Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

A minha fotografia
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Localização: Maia, Porto, Portugal

quarta-feira, março 29, 2006

Diálogos de gente (IV) (O dorminhoco)

- Mas que raio de homem! – praguejou a Natália – este desgraçado nasceu cansado!
A mulher tinha-se levantado às sete horas e já tinha feito uma série de tarefas: lavar-se, vestir-se, preparar o pequeno almoço para os dois filhos, arrumar roupa e louça que ficaram a lavar ou a secar quando foi para a cama, acordar o Tiago e o Filipe para irem para a escola, e ainda tinha várias outras para executar antes de sair de casa às oito e meia para entrar ao serviço às nove.
O marido, calmeirão e sempre sem pressa, também devia entrar às nove, mas raramente tal acontecia. Se o fizesse com um quarto de hora de atraso já não era nada mau.
De vez em quando a Natália entrava no quarto, fazia barulho e dizia:
- Levanta-te, homem! Olha que qualquer dia ainda te despedem!
Mas isso é que era bom!
Levantar-se? O Mário?
A Natália continuou a sua labuta de formiguinha: ajudou os filhos a vestirem-se (Filipe, o mais novo, era muito parecido com o pai, e a mãe vestia-o todo permanecendo ele em pé, agarrado e ela e com os olhos fechados), chamou mais uma vez o marido e abriu a persiana totalmente para que o quarto ficasse ainda mais bem iluminado. O homem resmungou com uma espécie de grunhido, mexeu-se, mas levantar-se é que não. Ela aproximou-se do ouvido e disse:
- Olha que já passa das oito e meia.
- Humm?
- Já passa das oito e meia. Vou sair e levo os miúdos. E tu vê lá se te levantas, meu madraço!

Ao fim da tarde, quando o Mário regressou a casa já lá estava toda a família.
A mulher é que usava o automóvel pois levava os filhos à escola e trabalhava num local com poucos transportes públicos.
Ele andava de autocarro.
- Boa noite! – disse o bonacheirão pai de família.
E foi beijar a mulher que estava na cozinha.
Os dois rapazes apareceram pouco depois:
- Boa tarde, papá! – beijaram-no e regressaram ao quarto onde ambos dormiam.
- Natália! – disse o homem com um tom de voz pouco habitual.
Ela notou a diferença e, parando o que estava a fazer, perguntou:
- Que foi, Mário?
- Hoje houve chatice no emprego.
- Sim? – perguntou ela, apreensiva – então desembucha, homem!
- O meu chefe, o Matos, chamou-me ao gabinete dele e deu-me o raspanete maior de todos os que já ouvi – começou a Mário.
- Mas porquê? – insistiu a Natália.
- Hoje eu adormeci outra vez e só cheguei ao trabalho às onze horas – confessou ele.
- Meu Deus, homem! E o Matos ameaçou-te, já percebi! – avançou a mulher.
- Pois! Disse-me que, se não começar a entrar à hora contratual, me instaura um processo disciplinar para despedimento com justa causa – contou ele.
E os olhos daquele homem enorme já estavam brilhando com lágrimas nascentes.
- Mas que chatice! – disse ela – eu fartei-me de te avisar, mas tu não te esforças por te levantar a horas e cumprires os horários. Sabes muito bem que não se pode brincar com essas coisas.
- Eu sei, mulher! – e fios de água já corriam pelo seu rosto – mas é superior às minhas forças!
- As pessoas não são todas iguais, já se sabe, mas temos de arranjar um método de tu cumprires os teus deveres. Lembra-te que temos dois filhos pequenos, uma casa para pagar, e não podemos ficar sem o teu ordenado. E mesmo o subsídio de desemprego não é vitalício. E podes ter dificuldade em arranjar outro emprego. E se arranjares pode acontecer-te o mesmo – dissertou a Natália.
- Mas que é que eu hei-de fazer? Não posso ir dormir para lá!
- Deixa-te de parvoíces! Podes jantar menos, deitar-te mais cedo e eu salpico-te com água para tu te levantares. E sais ao mesmo tempo que eu e os miúdos. Se chegares lá mais cedo até é uma forma de demonstrares que estás regenerado. E descansas mais ao fim de semana – avançou Natália resoluta com uma solução.
- E a que horas achas que tenho de me deitar? – perguntou, conformado, o pacato Mário.
- Tu precisas de dormir dez ou onze horas por noite. Para te levantares, o mais tardar às oito, tens de te deitar por volta das nove ou dez. Digamos dez horas! – sentenciou a mulher.
- Mas isso é muito cedo! – pareceu chateado, o homem.
- Tu já adormeces sempre a ver a televisão, portanto passas a dormir na cama em vez de ser no sofá. E até estás mais bem instalado – rebateu a verdadeira chefe da família.
- Mas eu gosto de ouvir o som do aparelho com os tipos a falar.
- Tu dás-me mais trabalho que as duas criancinhas juntas! Raio de homem! Olha! Ligas o rádio despertador e adormeces ao som da música ou de notícias. A TSF está sempre a dá-las. Eu, quando me for deitar, preparo o aparelho para tocar às sete – decidiu, mais uma vez, a Natália.
- Eu sou um desgraçado! Se não fosses tu não sei o que seria de mim... – e o bom gigante continuou a choramingar.
- Oh meu amor! – e ela deu-lhe um beijo – eu estou aqui para te ajudar. Tu não tens culpa. És assim e não vais mudar, portanto temos de arranjar subterfúgios para ultrapassar esse defeito.
- És a melhor esposa e mãe do mundo – disse, agarrado à mulher, o Mário dorminhoco.

sábado, março 25, 2006

Férias no Oeste

No Oeste...
Já estão a imaginar-me a escrever sobre os meus passeios de sandálias, calções e camisa com palmeiras estampadas pelas praias da Califórnia, o meu surfar nas grandes ondas de Long Beach, San Diego ou Pasadena, as minhas apostas com um punhado de dólares (que me desculpe o plágio, o Sérgio Leone) nos casinos de Las Vegas, a minha cara de espanto a observar as mansões das grandes vedetas de Hollywood, o meu espreitar por binóculos para as máquinas de extracção de petróleo no Texas, o meu afã a fotografar as montanhas do Grand Canyon do Colorado, o percorrer das estradas do Arizona, do Nevada, do Oregon, do Novo México, do Utah, do Wyoming, do Idaho ou de Montana, as caminhadas pelas ruas de Los Angeles, S. Francisco, Dallas, Pecos, Houston, Denver, Salt Lake City, Portland ou Phoenix, ou sobre as verdadeiras lendas que são Buffalo Bill, Kit Carson, Davy Crockett, Daniel Boone, Wyatt Earp, Geronimo ou Sitting Bull.

