Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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segunda-feira, novembro 27, 2006

Uma família burguesa - parte XX

A intervenção cirúrgica decorreu bem e a mastectomia foi parcial.
Passados poucos dias a Maria Helena estava em casa; foi considerado pelos especialistas em oncologia que bastaria fazer sessões de quimioterapia em ciclos que durariam três meses, no total. Era um sinal de que a cura total era possível, e rapidamente.
A moral de toda a família subiu de forma notória, e a própria Lena começou logo a perguntar quando poderia fazer uma reconstrução mamária.

Uns dias depois da cirurgia, estava o Costa Lima no seu gabinete quando a porta se abriu e entrou a Teresa postando-se em frente à secretária do chefe.
Este levantou os olhos e disse:
- Teresa! Está com um ar esquisito. Houve algum problema? – perguntou.
- Houve!
E fez uma pausa prolongada enquanto as lágrimas lhe escorriam pela face.
- Desculpe, Sr. Engenheiro, mas não consegui aguentar – soluçou.
- Mas afinal o que aconteceu? – inquiriu de novo o Tó Zé, já preocupado.
- O meu marido desapareceu e deixou um bilhete dizendo que tinha ido viver com outra mulher – falou, finalmente, a secretária.
- Oh diabo! E a Mariana? – quis saber o amante.
- Está comigo. Ficou muito chocada, mas foi para a escola.
- Lamento muito, Teresa. É uma situação sempre desagradável que não era de prever, pois não?
- Não! Embora ele não me procurasse com regularidade há muitos meses. Talvez um ano – confessou a mulher.
- Já falou com a sua mãe? E com a Fernanda? – indagou o director.
- Ainda não! Vou ver a minha mãe à hora do almoço e dizer-lhe pessoalmente. E daqui a pouco vou telefonar para a minha irmã – informou a mulher.
- As coisas não nos andam a correr bem! A minha mulher veio para casa depois de uma operação que, espero, lhe tenha salvo a vida. Você ficou sozinha, de repente. Mas talvez seja uma coisa passageira e ele um dia destes regresse a casa – procurou o engenheiro animar a Teresa.
- Mas não sei se o aceite! – disse a despeitada mulher.
- Acho que, numa circunstância destas, e embora a Teresa seja nova, a reconstituição da vida com outra pessoa não é tão fácil como por vezes se julga. E ficar sozinha vai-lhe provocar muita solidão que a sua filha Mariana não colmata. Mas isto é uma opinião pessoal que vale o que vale. Para já tem de reorganizar a sua vida. Eu estarei disponível para a auxiliar naquilo que puder mas, atendendo à situação da Maria Helena, não poderei fazer tanto como gostaria.
- Muito obrigado, Sr. engenheiro. – agradeceu a Teresa – Agora vou trabalhar que é uma boa forma de me distrair.
- Tem toda a razão! Até já! E lamento sinceramente o sucedido – terminou o chefe.

Ana Maria não viu aparecer-lhe o fluxo menstrual no dia previsto.
- É o que eu esperava! Daqui a dois ou três dias começa – pensou.
Mas passaram-se os cinco dias e mais dois e aconteceu o terceiro encontro no 108.
Quando estavam no aposento, disse a Ana Maria:
- Sabes que ainda não apareceu a menstruação e já passaram sete dias?
- Sim? E ainda não fizeste nenhuma análise? – perguntou ele.
- Se não houver nenhum sinal, na quarta-feira vou fazer um teste e depois digo-te o resultado – comprometeu-se a mulher.
- Agora deixaste-me um pouco ansioso. – disse o homem – Será que conseguimos tão depressa?
- Para te falar francamente, também tenho sentido qualquer coisa de esquisito, mas pode ser que seja por causa da minha mãe, embora eu esteja convencida que estou mesmo grávida. Já devo trazer o teu filho aqui no meu ventre, Manel – conjecturou a Ana.
- É melhor não me criares esperanças antes de termos a confirmação – pediu ele – senão depois apanho um balde de água fria.
- Ok! Abraça-me com muita força, meu amor! – suplicou ela.
E cumpriram mais uma tarde de um estranho contrato de procriação.

Uns dias depois, Teresa e o António José tiveram mais um dos seus encontros secretos.
O ambiente não era dos melhores, e a parte sexual até não correu muito bem.
- Agora fazes-me tanta falta, Tó Zé! Mal consigo dormir, tenho as ideias todas baralhadas na cabeça, sinto a falta de alguém que me faça companhia à noite para conversar, para me dar carinho, ternura, amor...O meu marido não me dava muito dessas coisas, até dava muito pouco, mas sempre era uma presença. E isso é importante. Não falava quasi nada mas também não chateava.
- Acredito plenamente no que dizes! – respondeu ele, com alguma frieza.
- De facto, precisava de ti! – confessou a mestiça abandonada.
- Eu sei! E gostaria muito de te poder dar isso tudo! Mas penso que compreendes que neste momento não o posso fazer – retorquiu o chefe.
E pensou:
- Nunca iria abandonar a Lena num momento destes. Esta Teresa é muito porreira mas a minha opção está tomada, pelo menos por enquanto.
- Eu compreendo, António! Mas não é por compreender que não deixo de sentir a tua falta. Dá-me mimos, dás? – pediu a mulher.
- Anda cá! Chega-te para mim que eu faço-te uns miminhos muito bons! – disse o homem.
E a relação, já antiga e tornada um hábito, prosseguiu nas semanas seguintes, com uma ou outra intermitência.
Teresa pretendeu que passassem a dois encontros por semana, mas o Costa Lima esquivou-se. A família estava primeiro; e a
gora mais do que nunca. Mas não queria deixar a jovem amante sem esperanças e dizia-lhe muitas vezes:
- O futuro reserva-nos tantas surpresas!

