Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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domingo, novembro 26, 2006

Uma família burguesa - parte XIX

A ideia de extorquir dinheiro ao patrão Francisco foi ocupando cada vez mais tempo na cabeça de Sónia.
Mas seria ele suficientemente rico? E ficaria tão preocupado que a ex-mulher e a filha soubessem daquilo em que se havia metido? Elas podiam fazer queixa à polícia e isso não interessava nada ao Francisco, mas também podiam achar que o problema era dele e não ligar nada. A filha iria repudiá-lo? Ele podia pensar que sim e ceder à sua chantagem. Ou pensar o contrário. No fundo não conhecia suficientemente bem o patrão nem as mulheres para poder prever qual a reacção dele. Portanto não podia avaliar se a sua ideia era boa ou má.
Resolver perguntar ao Alex. Mas iria contar-lhe o seu plano? Se não dissesse nada ele acabaria por saber pelo sócio, portanto o melhor seria dizer. E se ele se opusesse? Depois se veria, mas provavelmente desistiria da ideia de extorquir dinheiro ao homem.
Uma noite, quando estavam ambos no apartamento dela, falou ao Alexandre sobre o seu plano.
Este irritou-se, e muito.
- Mas tu és parva? Tu nem te atrevas a meter-te com a minha família! O Francisco é o marido da minha irmã e o pai do meu sobrinho. É como se fosse meu irmão! Se voltas a pensar sequer em prejudicar alguém da minha família eu dou cabo de ti, percebes? Mato-te!
E continuou, irado:
- Está tudo acabado entre nós! Mais! Escusas de voltar ao bar porque não te queremos lá!
Nem deu tempo a que a Sónia reagisse.
Vestiu-se e saiu.
Quando no dia seguinte chegou ao bar contou o sucedido ao sócio. Este ficou admirado, mas comentou:
- De gajas destas não se pode esperar outra coisa!
- Nem de todas! Mas a maioria são assim! Esta já foi a segunda com quem andei metido e posso garantir-te que foi a última. Agora temos de arranjar uma substituta, senão qualquer dia não temos nenhuma. De vinte e oito que responderam ao anúncio já só restam três – disse o Alex.

Passadas umas noites, apareceu um novo cliente. Sozinho, jovem, com calça preta e blusão de couro da mesma cor, sentou-se ao balcão, pediu uma cerveja que bebeu devagar. Nenhuma das três clientes especiais estava lá.
A certa altura perguntou o jovem, dirigindo-se ao Francisco Torres:
- O senhor desculpe! Mas disseram-me que há aqui umas meninas que saem com os clientes. Mas eu não vejo nenhuma. É verdade?
O Chico e o sócio já haviam estudado a resposta a dar a visitantes desconhecidos que pusessem essa questão:
- Isto não é uma casa de ataque nem temos aqui meninas, embora apareçam algumas clientes femininas sós, por vezes. Mas não sabemos se atacam ou não. Nem isso é da nossa conta.
- Muito obrigado!
E calou-se, o homem de preto.
Alex perguntou discretamente ao cunhado o que se passara e perante a resposta, disse:
- Muito bem! Quando vierem as moças temos de as avisar para não saírem acompanhadas quando este tipo cá estiver. Este gajo pode ser da polícia. Suspeito que a vaca da Sónia foi fazer queixa. Pelo menos é menina para isso.
Os dias passaram, o jovem apareceu mais uma ou duas vezes e depois nunca mais lá foi.