Pois estão redondamente enganados!
Eu vou escrever sobre os oito ou dez dias que passei com a minha mulher Maria Fernanda, o meu enteado Mário Rui e o meu filho Fernando Miguel na zona Oeste deste Portugal.
Aconteceu em Agosto de 1986.
Há quasi vinte anos.
Era uma zona do país que conhecíamos mal (ou não conhecíamos de todo) e conseguimos alojar-nos em dois quartos, com uma porta de ligação, duma residencial das Caldas da Rainha situada perto da Praça de Touros. Passou a ser aí o nosso quartel-general.
De manhã saíamos para passar o dia em locais periféricos.
Antes do almoço, normalmente, uma ida à praia da Foz do Arelho ou à curiosa e poluída concha de S. Martinho do Porto.
De tarde íamos a outros locais:
Óbidos, com o burgo apertado dentro das muralhas do castelo que, consta, foi edificado pelos romanos tendo sofrido, posteriormente, inúmeras alterações e ampliações, e relevando a rua Direita que vai desde a Porta da Vila até ao Paço dos Alcaides, as igrejas de Santa Maria, de S. Pedro, de S. João Baptista, da Misericórdia, de S. Tiago, a capela de S. Martinho, o Pelourinho e o Telheiro, o Santuário do Senhor Jesus da Pedra, o Aqueduto.
É seguramente uma das mais interessantes vilas do país.
Estava pejado de gente, turistas, sobretudo estrangeiros que se deleitavam, como nós, a percorrer tudo aquilo sob um sol intenso e temperatura estival.
Peniche, vila situada junto ao cabo Carvoeiro, não foi muito descoberta por nós. Estivemos a almoçar junto do porto de pesca, fomos ao farol do cabo e depois resolvemos apanhar um barco que nos levou a um paraíso natural:
as Berlengas.
A viagem demorou cerca de quinze minutos e o mar, apesar de ser Agosto, não estava propriamente sereno. Como antigo marinheiro, deu-me um gozo particular voltar a navegar sobre as salsas ondas.
Desembarcados no pequeno cais da Berlenga Grande, perto do qual existia uma pequeníssima aldeia de pescadores, subimos até junto do farol e do local para poiso de helicópteros (chamar-lhe heliporto seria uma promoção despropositada), a cerca de 80 metros de altitude. Daí se podiam ver as Estelas e os Farilhões, pequenos ilhéus, além de alguns rochedos.
E inúmeras aves marinhas.
Após algum repouso, pois a subida foi um tanto cansativa e levávamos uma criancinha que só tinha três anos, descemos por um estreito caminho, feito na escarpa, para o forte de S. João Baptista que estava aproveitado, de forma bem imaginativa, como estalagem.
Eu fiz a descida à frente, com o miúdo ao colo, e a mulher e o Mário Rui seguiam-me. Mas só quando chegamos cá abaixo e olhamos todo o trilho pelo qual viéramos, é que nos apercebemos do risco de queda que, felizmente, não ocorreu. Mas não fomos só nós. Muitas mais pessoas andaram por esse caminho, ou descendo ou subindo.
Seguiu-se um passeio numa pequena embarcação cujo manobrador nos ía dando algumas indicações sobre as várias grutas e rochedos que proliferavam ao redor da ilha. Não me esqueci nunca mais da tromba de elefante e da limpidez daquelas águas.
Foi uma tarde inolvidável!
Também fomos a Rio Maior. Aquilo que mais se gravou na minha memória foram as minas de sal-gema, que não é mais que cloreto de sódio (o sal das cozinhas) cristalizado longe do mar, no subsolo. Lembro-me que, exactamente dois anos depois, quando se deslocava de automóvel de Lisboa para o Porto, faleceu num acidente de viação, julgo que ainda na Estrada Nacional nº 1 que atravessava a vila, um dos maiores talentos como compositor, letrista e intérprete instrumental e vocal da música ligeira portuguesa da segunda metade do sec. XX – o Carlos Paião.
Não deixamos de visitar também a Nazaré. Já a conhecíamos relativamente bem, mas a subida ao Sítio e a paisagem que de lá se desfruta é tão deslumbrante que vale sempre a pena lá voltar e aproveitar também para ver a lendária marca do casco do cavalo de D. Fuas Roupinho.
A maior parte das noites (após os imprescindíveis banho e jantar) eram passadas nas Caldas da Rainha, uma linda cidade com um velho, mas interessantíssimo hospital termal fundado em 1485 pela Rainha D. Leonor, mulher de D. João II, e famoso pelas suas águas sulfurosas – parece ser o mais antigo em todo o mundo. De realçar o magnificente parque, com várias estátuas nele disseminadas, e dentro do qual existe o museu de José Malhoa. E é impossível esquecer o ex-libris das Caldas: as louças, nomeadamente as que tem um sui generis componente fálico. Neste assunto não se pode deixar passar em claro a importância de Rafael Bordalo Pinheiro.
Coincidiu com a parte final da nossa estadia a abertura das animadas Festas da Fruta.

