Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

A minha fotografia
Nome:
Localização: Maia, Porto, Portugal

sábado, julho 30, 2005

Um filme em Zurich

Nota prévia:
Este texto baseia-se em mais um episódio da minha viagem de curso.
É o quarto desta série.
Antes, coloquei em exibição:
“A viagem de curso” em 13 MAI 05
“As putas de Amsterdam” em 20 MAI 05
“Em Paris” em 11 JUN 05


Vindo de Genève, o autocarro com os felizardos finalistas chegou a Zurich ao fim da tarde do dia dezasseis de Março de 1972.
Fomos largados à porta do Hotel Rothus que, pudemos constatar, era o mais fraco e baratucho de todos aqueles onde pernoitamos. Por isso, também foi o único em que estava incluído o jantar. Foi a compensação feita pela agência de viagens que tratou dos alojamentos (com excepção dos da Alemanha): a Wagons-Lit Cook que, aliás, foi sempre impecável.
Ficava na zona velha da cidade mas, como já era quasi noite e nele tomaríamos a refeição, acabamos por não conhecer nada da cidade.
Aquando da habitual azáfama de retirar as malas da viatura, distribuir os quartos e neles fazer a arrumação mínima, reparamos que mesmo em frente havia um cinema que tinha em exibição um filme que, quer pelo título quer pelos cartazes, parecia ser um filme erótico.

Aqui vou recordar mais uma vez que estávamos em 1972. A política salazarista de censura no cinema era bem forte. Quantos filmes não eram pura e simplesmente proibidos? E quantos não eram truncados, muitas vezes de tal modo que o próprio enredo se tornava incompreensível? Muitos, seguramente.
Não posso deixar de vos contar uma das mais caricatas manifestações desse puritanismo saloio que vi no cinema.
Estava a presenciar um filme com a então vedeta Brigitte Bardot e, num plano em que a actriz apareceria filmada nua da cinta para cima, de frente, exibindo os seus ainda bonitos seios, de repente a metade inferior do écran aparece toda negra, só deixando ver dos ombros para cima a bela francesa.
Aliás, mostrar seios era completamente interdito nas salas de espectáculos.
Quando em vinte e oito de Setembro de 1968 Marcelo Caetano (padrinho do conhecido Marcelo Rebelo de Sousa, a quem deu o nome próprio) assumiu a presidência do Conselho de Ministros, os aspectos relativos à censura foram progressivamente reduzidos, sobretudo no que diz respeito a livros. Mas também no cinema.
Recordo aqui o primeiro filme visto em Portugal em que seios femininos eram mostrados num plano muito semelhante ao que atrás referi para a Bardot. Eu, que na altura era um frequentador mais do que assíduo das salas de cinema, fui ver a estreia de “La piscine”, um policial francês bem ao meu gosto, realizado em 1968 por Jacques Déray e interpretado por Alain Delon, Maurice Ronet, Romy Schneider e Jane Birkin.
Penso que estaríamos em 1969. Talvez 1970.
Mesmo no final da segunda parte (e recordo que havia uma primeira preenchida normalmente com desenhos animados, um jornal de actualidades, e traillers dos próximos filmes a exibir, e depois mais duas com o filme de fundo) surge o tal plano em que, pela primeira vez, vi umas mamas no cinema (as da actriz austríaca e que, por sinal, e para decepção da maioria dos espectadores à soirée que eram homens, já estavam bastante descaídas).
Logo a seguir foi o intervalo (o segundo) e não pude deixar de notar no rosto dos que vieram cá fora fumar um cigarrito e fazer um xixi uma cara diferente da habitual. E o silêncio também era bem maior que o costumeiro. Ao fim e ao cabo, acabávamos de ver um facto histórico. E os seios da Romy assim se tornaram um ícone do cinema no nosso país.
Mas filmes eróticos e pornográficos, nem pensar em vê-los. Isso ficaria para depois da revolução.

Voltemos a Zurich.
Acabado o repasto, muito de nós, rapazes e raparigas, resolvemos ir ver o tal filmezito.
E digo assim porque, de facto, era uma comédia brejeira com actos sexuais visivelmente simulados, uma linguagem desbragada (foi o que me disse no final um emigrante português que lá estava, pois eu de alemão não sei mais do que contar até dez) e uns nus femininos e masculinos. O certo é que muitas das nossas colegas não resistiram a dar uns gritinhos semi-histéricos. Mas, para todos os efeitos, foi o primeiro filme “despudorado” que vimos, pelo que não pode deixar de ser referido como um ponto importante da nossa saga através da Europa democrática e sem censura.
No final, alguns dos moços estivemos a ouvir o tal emigrante português, que era porteiro no edifício da ONU em Genève, a contar-nos histórias para adultos sobre a sua experiência na Suiça. Coisas um pouco fantasiadas, penso, mas que não deixavam de nos fazer abrir a boca de espanto, algumas vezes.
Só quem viveu os tempos da ditadura pode avaliar bem o que tudo isto poderia representar para nós.
E no dia seguinte bem cedo, como de costume, abalamos rumo a Innsbruck, na Áustria, onde passamos dois dias e duas noites estupendos, nomeadamente nas pistas de neve onde quasi todos nós andamos de “sku” pela primeira vez.

terça-feira, julho 26, 2005

Uma turma difícil

Tendo regressado da comissão de serviço no Ultramar (como se dizia na altura) em Outubro de 1975, e tendo terminado um mês depois o serviço militar obrigatório, vi-me com um “canudo” debaixo do braço mas sem emprego.
A situação era particularmente delicada pois estávamos no auge do gonçalvismo (que esteve em vias de provocar uma guerra civil em Portugal) e, consequentemente, as empresas fechavam às catadupas, muitos empresários fugiam para o estrangeiro e a oferta de emprego baixava.
Acresce que a procura aumentou imenso. Quer devido aos imensos militares que estavam na tropa e que, de repente, vieram engrossar as hostes de desempregados, quer devido aos incontáveis “retornados” das nossas colónias africanas.
Foi neste quadro que, três anos após ter concluído os meus estudos, estava a viver com os meus pais. É certo que tinha um bom pé-de-meia trazido da Marinha mas, com a inflação na casa dos vinte por cento, esse dinheiro desvalorizava rapidamente.
Lembro-me de quando nós, os desempregados, nos encontrávamos na baixa portuense e perguntávamos:
- Ó pá! O que é que fazes?
A resposta era, invariavelmente:
- Nada! Compro tudo feito!
Ou de uma anedota que circulava na época:
“Um jovem engenheiro sem emprego, foi oferecer os seus préstimos a um circo. O dono deste disse-lhe que só tinha uma vaga. A de funâmbulo e teria de caminhar no arame sobre uma arena com leões. O nosso jovem, valente, aceitou o desafio a troco de um pequeno salário, Mas, como não era propriamente um expert nessa actividade, logo no primeiro ensaio caiu na arena. Estarrecido, viu um dos leões aproximar-se mas, qual não é o seu espanto quando o animal lhe sussurra ao ouvido:
- Não te preocupes. Nós, os leões, também somos todos malta de engenharia!”.
Corri tudo a procurar onde ganhar dinheiro. Escrevi muitas dezenas de cartas.
Finalmente, talvez em Janeiro de 1976, arranjei umas aulas de Matemática num ano “zero” do Instituto Industrial, hoje o Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP). Mas sem qualquer vínculo.

