Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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quinta-feira, novembro 30, 2006

Uma família burguesa - parte XXIII

Meados de 2007.
Em finais de Julho, Ana Maria deu à luz um rapaz ao qual, como já havia sido combinado, chamaram Manuel José.
Cerca de duas semanas depois foi a vez da Fernanda ter presenteado o Mário com uma moreninha a quem deram o nome de Olga.
Por essa altura, Bárbara estava no sexto mês de gestação de uma menina que, em princípio, se chamaria Judite.
Parecia que os deuses estavam a ser pródigos a distribuir fertilidade.

Estava o Francisco Torres a levantar-se, certa manhã de Outubro, quando tocou o seu telemóvel. Era o Alexandre.
Ainda ensonado, resmungou:
- Que queres?
- Sabes que apareceu agora de manhã o corpo da Sónia a boiar no rio? Lembras-te dela, não lembras? – disse, em tom estranho, o irmão da Marina.
- Claro que lembro! Mas que aconteceu? Matou-se? Mataram-na? – perguntou o Chico.
- Não se sabe nada de concreto. Como acontece quasi sempre nestes casos, cada pessoa tem a sua opinião e, portanto, o que diz o povo não serve para nada. Vem uma notícia muito curta no jornal e agora vou ver a televisão – informou o cabeça rapada.
- Tu pareces estar um pouco ansioso! – notou o cunhado.
- Pois estou! Lembra-te que há cerca de um ano andava com ela e a polícia é capaz de me chatear – falou o Alex.
- Tens razão! Mas tu não tens nada a ver com o caso.
- Pois não! Mas se foi assassínio e eles não tiverem bons suspeitos são meninos para pegarem comigo e chatearem-me...e muito! – disse o assustado sócio.
- Acho que estás a preocupar-te demais! Tem calma! Vais ver que se calhar nem houve nenhum crime – procurou o Francisco animar o outro.
- Não sei, não! Não estou a ver que seja acidente nem que ela se tenha suicidado. Pelo contrário, acho que era menina para se meter em complicações e alguém lhe ter limpo o sebo. Não te esqueças que ela te quis chantagear...
- Mas, mesmo que tenha havido crime, tu tens álibi, não tens? – perguntou o sócio maioritário.
- Estava a dormir em casa e estava lá a minha mãe. Mas o testemunho da velhota não deve valer de muito. Isto partindo do princípio que ela morreu de noite, mas não sei se foi assim. E quando abandonei a Sónia ameacei-a de morte. – disse, preocupado, o outro.
- Mas só ela é que ouviu e está morta.
- Não tenho a certeza. Eu não a vi, mas a amiga que vivia com ela podia estar lá e ter escutado a conversa – disse o homem, nervoso.
- Bom! Isso poderia ser chato. Mas já foi há um ano. E provavelmente não estava mais ninguém em casa. Vão aparecer suspeitos muito mais credíveis. Não te apoquentes! – continuou o Chico a tentar acalmar o cunhado.
- Oxalá tenhas razão! – e suspirou, o Alexandre.
- Olha, Alex! Eu agora vou almoçar e depois para o stand. Precisas de alguma coisa? Já falaste com a minha mulher? – apressou o Chico.
- Não preciso de nada, por enquanto. E obrigado. Mas não digas nada à minha irmã. Não vamos alarmar toda a gente – recomendou o Pimenta.
- Pronto! Se precisares de alguma coisa avisa, ok? – despediu-se o Torres.
- Claro! Então até logo! – terminou o Alex.
Quando estavam juntos no bar, à noite, já a Polícia tinha divulgado um aviso a dizer que havia fortes indícios de a morte da Sónia ter sido provocada por asfixia e o corpo ter sido depois lançado ao rio.

A situação clínica de Maria Helena continuou a evoluir favoravelmente.
Um dia resolveu telefonar para o médico, vizinho e amigo Armando Borges dizendo-lhe que precisava de falar em privado com ele. Embora já não trabalhasse em nenhum hospital, o cardiologista continuava a exercer clínica por conta própria.
Quis saber qual o assunto.
- Depois! É coisa para ser transmitida pessoalmente – disse ela.
E combinaram que, na tarde seguinte, ela iria ao consultório e lá diria o que tinha a dizer.
Quando a Maria Helena entrou no gabinete do vizinho, este notou:
- Estás com uma cara estranha. Que se passa? Sentes-te pior?
- Não! Estou bem, obrigado.
E indicando uma poltrona, disse o doutor:
- Senta-te aí, por favor.
Pegou numa cadeira e foi postar-se em frente dela.
- Já estás em condições de falar? Criaste-me uma ansiedade grande. Logo que possas começa, por favor.
Fez-se silêncio durante uns instantes até que ela começou, finalmente:
- Esta fase que atravessei, em que durante algum tempo vi o espectro da morte à minha frente, fez-me sentir de forma muito intensa que podemos morrer muito mais subitamente do que pensamos. E deixarmos coisas por fazer. Nesta fase, embora esteja muito melhor e pareça que ainda não é desta que vou...
- Não é, com certeza – interrompeu o médico.
- Espero que não! Mas como dizia, tenho a consciência de que posso partir de um momento para o outro muito mais enraizada, por isso quero revelar-te uma coisa que guardo comigo, só comigo, há trinta e quatro anos.
Pausou e disse:
- Tu és o pai da minha filha Joana!
E ficou a olhar para a expressão patética do Armando que não conseguiu dizer nada durante algum tempo.
Quando falou, ou melhor, quando balbuciou umas palavras, foram estas:
- A Joana é minha filha?
- Foi exactamente o que eu disse.
- Meu Deus! E conseguiste aguentar esse segredo só contigo? O Tó Zé não sabe nada? – disse, já mais refeito do impacto da revelação, o amigo.
- E nem imaginas como foi difícil!
- Mas como sabes que é minha filha? – perguntou, um tanto impensadamente, o Armando.
- Como te lembras, o António esteve a fazer um estágio na Bélgica, a expensas da empresa, de Janeiro a Julho de 1973. Eu tinha vinte e quatro anos, o sangue na guelra e muitas carências e tu ainda eras solteiro. Começamos com uma brincadeira, depois foi o desenvolvimento que conheces e, uma semana antes de o António vir passar umas férias, faltou-me o período. Estive com ele, ele partiu e nunca mais veio a menstruação. Não há qualquer dúvida de que a Joana é tua filha. Aliás, se olhares bem para ela, aqueles olhos muito escuros e o cabelo negro e ondulado, são teus. Chapadinhos! – recordou a Lena.
- Nunca tal me passou pela cabeça! Mas agora que falas, realmente a Joana tem semelhanças comigo, é verdade. E...continuamos a manter a nossa relação secreta já contigo grávida – disse, o médico.
- Pois foi! Só acabamos pouco antes de o Tó Zé regressar definitivamente.
- E agora? – perguntou o clínico.
- Considerei que te devia dizer esta verdade antes de morrer. Penso que tens o direito de a saber. Acho que também o meu marido a deveria saber, mas nunca seria capaz de lha contar, obviamente. E quanto à Joana... – e suspendeu o discurso, a Helena.
- Que achas? – disse ele num tom expectante.
- Como ela não tem descendentes, nem vai poder ter, acho que não devemos dizer nada. Se tivesse filhos, talvez fosse caso para pensar. Assim...
- Talvez tenhas razão! Mas agora tenho de estar com ela mais vezes. Tenho de a ver mais vezes – como que sentiu que isso seria uma obrigação, o Armando.
- Isso não é difícil! O difícil é tu guardares o segredo, podes crer. Se ela tivesse filhos tenho quasi a certeza que não resistirias a contar a verdade. Assim, vai-te ser difícil mas vais resistir. Espero que resistas, como eu!
- Claro que sim! Não iria comprometer a tua imagem – disse ele.
- Então vamos dar o assunto como encerrado. Mas desta vez, definitivamente, trinta e quatro anos depois – falou a Lena.
- Pois! Com certeza! Mas ainda estou atordoado. Isto de saber que se tem um filho assim de repente...é forte! – e riu, e lacrimejou – A vida é tramada! Obrigado por mo teres dito. Confesso que estou muito contente. Só tenho pena que os frutos da nossa breve relação, tão boa que foi, terminem com a Joana.
- C’est la vie, mon cher! – comentou ela, usando uma expressão que usava frequentemente.
E continuou:
- Sabes, Armando? Acho que toda a gente tem um ou mais segredos que guardam ciosamente consigo ou partilham com muito, mas muito pouca gente, normalmente com alguém que foi seu cúmplice.
- Pois é Lena, pois é!
- E agora vou-me embora porque tens lá fora pessoas que precisam de ti.
E despediram-se.

Uma tarde, passados vários dias sobre o aparecimento do cadáver da Sónia, tocou o telefone na secretária do Francisco Torres quando este se encontrava, como habitualmente, no stand.
- Sim! – falou o corpulento sócio.
- Olha! Sou eu, o Alex! Recebi uma notificação para me apresentar na Polícia Judiciária para prestar declarações, depois de amanhã – queixou-se o atrapalhado cabeça rapada.
- Sim? E estás admirado? Deve ser por causa da Sónia. É natural que andem a investigar e interrogar pessoas. Não vejo razão para estares preocupado. Tu respondes ao que eles te perguntarem e não haverá qualquer problema – minimizou o assunto, o Chico.
- Isso é muito fácil de dizer! Mas quem lá vai sou eu! – respondeu, mal humorado, o sócio.
- Tem calma! Se suspeitassem de ti provavelmente íam buscar-te a casa, ías para o Tribunal e eras engavetado preventivamente. Então sim! Estavas numa situação chata. Ouve bem! Eu não estou a dizer isto só para te acalmar. Digo-o porque tenho a certeza de que não é nada de especial. E como só tens de ir à PJ daqui a dois dias, o melhor é nem pensares mais nisso até lá – disse, de forma enfática, o cunhado.
E concluiu:
- Logo à noite conversamos mais um bocado, se quiseres, ok?
- Ok! Desculpa, Chico! Eu sei que estou a ser chato, mas tu és para mim como um irmão e tenho necessidade de falar com alguém – disse o Alexandre.
- Eu sei! Eu sei! Mas queres que vá agora ter contigo? Precisas de me dizer alguma coisa de especial? – questionou o calmeirão.
- Não! Nada! Até logo! – despediu-se o cabeça rapada.
- Até logo, Alex! – terminou o Francisco Torres.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Uma família burguesa - parte XXII

Nessa mesma noite, já na cama, Maria Helena disse para o marido.
- Quero dizer-te uma coisa muito importante, mas promete-me que não fazes barulho. Por enquanto é segredo.
- Mas que se passa? Alguma coisa vai mal contigo? – disse ele, inquieto.
- Não! Não é comigo. E não é necessariamente uma coisa má. Eu diria que até é boa, embora com aspectos um pouco estranhos – falou a mulher.
- Desembucha, Lena!
- É a Ana Maria que está grávida de quatro meses.
O homem deu um salto e ficou sentado na cama.
- Meu Deus! Não acredito! Está?
Fez uma breve pausa, olhou para a mulher e viu esta a acenar afirmativamente com a cabeça; depois continuou:
- Não tinha reparado! E quem é o pai? Vai casar ou amigar-se? – quis saber o engenheiro.
- Nem uma coisa nem outra! Quer que o pai da criança fique no esquecimento porque acha que não é tipo para a fazer feliz. Acho que ainda é o trauma da separação do Francisco – explicou a Helena.
- Esta rapariga sempre teve uma pancada na cabeça! Eu sempre te disse, Lena! - e suspirou, o futuro avô.
- Deixa lá! Se é essa a vontade dela, não falta aqui quem lhe dê amor e carinho.
- Mas um pai faz falta! – disse o Tó Zé.
- A Cláudia também tem sido criada sem o pai e não me parece que tenha qualquer trauma daí resultante – amenizou o assunto, a dona da casa.
- E é rapaz ou rapariga? – perguntou o homem de meia-idade.
- Ahh...Nem lhe perguntei isso! Mas amanhã já sei. Agora, António José, faz favor de não dizeres nada porque ela vai comunicar oficialmente o caso amanhã ao jantar. Eu estou a dizer-te porque acho que deves estar preparado e, sobretudo, porque ela deve dirigir-se especialmente à Cláudia; pelo menos eu dei-lhe essa indicação – explicou a Lena.
- Sim! Percebo e concordo! Tu sempre soubeste lidar bem com estas coisas – elogiou o homem.
E continuou:
- Vou tomar um comprimido para dormir porque assim não prego olho.
E levantou-se.
Depois de tomar o comprimido, vagueou pela casa. Quando voltou para a cama já a mulher estava nos braços de Morfeu.

