Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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terça-feira, junho 21, 2005

O Pérola Negra

O Pérola Negra é uma casa de diversão nocturna do Porto.
Diversão para homens, entenda-se.
Casa de alterne, de ataque e de actuações ao vivo.
Foi fundada nos anos sessenta, situando-se desde sempre na rua de Gonçalo Cristóvão, muito pertinho do cruzamento com a rua de Camões.
Fui lá muitas vezes. Ou só ou com amigos. Geralmente beber uma cervejola e ver o “show”. Pouco depois da revolução, especializou-se, durante vários anos, em espectáculos pornográficos em carne e osso. Mais carne do que osso, claro!
O fundador e proprietário, já falecido, fartou-se de fazer dinheiro.
Até de Lisboa vinha malta para ver como era e depois contar como foi.

Situemo-nos agora nos inícios dos anos oitenta.
Eu, o meu amigo Jacinto, de que já falei, nomeadamente aquando da estadia em Paris, e um outro grande amigalhaço, o Paulo, decidimos ir, com as respectivas consortes, fazer uma mariscada a Matosinhos.
Numa noite quente de verão.
Depois de bem comidos e bem bebidos, e recordo que naquele tempo ainda a GNR não usava os famosos balões para medir o nível de alcoolémia no sangue dos condutores, demos um pequeno passeio a pé junto ao mar.
Refrescava e ajudava a fazer a digestão.
Algum tempo depois resolvemos voltar para os carros.
- E que vamos fazer agora?
O habitual seria irmos para casa de um dos casais e tagarelar até às tantas.
Mas este vosso humilde escriba, teve uma ideia brilhante:
- E se fôssemos ao Pérola Negra?
- Grande ideia! – disse logo o Jacinto que era ainda mais louco do que eu.
O Paulo, menos dado a estas coisas da vida nocturna, ficou calado.
E as mulheres, depois de olharem umas para as outras responderam:
- Que horror! E se alguém nos vê? Pensem noutra coisa.
- E pode haver zaragata.
Mas não pude deixar de reparar que tinham um brilhozinho nos olhos, como diz a canção do Sérgio Godinho.
- Olhem que é uma oportunidade única. Vamos os seis e garanto que ninguém se mete connosco – disse eu.
- Claro! E indo com homens como nós ninguém vos vai importunar nem fazer propostas indecentes – apoiou o Jacinto.
Não foram precisos muitos mais argumentos.
A curiosidade de ver como era uma casa de meninas por dentro, a funcionar, e ainda por cima um “show” porno ao vivo, venceu todos os “mas”.
- Vamos lá! – disse a minha mulher.
- Então vamos! – disseram as outras.
O Paulo venceu o retraimento inicial.
E lá nos dirigimos ao famoso Pérola Negra.

O porteiro, velhote calmeirão, seguramente um reformado tendo ali um complemento monetário, quando nos viu e ouviu perguntar quanto custava a entrada para seis pessoas, fez uma cara de admiração. Estava habituado a ver as mulheres a entrar sozinhas e sair acompanhadas, mas entrarem acompanhadas era coisa rara, certamente.
Feito o pagamento que, como é normal nestas coisas, dava direito a algum consumo, descemos a larga escadaria e entramos na grande e mal iluminada sala.
A música gravada soava baixo, sem ferir os ouvidos.
Fomos recebidos com toda a deferência.
Escolhemos uma larga mesa não muito perto do “tableau” e sentamo-nos em confortáveis maples.
Vieram as bebidas e, conforme os olhos se iam adaptando ao escuro, as nossas acompanhantes puderam apreciar um prostíbulo em movimento.
As meretrizes estrategicamente dispersas pela sala, quasi todas sentadas, ou sozinhas ou aos pares. Os clientes mais afoitos faziam um chamamento discreto ou íam sentar-se junto da escolhida. Aos mais tímidos ou inexperientes era perguntado pelos empregados de mesa se pretendiam a companhia de uma menina. Outros chamavam os serventes e pediam um conselho sobre quais as raparigas com melhor desempenho. Muitas vezes, os funcionários levavam uma "dama" até à mesa de um cavalheiro para o entusiasmar. Mas a maioria não tinha nem queria companhia.
Os homens mais velhos eram alvo de mais atenções que os rapazotes. Por razões óbvias.
De quando em quando ouvia-se o pum do abrir de uma garrafa de champanhe ou de um espumante mais rasca.
De tempos a tempos saía um parzinho. Depois a menina voltava sozinha.
Tudo sob o olhar atento do patrão.
À uma da manhã começou o espectáculo, com um casal de dinamarqueses, ou lá o que eram, a ter relações sexuais para português ver.
Não deixo de admirar a descontracção dos homens que tem de fazer isto, em frente a um numeroso grupo de mirones, duas vezes por noite e sem fracassarem. E ainda não tinha sido sintetizado o Viagra!
Mas não era o que se passava no palco que despertava a curiosidade das nossas mulheres. Era o comportamento das meninas e dos clientes.
E a mim e aos dois compinchas era observar as nossas mulheres a olhar e cochichar.
Delicioso!
Quando saímos, elas confessaram que tinha sido uma experiência única (não esperava que dissessem que tinha sido uma experiência repetida). Acharam que as pessoas se comportavam muito bem (nem sempre, nem sempre, digo eu!). Mas o que mais as tinha surpreendido tinha sido o facto de as meretrizes não estarem vestidas em trajes ínfimos, com meias de rede, ligas à mostra e peitos impudicamente exibidos – deformação resultante do que viam no cinema, certamente – mas vestidas com toda a normalidade.
- Se visse alguma delas na rua diria que era uma moça que andava a estudar – comentou a minha cara-metade.
Pois é!
As aparências iludem!

