Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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sexta-feira, janeiro 12, 2007

Histórias curtas IV - Detective privado

O Joaquim Silva era um antigo militar da Guarda Nacional Republicana que deixou a actividade depois de ter sido acometido de um enfarte de miocárdio.
Tinha cerca de sessenta anos e um corpanzil de gorila.
Apesar de não ter muita instrução, possuía uma boa biblioteca de livros policiais que já lera mais de uma vez. Desde Poirot a Sherlock Holmes, passando por Maigret, todos os detectives da ficção policial eram os seus heróis.
Por isso, quando se reformou, resolveu tornar-se detective privado.
Tinha a sua pistola Beretta 81, calibre 7.65, e a máquina fotográfica Canon que, apesar de antiga e desactualizada, lhe servia muito bem para fotografar, até com zoom.
Criou um espaço na sua casa térrea para instalar um pequeno escritório em cuja secretária estavam pousados uma máquina de escrever e um telefone além de outros objectos menos importantes. Não se entendia muito bem com essa coisa dos computadores pois isso era para a malta mais nova, dizia. Nas estantes, além de uns dossiers, lá estava a livralhada policial.
E não se pode esquecer o velho Ford Fiesta preto, companheiro fundamental para cumprir as missões que encarava com todo o empenho, nem o telefone celular, novinho e capaz de tirar fotografias de forma mais discreta mas cujo manejo lhe dera muito trabalho a aprender.
A mulher com quem casara em segundas núpcias, Olinda de seu nome, tinha menos treze anos do que ele. Trabalhava em casa fazendo uns bordados e umas rendas que depois vendia sobretudo para lojas, mas também para alguns particulares.
O uso de betabloqueadores resultante do problema cardíaco que tivera e o obrigava a uma medicação constante acentuara aquilo que a idade já gerara naturalmente: disfunção eréctil (a que ele chamava, com tristeza, “falta de tusa”).
Mas lá ía consolando a sua Olinda como podia.
Os seus clientes eram sobretudo esposas ou maridos que supunham andar a ser traídos.
Quando o trabalho começava a faltar, punha um anúncio no jornal e não tardavam a aparecer mais umas investigações para executar.
As revelações fotográficas eram feitas num fotógrafo profissional com quem fizera um pacto de silêncio.
E assim se ía entretendo e ganhando mais algum dinheirinho, evitando ter de sobreviver somente com a curta pensão que recebia depois de tantos anos de dedicação à GNR.
Com maior ou menor dificuldade ía resolvendo quasi todos os casos que lhe apareciam.
Por vezes nada descobria de comprometedor e os clientes recusavam-se a pagar.
- Se o senhor não descobriu que o meu marido me trai, é porque não fez o trabalho como devia ser, portanto não lhe pago rigorosamente nada – dizia-lhe uma madame.
- Mas, minha senhora, se o seu marido lhe é fiel a senhora até devia estar feliz – ripostava, na sua bonomia, o detective Silva.
- E quem é que lhe disse que eu queria que ele fosse fiel? – surpreendia-o a cliente.
- Bom! Sendo assim, além de um detective, devia ter contratado uma menina que o seduzisse – ironizou o Joaquim.
- Não quero saber das suas sugestões para nada. Não descobriu, não recebe! – e a madame fechou-lhe a porta na cara.
E lá voaram uns patacos ao paciente investigador policial.
No entanto, felizmente, a maioria dos contratantes cumpriam o que haviam acordado com o determinado e zeloso fã de Hercule Poirot.

Num belo fim de tarde de primavera, o Joaquim Silva entrou em casa satisfeito da vida.
Foi dar um beijo na sua querida Olinda e depois sentou-se na confortável cadeira que usava para trabalhar na secretária.
O correio do dia ainda lá estava pois não tivera tempo de vir a casa desde que saíra, de manhã.
Deu uma olhadela por tudo e começou por abrir um envelope que trazia um cheque.
- Aqui está ele! Deu trabalho mas valeu a pena – pensou.
- E que será isto? Não tem remetente!
E abriu um envelope grande e mais pesado que o normal.
Tirou um papel e umas fotografias.
Começou a vê-las e por cada uma que via ía ficando mais branco e com uma cara perfeitamente aparvalhada.
Não conseguiu olhar para todas. Pegou no papel que as acompanhavam e leu:

Caro detective Joaquim Silva:
Contratei um colega seu para seguir o meu marido e, como pode ver pelas fotos que anexo, ele comprovou que a puta da sua mulher é amante do sacana do meu homem.
Agora espero que dê umas cornadas na sua Olinda que eu vou fazer o mesmo com o safado do meu marido que, brevemente, será ex-marido.


O corpulento ex-GNR estava lívido e permaneceu durante um tempo indeterminado sentado na cadeira. Começou a ficar mal disposto. Sentiu uma dor no peito e no braço que lhe era familiar. Levantou-se, deu dois passos e caiu redondo no chão.

