Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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terça-feira, junho 07, 2005

O chefe de turma

Decorria o ano lectivo de 1957/58, mas a acção centra-se num dia dos primeiros meses de 1958.
Andava na 3ª classe.
A professora era a D. Ester a quem já me referi no post “Eu, borboleta”.
Eu era um dos melhores alunos (como é óbvio…tosse, muita tosse) e como tal, quando havia matéria nova, lá ia o Castilho (era o meu nome de guerra) ao quadro para resolver os primeiros problemas e dar as primeiras respostas. Pobre de mim! Muita porrada apanhei por causa dessas chamadas de mérito. Como não era o crânio que a professora gostaria que eu fosse, irritava-se e pumba, catrapumba! Mas acabava por aprender!
Mas, dizia eu, estávamos em 1958.
Foi o ano das últimas eleições directas para Presidente da República no regime de Salazar.
Inicialmente, havia 3 candidatos:
O Dr. Arlindo Vicente, apoiado pelos comunistas e afins.
O General Humberto Delgado, suportado pelos democratas anti-salazaristas.
O Contra-Almirante Américo Thomaz, pelo partido único, a União Nacional.
Graças à extraordinária adesão popular que foi aglutinando o oficial do Exército, o candidato Vicente acabou por desistir e os vermelhos, apesar de lhe chamarem General Coca-Cola devido a uma ligação forte de Delgado aos EUA, acabaram por o apoiar.
Ainda me lembro de meu pai me ter levado a algumas acções de campanha do General (que ele considerava não irem ser alvo de acções policiais e, portanto, não serem arriscadas para um catraio) e, nomeadamente, da ida à sede de candidatura no Porto que ficava na Praça da República.
Como é do conhecimento geral, graças a muita trafulhice, o Thomaz lá ganhou a farsa eleitoral.
E, pouco depois, a Assembleia Nacional legislava no sentido de que a eleição do presidente passasse a ser feita nessa mesma Assembleia.
Enfim…ditadura tem de ser mesmo assim, senão não é ditadura.
Ora, nesse curto período de tempo em que se podia falar em democracia com razoável liberdade, aconteceu algo de inédito na minha classe.
A D. Ester, uma bela manhã (se não era bela, façam de conta) apareceu na sala com uma daquelas caixas de cartão em que trazíamos os sapatos novos da sapataria. Tinha uma ranhura no centro da tampa. Colocou-a sobre a secretária.
Da bolsa retirou um montinho de pequenos papéis quadrados, brancos, sem nada escrito.
E, com ar pomposo, anunciou:
- Hoje vamos eleger o chefe de turma.
A rapaziada ficou a olhar, muito provavelmente com cara de parvos, pois a situação era inédita e completamente inesperada.
- Cada aluno escreve num destes papelinhos o nome do colega que acha que deve ser o chefe de turma, dobra-o em quatro, e vem metê-lo nesta caixa por este buraquinho. Perceberam?
- E que faz o chefe de turma? – perguntou um dos miúdos, revelando alguma argúcia e muito desplante.
A mestra lá disse umas coisas de que não me lembro.
Distribuiu um papel a cada um e repetiu as instruções.
O silêncio era solene.
Os alunos sentiram que era preciso ser responsável naquele momento e foram meditando em quem votariam. E escrevendo.
- Ó senhora professora, pode-me dar outro papel que me enganei?
Lembro-me que votei no Gouveia, o puto que partilhava a carteira comigo.
Terminada esta fase, seguiu-se a contagem dos votos.
D. Ester vai desembrulhando os boletins de voto (chamemos-lhe assim, para dar mais pompa à narrativa) e dizendo em voz alta o nome que estava escrito em cada um:
- Castilho
- Castilho
- Castilho
- Guerreiro
- Castilho
- Castilho
- Irineu
…e assim por diante.
Eu estava estupefacto, pois jamais me passara pela cabeça ser tão bem cotado entre os meus colegas. E devia estar vermelho como um tomate.
Ganhei as eleições!
Por uma larguíssima margem.
Depois de ter sido declarado chefe de turma, a professora pediu um aplauso para o vencedor que entretanto fora chamado ao palco, quero dizer, para cima do estrado.
E foi bonito de ver o maralhal todo a bater-me palmas e a gritar:
Cas-ti-lho! Cas-ti-lho! Cas-ti-lho!
Até as professoras das outras salas vieram presenciar tão vibrante momento de democracia e glória.
Para encerrar a sessão, o Guerreiro, o Irineu e mais um ou dois ganapos que haviam ficado nos lugares seguintes, vieram abraçar-me por indicação da senhora. O Chico Irineu chorava como uma Madalena por ter perdido (anos mais tarde perderia um pé devido à explosão de uma mina na Guiné).
Confesso que esse dia foi um dos mais gloriosos da minha vida.

