agastado – então ele mata porcos e galinhas e desmaia por ver uma pintinha de sangue no dedo?
E foi o próprio Lima que me explicou:
- É verdade, senhor tenente. Ver o sangue dos outros não me faz impressão nenhuma, mas se vejo o meu, nem que seja uma coisinha de nada, não aguento e desmaio.
Fiquei varado. Nunca tinha imaginado que tal pudesse suceder. Mas era mesmo assim.
As pessoas são mesmo bizarras, não são?

terça-feira, junho 14, 2005

Vocação religiosa

Isto das histórias do passado é como as cerejas.
Tira-se uma e vem logo atrás duas ou três. Ou mais.
Por isso vou-vos fazer mais uma narrativa dos meus tempos de escola primária.


Tudo começou no ano lectivo de 1957/58. O ano em que fui gloriosamente eleito chefe de turma.
Numa manhã duma quinta-feira normalíssima, a já conhecida D. Ester, dedicada e competente professora, estava dando a sua aula quando se ouviu um truz-truz na porta.
A mestra foi abri-la e surgiu um padre. Vestido a preceito, pois naquele tempo não havia padres à paisana. E com coroa, pois claro.
Era muito jovem e com boa figura.
Como mandavam as regras, a malta levantou-se toda. Era a forma oficial de saudação e de mostrar boa educação.
Logo a seguir diz a senhora:
- Podem sentar-se. O senhor padre autoriza.
Cumprida a ordem, continuou:
- Este é o Sr. padre Rocha que virá aqui à aula, todas as quintas feiras, para vos dar uma lição de Religião e Moral. Durará cerca de uma hora. E portem-se bem!
Ouviu-se um burburinho que foi imediatamente interrompido por um mero olhar mais carrancudo da professora.
E o padre começou quasi de imediato a falar.
Não sei o que disse.
Sei que logo nesse dia começou a cativar-nos com a sua forma serena de estar e o modo como se nos dirigia e fazia participar nas questões tratadas.
E, a partir daí, a horinha com o padre Rocha era um momento sempre desejado.
Chegados ao fim do ano escolar, todos pedimos ao sacerdote para voltar no ano seguinte.
Disse que gostaria muito, mas não sabia se era possível.
Acabadas as férias grandes, voltamos à escola. Agora na 4ª classe.
Numa das primeiras quintas-feiras, apareceu a D. Ester com um ar contristado a dizer:
- Hoje vão começar novamente as aulas de Religião e Moral.
- Vem o padre Rocha? – gritamos.
- Não!
- Oh!!! – saiu-nos pesaroso e redondinho este “Oh!!!”
- Não pôde ser. Mas o senhor padre que vem este ano também é muito bom.
Qual quê! Queríamos era o padre Rocha.
Eis que um dos alunos grita:
- O padre Rocha está ali escondido atrás da porta. Eu vi-o!
Desmascarado, o sacerdote entrou, perante os gritos e palmas de euforia da rapaziada e os sorrisos complacentes dos dois adultos.
E, durante todo o ano, essas horinhas foram um regalo.
O padre Rocha tinha um verdadeiro talento para lidar com crianças.
Terminado o ano, feitos os exames da 4ª e de admissão, começaram as merecidas férias antes de uma nova etapa das nossas vidas ter início.
Uma ou duas semanas depois de iniciadas as férias, houve um telefonema do padre Rocha para casa dos meus pais.
Foi a minha mãe quem atendeu. Era o jovem clérigo que pretendia convidar-me para um lanche nas esplanadas do Palácio de Cristal. A mim e ao Quim Delgado (este Quim não tem nada a ver com o outro de que falei na história do “esquentamento de consciência”, convém dizê-lo por causa das dúvidas). Após alguns telefonemas, tudo ficou aprazado para uma das tardes seguintes. O Delgado viria ter a minha casa e depois, os três, iríamos merendar.
Entretanto, a minha irmã, com os seus oito aninhos, mas sempre muito ladina e desconcertante, ia observando tudo.
- Ó Tone! Ainda vais para padre! – e ria-se com ar trocista.
Há hora do jantar, e depois de posto ao corrente da situação, o meu pai não se mostrou muito agradado:
- Já percebi que ele anda a pescar rapazes para o seminário. Mas tu não estás interessado em ir para padre, pois não, meu filho?
- Não, papá!
E, de facto, nunca sentira a menor vocação para o sacerdócio. Dizia sempre que queria casar e ter filhos.
E chegou o dia combinado.
O Quim Delgado já tinha vindo e estávamos ambos a brincar na rua.
E chegou o padre. Beijinhos, entramos em casa, a minha mãe fez o papel de anfitriã e a minha irmã lá estava muito caladinha.
A certa altura, o padre fez uma primeira abordagem à nossa ida para o seminário.
E a minha maninha não se conteve. Usando uma expressão que ouvira várias vezes, não só lá em casa mas também na de outros familiares e amigos, disparou:
- Ele não quer ir para padre porque os padres são capados!
Meu Deus!
Padre com sorriso amarelíssimo. Mãe aflitíssima. Eu embasbacado. Quim…nem reparei. E a Nandinha com um sorriso de orelha a orelha!
A minha pobre mãe desfez-se em desculpas. O padre dizia que era normal nas crianças.
E lá fomos para o Palácio que era a melhor maneira de fugir ao embaraço.
De resto, tudo correu bem.
Estava uma bela tarde de Julho e o nosso amigo sacerdote ainda voltou a falar no assunto, agora de forma mais directa, mas ambos fomos peremptórios a dizer que não era essa a nossa vocação.
Regressamos a casa, fizeram-se as despedidas e o clérigo abalou.
Durante alguns anos não ouvimos falar no padre Rocha.