29 Comments:

Blogger wind said...

Gagalhadas:))))
António desta vez excedeste-te!
Excelente post!:)
beijos

10:48 da tarde  
Blogger blugaridades said...

E esta, hein!
Desta vez, a história, apesar de dramática, ia-me matando a rir. É que a linguagem " vicentina" tem o dom de me fazer dar umas boas gargalhadas! Continuas na senda do êxito! Mais uma vez , com a tua criatividade em acção, pintaste um quadro melodramático do quotidiano.O guarda-detective, apanhado de surpresa, acabou por sucumbir.As malhas que o destino tece!
Mulher nova, marido fora o dia inteiro,a falta de "tusa" a provocar "estragos" graves na ,certamente ainda libidinosa, Olinda.
A carta ,António,não podia ter um conteúdo melhor!Estás de parabéns! Quanto às mulheres, só te posso dizer que a atrevida Olinda, a esta hora,com o guarda morto e enterrado, deve estar nos braços do amante que também teve " a sorte" de ter sido posto ao fresco.
Continuo a gostar. Muito! E insisto, estas histórias mereciam ser lidas por muitas mais pessoas!!!
Beijinhos

11:17 da tarde  
Blogger Al Mutamid said...

Chamem o António, perdão a GNR, desculpem o INEM... rápido que o corno está desfalecido e a Ólinda ainda é capaz de lhe apertar os guizos de uma vez por todas!!!
Chamem o António!
Agora é que a òlinda vai pôr o retrato do marido atrás da porta.
Pois dizem que pôr um corno detrás da porta dá sorte.
E a talho de foice:
-Não te esqueças dos medicamentos e toma-os a horas certas.
Bom fim de semana

11:30 da tarde  
Blogger Peter said...

Foi uma morte feliz e que fez a felicidade da viúva.
Há males que vêem por bem.

12:53 da manhã  
Blogger Paula Raposo said...

Excelente!! Em todos os sentidos! Bem escrito mesmo e a história é o máximo de divertida! Tirando o 'cair redondo no chão'...mas só podia ter esse final mesmo! Adorei, António. Milhões de beijinhos (de mãos dadas...)Eh eh eh

2:40 da manhã  
Anonymous Ana Joana said...

Bom dia António,

Bem divertida esta história! rsss

Também aqui se vê que dificilmente se procura encontrar a solução dentro ou perto de portas - para o bem e para o mal. Sempre achamos que é lá fora, de preferencia mto longe, que está a chave misericordiosa rsssssss - há coisas que só podem acontecer aos outros!!!!!!

Mais uma boa história, tanto na forma, como no conteúdo como no género.

Bom fim de semana e beijinhos

Ana Joana

8:50 da manhã  
Blogger Leonoretta said...

ola antonio.

venho agradecer a tua presença leitora no meu blog e o tempo dispensado á leitura do meu conto e numa troca de historia cá historia lá, leio a tua.

mas nao pelo dever da praxe, entenda-se.

quanto ao estilo da escrita nao direi nada devido aos comentarios feitos anteriormente ja de outras historias que escreveste. assim nao me repito.

comento entao so a historia.
o "feitiço vira-se contra o feiticeiro" ou "em casa de ferreiro espeto de pau".

são sempre complicadas as relações onde há alguma distancia de idades.

os finais da reviravolta, rsss, é que me prendem definitavente.

abraço da leonoreta

9:34 da manhã  
Blogger Leonoretta said...

"definitivamente"

estas teclas estão cada vez piores

9:40 da manhã  
Blogger António said...

Para "ana joana":
Obrigado pelo teu comentário.
E as "Histórias curtas" irão continuar...para isso tenha a imaginação e a inspiração.
A transpiração é só mais lá para o verão.

Beijinhos

10:28 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

"Em casa de ferreiro espeto de pau"! já lá diz o ditado! Se o GNR zelasse mais pelo que lhe dizia respeito... Mas a sua opinião sobre as mulheres é uma coisa!!!

3:22 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Coitado, não basta traído senão tb "morrido"..........podias ter "aliviado" a COISA.................Todavis está bom, parabéns!
Um abraço da Intemporal.blogs.sapo.pt

4:59 da tarde  
Blogger António said...

Para "intemporal":
Obrigado por mais um comentário.
Volta sempre!

Beijinhos

5:46 da tarde  
Blogger Fatyly said...

Muito bem narrado e no final o grande dective, coitadoooo mas dei gargalhadas sonoras com tanto gosto.
Parabéns António e é caso para dizer...vasculha-se a vida dos outros quando temos telhados de vidro eheheheheheh!

Beijos

9:28 da tarde  
Blogger GR said...

Que dizer mais, depois de todos os comentários lidos?
Magnifica história!
Eu que não simpatizo nada com GNR, francamente, tive pena deste!
Pois é, as esposa e maridos, são sempre, maridos e esposas de alguém!
De todos menos de “nós”, sempre dos “outros”!
Mas onde vais tu buscar tanta imaginação, humor e acção?
Definitivamente, tens que publicar aos domingos na revista do JN, jornal com mais tiragem!
Depois?
Depois, sai em livro!

