Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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Localização: Maia, Porto, Portugal

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Histórias curtas VII - O "gang" dos pestaninhas

João, Mário e António eram três tipos que tinham o que poderei chamar de uma tara, perversão ou desvio sexual.
João, com trinta e poucos anos, era um velho viciado em espreitar outras pessoas em atitudes ou ambientes íntimos. Um voyeur! Desde há muitos anos que passava as horas livres à cata de casalinhos, ou nas dunas da praia, ou nos matagais, ou cocando para o interior das casas e dos prédios ou, principalmente, deitando o olho para dentro de carros onde estivessem parelhas em atitudes amorosas ou libidinosas. E a vida sexual dele resumia-se a isto e às masturbações que completavam o visionamento.
Mário e António eram dois rapazolas no final da adolescência que também se pelavam por umas espreitadelas para os sítios proibidos. Andavam quasi sempre juntos e travaram conhecimento com o João numa sessão nocturna em que estavam os três ao redor de uma única viatura da qual, em dado momento, saiu um tipo gigantesco que os fez fugir a toda a velocidade. Pararam a uns duzentos metros de distância, ofegantes. O João, o mais especializado, disse:
- Meus meninos! O que fizeram hoje nunca mais deve ser repetido. Quando tiverem de dar de frosques, deve ir cada um para o seu lado. Valeu?
Os outros concordaram e, enquanto se refaziam do esforço da corrida, foram conversando.
Desde essa noite que estes três pestaninhas, nome pelo qual são bastante conhecidos estes mirones compulsivos, passaram a andar muitas vezes juntos, sendo o João o líder natural, não só por ter a maior pancada na mona como por ser um profundo conhecedor das técnicas da espreitadela, minimizando os riscos, e ainda por saber de muitos outros locais onde poderiam ir exercer esta interessante prática sexual.
As sessões mais excitantes eram as que ocorriam à noite, em locais mal iluminados, onde estacionavam automóveis com duas pessoas. Normalmente eram um homem e uma mulher mas, algumas poucas vezes, calhava um par do mesmo sexo. E aí a excitação atingia o pico pois filmes desses eram mais raros e ainda mais estimulantes.
Era vê-los a correr muito agachados, tão velozes que mais pareciam grandes lebres, a procurarem o carro em que a visibilidade para o interior fosse melhor e os ocupantes estivessem mais distraídos para nem darem pela presença dos maganões.
Há alguns anos, um amigo do expert João tinha tido o azar de se distrair e o sujeito que estava dentro da viatura, já totalmente saturado de tanta pestanada, enfiou dois balázios na cachola do desgraçado que ficou logo ali esticado até chegar o delegado de Saúde. Fora uma noite trágica, mas memorável. Durante muitos meses a actividade baixou. Ou melhor, passou a ser exercida noutros locais e com muito maior discrição.

Numa quente noite de estio, no alto de uma arriba que tombava abrupta para um estreito areal junto ao mar e que era um dos locais favoritos para os mais ou menos apaixonados estacionarem, estava o espaço cheio de carros. Os três membros do gang dos pestaninhas lá apareceram dispostos a, mais uma vez, arrostarem com todos os perigos, quais Gamas ou Cabrais, e satisfazerem a sua doentia curiosidade.
Falavam pouco e baixinho, e entendiam-se sobretudo por gestos.
A visibilidade era boa, ao contrário do que acontecia no inverno em que o rápido e quasi total embaciamento dos vidros muitas vezes só permitia que estivesse disponível a parte áudio.
O João Pestana, como também era conhecido o sabidola, estava junto de um carro muito compenetrado na acção que decorria no seu interior e ía afagando-se como tanto gostava de fazer.
O António estava filado noutro par e o Mário num terceiro.
Eis que este fez sinal ao jovem parceiro para se aproximar.
- São dois gajos! Vamos ver o que fazem os paneleiros. Para já só estão a conversar, mas não deve demorar muito que entrem em acção – disse, quasi num sussurro.
E acrescentou:
- Aguenta aí um bocadito que eu vou chamar o João. Ele delira com estes casalinhos de rabetas.
- Ok! Vai, que eu aguento aqui os cavalos.
Pouco depois estavam os três reunidos junto do Volkswagen Golf à espera que os namorados iniciassem uma forma mais arrebatada de demonstrarem o seu amor e o seu desejo.
De repente abriram-se simultaneamente as quatro postas do carro, o que fez com que os dois mais novos caíssem ao chão, e de lá de dentro saíram quatro mangas que imediatamente agarraram um dos mirones. Foi o Mário, o azarado. Entretanto, os outros dois piraram-se a grande velocidade esquecendo-se por completo da amizade que tinham pelo parceiro.
E, na luta desigual de quatro contra um, ainda por cima sem poder gritar pois imediatamente lhe tinham colocado uma fita adesiva na boca, começaram a despi-lo e a lançar a roupa para o fundo do abismo até que o pobre coitado ficou nu.
Mas, não satisfeitos com isto, os quatro amarraram o desgraçado de mãos e pés, meteram-no na viatura (onde ele se vingou fazendo uma valente mijadela) e foram largá-lo, depois de desamarrado, no meio de uma praça que nessa noite estava cheia de gente a tentar refrescar-se com uma ligeira brisa que estava a começar a soprar das bandas do oceano.
Os sorrisos, as gargalhadas e alguns gritos histéricos acompanharam a fuga do Mário para casa correndo com as mãos a taparem os genitais.
- Em bem digo que o mundo está maluco!
- Mas que pouca-vergonha!
- Mas o gajo está mesmo nu!
- Tapa aí os olhos às crianças!
- Até tem um bom corpinho, o moço!
Foram algumas das exclamações que se puderam ouvir.
Entretanto o fugitivo chegou a casa, que era a dos seus pais, saltou o muro do quintal e entrou sorrateiramente logo se dirigindo para o seu quarto onde vestiu uns boxeurs e se deitou na cama.
Quando a mãe Amália, por volta da meia-noite e antes de ir para os seus aposentos, foi dar uma espreitadela ao quarto do seu Marinho, ficou admirada por ele já estar a dormir.
E a partir dessa noite, quebrado o código de honra, desfez-se o agrupamento dos três pestaninhas ficando o Mário a trabalhar por conta própria.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Histórias curtas VI - Noite de trovoada