Cinco ou seis anos depois, estava eu a ler a necrologia (no que imitava o meu pai) d´O Comércio do Porto, que era o jornal diário lido em casa, quando se me depara a notícia, brutal!
Tinha morrido, vítima de doença prolongada, o Rev. António da Rocha Soares.
Devia andar pelos trinta anos. Nem tivera tempo de envelhecer. Que injustiça!
(acho que ainda verti uma lagrimazita)

sábado, junho 11, 2005

Em Paris

Paris!
Cidade mítica!
Desde criança que a capital francesa era o local mais apetecido para um dia visitar.
Não me perguntem porquê. Provavelmente porque desde sempre ouvi e li coisas lindas sobre a cidade Luz. Talvez por lhe chamarem cidade Luz.
E o dia de visitar Paris começou a desenhar-se quando integrei a Comissão Organizadora da viagem de curso.
Não foi inocente a minha opção de participar nessa comissão.
Havia alguns sítios que muito gostava de conhecer e, ao ter capacidade de intervir na escolha do itinerário…estão a perceber, não estão?
E um desses locais era, obviamente, a mundana cidade centro da Europa.

Foi assim que, a vinte e nove de Março de 1973, a camioneta com os 34 viajantes deixou Bruxelas e se dirigiu a Paris.
Ficamos instalados em dois hotéis, pois não tínhamos encontrado um que, por si só, tivesse vagas para todos. Eu e um grupo mais pequeno, fomos alojados no Hotel Peiffer, na rua de l´Arcade, pertinho da Madeleine.
O Jacinto (lembram-se da aventura na “zona” de Amsterdam?), ainda hoje grande amigo, já o era na altura. E, muitas vezes, os dois fugíamos aos outros para procurar descobrir esse mundo novo que era a Europa desenvolvida, da liberdade e da democracia, mais à vontade. Quando anda muita gente junta, acaba por se perder mais tempo. Uns querem isto, outros aquilo. Não acham que é assim? E um dia e duas noites em Paris não dão para desperdiçar um minuto que seja.
Pois foi com ele que partilhei o hotel e toda a aventura parisiense.
Na primeira noite fomos passear a pé pela cidade. O Arco do Triunfo, Campos Elíseos, Pigalle. Enfim! A noite parisiense na rua.
Chegados ao hotel, e perante um mapa da cidade e outro do metro, planeamos com todo o rigor possível o que faríamos no dia seguinte.
Bem cedo, descemos para o pequeno-almoço.
Fomos servidos à mesa por uma bela empregada a quem lançamos uns piropos no melhor francês que conseguimos esgalhar.
E como a mocinha não falava português, fizemos alguns comentários (usando mesmo o vernáculo à moda do Porto) a zonas da sua anatomia que nos chamaram a atenção de forma mais destacada.
Refeição acabada, toca a pegar nas coisas e pés a caminho para a estação do metro.
Já na rua, ouvimos uma voz de mulher a chamar. Instintivamente, olhamos para trás. Era a empregada que nos servira no hotel e que, em bom português, disse:
- Acho que esta máquina fotográfica é de um dos senhores!
Ficamos positivamente petrificados. Afinal, a bela francesa era...uma emigrante portuguesa.
Mas, rapidamente refeitos do impacto daquela verdadeira traulitada na cachola, foi o Jacinto quem retorquiu:
- É minha! Muito obrigado!
E a visita ao Paris diurno começou.
Madeleine, Notre Dâme, Louvre, Torre Eiffel, Inválidos, Túmulo de Napoleão, Opera, Saint Germain e mais uns quantos locais que não relembro de momento.
Mas uma das coisas fascinantes em Paris é que em cada rua, em cada praça, ao dobrar de cada esquina, lá está um monumento, dos mais conhecidos ou dos outros que não sendo tão famosos são igualmente belos.
