Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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quinta-feira, novembro 30, 2006

Uma família burguesa - parte XXIII

Meados de 2007.
Em finais de Julho, Ana Maria deu à luz um rapaz ao qual, como já havia sido combinado, chamaram Manuel José.
Cerca de duas semanas depois foi a vez da Fernanda ter presenteado o Mário com uma moreninha a quem deram o nome de Olga.
Por essa altura, Bárbara estava no sexto mês de gestação de uma menina que, em princípio, se chamaria Judite.
Parecia que os deuses estavam a ser pródigos a distribuir fertilidade.

Estava o Francisco Torres a levantar-se, certa manhã de Outubro, quando tocou o seu telemóvel. Era o Alexandre.
Ainda ensonado, resmungou:
- Que queres?
- Sabes que apareceu agora de manhã o corpo da Sónia a boiar no rio? Lembras-te dela, não lembras? – disse, em tom estranho, o irmão da Marina.
- Claro que lembro! Mas que aconteceu? Matou-se? Mataram-na? – perguntou o Chico.
- Não se sabe nada de concreto. Como acontece quasi sempre nestes casos, cada pessoa tem a sua opinião e, portanto, o que diz o povo não serve para nada. Vem uma notícia muito curta no jornal e agora vou ver a televisão – informou o cabeça rapada.
- Tu pareces estar um pouco ansioso! – notou o cunhado.
- Pois estou! Lembra-te que há cerca de um ano andava com ela e a polícia é capaz de me chatear – falou o Alex.
- Tens razão! Mas tu não tens nada a ver com o caso.
- Pois não! Mas se foi assassínio e eles não tiverem bons suspeitos são meninos para pegarem comigo e chatearem-me...e muito! – disse o assustado sócio.
- Acho que estás a preocupar-te demais! Tem calma! Vais ver que se calhar nem houve nenhum crime – procurou o Francisco animar o outro.
- Não sei, não! Não estou a ver que seja acidente nem que ela se tenha suicidado. Pelo contrário, acho que era menina para se meter em complicações e alguém lhe ter limpo o sebo. Não te esqueças que ela te quis chantagear...
- Mas, mesmo que tenha havido crime, tu tens álibi, não tens? – perguntou o sócio maioritário.
- Estava a dormir em casa e estava lá a minha mãe. Mas o testemunho da velhota não deve valer de muito. Isto partindo do princípio que ela morreu de noite, mas não sei se foi assim. E quando abandonei a Sónia ameacei-a de morte. – disse, preocupado, o outro.
- Mas só ela é que ouviu e está morta.
- Não tenho a certeza. Eu não a vi, mas a amiga que vivia com ela podia estar lá e ter escutado a conversa – disse o homem, nervoso.
- Bom! Isso poderia ser chato. Mas já foi há um ano. E provavelmente não estava mais ninguém em casa. Vão aparecer suspeitos muito mais credíveis. Não te apoquentes! – continuou o Chico a tentar acalmar o cunhado.
- Oxalá tenhas razão! – e suspirou, o Alexandre.
- Olha, Alex! Eu agora vou almoçar e depois para o stand. Precisas de alguma coisa? Já falaste com a minha mulher? – apressou o Chico.
- Não preciso de nada, por enquanto. E obrigado. Mas não digas nada à minha irmã. Não vamos alarmar toda a gente – recomendou o Pimenta.
- Pronto! Se precisares de alguma coisa avisa, ok? – despediu-se o Torres.
- Claro! Então até logo! – terminou o Alex.
Quando estavam juntos no bar, à noite, já a Polícia tinha divulgado um aviso a dizer que havia fortes indícios de a morte da Sónia ter sido provocada por asfixia e o corpo ter sido depois lançado ao rio.