Entretanto recebi uma comunicação do Ministério da Educação para me apresentar na Escola Industrial de Penafiel.
Era uma escola muito velhinha, que ficava no monte do Sameiro, bem perto do centro da cidade. Ao lado já estava em construção uma escola nova que seria inaugurada no ano lectivo seguinte.
Mudei logo. Tinha mais segurança de emprego. E, enquanto não aparecesse outra coisa, era trabalho. Embora nunca tivesse sido meu objectivo leccionar, era uma actividade que me dava algum prazer.
Isso aconteceu na altura das férias da Páscoa e fui substituir uma professora que dava Física ao antigo 6º ano do liceu ou equivalente (já não sei muito bem como estava organizado – ou desorganizado – o ensino na época, pelo que podem haver aqui algumas imprecisões) e que fora com o marido para o Canadá.
Daria também aulas a uns miúdos do 3º (ou 7º) ano.
Quando comecei a travar conhecimento com outros professores e lhes dizia que tinha ido substituir a Drª. Alice Pires, diziam-me invariavelmente:
- Então tens o 6º B! Estás lixado! Tem lá um grupo que é do piorio. Ninguém tem mão neles.
Comecei a ficar com algumas preocupações.
Mas quando falei com a professora de Matemática dessa turma e a vi quasi a chorar por não conseguir controlar a rapaziada, reparei no ar choninhas e absolutamente despido de autoridade que ela tinha e pensei:
- A esta até eu tinha vontade de dar tanga.
As primeiras aulas a essa turma decorreram com toda a normalidade. E refiro-me às primeiras duas ou três semanas. Não compreendia a razão de tanto alarmismo. Havia mesmo um grupo de alunos aplicados e interessados em aprender.
Uma vez, em conversa com uma professora que dava aulas de Química, a Conceição Castro, e falando sobre as minhas impressões acerca dessa turma, disse-me ela:
- Olha! Se os professores se souberem impor não há problemas.
Concordei.
Até que, numa aula teórica (não havia aulas práticas) das onze ao meio-dia, a ser dada no laboratório de Física, estava eu a escrever no quadro quando começo a ouvir um tic-tac esquisito. Voltei-me e vi o ar de riso da malta. Caminhei em direcção ao ponto donde vinha o som e deparo com um metrónomo (um daqueles aparelhos que servem para marcar o compasso da música), dentro de um armário com material para experiências, a funcionar.
Desliguei-o e disse com um tom autoritário:
- Quem ligou isto tem a dignidade de se acusar?
Claro que ninguém o fez. Após uma pausa, concluí:
- Espero que isto não volte a acontecer.
E voltei para o quadro continuando a exposição da matéria. Quando estava de novo virado para o quadro: Tic-tac…tic-tac…tic-tac…
Comecei a ferver.
Fui outra vez desligar o aparelho mas, desta vez, dirigi-me a um grupo de discentes (dos mais atrevidotes) que estava sentado junto do armário:
- Só pode ter sido um de vocês! Ninguém quer assumir o acto que praticou?
Silêncio….
Voltei para a secretária, olhei para os gajos e disse com um tom de voz mais alto que o costume:

- Meus senhores. Se isto voltar a acontecer eu dou a aula por terminada. Ouviram bem? E mais! Considero toda a matéria que deveria ter sido ensinada nesta aula como efectivamente leccionada. Entendidos?
- Sim, senhor doutor – responderam timidamente poucas vozes.
Passado um pouco eis-me, de novo, voltado para o quadro, e:
Tic-tac…tic-tac…tic-tac…
Fiz uma pausa. Poisei o giz. Assumi um ar austero e disse:
- A aula está terminada! Podem estudar a matéria até à página 112 pois é considerada como ensinada. Muito bom dia!
Arrumei as minhas coisas e saí.
Apercebi-me que havia alguma discórdia entre os alunos. Mas fui à minha vida.
Na aula seguinte tudo correu normalmente. E assim foi até ao fim do ano.
Sem querer, tinha aplicado o velho lema dos líderes:
“Dividir para reinar”.
De facto, os alunos interessados tinham-se imposto aos outros alegando que estavam ali para aprender e passar. Era rapaziada humilde e não se podiam dar ao luxo de andar a brincar. Senão iriam trabalhar mesmo sem terem completado os estudos.

Terminadas as aulas, uma tarde encontrei-me com um numeroso grupo de alunos daquela turma. Estavam a ver as notas. Cumprimentamo-nos como normalmente mas, um dos mais irreverentes, o Pinheiro, dirigiu-se a mim e disse-me:
- Tenho de lhe dar os parabéns, senhor doutor. Foi o único professor que conseguiu dominar a nossa turma.
Confesso que fiquei um bocado inchado. Mas fora assim mesmo!
Mais tarde uns colegas disseram-me que eu cometera uma ilegalidade e que, se fosse apresentada queixa contra mim, eu estaria tramado.
Só respondi:
- Então apresentem queixa e depois veremos!

Afinal, uma turma difícil nem sempre é assim tão difícil. Depende…

sexta-feira, julho 22, 2005

O anúncio

Nos finais de 1975, eu e mais dois amigos, após alguns agradáveis bate-papos em casa do Fernando, decidimos que todas as quartas feiras nos encontraríamos depois do jantar nesse mesmo local para uma sessão de conversa. Os quatro.
O Fernando, de que já falei num texto aqui publicado em dezasseis de Maio de 2005 com o título de “traz outro amigo também”, era o anfitrião natural pois já estava casado e tinha um filho, uma casa e uma boa sala com confortáveis sofás (além das bebidas, claro). Engenheiro Civil, professor de Vias de Comunicação, de inteligência e cultura superior, era casado com a Maria João que fora nossa colega e também era de Civil.
O Vítor também já aqui foi referido. Lembram-se do jovem industrial do ”Línguas traiçoeiras” colocado à vossa disposição em cinco de Junho deste ano? Licenciado em Engenharia Electrotécnica era o mais novo e o único que não fora nunca nosso colega nem no liceu nem na universidade. Havia sido vizinho do Nando e eram amigos há alguns anos. Eu também já o conhecia. O Duarte só se relacionou com ele na casa das reuniões. Tinha também uma inteligência e cultura bem acima da média.
Finalmente, o meu amigo Duarte, o mais velho, Engenheiro Mecânico, trabalhava na empresa do Vítor e dava aulas ao nível do secundário.
O dono da casa e o industrial eram (e são) politicamente mais direitistas.
Eu e o mais velho, mais para as esquerdas.
Não fora eu me recusar peremptoriamente a jogar às cartas, provavelmente aquilo ter-se ia convertido num casino. Mas tal nunca sucedeu. Foi sempre uma tertúlia onde se conversava e discutia, às vezes com algum calor, tudo e todos.
E as reuniões semanais continuaram. Às quartas-feiras à noite, como já disse. Em alguns anos o dia da semana mudava por força dos horários nocturnos do Duarte.
Esses encontros prolongaram-se durante mais de vinte anos.
Depois o Fernando divorciou-se e passamos a fazer uns jantares mensais (que geralmente são bimensais) que ainda perduram.

