Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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quinta-feira, novembro 16, 2006

Uma família burguesa - parte XV

No dia seguinte ao do encontro secreto entre Ana Maria e Manuel António, este telefonou à cunhada.
- Olá, Ana Maria!
- Olá, Manel!
- Estive a pensar na tua proposta. A decisão já está tomada e foi mais fácil do que eu supunha, por isso quero-te dizer que estou disposto a ir para a frente com a ideia.
- Eu tinha a certeza que a tua resposta iria ser sim – disse ela com um largo sorriso nos lábios.
- Mas agora não quero dizer mais nada ao telefone. Podemos encontrar-nos no mesmo local e à mesma hora depois de amanhã para conversarmos? – perguntou o candidato a pai.
- Está bem!
- Então, até lá! Um beijinho.
- Um beijo também para ti – despediu-se a cunhada.

Na quinta-feira seguinte à da primeira conversa, repetiu-se o ritual.
Já dentro da viatura do marido de Joana, Ana Maria começou:
- Ao tomar essa decisão mostraste ser um homem de coragem, Manel!
- Não tenho dúvidas que sim pois há o risco de sermos descobertos o que não me agradaria nada. Já tens ideia de como vamos fazer? – perguntou ele, mostrando que a mulher comandava a situação.
- Já! – respondeu ela.
- Imaginava que sim. – disse o homem – Então diz lá!
- Primeiro deixa-me dizer-te que eu tomava o contraceptivo oral, a pílula, como é mais conhecida, mas até já deixei de o fazer. Vê bem a confiança que tinha sobre qual a tua opção – e riu-se, provocando um largo sorriso no cunhado.
E continuou:
- Penso que as quintas-feiras de tarde, depois de almoço...enfim, de uma refeição ligeira, são os dias indicados. O local pode ser uma hospedaria muito jeitosa, limpa e com estacionamento bem escondido que há na rua de Antero de Quental. Depois dou-te o endereço. Se a gravidez não aparecer ao fim de um tempo razoável, poderemos pensar em aumentar a frequência, mas sem correr riscos.
- Muito bem! Estou totalmente de acordo. – disse o Manel – Mas quero referir-te de novo os outros dois perigos que também temos de minimizar a todo o custo: um deles é continuarmos a relação para além da gravidez e o outro é tu, depois de dares à luz, não quereres abandonar a criança. Temos de nos comprometer a que isso não acontecerá.
- Sabes em que sou psicologicamente forte e cumprirei integramente o acordado. E tu também o farás, tenho a certeza – disse a mulher.
Ana Maria deu o endereço da residencial, combinou mais uns detalhes com o Manuel António e despediu-se com dois beijos:
- Agora até é apropriado que dêmos beijos – e deu uma risada que transparecia felicidade.
E foi cada qual para o seu destino.
Na segunda quinta-feira de Outubro ocorreu o primeiro encontro íntimo e clandestino entre Manuel António e a cunhada Ana Maria.
Tudo decorreu de forma muito mais intensa, quer afectiva quer sexualmente, do que uma mera e fria sessão de procriação.
À saída, o professor universitário estava muito calado.
- Que se passa, Manel? Estás mudo e quedo! Mas pareceu-me que ficaste bastante satisfeito – provocou-o ela.
- Pois! O problema é esse!
E não disseram mais nada até entrarem nos veículos e saírem do local de estacionamento com intervalo de uns dois ou três minutos.