A situação clínica de Maria Helena continuou a evoluir favoravelmente.
Um dia resolveu telefonar para o médico, vizinho e amigo Armando Borges dizendo-lhe que precisava de falar em privado com ele. Embora já não trabalhasse em nenhum hospital, o cardiologista continuava a exercer clínica por conta própria.
Quis saber qual o assunto.
- Depois! É coisa para ser transmitida pessoalmente – disse ela.
E combinaram que, na tarde seguinte, ela iria ao consultório e lá diria o que tinha a dizer.
Quando a Maria Helena entrou no gabinete do vizinho, este notou:
- Estás com uma cara estranha. Que se passa? Sentes-te pior?
- Não! Estou bem, obrigado.
E indicando uma poltrona, disse o doutor:
- Senta-te aí, por favor.
Pegou numa cadeira e foi postar-se em frente dela.
- Já estás em condições de falar? Criaste-me uma ansiedade grande. Logo que possas começa, por favor.
Fez-se silêncio durante uns instantes até que ela começou, finalmente:
- Esta fase que atravessei, em que durante algum tempo vi o espectro da morte à minha frente, fez-me sentir de forma muito intensa que podemos morrer muito mais subitamente do que pensamos. E deixarmos coisas por fazer. Nesta fase, embora esteja muito melhor e pareça que ainda não é desta que vou...
- Não é, com certeza – interrompeu o médico.
- Espero que não! Mas como dizia, tenho a consciência de que posso partir de um momento para o outro muito mais enraizada, por isso quero revelar-te uma coisa que guardo comigo, só comigo, há trinta e quatro anos.
Pausou e disse:
- Tu és o pai da minha filha Joana!
E ficou a olhar para a expressão patética do Armando que não conseguiu dizer nada durante algum tempo.
Quando falou, ou melhor, quando balbuciou umas palavras, foram estas:
- A Joana é minha filha?
- Foi exactamente o que eu disse.
- Meu Deus! E conseguiste aguentar esse segredo só contigo? O Tó Zé não sabe nada? – disse, já mais refeito do impacto da revelação, o amigo.
- E nem imaginas como foi difícil!
- Mas como sabes que é minha filha? – perguntou, um tanto impensadamente, o Armando.
- Como te lembras, o António esteve a fazer um estágio na Bélgica, a expensas da empresa, de Janeiro a Julho de 1973. Eu tinha vinte e quatro anos, o sangue na guelra e muitas carências e tu ainda eras solteiro. Começamos com uma brincadeira, depois foi o desenvolvimento que conheces e, uma semana antes de o António vir passar umas férias, faltou-me o período. Estive com ele, ele partiu e nunca mais veio a menstruação. Não há qualquer dúvida de que a Joana é tua filha. Aliás, se olhares bem para ela, aqueles olhos muito escuros e o cabelo negro e ondulado, são teus. Chapadinhos! – recordou a Lena.
- Nunca tal me passou pela cabeça! Mas agora que falas, realmente a Joana tem semelhanças comigo, é verdade. E...continuamos a manter a nossa relação secreta já contigo grávida – disse, o médico.
- Pois foi! Só acabamos pouco antes de o Tó Zé regressar definitivamente.
- E agora? – perguntou o clínico.
- Considerei que te devia dizer esta verdade antes de morrer. Penso que tens o direito de a saber. Acho que também o meu marido a deveria saber, mas nunca seria capaz de lha contar, obviamente. E quanto à Joana... – e suspendeu o discurso, a Helena.
- Que achas? – disse ele num tom expectante.
- Como ela não tem descendentes, nem vai poder ter, acho que não devemos dizer nada. Se tivesse filhos, talvez fosse caso para pensar. Assim...
- Talvez tenhas razão! Mas agora tenho de estar com ela mais vezes. Tenho de a ver mais vezes – como que sentiu que isso seria uma obrigação, o Armando.
- Isso não é difícil! O difícil é tu guardares o segredo, podes crer. Se ela tivesse filhos tenho quasi a certeza que não resistirias a contar a verdade. Assim, vai-te ser difícil mas vais resistir. Espero que resistas, como eu!
- Claro que sim! Não iria comprometer a tua imagem – disse ele.
- Então vamos dar o assunto como encerrado. Mas desta vez, definitivamente, trinta e quatro anos depois – falou a Lena.
- Pois! Com certeza! Mas ainda estou atordoado. Isto de saber que se tem um filho assim de repente...é forte! – e riu, e lacrimejou – A vida é tramada! Obrigado por mo teres dito. Confesso que estou muito contente. Só tenho pena que os frutos da nossa breve relação, tão boa que foi, terminem com a Joana.
- C’est la vie, mon cher! – comentou ela, usando uma expressão que usava frequentemente.
E continuou:
- Sabes, Armando? Acho que toda a gente tem um ou mais segredos que guardam ciosamente consigo ou partilham com muito, mas muito pouca gente, normalmente com alguém que foi seu cúmplice.
- Pois é Lena, pois é!
- E agora vou-me embora porque tens lá fora pessoas que precisam de ti.
E despediram-se.

