Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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quarta-feira, novembro 29, 2006

Uma família burguesa - parte XXII

Nessa mesma noite, já na cama, Maria Helena disse para o marido.
- Quero dizer-te uma coisa muito importante, mas promete-me que não fazes barulho. Por enquanto é segredo.
- Mas que se passa? Alguma coisa vai mal contigo? – disse ele, inquieto.
- Não! Não é comigo. E não é necessariamente uma coisa má. Eu diria que até é boa, embora com aspectos um pouco estranhos – falou a mulher.
- Desembucha, Lena!
- É a Ana Maria que está grávida de quatro meses.
O homem deu um salto e ficou sentado na cama.
- Meu Deus! Não acredito! Está?
Fez uma breve pausa, olhou para a mulher e viu esta a acenar afirmativamente com a cabeça; depois continuou:
- Não tinha reparado! E quem é o pai? Vai casar ou amigar-se? – quis saber o engenheiro.
- Nem uma coisa nem outra! Quer que o pai da criança fique no esquecimento porque acha que não é tipo para a fazer feliz. Acho que ainda é o trauma da separação do Francisco – explicou a Helena.
- Esta rapariga sempre teve uma pancada na cabeça! Eu sempre te disse, Lena! - e suspirou, o futuro avô.
- Deixa lá! Se é essa a vontade dela, não falta aqui quem lhe dê amor e carinho.
- Mas um pai faz falta! – disse o Tó Zé.
- A Cláudia também tem sido criada sem o pai e não me parece que tenha qualquer trauma daí resultante – amenizou o assunto, a dona da casa.
- E é rapaz ou rapariga? – perguntou o homem de meia-idade.
- Ahh...Nem lhe perguntei isso! Mas amanhã já sei. Agora, António José, faz favor de não dizeres nada porque ela vai comunicar oficialmente o caso amanhã ao jantar. Eu estou a dizer-te porque acho que deves estar preparado e, sobretudo, porque ela deve dirigir-se especialmente à Cláudia; pelo menos eu dei-lhe essa indicação – explicou a Lena.
- Sim! Percebo e concordo! Tu sempre soubeste lidar bem com estas coisas – elogiou o homem.
E continuou:
- Vou tomar um comprimido para dormir porque assim não prego olho.
E levantou-se.
Depois de tomar o comprimido, vagueou pela casa. Quando voltou para a cama já a mulher estava nos braços de Morfeu.