Fátima Azevedo era uma solteirona, fervorosa cristã, que vivia sozinha numa velha casa de lavoura que fora dos seus pais.
Tinha perto de trinta e oito anos e trabalhava na Câmara Municipal da vila sede do concelho.
Mal fizera o 12º ano, o pai arranjara-lhe o emprego que manteve até hoje e onde se esmera para ser boa funcionária.
Era a única filha de Zeferino e Carmelinda: o homem amanhara uma razoável propriedade da família situada adjacente à casa e acumulava com funções de jardinagem na Junta de Freguesia.
Mas, ainda cedo, problemas de saúde começaram a impedi-lo de fazer trabalhos pesados e, ao fim de mais uns anos, quando a sua Fatinha foi para a edilidade, vendeu grande parte dos terrenos por bom dinheiro e dedicou-se à nobre actividade de nada fazer.
A mulher tratava dos assuntos domésticos e dos animais que viviam no piso térreo da habitação.
O andar superior era destinado aos três membros da família.
Há cerca de quatro meses faleceu, de cancro na próstata, o velhote.
A mulher não resistiu muito mais tempo. Três meses depois, uma pneumonia acarretou-lhe várias complicações que culminaram no seu passamento.
A filha foi o amparo dos pais na velhice e na morte.
- Não fez mais do que a sua obrigação – diziam uns.
- Mas há muitos que nem a obrigação fazem – comentavam outros.
- Era filha única! Se fossem meia dúzia, tinham andado a empurrar uns para os outros e os velhos acabavam num asilo ou no hospital – sentenciavam alguns.
E assim a Fátima se viu sozinha na vida.
Não era bonita. Tinha os dentes acavalados, os olhos pequenos e o nariz adunco, mas era razoavelmente elegante.
Tivera vários pretendentes mas, ou ela ou os pais, sempre lhes acharam defeitos e assim foi ficando solteira, até hoje.
Tem ainda uma muito antiga paixão por um colega da escola primária, o Jaime, mas este nunca lhe prestou a atenção que ela gostaria. Entretanto casou e já tem dois filhos espigadotes.
A casa, depois da venda dos terrenos pelo Zeferino, sofreu umas transformações no rés-do-chão, sobretudo para converter umas pocilgas em garagem para dois carros pequenos: um do pai e outro da filha.
O acesso ao andar que servia de habitação era feito por uma escada de granito, no exterior.
Era tudo muito velho. O Zeferino, com uma pequena reforma, queria gastar pouco do dinheiro que tinha a render em Certificados de Aforro pois estava destinado a fazer face a despesas com doenças. E tinha razão pois acabou por dispender algum com a sua enfermidade final. Também a mulher não ficou barata na morte. Mas ainda sobrou uma boa maquia para a Fátima.
Por tudo isso, o soalho de tábuas de madeira, excepto na cozinha, rangia sob os passos de quem o pisasse. As janelas tinham duas abas envidraçadas com cortinas e, no interior, havia umas portadas em madeira que, já empenadas, eram difíceis de ser bem fechadas e assim dar maiores garantias quanto à não entrada de indesejáveis.
O Monge, pastor alemão velho mas ainda bonito de bem tratado que era, constituía a guarda avançada da casa e propriedade circundante, agora bem pequena.