Numa noite de finais de Setembro, Alex telefonou ao Chico a dizer que chegaria ao bar um pouco mais tarde. Entretanto já havia combinado encontrar-se com a irmã em casa da mãe de ambos, a Maria Amélia.
Não estiveram muito tempo lá dentro pois o homem já tinha avisado a Marina de que queria falar com ela em privado.
Deixaram a habitação e entraram para o carro dele.
- Então diz lá porque queres falar comigo tanto em segredo – perguntou a mulher.
E ele começou:
- Sabes que o negócio do bar, que é uma casa pequena, dá algum dinheiro mas nada de especial. Eu acho que seria muito mais lucrativo se contratássemos duas ou três raparigas novas e jeitosas que fossem lá todas as noites e pudessem sair com os clientes que quisessem passar uns momentos mais agradáveis.
- Mas tu queres fazer daquilo uma casa de putas? – disse, com má cara, a Marina.
- Não é isso!
- Claro que é! E o Francisco às tantas começava também a sair com as gajas. Tu não estás bom da cabeça! – reagiu a roliça loira.
- Não te comeces a enervar senão ficas com o raciocínio toldado. Eu já tenho esta ideia há muito tempo. Quando estava lá o Renato ele nunca quis alinhar e, assim, o bar nunca passou da cepa torta. Eu quis que o Chico se tornasse sócio porque é um tipo mais moldável e aceita as ideias dos outros com mais facilidade. Então se forem tuas ou se tu as apoiares...
- Eu não apoio nada disso, Alex! – a irmã interrompeu o discurso do homem da cabeça rapada.
- Tem calma e deixa-me concluir! – prosseguiu o Alexandre Pimenta – Como dizia, penso que o Chico é mais flexível, sobretudo se tu o convenceres.
- Mas a que propósito o hei-de convencer a montar uma casa de meninas?
- Não é casa de meninas! Não serão empregadas! Serão jovens estudantes ou trabalhadoras, não ligadas a redes, que precisem de fazer um dinheiro extra para serem mais independentes financeiramente. Vão lá para fazerem mais uns cobres. Claro que nos darão um valor em euros por cada saída. Assim ganhamos a dois carrinhos: mais clientes e a comissão das meninas. E olha que só assim é que poderemos fazer mais dinheiro com o bar. Tu talvez não precises muito, mas podes vir a precisar, e eu preciso mesmo – continuou a explicação, o homem.
- Isso não me cheira nada bem! E a polícia?
- Que tem a polícia? Elas são clientes como os outros. E terão de se vestir de forma não provocatória para não dar muito nas vistas.
- E o Francisco qualquer dia embeiça por uma dessas gajas e gasta os lucros todos com ela. Os lucros e muito mais – continuou a reticente Marina.
- Não te preocupes! Eu tomo conta dele! E tu sabes muito bem como impedi-lo de se atirar às raparigas. Puxas pelo Chico muito bem e ele nem fica com forças para tentar. – continuou a argumentar o Alex – Só assim é que vale a pena ter o negócio!
- Tu és lixado! Já tinhas essa filada e caladinho que nem um rato – comentou a Marina.
- Sabes que é melhor agir do que falar – disse, rindo, o irmão.
- Olha! Tenho de ir embora porque o Marco ficou lá agarrado aos jogos do computador e amanhã tem aulas e eu quero que se deite cedo. Depois falamos sobre isso, outra vez – e, dando um beijo ao mano, saiu do carro.
- Olha! Mas pensa bem no assunto! O sucesso financeiro do bar está nas tuas mãos. Se tomares a decisão errada, qualquer dia aquilo fecha. Eu, entretanto, vou falando ao teu homem para ver como ele reage – rematou o homem.
- Está bem! Depois falamos! – e Marina dirigiu-se para a sua viatura.