Na quarta-feira que antecedeu o dia do quarto encontro entre Manuel António e a cunhada e amante, Ana Maria foi fazer o teste de gravidez.
Resultado: positivo!
O seu primeiro impulso foi o de telefonar ao pai do embrião que estava já crescendo dentro dela mas, pensando melhor, achou que o deveria fazer pessoalmente. E o dia seguinte, o dia do amor escondido, era o ideal. Resolveu ainda que na sexta-feira iria fazer uma análise à urina para confirmação e, mal tivesse o resultado, consultaria a sua ginecologista que era também obstetra.
No dia do encontro foi novamente o Manuel o primeiro a chegar. Ela demorou uns quinze minutos, o que fez o professor tentar contactá-la várias vezes pelo celular, mas sem efeito.
Quando saíram das viaturas e se beijaram levemente, ele perguntou:
- Então, Ana? Há novidades?
- Já te digo lá em cima, está bem? Gosto de falar nestas coisas com o máximo de privacidade – disse ela, fazendo o homem ficar ainda mais ansioso.
- Tu agora resolveste fazer de Hitchcock? – comentou com um sorriso – Vamos então depressa!
Subiram ao quarto. Desta vez foi o 102.
Quando entraram, ele fechou a porta, postou-se diante dela e, segurando-lhe a cabeça com as mãos e olhando-a nos olhos, disse:
- Diz-me! Diz-me depressa!
- Meu querido Manuel António! O teste que fiz ontem na farmácia deu um resultado...
E fez uma pausa:
- Diz! – suspirou o homem.
- Positivo! Positivo, Manel! Vamos ser pais!
E lançou-se nos braços dele. Enquanto se abraçavam e beijavam, ele chorava e ía dizendo:
- Como me sinto feliz! Vou ser pai, finalmente! Como me sinto feliz!
E continuava a soluçar.
- E como eu estou feliz por te ver assim, Manel! Acho que esta foi a melhor decisão que tomei em toda a minha vida.
- Tu nem imaginas o quanto é importante para mim, que não acredito na vida eterna, ter um filho. É a garantia de que vou ficar vivo mesmo depois de morrer – confessou ele.
E beijava-a agora, enquanto repetia:
- Obrigado! Obrigado! Obrigado, Ana!
Passados cerca de três quartos de hora, primeiro neste tom e depois em conversa amena, ela mudou de assunto:
- E agora vamos fazer amor pela última vez, Manel?
Ele paralisou!
- Pela última vez?
- Sim! Foi isso o combinado! – disse ela.

5 Comments:

Blogger Paula Raposo said...

Esta parte final foi drástica!! Foi combinado, lá isso foi...mais uma vez gostei desta parte da tua blogonovela!! Beijinhos, querido.

6:08 da tarde  
Anonymous GR said...

António,

Vidas que se cruzam.
Todas têm um ponto comum, infidelidade, solidão!
Como vão descalçar a bota, a Ana Maria e o Manuel?
Gosto!
Mas…isto vai dar uma volta, a história vai mudar…

Só não entendo a razão de não voltares a fazer histórias extensas!!!
Quando lemos um livro, nem todos podem ser lidos num só dia, logo vamos lendo lentamente, conforme as nossas possibilidades! Exceptuando os editores que são obrigados a lerem textos, futuros livros, só há uma razão para lermos um livro, é porque gostamos!
Daí não entender a razão, dos teus textos terem que ser, com mais ou menos letras!
O importante é o conteúdo da história, seja o texto grande ou pequeno!
Acabei de reler tudo novamente!
Está magnífica, sobretudo quando saltas de personagens, locais, ambientes!
Penso que é difícil, apesar de ter uma técnica!!!
Há ritmo, suspense, romance, segredos, amor e quiçá morte!
Só mais uma palavra,
Parabéns,

Bjs,

GR

11:32 da tarde  
Blogger António said...

Para "GR":
Olá Guida!
Obrigado pelo teu comentário.
Já sabes que eu gosto de ter boas audiências e, nesta fase, as pessoas que comentem são cerca de uma dúzia.
Assim perco a vontade de me esforçar.
Sou como os actores que se tem a plateia vazia não tem vontade de representar mas se, em contraponto, tem uma multidão a aplaudi-los se empolgam.
Nunca poderia ser actor de cinema.
De teatro talvez.
ah ah ah

Beijinhos

11:53 da tarde  
Blogger Fatyly said...

A vida familiar de todos os envolvidos vai mudar, ou melhor já mudou, porque no dia-a-dia haverá gestos que os denunciam.
Gostei e este final não me convenceu de todo, pelo que aguardarei!
Beijos

11:52 da manhã  
Blogger Betty Branco Martins said...

Querido António

Aqui estou eu com a leitura toda em atraso, mas também estás a postar com uma velocidade relâmpago!!!! Quem aguenta!:))

Maria Helena está bem óptimo.

Eu imagino que isto vai REBENTAR! Metem-se em tanta confusão - que isto vai dar buraco - dos grandes

Agora vou lá para cima:)

2:23 da manhã  

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