Nos primórdios de 1978, já não sei como nem por quem, foi posta a questão de colocar um anúncio no jornal. Um anúncio procurando uma rapariga para namoro. A ideia surgiu por brincadeira mas, piada daqui, piada dali, todos acabamos por achar que era uma boa ideia.
- Só vamos ter uma ou duas respostas, falou um.
- Ainda nos vai aparecer um travesti, palpitou outro.
- Vão aparecer mais respostas do que vocês pensam, disse eu.
- Ainda vai haver casório no fim, gozou o Fernando.
- Ó pá, tu és casado, não há problema? – inquiriu o sensato Duarte.
- Não! Isto é um brincadeira. E agora estou curioso de saber quantas respostas vamos ter – respondeu o anfitrião.
E passamos à acção.
A primeira coisa a fazer foi redigir o anúncio. Foi fácil.
Saiu uma coisa parecida com o que se segue:

Cavalheiro, solteiro, 30 anos e com formação
superior, procura menina ou senhora com um
máximo de 35 anos, para conhecimento mútuo
e futura relação de amizade. Guarda-se sigilo.
Resposta ao nº 123 deste jornal


Ficou combinado que o Vítor iria ao Jornal de Notícias entregar o anúncio para ser publicado no domingo. As despesas seriam divididas pelos quatro. As respostas chegariam ao JN durante a semana seguinte e na sexta-feira o nosso parceiro iria buscá-las. Quinze dias depois as cartas seriam abertas ali mesmo.
- E a tua mulher? – perguntei.
- Às quartas ela vem sempre mais tarde pelo que quando cá chegar já temos tudo visto – retorquiu o Nando.
Na quarta seguinte, a única novidade trazida pelo Vítor, para além de nos dizer que tinha cumprido o combinado e de ter apresentado a conta (que logo pagamos), foi dizer que:
- Os gajos do jornal não aceitaram a nossa redacção. Tive de acrescentar que era para casamento. Caso contrário o anúncio ia para a secção das “Massagens”.
- Isso é um bocado chato – disse o Duarte.
- Bom! Está feito, está feito. Acho que com esse detalhe vamos ter mais respostas – falei.
- Vítor! Não te esqueças de na sexta ir buscar as cartas, ok? – lembrou o Nando.
E chegamos à aguardada quarta feira.
Parecendo que o fazia de propósito, o nosso correio foi o último a chegar.
Entra na sala com as mãos atrás das costas, um sorriso mordaz e atira:
- Boa noite! São capazes de adivinhar quantas respostas recebemos?
- Vinte!
- Doze!
- Vinte e cinco – procurei eu adivinhar.
O sorriso do Vítor já era do tipo orelha a orelha.
- Sessenta e quatro!
E repetiu:
- Sessenta e quatro!
E atirou com uma caterva de cartas para cima da mesa.
- Foda-se! – dissemos em uníssono.
- Impressionante!
- E vamos ler isso tudo?
- Claro!
Segui-se a distribuição de tarefas:
- Vamos ver dezasseis cada um – sentenciou o Vítor.
- E seleccionamos as melhores – concluí eu com um sorriso malandro.
- De acordo! Ó Nando, arranja aí uma faca ou um canivete para ajudar a abrir – pediu o Duarte.
Eis que se ouve uma chave no trinco da porta do apartamento.
- É a minha mulher. Escondam isso!
Nem um minuto depois já a Maria João entrava para nos cumprimentar como fazia habitualmente.
Ainda hoje estou para perceber como, num ápice, as cartas desapareceram: debaixo de livros, de cinzeiros, de almofadas, de sofás, de carpetes, de rabos. O facto é que a patroa não deu por nada.
Pouco depois despediu-se com o habitual:
- Tenham uma boa noite. Fiquem à vontade.
Começamos o trabalho. Durante a sua execução alguém lia passagens de uma ou outra missiva. Normalmente dava para rir.
Às vezes mais apetecia chorar, tais os dramas que se conseguiam vislumbrar por trás de autênticos pedidos de ajuda. Até de emigrantes em França chegou resposta.
Acabamos seleccionando dezoito. Seis para cada um dos solteiros.
Cada um de nós contactaria as suas seis “namoradas”.
O Nando, exemplar chefe de família, não ficou com nenhuma. E disse mais:
- Acho que tirando as que vão ser contactadas, devemos dar resposta a todas as gajas que responderam. Acho que isto pode ser uma brincadeira para nós mas, para muitas delas, não o é certamente. E também temos de devolver as fotos às que as enviaram.
Concordamos.
Na quarta feira seguinte trataríamos das respostas. O anfitrião encarregar-se-ia da logística.

E que resultou dos contactos?
O Vítor, que andava com problemas na empresa, acabou por não contactar nenhuma.
O Duarte, se bem me lembro, só contactou uma. Simpatizou com a moça e começaram a sair juntos.
Eu contactei três:

A primeira, que tinha uma linda letra e uma carta escrita sem erros e perfumada, chamava-se Susana.
Telefonei-lhe para marcar um encontro.
Ficou para o domingo seguinte, à porta de casa dela, depois do almoço.
No dia aprazado, já em pulgas (estas coisas criam alguma adrenalina), meti-me no meu 127 branco e lá fui. Estacionei, toquei à campaínha e disse ao que ía.
Passados poucos minutos apareceu-me uma mulherzinha atarracada, meio anã, feia como um bode (acho que até tinha bigode), que recusou o meu convite para entrar na viatura. “Sem nos conhecermos bem não entro no carro”. Porra! Não teria espelhos em casa? Ou seria ceguinha? Enfim: teríamos que dar uma volta a pé. Claro que a minha vontade foi fugir a toda a velocidade. Mas os meus princípios de cavalheirismo obrigaram-me a ser educado. E, contrariado e olhando para todos os lados para ver se ninguém me topava, lá fui dar a passeata com a horrorosa Susana. Azar o meu. Passado pouco tempo passo por um carro onde estava o Manel e a família. Lá os cumprimentei com um uivo e a olhar de lado e segui caminho. Mas a minha companheira era também asmática. E ao fim de algumas centenas de metros ao caminhar soltava um autêntico assobio dos brônquios. Façam um pequeno esforço e imaginem eu a caminhar com um aborto sibilante. Nem me quero lembrar mais disso. O passeio acabou depressa. Despedimo-nos. E a coitada ainda me perguntou se queria sair no domingo seguinte. Disse que sim; que depois telefonava. Claro que esta conquista foi logo riscada da lista!

A segunda era uma mulher fisicamente bem interessante. Saímos algumas vezes, de carro, mas só falava de astrologia. Vinha carregada de livros para me provar que aquilo era tudo verdade. E para me adivinhar o futuro. Mas, de facto, os astros que eu queria ver era na cama, não eram aquelas idiotices de Marte e Vénus e conjunções e não sei que mais. Foi de vela em dois tempos.

À terceira, a Lúcia, telefonei-lhe e marcamos encontro para um domingo. Chovia copiosamente. Entrou para o meu estimado 127 (foi o primeiro carro novo que comprei, com dinheiro ganho por mim; ainda me lembro da matrícula – PS-16-53).
A Lúcia era uma bonita e elegantíssima mulher de 31 anos. Com uns lábios carnudos e uns dentes alinhados e alvíssimos. Cabelos negro azeviche, lisos e curtos. Pele branca de princesa. Olhos como tições, levemente amendoados e feitos com riscos de timidez. Não vou dizer muito mais. Tivemos um envolvimento que durou cerca de seis meses. Um ano depois eu casava com a minha actual mulher.
Mas, tenho de vos confessar, ela foi um caso lindo na minha vida.
Já estavam a perceber, não estavam?

Não vou entrar em mais pormenores.
Estabeleci a mim próprio limites para o que poderia escrever destas histórias verdadeiras. E nesta cheguei ao limite. Embora não tenha chegado ao fim.

terça-feira, julho 19, 2005

Sonhos e realidade

Lembro-me de ter ouvido o meu professor de Filosofia do antigo sexto ano dos liceus, o Dr. Castanho Fortes, nas aulas de Psicologia dizer:
“Todas as noites, enquanto dormimos, nós sonhamos. Mas, passados ao estado de vigília, muito poucas vezes nos recordamos do que ocorreu nesse complexo processo de erupção do subconsciente e mesmo do inconsciente”.
Não sei se as teorias de então ainda são as de agora. Provavelmente não. Mas não é essa discussão científica que quero suscitar, embora quem se quiser pronunciar sobre ela o possa fazer. É até bom que o faça para aprendermos mais alguma coisa.