No dia seguinte, ao jantar, estavam todos os habitantes da vivenda.
O António José havia desmarcado o exercício de marcha com o vizinho médico.
A Ana Maria sentou-se à mesa e quasi não disse nada durante a refeição. Aliás, pouco se falou. Só a Cláudia e a sua avó estiverem mais tagarelas.
Momentos antes de serem colocadas na mesa as sobremesas, Ana falou com alguma solenidade:
- Queria que me dessem uns momentos de atenção!
- Cláudia! – interveio o Tó Zé – Não ouviste a tua mãe?
- Sim! Desculpem! Podes falar mamã – respondeu a jovem adolescente.
- Quero dizer a todos que a Cláudia vai ter um irmãozinho!
A Lena e o marido fingiram o melhor possível uma cara de espanto.
A filha da Ana Maria fez uma careta e foi a primeira a intervir:
- Estás grávida, mãe?
- Estou!
- E quem é o pai?
- Isso é coisa que não quero dizer. O que interessa é que é meu filho e teu irmão – disse a loira.
- Meio-irmão, queres tu dizer! – comentou a jovem.
- Sim! Mas como vai viver aqui, para ti será um irmão inteiro, podes crer.
O Tó Zé achou que devia intervir:
- Muito me surpreendes, Ana!
Fez uma pausa e prosseguiu:
- Ou, pensando bem, talvez não! Mas agora não vou criticar as tuas opções. Se é assim que queres, é assim que será! Eu estou de braços abertos para receber mais um neto.
- Obrigado pai, pela tua compreensão – agradeceu a Ana.
- Eu identifico-me inteiramente com as palavras do teu pai. – disse a Lena.
E encarando a neta, acrescentou:
- A tua mãe é uma pessoa adulta! Espero que nos ajudes a dar-lhe todo o apoio de que ela precisa. E não vai ser pouco...
Cláudia ainda não estava muito convencida e nada disse.
Foi a vez de intervir a octogenária Conceição:
- Para falar francamente, eu acho que não devia ter transitado para este século! Mas como ainda por aqui ando, quero dar-te um beijo, minha Aninhas, e desejar que sejas o mais feliz que se pode ser. Chega-te cá!
Ana Maria levantou-se e, com os olhos marejados, abraçou com ternura a velha senhora.
- Adoro-te, avó! – disse, comovida.
A Lena levantou-se também e foi abraçar as duas.
O António José fez o mesmo.
Cláudia permaneceu sentada.
Mas a Maria Helena estava atenta e fez um sinal à neta.
Esta, lentamente, levantou-se e dirigiu-se para o grupo. A avó afastou o marido de modo a que ficasse livre o caminho entre a Cláudia e a grávida.
- Abraça a tua mamã, minha linda! – disse a Vó São – É uma coisa muito boa teres um irmãozinho.
Ana Maria voltou-se e, finalmente, a filha abraçou-a:
- Quero que sejas muito feliz, mamã – disse.
O António José olhou para a mulher e comentou baixo:
- A tua mãe é um mulher preciosa!
- Só agora é que o descobriste? – disse ela olhando embevecida para a sua progenitora que, por entre umas lágrimas, dizia:
- Tenho percorrido a vida a aprender!
Passada esta fase, todos se sentaram à mesa, fazendo as mais variadas perguntas, sendo que a Ana Maria só respondia a algumas. Tudo o que dissesse respeito ao pai da criança era tabu.
E, no meio daquilo tudo, até se ficou a saber que o futuro membro da família Costa Lima se chamaria Manuel José.

Na noite seguinte Ana Maria foi a casa da Joana e do Manuel António dar a boa nova.
- Tu és mesmo maluca, Ana! – disse a irmã, sorrindo.
- Muito parabéns e muitas felicidades – disse o Manel abraçando a cunhada e fazendo o possível para que a mulher não lhe visse os olhos.
- E vai-se chamar Manuel José! – já escolhemos o nome ontem à noite lá em casa, informou a Ana Maria.
- Manuel, como o tio...que giro! – disse a Joana.
O professor, que já tinha combinado como se chamaria o seu filho com a cunhada, comentou:
- Mas não foi inspirado em mim, seguramente!
Ao que retorquiu a secretária:
- Foi mesmo! Como vocês não andam nem desandam com a adopção, e o Manel é muito estimado por todos, resolvemos pôr-lhe esse nome em tua homenagem. Se fosse uma menina seria Joana.

Na outra noite Ana Maria foi dar a boa nova ao mano Ricardo e à cunhada Bárbara.
A surpresa não foi grande porque alguém já se havia encarregado de os informar.

terça-feira, novembro 28, 2006

Uma família burguesa - parte XXI

- Mas tu queres mesmo que seja a última vez? – perguntou ele.
- Eu? Eu não! Mas não achas que devemos cumprir o combinado? – disse ela com um tremendo ar de chacota.
- Eu quero que a combinação vá para as malvas! Vamos fazer amor, já! – decidiu o Manuel António.
E atirou-a para cima da cama.
- Desculpa ter sido tão bruto! Acho que agora temos de ser mais cuidadosos nestas coisas senão poderemos afectar a criancinha – disse ele, paternalmente.
Ela soltou uma estrondosa gargalhada.
- Homens! Sempre iguais! – disse, por fim.
E esclareceu:
- Oh Manel! Podemos fazer com todo o à-vontade com que fizemos até aqui.
- Eu sei, meu amor! Estava a brincar contigo – desculpou-se ele.
- Pois! Pensas que não sei que és paridinho como os outros?
E fizeram amor com uma ternura e uma alegria no coração como nunca o haviam feito antes.
Quando se preparavam para sair, ele perguntou:
- E quando é que comunicas à família?
- Para já deixa saber o resultado da análise à urina. A seguir vou à médica. Depois, suponho que à décima segunda semana, faço a primeira ecografia.
- E eu não posso ir, provavelmente... – lamentou-se o professor.
- Provavelmente não! Mas deixa-me continuar – pediu ela.
- Continua, que gosto de te ouvir – disse ele, babado.
- Nessa altura e se tudo estivesse normal, poderia começar a pensar em fazer a comunicação que vai deixar toda a gente em polvorosa. Mas como a minha mãe está a começar agora a quimio e só acaba daqui a três meses, em Fevereiro, não vou dizer nada antes. Vou aguentar até a mamã estar o mais recuperada possível.
- Parece-me sensato – disse ele.
E continuou:
- E vamos continuar a encontrar-nos aqui para fazermos amor e tu me contares as novidades da gestação.
- Certamente, meu Manelinho querido!
E deixaram o 102 depois de um longo abraço e um beijo.
Quando conduzia de regresso à faculdade onde era docente, o Dr. Manuel António Félix ía pensando:
- Curioso que gosto muito da Ana mas continuo a adorar também a Joana. E acho que ela vai ficar muito feliz quando adoptarmos a criança. E, se me dessem a escolher entre criar o meu filho com a Ana ou a Joana, acho que optaria pela minha mulher. Não sei se é o hábito, se é amor, se é remorso, se é compaixão. Mas tenho quasi a certeza de que seria essa a opção. Humm...talvez a ache mais maternal. Mas primeiro é preciso que tudo corra dentro do previsto e combinado.
Teve de fazer uma travagem brusca pois ía apanhando um peão numa passadeira.
Mas continuou a elucubrar:
- Será que alguma vez poderei deixar de ter os encontros com a Ana? Devia fazê-lo. Aliás foi isso o combinado. Não sei. Talvez o consiga, com o tempo. Mas será que a Ana, determinada como é, não vai querer ficar comigo e com o bebé? Acho que não! Mas não punha as mãos no fogo.
E suspirou.

Finais de Novembro de 2006.
Mário Jorge, já recuperado, e Fernanda chegaram juntos, o que agora é habitual, à Rimafor e pediram para toda a gente se juntar.
O engenheiro informático falou:
- Quero anunciar a todos que eu e a Fernanda vamos casar.
- Muitos parabéns!
- Muitas felicidades!
- Muitos meninos!
Foram algumas das expressões que se ouviram no meio de algum burburinho.
- A decisão já foi tomada há algum tempo, mas só a comunicamos agora porque queríamos dizer-vos outra coisa! – prosseguiu o Mário – Vamos ser pais!
Agora houve mesmo uma pequena algazarra.
- É menino ou menina? – perguntou alguém.
- Ainda não sabemos, mas não vai tardar muito a darmo-vos essa outra novidade – falou, desta vez, a Fernanda.
Foi então que Ricardo Costa Lima disse:
- Quem iria prever que após três anos de convívio diário vos haveríeis de apaixonar? Se não fosse aquele acidente, provavelmente nada teria acontecido.
- Não sei! Eu já começava a ficar farta de esperar e, se calhar, um dia qualquer tinha de mudar de táctica, senão arriscava-me a que ele fosse apanhado por outra. Mas as coisas correram bem! - confessou a Fernanda.
- Eu já estava a ficar farto da vida que levava! Acho que há fases para tudo. Estava a precisar de mudar, de assentar, de ter um lar com esposa e filho: completo! E confesso que trazia a Nanda debaixo de olho há muito tempo mas ainda não me sentia preparado para ter uma relação verdadeiramente séria. A ideia dela ir para minha casa apoiar-me foi decisiva!

Fevereiro de 2007.
Maria Helena terminou o tratamento de quimioterapia sendo o prognóstico muito favorável. Pensava cada vez mais em fazer uma operação plástica para compor o seio que tinha sido operado, mas os médicos recomendaram-lhe calma e nada de precipitações. Ela acatou, obviamente.
Foi então que, já perto do final do mês, Ana Maria disse à mãe que precisava que reunisse a família em casa porque queria fazer uma comunicação.
Lena sorriu e disse:
- Vais dizer quem é o pai da criança que tens no ventre?
Ana ficou lívida.
- Mãe! Tu adivinhas tudo! Pareces bruxa, safa!
- Já sei muito, minha filha! Estou perto dos sessenta anos e tu deste sinais mais que suficientes para eu notar o teu estado. Não falei em nada porque sabia que tu terias de dizer alguma coisa. Pensei que viesses falar comigo.
- Não falei consigo antes porque estava doente e não quis perturbá-la. Mas agora que já vou em quatro meses de gestação e a mãe parece quasi totalmente recuperada, tenho de contar a todos – disse a grávida.
- Pois! Antes que se comece a notar a barriga – comentou a mais velha, com ironia.
E continuou:
- Isso quer dizer que tens um homem?

- Não é bem assim! Naturalmente que foi um homem quem me engravidou. Mas não estou interessada em juntar os trapos, como se costuma dizer, com ele. Pretendo ser eu somente a criar a criança, e não quero sequer que tenha o nome do pai. Aliás ele nem sabe que estou grávida dele – mentiu a Ana.
- Mas que aconteceu para tomares uma decisão tão radical? – quis saber a Maria Helena.
- É um tipo demasiado novo e desmiolado. Não quero que se repita a história do Francisco.
- Tu és perita em arranjar situações esquisitas. – disse a Lena – Agora queres ser mãe solteira, passe a expressão.
- Sim! No fundo é isso – anuiu a Ana.
- E achas que uma gravidez com estes contornos não deveria ser comunicada de forma mais discreta e quasi individualmente? Não me parece que a ideia de fazer uma reunião familiar para comunicar esse facto seja muito feliz – aconselhou a mãe.
A Ana Maria pensou durante uns instantes:
- És capaz de ter razão! Primeiro contava ao pai, mas contigo presente. Depois à Cláudia. E a Vó São? Ainda lhe dá alguma coisa...
- Pois! Arranjas umas situações bizarras e depois tens de tornear os problemas, o que nem sempre é fácil – disse a Maria Helena em tom de admoestação.
- Deixa lá isso, mãe! Aqueles são os casos mais complicados. Depois é fácil contar à Joana e ao Manel, bem como ao Ricardo e à Barbara.
- Pensando melhor, e se me permites, sugeria que falasses a todos os da casa ao mesmo tempo. Depois de um jantar – rectificou a convalescente.
- Talvez! Tu, que já sabes, o pai, a minha Claudinha e a velhinha – enumerou a grávida.
- E entretanto a Dina ouve a conversa e já fica a saber.
- Então fazemos assim? Eu preparo o que vou dizer e combinamos para amanhã? – programou a filha.
- Acho bem! Prepara um discurso breve e especialmente dirigido à tua filha.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Uma família burguesa - parte XX

A intervenção cirúrgica decorreu bem e a mastectomia foi parcial.
Passados poucos dias a Maria Helena estava em casa; foi considerado pelos especialistas em oncologia que bastaria fazer sessões de quimioterapia em ciclos que durariam três meses, no total. Era um sinal de que a cura total era possível, e rapidamente.
A moral de toda a família subiu de forma notória, e a própria Lena começou logo a perguntar quando poderia fazer uma reconstrução mamária.

Uns dias depois da cirurgia, estava o Costa Lima no seu gabinete quando a porta se abriu e entrou a Teresa postando-se em frente à secretária do chefe.
Este levantou os olhos e disse:
- Teresa! Está com um ar esquisito. Houve algum problema? – perguntou.
- Houve!
E fez uma pausa prolongada enquanto as lágrimas lhe escorriam pela face.
- Desculpe, Sr. Engenheiro, mas não consegui aguentar – soluçou.
- Mas afinal o que aconteceu? – inquiriu de novo o Tó Zé, já preocupado.
- O meu marido desapareceu e deixou um bilhete dizendo que tinha ido viver com outra mulher – falou, finalmente, a secretária.
- Oh diabo! E a Mariana? – quis saber o amante.
- Está comigo. Ficou muito chocada, mas foi para a escola.
- Lamento muito, Teresa. É uma situação sempre desagradável que não era de prever, pois não?
- Não! Embora ele não me procurasse com regularidade há muitos meses. Talvez um ano – confessou a mulher.
- Já falou com a sua mãe? E com a Fernanda? – indagou o director.
- Ainda não! Vou ver a minha mãe à hora do almoço e dizer-lhe pessoalmente. E daqui a pouco vou telefonar para a minha irmã – informou a mulher.
- As coisas não nos andam a correr bem! A minha mulher veio para casa depois de uma operação que, espero, lhe tenha salvo a vida. Você ficou sozinha, de repente. Mas talvez seja uma coisa passageira e ele um dia destes regresse a casa – procurou o engenheiro animar a Teresa.
- Mas não sei se o aceite! – disse a despeitada mulher.
- Acho que, numa circunstância destas, e embora a Teresa seja nova, a reconstituição da vida com outra pessoa não é tão fácil como por vezes se julga. E ficar sozinha vai-lhe provocar muita solidão que a sua filha Mariana não colmata. Mas isto é uma opinião pessoal que vale o que vale. Para já tem de reorganizar a sua vida. Eu estarei disponível para a auxiliar naquilo que puder mas, atendendo à situação da Maria Helena, não poderei fazer tanto como gostaria.
- Muito obrigado, Sr. engenheiro. – agradeceu a Teresa – Agora vou trabalhar que é uma boa forma de me distrair.
- Tem toda a razão! Até já! E lamento sinceramente o sucedido – terminou o chefe.