Devo dizer que uma das obras que mais me impressionou, pois nunca a vira em fotografia, foi o túmulo de Napoleão. Essa famosa personagem histórica dissera, em vida, que as pessoas se curvariam perante ele mesmo depois da sua morte. E, de facto, o mausoléu fica num piso inferior ao da entrada, existindo uma abertura circular com um murete e a primeira coisa que as pessoas, normalmente, fazem é ir junto dessa varanda e inclinar-se para ver cá em baixo o túmulo do imperador.
Também quero referir que fomos ao famoso e velhinho mercado Les Halles. Já estava tudo vazio, inclusive as tabernas da sua vizinhança onde, por certo, muitas canções teriam sido cantadas com o acompanhamento do imprescindível acordeão. Estava tudo deserto pois iria ser demolido, em breve. No seu lugar está hoje o Centro Pompidou (espero não estar a dizer asneira).
A certa altura, penso que exactamente nessa zona, dirigimo-nos a um sujeito de meia-idade para lhe pedir uma qualquer indicação acerca de um local que pretendíamos ver. Prontificou-se logo a levar-nos ao tal lugar, que era bem pertinho, aliás. Quis saber de onde éramos.
- Nous sommes portugais! – disse eu.
- Também eu! – retorquiu o homenzinho.
Tinha de ser. Quem, senão um português, poderia ter toda aquela hospitalidade?
E estivemos a conversar um pouco com o emigrante que estava radiante por nos ter encontrado.
E assim passamos o dia.
Regressados ao hotel, depois de ter comido qualquer coisa rapidinha (naquele tempo ainda não havia “fast food” mas, umas sandes e uma cervejinha, pouco demoraram), preparamo-nos para o “Paris by night”. Mas onde haveríamos de ir?
Perguntamos à recepcionista, uma jovem francesa (esta era mesmo…) muito bem arranjada e maquilhada, aonde nos aconselhava ir: Lido, Folies Bergères, Molin Rouge…
Respondeu com o seu sotaque parisiense (eu quasi morro quando ouço uma mulher a falar com aquela entoação; até fico a tremer de excitação, confesso) não sem antes nos mirar dos pés à cabeça:
- Pour vous…je vous conseille le Crazy Horse.
Nunca tínhamos ouvido falar de tal cabaret. Mas a rapariga devia saber do assunto e, depois de tomarmos a decisão, explicou-nos como se ia para lá.
E fomos ao Crazy Horse Saloon de Paris (fundado pelo Sr. Alain Bernardin que dirigia a casa com mão de ferro; faleceu há poucos anos). Ficava, e penso que ainda é no mesmo local, na zona dos Campos Elíseos, rua George V.
Ocupamos a nossa mesa. A sala era pequena e estava cheia. Predominavam os italianos, sendo a maioria casais. Pedimos uma cerveja que foi servida num copo enorme.
E o espectáculo começou.
Foram duas horas de um show erótico de elevado profissionalismo e com as mulheres com os corpos mais esculturais que já admirei. Só visto! Não sei descrever quão fabulosamente bem modelados e flexíveis e sensuais eram. Acho que durante algum tempo acreditei que Deus existia. Só uma divindade poderia fazer coisas tão belas!
Mais tarde, pela passagem de ano, e várias vezes, vi reportagens na RTP sobre a noite de Paris e lá vinha sempre em destaque o Crazy Horse. Algumas delas eram mesmo só sobre este cabaret. Tenho tudo gravado em cassete de vídeo. Como se costuma dizer: cada tolo com a sua mania!
No dia seguinte, quando fazíamos a viagem para Bordéus, conversando e comparando experiências com outros colegas que tinham ido a outros cabarets, eu e o Jacinto concordamos que em boa hora tínhamos pedido o conselho à recepcionista parisiense.