Vou, em vez disso, e para que este seja um texto levezinho, contar-vos um sonho que tive e que se confundiu com a realidade.
Penso que teria uns vinte e tal anos. Já tinha acabado o curso e a nota mais baixa que tivera fora um dez (só um, vejam como era um rapazinho aplicado e dotado) a Física Geral, depois de uma oral em que o Prof. Pires de Carvalho, que também já mora na outra banda, no seu estilo sibilino, me deu um baile. Mas passou-me!
Uma manhã, acordei lembrando-me perfeitamente do sonho que tivera. Coisa rara, aliás. Durante o sono, tinha recebido uma notificação da secretaria da Universidade a informar-me que não me podiam passar a certidão de curso pois ainda tinha de fazer uma cadeira em falta: a Física Geral. Não dei nenhuma importância ao assunto.
Mas a impressão fora tão forte que, durante todo o dia, a ideia de que, na realidade, tinha chumbado a essa disciplina e tinha de a repetir, anos depois de a julgar morta e enterrada, atormentou-me.
Quando regressei a casa, e sem mais delongas, fui procurar a certidão: e ela lá estava.
Que alívio!

Mas, desta mistura de sonho e realidade, tenho outro exemplo pessoal.
Hesitei em escrevê-lo aqui mas, como tenho uma lata do caraças, cá vai:
Uma noite sonhei que estava na rua, conversando com uma linda moçoila, já a noite tinha tombado.
Eis que surge do negrume um salteador, rosto escondido pela escuridão. Um candeeiro de iluminação pública era a única e ténue fonte de luz. E eu, fazendo alarde de uma capacidade que, na realidade, não possuo, quando o crápula se aproximou o suficiente, saltei na sua direcção e dei-lhe um murro. Mas o facínora reagiu e seguiu-se uma luta corpo a corpo em que a vantagem ia alternando em favor de um ou outro dos contendores. E a luta durou, e durou...
Eis que, a certa altura, senti uma enorme vontade de urinar e disse ao meu adversário.
- Alto! Vamos fazer uma trégua pois tenho que mijar.
O outro anuiu. Dirigi-me ao lampião e comecei a aliviar a forte pressão que sentia na bexiga. Como sabe tão bem um relaxe deste género!...
Acordei nesse momento.
Senti uma quente humidade nas calças do pijama.
Pois. Foi isso mesmo. Tinha-me mijado a sério.
Nunca um sonho húmido foi tão hilariante.

Casos destes já aconteceram com alguns de vós, certamente.
Mas alguém consegue contá-lo aqui?

domingo, julho 17, 2005

Cena de caça no Bambangando

Vem esta narrativa na sequência de outras duas que já estão colocadas neste blog:
“Sobrevoando a savana” e “O cortador de carnes verdes”, postadas respectivamente ao primeiro e ao décimo oitavo dias do mês de Junho deste ano de 2005.
A acção decorre nessa terra do fim do mundo, o Rivungo, onde eu era o comandante do Destacamento de Marinha do Cuando, composto por mais doze marinheiros de água doce que, bem longe do mar, navegavam no estertor da guerra colonial, nos finais de 1974.
A minha ida para lá fora motivada pelo mês de férias do comandante efectivo. Quando pedi para me dizerem quando regressava ao seu lugar o meu colega, o Comando Naval de Angola respondeu-me que já não ia. E que eu podia desactivar a unidade e ir embora com o pessoal e o material que fosse transportável por camião sobre picada. Devido a várias vicissitudes, ainda lá fiquei outro mês.
E mesmo este pequeno período de oito semanas foi suficiente para ficar meio apanhado da mona.