Estávamos no início do Outono e ainda não viera nenhum daqueles temporais que a Fatinha tanto temia. Desde pequena que tinha pavor às trovoadas e agora só, naquela casa lúgubre, fria e isolada de todas as outras da povoação, às vezes pensava em como reagiria perante uma tempestade das fortes.
Na procelosa noite sequente a um dia de temporal, a amedrontada Fátima fechou todas as portas e janelas o melhor que conseguiu. Encarcerou-se no seu quarto juntamente com o fiel Monge e preparou-se para dormir, não sem antes tomar um calmante dos que usava quando tinha insónias.
Ouvia-se o sibilar de uma ventania desenfreada lá fora, os ruídos das ramas das árvores, mesmo que distantes, o bater da água nas vidraças. Um tremelicar da luz precedeu um ribombar barulhento e amedrontador.
A Fátima tremeu ao pensar que, pela primeira vez, iria estar sozinha debaixo de uma trovoada. Após aquele primeiro sinal de aviso resolveu deitar-se. Não teve tempo. Um novo trovão atordoou a sua cabeça e pouco depois a luz apagou-se.
Rastejou até à cama, subiu para ela, meteu-se debaixo da roupa e chamou o cão:
- Monge! Anda para o pé de mim!
E o animal subiu para se enroscar sobre os lençóis e cobertores junto da dona.
Com a escuridão, podia ver-se a luz dos relâmpagos a penetrar no quarto através das frinchas das velhas portadas. O som estrondoso que se lhes seguia deixava a mulher cada vez mais aterrorizada.
Meteu a cabeça debaixo da roupa na tentativa de nada ver e nada escutar.
De repente, ouviu o soalho ranger algures dentro de casa. Sentiu martelar-lhe nos ouvidos uns passos que se íam aproximando da porta do seu quarto. Lentos, cadenciados e cada vez mais audíveis. Chegou-se para junto do cão, moveu a cabeça para fora dos panos e disse:
- Monge! Fareja quem está lá fora!
Mas logo um novo relâmpago a fez ver um vulto dentro do seu quarto.
A mulher estava em pânico!
Enroscou-se de novo debaixo dos tecidos que cobriam a cama e ficou à espera de ser atacada. Várias facadas? Um golpe certeiro de machado? Ou seria um violador?
E o cão não reagia. Maldito!
Um novo estrondo fê-la tapar os ouvidos com as mãos.
Mas o soalho dentro do quarto rangia sob os passos pesados e compassados daquele que seria, certamente, o seu carrasco. Ouvia-lhe a respiração.
Paralisada, esperou a estocada final rezando pela salvação da sua alma.
E foi ficando assim, petrificada, incapaz de se mover, vencida pelo medo, à espera do ataque do seu algoz.
- Ajudai-me, Senhor! – pensava.
- Avé Maria, cheia de Graça... – orava.

Eram cerca das dez horas da manhã quando tocou o telefone.
Ouviu-o porque tudo agora era silêncio. A tempestade parecia ter passado.
Apercebeu-se de que tinha acordado. O Monge já estava sentado no chão.
Olhou ao redor e não viu marcas de nenhum assaltante.
Entretanto o telefone parou de tocar.
Sentia outra disposição, agora. Destapou-se e saltou para fora da cama. Foi abrir as postadas das janelas. Caminhou resoluta para a porta e colocou a mão na chave. Rodou-a, ainda um pouco a medo, e abriu-a com um pontapé:
- Monge! Busca!
O canino saiu do quarto e ela seguiu-o, primeiro com o olhar depois caminhado atrás dele. Tudo parecia normal.
Voltou ao quarto e espreitou para debaixo da cama e para dentro do guarda-roupa; nada nem ninguém lá estava escondido.
Aproximou-se duma das janelas e olhou atentamente para as casas menos afastadas: havia estragos.
Vizinhos com os seus bens atingidos estavam já a tentar reparar os danos. Muitos ramos de árvores espalhados no chão. Arbustos derrubados. Pequenas extensões de muros tombados. Telhas quebradas nos pavimentos. Vidros partidos. A confirmação, se necessária fosse, de que houvera borrasca forte durante a noite.
Abriu a vidraça.
- Então, Fatinha! Mas que temporal tivemos esta noite! E ainda não há luz. Tem muitos estragos? – disse um homem de meia idade com um aspecto campesino que ía a passar nesse momento junto à casa isolada.
- Ainda não vi! Só acordei agora – respondeu a mulher.
Um carro parou junto da casa. De lá saiu o colega Alberto:
- Estás bem, Fátima? Como não apareceste no trabalho à hora habitual pensamos que tivesses tido problemas. E como não atendeste o telefone, resolvi vir cá.
- Obrigado, Alberto! Adormeci tarde por causa da tempestade. Mas ainda tenho de ver se há alguns danos na propriedade.
- Ainda não há luz em muito sítios mas logo, a meio da tarde, já tudo deve estar normalizado. É o que diz a malta dos Serviços.
- Com a luz do dia dá para fazer uma vistoria, sobretudo ao telhado. É fácil. Subo ao sótão e vejo se entrou água.
- Parece que estás bem! – opinou o Berto.
- Agora estou! Mas passei uma noite horrível. A trovoada deixa-me em pânico e agora que vivo aqui sozinha, é muito mais complicado.
- Tens de te casar, rapariga! Quanto mais não seja nas noites de trovoada – disparou, trocista, o colega.
- A brincar que o digas! A brincar que o digas! – respondeu ela, lembrando-se da pavorosa noite em que o sono acabara por vencer o medo.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Traz a faca para matar o ladrão!