De então para cá, nunca mais estive em nenhum destes locais, salvo em rápidas passagens. E não duvido que muito terá mudado, em vinte anos.
Não será altura de passar mais uns dias no Oeste...português?

terça-feira, março 21, 2006

Diálogos de gente (III) (Dois tipos no café)

Ricardo estava sentado à mesa do café, lendo um jornal.
Eis que uma voz soa, alta e grave:
- Olá, camarada! Estás muito absorvido na leitura!
Levantou a cabeça e deu de caras com o seu velho amigo Augusto.
- Oh pá! Senta aqui! – convidou.
- Com muito gosto! Já não nos vemos há umas semanas – disse o recém-chegado.
- Eu tenho andado muito caseiro. Como de costume, aliás – justificou o Ricardo.
- Sim. És um tipo que convive pouco. És do estilo casa, trabalho, casa. Desde que deste o nó com a tua mulher, perdeste-te! – gozou o Augusto.
- É a vida! O meu trabalho é exigente, como sabes, e quando chego a casa, se não tenho ainda que acabar algum serviço, dedico-me à família, vejo as notícias e deito-me normalmente cedo – explicou o pacato amigo.
- Eu tenho uma vida um bocado mais agitada! – disse, com ar satisfeito, o outro.
- Pois tens, pá! – e falando baixinho, o Ricardo revelou uma descoberta – noutro dia vi-te entrar para uma pensão ao fim da tarde com uma mulher morena muito jeitosa. Não te ponhas a pau que a tua mulher ainda descobre as tuas aventuras e estás tramado.
- Sabes que eu não resisto às mulheres, não sabes? Costumavam dizer que eu não podia ver uma vassoura com saias. Pois nem são precisas as saias nem as lingeries; basta-me a vassoura! – confessou o garanhão.
- Continuas sempre o mesmo, pá! Nunca mais assentas!
- Que queres que te faça? Sabes que eu costumo dizer: “um homem sabe que não pode comer as mulheres todas do mundo, mas tem obrigação de tentar” – e riu-se, novamente, o amigo mulherengo.
- Já te ouvi essa mais de n vezes. Desculpa lá a indiscrição: mas tu gostas mesmo da tua mulher? – perguntou curioso o Ricardo.
- Claro que gosto! – respondeu o outro – tu talvez não percebas isto, mas eu sou capaz de gostar de várias mulheres ao mesmo tempo.
- Gostar ou amar? – procurou o amigo esclarecer.
- Eu tenho um coração muito grande, mas é gostar. Amar, num determinado momento, é só uma. Mas posso amar uma e gostar de duas ou três. E depois girar, topas? – explicou o Augusto.
E continuou:
- Se queres que te filosofe um bocado...
- Já sei o que vais dizer! Que os homens são polígamos e as mulheres monógamas – adivinhou o Ricardo.
- Já aprendeste, mas aprendeste mal! A maioria! É preciso não esquecer que é a maioria! Porque há homens monógamos, muito poucos, penso, e mulheres polígamas. E tu, que te armas em fiel e monógamo, só o és...quero dizer...penso que o és...porque não tens tido oportunidade. Mas um dia que a tenhas, a ver vamos se não dás uma facada no matrimónio como os outros. Mas olha que não sei se serás assim tão santinho. “Fugi dos sonsos” costumava dizer a minha mãezinha que Deus tenha – e olhou de soslaio para o amigo, com um sorriso irónico de desafio, o imperador Augusto.
- Não digo “desta água não beberei”, mas até agora tenho cumprido o que prometi. E tu estás a ver se tiras nabos da púcara mas comigo tens azar. Eu tenho sido sempre leal – disse o Ricardo.
Entretanto, já os olhos do galifão tinham vasculhado todo o café e se tinham fixado numa mesa onde estavam duas mulheres jovens, de uns vinte e muitos, trinta anos.
- Oh Ricardo! Olha-me ali aquela morenaça. Se se proporcionasse tu ires com ela para a cama, não ias? Se disseres que não começo a pensar que és paneleiro, pá!
- Assim estás a querer influenciar a minha resposta. Mas eu digo-te que não!
- És um caso perdido! Oh pá! Eu estou a olhar para ela e não posso deixar de pensar que lhe dava uma queca monumental! – desabafou o incorrigível Augusto.
- E na amiga? – perguntou o sossegado Ricardo.
- Não me pica tanto! – respondeu o outro – mas também não dizia que não.
- És mesmo levado da breca! – exclamou o Ricardo.
E, de imediato colocou nova questão:
- E a tua mulher não nota nada?
- Eu acho que não! Primeiro porque faço as coisas com muita discrição, depois porque a tenho sempre satisfeita. Esta é uma regra sagrada: se não papas a tua mulher, se não a acarinhas, se não lhe levas uns chocolates ou umas flores de vez em quando, ela começa a desconfiar, mesmo que não tenhas culpas no cartório.
Tocou um telemóvel.
Foi o pacato Ricardo quem o atendeu. O amigo notou, com um sorriso malicioso, que ele ficou um pouco embaraçado:
- Estou? Sim! Eu chamo depois! – e desligou.
- Oh Ricardo! Aposto que era a loira com quem te vi sair da pensão – e gargalhou alto – para onde me viste entrar acompanhado pela morena, na outra tarde.

sábado, março 18, 2006

Diálogos de gente (II) (O ciumento)