No dia seguinte, ao jantar, estavam todos os habitantes da vivenda.
O António José havia desmarcado o exercício de marcha com o vizinho médico.
A Ana Maria sentou-se à mesa e quasi não disse nada durante a refeição. Aliás, pouco se falou. Só a Cláudia e a sua avó estiverem mais tagarelas.
Momentos antes de serem colocadas na mesa as sobremesas, Ana falou com alguma solenidade:
- Queria que me dessem uns momentos de atenção!
- Cláudia! – interveio o Tó Zé – Não ouviste a tua mãe?
- Sim! Desculpem! Podes falar mamã – respondeu a jovem adolescente.
- Quero dizer a todos que a Cláudia vai ter um irmãozinho!
A Lena e o marido fingiram o melhor possível uma cara de espanto.
A filha da Ana Maria fez uma careta e foi a primeira a intervir:
- Estás grávida, mãe?
- Estou!
- E quem é o pai?
- Isso é coisa que não quero dizer. O que interessa é que é meu filho e teu irmão – disse a loira.
- Meio-irmão, queres tu dizer! – comentou a jovem.
- Sim! Mas como vai viver aqui, para ti será um irmão inteiro, podes crer.
O Tó Zé achou que devia intervir:
- Muito me surpreendes, Ana!
Fez uma pausa e prosseguiu:
- Ou, pensando bem, talvez não! Mas agora não vou criticar as tuas opções. Se é assim que queres, é assim que será! Eu estou de braços abertos para receber mais um neto.
- Obrigado pai, pela tua compreensão – agradeceu a Ana.
- Eu identifico-me inteiramente com as palavras do teu pai. – disse a Lena.
E encarando a neta, acrescentou:
- A tua mãe é uma pessoa adulta! Espero que nos ajudes a dar-lhe todo o apoio de que ela precisa. E não vai ser pouco...
Cláudia ainda não estava muito convencida e nada disse.
Foi a vez de intervir a octogenária Conceição:
- Para falar francamente, eu acho que não devia ter transitado para este século! Mas como ainda por aqui ando, quero dar-te um beijo, minha Aninhas, e desejar que sejas o mais feliz que se pode ser. Chega-te cá!
Ana Maria levantou-se e, com os olhos marejados, abraçou com ternura a velha senhora.
- Adoro-te, avó! – disse, comovida.
A Lena levantou-se também e foi abraçar as duas.
O António José fez o mesmo.
Cláudia permaneceu sentada.
Mas a Maria Helena estava atenta e fez um sinal à neta.
Esta, lentamente, levantou-se e dirigiu-se para o grupo. A avó afastou o marido de modo a que ficasse livre o caminho entre a Cláudia e a grávida.
- Abraça a tua mamã, minha linda! – disse a Vó São – É uma coisa muito boa teres um irmãozinho.
Ana Maria voltou-se e, finalmente, a filha abraçou-a:
- Quero que sejas muito feliz, mamã – disse.
O António José olhou para a mulher e comentou baixo:
- A tua mãe é um mulher preciosa!
- Só agora é que o descobriste? – disse ela olhando embevecida para a sua progenitora que, por entre umas lágrimas, dizia:
- Tenho percorrido a vida a aprender!
Passada esta fase, todos se sentaram à mesa, fazendo as mais variadas perguntas, sendo que a Ana Maria só respondia a algumas. Tudo o que dissesse respeito ao pai da criança era tabu.
E, no meio daquilo tudo, até se ficou a saber que o futuro membro da família Costa Lima se chamaria Manuel José.

Na noite seguinte Ana Maria foi a casa da Joana e do Manuel António dar a boa nova.
- Tu és mesmo maluca, Ana! – disse a irmã, sorrindo.
- Muito parabéns e muitas felicidades – disse o Manel abraçando a cunhada e fazendo o possível para que a mulher não lhe visse os olhos.
- E vai-se chamar Manuel José! – já escolhemos o nome ontem à noite lá em casa, informou a Ana Maria.
- Manuel, como o tio...que giro! – disse a Joana.
O professor, que já tinha combinado como se chamaria o seu filho com a cunhada, comentou:
- Mas não foi inspirado em mim, seguramente!
Ao que retorquiu a secretária:
- Foi mesmo! Como vocês não andam nem desandam com a adopção, e o Manel é muito estimado por todos, resolvemos pôr-lhe esse nome em tua homenagem. Se fosse uma menina seria Joana.

Na outra noite Ana Maria foi dar a boa nova ao mano Ricardo e à cunhada Bárbara.
A surpresa não foi grande porque alguém já se havia encarregado de os informar.

17 Comments:

Anonymous JMC said...

António,

Sou um dos que o leio, desde á muito tempo, aprecio e gosto do que por aqui se escreve, não senti uma necessidade absoluta de comentar, porque o António já possuí um painel de comentadores, que de uma forma geral e sintética, fazem a analise do que é escrito e uma abortagem dos conteudos, que na minha opinião é suficiente e o meu comentário, ou a ausencia dele, pouca relevancia devem ter, acho no entanto que não deve deixar que esse seu dom de escrever, arefeça, antes pelo contrario deve ser exercitado bem e cada vez com mais mestria, alias que estou habituado a isso aqui.

Continue António

JMC

2:49 da tarde  
Blogger António said...