Ana Maria não viu aparecer-lhe o fluxo menstrual no dia previsto.
- É o que eu esperava! Daqui a dois ou três dias começa – pensou.
Mas passaram-se os cinco dias e mais dois e aconteceu o terceiro encontro no 108.
Quando estavam no aposento, disse a Ana Maria:
- Sabes que ainda não apareceu a menstruação e já passaram sete dias?
- Sim? E ainda não fizeste nenhuma análise? – perguntou ele.
- Se não houver nenhum sinal, na quarta-feira vou fazer um teste e depois digo-te o resultado – comprometeu-se a mulher.
- Agora deixaste-me um pouco ansioso. – disse o homem – Será que conseguimos tão depressa?
- Para te falar francamente, também tenho sentido qualquer coisa de esquisito, mas pode ser que seja por causa da minha mãe, embora eu esteja convencida que estou mesmo grávida. Já devo trazer o teu filho aqui no meu ventre, Manel – conjecturou a Ana.
- É melhor não me criares esperanças antes de termos a confirmação – pediu ele – senão depois apanho um balde de água fria.
- Ok! Abraça-me com muita força, meu amor! – suplicou ela.
E cumpriram mais uma tarde de um estranho contrato de procriação.

Uns dias depois, Teresa e o António José tiveram mais um dos seus encontros secretos.
O ambiente não era dos melhores, e a parte sexual até não correu muito bem.
- Agora fazes-me tanta falta, Tó Zé! Mal consigo dormir, tenho as ideias todas baralhadas na cabeça, sinto a falta de alguém que me faça companhia à noite para conversar, para me dar carinho, ternura, amor...O meu marido não me dava muito dessas coisas, até dava muito pouco, mas sempre era uma presença. E isso é importante. Não falava quasi nada mas também não chateava.
- Acredito plenamente no que dizes! – respondeu ele, com alguma frieza.
- De facto, precisava de ti! – confessou a mestiça abandonada.
- Eu sei! E gostaria muito de te poder dar isso tudo! Mas penso que compreendes que neste momento não o posso fazer – retorquiu o chefe.
E pensou:
- Nunca iria abandonar a Lena num momento destes. Esta Teresa é muito porreira mas a minha opção está tomada, pelo menos por enquanto.
- Eu compreendo, António! Mas não é por compreender que não deixo de sentir a tua falta. Dá-me mimos, dás? – pediu a mulher.
- Anda cá! Chega-te para mim que eu faço-te uns miminhos muito bons! – disse o homem.
E a relação, já antiga e tornada um hábito, prosseguiu nas semanas seguintes, com uma ou outra intermitência.
Teresa pretendeu que passassem a dois encontros por semana, mas o Costa Lima esquivou-se. A família estava primeiro; e a
gora mais do que nunca. Mas não queria deixar a jovem amante sem esperanças e dizia-lhe muitas vezes:
- O futuro reserva-nos tantas surpresas!

Na quarta-feira que antecedeu o dia do quarto encontro entre Manuel António e a cunhada e amante, Ana Maria foi fazer o teste de gravidez.
Resultado: positivo!
O seu primeiro impulso foi o de telefonar ao pai do embrião que estava já crescendo dentro dela mas, pensando melhor, achou que o deveria fazer pessoalmente. E o dia seguinte, o dia do amor escondido, era o ideal. Resolveu ainda que na sexta-feira iria fazer uma análise à urina para confirmação e, mal tivesse o resultado, consultaria a sua ginecologista que era também obstetra.
No dia do encontro foi novamente o Manuel o primeiro a chegar. Ela demorou uns quinze minutos, o que fez o professor tentar contactá-la várias vezes pelo celular, mas sem efeito.
Quando saíram das viaturas e se beijaram levemente, ele perguntou:
- Então, Ana? Há novidades?
- Já te digo lá em cima, está bem? Gosto de falar nestas coisas com o máximo de privacidade – disse ela, fazendo o homem ficar ainda mais ansioso.
- Tu agora resolveste fazer de Hitchcock? – comentou com um sorriso – Vamos então depressa!
Subiram ao quarto. Desta vez foi o 102.
Quando entraram, ele fechou a porta, postou-se diante dela e, segurando-lhe a cabeça com as mãos e olhando-a nos olhos, disse:
- Diz-me! Diz-me depressa!
- Meu querido Manuel António! O teste que fiz ontem na farmácia deu um resultado...
E fez uma pausa:
- Diz! – suspirou o homem.
- Positivo! Positivo, Manel! Vamos ser pais!
E lançou-se nos braços dele. Enquanto se abraçavam e beijavam, ele chorava e ía dizendo:
- Como me sinto feliz! Vou ser pai, finalmente! Como me sinto feliz!
E continuava a soluçar.
- E como eu estou feliz por te ver assim, Manel! Acho que esta foi a melhor decisão que tomei em toda a minha vida.
- Tu nem imaginas o quanto é importante para mim, que não acredito na vida eterna, ter um filho. É a garantia de que vou ficar vivo mesmo depois de morrer – confessou ele.
E beijava-a agora, enquanto repetia:
- Obrigado! Obrigado! Obrigado, Ana!
Passados cerca de três quartos de hora, primeiro neste tom e depois em conversa amena, ela mudou de assunto:
- E agora vamos fazer amor pela última vez, Manel?
Ele paralisou!
- Pela última vez?
- Sim! Foi isso o combinado! – disse ela.

domingo, novembro 26, 2006

Uma família burguesa - parte XIX

A ideia de extorquir dinheiro ao patrão Francisco foi ocupando cada vez mais tempo na cabeça de Sónia.
Mas seria ele suficientemente rico? E ficaria tão preocupado que a ex-mulher e a filha soubessem daquilo em que se havia metido? Elas podiam fazer queixa à polícia e isso não interessava nada ao Francisco, mas também podiam achar que o problema era dele e não ligar nada. A filha iria repudiá-lo? Ele podia pensar que sim e ceder à sua chantagem. Ou pensar o contrário. No fundo não conhecia suficientemente bem o patrão nem as mulheres para poder prever qual a reacção dele. Portanto não podia avaliar se a sua ideia era boa ou má.
Resolver perguntar ao Alex. Mas iria contar-lhe o seu plano? Se não dissesse nada ele acabaria por saber pelo sócio, portanto o melhor seria dizer. E se ele se opusesse? Depois se veria, mas provavelmente desistiria da ideia de extorquir dinheiro ao homem.
Uma noite, quando estavam ambos no apartamento dela, falou ao Alexandre sobre o seu plano.
Este irritou-se, e muito.
- Mas tu és parva? Tu nem te atrevas a meter-te com a minha família! O Francisco é o marido da minha irmã e o pai do meu sobrinho. É como se fosse meu irmão! Se voltas a pensar sequer em prejudicar alguém da minha família eu dou cabo de ti, percebes? Mato-te!
E continuou, irado:
- Está tudo acabado entre nós! Mais! Escusas de voltar ao bar porque não te queremos lá!
Nem deu tempo a que a Sónia reagisse.
Vestiu-se e saiu.
Quando no dia seguinte chegou ao bar contou o sucedido ao sócio. Este ficou admirado, mas comentou:
- De gajas destas não se pode esperar outra coisa!
- Nem de todas! Mas a maioria são assim! Esta já foi a segunda com quem andei metido e posso garantir-te que foi a última. Agora temos de arranjar uma substituta, senão qualquer dia não temos nenhuma. De vinte e oito que responderam ao anúncio já só restam três – disse o Alex.

Passadas umas noites, apareceu um novo cliente. Sozinho, jovem, com calça preta e blusão de couro da mesma cor, sentou-se ao balcão, pediu uma cerveja que bebeu devagar. Nenhuma das três clientes especiais estava lá.
A certa altura perguntou o jovem, dirigindo-se ao Francisco Torres:
- O senhor desculpe! Mas disseram-me que há aqui umas meninas que saem com os clientes. Mas eu não vejo nenhuma. É verdade?
O Chico e o sócio já haviam estudado a resposta a dar a visitantes desconhecidos que pusessem essa questão:
- Isto não é uma casa de ataque nem temos aqui meninas, embora apareçam algumas clientes femininas sós, por vezes. Mas não sabemos se atacam ou não. Nem isso é da nossa conta.
- Muito obrigado!
E calou-se, o homem de preto.
Alex perguntou discretamente ao cunhado o que se passara e perante a resposta, disse:
- Muito bem! Quando vierem as moças temos de as avisar para não saírem acompanhadas quando este tipo cá estiver. Este gajo pode ser da polícia. Suspeito que a vaca da Sónia foi fazer queixa. Pelo menos é menina para isso.
Os dias passaram, o jovem apareceu mais uma ou duas vezes e depois nunca mais lá foi.

Decorria a segunda quinzena de Outubro e, uma manhã, Maria Helena descobriu, ao fazer a apalpação dos seios, que na mama esquerda tinha um pequeno talo. Ficou aflita e telefonou para a empresa do marido:
- Tó Zé! Descobri que tenho no seio esquerdo um caroço. Estou muito preocupada – disse ela com a voz um tanto sumida.
- Sim? Mas tem calma! Não comeces já a pensar o pior. Telefona para o Armando ou para a Inês porque o filho, o Zé Manel, é médico no Instituto de Oncologia, como tu sabes, e pode mexer as coisas de forma a seres vista rapidamente – aconselhou, sensatamente, o Costa Lima.
- Então vou já telefonar para o Armando. Depois digo-te alguma coisa. Até já!
- Até já, Lena! Um beijinho para ti! E tem calma! – despediu-se o homem.
Lena nem pousou o auscultador. Ligou logo para o vizinho que ainda estava em casa.
- Armando! Fala a Lena. Sabes que descobri agora um caroço no seio esquerdo? Fiquei em pânico! Será que posso ir ao IPO agora? O teu filho está lá? – disse, ansiosa, a mulher.
- Calma, Lena! É muito grande, o nódulo? Só descobriste um? – quis saber o médico.
- Acho que ainda não é muito grande e não apalpei mais nenhum – respondeu a mulher.
- Isso é bom sinal! Esperas aí um pouco que eu vou falar com o Zé Manel. Se estás ansiosa, e parece-me que sim, toma um calmante dos que usas normalmente. Daqui a pouco já ligo contigo. E sossega que não vai ser nada de especial. Até já! – e o cardiologista, que já não tinha actividade hospitalar, desligou.
Fez logo uma chamada para o telemóvel do filho que atendeu pouco depois.
- Que foi, pai? Algum problema? – perguntou, de imediato, o mais novo.
- Nada com a nossa família, mas a Lena detectou um nódulo numa mama. Está nervosíssima, como deves calcular, e quer ser vista aí no Instituto o mais depressa possível. Estou a ligar-te para saber se é possível – informou o Armando João Borges.
- Podes cá vir agora? – perguntou o jovem médico.
- Sim! Claro!
- Então vem e trás a Lena. Depois de chegares à porta liga-me outra vez que eu vou buscar-vos e ainda hoje vemos do que se trata. Sabes que a rapidez nestas coisas é fundamental – elucidou o José Manuel.
- Obrigado, filho! Então até já!
Passada menos de meia hora, e já depois de a Maria Helena ter contactado novamente o marido que pretendeu ir ter com ela, mas disso foi demovido pelo amigo que lhe disse que só ía atrapalhar nesta fase, partiram no carro do velho médico para o IPO.
Quando os três se reuniram à porta do Instituto de Oncologia, e depois de se cumprimentarem, o Zé Manel disse:
- Oh pai! É melhor ficares aqui. Podemos contactar pelo celular, se necessário. Eu vou já providenciar que a Lena seja analisada e avaliada.
Depois de uma apalpação feita por um outro médico foi conduzida, sempre pelo jovem vizinho, para ser objecto de uma mamografia. Como o resultado foi suspeito, foi submetida a uma ecografia cuja análise recomendou uma biopsia.
Entretanto o filho contou ao pai que por sua vez falou com o amigo António José.
Este deixou a empresa, apressado, não sem antes ter confidenciado à secretária Teresa o que se passava e avisado que certamente não viria mais nesse dia.
Após alguma espera, a Maria Helena foi submetida a uma biopsia aspirativa e a uma série de outros exames para definir o estadiamento.
Já eram mais de quatro da tarde quando foi dado o veredicto:
Carcinoma requerendo tratamento cirúrgico com mastectomia, provavelmente parcial.
A cirurgia ficou desde logo marcada para dois dias depois.
Quando o jovem médico e a paciente se juntaram aos outros dois, uma crise de choro atacou a Maria Helena que abraçada ao marido, só dizia:
- Vamos para casa! Vamos para casa!
Entretanto o Dr. José Manuel Borges esclareceu os dois homens sobre a situação: parecia-lhe que não seria necessária uma mastectomia total, mas só durante a cirurgia seria tomada uma decisão definitiva.
Também pensava que, provavelmente, não seria necessária radioterapia mas várias sessões de quimioterapia a definir posteriormente. Mas quasi podia garantir que era um caso curável e que mais tarde uma reconstrução mamária viria trazer a estabilidade definitiva.
E os três dirigiram-se para a casa das Antas depois de sinceros agradecimentos do Tó Zé e da mulher ao jovem médico que tão bem orientara a Lena.
Aí chegados, telefonaram sucessivamente ao Ricardo, à Ana Maria e ao Manel, visto que a Joana, talvez por estar em aulas, não atendia. E a notícia de que a Maria Helena tinha um cancro da mama e seria operada dois dias depois rapidamente chegou aos outros familiares e amigos mais íntimos.
O dia da cirurgia calhava na quinta-feira em que o Manuel António e a Ana Maria se deveriam encontrar pela terceira vez. Esta telefonou-lhe:
- Manel! Já sabes que quinta-feira a mamã vai ser operada, portanto aquilo fica sem efeito.
- Claro! Nem poderia ser de outra maneira. Estás boa? – falou o homem.
- Estou mais ou menos, como todos nós. Mas o prognóstico parece ser razoável. Sabes que no dia seguinte começo o período menstrual. Com esta situação inesperada e desagradável se calhar vai haver um atraso, mas depois te manterei ao corrente. Tens direito a saber tudo – disse.
- Obrigado pela consideração com que me tratas. Vemo-nos na quinta, mas desta vez no IPO, lamentavelmente – lastimou o homem.
- É assim! Mas estou confiante que a mamã vai recuperar. Olha! Vou desligar. Beijos, Manel – despediu-se a mulher.
- Beijos para ti, Ana, muitos – e o professor desligou.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Uma família burguesa - parte XVIII