Domingos entrou em casa e foi ao quarto cumprimentar a sua mulher Manuela que, tendo chegado uns minutos antes, ainda estava a vestir roupa mais confortável para as lides domésticas.
- Olá, querida! – disse ele.
- Olá, Mingos! Correu tudo bem? – retorquiu a consorte.
- Sim! Tudo dentro do normal. Vou arrumar a pasta e depois venho arranjar-me.
Antes, ainda viu o correio postal e ligou o “personal computer”.
Quando voltava para o quarto cruzou-se com a Manuela que já vinha com um pijama de meia estação vestido.
Algum tempo após, sentaram-se à mesa para jantarem.
- Hoje saíste com um vestido muito ousado – fez notar o homem.
- Eu? Achas que aquele vestido com um ligeiro decote, de cor azul-marinho, saia pelo joelho e, nisso talvez tenhas razão, um pouco apertado porque engordei qualquer coisa, é provocante? Não tem mangas mas eu uso um "blaser" – disse a mulher.
- Pois! Não tem mangas, é curto e está muito justo – insistiu ele – e quando te sentas ou levantas expões-te muito.
- Mas sei sentar-me e levantar-me; não faço figuras tristes – ripostou a mulher.
- Gostava que não o usasses mais – alvitrou o homem.
- Oh Mingos! Não comeces com a mania de que todos os homens me cobiçam. E se o fizessem era uma razão de orgulho para mim. Posso mandar alargar um pouco o vestido e ele fica impecável – sugeriu ela.
- Não sei! Já sabes que eu gosto que andes recatada. Lá no escritório há muitos homens e eu já vi como alguns olham para ti – teima o Domingos.
- Sim? Olha que bom! É sinal de que ainda estou apetitosa. Também com 27 anos e sem filhos...
- Não tenhas essas atitudes de leviana, Manela! Sabes bem como gosto de ti e me custa ver-te a ser olhada por outros homens – disse o marido.
- Olha, meu querido! Namoramos três anos e somos casados há dois. Quando isso aconteceu eu já sabia que eras ciumento. Na altura, achei que seria uma prova de amor e fidelidade e até gostava. Mas agora fazes-me sufocar! Não penses que vou passar a vida a usar véu ou mesmo “burka” como as desgraçadas de algumas árabes. Sabes que te sou fiel, mas tenho a minha individualidade própria e não quero que ela deixe de se desenvolver só porque tu não queres isto e não queres aquilo – discursou a Manuela.
- Eu sei que às vezes sou um bocado chatinho. Mas gosto tanto de ti que só a ideia de te perder me deixa maluco – chorou-se o Domingos.
- Pois olha que se insistes nessas atitudes é que acabas por me perder – disse ela, ameaçadora.
- Nem digas uma coisa dessas, mulher! Era a minha desgraça! Tu nunca me deixes! – suplicou o homem.
- Não deixo mas tens de me soltar para viver e respirar – disse ela.
E continuou:
- E na sexta-feira já vou fazer um teste à tua capacidade de me deixares viver. Vou ao jantar de aniversário da empresa que é só para colaboradores. Tu não podes ir. E depois do jantar parece que vamos a um bar passar um bocado da noite. Espero que não ponhas objecções, o que não adiantava nada, diga-se, nem me censures se chegar mais tarde. Eu ligo-te pelo telemóvel e dou-te conta de como as coisas estão a correr. E tu ficas em casa ou vais sair...fazes como quiseres. Só não admito que me apareças no restaurante como no ano passado, para me trazeres para casa. Acabei sendo gozada pelas colegas que acharam que tu devias ser um tipo do século XIX – desabafou a mulher.
- Essas tuas colegas são muito levantadas e atiradiças. Não me agrada que andes com elas – manifestou-se o Mingos.
- E eu também não gosto que andes com aquele Simões que tem tiques de larilas que até faz aflição – respondeu ela.
- Não desvies a conversa – disse ele – o que está em discussão és tu e as desavergonhadas das tuas amigas.
- Desavergonhadas? Oh pá! Tem juízo! Deixa-me que te diga que cada vez me parece mais que tens de ir a um psiquiatra tratar esse sentimento de posse que tens em relação a mim. Porque se não o fizeres, o casamento acaba mal – ameaçou a Manuela.
- Tu nem penses em abandonar-me, Manela! Nem penses! – e foi a vez dele ameaçar.
- Que é que tu fazes? Matas-me, é? Matas-me? – provocou a mulher – olha que eu tenho um medo! Já me deixaste mal disposta. Com licença!
E levantou-se da mesa, foi para a sala, ligou o televisor, acendeu outro cigarro, estirou-se no sofá e disse, baixinho:
- Quem me havia de sair na rifa!

quarta-feira, março 15, 2006

Diálogos de gente (I) (O ingénuo)

- Linda! Chega aqui, por favor, porque te quero dizer uma coisa – chamou o Fernando, sentado num sofá da sala.
- Só um momento! Vou já! – respondeu a mulher.
Poucos minutos depois ela instalou-se perto do marido e interrogou:
- Então que se passa?
- Hoje o Costa pediu-me cinquenta contos emprestados – disse ele.
- E tu não vais emprestar, pois não?
- Já emprestei. Ele é um tipo honesto – confessou o Fernando
- Oh homem! Caíste outra vez na esparrela? Não aprendeste com os outros que te vigarizaram? Não te lembras do da Lixa que, já lá vão uns vinte anos, te pediu trinta contos e depois fugiu para o Brasil com o teu dinheiro e o de mais uns tantos? – lembrou ela.
- Mas esse era um aldrabão! O Costa é um homem como deve ser. No ano passado pediu-me dez contos por um mês e ao fim desse tempo pagou-me tudo – justificou o Fernando.
- Também o Neves te pediu cinco contos de uma primeira vez, pagou no dia combinado, e depois ferrou-te um calote de trinta contos – lembrou outro caso, a mulher.
- O Neves também era um mau carácter!
- Dizes isso agora! Quando te pediu o dinheiro emprestado dizias que era um tipo honestíssimo – recordou a Olinda.
- Mudou! O Neves era um sujeito às direitas mas começou a conviver com uns tipos sem dignidade e, sob essas más influências, tornou-se um aldrabão – justificou, mais uma vez, o Fernando.
- Eu garanto-te que o Costa não te vai pagar os cinquenta. Os dez contos que pediu e pagou foram a isca. Tu próprio me explicaste como eles fazem.
- Pois! Tu não percebes nada de negócios. Eu já ando nesta vida há muitos anos e sei muito bem como devo fazer.
- Tu és um desgraçado, homem! Confias em toda a gente e depois fartas-te de apanhar coices – acusou a Linda.
- Eu sou um tipo honesto e de palavra – defendeu-se o Fernando.
- Mas não podes ser tão ingénuo! Podíamos estar ricos mas com a tua mania da honestidade e da honradez e não sei que mais, até durante a guerra, quando o café estava racionado, tu continuaste a vendê-lo ao mesmo preço enquanto os teus colegas enriqueciam a facturar pela tabela mas a vendê-lo realmente por preços muitíssimo maiores – censurou a mulher, que não trabalhava, como era próprio da burguesia da época.
- Mas fiquei com a consciência limpa. Quando morrer, vou-me sem remorsos – orgulhou-se ele.
- O que me espanta é que já foste levado umas seis ou sete vezes e nunca aprendeste. Sem contar aquelas em que nem me contaste. Ficaste caladinho... – continuou a Olinda a repreendê-lo.
- Nunca te faltei com nada em casa, pois não? Nem aos filhos? É verdade que podia ser mais rico, mas não suportaria o peso de não ter cumprido com a minha obrigação. Tenho princípios morais de que não abdico.
- Neste caso não está em jogo nenhum princípio moral – replicou ela.
- Mas o Costa tem tido azar na vida e, como amigo que sou, não o vou abandonar neste momento – insistiu o Fernando.
- Fazes-me lembrar o Pinheiro, do qual também disseste que tinha azar na vida e depois verificou-se que tinha azar era no Casino da Póvoa. Ou o Marques que teve azar com a amante que o sugou até ele se matar – continuou ela, demolidora.
E prosseguiu:
- Mas depois acho graça que, quando não cumprem, me vens dizer que afinal eu tinha razão.
- É! De facto, algumas vezes tens razão. Mas noutras, enganaste. O Rocha e o Machado, por exemplo, cumpriram sempre escrupulosamente.
- São as excepções à regra! Olha! Já não te digo mais nada! Vou preparar o jantar e começar a fazer mais economias para compensar esses bons “negócios” que fazes.
E o Fernando ficou outra vez sozinho na sala.