Os meus pais, Fernando e Julieta, conheceram-se nos finais dos anos 30 do século passado. Praticamente em cima do início da II Grande Guerra. Durante o conflito eles, como muitos mais, retraíram-se em relação à união pelo casamento pois, apesar de Portugal não estar directamente envolvido nas batalhas sofria, como todo o mundo, nomeadamente a praga do racionamento de produtos de primeira necessidade.
Não é pois de admirar que, só em 1946, tenham dado o nó matrimonial numa modestíssima cerimónia pois os tempos ainda eram de vacas magras.
Não posso deixar de fazer aqui uma referência ao facto de, tanto quanto sei, ter sido nesses anos do pós-guerra que se bateram todos os recordes de natalidade a nível mundial.
Eu sou um produto dessa fúria reprodutora à qual se seguiu uma descida contínua e imparável do número de nascimentos ao longo dos anos que, aliás, ainda prossegue.
Ora são os filhos do após guerra, como eu, que estão agora a passar à reforma e a depauperar as finanças públicas de inúmeros países.
Pela parte que me toca peço desculpa aos mais novos, embora não tenha responsabilidades no assunto, como devem imaginar.
Mas voltemos ao tema inicial.
Os meus progenitores foram viver para a Rua de Oliveira Monteiro, 1015, ao Carvalhido. No Porto, claro!
Era uma pequena casa alugada, térrea, com uma só janela virada para a frente e lá vivi até aos sete anos. Valia ter um quintal de dimensões razoáveis onde eu e a mana Fernanda brincávamos a maior parte do tempo (se as condições climatéricas o permitissem).
Talvez porque a habitação tinha poucas condições, talvez porque era benquisto por toda a família, talvez porque a minha mãe ficava mais desafogada para tratar da bebé mais pequerrucha, eu ía passar algumas temporadas, quer a Vila Praia de Âncora quer a Valença do Minho, para casa de tias. E bem gostava de o fazer...
Lembro-me de só uma noite ter vertido umas lágrimitas de saudades pelos meus pais quando já estava só e deitado na cama para adormecer. De resto, sempre gostei de andar por aqui e por ali. Diziam que era ave de arribação. Sempre fui, de facto.
Tudo terminou com a entrada na primária.
Em Setembro de 1956, tinha sete anos e acabada de fazer a 1ª classe, mudámos para a moradia das Antas. Também alugada, diga-se, mas com dois pisos, um pequeno jardim nas traseiras e, sobretudo, muito maior e mais moderna.
A velha casinha já foi há muito demolida mas o espaço por ela outrora ocupado ainda está vago. Situa-se num gaveto da Oliveira Monteiro com a Rua da Constituição. A casa adjacente, habitada nesses já remotos tempos por uma senhora de idade (a D. Maria Caldas) ainda lá está com as suas duas janelas.

O que vou contar a seguir não foi por mim presenciado. Penso que ainda não era nascido.
Tinha a casa de Oliveira Monteiro uma só porta alta e estreita, com duas portadas que subiam até à esquadria de granito e dois postigos de vidro martelado e com grades em ferro na parte exterior, um em cada uma das duas metades da porta.
Rezam as crónicas familiares que, uma noite, já bem depois das doze badaladas terem soado no sino da Igreja, se ouviu um estranho abanar da porta da rua.
O meu pai, decidido, foi averiguar o que se passava enquanto a mulher ficava na cama.
E viu claramente uma sombra, provavelmente as mãos de um homem, a abanar a porta.
E falou baixinho para a que haveria de ser minha mãe:
- Oh Leta! Traz cá a faca para matar o ladrão!
A Julieta não gostou muito da ideia mas, perante a insistência do marido, lá foi buscar o maior facalhão que tinha na cozinha.
Agora bem armado, o Fernando ousou abrir a porta num rompante e...que viu ele?
Um gato pendurado na grade de um dos postigos e que imediatamente se pôs em fuga.
Mas a história correu célere pela família e, não poucas vezes ao longo dos anos, eu ouvi-a ser contada.
E outras tantas escutei os meus parentes a perguntarem ao pai:
- Oh Fernando! Eu queria era ver se você matava mesmo o homem se fosse um ladrão!
E o meu pai fazia um sorriso de tons levemente amarelados e dizia:
- Se tivesse mesmo de ser!...

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Histórias curtas V - Viajando à boleia

Marta e Sandra eram duas jovens estudantes do 9º ano.
Estudantes é uma maneira eufemística de dizer pois, de facto, já ambas tinham dezanove anos e uma carreira académica a marcar passo.
Eram do tipo de adolescentes que se interessam mais por rapazes, música, charros, cervejas, chats, telemóveis, farras, discotecas, sexo, jogos de vídeo, cigarros, shots e outros assuntos bem mais enriquecedores do que estudar. Mas fizeram alguns esforços louváveis como “comer”, num espectacular ménage à trois, um professor ainda jovem, para este lhes dar uma nota que permitisse uma transição de ano. Pelo menos da fama não se livram.