Três semanas depois do primeiro encontro clandestino, dentro do automóvel, entre Ana Maria e Manuel António, novamente a uma quinta-feira o professor acomodou o carro no escondido parque de estacionamento da residencial e aguardou. Estava ansioso por este segundo encontro de alcova. Da primeira vez ficara de tal modo satisfeito que agora nem se lembrava que o objectivo era bem diferente de uma hora e meia ou duas de prazer. Mas era na cunhada que ele pensava, nas manifestações de carinho que lhe dedicara, nos pedidos de afecto que lhe pedira, na carência que demonstrara. E como ele gostara de a acariciar, de a beijar, de a saciar.
Passados uns dez minutos chegou a Ana Maria. Arrumou o carro e ambos se apearam. Cumprimentaram-se com um beijo nos lábios e subiram pela escada das traseiras até à recepção.
Ao fim de poucos minutos entraram novamente no quarto 108, o mesmo da outra vez, e abraçaram-se com força, muita força. A mulher sentiu que o Manel já estava excitado e procurou avidamente a sua boca. E beijaram-se apaixonadamente durante algum tempo, com intervalos para ganharem novo fôlego e recomeçarem.
Estavam ainda vestidos quando caíram sobre o leito.
Manuel António levantou-se e foi baixar um pouco a persiana para deixar o quarto mais na penumbra. Ela continuou deitada na cama, virada para cima.
- Vou-me despir e depois dispo-te a ti – disse ele.
E rapidamente se despojou da roupa que espalhou por todo o lado; ele, que costumava ser muito arrumadinho. Mas o desejo era tanto...tanto...
Começou a retirar a roupa da parceira, a beijá-la na cara, nos ombros, nos seios que chupou até ela sentir uma mistura de dor com prazer intenso, no ventre, nas coxas...e foi descendo até aos pés. Depois subiu novamente até parar os lábios no monte de Vénus. Usou a língua com mestria para fazer com que a mulher, já totalmente humedecida, começasse a soltar gemidos de gozo. Mas ele não parava. Parecia um louco de amor. A mulher estremecia, abanava, agarrava-lhe a cabeça até que suplicou:
- Meu amor! Mete! Mete agora!
Ele, apesar de um tanto anafado, num salto pôs-se de joelhos abertos diante dela, abriu-lhe as pernas e num só golpe penetrou-a totalmente. Agora já não eram dois corpos, era só um. E os gemidos de ambos também se misturavam. A frequência com que eles mexiam as ancas foi aumentando, com os gemidos a converterem-se em gritos e sons guturais até ao êxtase.
Depois foram os corpos exangues a tombarem e ficarem inertes durante uns minutos. Poucos, porque as carícias recomeçaram com os dois bem abraçados.
- É tão bom sentir-me tua, meu amor! – disse ela.
- Bom demais, minha querida! – confessou ele.
E assim permaneceram mais algum tempo: em silêncio, entrecortado aqui e além por palavras de elogio e amor sussurradas, com as mãos e os lábios a aumentarem de novo a sua actividade.
- Ana Maria! Dá-me um filho! Quero um filho teu! – disse, em voz alta, o homem.
Ela olhou-o nos olhos e com um sorriso matreiro perguntou.
- Mas quando ficar grávida estes nossos encontros vão acabar. Foi o combinado, não foi?
Ele suspirou fundo e respondeu:
- Sim! Foi o combinado. Mas...não sei, não! Não fales nisso agora. Sim, meu amor?
- Pronto! Eu não toco mais no assunto. Vou ao quarto de banho tomar um duche e venho já.
- Eu também vou tomar banho – disse ele, por sua vez.
- Então tomamos juntos! – decidiu ela enquanto se levantava dengosamente.
Pouco depois estavam ambos no chuveiro.
- Já estás preparado para mais, Manel? Ah...grande homem! – exclamou a Ana Maria.
- Até eu estou espantado com a rapidez com que recuperei. Tu és verdadeiramente um afrodisíaco – disse o professor.
- Somos! Acho que fomos feitos um para o outro! – afirmou a mulher.
Mas ele não respondeu. Agarrou-a e deitaram-se na banheira.
- Aqui não dá muito jeito. Vamos para o quarto, mesmo molhados – desejou ela.
- Vamos lá!
Enxugaram-se mal e rapidamente antes de mergulharam no leito.
Ele ficou nu, voltado para cima, erecto.
Ela debruçou-se sobre ele e iniciou um felatio com uma sabedoria de profissional. Mas com muito amor, também. Oh mistura explosiva! O professor era agora aluno. De olhos fechados mas com um leve sorriso, disse.
- Assim não dá para engravidar!
- Não me faças rir pois não consigo fazer-te gozar como eu quero.
- Não digo mais nada – rematou ele.
E, ao fim de alguns minutos, ele grunhiu e depois ficou como morto. Morto de prazer.
Ainda ficaram mais algum tempo no quarto.
Junto à porta, e antes de saírem do ninho de amor, deram um último e profundo beijo para terminar a segunda sessão de procriação.
- Sabes que na quinta da semana passada foi o meu dia de ovulação? Quem sabe se... – disse ela baixinho.
- Quem sabe, Ana! Quem sabe!
- E o ter deixado recentemente de tomar a pílula pode facilitar – concluiu a cunhada do Manuel António
E saíram em silêncio, caminhou cada um para a sua viatura e deixaram o local de parqueamento.

As quatro meretrizes contratadas para angariarem clientes no “Borda d’água” começaram a aparecer logo na noite seguinte. Raramente compareciam todas, pois algumas tinham outros esquemas no âmbito da prostituição.
Eram a cabeleireira Sónia, que usava o nome Vanessa, com 22 anos, a balconista Ana Rosa, Andreia como nome de guerra, com 25 anos, Fátima, que se mascarava de Cátia, com 24 anos e Lurdes que manteve o nome verdadeiro, de 21 anos, sendo estas desempregadas.
Quem raramente faltava era a Sónia, pois conseguiu que o Alexandre a fosse buscar quasi todos os dias ao pequeno apartamento que partilhava com uma amiga.
Não demorou muito que entre os dois surgisse um relacionamento e ele passou também a levá-la de regresso a casa.
Apesar de todas as cautelas serem tomadas para camuflar o mais possível esta nova vertente do negócio, naturalmente que Alzira rapidamente se apercebeu da situação. Mas nada disse, pois o dinheiro que recebia certinho dos patrões fazia-lhe muita falta e, de facto, o ambiente não se apresentava visivelmente prostituído.
Naturalmente que ela e o Francisco também se aperceberam da relação do Alex com a Sónia, mas como no bar quasi se ignoravam, ninguém se meteu no assunto.
Esta nova actividade rapidamente começou a dar frutos pois as moças contratadas eram novas e atraentes, apesar da discrição das roupas que usavam e mesmo da postura pouco exuberante e matadora. Nisso, Francisco era um zelador atento.
A balconista Ana Rosa aparecia poucas vezes, normalmente uma vez por semana, mas as outras eram suficientes para entregarem mais uns bons cobres no saco azul dos patrões. Raramente estavam lá mais de uma ou duas porque, ou faltavam, ou saíam discretamente com clientes para executarem a sua tarefa nos quartos de uma residencial da zona. Por vezes não estava nenhuma.

Francisco Torres costumava almoçar, aos sábados, num restaurante com a filha Cláudia. Esta esta não aceitava, em grande parte por pressão da mãe, ir a casa do pai para não ter de enfrentar a Marina. Por vezes, também o meio-irmão Marco António acompanhava o Chico para poder estar com a irmã, havendo uma boa relação entre eles.
Num desses sábados, Sónia foi almoçar com um cliente, um viúvo relativamente abastado, e viu o Francisco e a Cláudia noutra mesa um tanto afastada. Foi propositadamente às instalações sanitárias e estranhou que o patrão estivesse com uma rapariga tão jovem. No regresso, olhou particularmente para a moça e reconheceu-lhe o rosto. De imediato não se lembrou de onde seria mas, passado pouco tempo e algumas espreitadelas, pensou:
- Ah! Já sei! É a filha da D. Ana Maria que é cliente lá no salão. E a mocinha já lá tem ido. Será que o Francisco é pai dela?
Quando reencontrou Alex perguntou-lhe:
- O teu sócio Francisco tem uma filha com uns catorze ou quinze anos?
- Tem! Ele foi casado com uma tal Ana Maria e do casamento nasceu uma filha que tem essa idade, mais ou menos, e se chama Cláudia. Mas porque perguntas? – quis saber o homem.
- Porque hoje os vi a almoçar juntos – respondeu ela.
- Ah! – exclamou o irmão de Marina sem dar qualquer importância ao caso.
Mas Sónia começou a magicar:
- Duvido que a antiga mulher do Francisco saiba como funciona o bar, agora. Talvez ainda possa ganhar um dinheirinho se tiver uma conversa de pé de orelha com ele.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Uma família burguesa - parte XVII

Sexta-feira, antes do almoço, Francisco Torres foi buscar as respostas ao jornal.
Trouxe vinte e oito cartas.
- Não esperava receber tantas – pensou.
Nessa tarde, o seu trabalho no stand de venda de automóveis foi abrir, ler e classificar as missivas.
Desde logo começou a separar algumas que não se enquadravam no perfil que imaginara para as meninas do “Borda d’água”.
Seis eram brasileiras, duas ucranianas, uma russa, duas moçambicanas e três angolanas. Estas foram logo eliminadas pois, sendo estrangeiras, dariam mais nas vistas, especialmente à polícia. Depois eliminou três que indicavam ter trinta e tal anos mas, provavelmente, teriam quarenta ou mais, pensou. Uma outra foi despachada porque praticamente não sabia escrever.
Restaram dez.
Todas elas tinham entre vinte e vinte e oito anos (pelo menos era o que diziam nas cartas) sendo: três cabeleireiras, quatro desempregadas, duas balconistas e uma estudante.
Lidos e relidos os papéis, acabou por considerar que estas deveriam ser as entrevistadas e seria isso que iria propor ao sócio Alexandre Pimenta.
Quando chegou ao bar já ele lá estava. Fez um sinal para o cunhado e sentou-se na mesa mais ao fundo enquanto a Alzira ía limpando a outra ponta da sala.
O Alex colocou-se ao seu lado. Confirmou que a empregada estava concentrada no seu trabalho e disse baixinho:
- Recebemos vinte e oito cartas. Já separei estas dezoito que não me parecem ter interesse e tenho aqui estas dez que penso merecem ser chamadas para uma entrevista – relatou ao irmão da mulher.
Este pegou nas cartas e analisou-as durante algum tempo. Finalmente falou:
- Concordo! Agora temos de lhes telefonar pois parece-me que todas deixaram o contacto de telemóvel.
- Deixaram, sim! E onde fazemos as entrevistas? E quando? – inquiriu o Chico.
E continuou:
- Não sei se será muito conveniente meter a Marina nisto, embora eu pense que ela gostava de dar o seu palpite.
- Claro que gostava! Mas devemos ser só nós quem faz a selecção. Ela depois pode vir cá para confirmar que o ambiente continua a ser igual ao actual. As entrevistas devem começar o mais depressa possível. Onde? Perguntas bem! Aqui, com a Alzira e clientes, não dá. Em tua casa também não. Na minha, está lá a minha velha: não dá! Só vejo uma possibilidade: no dia de folga – disse o Alex esperando a reacção do sócio.
- Pois sim! Portanto, na segunda. Deixa-me pensar! Das sete à meia-noite. Estamos cá os dois e acho que meia hora é suficiente para cada uma – especificou o Francisco.
Mas, de repente, lembrou-se do terceiro sócio.
- E o Gilberto? Já lhe disseste alguma coisa?
- Já tinha falado com ele ainda no tempo do Renato e não rejeitou a ideia. E agora, quando lhe dei o recibo do jornal, abordei o assunto. Ele só quer que haja uma discrição total – falou o Alexandre.
- Óptimo! – disse o Chico – E o que se segue?
- Agora pegamos num papel, escrevemos o nome, idade, profissão e número de telefone de cada gaja e vamos contactá-las uma a uma. Marcamos para segunda dentro do horário combinado e cada uma vem na sua hora.
- Ok! Vamos então trabalhar! E a Alzira? – interrogou o maioritário.
- Um de nós vai fazer isso para a esplanada ali no largo de forma que ninguém ouça. O outro fica aqui a preparar as coisas para logo. Hoje é sexta e deverá vir mais gente. Se calhar é melhor seres tu a telefonar que falas melhor do que eu – disse o cabeça rapada.
- Certo! Então deixa-me levar um bloco e as dez respostas.
E pouco depois o Chico saía.
Nessa noite nem foi jantar a casa. Disse à mulher o que estavam a fazer e esta pareceu não ficar muito satisfeita mas, depois de esclarecer que a ideia de que ela não interviesse na escolha tinha sido do mano, a Marina amoleceu.
Cerca de uma hora e meia depois regressou ao bar:
- Não consegui falar com três: duas cabeleireiras e uma desempregada. A estudante perguntou se era para atacar e desistiu. Está aqui a listas das seis candidatas e a hora a que aparecem. A primeira é uma cabeleireira de vinte e dois anos chamada Sónia que vem às sete pois nesse dia tem folga – falou baixinho enquanto estendia o papel ao sócio.
- Então temos seis! São suficientes. Se for necessário, depois tentamos contactar as outras...três, não é? – disse o Alexandre.
- Exactamente!