sábado, março 11, 2006

Balanças

Hoje tinha intenção de fazer um novo texto para colocar aqui, cumprindo o que já vai sendo a tradição de postar a cada quatro dias, mais um, menos dois.
Mas a inspiração não era muita e estava decidido a deixar para outra ocasião essa tarefa.
Eis que fui ao quarto de banho, olhei para o chão e lá estava ela, quietinha, rasteira, meia escondida.
A balança!
Uma balança para medir o meu peso.
Como diria o Vasco Santana: “Chapéus há muitos!” ou, neste caso, “Balanças há muitas!”.
E começaram a passar-me pela cabeça os inúmeros tipo destes aparelhos que fui conhecendo:
A pesa-cartas, com inúmeras versões, e de que o meu pai tinha duas ou três.
A de precisão, com dois pratos e os pesos, protegida por uma caixa envidraçada e existente nos laboratórios de Física e Química.
A de cozinha, mono prato, com ponteiro.
A de Roverbal, das velhas mercearias, com dois pratos e os seus pesos.
A decimal, também usada no mesmo tipo de lojas, mas para massas maiores.
A de pesagem de pessoas, normalmente existente nas farmácias e que só funciona com uma moeda, cuspindo um papelinho com uma profecia como brinde.
O dinamómetro.
A de gancho, dos talhos, para pesar a carne.
A de dois pratos suspensos.
A báscula para veículos mais ou menos pesados.
A romana, com o contra-peso deslizando sobre um dos braços.
Todos estes tipos são meramente mecânicos.
Depois há uma multiplicidade de aparelhos eléctricos e electrónicos, normalmente digitais mas também analógicos. A maioria deles são tão modernos que nem os conheço.
E basta, que a lista já vai longa.
Quasi todas as que referi estão ligadas ao passado. Já pouco ou nada se usam hoje. São peças de museu.
Mas são as mais importantes para mim por serem as que estão ligadas às minhas memórias.
No entanto, actualmente, aquela que mais uso é, sem dúvida, a de pesar pessoas que eu (e penso que muita gente) guardo na casa de banho e que me serviu de inspiração para esta prosa tão pífia.
Devo dizer-vos que todos os dias, mal me levanto, e logo após verter águas, vejo o meu peso.
E, normalmente, logo depois vem uma exclamação:
- Hoje está bom!
- Humm....mais meio quilo. Ai que carago!
- Foda-se! Engordei mais de um quilo de ontem para hoje. É a porcaria das bolachas de chocolate. Vou parar com elas. Só fazem mal... (mas não paro nada!)
- Porreiro! Hoje tenho menos peso!
- Mais dois quilos? A puta da balança não está boa!...Ah! Era o “zero” que não estava afinado!
- Oh Maria! Ontem a caminhada fez-me bem! Menos meio quilito!
E por aí fora...
Às vezes ouço uma voz de mulher a gritar:
Ai!!!!!
Pronto! Já sei que a minha senhora está mais gorda e vai fazer dieta por um dia.
Portanto, como podem constatar, a minha balancinha é o meu primeiro interlocutor diário.
Mas antes disso já falei sozinho.
Sabem quais as minha primeiras palavras, todos os dias, quando começo a pôr os pés de fora da cama?
- Hoje é...dia onze de Março! Sábado!
Quero dizer: tenho de me localizar no tempo.
Mas este não se mede com balanças, portanto isso é assunto para abordar noutra ocasião. Não pertence a esta cena.
Hoje o tema são o peso e as balanças.
Ainda a propósito delas, podemos considerar algumas especiais.
A Balança, signo do Zodíaco. Como este é um assunto que não me interessa minimamente, também não direi mais nada desta variante.
A Balança, símbolo da Justiça. As questões do Direito ou da Jurisprudência também estão longe de ser o meu forte. É melhor não dizer nada senão sai asneira.
E agora...” mon coeur balance” entre publicar este texto, ou deixá-lo num ficheiro e arrumá-lo num qualquer disco ou diskette.
Olhem! Vou correr o risco...cá vai ele para o blog!