27 Comments:

Blogger lazuli said...

António, é uma delícia a tua história..Muito bem contada, cada palavra faz apetecer ler a segunda, e assim sucessivamente..
Lê-se num fôlego. E esses ambientes permanecem com certa "magia" no nosso imaginário (q.b, entenda-se).
Um beijo**
Fui a primeira? É de ser noctívaga:))

2:20 da manhã  
Anonymous sussurros da lua said...

Respondendo à pergunta que deixste ontem no meu blog...e porque não ensinar-te a gostar de poesia? ;) Mil beijinhos!

9:39 da manhã  
Blogger wind said...

Bem contado este episódio:)

10:28 da manhã  
Blogger Bárbara Vale-Frias said...

Querido António, além de adorar as tuas histórias e a maneira como nos conduzes através das tuas palavras, gosto também deste despertar de lembranças que causas em mim :)))

Fizeste-me recordar uma despedida de solteiro de um amigo de um ex-namorado meu. Eles tinham sido colegas na Escola Náutica, em Paço de Arcos. Esse amigo, na altura, já devia ter perto de 40 anos e ia casar... pela primeira vez! :) Como a futura mulher era brasileira e o casamento is ser lá, resolveu fazer aqui a sua despedida de solteiro. Ora, como não havia despeddida de solteira, eu, com cerca de 24 anos, lá fui jantar com os "machos" trintões.

Resolveram, então, ir acabar a noite nos bares mais estranhos de Lisboa: primeiro levaram-me aos do Cais do Sodré e depois fomos até ao Tramps, junto à Av. da Liberdade. Resultado, conheci a noite de alterne e a noite travesti de Lisboa de uma única vez! :))))

4:44 da tarde  
Blogger Betty Branco Martins said...

Bom, mais uma história de (encantar) cheia de ricos pormenores. Estou a imaginar toda o cenário e de facto é uma experiência que tem o seu fascínino (quebrar as regras)

Beijinhos

8:17 da tarde  
Blogger rosa, a púrpura guerreira said...

(Uma rosa murcha, logo outra nasce em seu lugar.)

9:08 da tarde  
Blogger Mitsou said...

Mais uma das tuas belas históris :)) Imagino esses serões a recordar bons tempos de uma vida bem vivida. Beijinho grande, amigo!

11:35 da tarde  
Blogger Selma said...

Adorei! Nunca entrei em nenhuma "Pérola Negra" mas senti que descrevias o ambiente lindamente, quase deu para sentir o "cheiro" e... muita curiosidade.

11:39 da tarde  
Anonymous Caiê said...

Ui... Não fazia ideia do que era o Pérola Negra... As coisas que uma moça vem aqui aprender... eh eh ehe!

12:56 da manhã  
Anonymous azul said...

Caro António, nem eu mesma sabia que no Porto havia Pérolas desta côr...
Encantei-me com a forma despida com que pintas a história, e, com a coragem de acompanhar as esposas ao sub-mundo...

12:22 da tarde  
Anonymous guevara said...

As aparências iludem! Sempre!
Há uns anos, 6, quem passava por mim na rua estando eu acompanhada do mais que tudo abanava sempre a cabeça a dizer:
- coitadita...tao novinha e com um homem daqueles...
Não era o caso sabes, mas eu parecia uma miuda de 13 anos, e ele um homem de 30.
Ouvimos tantas coisas...
As iludencias aparudem!
;)

12:51 da tarde  
Anonymous guevara said...

Olha, passa lá no [guerrilhas] e vê se aprovas a historieta que acabei de colocar.
Talvez a primeira de muitas!

;)

3:51 da tarde  
Anonymous betania said...

Mas tu és muito mais doido do que eu poderia imaginar...A mim, essas vidas e casas, enjoam-me porque exploram as mulheres. Disso não gosto. Nas gosto da forma como escreves a história. O teu mérito...esse pertence-te. Beijinhos

8:21 da tarde  
Blogger Malae said...

Amigo António! Mais um bom momento, como sempre! O Pérola Negra... tanto os meus amigos falavam nele :P Mas eram "pequeninos" para lá irem ehehehehehe É sempre bom partilhar estas tuas boas memórias contigo! Obrigada por isso! Bom fim de semana. E bom feriado (caso na Maia se faça!). E bom S. João! Quem me dera aí estar! Beijinhos grandes. Malae*******************************

9:57 da tarde  
Blogger António said...