Como já anteriormente referi, a comida que recebíamos semanalmente só chegava para alimentar aqueles jovens esfomeados durante quatro dias. Para suprir as carências para o resto da semana, ia-se caçar.
Para transporte usava-se um dos jipes, na parte mais recuada do qual foi soldada uma estrutura em ferro, mais elevada, configurando um banco de três lugares devidamente almofadados para proteger os rabinhos.
Como arma, as metralhadoras G3.
Havia dois homens que eram habituais nas caçadas: O cabo José Castro e o artilheiro João Correia. O primeiro como condutor da viatura e o segundo como atirador.
Este era o homem mais antigo no Destacamento. Marinheiro de artilharia, estatura média, magro, loiro, fumador inveterado e com os dentes estragados apesar da sua juventude, depois de dois anos de comissão no Rivungo, pediu para lá continuar, pelo que já ia no terceiro ou quarto. Era o mais respeitado pelos outros, depois dos graduados. Estava sempre a trabalhar e era pau para toda a colher. Vivia numa cubata com a indígena mais rica da localidade, pois o pai era o dono da única loja existente. Vendia de tudo. Um verdadeiro supermercado, à escala da terrinha, claro. E a filha era a negra mais bem vestida das redondezas pois o papá lhe facultava os melhores e mais berrantes panos para confeccionar a roupa. O Correia tinha-lhe verdadeiro amor. Era o único que cumpria horário, pois fora das horas de serviço ia para sua casa e dedicava-se inteiramente à mulher e, entre outras coisas, ensinava-a a ler, escrever e contar. Tinha o comportamento de um verdadeiro marido e chefe de família embora não tivessem filhos. E, quando retiramos definitivamente aquelas paragens, foi pungente vê-los a chorar que nem crianças pois ambos sabiam que nunca mais se encontrariam. Amor lindo!
Além dos dois, normalmente iam mais três homens para as caçadas semanais que eram em locais relativamente perto e demoravam pouco tempo graças à pontaria do Correia.
Apanhavam caça ligeira, normalmente coelhos, ao início da noite, usando a técnica do encandeamento dos animais por um potente holofote. Chamavam-lhe farolinar. E bicho parado era bicho morto.
De vez em quando, fazia-se uma caçada mais longe para apanhar caça mais grossa.
Foi precisamente para eu poder tomar parte numa dessas caçadas, que se combinou para determinado dia uma ida à zona de Bambangando (o nome foi-me transmitido oralmente, nunca o vi escrito pelo que, se não for exactamente assim, espero ser perdoado).
Além de mim, do cabo Zé, e do João, iria o Nunes, grumete de tronco largo e musculado, barba rara e um bigodinho ridículo, que trabalhava bastante na confecção dos alimentos e tomava conta da bicharada doméstica do destacamento. Incluía um pequeno jacaré, cães, um macaquinho e umas cobritas.
Como a zona para onde íamos era afastada o suficiente para nos perdermos (mas nela havia abundância de animais de carne saborosa), ia connosco um nativo para servir de guia. Também levávamos machados para dar início à amanha.
E assim, bem cedo, numa manhã soalheira de finais de Outubro (não esqueçam que o Rivungo fica no hemisfério sul), estávamos prontos para uma aventura completamente inédita para mim.
Quando perguntei se o material de comunicações estava na viatura, disseram-me que não costumavam levar:
- Mas isso muda já hoje! – disse eu, e ordenei ao homem das comunicações, o Neto, que preparasse um transmissor-receptor para ir connosco. E também combinei com ele que de duas em duas horas nós comunicaríamos em determinada frequência. Se não recebesse nada, deveria tentar contactar-nos.
O lanche não tinha, naturalmente, sido esquecido. E muito menos a água. Íamos para uma zona mais afastada do rio e, portanto, mais quente. A savana pura!
Toda a malta do destacamento se veio despedir de nós. Fiz duas ou três recomendações ao sargento Gomes que assumia, interinamente, o comando da unidade.
E lá partimos à aventura.
Tudo corria bem. Eu estava entusiasmado e ia tirando umas fotos. Parámos ainda em duas pequenas povoações para descansar os cuzinhos dos solavancos. A certa altura, já o sol ia alto (acho que os relógios marcavam entre as dez e as dez e meia), o Correia diz:
- Sr. Zé, pare o jipe e o motor!
E logo após os meus tímpanos vibraram com um tiro e, alguns segundos depois, com outro.
- Acho que matei um javali! – disse o João.
O cabo arrancou e fomos na direcção indicada pelo atirador.
- Está ali! – disse o Nunes.
E estava, de facto, um animal caído. Ainda mexia. O guia pegou num machado e deu-lhe o golpe de misericórdia.
- Lá vou eu comer carninha de javali! – falei para os meus botões.
Após algum tempo de descanso sob umas árvores, pois o calor já era fortíssimo, arrancamos para tentar apanhar mais uma peça.
Diga-se que, nestas caçadas maiores, distribuíamos parte da colheita por alguns (no total eram muito poucos) brancos de outros aldeamentos que os meus homens conheciam. E, chegados ao Rivungo, também vários eram os contemplados. Mas a recíproca também era verdadeira.
Com o jeep novamente a galgar terreno sob um sol cada vez mais forte, nova situação de tiro se propiciou mas, desta vez, falhamos.
No entanto, pouco depois, um disparo certeiro do artilheiro atingiu um caixote. Foi naquelas paragens que ouvi falar pela primeira vez naquele nome. Depois de morto e de o observar, pareceu-me uma espécie de antílope, mais corpulento.
E ainda caçamos um segundo javali.
- Vamos apanhar mais um e depois regressamos – disse o cabo Zé.
Seria perto da uma hora. Sol a pique, novo caixote à vista correndo veloz, pé a fundo no acelerador, um grande solavanco, um estrondo, um jipe parado, um motor fumegante.
O bloco estava partido. Não poderíamos sair dali sem ajuda de outros.
- Vamos puxar o carro para aquela zona com árvores. Aqui não aguentamos o sol e o calor – disse o cabo.
- Depois comunicamos com o Neto. A próxima hora prevista é às duas. Mas pode ser que ele esteja por perto e nos escute – disse eu.
E todos em cuecas ou calção de banho puxamos, com uma forte corda que fazia parte da carga habitual, o jipe para uma zona de sombra. Foram pouco menos de duzentos metros.
Reparámos, então, que no meio da vegetação havia uma grande chana. Também foi lá que ouvi pela primeira vez falar nesta palavra. É um charco, maior ou menor, de águas quasi estagnadas, onde os animais vão beber.
Mas estávamos a coberto dos raios solares. E isso era muito importante.
Ainda antes de comer a merenda, contactamos o Destacamento. Ninguém respondeu. Deviam estar a almoçar.
Começamos a refeição mas, quando eram duas horas, ouvi a voz do nosso telegrafista depois de o ter chamado.
Contamos o que tinha acontecido, o local onde estávamos (o guia foi precioso para esta informação) e demos indicações sobre quem deveria ser contactado para nos vir buscar. Era um dos brancos que vivia numa das terrinhas por onde passáramos e que tinha um camião.
E fomos esperando.
Duas, três, quatro, cinco horas da tarde.
A água acabou. A sede era imensa. Só havia uma solução: beber daquela água da chana, apesar de estar cheia de bichinhos lá dentro e uns mosquitos enormes caminhando sobre ela.
- O que não mata, engorda! – sentenciei.
E enchemos os jerricans filtrando a água com um lenço. Até hoje não tive qualquer problema por ter bebido daquele líquido certamente inquinado. Os organismos mais jovens tem boas defesas mas, apesar de tudo, tivemos sorte.
E a espera continuou.
Seis, sete, oito, nove horas. Noite.
Os contactos com o Neto foram frequentes.
Já perto das dez, iluminados por uma fogueira que além de clarear poderia servir para afugentar algum animal menos desejado, ouvimos o ruído de um motor. Pouco depois vimos a luz de faróis. Finalmente salvos!
O jipe foi carregado para cima do camião e após algum tempo de viagem chegamos ao primeiro dos povoados.
Saciamo-nos com água fresquinha. E cerveja.
Entretanto, alguém notou que os animais mortos já estavam a deitar mau cheiro. Como ainda faltava algum tempo para chegarmos ao destino, decidimos deixá-los ali mesmo para depois serem enterrados. Lá se foi o resultado da grande caçada. E a carninha de javali.
Chegados ao Rivungo e feitas as despedidas dos nossos salvadores, contamos a aventura rapidamente. A fadiga era muita. Fomos tomar banho e dormir.
No dia seguinte, a narrativa foi calmamente detalhada.
E disse ao Neto:
- Ora vês a importância de se ter um meio de comunicar e saber quando ele pode fazer falta?
- Tem razão, Sr. Tenente – anuiu, abanando simultaneamente a cabeça em sinal de aprovação.
O Neto era um tipo baixote, cabelo grande e muito encaracolado, um patusco bigodinho. Era considerado meio tolo pelos outros. Mas era bom como técnico de comunicações.
Um dia, mais tarde, fui encontrá-lo na sua minúscula cabine aninhado, calções em baixo, e o pirilau metido dentro de uma tigela com um líquido aquoso.
- Que se passa, pá? – perguntei.
Embaraçado, confessou-me que ele e o Xana, um dos grumetes mais mandriões do grupo, e que era fumador de liamba,segundo me disseram, depois de tanto ouvirem dizer que se fossem circuncisados teriam muito mais prazer nas relações sexuais, haviam recorrido ao serviço de um dos dois enfermeiros negros e beberrões da povoação que, com uma lâmina de barbear, lhes tinha cortado o prepúcio.
Resultado: uma infecção em cada um deles e cura demorada, pois a medicação existente não era a mais adequada.
Daí o demolhar do membro viril (que, naquela fase, não o devia ser muito) numa solução de borato de sódio.

De facto, muitas vezes aquilo parecia mais um manicómio que um quartel militar (mesmo em miniatura).
Mas, a mais interessante, enriquecedora e louca experiência ainda estava para acontecer.
Um dia virá aqui poisar. Até já tem título:
“Diplomacia no Rivungo”

quarta-feira, julho 13, 2005

Em Las Palmas

Tendo terminado os meus estudos em Outubro de 1972, tinha por objectivo prioritário cumprir o serviço militar para depois encetar uma actividade profissional.
Estava a fazer o estágio obrigatório de três meses (e ao mesmo tempo a tentar ganhar umas coroas vendendo uns apartamentos do Algarve - como não vendi nenhum, não ganhei nada -),
quando fui informado de que estavam a iniciar-se os exames do concurso para oficiais da Reserva Naval, que era o curso de oficiais milicianos da Armada.
Sabia que era uma das melhores maneiras de fazer a tropa. Éramos alojados na Escola Naval, no Alfeite (juntamente com os cadetes que durante quatro anos faziam a preparação para uma carreira na Marinha de Guerra), e tratados como gente fina. Empregadas para fazer as camas e arrumar os quartos, refeições magníficas com dois pratos, ao almoço de quinta-feira havia direito a um cálice de Porto e a um bolo. Enfim, tudo do bom e do melhor!
Pelo que estou a dizer, já adivinharam que de facto, em Fevereiro, mesmo à justa com o fim do tal estágio, fui para a conhecida Escola sita na margem esquerda do Tejo para cumprir seis meses de formação.
Ainda passei um mês em Vila Franca de Xira, no Grupo 1 de Escolas da Armada. Aí não tínhamos alojamento suficiente e com o mínimo de qualidade e resolvi alugar um quartinho cá fora. Pago pelo papá, pois claro!
No fim desse meio ano (de bastante estudo, diga-se de passagem), iniciamos uma viagem de instrução, que durou cerca de três semanas, na fragata Roberto Ivens. Éramos quarenta cadetes.
A viagem decorreu em Agosto e a primeira etapa foi uma ida à bela Ilha de S. Miguel, nos Açores.
Depois fomos até Mindelo, na ilha de S. Vicente, em Cabo Verde.
E regressamos por Las Palmas, na Gran Canaria.