Acabaram por ir para o curso nocturno.
Esta época escolar tinha terminado muito mal, para não variar.
Mas o que lhes interessava agora era cumprir um plano gizado durante o ano: percorrer o país à boleia.
Até já tinham previsto ir para o estrangeiro no ano seguinte.
Marta, baixa, roliça e loira com os cabelos curtos, era filha de uma mulher gorda que deixava vislumbrar como seria a filha uns anos mais tarde. Era divorciada do pai da azougada rapariga e tinha um filho, bastante mais novo que a moça, do homem que vivia lá em casa uns dias mas não outros. Trabalhava a dias em casas particulares.
Sandra, magra, morena, ar de cigana, vivia com a mãe e um pai muitas vezes ausente para cumprir uns tempos na prisão por furtos não muito graves. Tinha mais dois irmãos, rapazes, que andavam ao Deus dará consumindo drogas e seguindo as pisadas do pai, apesar de só terem mais dois e três anos que a rapariga. A mulher, muito magra, trabalhava como operária e era o pilar da família, se é que assim lhe podemos chamar.
Passada pouco mais de uma semana do fim das aulas, as amigas estavam na berma de uma estrada pedindo boleia.
Levavam um saco-cama cada uma, alguma coisa para comer e beber, preservativos, material para fazer uns charros, pouca roupa e ainda menos dinheiro: uns euros que para pouco chegariam. A ideia era irem sacando algum durante a aventura. A gorducha levava uma garrafa de whisky que, à socapa, retirara dum armário de casa.
Vestindo uns curtos calções de denin já coçado, umas shirts de alças (há quem lhes chame canotas) justas e curtas que deixavam antever uns seios opulentos mas bem firmes na rechonchuda e outros de pequeno volume mas com mamilos bem salientes na colega. Nenhuma delas usava soutien. Calçavam umas sapatilhas de qualidade razoável roubadas numa loja alguns dias antes.
Não lhes foi difícil que um carro parasse ao fim de poucos minutos.
Era uma viatura de gama alta conduzida por um tipo de uns cinquenta anos com uma magnífica aparência.
- Então para onde querem ir as meninas? – perguntou, enquanto apreciava as moças.
- Para onde calhar! Vamos dar a volta a Portugal à boleia – respondeu a faladora e extrovertida Marta.
- Então querem aventura? Podem entrar! – disse o condutor – Vamos conversando enquanto viajamos.
A redondinha entrou logo para a frente deixando que a morena fosse para trás.
Mal se sentou, a Sandra reparou que o casaco do homem estava pendurado junto à outra janela. E enquanto o incauto ía conversando com a loira, a amiga ía-se entretendo a verificar o dinheiro que havia na carteira que já palmara de dentro do casaco. E retirou cerca de metade das notas.
Pouco depois, disse:
- Oh Marta! Vamos ficar aqui e apanhamos uma boleia para a praia?
- Já? – perguntou o homem.
A amiga olhou para trás e percebeu um sinal da companheira.
- Pois! Senão passamos o tempo a andar de carro.
E apearam-se pouco depois. A pesca tinha sido rendosa.
Seguiu-se uma boleia com um camionista: rapaz novo, musculado e rude.
Foram as duas para a frente, naturalmente.
Não tardou muito que o malandreco fizesse uma proposta.
- E que tal pararmos e vires comigo apanhar flores? – disse, dirigindo-se à loira, enquanto lhe punha uma mão na coxa – És muito boazona, sabias?
- E que ganho eu em apanhar flores? Nem tenho jarra para as pôr! – e riu-se, a rapariga.
- Que tal dez euros?
- Dez? Vinte e cinco é o mínimo – replicou a doidivanas.
E repetindo estas tácticas quasi diariamente, foram ganhando o suficiente para comerem, dormirem debaixo de um tecto, irem a umas discotecas e até comprarem umas roupinhas novas.
Às vezes uma delas passava a noite com um dos felizes incautos, que além de pagar pelo amor acabava mais leve, não só de notas mas de outros objectos que as arrojadas viajantes achavam bonitos ou valiosos.
Compraram umas sacas para lá porem esse espólio de que muito se orgulhavam.
- Oh minha! Isto é que tem sido umas férias bué de boas, heim? – perguntava uma.
- Demais, minha, demais. Nunca pensei que fosse tão fácil! – respondia a comparsa.
E prosseguiram felizes e contentes a sua volta a Portugal à boleia.
Num dia em que o sol já ía baixo mas o calor era ainda intenso, propôs a Sandra:
- Vamos dormir na praia?
- Bora lá miga! – concordou a gorducha.
Polegar em riste, coxas bem à mostra, e não tardou que parasse um sujeito, gordo como um chibo, cara vermelhuda e guiando um carro dos bons.
- Para onde querem ir? – perguntou.
- Para a praia – respondeu a magra, por esta vez.
- E tem onde dormir?
- Vamos dormir na areia que está bué de calor.
- E se dormíssemos os três? Mas num quarto bem ventilado – perguntou o tipo com a desfaçatez de homem vivido.
- Isso talvez se arranje! Mas não é de borla! – disse a loirita.
- Vinte e cinco euros para cada uma! – ofereceu o maganão.
- Cinquenta por uma bacanal com dois borrachos como nós? Nem pensar! Cinquenta, mas para cada uma. É pegar ou largar! – contrapôs a Marta.
O homem pensou só durante uns segundos.
- Ok! Mas pago metade antes e metade depois – disse o barrigudo.
Elas entreolharam-se e mais uma vez a gordefa falou:
- Está bem! Mas pagas o jantar às duas.
- Combinado! Entrem!
A pensão onde o automóvel parou não era muito longe.
Comeram bem, beberem melhor e, pouco depois, lá foram para o quarto.
Só o homem teve de se identificar, o que era a situação favorita das moças.
Ainda com as barriguinhas cheias, elas começaram a provocá-lo.
E não demorou muito que ele estivesse ao rubro.
Duas mocinhas assim novinhas, ovelhinhas de carne tão tenra e tão gostosa para ser comida eram uma sobremesa muito especial.
Tão especial que mal o homem explodiu de prazer, teve uma fortíssima pontada na cabeça. Só teve tempo para dizer:
- Ai a minha cabeça!
E ficou como morto.
Elas desataram aos gritos e acabaram por se escapulir no meio da confusão indo dormir numa praia, por ironia.
No dia seguinte, a autópsia revelaria que a causa da morte fora uma embolia cerebral, mas já as aventureiras íam a bordo de uma furgoneta guiada por um quarentão desprevenido.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Histórias curtas IV - Detective privado