Para "azul" (que teima em não fazer um blog):
Minha querida, no Porto há Pérolas Negras mas noutas cidades há Pérolas Brancas.
Gostaste? eh eh eh
Jinhos

10:07 da tarde  
Blogger Carlos Barros said...

e..e..qd vamos a pérola..

10:54 da tarde  
Blogger Maria Odila said...

Adorei vosso relato... adorei
E tu tens o dom de saber contar histórias
Beijos muitos beijos
saudades também.
Maria Odila

2:04 da manhã  
Blogger tovarisch Brezjniev said...

António, e o Paganini? Ainda existe? Aquele espaço aconchegadinho que faziam a striper esticar-se toda para poder passar. Segundo constava era do mesmo dono.

Mas o Perola era único: Tinha classe. Havia um imitador chamado O Abrigo e ficava em Benavente, um barracão no meio duma quinta. Imagina no inverno os clientes com botas de lavrador a limpar a lama no tapete à entrada; aqueles diálogos carregados de substância (Oi moço, me paga uma champanhinha?); aquelas strips balzaquianas que antecediam as parelhas espanholas; era o mais puro bas-fond rural do país... Era a Revolução na plenitude.

1:01 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Sim senhor,louco?nã!!!
Mas és um perigo ,ai podes crer!!!Por nada já se vê...escreves desta forma a vida e os comportamentos,pois,ah!claro,é só lápis,caneta,ok neste caso teclas...imagina-se!
António sejas e vás onde fores tens uma forma de ver as coisas que me agrada,sei lá,humor inteligete já é raro,espírito assim ...faz de ti uma rarirade...tu toma conta de ti,elas andam aí!!!Ah!ah!
Continuo sem blog,sou uma teimosa,nem tu me convences.
Sou tua fâ,pronto,vou fazer um club de fãs teu?ah!é um argumento de peso ou não?Vá lá,isto já me vai dar que fazer,ah!ah!
Adorei a história!
Beijinho grande
Ana

4:22 da tarde  
Blogger rosa, a púrpura guerreira said...

Mas agora pergunto eu? Como é a cara de uma rapariga que anda a estudar? E de uma que se prostitui? E que uma que se dá de borla? E de todas as outras? Ai, que o Sérgio Godinho também diria "cuidado com as imitações" ( eoutra ainda que não me lembro agora, mas que fala das aparências e do outro lado do espelho, daquele album que tem a capa em tons de azul, com ele sentado e de que também não me lembro do nome, mas se me lembrar ainda cá volto...)

4:50 da tarde  
Blogger rosa, a púrpura guerreira said...

"Na vida real as aparências
estão do outro lado do espelo
na vida real não me assemelho
à simulação das evidências"


hehehe, lembrei-me :)

4:52 da tarde  
Blogger António said...

Para a misteriosa Ana:
Não tenho outra alternativa senão responder-te aqui.
Mais uma vez obrigado pela forma elogiosa como escreves sobre os meus textos.
Ainda bem que gostas!
Eu também gosto de elogios (a vaidade é um pecado, não é?).
Quanto ao Clube de Fãs, diria que fãs não faltam...eh eh.
Falta só o Clube!
Jinhos

5:37 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

Não me vou repetir a elogiar a tua capaciade "oratória".
quanto ás aparencias iludem... mais ou menos. porque mais tarde ou mais cedo, consoante a fragilidade da aparencia, tudo se revela.rs
abraço da leonor

10:33 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Querido amigo, após um longo periodo de ausencia por aqui, hoje num momento de relax vim ler o teu blog e...por incrivel que pareça, não fiquei nada surpreendida! Pelo contrário: cada vez confirmas mais o talento que tens para escrever! Consegues fazê-lo de uma forma tão naturalmente agradavel e fluente, que desde já te digo..todos os livros que editares...vão ser uma compra minha! hehehe..fico à espera... não percas mais tempo, António...e falo-te do fundo do coração: escreve! Eu sou uma preguiçosa para ler....e adoro ler os teus textos! Quero ser uma das tuas amigas babadas, quando andares pelas ruas do Porto a distribuir autógrafos, ouviste? ;) Beijocas, lindo amigo. E força com a tua estreia na Literatura.
Tixa

6:05 da tarde  
Anonymous azul said...

Oh!
Caro António, como me estragas de mimos.
Se algum dia tiver um , vais ser o padrinho...!
Gostei, claro que gostei!!!

5:10 da tarde  
Blogger Nuno Vieira said...

como o pérola negra, só o elefante branco...

2:15 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

o Sr. Eng. foi enganado pelo tempo;
mudam-se os tempos, mudam-se as necessidade , tal como no perola negra.diverti-me imenso ao ler este texto. e conquistou-me; se não se importar passarei por aqui sempre que puder, mas gostaria (sem querer abusar) de lhe enviar um ou outro texto meus (claro, amador)aguassantas11@sapo.pt

3:03 da tarde  

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