Uma tarde, passados vários dias sobre o aparecimento do cadáver da Sónia, tocou o telefone na secretária do Francisco Torres quando este se encontrava, como habitualmente, no stand.
- Sim! – falou o corpulento sócio.
- Olha! Sou eu, o Alex! Recebi uma notificação para me apresentar na Polícia Judiciária para prestar declarações, depois de amanhã – queixou-se o atrapalhado cabeça rapada.
- Sim? E estás admirado? Deve ser por causa da Sónia. É natural que andem a investigar e interrogar pessoas. Não vejo razão para estares preocupado. Tu respondes ao que eles te perguntarem e não haverá qualquer problema – minimizou o assunto, o Chico.
- Isso é muito fácil de dizer! Mas quem lá vai sou eu! – respondeu, mal humorado, o sócio.
- Tem calma! Se suspeitassem de ti provavelmente íam buscar-te a casa, ías para o Tribunal e eras engavetado preventivamente. Então sim! Estavas numa situação chata. Ouve bem! Eu não estou a dizer isto só para te acalmar. Digo-o porque tenho a certeza de que não é nada de especial. E como só tens de ir à PJ daqui a dois dias, o melhor é nem pensares mais nisso até lá – disse, de forma enfática, o cunhado.
E concluiu:
- Logo à noite conversamos mais um bocado, se quiseres, ok?
- Ok! Desculpa, Chico! Eu sei que estou a ser chato, mas tu és para mim como um irmão e tenho necessidade de falar com alguém – disse o Alexandre.
- Eu sei! Eu sei! Mas queres que vá agora ter contigo? Precisas de me dizer alguma coisa de especial? – questionou o calmeirão.
- Não! Nada! Até logo! – despediu-se o cabeça rapada.
- Até logo, Alex! – terminou o Francisco Torres.

16 Comments:

Anonymous JMC said...

Ora cá está a penultima parte, envolvente como sempre, e já com sabor a desfecho final e de ligação entre a actual e os primeiros episódios dos quais, já estamos porventura esquecidos, neste parece-me, ou não entendi bem, que há um pequeno desfazamentos nos 'timmings' da conversa entre o Francisco e o Alex, pode confirmar-me se estou certo?.

JMC

4:32 da tarde  
Blogger António said...

Para "JNC":
Olá!
Obrigado pelo comentário.
Referes:
"parece-me que há um pequeno desfasamento nos 'timmings' da conversa entre o Francisco e o Alex".
Sinceramente não detectei nada.
Se te referes ao facto de no 1º telefonema o chico estar a acordar quando toca o telefone e no fim do telefonema dizer que vai almoçar, isso acontece porque ele dorme de manhã e portanto acorda perto da hora de almoço.
Se for outra situação, peço que sejas mais específico.
Com as acções a decorrerem em tempos tão diferentes, é possível que tenha cometido uma "gaffe".

Um abraço

5:23 da tarde  
Blogger Paula Raposo said...

Tens conseguido manter o suspense durante toda a blogonovela!! Adorei esta parte porque, curiosamente, quando a li, recordei a tua voz e quase que te estava a ouvir falar em determinado momento. Quero eu dizer que escreves tão bem como falas. Muitos beijos. Querido (já que ontem me excedi...).

5:41 da tarde  
Anonymous JMC said...