O Joaquim Silva era um antigo militar da Guarda Nacional Republicana que deixou a actividade depois de ter sido acometido de um enfarte de miocárdio.
Tinha cerca de sessenta anos e um corpanzil de gorila.
Apesar de não ter muita instrução, possuía uma boa biblioteca de livros policiais que já lera mais de uma vez. Desde Poirot a Sherlock Holmes, passando por Maigret, todos os detectives da ficção policial eram os seus heróis.
Por isso, quando se reformou, resolveu tornar-se detective privado.
Tinha a sua pistola Beretta 81, calibre 7.65, e a máquina fotográfica Canon que, apesar de antiga e desactualizada, lhe servia muito bem para fotografar, até com zoom.
Criou um espaço na sua casa térrea para instalar um pequeno escritório em cuja secretária estavam pousados uma máquina de escrever e um telefone além de outros objectos menos importantes. Não se entendia muito bem com essa coisa dos computadores pois isso era para a malta mais nova, dizia. Nas estantes, além de uns dossiers, lá estava a livralhada policial.
E não se pode esquecer o velho Ford Fiesta preto, companheiro fundamental para cumprir as missões que encarava com todo o empenho, nem o telefone celular, novinho e capaz de tirar fotografias de forma mais discreta mas cujo manejo lhe dera muito trabalho a aprender.
A mulher com quem casara em segundas núpcias, Olinda de seu nome, tinha menos treze anos do que ele. Trabalhava em casa fazendo uns bordados e umas rendas que depois vendia sobretudo para lojas, mas também para alguns particulares.
O uso de betabloqueadores resultante do problema cardíaco que tivera e o obrigava a uma medicação constante acentuara aquilo que a idade já gerara naturalmente: disfunção eréctil (a que ele chamava, com tristeza, “falta de tusa”).
Mas lá ía consolando a sua Olinda como podia.
Os seus clientes eram sobretudo esposas ou maridos que supunham andar a ser traídos.
Quando o trabalho começava a faltar, punha um anúncio no jornal e não tardavam a aparecer mais umas investigações para executar.
As revelações fotográficas eram feitas num fotógrafo profissional com quem fizera um pacto de silêncio.
E assim se ía entretendo e ganhando mais algum dinheirinho, evitando ter de sobreviver somente com a curta pensão que recebia depois de tantos anos de dedicação à GNR.
Com maior ou menor dificuldade ía resolvendo quasi todos os casos que lhe apareciam.
Por vezes nada descobria de comprometedor e os clientes recusavam-se a pagar.
- Se o senhor não descobriu que o meu marido me trai, é porque não fez o trabalho como devia ser, portanto não lhe pago rigorosamente nada – dizia-lhe uma madame.
- Mas, minha senhora, se o seu marido lhe é fiel a senhora até devia estar feliz – ripostava, na sua bonomia, o detective Silva.
- E quem é que lhe disse que eu queria que ele fosse fiel? – surpreendia-o a cliente.
- Bom! Sendo assim, além de um detective, devia ter contratado uma menina que o seduzisse – ironizou o Joaquim.
- Não quero saber das suas sugestões para nada. Não descobriu, não recebe! – e a madame fechou-lhe a porta na cara.
E lá voaram uns patacos ao paciente investigador policial.
No entanto, felizmente, a maioria dos contratantes cumpriam o que haviam acordado com o determinado e zeloso fã de Hercule Poirot.

Num belo fim de tarde de primavera, o Joaquim Silva entrou em casa satisfeito da vida.
Foi dar um beijo na sua querida Olinda e depois sentou-se na confortável cadeira que usava para trabalhar na secretária.
O correio do dia ainda lá estava pois não tivera tempo de vir a casa desde que saíra, de manhã.
Deu uma olhadela por tudo e começou por abrir um envelope que trazia um cheque.
- Aqui está ele! Deu trabalho mas valeu a pena – pensou.
- E que será isto? Não tem remetente!
E abriu um envelope grande e mais pesado que o normal.
Tirou um papel e umas fotografias.
Começou a vê-las e por cada uma que via ía ficando mais branco e com uma cara perfeitamente aparvalhada.
Não conseguiu olhar para todas. Pegou no papel que as acompanhavam e leu:

Caro detective Joaquim Silva:
Contratei um colega seu para seguir o meu marido e, como pode ver pelas fotos que anexo, ele comprovou que a puta da sua mulher é amante do sacana do meu homem.
Agora espero que dê umas cornadas na sua Olinda que eu vou fazer o mesmo com o safado do meu marido que, brevemente, será ex-marido.