terça-feira, março 07, 2006

Lucerna - Lucerne - Luzern

Estávamos no final da primavera de 1980.
Trabalhava há pouco mais de um ano na CIFA – Companhia Industrial de Fibras Artificiais e fui convocado para ir, juntamente com um colega um bom pedaço mais velho, o Eng.º Sarmento, e mais dois sujeitos de uma firma de montagens mecânicas que já não existe, ver o equipamento de produção de viscose (ou raione ou seda artificial) de uma empresa suíça que ía acabar com o fabrico desse produto.
Era a Viscose – Suisse.
Eu iria na qualidade de chefe de produção da parte química do fabrico e o meu colega como chefe do sector de estudos e novos investimentos. O objectivo era o de, eventualmente, adquirir algum equipamento usado para a nossa unidade fabril de Valongo. Os outros parceiros iriam tentar avaliar os custos de desmontagem, transporte e montagem dos materiais que nos pudessem interessar.
Voamos na Swissair num dia de céu limpo e sol radioso e aterramos em Zurique. Depois, alugamos uma viatura e fomos para a cidade mais próxima, muito pertinho mesmo, da fábrica: Lucerna (ou Lucerne ou Luzern).
Lá estivemos durante quatro dias, muito bem instalados num hotel Carlton (mas que categoria!) em quartos com uma esplendorosa vista para o Lago dos Quatro Cantões (ou de Lucerna ou Vierwaldstättersee) e para o monte Pilatus, situado muito perto da cidade e imponente nos seus mais de dois mil metros de altitude e chapéu branco.
Curiosamente, esse foi o primeiro dia de sol nessa belíssima cidade e o degelo imediatamente começou. Ao fim do segundo ou terceiro dia, a água que saía da torneira era de uma frialdade entorpecedora. Impossível não recorrer à que era aquecida.
Apesar de passarmos os dias em trabalho, logo que possível regressávamos à cidade para dar um passeio pelo longo e largo jardim junto do lago. As águas deste eram de uma limpidez de cristal, o que só era possível porque os esgotos da cidade eram muito bem depurados. Também as ruas, como é apanágio daquele país, eram de um asseio exemplar.
Pudemos constatar que havia muitos turistas, nomeadamente norte-americanos, e que o centro histórico, com edifícios antigos mas muito bem conservados e aproveitados, tinha inúmeras esplanadas cheias de gente a comer e, sobretudo, beber cerveja.
A urbe situava-se num dos extremos do lago e deste saía um pequeno rio que tinha o leito todo betonado de forma que já não era rio mas canal trapezoidal.
Perto da sua nascente, havia a mais velha ponte de madeira da Europa. Era muito estreita e toda fechada, de forma que quem a atravessava, em vez de ver o exterior podia apreciar pinturas representativas de cenas rurais, de caça e de pesca.
Há uns anos li a notícia de que esse monumento património da humanidade tinha sido devorado pelo fogo. Mas, posteriormente, soube que havia sido reconstruído. Ainda bem!
Mas outras pontes havia, mais modernas, todas elas pequenas mas de bonita traça arquitectónica.
Não tenho registos dessa viagem para lá de fotografias. Mas lembro-me do encantamento que a todos provocou conhecer Lucerna. É uma cidade muitíssimo bonita e recomendo a quem tiver possibilidades de lá passar uns dias, que o faça. Fica no centro do país, num cantão onde se fala alemão.
Numa das noites, fomos dar um passeio turístico no Night Boat. A refeição principiou mal o barco largou e começou a vogar pelo lago adentro, com uma escuridão total no exterior. Consistiu só de um fondue de queijo, com pão; mas ambos os componentes eram de uma paladar estupendo. Uns grupos folclóricos dançaram e tocaram canções com a conhecida sonoridade da música tirolesa. A certa altura, os passageiros foram desafiados a tentar que um típico instrumento dos pastores alpinos conseguisse emitir som ao ser soprado por algum dos forasteiros. Tinha a forma tubular, com três ou quatro metros de comprimento e depois revirava para cima e abria na extremidade. A zona da curva apoiava-se no solo. A maior parte dos que fizeram a tentativa, apesar de ficarem com a cara vermelha de com tanta força bufarem, não lograram ter sucesso, por oposição aos tocadores que, sem esforço, antes com jeito, dele tiravam um estridente e prolongado ronco. Mas não querem saber que o Sarmento conseguiu que o instrumento tocasse? Foi logo motivo para realçarmos a nossa portugalidade. Parece uma coisa um pouco prosaica mas, no estrangeiro, sentimos muito mais o nacionalismo do que cá por casa.
Ao fim dos quatro dias decidiu-se não adquirir nenhum do equipamento que víramos, mas conseguiu-se que eu lá ficasse mais cinco dias a fazer uma espécie de estágio.
E assim vi-me sozinho em Lucerna.
Como não tinha quarto no hotel, fui procurar outro e alojei-me num que ficava mesmo no centro da zona antiga.
Durante o dia tinha trabalho, mas à noite e no fim-de-semana que lá passei tive de arranjar como despender o tempo.
No domingo resolvi ir ao cimo do monte Pilatus.
Encetei a viagem num de muitos teleféricos pequenos, de quatro lugares, que iam subindo com uma inclinação suave ao longo do sopé da montanha e se cruzavam constantemente com os que desciam. Andava muitas vezes a três ou quatro metros do solo. Viam-se as vacas a pastar e ouviam-se os seus chocalhos. E, sendo fim-de-semana, eram inúmeras as pessoas que, com botas adequadas, bem agasalhadas e munidas de um cajado ou coisa parecida, íam praticando montanhismo.
Até que chegamos a uma plataforma onde mudamos para um teleférico bem maior.
E numa segunda para o gigante que nos haveria de levar até muito perto do cume. A altura era descomunal e assustadora. Em certo momento, ao passar por um poste de sustentação das catenárias que suportavam a enorme caixa, tivemos a sensação que tudo iria cair. Foi tão só o solavanco na passagem da coluna, mas suficiente para o estômago dar voltas dentro de nós e se ouvirem gritos de pânico. Mas em segundos tudo foi substituído por comentários de alívio e risadas nervosas.
Nesse dia já havia pouco gelo no cimo. A fusão fora rápida, mas o frio era muito. Desci logo que pude.
Havia um outro meio de fazer a subida, por funicular (acho que é assim que se chamam aqueles comboios-elevadores com cremalheira para suportar grandes inclinações). Mas não fiz essa experiência.
Chegado de novo ao ponto de partida, cá em baixo na cidade, caiu uma bátega de água monumental. Quando cheguei ao hotel tive de mudar a roupa toda.
E quanto às noites?
Eram bem animadas as noites de Lucerna.
Depois de ficar sozinho, andei a ver uns espectáculos engraçados.
Lembro-me de uma pequena sala, com mesas e cadeiras dispostas em anfiteatro, onde actuou durante duas ou três horas uma banda musical que só tocava e cantava canções dos Beatles. Foi divertido!
Também vi uns strip-tease (tinha de ser) e fui a uma casa de alterne.
E não me lembro de mais.