Nunca mais voltei a Paris!
Costuma-se dizer, para realçar a beleza da cidade italiana dos canais:
“Ir a Veneza…e morrer!”.
Eu digo:
“Ir outra vez a Paris…e morrer!".

terça-feira, junho 07, 2005

O chefe de turma

Decorria o ano lectivo de 1957/58, mas a acção centra-se num dia dos primeiros meses de 1958.
Andava na 3ª classe.
A professora era a D. Ester a quem já me referi no post “Eu, borboleta”.
Eu era um dos melhores alunos (como é óbvio…tosse, muita tosse) e como tal, quando havia matéria nova, lá ia o Castilho (era o meu nome de guerra) ao quadro para resolver os primeiros problemas e dar as primeiras respostas. Pobre de mim! Muita porrada apanhei por causa dessas chamadas de mérito. Como não era o crânio que a professora gostaria que eu fosse, irritava-se e pumba, catrapumba! Mas acabava por aprender!
Mas, dizia eu, estávamos em 1958.
Foi o ano das últimas eleições directas para Presidente da República no regime de Salazar.
Inicialmente, havia 3 candidatos:
O Dr. Arlindo Vicente, apoiado pelos comunistas e afins.
O General Humberto Delgado, suportado pelos democratas anti-salazaristas.
O Contra-Almirante Américo Thomaz, pelo partido único, a União Nacional.
Graças à extraordinária adesão popular que foi aglutinando o oficial do Exército, o candidato Vicente acabou por desistir e os vermelhos, apesar de lhe chamarem General Coca-Cola devido a uma ligação forte de Delgado aos EUA, acabaram por o apoiar.
Ainda me lembro de meu pai me ter levado a algumas acções de campanha do General (que ele considerava não irem ser alvo de acções policiais e, portanto, não serem arriscadas para um catraio) e, nomeadamente, da ida à sede de candidatura no Porto que ficava na Praça da República.
Como é do conhecimento geral, graças a muita trafulhice, o Thomaz lá ganhou a farsa eleitoral.
E, pouco depois, a Assembleia Nacional legislava no sentido de que a eleição do presidente passasse a ser feita nessa mesma Assembleia.
Enfim…ditadura tem de ser mesmo assim, senão não é ditadura.
Ora, nesse curto período de tempo em que se podia falar em democracia com razoável liberdade, aconteceu algo de inédito na minha classe.
A D. Ester, uma bela manhã (se não era bela, façam de conta) apareceu na sala com uma daquelas caixas de cartão em que trazíamos os sapatos novos da sapataria. Tinha uma ranhura no centro da tampa. Colocou-a sobre a secretária.
Da bolsa retirou um montinho de pequenos papéis quadrados, brancos, sem nada escrito.
E, com ar pomposo, anunciou:
- Hoje vamos eleger o chefe de turma.
A rapaziada ficou a olhar, muito provavelmente com cara de parvos, pois a situação era inédita e completamente inesperada.
- Cada aluno escreve num destes papelinhos o nome do colega que acha que deve ser o chefe de turma, dobra-o em quatro, e vem metê-lo nesta caixa por este buraquinho. Perceberam?
- E que faz o chefe de turma? – perguntou um dos miúdos, revelando alguma argúcia e muito desplante.
A mestra lá disse umas coisas de que não me lembro.
Distribuiu um papel a cada um e repetiu as instruções.
O silêncio era solene.