Na segunda-feira às sete da tarde já lá estavam os dois homens.
Passado pouco tempo tocaram à porta.
- Eu vou abrir! – disse o Alex.
Logo entrou uma morena, nem alta nem baixa, cabelo muito negro e muito curto, uma boca grande com lábios grossos e dentes muito brancos e muito certos que deixavam antever o sangue africano que lhe corria nas veias. Era ligeiramente para o forte mas bem constituída e curvilínea.
- Pode sentar-se aqui – e o Alex apontou-lhe a mesa onde já estava o Francisco.
- Com licença! Obrigada!
- Então como é que se chama?
- O meu nome verdadeiro é Sónia Filipa Soares Silva, trabalho numa cabeleireira e tenho vinte e dois anos.
- Eu vou-lhe dizer o que pretendemos de si – disse o Alexandre, passando a explicar.
- A discrição no vestir e no comportamento é fundamental, percebe? – interveio, por duas ou três vezes, o outro.
Finalmente, a rapariga falou:
- Já não é a primeira vez que faço este tipo de trabalho. A vida está má e temos de fazer por ela. Aceito o trabalho, que é como quem diz, ser uma cliente assídua do bar – e riu-se.
E continuou:
- Eu não tenho carro. Não me podem pagar o táxi?
- Qualquer pagamento da nossa parte está fora de questão, – respondeu prontamente o Alex – m
as oferecemos uma sandes e uma bebida por noite.
E continuou:
- Mas se morar perto, podemos pensar na possibilidade de algumas vezes a ir buscar. Onde mora? – quis saber o irmão da Marina.
- Moro em Sá da Bandeira com uma colega. Mas às vezes posso vir do trabalho para aqui. O salão onde estou é nas Antas.
- Sá da Bandeira fica-me a jeito; as Antas não! Mas depois falamos melhor nisso. Primeiro quero conversar com as outras candidatas – matou o assunto o Alex.
- Mas ainda não estou aceite? – inquiriu, com algum espanto, a jovem.
- Está! Está! – disse o Alexandre.
A conversa não demorou muito mais. Sónia fez questão de que passassem a chamar-lhe Vanessa no bar. Despediu-se, dizendo:
- Então amanhã cá estarei!
Durante o resto da noite ouviram mais quatro mulheres, tendo chegado a acordo com três delas. Uma das desempregadas não pretendia prostituir-se; respondera porque pensara que se tratava de um trabalho de alternadeira. Uma das balconistas faltou. Ficaram portanto: a cabeleireira, uma balconista e duas desempregadas.

domingo, novembro 19, 2006

Uma família burguesa - parte XVI

Chegado ao bar, com pouca frequência nessa noite, Alex chamou o cunhado à parte e disse-lhe:
- Oh Chico! Eu acho que precisamos de introduzir aqui qualquer coisa que nos permita ganhar mais dinheiro.
- Já tenho pensado nisso! Agora só trabalho em “part-time” nos automóveis para estarmos aqui os dois à noite e não haver necessidade de mais empregados para além da Alzira. Mas o negócio dá pouco. Ganhava mais a trabalhar a tempo inteiro no stand do que actualmente. E já tenho uma ideia que me parece boa! Contratar um pianista e tornar isto num piano bar – avançou o homenzarrão.
- E temos de pagar ao pianista um balúrdio! A casa é pequena e, provavelmente, mesmo cheia não aumentaria os lucros em muito – falou o Alex.
- Sim! Não sei! Fazendo umas contas... – balbuciou o Francisco.
- Pois eu tenho aqui (e apontou com o indicador da mão direita para a testa) uma ideia muito melhor! – aguçou a curiosidade do interlocutor.
- Então diz!
- Um momento! Vou atender aquele cliente e já te conto! – e o sócio menor dirigiu-se a uma das mesas.
Pouco depois:
- Olha, Chico! O que eu proponho para que o negócio nos dê dinheiro é termos aqui umas meninas...
E repetiu o que dissera a Marina.
A reacção do Francisco, depois de um repúdio inicial, acabou por ser bastante favorável.
- Eu acho uma boa ideia! Desde que elas se comportem como clientes normais, evidentemente. Não quero que isto tenha nenhuma parecença com uma casa de tias – comentou.
Mas prosseguiu:
- O pior vai ser convencer a minha mulher!
- Deixa isso por minha conta! Sabes? Estava à espera que tu reagisses de forma negativa. Mas vejo que tens visão para o negócio! – elogiou o cabeça rapada.
- Mas há outras coisas! Nada de estrangeiras porque dão logo a ideia de redes de mulheres e a polícia pode começar a cocar.
- Sem dúvida! – concordou o Alex.
- E podemos ser levados pelas gajas. – lembrou o Chico – Elas saem com um cliente uma vez, nós recebemos a comissão e depois passam a encontrar-se com ele sem ser através do bar. E lá se vão as comissões.
- Pois! Isso é sempre um problema, mas não há nada como fazer umas ameaças de porrada e estar atento. Quando alguma for suspeita vai de vela e entra outra. Temos de ter umas três ou quatro efectivas e uma lista com suplentes – disse, resoluto, o irmão da Marina.
- Por mim começava já a procurar as moças – disse o sócio principal.
- Não te esqueças de que é preciso convencer a tua mulher. Fala com ela e diz-lhe da nossa conversa, que estás relutante porque não sabes se ela tem confiança suficiente em ti, porque doutra forma já terias decidido. Topas? Diz-lhe que ela pode aparecer aqui quando quiser se tiver alguma suspeita. E fala-lhe no dinheiro que vai render. Ela é pior por dinheiro do que o porco por landras. Se se mantiver reticente, eu convenço-a!
- Está bem! – anuiu o calmeirão – E não vamos redigir já um anúncio?
- Vai tu pensando nisso enquanto eu presto atenção à clientela – apoiou o Alexandre.
E o Francisco Torres pegou num bloco de papel, numa esferográfica, sentou-se ao balcão, foi buscar um fino e começou a fazer a redacção:
Ao fim de poucos minutos tinha escrito:

Raparigas jovens
Para actividade em part-time num bar
Guarda-se sigilo
Resposta ao nº xxx da Redacção

Chamou o Alex.
- Já escrevi isto. Que achas? – perguntou o Chico.
- Está bem! Mas porque não pomos o número de um telemóvel?
- Porque nos denunciávamos com mais facilidade – respondeu o marido de Marina.
- Tens razão! Assim só os tipos do jornal ficam a saber. Estás a ficar um às nestas coisas – elogiou o cunhado.
- E pelos tipos de resposta e caligrafia já ficamos com uma ideia do nível de estudos. Elas devem saber falar minimamente.
- Muito bem! E pela Internet? Não achas que vale a pena? – perguntou o sócio minoritário.
- Não sei muito bem como essas coisas funcionam na Net. Lembra-te que não nos serve qualquer coisa. Se houver poucas respostas ou mesmo nenhuma, então teremos de seguir outra via menos clássica – disse, ufano, o Francisco.

No dia seguinte, o marido de Marina foi ao Jornal de Notícias colocar o anúncio para ser publicado no sábado e no domingo. Fê-lo antes de almoço para não ter de chegar atrasado ao stand onde, agora, só trabalhava quatro horas, começando às duas da tarde.
Quando chegou a casa, não teve coragem de falar no assunto à mulher que já lá estava, mas esta não aguentou e disse:
- Oh Chico! O meu irmão não falou contigo a propósito de meter umas meninas no bar?
- Ah...é verdade! Eu acho que é uma boa sugestão para aumentar os lucros, mas pensei que tu poderias não gostar e resolvi dizer que não! Quero preservar o nosso casamento acima de tudo – mentiu o Chico.
- Olha que eu estive a pensar e acho que não é má ideia. Desde que conduzida com cautelas e muita discrição – disse ela.
O homem até se engasgou com o que acabara de ouvir, mas acabou por dizer:
- Então o teu irmão já tinha falado contigo! O patife não me disse nada! – desabafou, agastado.
- E convenceu-me! Mas gosto muito da tua atitude em relação à família. No entanto, se o problema for só esse, podes avançar. Eu sei como evitar chatices cá em casa – disse, confiante, a mulher.
- Então, se tu não vês problemas, eu vou falar com o Alex para discutir outra vez o assunto. Mas não quero ver-me ou ver a família na lama. É um ponto fundamental. E ainda há a minha filha Cláudia. Espero que ela nunca venha a saber de nada – mostrou-se preocupado, o homem.
- Ela só sabe se tu lho disseres! – ripostou a mulher.
- Nunca se sabe! Nunca se sabe! – terminou o marido.
Nessa noite, o Francisco Torres mostrou o seu desagrado ao cunhado por este ter falado com a mulher.
Este respondeu:
- Mas tu achas que se eu não tivesse intervindo ela teria aceite?
- Provavelmente, não! – condescendeu o pachola.
- Estás a ver?! Entregaste o anúncio? – perguntou o cabeça rapada.
- Claro! – respondeu o Chico – e tenho aqui o recibo para dar ao Gilberto.
- E quando é que podemos ir buscar as respostas?
- Vou lá na sexta-feira – respondeu o sócio bonacheirão.

quinta-feira, novembro 16, 2006

Uma família burguesa - parte XV

No dia seguinte ao do encontro secreto entre Ana Maria e Manuel António, este telefonou à cunhada.
- Olá, Ana Maria!
- Olá, Manel!
- Estive a pensar na tua proposta. A decisão já está tomada e foi mais fácil do que eu supunha, por isso quero-te dizer que estou disposto a ir para a frente com a ideia.
- Eu tinha a certeza que a tua resposta iria ser sim – disse ela com um largo sorriso nos lábios.
- Mas agora não quero dizer mais nada ao telefone. Podemos encontrar-nos no mesmo local e à mesma hora depois de amanhã para conversarmos? – perguntou o candidato a pai.
- Está bem!
- Então, até lá! Um beijinho.
- Um beijo também para ti – despediu-se a cunhada.

Na quinta-feira seguinte à da primeira conversa, repetiu-se o ritual.
Já dentro da viatura do marido de Joana, Ana Maria começou:
- Ao tomar essa decisão mostraste ser um homem de coragem, Manel!
- Não tenho dúvidas que sim pois há o risco de sermos descobertos o que não me agradaria nada. Já tens ideia de como vamos fazer? – perguntou ele, mostrando que a mulher comandava a situação.
- Já! – respondeu ela.
- Imaginava que sim. – disse o homem – Então diz lá!
- Primeiro deixa-me dizer-te que eu tomava o contraceptivo oral, a pílula, como é mais conhecida, mas até já deixei de o fazer. Vê bem a confiança que tinha sobre qual a tua opção – e riu-se, provocando um largo sorriso no cunhado.
E continuou:
- Penso que as quintas-feiras de tarde, depois de almoço...enfim, de uma refeição ligeira, são os dias indicados. O local pode ser uma hospedaria muito jeitosa, limpa e com estacionamento bem escondido que há na rua de Antero de Quental. Depois dou-te o endereço. Se a gravidez não aparecer ao fim de um tempo razoável, poderemos pensar em aumentar a frequência, mas sem correr riscos.
- Muito bem! Estou totalmente de acordo. – disse o Manel – Mas quero referir-te de novo os outros dois perigos que também temos de minimizar a todo o custo: um deles é continuarmos a relação para além da gravidez e o outro é tu, depois de dares à luz, não quereres abandonar a criança. Temos de nos comprometer a que isso não acontecerá.
- Sabes em que sou psicologicamente forte e cumprirei integramente o acordado. E tu também o farás, tenho a certeza – disse a mulher.
Ana Maria deu o endereço da residencial, combinou mais uns detalhes com o Manuel António e despediu-se com dois beijos:
- Agora até é apropriado que dêmos beijos – e deu uma risada que transparecia felicidade.
E foi cada qual para o seu destino.
Na segunda quinta-feira de Outubro ocorreu o primeiro encontro íntimo e clandestino entre Manuel António e a cunhada Ana Maria.
Tudo decorreu de forma muito mais intensa, quer afectiva quer sexualmente, do que uma mera e fria sessão de procriação.
À saída, o professor universitário estava muito calado.
- Que se passa, Manel? Estás mudo e quedo! Mas pareceu-me que ficaste bastante satisfeito – provocou-o ela.
- Pois! O problema é esse!
E não disseram mais nada até entrarem nos veículos e saírem do local de estacionamento com intervalo de uns dois ou três minutos.