O corpulento ex-GNR estava lívido e permaneceu durante um tempo indeterminado sentado na cadeira. Começou a ficar mal disposto. Sentiu uma dor no peito e no braço que lhe era familiar. Levantou-se, deu dois passos e caiu redondo no chão.

domingo, janeiro 07, 2007

Histórias curtas III - A mulher da janela

Luciano casou com Judite há cerca de dois anos.
Foi nessa altura que compraram um pequeno apartamento num arrabalde da grande cidade e para lá foram viver. Recorreram ao crédito bancário como é corrente depois de o mercado do arrendamento se ter degradado até ficar moribundo.
Todas as noites, depois do jantar, costumavam ir os dois tomar um café num estabelecimento que ficava a uns quinhentos metros de casa. Iam a pé, salvo se as condições climatéricas não fossem as mais recomendadas para andar na rua.
Muito recentemente, a Judite deu à luz um rapazinho a quem puseram o nome de Carlos.
De então para cá, o homem começou a ir sozinho ao café depois de dar a ajuda habitual à mulher. Mas, normalmente, não demorava mais de uns vinte minutos, salvo se encontrasse alguém conhecido com quem conversava um pouco. Mesmo assim nunca se deixava retardar pois a Ju estava habituada à sua companhia e ao seu auxílio.
Numa das primeiras noites em que caminhou sozinho, a uma hora em que ainda havia muito claridade natural, reparou que numa janela de um primeiro andar elevado, situado a cerca de meio caminho entre a sua habitação e o café, estava uma belíssima jovem que o olhava com os seus enormes olhos negros de forma insistentemente provocadora.
E a cena repetiu-se nas noites seguintes. Quando regressava, já ela não estava à janela.
Aquele rosto lindo era de tal forma apelativo que o Luciano começava a ficar ansioso por a ver ainda não tinha saído de casa.
Ela nada dizia e ele também não. Pensava que qualquer ousadia ali, tão perto da sua morada, teria um risco elevado que ele temia correr. Mas não lhe faltava vontade de entabular conversa.
Até que, certa noite, estava ele a uma escassa dezena de metros de passar sob a janela quando a misteriosa rapariga deixou cair um papel amarrotado em bola e desapareceu da vista do Luciano.
Ele baixou-se, meteu-o no bolso e só quando tomava o café é que o leu:

“Sou uma Rosa que tem falta de água e pode estiolar
Rosa367@netcabo.pt

A partir do dia seguinte, quando o computador que partilhava com a mulher estava livre e ela na cama, trocava uns e-mails com a Rosa. Depois passaram a conversar em chat.
Ela era muito esquiva a todas as perguntas que ele lhe fazia, o que punha em redemoinho os seus pensamentos e lhe fazia crescer a vontade de a conhecer melhor. Porque não pessoalmente?
A situação prolongou-se durante mais de três semanas e, quando ele passava junto à janela já lhe abria um largo sorriso no que era correspondido pela Rosa.
Entretanto ela foi-lhe dizendo que vivia com os pais, que andava a cursar Direito, e que mal ele desaparecia na curva a caminho do café se retirava da janela e ía sentar-se a estudar.
O coração do Luciano começava a bater com mais força quando passava perto da enigmática mulher.
Até que, uma noite, recebeu um e-mail que dizia:
“Amanhã estou sozinha em casa. Vou deixar a porta do meu apartamento somente encostada. Entra sem medo. Se a do prédio estiver fechada, toca à campaínha que eu abro-a cá de dentro. Quero ver-te de perto e quero que me conheças melhor”.
Ele tremeu!
Finalmente iria poder estar perto da Rosa!
Na noite seguinte, enquanto caminhava ía olhando tão discretamente quanto possível para todos os lados e, quando se aproximou da porta 367 encostou-lhe o ombro e entrou rapidamente. Fez o mesmo no apartamento. Desta vez o coração parecia querer saltar-lhe do peito.
Ouviu uma voz linda, dizer:
- Eu estou aqui no meu quarto. Orienta-te pela voz e vem cá.
Ele assim fez até que parou diante de uma porta encostada. Era lá de dentro que vinha o cântico de sereia.
- Entra! – disse a jovem.
Ele empurrou a porta lentamente, com dois dedos, e abriu-a.
Viu uma cadeira de rodas com uma mulher sentada, de costas para ele.
- Entra e vai para junto da janela, meu amor – orientou ela.
O Luciano assim fez. Agora, podia vê-la sentada numa cadeira de rodas com o rosto lindíssimo a sorrir e o peito a arfar. Desceu mais a mira do seu olhar e viu que a Rosa tinha ambas as pernas amputadas pouco abaixo das virilhas.
A surpresa deixou-o mudo e o rosto fechou-se.
- Desculpa, meu amor, mas queria que soubesses isto deste modo. Em directo e sem preparações.
- Pois! – balbuciou o homem – De facto apanhaste-me completamente desprevenido.
E não sabia se havia de sair imediatamente ou ser simpático e permanecer junto dela.
Ficou.
Conversaram durante mais de meia hora e ela contou-lhe, com as lágrimas a correr, o acidente que lhe transformara a vida. Disse-lhe que não se chamava Rosa mas Mafalda e se comparava a uma rosa desmembrada removida do roseiral.
Finalmente, ele despediu-se beijando aqueles lábios de framboesa.
Regressou a casa com uma confusão de sentimentos: tristeza, compaixão, irritação, ternura, fúria...
Dormiu mal. A Ju até lhe disse de manhã:
- Esta noite estavas muito agitado. Aliás, tens estado assim há várias noites. Que se passa contigo? – quis ela saber.
- Nada, mulherzinha! Nada de especial, é só algum stress do trabalho que vem comigo para casa e para a cama – mentiu ele.
E, na noite seguinte, fez um novo percurso para o café.
Um percurso mais longo e que não passava junto da janela da Rosa.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Histórias curtas II - O crime perfeito