No ano seguinte não houve eleições.
A professora nomeou como chefe de turma o Guerreiro, que por acaso era filho da reitora do Liceu de Rainha Santa Isabel.
Puras coincidências, claro!

24 Comments:

Blogger Mitsou said...

Primeira!
Devias ser fresco, devias. Daí a popularidade :) Esse teu baú é espantoso! Com um sorriso nos olhos, cá fico a aguardar a próxima. Beijinho grande.

11:39 da tarde  
Anonymous Andréa said...

OIE!!!
Pois faz tempo que eu naum passo aki!!!
MAs... as histórias continuam massa!!!
Vc escreve super bem!!!
Bjusssss

2:36 da manhã  
Blogger Bárbara Vale-Frias said...

Ainda que atrasados... PARABÉNS!!! :) É que isto de se ser eleito Delegado de Turma, naquela idade (leia-se, sem recorrer a demagogias), é mesmo mérito próprio. Além disso, as crianças, muitas vezes, decidem melhor do que os adultos!

Fizeste-me lembrar uma história minha :))) Hoje, mais tarde, também escreverei sobre uma eleição de Delegado de Turma especial :)

7:56 da manhã  
Blogger Viuva Negra said...

Ahhhahh! espero que tenha sido o primeiro de muitos momentos de gloria heheheehh! eu tb fui bafejada pela sorte de eer delegada de turma , mas era tão fresca ou tão pouco que fui suspensa, a suspensão foi ilegal e depois anulada pelo director , um dia conto esta historia heheheh

1:13 da tarde  
Anonymous zezinho said...

Claro. O "Não há coincidências" da Margarida é uma aberração, sendo ao mesmo tempo a única frase de jeito da dita senhora.

Na verdade, António tens uma forma ímpar de contar histórias. Ainda acho que as devias escrever.
Abraços

5:18 da tarde  
Anonymous letrasaoacaso said...

Em livro, claro

5:19 da tarde  
Blogger Bárbara Vale-Frias said...

Pronto, confesso, copiei a tua ideia! ;) Já lá está o post de hoje... obrigada por me teres feito recordar um momento tão engraçado da minha adolescência. Um beijo muito especial! Cokas

8:50 da tarde  
Blogger António said...

Para "letrasaoacaso":
Fui ver o teu blog mas não consegui comentar.
Obrigado pela tua visita aqui ao meu covil.
Acho que é a primeira vez (pelo menos, que escreves um comentário).
Jinhos

9:36 da tarde  
Anonymous caiê e pug said...

Delegado de turma, ahn? Devias ser um rapazinho de fazer a professora perder o juízo. Coitada da D. Ester! ah ah ah!
agora a sério, a popularidade entre os colegas é caso para celebrar, porque nessa idade o voto secreto não admite falsidades nem partidarices de segundo sentido. Caro António, parabéns da Pug e meus! :)

10:47 da tarde  
Blogger Loucura said...

Ah que o nosso menino António era popular! Muito bem! ser delegado de turma e uma grande responsabilidade :)

Continua a escrever as tuas memorias, sao simplesmente deliciosas de ler

Beijinhos

10:57 da tarde  
Blogger Betty Branco Martins said...

António

Eu acho que foi uma "PURA coincidência" O filho da reitora ser eleito, não achas? :)))))

Como sempre os detalhes não faltam, estão lá todos, de uma forma que enriquece as tuas histórias.

Beijocas

10:59 da tarde  
Blogger AS said...

Posso fazer de "Grilo do Pinókio"?