Para "JMC":
Obrigado pelo comentário.
Essa sigla (JMC) não me é familiar, mas agradeço o facto de me leres (peço desculpa, mas aqui na Net trato toda a gente por tu) há muito.
Só quero dar-te uma imagem para poderes perceber melhor o que eu sinto:
Imagina um actor teatral a receber aplausos (vamos admitir que não há apupos) de uma plateia com 15 pessoas ou de uma com 500.
Penso que fui claro, certo?

Um abraço

3:35 da tarde  
Anonymous JMC said...

António,

É claro que concorto e entendo o ponto de vista e a questão.
O que eu queria dar a ententer é que nem sempre quem escreve, tem a noção exacta de quem o lê, por isso ter comentado, é que se calhar o António tem muito mais leitores do que aqueles que julga ter.

JMC

4:06 da tarde  
Blogger Fatyly said...

Antes do meu comentário habitual, digo-te António que subscrevo na integra os comentários de jmc.
A abordagem que fazes é de quem quer ser aplaudido, respeito e estás no teu pleno direito, mas há quem leia e não comente, que também deve ser respeitado ou simplesmente...isto não abre e o que fazer perante isso?!
As plateias cheias ou vazias, compete ao actor fazer o seu melhor. Sinceramente não gostei do teu desabafo lá atrás, mas aceito-o e respeito por ser essa a tua visão sentida!
Desculpa a minha sinceridade!

E vamos lá...

A forma como narras as "encrencas subornadas" destas personagens está nota 1000. Que grande lata ou melhor latão:):):):):)será que se vão aguentar nesta tramonha toda????
Parabéns e nunca deixes de escrever!
Aguardarei a continuação!

Beijos sinceros

4:47 da tarde  
Anonymous GR said...

Rapidamente estamos quase no final!
É engraçado a aceitação de mais um novo membro na família. Se de todo esta não o quisesse, abortaria, talvez num fim-de-semana em Espanha, ninguém saberia e a vida continuava!
Assim, numa família abastada ninguém coloca o problema económico, é aceite com todo o carinho, com lágrimas de emoção!
Numa família, onde o flagelo do desemprego existe, as contas por pagar, a divisão que lhe falta para o novo membro da família, esta boa nova seria com lágrimas de aflição e sendo de pai incógnito, seria muito problemática!
Gostei!
Continuo sem imaginar como terminará!
Parabéns!

Bjs,

GR

4:59 da tarde  
Blogger Papoila said...

Estou 3 dias sem abrir o teu blog e dou com esta evolução que me deixa sem fôlego?
Parabéns António!
Beijo

5:02 da tarde  
Blogger António said...

Para "JMC":
Eu sei que há pessoas que me lêem e não comentam. Houve duas que me disseram logo no início:
"eu vou ler mas só comento no fim".
A questão é que eu não sei se os que não comentam são muitos ou poucos.
E, estando eu a pensar ir bater à porta de editores, quando tenho menos de meia dúzia de comentários fico a matutar que o que escrevo não vale nada e serei ridicularizado pelos editores que eventualmente leiam os meus textos.
Porque eu NÃO SEI se efectivamente eles tem qualidade suficiente para serem publicados.

Um abraço

5:14 da tarde  
Blogger António said...

Para "GR":
Não foi assim tão rapidamente, Guida!
A primeira parte saiu em 01OUT06.
Portanto vão ser exactamente dois meses.
Acho que a parte que vou publicar amanhã será deveras surpreendente.
Uma espécie de bouquet final...eh eh

Beijinhos

5:43 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Desculpa António
Normalmente comento em todo o lado onde vou, mas aqui no teu ainda não o tinha feito.
Já te Linkei e gostei muito do que li. Não foi muito ainda, mas os quatro últimos li e gostei.
Beijinhos

6:50 da tarde  
Blogger Peter said...

Suspense no final.

8:04 da tarde  
Blogger Rosa Silvestre said...