Pensando melhor!
Recordo-me que apresentei os bilhetes ou recibos de todos esses espectáculos na empresa, para eles me pagarem. Passados uns dias, recebi um telefonema do chefe da Contabilidade a dizer:
- Sabe, Sr. Fulano, não é habitual este tipo de despesas serem pagas pela empresa, mas desta vez vamos abrir uma excepção – disse ele.
- Peço desculpa, Sr. Pinto, mas não fazia ideia – respondi, fazendo-me de parvo.
E continuei:
- Agradeço a vossa compreensão e garanto que tal não se irá repetir.
Passados dois anos e meio a empresa faliu.
Ainda hoje me pergunto se terá sido por causa dessas despesas extra que eles me pagaram.

sábado, março 04, 2006

Uma taça de champanhe

Estávamos no início dos anos sessenta.
Vivia com os meus pais e a minha irmã numa casa independente, com dois pisos, alugada (como era habitual na época), com um pequeno quintal nas traseira e uma ameixieira que dava uma dúzia de frutos de dois em dois anos e que acabou por ser cortada para deixar o sol iluminar melhor esse espaço aprazível.
Não estou certo, mas penso que foi no jantar dos meus doze anos, portanto no dia seis de Janeiro (sim, nasci no dia de Reis), em que recebemos a visita de uns três ou quatro familiares.
Tudo correu bem.
A comida, boa como sempre, os doces, o champanhe, o pequeno mas imprescindível discurso do meu velho (que naquela altura ainda era novo), os brindes, o “Parabéns a você”, enfim...tudo o que era habitual, lá em casa, nessas ocasiões.
Eu não bebia álcool, mas tinha a autorização paterna para ingerir um pouco da agradável e borbulhona bebida.
Terminada essa fase, ficamos todos sentados, à mesa, a conversar.
Eu, pequenote e sossegado, postado à direita do pai todo poderoso, mas num outro lado da mesa rectangular, ouvia sempre com atenção as conversas dos mais velhos.
À minha frente, vazia, a taça de champanhe. Daquelas com uma base circular, um pé estreito, razoavelmente alto e a coroá-lo, o receptáculo do líquido.
Ao alcance da minha mão direita, uma faca.
E este mocinho começou a dar umas pancadinhas suaves a meio do vertical pedúnculo do recipiente.
Plim...
Passados um minuto ou um pouco mais.
Plim...
Outra vez.
Plim...
Mais uma pancada seca.
Plim...
E os plins foram-se sucedendo até que o meu pai, talvez já incomodado com a sonoridade e os intervalos quasi iguais entre uma batida e as seguintes, disse:
- Oh rapaz! Está quieto com isso! Ainda partes a taça e levas uma chapada na cara.
- Já bati muitas vezes e não parte – retorqui, confiante na minha capacidade de controlar a potência dos toques.
- Já te avisei! Depois não te queixes! – voltou à carga o chefe.
Pelo sim pelo não, achei melhor não dar mais nenhum plim (o respeito é muito bonito!).
Passados uns minutos e já um tanto chateado de estar quieto, resolvi pegar na taça pela parte bojuda e deslocá-la um pouco.
- Ohhhh...está partida!
De imediato:
Pumba!
E desta vez, o som foi o de uma mão de adulto a bater na face de um garoto.
- Eu não te avisei? Afinal partiu ou não partiu? – interrogou-me o progenitor com cara de poucos amigos.
Claro que eu comecei num pranto. Não tanto pelo bofetão mas sobretudo pelo amor próprio ferido.
Traidor de vidro. Partiu exactamente no sítio onde eu dava os toques, a meio do pé, mas permitiu que a taça ficasse parecendo incólume. Quando levantara a peça de vidro, a metade superior ficou na minha mão e a inferior, quietinha, pousada na mesa.
- Oh Fernando! Não precisava de bater no menino. E logo no dia dos anos.
Muitas vozes se levantaram em minha defesa, mas o bofetão já tinha sido aplicado.
E assim, esse meu aniversário ficou assinalado pela aprendizagem de que não se deve fazer plim batendo com aço em vidro, e de que o meu pai era um homem de palavra.

quarta-feira, março 01, 2006

The making of...O viúvo

Achei interessante divulgar o conteúdo do ficheiro Word onde, antes de começar a escrita de “O viúvo”, caracterizei as personagens e o desenvolvimento da história.
Como devem calcular, os elementos iniciais foram sucessivamente modificados ou ampliados pois não havia, no princípio, uma história completamente definida.
Só tracei algumas linhas gerais para a trama, sendo esta progressivamente preenchida conforme a escrita avançava e, o que é interessante, muitas vezes em função da importância que alguns protagonistas perdiam (como a Laura ou o amigo João) ou ganhavam (como a Rosa, que inicialmente teria um papel muito secundário) em relação ao inicialmente previsto. Esta personagem impôs-se ao autor que, a partir de certa altura, viu nela um potencial muito grande e não imaginado até aí.
O conteúdo que vos apresento no final deste texto introdutório é, portanto, a versão final da que foi elaborada mais de dois meses antes.
Lendo o que acabei de escrever e dando uma olhadela pelo anexo, e digo isto porque seria muito fastidioso ler tudo, penso que fica claro para o leitor qual o método criativo por mim utilizado.
Não faço a menor ideia do que fazem os outros: pequenos ou grandes escritores, novelistas, argumentistas, cronistas, poetas, enfim...os que escrevem para alguém ler.
Podem reparar no enorme detalhe com que defini as personagens. Fi-lo com o propósito de que mais tarde, se fosse preciso usar algumas das suas particularidades, esse trabalho já estivesse feito de forma a não haver incongruências.
Não seria concebível que a Cristina começasse morena e a certa altura aparecesse transformada numa beleza do tipo escandinavo; ou o carro do Zé Viúvo começasse por ser um Peugeot 307 e acabasse como um Honda Civic.
Quero aqui agradecer publicamente a ajuda dada pela Maria Papoila que funcionou como consultora para assuntos de Medicina e Saúde, nomeadamente sobre o uso da pílula anticoncepcional nos anos 60 e os testes de ADN. Tudo com o objectivo de que a narrativa fosse o mais realista, correcta e coerente possível.