...Mas quem disse à D. Ester que a turma precisava de ter um chefe??? Realmente no antigo regime aconteciam coisas bem estranhas.. ou talvez não!

Um abraço...

11:31 da tarde  
Anonymous RT said...

Sim senhor, parecia o Sócrates dos anos 50... sem ofensa... claro

11:48 da manhã  
Blogger lazuli said...

Àcerca de aulas, fizeste-me lembrar o professor (de inglês...?) que quando alguém batia à porta para entrer, dizia: Bethween! bethween!

2:42 da tarde  
Blogger Betty Branco Martins said...

António

História inspirada num jardim nos arredores de Paris, eu “espiei inadvertidamente) a conversa de um casal e havia uma imagem difusa (o dia estava um pouco enevoado) de uma jovem mulher junto de uma árvore e sem mais desapareceu. A espera dela deve ser bem grande...

Quanto à tua história, diria que o titulo caía que nem uma luva!
" Uma ilha no oceano"

Beijinhos

6:03 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

olá antónio
o teu texto é um documento precioso "vivo" sobre as antigas pedagogias.
e muito bem! Thomaz bem escrito...

abraço da leonor

9:30 da tarde  
Blogger Mitsou said...

Venho agradecer as visitas. Estragas-me com mimos, tu! Beijinhos e um óptimo fim de semana grande :)))***

1:06 da manhã  
Blogger Menina_marota said...

Uma história fantástica de recordações!

Admiro a tua memória...francamente que admiro!

Recordo-me da cara da Prof. da 1ª. classe, mas sinceramente, não recordo o nome dela, sómente que ela se chamava... Sr. Professora...


Bom fim de semana e um abraço :-)

7:17 da tarde  
Anonymous guevara said...

"A D. Ester, uma bela manhã (se não era bela, façam de conta)"

o que eu me ri com esta frase...

Devias ser fresco, devias...

;)

10:39 da tarde  
Anonymous Pug said...

Estou muito sensibilizada com o teu comentário e prometo não pregar muitas partidas... mas amanhã já me esqueci... ;) rrrrooommmm

10:45 da tarde  
Blogger Menina_marota said...

olá...é ao som de "Palabras" do Paxi Andion, de um dos meus Blogues, que venho aqui dizer-te, ou antes, dar-te a conhecer, os meus Blogues (desconhecias então?.
Não que faça colecção, mas cada um deles tem um significado especial para mim...

Blog I - (o meu primeiro amor...)
http://eternamentemenina.blogs.sapo.pt/

Blog II - (Oferta do Andy)
http://meninamarota.blogs.sapo.pt/

Blog III - (por contestação ao Sapo, outro melhor servidor)
http://www.mgrande.com/weblog/index.php/eternamentemenina/

Blog IV - (pelo mesmo motivo do III)
http://meninamarota.blogspot.com/

Espero as tuas visitas...sem ironia...

Abraço :-)

10:53 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

esta coisa das cunhas devia acabar.
muito engraçado e o mais interessante é que eu nunca iria contar uma coisa desta, só porque acharia que não interessava a ninguém e no entanto neste momento fizeste lembrar-me desses tempos, não sei se te agradeço ou amaldiçoe.ana Mª costa

3:52 da tarde  
Anonymous true_words said...

Houve alturas em que ser-se delegado de turma era ser-se eleito pelos outros para não se ter trabalho de ir ás reuniões, etc. No meu caso era diferente. A minha turma desde o oitavo ano, entrou em guerra aberta com o c.d.. O que deu azo, a que nos lixassem do 10º até ao 12º. Ou seja, tinhamos sempre alguém pronto para chumbar por faltas graças a uma megera, logo descobrimos que se a turma se unisse e todos fossemos embora, ninguém nos poderia marcar faltas, resultado? boicotes atrás de boicotes. Estavamos sempre metidos em apuros. Mas valeu. Safamo-nos muitas vezes, à custa dessa união.

8:48 da tarde  
Blogger heidy said...

O general sem medo? deveria ter uma personalidade e peras! Adorava te-lo conhecido. Infelizmente, nunca conheci nenhum desse naipo.

1:34 da tarde  

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