Numa noite de finais de Setembro, Alex telefonou ao Chico a dizer que chegaria ao bar um pouco mais tarde. Entretanto já havia combinado encontrar-se com a irmã em casa da mãe de ambos, a Maria Amélia.
Não estiveram muito tempo lá dentro pois o homem já tinha avisado a Marina de que queria falar com ela em privado.
Deixaram a habitação e entraram para o carro dele.
- Então diz lá porque queres falar comigo tanto em segredo – perguntou a mulher.
E ele começou:
- Sabes que o negócio do bar, que é uma casa pequena, dá algum dinheiro mas nada de especial. Eu acho que seria muito mais lucrativo se contratássemos duas ou três raparigas novas e jeitosas que fossem lá todas as noites e pudessem sair com os clientes que quisessem passar uns momentos mais agradáveis.
- Mas tu queres fazer daquilo uma casa de putas? – disse, com má cara, a Marina.
- Não é isso!
- Claro que é! E o Francisco às tantas começava também a sair com as gajas. Tu não estás bom da cabeça! – reagiu a roliça loira.
- Não te comeces a enervar senão ficas com o raciocínio toldado. Eu já tenho esta ideia há muito tempo. Quando estava lá o Renato ele nunca quis alinhar e, assim, o bar nunca passou da cepa torta. Eu quis que o Chico se tornasse sócio porque é um tipo mais moldável e aceita as ideias dos outros com mais facilidade. Então se forem tuas ou se tu as apoiares...
- Eu não apoio nada disso, Alex! – a irmã interrompeu o discurso do homem da cabeça rapada.
- Tem calma e deixa-me concluir! – prosseguiu o Alexandre Pimenta – Como dizia, penso que o Chico é mais flexível, sobretudo se tu o convenceres.
- Mas a que propósito o hei-de convencer a montar uma casa de meninas?
- Não é casa de meninas! Não serão empregadas! Serão jovens estudantes ou trabalhadoras, não ligadas a redes, que precisem de fazer um dinheiro extra para serem mais independentes financeiramente. Vão lá para fazerem mais uns cobres. Claro que nos darão um valor em euros por cada saída. Assim ganhamos a dois carrinhos: mais clientes e a comissão das meninas. E olha que só assim é que poderemos fazer mais dinheiro com o bar. Tu talvez não precises muito, mas podes vir a precisar, e eu preciso mesmo – continuou a explicação, o homem.
- Isso não me cheira nada bem! E a polícia?
- Que tem a polícia? Elas são clientes como os outros. E terão de se vestir de forma não provocatória para não dar muito nas vistas.
- E o Francisco qualquer dia embeiça por uma dessas gajas e gasta os lucros todos com ela. Os lucros e muito mais – continuou a reticente Marina.
- Não te preocupes! Eu tomo conta dele! E tu sabes muito bem como impedi-lo de se atirar às raparigas. Puxas pelo Chico muito bem e ele nem fica com forças para tentar. – continuou a argumentar o Alex – Só assim é que vale a pena ter o negócio!
- Tu és lixado! Já tinhas essa filada e caladinho que nem um rato – comentou a Marina.
- Sabes que é melhor agir do que falar – disse, rindo, o irmão.
- Olha! Tenho de ir embora porque o Marco ficou lá agarrado aos jogos do computador e amanhã tem aulas e eu quero que se deite cedo. Depois falamos sobre isso, outra vez – e, dando um beijo ao mano, saiu do carro.
- Olha! Mas pensa bem no assunto! O sucesso financeiro do bar está nas tuas mãos. Se tomares a decisão errada, qualquer dia aquilo fecha. Eu, entretanto, vou falando ao teu homem para ver como ele reage – rematou o homem.
- Está bem! Depois falamos! – e Marina dirigiu-se para a sua viatura.

O “Borda d’água” é um pequeno bar na zona histórica do Porto, perto da Ribeira e, portanto, perto do Douro.
Da fachada estreita, desenvolve-se em profundidade, e quem entra vê à direita o balcão com oito bancos e, meia escondida, uma kitchenette. As madeiras de cor castanho escura predominam, criando um ambiente de algum requinte. Do lado esquerdo estende-se um sofá ao longo de toda a parede mais seis mesas rectangulares com muito vidro e uns banquinhos, sendo estes também em couro artificial. O traço da decoração é fundamentalmente linear. Um som de fundo com músicas suaves gravadas e uma mistura de iluminação directa e indirecta, tornam-no num cantinho aprazível.
Dos três sócios, Francisco Torres e Alexandre Pimenta fazem o serviço de bar e de mesa. Gilberto Silva permanece mais nos bastidores, tratando da contabilidade e da maioria das compras, poucas vezes lá indo à noite.
O bar tem uma empregada com cinquenta e tal anos que faz as limpezas e prepara alguns petiscos: a Alzira. É relativamente alta e magra e o pouco dinheiro que aufere não lhe permite esconder as cãs, já abundantes.
Abre às oito da noite e fecha às duas.
Não serve refeições, limitando-se a fornecer aos clientes, para além dos cafés e derivados, uma variada gama de bebidas, nomeadamente alcoólicas, umas sandes, enchidos, queijos, croquetes e bolos de bacalhau, e mais algumas coisitas para enganar a fome. Aperitivos salgados, tremoços e amendoins também estão sempre presentes como oferta da casa.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Uma família burguesa - parte XIV

Primeira metade de 2006.
Francisco Torres e Marina Pimenta continuavam a trabalhar no stand de venda de automóveis novos e usados do qual o homem era sócio.
Mas o negócio estava um tanto parado.
Em casa, Marina, depois de acabarem de jantar mas ainda sentados à mesa, falou:
- Oh Chico! Eu tenho estado a pensar se não será melhor venderes as tuas cotas do negócio do stand. Este ano os lucros vão ser muito baixos e a tendência é para piorar.
- Não me parece que a situação seja dramática. – respondeu ele – Isto funciona por ciclos e daqui a dois ou três anos está outra vez na mó de cima.
- Mas pode não estar! E se agora podes ainda vender por um bom preço, mais tarde pode já nem haver quem queira comprar – argumentou a loira.
- Mas o negócio é assim! – disse o resignado Chico.
- Ouve, homem! Nunca ouviste dizer que não se devem pôr os ovos todos na mesma cesta? Pois então pensa nisso. E até te digo mais: podes vender uma parte da tua posição na sociedade e investir noutra coisa, mantendo a restante. Não te parece sensato? – insistiu ela.
- E em que é que poderia eu aplicar o dinheiro resultante da venda? Só sei de compra e venda de carros. Foi sempre a minha vida – falou, não parecendo muito convencido, o Torres.
- Também já pensei nisso! E até nem precisas de muito dinheiro. Compras as cotas que o Renato Delgado tem no “Borda d’água”. Parece que ele quer ir para o Brasil e vender. Quem mo disse foi o meu irmão Alex e ele próprio compraria se tivesse dinheiro. O Renato tem cinquenta e cinco por cento. Ficavas sócio maioritário do bar – sugeriu a Marina.
- Mas eu não percebo nada desse negócio – disse, pouco entusiasmado, o homenzarrão.
- Percebe o Alex! Ficava ele à frente. Eu continuava no stand e tu, ou ficavas só no stand ou fazias as noites no bar, dormias de manhã, e fazias as tardes no stand. Que achas, meu amor? – e fez-lhe umas carícias no pescoço.
- Tenho de pensar melhor, mas não me parece uma ideia tola, não senhora – começou a ceder o Francisco.
- Pois te garanto que não é! Até já falei com o Alex sobre isso.
- Isso já eu percebi! – sorriu o homem.
- Queres que amanhã o meu irmão venha cá jantar e falamos sobre o assunto? E não te vai ser difícil vender uma parte do stand a um dos outros três. O Moreira quer ser maioritário mas o Dinis não quer perder a posição, portanto vão-te fazer ofertas boas. O Moniz não se importa nada – previu a despachada Marina.
- Então diz ao teu irmão para vir cá jantar amanhã. E que traga elementos contabilísticos para eu analisar – anuiu o pequeno empresário.
- Está bem. Deixa-me dar-te um beijinho. – disse ela com um sorriso provocante – Logo vamos comemorar na cama. E agora vou arrumar a cozinha e tratar de outras coisas.

No dia posterior, ainda não eram sete da noite e o cunhado do Francisco já tocava à porta do apartamento da baixa portuense inserido num prédio com evidentes traços arquitectónicos dos anos cinquenta.
Feitas as saudações habituais, disse Marina:
- Eu ainda estou a acabar o jantar. Podem falar de tudo: carros, futebol, política...mas dos negócios que vamos fazer só quando eu estiver presente, valeu?
- Está bem, minha querida! Tu és imprescindível! – concordou o marido.
- Esta minha irmã é uma vivaça! – disse o homem que tinha cinco por cento do “Borda d’água”.
E lá foram conversando sobre isto e sobre aquilo, mas acabaram por falar também na situação financeira da pequena sociedade. Os lucros não eram famosos, mas Alex garantiu que poderia pôr o negócio a dar mais, bastando para tal ser mais agressivo comercialmente.
Pouco depois apareceu o Marco António que, com os seus oito anos, meteu umas colheradas na conversa que provocaram uns piscares de olhos entre os dois adultos.
Finalmente sentaram-se todos à mesa.
- Bom apetite! - disse o Francisco.
Os outros repetiram os votos.
- Então – começou o dono da casa – parece que o teu sócio maioritário quer vender a cota dele!

- É verdade! – iniciou a sua explicação o Alexandre – O Renato, que tem cinquenta e cinco por cento, vai para o Brasil e o Gilberto, que tem quarenta, não quer aumentar a sua cota. Portanto, o que eu imaginei foi que tu poderias vender alguma coisa dos carros e comprar ao Renato. Até te pedia mais: como comissão por intermediar o negócio, compravas cinquenta para ti e cinco para mim. Assim tu ficavas maioritário na mesma e eu, com dez, teria mais entusiasmo para tomar conta daquilo, já que o Gilberto só trata da contabilidade e de compras e recebe os lucros.
- Com que então queres uma comissão? Tu ainda és mais fino do que a tua maninha... – e riu-se.
Mas continuou:
- Está tudo muito bem, mas tenho de vender parte do que tenho investido no stand. Penso que não vai ser difícil. Claro que eu tenho um pé-de-meia razoável, mas não lhe quero mexer. Posso bater a bota e não me agradaria deixar a Marina e o Marco desprevenidos.
- Assim é que é um bom pai de família. – disse o homem da cabeça rapada – E quando é que se pode saber da tua disponibilidade?
- Dentro dos próximos três dias já te posso dizer alguma coisa de concreto, julgo eu. Entretanto podes falar ao Gilberto...
- Não! Ao Renato...Renato Delgado! – corrigiu a Marina.
- Seja! Dizia eu que podes falar ao Renato que estou interessado em comprar a parte dele pelo valor justo – disse o Chico.
- Está bem! Então quando tiveres as coisas tratadas lá nos carros, ligas-me!
- Combinado! – rematou o Torres e olhando para o filho – Oh menino! Veja lá se se comporta à mesa como deve ser! Os cotovelos e as mãos não se põe assim, pois não?

Nos dias seguintes, Francisco Torres conversou com os seus três sócios acabando por ficar acordado, embora o entendimento não tivesse sido fácil, que ele venderia quinze por cento da sua cota a José Moreira que passaria a ser o novo maioritário, ficando o Chico com quinze.
Ao fim de cinco dias telefonou ao cunhado para dar a notícia. Marina tinha acompanhado tudo, naturalmente, até porque era funcionária da empresa.
- Olá, Alex! – falou o Francisco.
- Olá, Chico! Há novidades?
- Sim, já está tudo de acordo. Agora falta executar o combinado. E no bar? – perguntou o Torres.
- Já falei com o Renato e ele concorda em vender-te cinquenta e os tais cinco a mim – informou o irmão de Marina.
- E valores?
- Isso é melhor falarem os dois. Passa por cá logo à noite. Se houver algum impedimento eu aviso-te. Mas penso que podes fazer um bom negócio. Ele tem pressa!
- Então está combinado. Lá pelas nove e meia...dez...eu passo por aí.