Decorria a segunda quinzena de Outubro e, uma manhã, Maria Helena descobriu, ao fazer a apalpação dos seios, que na mama esquerda tinha um pequeno talo. Ficou aflita e telefonou para a empresa do marido:
- Tó Zé! Descobri que tenho no seio esquerdo um caroço. Estou muito preocupada – disse ela com a voz um tanto sumida.
- Sim? Mas tem calma! Não comeces já a pensar o pior. Telefona para o Armando ou para a Inês porque o filho, o Zé Manel, é médico no Instituto de Oncologia, como tu sabes, e pode mexer as coisas de forma a seres vista rapidamente – aconselhou, sensatamente, o Costa Lima.
- Então vou já telefonar para o Armando. Depois digo-te alguma coisa. Até já!
- Até já, Lena! Um beijinho para ti! E tem calma! – despediu-se o homem.
Lena nem pousou o auscultador. Ligou logo para o vizinho que ainda estava em casa.
- Armando! Fala a Lena. Sabes que descobri agora um caroço no seio esquerdo? Fiquei em pânico! Será que posso ir ao IPO agora? O teu filho está lá? – disse, ansiosa, a mulher.
- Calma, Lena! É muito grande, o nódulo? Só descobriste um? – quis saber o médico.
- Acho que ainda não é muito grande e não apalpei mais nenhum – respondeu a mulher.
- Isso é bom sinal! Esperas aí um pouco que eu vou falar com o Zé Manel. Se estás ansiosa, e parece-me que sim, toma um calmante dos que usas normalmente. Daqui a pouco já ligo contigo. E sossega que não vai ser nada de especial. Até já! – e o cardiologista, que já não tinha actividade hospitalar, desligou.
Fez logo uma chamada para o telemóvel do filho que atendeu pouco depois.
- Que foi, pai? Algum problema? – perguntou, de imediato, o mais novo.
- Nada com a nossa família, mas a Lena detectou um nódulo numa mama. Está nervosíssima, como deves calcular, e quer ser vista aí no Instituto o mais depressa possível. Estou a ligar-te para saber se é possível – informou o Armando João Borges.
- Podes cá vir agora? – perguntou o jovem médico.
- Sim! Claro!
- Então vem e trás a Lena. Depois de chegares à porta liga-me outra vez que eu vou buscar-vos e ainda hoje vemos do que se trata. Sabes que a rapidez nestas coisas é fundamental – elucidou o José Manuel.
- Obrigado, filho! Então até já!
Passada menos de meia hora, e já depois de a Maria Helena ter contactado novamente o marido que pretendeu ir ter com ela, mas disso foi demovido pelo amigo que lhe disse que só ía atrapalhar nesta fase, partiram no carro do velho médico para o IPO.
Quando os três se reuniram à porta do Instituto de Oncologia, e depois de se cumprimentarem, o Zé Manel disse:
- Oh pai! É melhor ficares aqui. Podemos contactar pelo celular, se necessário. Eu vou já providenciar que a Lena seja analisada e avaliada.
Depois de uma apalpação feita por um outro médico foi conduzida, sempre pelo jovem vizinho, para ser objecto de uma mamografia. Como o resultado foi suspeito, foi submetida a uma ecografia cuja análise recomendou uma biopsia.
Entretanto o filho contou ao pai que por sua vez falou com o amigo António José.
Este deixou a empresa, apressado, não sem antes ter confidenciado à secretária Teresa o que se passava e avisado que certamente não viria mais nesse dia.
Após alguma espera, a Maria Helena foi submetida a uma biopsia aspirativa e a uma série de outros exames para definir o estadiamento.
Já eram mais de quatro da tarde quando foi dado o veredicto:
Carcinoma requerendo tratamento cirúrgico com mastectomia, provavelmente parcial.
A cirurgia ficou desde logo marcada para dois dias depois.
Quando o jovem médico e a paciente se juntaram aos outros dois, uma crise de choro atacou a Maria Helena que abraçada ao marido, só dizia:
- Vamos para casa! Vamos para casa!
Entretanto o Dr. José Manuel Borges esclareceu os dois homens sobre a situação: parecia-lhe que não seria necessária uma mastectomia total, mas só durante a cirurgia seria tomada uma decisão definitiva.
Também pensava que, provavelmente, não seria necessária radioterapia mas várias sessões de quimioterapia a definir posteriormente. Mas quasi podia garantir que era um caso curável e que mais tarde uma reconstrução mamária viria trazer a estabilidade definitiva.
E os três dirigiram-se para a casa das Antas depois de sinceros agradecimentos do Tó Zé e da mulher ao jovem médico que tão bem orientara a Lena.
Aí chegados, telefonaram sucessivamente ao Ricardo, à Ana Maria e ao Manel, visto que a Joana, talvez por estar em aulas, não atendia. E a notícia de que a Maria Helena tinha um cancro da mama e seria operada dois dias depois rapidamente chegou aos outros familiares e amigos mais íntimos.
O dia da cirurgia calhava na quinta-feira em que o Manuel António e a Ana Maria se deveriam encontrar pela terceira vez. Esta telefonou-lhe:
- Manel! Já sabes que quinta-feira a mamã vai ser operada, portanto aquilo fica sem efeito.
- Claro! Nem poderia ser de outra maneira. Estás boa? – falou o homem.
- Estou mais ou menos, como todos nós. Mas o prognóstico parece ser razoável. Sabes que no dia seguinte começo o período menstrual. Com esta situação inesperada e desagradável se calhar vai haver um atraso, mas depois te manterei ao corrente. Tens direito a saber tudo – disse.
- Obrigado pela consideração com que me tratas. Vemo-nos na quinta, mas desta vez no IPO, lamentavelmente – lastimou o homem.
- É assim! Mas estou confiante que a mamã vai recuperar. Olha! Vou desligar. Beijos, Manel – despediu-se a mulher.
- Beijos para ti, Ana, muitos – e o professor desligou.