Os alunos sentiram que era preciso ser responsável naquele momento e foram meditando em quem votariam. E escrevendo.
- Ó senhora professora, pode-me dar outro papel que me enganei?
Lembro-me que votei no Gouveia, o puto que partilhava a carteira comigo.
Terminada esta fase, seguiu-se a contagem dos votos.
D. Ester vai desembrulhando os boletins de voto (chamemos-lhe assim, para dar mais pompa à narrativa) e dizendo em voz alta o nome que estava escrito em cada um:
- Castilho
- Castilho
- Castilho
- Guerreiro
- Castilho
- Castilho
- Irineu
…e assim por diante.
Eu estava estupefacto, pois jamais me passara pela cabeça ser tão bem cotado entre os meus colegas. E devia estar vermelho como um tomate.
Ganhei as eleições!
Por uma larguíssima margem.
Depois de ter sido declarado chefe de turma, a professora pediu um aplauso para o vencedor que entretanto fora chamado ao palco, quero dizer, para cima do estrado.
E foi bonito de ver o maralhal todo a bater-me palmas e a gritar:
Cas-ti-lho! Cas-ti-lho! Cas-ti-lho!
Até as professoras das outras salas vieram presenciar tão vibrante momento de democracia e glória.
Para encerrar a sessão, o Guerreiro, o Irineu e mais um ou dois ganapos que haviam ficado nos lugares seguintes, vieram abraçar-me por indicação da senhora. O Chico Irineu chorava como uma Madalena por ter perdido (anos mais tarde perderia um pé devido à explosão de uma mina na Guiné).
Confesso que esse dia foi um dos mais gloriosos da minha vida.

No ano seguinte não houve eleições.
A professora nomeou como chefe de turma o Guerreiro, que por acaso era filho da reitora do Liceu de Rainha Santa Isabel.
Puras coincidências, claro!

domingo, junho 05, 2005

Línguas traiçoeiras

Quando escrevo “línguas” no título desta lenga-lenga que agora começo a teclar, não me estou a referir ao órgão carnudo que temos (e os outros animais vertebrados) na cavidade bocal e que serve para ajudar à deglutição de alimentos, para lamber selos, para fazer chacota das pessoas quando a pomos cá para fora, para comer (adoro língua de vaca), para fazer bolinhas com chiclets, para mostrar ao médico numa consulta antes dele nos fizer que estamos com maus fígados e outras utilizações mais ou menos nobres como alguns jogos amorosos sobre os quais eu não me vou pronunciar pois, quem isto ler já está, tenho a certeza, muito bem documentado na matéria, mesmo sem ter tido aulas de Educação Sexual.
Refiro-me, isso sim, a “línguas” no sentido de idioma.
Feito este fundamental esclarecimento prévio que certamente muito contribuirá para a elevação do nível cultural do povo português, vou contar uma historinha:
Um velho amigo, o Vitor, é filho de um industrial têxtil.
E é também um dos tipos mais inteligentes e cultos que conheci e conheço.
Lê imenso, nomeadamente revistas estrangeiras, sendo um grande conhecedor de assuntos ligados à guerra, nomeadamente o armamento, em sentido restrito, mas também os navios de guerra, os aviões de combate e transporte logístico, os tanques, os mísseis, os sistemas de comunicação e outras coisas ligadas à Defesa.