Vou ater-me ao que se passou em Las Palmas.
Atracamos ao fim da tarde. A previsão era ficarmos ali duas noites e um dia.
Logo que tivemos autorização fomos para terra. Todos com a alva farda de Verão (a de Inverno é azul-marinho e muito mais bonita; com a outra parecemos uns sorveteiros), saímos como se fossemos um bando de pombos e depois fomo-nos dividindo progressivamente em grupos cada vez menores.
Acabei por ficar só com o Ferreira. Este colega era ainda mais pequenino e mais feio do que eu. E caminhava meio encurvado.
Comemos qualquer coisa e depois demos umas voltas pelas animadas ruas desta cidade que, como é sabido, vive do turismo. Mas o facto de andar vestido segundo os cânones militares era bastante inibidor.
Não sendo oficiais de carreira, aquilo era, para nós, um fardo, bem mais que uma farda.
A certa altura vimos que, num dos muitos bares e casas de diversão nocturnas que por lá havia, entrava um grupo de quatro raparigas muito bonitas e jeitosas.
- Ora vamos lá entrar aqui para ver o ambiente. Mas cheira-me que é coisa boa! – disse o habitual promotor destas visitas nocturnas, ou seja, eu.
Entramos. A luminosidade era tão escassa que durante muitos segundos estivemos a aguardar que os olhos se habituassem ao escuro. Um elegante e altíssimo empregado veio ter connosco e convidou-nos a sentar numa poltrona com uma mesa junto. Pedimos uma cerveja cada um. Bem fresca.
Conforme íamos vendo melhor todo o requintado ambiente, mais a nossa curiosidade ia sendo desperta. As mesas ocupadas, não muitas, eram-no por mulheres. Umas mais novas, outras já quarentonas avançadas. Esquisito. Não havia homens como clientes. Entretanto foram entrando também alguns sujeitos, vestidos de fato de corte impecável, altos e magros, verdadeiros modelos ou galãs de Hollywood. Ficavam em pé mas, de quando em quando, um ou outro ia para as mesas das clientes.
De repente, um deles sai com uma das veraneantes. Pouco depois outro sai com duas.
Bom! Aquilo era uma casa de ataque invertida. Um refinado prostíbulo para damas.
Estava bem claro, no nosso espírito, que tínhamos entrado no local errado.
Mas…e se tentássemos a nossa sorte?
Pois logo entra um grupo de cinco ou seis clientes que, por mero acaso, se sentaram muito perto de nós. Passados alguns minutos, começamos a meter conversa. Mas não tínhamos outra resposta que uma olhadela para a nossa triste figura. E depois vinham os gigolos e as meninas eram só sorrisos.
Pouco depois viemos embora. A ferida no orgulho de machos latinos era tão profunda que fomos para o navio dormir.
Decididamente, não nasci para prostituto!

No dia seguinte, acordei bem cedo.
Feita a higiene habitual, peguei num saco e fui sozinho para a praia. Pouco passava das oito da manhã. O areal, enorme, estava deserto. Pude olhar para a ilha e constatar que era de uma aridez confrangedora. Tudo aquilo é artificial. Beleza natural – zero!
Estendi-me e rapidamente adormeci (devia estar ainda em convalescença da profunda ferida sofrida na noite anterior).
Quando acordei, seriam umas onze horas, só via pessoas à minha volta. Areia, mais nenhuma para além da que estava junto a mim. Vesti-me (desta vez uma roupinha normal que tinha trazido no saco de praia) e só com muita perícia vim para a marginal sem ter pisado ninguém.
Deambulei pelas ruas até encontrar um grupo de camaradas. Alguns também vinham vestidos normalmente. Atrelei-me a eles.
Almoçamos e depois fomos fazer umas compras.
Numa das lojas, uma boutique, uma senhora de fino porte, fez questão de nos apresentar a sua filha Juanita, pois ela gostava muito de marinheiros, tendo alguns de nós cumprimentado a jovem com um beijinho (e eu fui um deles). Só que, de perto, podia verificar-se que a donzela tinha barba e, quando proferiu umas amistosas palavras, a voz era bem mais grave do que se poderia esperar. Era um travesti! Confesso que lamentei a mãe, que tinha de fazer um papel que, certamente, lhe seria penoso. Mas filho é filho, não é?

E nada mais digno de registo, pelo menos que eu me lembre, se passou.
As ocorrências não tinham sido das mais agradáveis.
Foi regressar a bordo, retomar a vida normal, dormir e, na manhã seguinte, rumar às Ilhas Selvagens onde um pequeno grupo de tripulantes foi até aos rochedos em missão de soberania. Parece ser um protocolo a cumprir para manter aquele pequeníssimo território, desabitado, como património português.
E depois regressar ao Alfeite para iniciar umas merecidas férias. Sim, férias! Porque isto de andar no mar alto, com o navio sempre a baloiçar, ora levanta a proa ora a popa, ora inclina para estibordo ora para bombordo, é cansativo. Juro!
Mas também é porreiro!

sábado, julho 09, 2005

Lutador anti-fascista

Ano de 1969.
A crise académica desencadeou-se em Coimbra aquando da visita do então Presidente da República Américo Thomaz.
Na sessão de inauguração de um novo edifício, salvo erro ligado às Matemáticas (mas haverá muita gente que conhece muito melhor esta peripécia do que eu e pode corrigir-me), o presidente da Associação Académica e actual deputado Alberto Martins pretendeu usar da palavra como representante dos estudantes. Tal foi-lhe negado.
Quando os participantes na cerimónia saíram para o exterior, um muito numeroso grupo de estudantes insultou o Thomaz (chamando-lhe, em bem sonoro e afinado coro, de palhaço) e outras altas individualidades como o então ministro da Educação, o bem conhecido Hermano José Saraiva.
Daí para a frente, foi um processo tumultuoso que teve o seu zénite na greve aos exames da Academia coimbrã.
Mas o movimento alastrou a Lisboa e ao Porto que eram, ao tempo, as únicas cidades com ensino superior (se já havia em Évora, peço desculpa, mas teria ainda muito pouca gente).

No Porto, eu frequentava o 3º ano, que era também o último dos chamados preparatórios e que eram leccionados na Faculdade de Ciências. Só depois faria os dois últimos anos, na Faculdade de Engenharia, à rua dos Bragas.
E, embora longe do vigor contestatário da cidade do Mondego, foram-se fazendo uns comícios (só depois da revolução é que percebi que o Partido Comunista, e não só, já estavam por trás das movimentações).
Estes realizavam-se sobretudo no átrio interior da entrada da Faculdade de Ciências.
A frontaria do vetusto e bonito edifício estava (e ainda está) voltada para o largo dos Leões (oficialmente é a praça de Gomes Teixeira), com o seu grupo escultórico no meio do lago e os tapetes de relva bem verdinha.
Entrando pela larga porta de ferro e vidro, podíamos ver o átrio e, ao fundo, duas escadarias largas, em pedra, que conduziam ao andar superior. Entre ambas existia um espaço ocupado por uma secretária.
Pouco visíveis da entrada e muito perto das escadas, nasciam lateralmente dois corredores mal iluminados que davam para a zona da Química, um deles, e para a da Mineralogia e Geologia, o outro.
Pois era nessas escadarias que, quasi todos os dias, havia uns quantos colegas mais activos politicamente que faziam as suas intervenções oratórias de mal dizer do regime, do governo, da guerra colonial, da falta de liberdade e democracia e de tantas coisas a que o salazarismo-marcelismo fornecia múltiplos argumentos.
E o maralhal quando lá passava ficava a ouvir durante algum tempo, aplaudindo as passagens mais empolgantes. E depois ia à vidinha.
Mas não eram só os anti-fascistas quem tinha voz.
O Zé Gordo, um tipo anafado de óculos verdes, graduado da Mocidade Portuguesa e defensor assumido e convicto do regime, também falava para uma plateia onde tinha alguns (poucos) apaniguados e muitos mais mirones. Quando era aplaudido pelos colegas situacionistas, logo os apupos se ouviam bem mais alto e, alguns democratas ainda pouco esclarecidos, mandavam-no calar ou ir para a rua.
Confesso que admirava a coragem do sujeito.