António,
Parabéns que privilegiados somos!

GR

1:49 da manhã  
Blogger António said...

Para "GR":
Olá, Guida!
Obrigado por mais um comentário que me deixa tão babado que pareço um velhinho caquético...ah ah ah.

Beijinhos

9:59 da manhã  
Anonymous Papoila said...

Olá António:
Mais uma história bem contada e divertida...
Mas tudo fica em suspenso... ele só caiu redondo no chão pode voltar a levantar-se e coitada da Olinda... lol
Beijo

2:55 da tarde  
Blogger Ana Luar said...

Fabulosamente divertida... já para não me repetir em novos elogios à tua escrita k éfantástica.

Beijo António e obrigada pela rugas a menos no meu rosto.:)

7:37 da tarde  
Blogger Rosa Silvestre said...

Bom esta história está mesmo divertida!Fartei-me de rir!
Quem ganhou com a morte do ex-GNR foi a sua esposa, não haja dúvida!
Bom Domingo, António

8:29 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Três vivas para Olinda!!!

9:28 da tarde  
Blogger Caiê said...

Eu estava mesmo à espera, confesso... ;)
Quando mete detectives, adivinho sempre o fim da história!

9:30 da tarde  
Blogger António said...

Para "Tó Gomes":
Obrigado pela visita e comentário.
Fui ao teu blog mas parece que ele também está morto.

Abraço

10:32 da tarde  
Blogger Cerejinha said...

As histórias por aqui são muito bem "esgalhadas", tanto na estrutura como na composição e no imaginário mas...acha mesmo que o ser humano é assim tão imperfeito nas relações humanas que estabelece? Somos assim tão hipocritas e tão incapazes de ser fieis aquilo em que acreditamos e às pessoas que amamos e que nos amam? As suas histórias são sempre atravessadas por adultério, de parte a parte, e denotam pouco crédito na integridade moral e na lisura das relações humanas. Acha mesmo que somos assim ou é para apimentar os textos?
Parabéns!

11:12 da tarde  
Blogger margusta said...

Olá querido antónio,
...faz muito tempo que não te lia...mas quando li " Histórias curtas...", pensei..ok...não venho apanhar nenhuma blogonovela no meio...e...e digo-te gostei muito do teu " Detective privado", tanto que até tive pena do " gorila"

A tua imaginação continua o máximo!!!



Querido António, quero aqui tb agradecer-te o facto de não te teres esquecido do meu aniversário. Muito obrigada por te teres lembrado de mim !...Pois eu já não posso dizer o mesmo , em relação ao teu aniversário...mas ainda aceitas uma beijoca de Parabéns...não aceitas?...

Jinhos muitos...vou tentar ir regressando aos poucos....

12:45 da manhã  
Blogger lena said...

querido amigo António, claro que me ri.
o feitiço virado contra o feiticeiro, neste caso, para não dizer o outro ditado que termina em "o último a saber"

como sempre entusiasmada com a tua forma de escrever, sempre tão criativa e bem escrita

um bom momento sem dúvida, dentro
de um final triste que me arrepia, mas isso é um problema meu, que dia a dia vou tentando ultrapaçar sem o conseguir ainda na sua totalidade

abraço-te sempre com muita ternura e deixo-te beijinhos meus

lena

1:16 da tarde  
Blogger amigona said...

Fantástico, António! Fantástico!
Beijo...

8:49 da manhã  
Blogger blugaridades said...

Passei para reler durante uma pausa para café. De chávena na mão, com o precioso líquido fumegante por beber,fui revendo as imagens que tão bem "disparas" para o papel. Este guarda/ detective apanhou cá um par de...!
Boa! Quem com ferro mata, com ferro morre! Estás um arquitecto da palavra! Bem construída a história! Reitero o que já havia dito.
E estas mulheres saíram fresquinhas...da costa.
Beijinhos

2:20 da tarde  
Blogger sonamaia said...

Mais mortes não por favor!!! Qualquer dia ainda abres uma funerária!!
Belo texto, bela narrativa e melhor "bilhete"!!
É caso para se dizer que o feitiço se virou contra o feiticeiro!! Ele há cada uma!!
Final inesperado e muito surpreendente!!
Estás cada vez mais versátil!! E já agora adoro literatura policial!! Nada como um "crime" perfeito para exercitar a mente!! Jinhos

6:04 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

ahaahahah
gostei
beijos

5:47 da tarde  
Anonymous tb said...

Mas olha lá, tu matas os homens todos? Taditos deles!
Há muito que nã ovenho pelos blogs e então estou a ler tudo de uma vez só, começando pelos de cima. Já é o segundo a marar, ai ai ai.
Como já reparaste estou a rir que nem perdida com as tuas histórias.
Beijinhos

9:50 da tarde  

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