O “Borda d’água” é um pequeno bar na zona histórica do Porto, perto da Ribeira e, portanto, perto do Douro.
Da fachada estreita, desenvolve-se em profundidade, e quem entra vê à direita o balcão com oito bancos e, meia escondida, uma kitchenette. As madeiras de cor castanho escura predominam, criando um ambiente de algum requinte. Do lado esquerdo estende-se um sofá ao longo de toda a parede mais seis mesas rectangulares com muito vidro e uns banquinhos, sendo estes também em couro artificial. O traço da decoração é fundamentalmente linear. Um som de fundo com músicas suaves gravadas e uma mistura de iluminação directa e indirecta, tornam-no num cantinho aprazível.
Dos três sócios, Francisco Torres e Alexandre Pimenta fazem o serviço de bar e de mesa. Gilberto Silva permanece mais nos bastidores, tratando da contabilidade e da maioria das compras, poucas vezes lá indo à noite.
O bar tem uma empregada com cinquenta e tal anos que faz as limpezas e prepara alguns petiscos: a Alzira. É relativamente alta e magra e o pouco dinheiro que aufere não lhe permite esconder as cãs, já abundantes.
Abre às oito da noite e fecha às duas.
Não serve refeições, limitando-se a fornecer aos clientes, para além dos cafés e derivados, uma variada gama de bebidas, nomeadamente alcoólicas, umas sandes, enchidos, queijos, croquetes e bolos de bacalhau, e mais algumas coisitas para enganar a fome. Aperitivos salgados, tremoços e amendoins também estão sempre presentes como oferta da casa.

24 Comments:

Anonymous Ana Joana said...

Que episódio animado este! A bela da Ana Maria bem aplicadinha na arte de levar a água ao seu moinho e com tiradas de ir às lágrimas ahahahahah. O professor a cair na esparrela com todo o prazer e estupefacção eheheheh. (cá pra mim a Ana Maria continua a tomar a pilula para ter argumento para prolongar a festa e aumentar a frequencia!).

Quanto ao Alex, está bem de ver que vai convencer o sócio sem dificuldade. E o negócio vai prosperar rsssssss até que........

Diverti-me muito com este episódio, António. A história está a aquecer cada vez mais rsssssss

Beijinhos
Ana Joana

3:03 da tarde  
Blogger António said...

Para "ana joana":
Olá!
Obrigado pelo comentário.
Estou a ver que continuas a consultar a bola de cristal.
Vamos fazer uma sociedade para ler o futuro dos incautos?
Também dá uns cobres...ah ah ah.
E eu estou a precisar de um complemento de reforma.

Beijinhos

3:33 da tarde  
Blogger redonda said...

Que grandes safados!!! Estou absolutamente indignada com o que andam a fazer à Joana!

3:51 da tarde  
Blogger wind said...

Como previsto A Ana Maria conseguiu o que queria, tal como o irmão da Mónica vai conseguir o quequer, pelo pormenor da descrição do bar que exemplarmente fizeste:)
Beijos e aguardo continuação*

4:13 da tarde  
Blogger wind said...

Desculpa, irmão da Marina:)

4:13 da tarde  
Blogger Peter said...

Ora bem. Já temos dois percursos bem definidos:

- O da Ana Maria, de que o Manuel António já está a sentir os efeitos (logo à primeira!), quando diz:

- "Pois! O problema é esse!"

E o do Alexandre Pimenta, que está a ver bem o seu:

Bar» Casa de alterne» Futebol

6:06 da tarde  
Blogger Paula Raposo said...

Gostei!!! Cheio de cambiantes este capítulo! Sigo atentamente e espero o desenrolar, sem fazer o mínimo de conjecturas! Beijos, meu querido.

6:26 da tarde  
Blogger Rosa Silvestre said...

Esta Ana Maria saiu-me cá uma encomenda! A história promete!
Balha-me Deus!!!!!

7:02 da tarde  
Blogger Rosa Silvestre said...

Pois é António tenho tido mesmo muito que fazer ... mas já tenho novo post, como podes ver.
Obrigado pela visita à minha casinha!

11:22 da tarde  
Blogger Papoila said...