Os conhecimentos que tem nessa área são quasi enciclopédicos.
Penso que começou a interessar-se pelo assunto quando foi estudar engenharia Electrotécnica, na área das chamadas correntes fracas, tendo acabado o curso com grande gosto pela electrónica e por um dos sectores em que este ramo do saber é mais testado e usado enquanto tecnologia de ponta: exactamente o armamento militar, em sentido lato (as armas, mas também os navios, aviões, etc.). Sobretudo o equipamento e sistemas militares norte-americanos. Os ex-soviéticos seriam melhores, talvez, na parte de materiais, ligas metálicas, mas na electrónica, os ianques levavam-lhes a palma.
Não nos esqueçamos que uma das causas imediatas da queda do império bolchevique foi a chamada Guerra das Estrelas que Ronald Reagan decidiu lançar, provocando um esforço de resposta por parte dos comunistas que muito debilitou as suas finanças.
Mas voltemos ao Vítor.
Mal acabou o curso, foi gerir uma empresa que o pai acabara de criar. Do sector têxtil, claro!
Isto aconteceu poucos meses antes do 25 de Abril, o que obrigou o então jovem a um grande esforço de preparação técnica e lhe deu vasta experiência na parte humana ao ter de enfrentar, com vinte e poucos anos, toda a turbulência laboral pós-revolução.
Mas não é sobre isso que vos vinha falar.
É sobre uma situação pela qual o Vítor passou, logo, logo no início da sua actividade empresarial.
Ao falar com fornecedores e técnicos estrangeiros que o visitavam, usando a universal língua inglesa, tinha dificuldade em fazer-se entender e em compreender, nomeadamente quando discutiam questões relativas ao fio têxtil.
Como tivera uma formação no campo electrotécnico, usava a palavra “wire” que significa, de facto, fio eléctrico.
E ainda demorou algumas semanas e aprender que fio têxtil se diz “yarn”.
Depois digam que a língua portuguesa é muito traiçoeira!