E no início de Setembro de 2006 estava tudo arrumado.
Francisco Torres baixara a sua cota no stand de automóveis e tornara-se o sócio maioritário do bar “Borda d’água”.
Dormia de manhã, trabalhava de tarde na empresa de transacção de automóveis onde permanecia a tempo inteiro a mulher, e à noite ía para o bar.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Uma família burguesa - parte XIII

- Entra, Ana! – convidou a irmã – Então que aconteceu para apareceres por aqui?
- Lembrei-me de cá vir pois é pouco habitual entrar na vossa casa. Resolvi dar um passeio até à beira mar e fazer-vos uma visita rápida – respondeu a Ana Maria.
- E fizeste muito bem! – ouviu-se a bela voz de Manuel António – Podes aparecer quando quiseres que és sempre bem-vinda. Vamos sentar ali na sala.
- Olá, Manel! – cumprimentou a cunhada dando-lhe dois beijos na face.
- Estás muito jeitosa! – e olhando para a mulher, continuou – Não está, Joana?
- Ela sempre foi jeitosa – disse a irmã mais nova.
- E então quando é que nos dás a satisfação de arranjares um tipo fixe com quem te arrumes outra vez? Nem todos são como o Francisco. E estás em boa idade de dar uma irmãzinha ou um mano à Cláudia – falou o Manel.
- Pois é! Vens dizer-nos que tens novidades do coração? – perguntou a Joana.
- Não! Nada disso! Há muitos pretendentes, de facto, mas os melhores que conheço já estão comprometidos. E não me vou casar só por casar. Eu sei que estava em boa idade para ter o segundo filho, mas enfim...pode ser que aconteça um milagre! – respondeu a Ana Maria.
- Não esperas ser fecundada pelo Espírito Santo, pois não? – disse a Joana.
- Tomara ela! Tomara ela! Estou a falar do banqueiro, claro! – gracejou, o Manel.
- Há outros que me interessavam muito mais para pai de um filho meu – disse, com um sorriso enigmático e não descritível, a Ana.
- Humm...Parece que já tens feita uma selecção. Isso já é alguma coisa! – exclamou, cheia de curiosidade, a mana – E não queres mostrar-nos a lista para nós darmos um parecer? Ou não há ninguém conhecido?
- Isso querias tu saber! Mas não há lista nenhuma – ripostou a Aninhas.
- Mas não deixa de ser verdade que a tua conversa me permite adivinhar que estás mais voltada para mudar de vida e mesmo encarar uma nova maternidade do que há uns tempos atrás. Estás a ficar mais madura, sentes isso? – falou o Manuel António.
- Sinto que estou a mudar! E o desejo de uma nova maternidade começa a ser muito forte – confessou a mãe de Cláudia.
E continuou:
- E vocês? Vão continuar assim ou decidir pela adopção?
- Ainda não decidimos! – disse secamente a Joana, deixando perceber que o assunto não lhe agradava.
- Bom! Se não quiserem falar nisso...tudo bem! É um assunto que só a vós diz respeito. Mas, se me permitem uma opinião, eu não sou favorável à adopção. Tem demasiados riscos...
- Eu também acho isso, mas falemos dos teus favoritos, que é assunto muito mais interessante e permite umas fofocas – interveio o professor universitário para alterar o rumo da conversa.
- Não há muito mais a dizer! Já disse que os tipos mais interessantes que conheço estão comprometidos – repetiu a Ana.
- Isso já sabemos! Mas quem são? – perguntou o cunhado com uma curiosidade que não lhe era muito habitual nestes temas.
- Sendo comprometidos nunca poderia revelar! Mesmo sabendo que vocês são como cofres fortes quanto a guardar segredos! – e riu-se a Ana.
- E tu também! – disse a irmã.
E a conversa derivou para outros temas em que a capacidade de argumentação e de encantamento do Manel pontificou.
Era perto da meia-noite quando se despediram e Ana regressou a casa.
Chegou lá pensativa.
- Ana!
Ouviu a voz da mãe.
- A Joana telefonou-me a dizer que foste lá a casa. Por favor deixa-os em paz. Não tentes estragar o casamento, minha filha! Peço-to por tudo!
- Mas quem lhe disse que eu quero estragar o casamento da Joana, mãe! Isso nem me passa pela cabeça! Quando muito poderia querer ajudar...
Esta resposta da filha deixou a Lena um pouco mais sossegada mas com uma grande dúvida: como é que ela quereria ajudar?

Durante a semana seguinte, Ana fez mais uma visita a casa da irmã mais nova.
Até que, num dia de finais de Setembro, telefonou ao cunhado e disse-lhe:
- Manel! Eu queria falar contigo sobre um assunto muito sério. Mas só contigo mesmo. A Joana não pode saber, pelo menos para já – disse a Ana Maria.
- Mas não podes dizer qual o assunto? – perguntou, intrigado, o cunhado.
- Agora não! Só quando estivermos os dois num local em que ninguém nos oiça.
- Estás a deixar-me sobre brasas – confessou o homem.
- Então quanto mais cedo melhor! – aproveitou ela.
E combinaram encontrar-se passados dois dias, depois de almoço, no Passeio Alegre, junto do local onde as águas do Douro tentam vencer as do mar.
Ela meteu dispensa, ele estava com a tarde razoavelmente disponível e, muito importante, Joana estaria até tarde em Penafiel.
No dia aprazado, já passava das duas, Ana estacionou e esperou atenta para ver se via o Ford Focus do cunhado.
Quando o viu fez-lhe sinal para ele também arrumar o carro. Saiu do seu Clio e dirigiu-se para a viatura do Manuel António, já parada. Abriu a porta e sentou-se ao lado do condutor.
Deram dois beijos, como de costume, e ele falou primeiro:
- Então? Que há assim de tão secreto e importante para me contares?
- Manel! Eu vou falar num assunto melindroso e tenho a perfeita noção disso. Portanto, peço-te que não consideres que há qualquer má intenção na minha proposta. Pelo contrário! – começou, criando ainda mais suspense, a mulher.
- Continua! Continua! – pediu o Manuel António.
- Tu e a Joana não podem ter filhos em conjunto pela razão que conhecemos. Também sei que, embora ela tenha vontade de fazer uma adopção, tu não estás muito receptivo à ideia. Finalmente, sei que tenho vontade de ter um outro filho mas não há nenhum homem livre que me interesse para pai da criança – e fez uma pausa, a Ana.
- Perante essas premissas...continua, por favor! – insistiu ele.
- Na sequência do que te acabei de dizer, faço-te a tal proposta que pode parecer estranha mas, no fundo vem contentar todos.
E continuou:
- Eu explico: nós os dois geramos uma criança, no maior segredo.
Manuel António fez um esgar, embora discreto.
Ela continuou:
Supostamente será um filho de pai incógnito ou de um amigo com quem não quero fazer vida em comum e não será difícil que as pessoas aceitem que ele seja adoptado por ti e pela Joana.
- Agora deste-me uma pancada bem forte, Ana! – comentou o cunhado ainda não refeito da surpresa – Imaginaste um esquema um tanto maquiavélico!
- Não é maquiavélico, ora ouve com atenção: a Joana fica satisfeita porque adopta uma criança e, ainda por cima, tem o sangue dela. Tu ficas satisfeito porque vês a Joana feliz e sabes que estás a adoptar um filho teu. Eu fico satisfeita porque tenho um outro filho e, pelo menos por algum tempo, satisfaço o meu desejo de ter um bebé nos meus braços e de o amamentar. E depois posso vê-lo crescer e desenvolver-se no seio da família. Quanto aos meus pais e irmãos ficarão a pensar que eu sou uma leviana, mas como já pensam isso, não me preocupo. Claro que, se quiseres, fazes um teste de ADN para confirmar a paternidade. Mas garanto-te que há umas semanas que não tenho relações com ninguém e que durante algum tempo isso se manterá. Serei só tua! Também já fiz testes de HIV e todos aqueles que são recomendáveis para quem quer ser mãe. E a nossa relação acabará quando eu ficar grávida. Obviamente que mais ninguém poderá saber disso. Será um segredo só nosso e que devemos levar connosco para a tumba! – rematou a imaginosa Ana.
Manuel António permaneceu calado e com um ar incrédulo perante o que ía ouvindo.
- Eu diria que é um plano perfeito! – disse, finalmente, provocando o tal sorriso enigmático e não descritível na cunhada.
- Não quero que me respondas já! Quero que penses no assunto e que tomes uma decisão amadurecida. Confesso que, sendo tu uma pessoa muito inteligente, sei que vais concordar – induziu ela.
- Tenho de te dar os parabéns pelo que tu imaginaste. Ao contrário do que eu pensei logo que começaste a expor o assunto, não é uma ideia disparatada. Será talvez imoral. Mas a moral é tão elástica, não é? – comentou o homem.
- Sem dúvida! – anuiu ela, com um sorriso triunfante.
- Devo dizer-te desde já que há duas questões que me preocupam. Uma delas é apaixonarmo-nos; aliás, penso que tu tens um fraquinho por mim e eu confesso que também simpatizo contigo. A outra é tu, depois de dares à luz, não quereres abandonar a criança – objectou o professor universitário.
- Eu sei que existem esses riscos, mas está nas nossas mãos e nas nossas cabeças superarmo-nos, se necessário for, e vencermos os desejos do coração – disse convicta, a Ana.
- Pois bem! Eu vou pensar no assunto e muito brevemente te darei uma resposta. Mas confesso que me custa pensar que vou trair a Joana – disse o professor.
- Manel! Manel! Eu sei que não seria a primeira vez! Não me venhas contar histórias da carochinha. Este é um assunto muito sério e temos de o encarar como tal.
- Tens razão! Tu cada vez mais me surpreendes como uma pessoa fora de série – disse o cunhado olhando-a, enquanto ela ampliou o seu sorriso de triunfo.
- Então vou ficar à espera da tua resposta! Espero que não demore demasiado tempo. Tu sabes decidir depressa – desafiou a mulher.
- Daqui a dois ou três dias eu digo-te se sim ou se não! – prometeu ele.
- Muito bem! Espero que seja sim, para bem de todos – rematou ela abrindo a porta do carro.
- Não me dás os beijos do costume? – disse ele.
- Não! Não quero que penses que faço isto para te conquistar e roubar à minha irmã.
- Então adeus, Ana! E deixa-me felicitar-te pelo teu engenho e coragem.
Ela saiu e fechou a porta, voltando para o seu Clio estacionado perto. Trazia um sorriso vitorioso estampado no rosto. Tinha a certeza de que ele iria concordar, quanto mais não fosse porque não tinha filhos e sempre tivera vontade de os ter. E era a grande oportunidade da vida dele de satisfazer esse objectivo que ela agora lhe estava a oferecer servida numa bandeja de prata.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Uma família burguesa - parte XII

Os dias foram passando e a relação entre Mário e Fernanda foi-se cimentando, com ela a tornar-se progressivamente mais imprescindível para o patrão.
Mas o libidus começava a ser cada vez mais intenso e reprimido, de uma parte e de outra.
Aproximadamente uma semana passada, certa noite, após uma refeição ligeira que a Fernanda preparou com a ajuda do Mário, este disse-lhe:
- Fernanda! Eu tenho necessidades que já não satisfaço há mais de uma semana. Como tu não pareces disponível para alinhar comigo pois tens-te mostrado demasiado esquiva, vou telefonar a uma amiga minha para vir cá buscar-me e levar-me com ela a dar uma volta. Podes pensar que eu não estou a ser muito correcto contigo, e se calhar não estou, mas não quero ter que aliviar as minhas tensões sexuais recorrendo à masturbação. Por isso peço-te desculpa, mas...
A rapariga não contava com este contratempo e ficou muda durante momentos.
- Se quiseres eu vou para casa da minha mãe e a tua amiga vem cá. Só que amanhã és tu ou ela quem faz a tua cama – foi o que lhe ocorreu responder, embora estivesse com vontade de esmurrar o Mário Jorge.
- Há outra solução que me agradava muito mais. E não é só para aliviar as tensões, Fernanda. Eu gosto muito de ti. Acho que és uma mulher excepcional e estás a fazer-me mudar a minha visão da vida a dois. E tenho a certeza de que também gostas de mim. Tenho vindo a certificar-me disso ao longo dos últimos dias. E também acho que a tua vontade de estar comigo intimamente é tão grande como a minha. Mas tens procurado não te comportar como uma mulher fácil. Não precisas de te conter mais. Vem dormir comigo. Porque te quero e porque te amo. Eu diria mesmo: porque nos queremos e porque nos amamos – declarou-se Mário.
Ela estava corada e não sabia o que fazer. A vontade era de o abraçar e dizer-lhe que também o amava e há muito mais tempo do que ele. Mas ficara magoada com a ousadia dele lhe dizer que queria estar com outra. Também não estava nos seus planos entregar-se tão cedo. Mas a estratégia estava a falhar.
Ficou completamente confusa!
Ao fim de uns minutos disse:
- Eu não sou uma mulher fácil, é bom que o saibas! E embora também te ame, não te quero conquistar pelo sexo mas por outras razões. Sei que sou bonita e atraente, mas não quero que gostes de mim só por isso.
Fez uma pausa e concluiu:
- Tu dizes que me amas mas também que queres ter relações com outra. Não te percebo muito bem. Liga então para a tua amiga.
E com a testa franzida e os olhos húmidos saiu do quarto dele indo para o seu.
O homem sentou-se durante uns minutos meditabundo; finalmente levantou-se e caminhou até ao quarto da Fernanda.
Bateu levemente à porta.
- Que se passa? – perguntou a moça.
- Posso entrar?
Ele sentiu passos e a porta a abrir-se devagarinho.
Ela tinha os olhos molhados e vermelhos. Mário, mesmo empanado, abraçou-a como pôde e beijaram-se ternamente. Depois com mais sofreguidão. Depois loucamente.
- Vamos para o meu quarto, meu amor! – disse ele.
- Cuidado com o braço, meu bem! – advertiu ela.
- Que se lixe o braço!
Riram-se ambos!
E nessa noite amaram-se de tal forma que mal dormiram.
Acordaram já eram dez horas.
- Bolas! Não liguei o despertador! São dez horas, Nanda! – resmungou enquanto lhe beijava os ombros e as costas descobertos.
- Como? Já? Mas eu estou cheia de sono! – disse ela, sem se mexer.
- Deixa-te estar! Eu telefono a dizer que tivemos de ir tratar de um assunto meu, particular.
- Pois...é melhor! – anuiu a parceira.
- Ahh...deve estar a chegar a empregada. Ela entra às dez e sai ao meio-dia. – lembrou-se o homem – Vou-lhe dizer que hoje está dispensada mas pago-lhe o dia na mesma.
- Pois...é melhor! – repetiu a rapariga, visivelmente ensonada.
O Mário telefonou para o escritório, contou a mentira urdida e voltou para a cama.
- Que noite, meu amor! – disse ela.
E virando-se para o parceiro:
- E que manhã!...
Apesar da fadiga e do sono, ainda se amaram mais uma vez, como se a resistência humana não tivesse limites.
Só chegaram ao escritório depois de almoço; já passava das duas da tarde.
O ar de cansaço e as olheiras muito profundas chamaram a atenção de Ricardo que entrou no gabinete do sócio e comentou:
- Mas que grande noitada! Espero que não tenhas tirado o gesso para ser mais fácil!
E riu-se com sarcasmo.
- Não sei a que te referes! – disse, sorrindo, o mais alto dos homens.
- Podíeis ter ficado o dia todo! Uma vez não são vezes...
Quando, ao fim da tarde chegou a casa da mãe, Nanda contou-lhe o sucedido.
Esta ficou radiante, mas perguntou:
- E não te vai largar como tem feito às outras?
- Espero que não porque vou ficar a viver com ele. E sei que ele não vai resistir a querer casar comigo – disse, confiante, a sensual cabrita.
- Deus te oiça! Deus te oiça! – disse a quinquagenária.
- Agora vou dizer à Teresa!
E pegou no telefone, ligou para o telemóvel da irmã e contou-lhe o ocorrido deixando-a muito satisfeita.
Um mês depois do acidente, na última quinzena de Outubro, o gesso foi retirado não havendo necessidade de outra imobilização. Mas o ortopedista recomendou vinte sessões de fisioterapia em dias consecutivos para que tudo ficasse bem.
- Finalmente hoje vamo-nos estrear sem aquele trambolho! – desabafou o homem – Não sabes como me irritava querer abraçar-te a sério, com toda a força, e não poder!
- Até é bom assim! Vamos experimentando novas sensações – disse ela, olhando para o homem com um sorriso irresistivelmente malandro.
E assim Fernanda se tornou a dona da casa do Mário.
Da casa e do homem.
Cerca de duas semanas depois, o engenheiro decidiu finalmente dizer:
- Quero que cases comigo e sejas minha para sempre! – e entregou-lhe um estojo azul escuro que ela abriu e, com os olhos a brilhar, dele retirou um belo e caro anel de brilhantes que o seu homem fez questão de lhe colocar no dedo.
E selaram o momento com um beijo e mais uma gostosa e quente estadia em vale de lençóis.