Um episódio muito animado com a Ana Maria muito mais entusiasmados do que pelo simples acto de procriar... diverti-me... e depois o Borde Água um bar que vem a prometer... que se cruzem caminhos... Diverti-me! E lá pelo campo convida-se para um tango... lol Beijo

11:52 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

só complicações!
o melhor método ainda é aquele sugerido por aldoux huxley em admiravel mundo novo...

depois o fulano que diz vem atrás de mim que está ali um poço...

enfim, fico á espera do que te tembraste mais.

abraço da leonoreta

12:26 da tarde  
Anonymous tb said...

E mais um episódio aprimorado de uam família da nossa sociedade que tão bem caracterizas...
Beijinhos

10:58 da tarde  
Blogger marujinha said...

Nã, nã. Pois eu cá é que não vou em negócios. Nem destes nem dos outros. Posso ficar a perder e eu perder nem a feijões.

Olha os macacos!!!! Os primeiros e o último.

Jinhos da Marujinha

8:24 da tarde  
Anonymous Mikas said...

Um bom fim de semana gosto mto de ler te, e espero que continues os episódios dos cunhados hehe

8:50 da tarde  
Blogger Betty Branco Martins said...

Mais tarde passo para ler este!!!

Beijocas

1:19 da manhã  
Blogger Caiê said...

Como era de esperar, uma mulher apaixonada por um homem é algo muito atraente para este... E se ele já tinha uma queda por ela, facilmente a coisa se tornará mais do que um contrato e passará a relação (ocasional ou não, logo se verá...)
Esse outro ponto da casa das meninas vem-se tornando uma realidade tão comum (infelizmente) e tão exploratória das ditas meninas que merecia uma reflexão acertada. Vamos a ver como se desenvolve...

1:22 da manhã  
Blogger Fatyly said...

Gostei muito deste capítulo. O Manelito disfarçando em prol do seu casamento aceitou o plano e depois fica "quedo e mudo"! O Alex...balha-me deus...só pensam em lucros.
Não faço a mínima ideia do seguimento, mas que já cheira a "bispo" lá isso é verdade.
Parabéns e um bom domingo...leva os tremoços que eu fico com os amendoins???! ginguba:):):)
Beijos

11:29 da manhã  
Blogger Lumife said...

Continua o "suspense" se bem que leia já alguns avanços...

Um abraço

2:00 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

obrigada pelo teu comentario antonio.vinha á procura de mais intrigas mas... fica para a proxima... la para as sete e picos, oito e coisa, nove e tal, rssss

abraço da leonoreta

2:22 da tarde  
Blogger magarça said...

Olá,António! A novela está a ficar bem complexa, mas é divertido tentar perceber quem é quem. A Ana Maria convence como a "má da fita" e a ideia da casa de meninas deve dar pano para mangas. Bom trabalho!

6:18 da tarde  
Anonymous GR said...

Se tivesse que intitular este capítulo seria, “As pérfidas”
A Ana Maria, não estará a tomar o anticoncepcional?
Só quando o cunhado se apaixonar por ela, está engravidará!!!
Marina, casou com o Francisco por razões materiais com a ajuda do irmão, os dois estão-lhe a fazer uma estrangeirinha. O palerma caiu na cilada!
Está aquecer!!!
Gostei deste episódio de tal maneira que jurava ter comentado, só agora revendo os comentários me apercebi que não enviei!

Desculpa!

Bjs,

GR

7:21 da tarde  
Blogger António said...

Para "GR":
Realmente não tinhas comentado, não!
Mas isso é inadmissível!
ah ah ah

Beijinhos

10:18 da tarde  
Blogger António said...

Para "GR":
...e nem te atrevas a pedir desculpa, tá?

10:19 da tarde  
Blogger Betty Branco Martins said...

Querido António

Cá estou eu como prometi.

Esta Ana Maria, é das "frescas" claro está com o seu cúmplice, nesta patranha toda, embora ele , "coitado" vai ser o "agarrado"! bem feito!!!!

Nesta novela não falta nada, até um bar de meninas vai haver!

Estás a trabalhar à séria nisto, António:))

Beijinhos
Boa semana

4:01 da tarde  

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