quarta-feira, junho 01, 2005

Sobrevoando a savana

Em Outubro de 1974 estava em Luanda, alojado na messe dos oficiais da Armada, junto à Base Naval, na Ilha do Cabo.
Tinha regressado de três meses em S. Tomé e Príncipe onde estivera em missão de patrulhamento a bordo do “Rovuma”.
Já vos descrevi alguns aspectos do navio e sua guarnição no meu post “O meu 25 de Abril” publicado nesse mesmo dia deste ano da graça (ou da desgraça) de 2005.
Entretanto, o navio fica em estaleiro para reparações.
Uma bela manhã, recebi uma comunicação do Comando Naval para lá me apresentar.
Ficava na marginal e cheguei rapidamente.
Deram-me instruções para seguir para o Rivungo, durante um mês, substituir o comandante do Destacamento de Marinha do Cuando e assim permitir que ele viesse de férias.
Não gostei da ideia, mas nada mais me restava senão cumpri-la.
O Destacamento ficava no extremo sudeste de Angola, juntinho à Zâmbia, e tinha fama de ser o verdadeiro Cu de Judas, bem mais cu e bem mais Judas que o açoriano, de S. Miguel.
Quem de lá regressava, após dois anos de comissão de serviço, vinha seguramente apanhado da mona. Felizmente eu só ficaria um mês. Aí, a ideia de conhecer o desconhecido, de fazer uma viagem às terras do fim do mundo, começou a aparecer-me com alguns atractivos.
E lá fui!
Alguns dias depois, voei até ao Kuíto (ex-Silva Porto). Não vi nada dessa cidade porque pouco depois apanhei mais um voo comercial até Menongue (ex-Serpa Pinto).
Aí pernoitei no hotel Luiana e ainda tive tempo de apreciar uma pequena mas bonita cidade, com uma calmaria que, se a alguém fosse dito que estava num país em guerra, certamente não acreditaria.
Era, e é, a capital do distrito do Cuando-Cubango ou, na ortografia actual, Kuando-Kubango. Teria de voar para o outro extremo desse distrito.
Para isso, dirigi-me novamente ao aeroporto onde tinha sido reservado um lugar na avioneta que fazia semanalmente a circuito nessa área para transporte de pessoas, pequenas mercadorias, correio, jornais, alimentos, e pouco mais.
Carregando a bagagem, que não era tão pouca como isso, pois sempre tive relutância em separar-me das minhas coisas (ainda hoje sou assim), lá fui ter com o piloto da aeronave. E não esqueci a máquina fotográfica.
Cumpridas as formalidades, entrei para bordo.
Era um minúsculo avião de quatro lugares. Só havia duas pessoas a bordo. O piloto e eu, ocupando os dianteiros. As bagagens ocuparam os de trás.
E começou o ronronar dos motores…
Motores?
Porra! Aquilo só tinha um motor!
Comecei a ficar preocupado. Se o motor avariasse, restava nada, quer dizer, queda a pique.
Bom! Mas manda quem pode e obedece quem deve! Eu bem gostaria de ir numa coisa com pelo menos quatro motores, mas…
Confessei ao senhor algum receio, só algum, para não fazer muito má figura. Disse-me para não me preocupar pois nada iria acontecer. Ainda para mais o tempo estava óptimo.
Fiz que acreditei.
A rota era para sul, numa primeira fase. E pouco depois vi-me a sobrevoar a verdadeira savana africana, território de elefantes, leões, girafas, zebras, gazelas, javalis, eu sei lá…ah…e os crocodilos e hipopótamos nos rios.
Chegados junto da fronteira com a Namíbia (na altura ainda colonizado e chamado de Sudoeste Africano), alteramos o rumo para leste, seguindo o rio Kubango, que corre exactamente nesse sentido e faz o limite fronteiriço.
A certa altura a avioneta começa a descer e aterra aos solavancos na pista de terra batida de Cuangar, pequena povoação onde viviam quasi exclusivamente indígenas.
O piloto deixa umas coisas e carrega outras. Eu apreciava tudo aquilo, completamente novo para mim.
E aqui vai disto! Mais solavancos e avião no ar.
O certo é que o aviãozito parecia funcionar bem. E o piloto sabia do ofício, sem dúvida.
A escala era agora em Calai, e depois de ter estado junto ao solo, pude verificar que toda aquela região era muito plana e geologicamente velha, de solo mole, arenoso mesmo, com uma escassa vegetação rasteira, meio seca, e com árvores de pequeno ou médio porte disseminadas em pequenos grupos. Um tanto como os chaparros no Alentejo, mas com uma velhice e uma secura bem maiores.
Do ar, viam-se alguns troncos, ainda em pé, a arder. Era o resultado da queda de raios pois nesse território eram frequentes as trovoadas.
De repente, vejo uma enorme manada de elefantes. Parecia um formigueiro. Clique…já está! É uma das fotos que ainda guardo.
E começou a descida para Calai.
Repetiu-se a cena.
E mais adiante Dirico.
O aviãozinho rumou então para nordeste em direcção ao meu destino: Rivungo.
Já se avistava o rio Kuando, que corria para sul.
Cheguei são e salvo.
E aí vivi dois (acabei for ficar o dobro do tempo) meses completamente diferentes de tudo o que havia experimentado ou alguma vez viria a vivenciar.
Um dia vos falarei das minhas aventuras como comandante do Destacamento de Marinha do Cuando. Bom…o destacamento eram trezes homens, incluindo eu. E mais uma lancha de desembarque pequena. Mas que grande tropa eu ia comandar!