Ana Maria, numa tarde fresca e chuvosa da segunda quinzena de Setembro, resolveu telefonar para a irmã.
Esta devia estar em aulas pois não atendeu e Ana deixou a seguinte mensagem no voicemail:
“Olá, Joana! Esta noite, depois de jantar, vou a vossa casa. Não há nada de especial, apenas me apetece conversar convosco. Se houver algum inconveniente, avisa-me, ok? Beijinhos”.
Passado algum tempo recebeu uma chamada da irmã mais nova.
- Olá, Aninhas! Já falei com o Manel e podes aparecer quando quiseres.
- Então estarei aí por volta das dez, dez e pico – programou a loira falsa.
- Mas não demores para além da meia-noite porque amanhã é dia de trabalho. Não te importas? – pediu a morena de longos cabelos.
- Com certeza! Eu também tenho trabalho. Então até logo.
- Adeus, Ana! Até logo.
Acabado o jantar na casa das Antas, Ana preparou-se para sair.
- Estás muito bonita – disse a mãe.
- Pois está – disse a avó que ainda estava sentada à mesa.
- Parece que hoje há encontro com gente interessante – insistiu a Lena.
- Um beijinho, Vó. Um beijinho, mãe – e com um beijo em cada uma as calou e saiu de casa.
- Nem se despediu da filha nem do pai! Não foi esta a educação que lhe demos – lamentou-se a mulher do Tó Zé.
- São outros tempos, filha! Isto também me faz uma certa confusão, mas já não me incomodo muito. Não vale a pena. E além disso não é minha filha – falou a anciã.
- Oh mãe! Não precisa de atirar piadinhas subtis – refilou a filha.
- Mas não era piada. Era a sério – e riu-se, a velha senhora.
Entretanto Ana Maria chegou ao estupendo apartamento de Leça da Palmeira.
Como não sabia o código da campaínha, e não reparou que ele estava escrito na caixa do correio, chamou pelo celular. A porta foi aberta, entrou, subiu no elevador e quando chegou ao 3º piso já Joana a esperava à porta.

domingo, novembro 05, 2006

Uma família burguesa - parte XI

O rosto de Ana Maria deve ter passado por várias cores.
- Como é que ela descobriu? Não devo ter sido suficientemente discreta. Que chatice! – pensou.
Após o efeito do impacto provocado pela tiro certeiro da mãe se ter dissipado, mas demorado tempo suficiente para a Lena ter percebido que acertara na “mouche”, a divorciada percebeu que tinha sido descoberta e não merecia a pena mentir.
- É verdade, mãe! Como é que adivinhaste? – perguntou.
- Lembra-te que sou mulher e ainda por cima tua mãe. – respondeu Helena Pinho – E agora? Não vais tentar conquistar o Manel, pois não? E muito menos aproveitar-te da situação por que passam devido à questão da adopção. Ela jamais te perdoaria e o teu pai e o teu irmão, também. E eu...nem sei bem como iria reagir. Só tens uma solução, filha. Esquecê-lo! Afastar-te deles! E descansa que eu não digo a ninguém.
- Pois! Falar é fácil, mamã. Mas vou viver o resto dos meus dias com esta paixão silenciada a fazer-me doer o coração e a consumir-me as entranhas do corpo e do espírito? Não te posso prometer nada! – concluiu a Ana.
- Por favor, filha! Não cries um problema grave em toda a família. Peço-to encarecidamente. Cuidado! Está a chegar o teu pai. A conversa fica por aqui. Disfarça!

No dia seguinte ao ligeiro acidente de viação entre os carros de Bárbara Mendes e Mário Jorge Gomes, este foi para a empresa transportado pelo sócio Ricardo Costa Lima.
Tratar dele, sobretudo para quem não tinha prática, não era tarefa fácil.
O braço engessado, com o cotovelo fixado a cerca de noventa graus, permitia-lhe mover o ombro esquerdo e os dedos da mão.
Quando chegaram à Rimafor já lá estavam todos os outros quatro elementos:
Fernanda, Elias, o jovem engenheiro que entrou em 2003 aquando a morena, Mónica, a engenheira estagiária e Raul, técnico com contrato a prazo. Estes dois tinham entrado há poucos meses, em 2006.
Os cumprimentos e desejos de rápidas melhoras ecoaram durante alguns minutos.
Os proprietários tinham pequenos gabinetes individuais. Os outros estavam num espaço comum.
Mário sentou-se, ligou o PC e manuseou os papéis que tinha na secretária. Despachou o que pode, foi falar com Ricardo e, antes de reentrar no seu canto, chamou a Fernanda.
Uma vez dentro do seu espaço privado, disse:
- Fernanda! Sente-se nessa cadeira para falarmos um pouco.
Ela assim fez. Estava bonita e atraente como sempre. Durante os três anos em que trabalhara na firma sempre soubera ter uma postura correcta, não procurando casos com nenhum dos patrões nem com os colegas, nomeadamente o Elias, que tinha a idade dela. Era sociável, almoçava normalmente com o jovem engenheiro informático, algumas vezes com um ou ambos os chefes, mas sempre soube manter uma atitude de grande dignidade. Isso deixava o Mário intrigado. Solteiro e mulherengo como era, habituado a que as mulheres fossem para ele presa fácil, sempre achou Fernanda uma pessoa estranha, distante. Mas era inegável a atracção carnal que por ela sentia. No entanto, nunca ousara mais do que uns piropos bastante correctos. Afinal era patrão e não devia deixar que o ambiente dentro da empresa se degradasse de forma a tornar promíscuas as relações de trabalho.
- Pode falar, Sr. Engenheiro – disse ela depois de instalada.
- São dois os assuntos que quero abordar: o primeiro diz respeito à pessoa que me vai ajudar aqui, sobretudo a trabalhar com o computador, enquanto eu estiver limitado. Tinha pensado na Mónica, mas há pouco falei com o Ricardo e chegamos à conclusão que o Raul é o mais indicado. Como o trabalho dele vai ser prejudicado, vou pedir ao Eng. Elias para redistribuir tarefas. Portanto, vou-lhe pedir um esforço suplementar durante este período que eu espero não seja superior a um mês. Depois vou falar com eles, também. Ah...no final, haverá uma compensação monetária, como é justo.
- O Sr. Engenheiro deve calcular que eu já imaginara que isso iria acontecer. Pode contar com o meu empenho e dedicação.
- Pois! Não esperava outra coisa de si. A segunda questão que queria abordar consigo era sobre o apoio que se prontificou a prestar-me em casa: penso que imagina que isso lhe vai, provavelmente, provocar dissabores pois, por mais que se comporte como uma governanta, digamos assim, não será como tal que será vista cá fora – avisou o Mário.
- Tenho a perfeita noção dos riscos que corro. Mas não me importo muito com o que os outros possam pensar. Interessa-me sobretudo ajudá-lo a viver decentemente durante esse período e fazer com que recupere sem sobressaltos para voltar a ocupar o seu lugar com as capacidades em pleno. Já trouxe uma maleta com as minhas coisas. Só lhe quero pedir para me autorizar, antes de sairmos para sua casa, a ir todos os dias até à minha para ver a mãe. Como sabe vivemos aqui na Maia, mas em Moreira; não demorarei mais do que três quartos de hora a uma hora – falou a empregada.
- Oh Fernanda! Mas isso está completamente fora de questão. Está com a sua mãe o tempo que quiser. E agora, peço-lhe que chame os seus colegas para virem aqui afim de lhes comunicar a tal necessidade de mexida nas tarefas. E venha também, por favor.
- Com certeza! São dois minutos! – saiu.
O dia decorreu dentro de uma quasi normalidade.
Eram quasi seis horas da tarde quando a Fernanda informou o patrão engessado que ía ver a mãe.
Voltou cerca de uma hora depois.
Por volta das oito entraram ambos no Renault Clio da moça e rumaram ao apartamento que ficava na Arca d’Água.
Feitas as arrumações no outro quarto da casa, que era onde ela iria dormir, falaram sobre o que comer.
- Podíamos ir jantar fora! – sugeriu ele.
- Mas não todos os dias! Eu posso fazer refeições mais ligeiras algumas vezes – corrigiu ela.
Nessa noite foram comer qualquer coisa a um café perto da habitação de Mário.
Regressados a casa, a jovem começou a ver o que havia e faltava na dispensa e fez uma lista das necessidades. Depois fez uma vistoria ao apartamento para o conhecer bem e saber como se movimentar.
- Amanhã é preciso comprar os produtos que coloquei nesta lista. Concorda? – e deu-a a Mário para este verificar.
- É precisa tanta coisa? Realmente uma mulher faz muita falta! – comentou ele.
- E devo dizer-lhe que a limpeza da casa deixa muito a desejar. E as roupas para lavar e brunir já fazem dois montes bastante razoáveis. A sua empregada quantas vezes é que vem? – quis a Fernanda saber.
- Vem duas horas todas as manhãs.
- Acho que é tempo suficiente para ter as coisas mais apuradas. Talvez precise de mais três ou quatro horas por semana para passar a roupa a ferro – palpitou a irmã de Teresa.
- Agora vou ficar com isto mesmo bem organizado! – disse ele com um ar satisfeito.
E continuou:
- Olhe Fernanda! Gostaria que deixasse de me chamar de Sr. Engenheiro e passasse a tratar-me só por Mário. E também nos podíamos tratar por tu. Que achas?
- Acho bem! Mas no escritório mantemos os tratamentos como até agora...Mário.
- De acordo!
- Vamos dormir? – sugeriu ela.
- Pois sim! Vou para o meu quarto para me despir.
- E eu vou ajudar-te! Não te preocupes com pudores excessivos pois eu já conheço a anatomia dos homens – disse ela, soltando uma risada.
De facto, Mário pôde constatar que sem a Fernanda estaria em maus lençóis e foi isso mesmo que lhe disse quando, já na cama, ela ía sair para o outro quarto.
Finalmente, pediu-lhe um beijo de boa noite.
- Um beijo, Mário? Com certeza! Mas na face, claro!
O homem, já bastante aquecido, respirou fundo e condescendeu:
- Seja feita a tua vontade...
Na cama, a Fernanda falou com o travesseiro:
- Meu querido Mário! Vais ficar doido por mim mas não é com o meu corpo nem com sexo que te vou conquistar. Será com a minha inteligência e com as minhas qualidades como pessoa.