O Tenório era um finório.
Sempre vivera de expedientes, sem um trabalho seguro e consistente, e gostava de mostrar ser um macho. Dizia poder aquilo que não podia e ter aquilo que não tinha. Um bazófias.
E bem esperto fora ao casar-se, depois de vários anos de vida mais ou menos em comum, com a Miquelina.
Esta, trabalhadora e submissa, era o exemplo acabado de quem se deixou converter num ponto bem pequenino deixando para o seu amor de juventude o palco e as luzes.
Mas para o seu homem andar bem vestido, com os sapatos engraxados, brilhantina no cabelo e bigodinho de arame, esfalfava-se ela para ganhar um salário numa fábrica e para tratar da casa e do marido durante o resto do tempo.
Do Tenório e do filho Tiago, rapaz que não negava a paternidade ao navegar na vida como um barco que parava em cada mulher como se fosse um porto. Ultimamente andava metido com uma alternadeira dum bar manhoso que, segundo as más-línguas, o ía sustentando e aos seus vícios. Raramente vinha a casa dos pais e sabe Deus por onde andaria.
Também no prazer pelos copos os dois eram parecidos bem como no gosto de dar umas porradas nas mulheres.
Volta e meia, a Miquelina aparecia com um olho negro ou com umas nódoas noutras partes do corpo que, ao contrário do que dizia, não eram resultado de fogosas noites de sexo mas de umas “pancadinhas de amor”.
A diferença de gerações não era nada notória nos dois homens e para isso seguramente contribuíram os bons conselhos que o Tenório dera ao herdeiro. Alguns bons conselhos e muitos maus exemplos, diga-se.
Mas, com o passar do tempo, a Miquelina começou a detestar o amor da sua juventude e da sua vida. Começou a ficar farta do fala-barato e custa-caro. Cada vez mais saturada. Cheia até à ponta dos cabelos.
Numa tarde outonal de um domingo em que o homem ficara a dormir de tarde para curar a bebedeira do sábado à noite, e em que uma chuva miudinha afastava as pessoas das ruas daquele bairro de casas de renda económica, foi a mulher fechar a persiana da janela no quarto de casal do pequeno apartamento no 3º andar elevado onde viviam.
Mas não conseguiu.
Estava presa em cima e teimava em não obedecer aos puxões que a Miquelina dava na fita enroladora.
Só havia uma solução: tentar que o homem anuísse em dar uma ajuda.
Nessa altura já ele se levantara do sofá da sala onde adormecera e estava a engalanar-se para mais uma saída.
Mas, para não chamar alto e assim ferir os ouvidos sensíveis do consorte, ela preferiu chegar junto dele e dizer:
- Oh homem! A persiana do nosso quarto não desce. Podes ir lá dar um jeito?
- Não desce? E que raio é que tu fizeste para ela não descer? É sempre a mesma merda! Mexes numa coisa...estragas! – refilou o cada vez menos querido marido.
- Eu sei que faço muitas asneiras, Tenório, mas tu tens habilidade para arranjar estas coisas. Vai lá, está bem? – disse a mulher numa representação cénica de alto gabarito.
- Pronto! Eu vou já! – condescendeu o chefe da família.
E pouco depois a vidraça estava aberta e o homem sobre o parapeito da janela. Após algumas tentativas infrutíferas, berrou:
- Oh Lina! Traz-me a caixa das ferramentas e acende a luz.
Ela foi buscar o material e aproximou-se da janela entregando-lhe a velha peça de madeira carunchosa onde estavam guardadas as coisas com que eram feitos os arranjos em casa.
Ele segurou-a com uma mão e a Miquelina, rápida como um raio, deu-lhe um forte empurrão.
O corpo do Tenório tombou para o exterior e a força da gravidade fez o resto.
Ainda se ouviu um grito estridente mas que depressa se tornou abafado e, logo a seguir, um barulho surdo atestava que o homem tinha atingido o fim da viagem.
A Miquelina veio à janela e gritou:
- Socorro! Acudam! O meu homem caiu à rua!
E repetiu. E repetiu.
Mas interiormente, sorriu e pensou:
- Acabou a escravidão!
O Tenório jazia ensanguentado e um líquido vermelho ía lentamente tingindo o pavimento molhado junto do corpo inerte.
Alguém chamara o 112.
Depressa levaram o homem, mas já era cadáver.
Depois, tudo se processou como mandam as regras: autópsia, luto, burocracias, funeral, investigação sumária e, como vira muitas vezes na televisão, a Miquelina achou que tinha cometido o crime perfeito.

Durante os dias em que tudo isso decorria, a persiana continuava teimosa, sem baixar.
Com a auto-estima no alto, certo dia a Miquelina decidiu-se.
- Raios partam a persiana que não desce! Mas eu trato do assunto.
E, resoluta, abriu a parte envidraçada e empoleirou-se no balcão para dar um esticão forte na maldita.
E conseguiu!
A teimosa cedeu e desceu, mas a Miquelina também desceu indo cair mesmo junto do sítio onde jazera o corpo do seu antigo amor.