É isso mesmo ele acordou de manhã, 'mas tarde' porque trabalha de noite, e eu não me lembrei desse promenor, por isso achei estranho levantar-se e logo de seguida ir almoçar, quanto ao resto tudo normal e bastante emotivo, o que deixa antever um final fantastico.

JMC

6:04 da tarde  
Blogger soeumesma said...

Uhmmm, agora a porca torceu o rabo. Será que estou a ver para onde caminha um dos desfechos? Cá espero pela última parte, então.

Como o prometido é devido: voltei. Obrigado pela tua visita.

6:50 da tarde  
Blogger Fatyly said...

Que surpreendente e não estava nada à espera desta revelação.
O suspense mantem-se até ao final!
Ainda tens a distinta lata de dizer que não tens a certeza se escreves bem e andas a marinar no "se"! Aqui aplico algo teu: és mesmo louco!
Gostei e venha o último capítulo.
Já agora para quando o livro????? tenho que ir ler "O viúvo" já falado por diversas vezes e aí seriam livros:):):)
Beijos

6:59 da tarde  
Blogger Caiê said...

...Tcham, tcham!
Desculpa, tenho andado fora disto porque estive em viagem. vejo que -como o bom argumentista - guardaste uns trunfos na manga para o fim!
Uma coisa não entendi destes comentários: vais publicar um livro? :)

7:43 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

ola antonio.
confesso a minha surpresa com as surpresas obtidas pelo andamento da intriga. grandes trunfos na manga.
este era um dos livros que indo ao final para saber como acabava nao adiantava que é o que eu costumo fazer quando vou a um quarto do romance.

abraço da leonoreta

8:55 da tarde  
Anonymous GR said...

A compreensiva Helena também tem um segrego!
Grande surpresa!!!
Penso que jamais revelaria este segredo! Ou talvez o fizesse. Quem beneficiava?
Não! Não o faria!
Pelo stress do Alexandre, algo me diz que foi ele que matou a Sónia! Porém, quem o fez foi o calmo do cunhado, as represálias eram muitas e ele não queria que a filha e a 1ª mulher viessem a saber, como o dinheiro era ganho!
Será que acertei!
Chamo já o Georges Simenon, para desvendar o problema!
Genial!
Adoro os livros em que tudo termine mal, ou seja como não esperávamos!
Só falta um episódio, o derradeiro!
Estou muito curiosa!

Um Grande Bj,

GR

10:55 da tarde  
Blogger António said...

Para "GR":
Olá, Guida!
Obrigado pela visita.
Estás à espera de grandes revelações?
E se não houver mais segredos?
eh eh

Beijinhos

11:28 da tarde  
Blogger Betty Branco Martins said...

Bom! Penso que isto da Maria Helena foi uma grande revelação.

Consegues levar as emoções até ao último capitulo, eu bem sei que este é o penúltimo! não me digas que ainda vens com mais revelações bombásticas

António, dou-te os parabéns porque o enredo não é nada fácil, bem pelo contrário, até que tem muitas personagens, trabalhaste muitíssimo cada uma delas ao ponto das envolveres num todo. Independentemente de como seja o final

MUITOS PARABÉNS

Beijinho
BomFeriado

2:56 da manhã  
Anonymous Becas said...

António,
Ando muito afastada dos comentários mas menos da leitura dos teus textos... Vou agora por a leitura em dia (ou antes, em madrugada!!!) e amanhã comento...
Beijinhos

3:29 da manhã  
Blogger Joaninha said...

...retomando a leitura de mais um capítulo desta emocionante história, quero aqui deixar a minha opinião: está excelente! Impaciente, aguardo novos desenvolvimentos. Atá lá, os votos de um bom fim de semana acrescido do feriado. Um abraço

8:55 da manhã  
Blogger António said...

Para "becas":
Minha linda!
Já estou aqui à tua espera...eh eh.

Beijinhos

9:40 da manhã  
Anonymous Teresa said...

tenho pena de chegar aqui tão tarde, mas já me enteirei (dentro do possível) da história. gostei do que li e volterei. um abraço.

1:03 da tarde  
Blogger magarça said...

Um crime! isto está a aquecer...

7:30 da tarde  

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