E chegamos ao dia D.
Melhor, dia P, pois estava convocado um plenário para discutir qualquer coisa que já não sei o que era.
O átrio estava prenhe de malta. Rapazes e raparigas. Nas escadas de pedra os activistas da luta anti-fascista, agora já reconhecidos por todos.
Eu estava mais ou menos a meio com o meu colega e amigo Fernando.
A sessão começou às três da tarde.
Discursos, aplausos, apupos quando se falava no Marcelo, no Thomaz ou no regime e, a certa altura, ouviu-se uma voz a dizer.
- A polícia de choque chegou!
- Ninguém arreda pé! – disse um dos líderes.

E o plenário continuou como se o alerta não tivesse sido ouvido.
Sinceramente, não me pareceu que houvesse alguma intervenção policial, pois tudo decorria com bastante calma.
Pelo sim pelo não, fui magicando na táctica a seguir.
Sair dali era uma vergonha. E eu também era do reviralho, que diabo. E não era nenhum cobardola. Havia que enfrentar a situação de frente mas com inteligência.
E que decidi fazer?
Partindo do princípio que os agentes não eram muito dotados intelectualmente e que, pensava eu, batiam no que mexia, o melhor seria estar quieto. Melhor ainda: poderia dar-me uns ares de informador da PIDE, fazendo uma cara de quem está a apreciar o comportamento de uns e outros, E olhar sempre os monos nos olhos.
Passados uns bons dez minutos, e vindos dos dois corredores que atrás referi, irrompem a correr pelo átrio dentro uma boa quantidade de agentes, com cassetetes no ar e capacetes na cabeça. Ainda não se usavam os escudos de plástico transparente.
O pânico é geral. As meninas, como é habitual nestas coisas, começaram com os gritos mais ou menos histéricos.

Como não entrara polícia pela porta principal, foi por ela que os estudantes começaram a sair.
Mas eu mantive a minha táctica. Curiosamente, o Fernando procedeu exactamente da mesma maneira sem combinarmos nada. Só quando a zona estava quasi vazia é que ele me fez um sinal para sairmos,
Ninguém nos tocou!
Nos relvados do largo estavam imensos contestatários, sentados ou em pé, a insultar os polícias. Dirigimo-nos calma e firmemente para a porta onde já estavam a juntar-se os invasores.
Mal pus um pé na rua. Pumba! Apanhei com um pedaço de relva, com as raízes cheias de terra, em cheio na cara. Era dirigido aos monos mas eu é que apanhei com o torrão nas trombas.
Porra! Então a polícia não me agrediu e os anti-fascistas foram quem o fez?
Fiquei pior que estragado!
Mas compreendi e perdoei de imediato! Solidariedade académica e anti-fascista acima de tudo.
Entretanto, eu e o Fernando dirigimo-nos para o passeio onde ficam as igrejas do Carmo e das Carmelitas, com o intuito de chegarmos ao bar de Letras onde a malta mais amiga se juntava diariamente.
Eis que olho para trás e vejo um mono a correr atrás de nós com gestos ameaçadores.
Toca a aplicar a mesma dose. Paramos, olhamos o homem bem de frente com cara de poucos amigos, e não é que ele dá meia volta e manda uma cassetetada numa velhinha que ia a correr?
A tese foi completamente confirmada pela experiência.
Chegados ao bar, contamos as ocorrências com um acento triunfal.
E havia razões para isso.


E assim começou e acabou a minha actividade como anti-fascista!
Ou será que qualquer dia me lembro de outra acção heróica que, quem sabe, me torne credor de uma daquelas medalhas que o Presidente da República distribui no 10 de Junho?

quarta-feira, julho 06, 2005

O fármaco milagroso

Já lá vão uns anitos!
Em determinada fase da minha vida, e por razões que nunca cheguei a descortinar com rigor, andava tristonho, chateado, psicologicamente em baixo e com alguns sintomas somáticos que me alertaram.
E, como nestas coisas não sou peco, decidi ir a um psiquiatra.
Profissional já experimentado, não lhe foi difícil fazer o diagnóstico: eu estava com uma depressão.
Nada de grave, felizmente. Nestas e noutras doenças, quanto mais depressa formos a um médico e começarmos o tratamento, maiores são as possibilidades de cura ou cura rápida.
Receitou-me uns fármacos, disse como os deveria tomar e fez-me um aviso particular em relação a um deles:
- Este medicamento tem um efeito secundário para o qual eu o devo alertar. Inibe a ejaculação. Portanto, aconselho-o a avisar a sua esposa. Não vá ela pensar que anda a depositar o seu sémen noutros recipientes – e fez um sorriso bem largo.
- E posso continuar a trabalhar? – perguntei.
- Com certeza. Deve é abster-se de beber álcool.
Finalmente, mandou-me marcar nova consulta para daí a um ou dois meses.
Chegado a casa, relatei o ocorrido à minha mulher dando especial relevo ao tal efeito colateral do medicamento.
Sem entrar em pormenores, pois este não é um blog erótico (quando tiver um, eu aviso), o facto é que quando tinha relações sexuais eu bem me esmerava no sentido de tentar provar a mim mesmo que afinal era mais potente que o medicamento. Essas coisas também ajudam a curar depressões, mas...nada!
A coisa demorava um tempo infinito, eu transpirava de tanta ginástica fazer, às vezes parecia que ía acontecer, mas...sempre nada!
Até que, exausto e ofegante, às vezes o falo ainda acordado (relembro que foi há uns anitos), meio lixado também, preparava-me para uma soneca retemperadora.
A minha mulher é que não desgostava do medicamento, como devem calcular!
Acho que uma vez (ah, valentão!) consegui uma ejaculação mínima, mas serviu para me aumentar a auto estima.
Entretanto a medicação revelava-se eficaz e, quando fui novamente ao clínico, ele fez uma redução das dosagens.
E perguntou-me:
- Notou o efeito secundário de que lhe tinha falado?
- E de que maneira, senhor doutor! – respondi
- Sabe que esse medicamento pode também ser usado, em doses menores evidentemente, para combater um problema que é bem mais comum do que aquilo que se pensa. A ejaculação precoce – informou o doutor.
- Acredito! Acredito! – disse, soltando uma gargalhada
- Olhe! Vou-lhe contar um caso que se passou com um cliente meu, aliás uma figura pública mas cujo nome, como compreenderá, não lhe direi.
E continuou a psiquiatra:
- Uma vez apareceu aqui o tal sujeito com um problema depressivo. Um dos medicamentos que lhe receitei foi exactamente este. Quando veio cá numa consulta de controle, eu disse-lhe que iria deixar de tomar esse remédio.
“Não, senhor doutor! A minha mulher não deixa!” respondeu-me ele.
“Parece que ela nunca tinha atingido nenhum orgasmo e graças a este medicamento milagroso agora conseguiu, portanto não quer voltar à situação anterior”, citou o médico.
E concluiu:
- De facto ele sofria de ejaculação precoce e como este medicamento pode ser usado para colmatar essa característica pouco interessante, eu continuei a receitar-lhe o produto, mas só na dosagem indicada para contrariar esse problema que o senhor tinha.
Depois de mais alguma conversa, despedimo-nos e sai.
E pouco tempo depois estava completamente curado