Isto está a aquecer!
Concordo plenamente com JMC, seja quem for.
Parabéns, bjinhos.

9:25 da tarde  
Blogger Paula Raposo said...

WOWOWOW óptimo!! Adorei! Beijos. Meu amor.

11:47 da tarde  
Anonymous JMC said...

António,

Não quero sequer pensar que o António não tem noção do seu real valor como escritor.
Há concerteza uma necessidade complementar de saber se tem ou não aceitação aquilo que escreve, penso que é isso.
Esta 'Uma família burguesa' tem por exemplo a capacidade de nos prender (argumento), ficamos á espera do que se segue, daria pois com as devidas adaptações uma mini- série por exemplo, nem tudo o que se escreve, se distina a ser publicado em papel, que uns leem e outros por exemplo usam para decorar as estantes e que outros não podem sequer comprar.

Fico á espera do Ep. XXIII

JMC

8:35 da manhã  
Blogger marujinha said...

Eh , pois foi, grande confusão aquela do artur e do henry. vá lá que percebeste, e eu já nem me lembrava do filme, eheheheh

Jinhos da Marujinha

9:03 da manhã  
Blogger António said...

Para "JMC":
Obrigado pelas tuas palavras.
De facto, tenho dúvidas quanto ao meu valor como escritor, ou guionista, ou argumentista ou mesmo cronista.
Se não tivesse dúvidas há muito que teria avançado para editoras.

Um abraço

(hoje espero postar a parte XXIII - a penúltima - depois de almoço).

Um abraço

9:57 da manhã  
Blogger soeumesma said...

Ora muito bom dia António. Eu sou daquelas que te lê há muito tempo e que penso nunca o comentei (ou terei comentado uma vez quando descobri este blog?).

Hoje não podia de te deixar o meu comentário porque me parece que se te questionas sobre a qualidade dos teus textos não o devias fazer. São óptimos. Tens um dom de contar histórias e isso não é coisa que eu tenha encontrado pelas minhas andanças na blogosfera com muita frequência.

Meu caro amigo (permite-me a ousadia de te chamar assim, faço-o apenas porque já criei uma relação contigo e com o teu blog há muito tempo e todos os dias é minha paragem obrigatória), nestes últimos tempos tenho visto blogs ser publicados que até me deixam de boca aberta! Não tendo pretensão de saber o que é escrever bem ou mal, fico com os cabelos em pé quando vejo certos "lixos" da blogosfera editados em livro. Pensa nisso e depois responde-me: achas mesmo que não tens qualidade para ser publicado? Isso nem se questiona. O facto de poderes levar com alguns nãos de editoras nunca se prenderá com a falta de qualidade na escrita, estou certa disso, mas sim pelos elevados custos de publicação de um livro. Mas de certeza que encontrarás alguém que se decida a apostar em ti.

Os livros blogosféricos que tenho visto ultimamente não os compraria nem para calços de móveis na minha casa mas fica seguro que um livro teu comprarei de certeza, e mais vou ao lançamento do livro e faço questão de um autografo. Sempre podes colocar uma cara numa das tuas leitoras.

Quanto ao não saberes quem te lê e não comenta, resolve isso com um sitemeter. Dá para teres a noção de visitas que tens mesmo sem teres o correspondente em comentários e acho que se calhar ficarias surpreendido ao ver quanta gente te lê.

Esta Familia Burguesa está muito interessante e bem contada mas tenho que me assumir como fã maior de O Viúvo que achei simplesmente fantástico!

Perdoa-me o alongado comentário mas ficou pelo ano em que te tenho visitado sem comentar.

Fica bem!

10:55 da manhã  
Blogger Betty Branco Martins said...

Afinal não foi um "bomba"

Pronto aí vem mais um membro para esta familia, para dar continuação a altas confusões. VIVA!!

Vou subir o último degrau - estou exauta:)

2:41 da manhã  

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