11 Comments:

Blogger Lumife said...

Marcando o ponto aqui estou seguindo a tua estória muito bem descrita, interessante e muito actual...


Um bom fim de semana

Um abraço

4:50 da tarde  
Blogger Lumife said...

Ainda a tempo: José Luis Peixoto é um escritor alentejano, nascido em 1974, em Galveias, concelho de Ponte de Sôr (Portalegre). É licenciado em Línguas e Literaturas Modernas (Inglês e Alemão) pela Universidade Nova de Lisboa.

Um abraço

4:56 da tarde  
Blogger Fatyly said...

Narras bem o que um homem "sério" faz para defender a familia sem se preocupar minimamente com a vida dos outros, referindo-me claro ao episódio de Sónia!
Quanto ao resto o inesperado assustador do carcinoma pode acontecer a qualquer um de nós!
Gostei e aguardarei o desenrolar deste novelo.
Beijos

7:53 da tarde  
Blogger Paula Raposo said...

Mais dois excelentes diálogos, António. O segundo, tocou-me deveras, pois na família a situação existe e é mesmo como relataste. Beijos.

8:13 da tarde  
Blogger Papoila said...

António fui ler o anterior e este, Estão ambos notáveis!
A situação da Maria Helena está muitíssimo bem descrita.
Vou continuar a ler-te.
Bei

11:39 da tarde  
Blogger Betty Branco Martins said...

Querido António

O facto de não haver meninas - pois não traz problema nenhum:) eles estão metidos é num grande EMbrulho.

Só quero é que a Maria Helena fique completamente boa.

Estás num "trilho" fantástico!

Beijinhos
BoaSemana

11:57 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Fico à espera ansiosamente pela continuação.
Bom trabalho para não variar.

Beijinhos

5:40 da manhã  
Anonymous tb said...

Pois é! Pena que tanta mulher por não possuir a "cunha" vá morrendo por ser tarde demais!...
Muito bm descrito, como aliás é teu apanágio, mais um episódio de vida desta família burguesa.
Beijinhos

4:56 da tarde  
Anonymous GR said...

Alex, personagem de quem nutro grande antipatia, comporta-se exactamente como aquilo que é, um mafioso. Maltratam tudo e todos, contudo a sua família terá protecção total, esquecendo-se que os outros também têm família!
Seria da PJ? O homem das calças pretas?
Enquanto protesto entre mim e os sócios do Bar Borda D’Agua, pois reprovo este tipo, de comércio de carne branca e a narrativa está tão perfeita que podemos rebater, sou confrontada com a dura realidade, do pânico e ansiedade! Do querer saber e não querer ouvir! Entre as frases, “porquê a mim”? “Isto não pode estar a acontecer comigo”!
Mais uma descrição magnífica! Rapidamente esqueci “as meninas”, os sócios, a forma fácil de se ganhar dinheiro!
Os telefonemas, o pavor da situação, o terror das palavras, o buraco que se abre no chão!
Nós leitores sentimos o horror da notícia!
Parabéns, escreves muito bem!
Cada vez muito melhor!

Um grande bj,

GR

5:14 da tarde  
Blogger António said...

Para "GR":
Olá Guida!
Obrigado pela tua presença.
És dos poucos resistentes que aguentam um trabalho tão longo.
Vou postar os 5 episódios que faltam rapidamente e nunca mais escreverei, pelo menos para o blog, coisas desta dimensão.

Beijinhos

5:57 da tarde  
Blogger Lmatta said...

estou gostando
beijos

6:07 da tarde  

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