Os eventuais interessados escusam de me perguntar o nome do medicamento milagroso pois já me esqueci completamente.

domingo, julho 03, 2005

Uma noite em Londres

Em 1972 resolvi ir passar as férias num campo de trabalhos na Inglaterra.
Já tinha vinte e três anos e nunca tivera uma experiência do género.
Como iria ganhar dinheiro, com esses proventos pagaria as despesas que teria de fazer.
Naturalmente dei conta da minha intenção a meu pai e minha mãe, sendo que o primeiro se prontificou a pagar as viagens de avião, a meu pedido.
Tratei do assunto através de um organismo da Universidade de Lisboa cujo nome não lembro.
O período de labuta seriam 22 dias de Agosto no Friday Bridge Agricultural Camp, perto da cidadezinha de Wisbech, no Cambridgeshire, uns duzentos quilómetros para norte de Londres.
Como é meu péssimo hábito (e ainda por cima empurrado por minha mãe que queria que levasse mais coisas, não fossem elas necessárias), arrumei um montão de tralhas numa mala enorme cujo peso aguentava com alguma dificuldade.
Para obstar a qualquer inusitada falta de dinheiro, que eu considerava pouco provável pois ia determinado a trabalhar o que fosse preciso para ter fundos suficientes que me garantissem o essencial e algumas coisas acessórias, o meu pai emprestou-me nove contos. Assim, ele ficava mais sossegado. E eu também.
Embarquei no aeroporto de Pedras Rubras para um voo directo a Heathrow.
Ao fim de duas horas cheguei.
Ao sair do avião, vi uma senhora que era professora de inglês no Alexandre Herculano, liceu que frequentara. Era a famosa e solteirona Carolina, de quem nunca havia sido aluno, mas cuja fama de severidade era sobejamente conhecida nessa escola. Era mesmo célebre por bater com os grossos dicionários na cabeça dos alunos quando estes não respondiam a preceito às suas perguntas.
Imediatamente me ocorreu que, atrelando-me a ela, teria a vida facilitada. E logo a abordei. Acabou por se mostrar uma pessoa muito simpática que, segundo me disse, todos os anos ia a Inglaterra para não perder o contacto com a língua inglesa.
Apanhamos o autocarro para o centro de Londres onde ela se transferiria para outro transporte que a levaria a um lar de freiras, onde ficaria alojada. Eu iria, no metro, para um hotelzinho em Earl’s Court cujo nome me fora fornecido pela tal organização de Lisboa onde tratara dos assuntos.
E assim aconteceu (pelo menos comigo; com a doutora não sei).
O hotel era de qualidade abaixo do aceitável mas, pela numerosa clientela que se apinhava na sua entrada, tudo malta muito jovem e não britânica, achei que estava no sítio mais adequado.
Quando, depois de uma espera de largos minutos, chegou a minha vez de fazer a marcação do alojamento, a inglesa que nos recepcionava, bastante mal encarada, mal penteada, nariguda e com os dentes podres, perguntou:
- Single or sharing?
E disse os preços respectivos.
Como ia na desportiva, respondi:
- Sharing, please.
Decidi, portanto, partilhar o quarto com alguns outros visitantes da capital do Reino Unido.
Paguei e dirigi-me ao quarto indicado. Sem chave. Como aquilo era muita malta, a gerência não autorizava que os clientes do “sharing” usassem esse instrumento que sempre me parecera fundamental, quanto mais não fosse, por razões de segurança.
Mas, como diz o provérbio, em Roma sê romano.
Seriam umas quatro da tarde. O tempo estava bonito, com sol. E pude ver que o enorme quarto que me fora destinado tinha nove camas com roupa lavada, uns quantos guarda-fatos e um lavatório com uma torneira. Nem sabão, nem toalhas, nem nada. Mas, pensando bem, se eu ia para um campo de trabalhos, qual proletário, tinha de começar a habituar-me a algumas incomodidades.
É assim que se fazem os homens, cogitei.
Reparei que algumas camas já tinham sobre elas malas ou sacos. Sinal de que tinham sido “reservadas” por alguém. Fiz o mesmo. Coloquei a bagagem sobre o leito que me pareceu melhor posicionado e fui conhecer a mundana cidade de Londres.
Apanhei o metro para Piccadilly Circus e depois fiz a pé o circuito Regent Street, Oxford Street, Charing Cross Road, Shaftesbury Street com regresso à praça donde partira. Pelo caminho, ainda vi um espectáculo com golfinhos e pude apreciar quão cosmopolita era, de facto, Londres. Havia gente de todas as cores, raças, nacionalidades, enfim…um mundo.
Já era noite quando me meti no Soho onde visitei a que era, na época, a rua mais popular da Grã-Bretanha: Carnaby Street. Jantei e depois andei a visitar umas casas de espectáculos, todas de muito mau gosto qualquer que fosse a perspectiva pela qual fossem analisadas (ai Paris, Paris…).
Só pouco antes da meia-noite apanhei o metro (o último, segundo me disseram) para regressar ao hotel (chamo-lhe assim porque não me ocorre um termo mais adequado; espelunca seria excessivo).
Subi as escadas. A porta do quarto estava entreaberta e a luz apagada. Acendi-a. Logo ouvi uns urros que não entendi, ou melhor, entendi perfeitamente que significavam: Apaga a luz! Fi-lo imediatamente, mas o pequeno intervalo com o compartimento iluminado foi suficiente para ficar assustado.
As camas já estavam quasi todas ocupadas. E, de sob os lençóis, emergiam abundantes adornos capilares. Toda a cena me fez lembrar as casernas de trabalhadores de minas que vira num ou dois filmes.
Mantive a porta aberta para que a luz do corredor iluminasse um pouco o local onde deveria estar a minha mala. Mas que raio! A minha cama já estava ocupada! Pé ante pé, fui caminhando o mais silenciosamente possível procurando a bagagem. Finalmente vi-a arrumada a um canto.
E cama? Acomodei-me numa que estava sem “marcação” e ficava perto da porta.
Com a máxima cautela, lavei as mãos e a cara, e limpei-as ao lençol para não abrir a mala. A higiene dental limitou-se a um gargarejo. E, sorrateiramente, encafuei-me sob a roupa só com as cuecas vestidas.
Estava o sono a chegar quando entrou outro retardatário. Acendeu a luz e…bom, desta vez vinguei-me e também disse um palavrão qualquer em português.
O pior é que, quando o sujeito foi fazer as suas lavagens, como a minha cama de recurso ficava mesmo ao lado do lavatório, salpicou-me todo com água. E na zona do travesseiro, quer dizer, na cabeça e na cara.
Passado algum tempo, estava eu quasi, quasi, a dormir, entra outro. Este não fez barulho. Só fez chuveiro para cima de mim, o desalmado.
E ainda apanhei uma terceira molhadela antes de adormecer.
Quando acordei, já a luz entrava pelas janelas. Olhei para as várias camas e estavam todas ocupadas. Toda a malta a dormir. Entretanto há outro que levanta a cabecinha e também espreita. E mais outro. E outro ainda. Agora, embora alguns dos meus parceiros tivessem umas caras patibulares, senti-me mais à vontade.
Levantei-me, abri finalmente a mala e lavei-me o melhor possível.
Concluído o ritual (que não foi muito canónico, como devem calcular), pisguei-me o mais depressa que pude para ir a uma conhecida estação do caminho de ferro apanhar o comboio que me levaria a Wisbech.
E o que me aconteceu no campo de trabalhos fica para vos contar noutra ocasião.