Aproveito este momento para pedir desculpa aos meus leitores por uma prosa que meti no espaço dos comentários. Foi elaborada porque eu preciso de leitores para escrever e de palavras de estímulo para me motivar.
Hoje não o faria, pois fui injusto para quem me acompanhou com a sua leitura e comentários desde o dia 1 de Janeiro.
Errar é humano!

Vejam então o conteúdo final do ficheiro Word referido no início desta prosa.



AS PERSONAGENS

José Luis de Sousa Novais
Nasceu em 03FEV47 (58 anos, quasi 59)
Casou em 23AGO71 há 34 anos (com 24 anos)
Viúvo desde 16AGO05 (3ª feira)
1,70 m / 72 kg
Cabelo grisalho claro (dantes era castanho), sem calvície, olhos castanho escuros
Sem filhos
Bancário reformado desde os 50 anos
7ºano dos liceus
Serviço militar feito entre 1966 e 1969. Em Angola de 1967 e 1969
Natural do Porto
Pai, José Novais falecido. Nasceu em 07JAN15 (faria 90 anos) no Porto. Casou em 04ABR40 (25anos). Faleceu em 23OUT95 (80 anos) de trombose cerebral. Ex-professor primário
Mãe, Deolinda Sousa falecida. Nasceu em 02SET17 (faria 88 anos) em Barcelos. Casou em 04ABR40 (22 anos). Faleceu em 12DEZ94 (77 anos) de cancro da mama. Ex-professora primária
Um irmão, Manuel João de Sousa Novais. Nasceu em 31JAN43 (62 anos), 1,73 m/ 78 kg, professor de português, vive em Coimbra. Casado com Maria Fernanda Gomes dos Santos, nascida em 18FEV45 (60 anos), professora de inglês. Dois filhos, António Manuel dos Santos Novais 26OUT70 (35 anos) e Alberto Luis dos Santos Novais 08OUT73 (32 anos)
Vive num T2 na Maia, com a mulher e com um casal de canários desde finais de 1998
Passatempo: Ginásio, andar a pé, música, Internet (onde tem um blog), escreve crónicas semanais para um pequeno jornal.
Portista.
Viatura: Peugeot 307

Horários: Às 2as, 4as e 6as, ao fim da tarde, ir ao ginásio. À 4as e sábados ou domingos, depois de almoço, ir ver a sogra ao lar.


Margarida Cunha Dias (falecida)
Nasceu em 28ABR47 (58 anos)
Casou em 23AGO71 há 34 anos (24anos)
1,58 m / 65 kg, aloirada, olhos azuis – antes de adoecer (60 kg em nova)
Faleceu em 16AGO05 (58 anos), uma 3ª feira, de cancro no estômago. O funeral foi no dia 17, 4ªfeira.
Adoeceu em ABR05. Agonizou durante 4 meses
Sem filhos
Bancária reformada desde os 50 anos
7º ano dos liceus
Pai, Fernando Dias falecido. Nasceu em 17MAI13 (teria 92 anos) no Porto. Casou em 23NOV45 (32 anos). Faleceu em 23MAI58 (45 anos) de cancro no pulmão. Bancário.
Mãe, Josefina Cunha, nasceu em 08MAI26 (79 anos) vive num lar desde ABR 05 quando a filha adoeceu. Teve um AVC em 03 MAI 04 que lhe paralisou o lado direito e a fala.
Foi sempre doméstica.
Sem irmãos

Maria Laura Correia Marques
Nasceu em 27JUL47 (58 anos) em Luanda
Teve uma filha, Maria Cristina, em 28JUL70 (22 anos), não tendo a certeza se o pai é o namorado com quem teve um arrufo (Raimundo) ou José Luís com quem teve uma relação ocasional. Esquecia-se frequentemente de tomar a pílula. No dia seguinte á relação com o Zé Luís, teve uma com o Raimundo.
Viúva desde 27SET00 (53 anos)
1,60 m / 70 kg
Morena, cabelos brancos pintados de castanho, olhos negros, traços de ascendência negra
Casou em 17DEZ69 (22 anos) com Raimundo Lopes Soares, dizendo-lhe que estava grávida dele. Nasceu em 30ABR37 e faleceu em 27SET00 (63 anos) com enfarte do miocárdio.
Tiveram uma filha, Maria Teresa Marques Soares, nascida a 17 MAR73 (32 anos), solteira, sem filhos, e que já teve várias relações.
Tem um irmão, António Jorge Correia Marques, nascido em 16JAN49 (56 anos) casado com Guiomar Teles Moreira, nascida em 23MAR51 (54 anos). Casaram em 06 JUL78 e tem 3 filhos – Rui Manuel Moreira Marques 03FEV80 (25anos) / Jorge Alberto Moreira Marques 23SET82 (23 anos) / Ana Maria Moreira Marques 04 MAI85 (20 anos). Vivem em Lisboa
Veio para Portugal em 10SET75 (28 anos) com Raimundo e as duas filhas: Maria Cristina e Maria Teresa.
Estabilizaram a vida no Porto. Ele como vendedor, ela como empregada numa loja de lojas louças e cristais.

Maria Cristina Marques Soares
Nasceu em 28JUL70 (35 anos) em Luanda, pelo que foi gerada em finais de OUT 69.
O pai pode ser José Luís (que na altura tinha 22 anos ou Raimundo que tinha 32; a mãe tinha 22)
Veio para Portugal em 10SET75 (5 anos) com a mãe, Raimundo e a pequena irmã Maria Teresa.
Divorciada, sem filhos
1,63 m / 60 kg
Morena, cabelo curto, negro, olhos negros
Completou o 12º ano em 1988 (18 anos)
Logo de seguida foi trabalhar para uma empresa têxtil de Guimarães, pertença de um retornado. Foi viver para aquela cidade
Casou em 12JUL91 (21 anos) com Rui Manuel Costa Mendes de 35 anos e divorciou-se em 13 NOV94 (24 anos)
Em 28FEV97 começou a viver com Aníbal Castro de Jesus de 40 anos e foram viver para a Trofa, onde trabalhava numa pequena confecção do companheiro
Em 01OUT03 passou a viver com o sócio do Aníbal, Jaime de Sousa Cruz de 45 anos, e o outro deixou a sociedade
Em 19AGO05 (sábado) decidiram separar-se e em 12SET05 começa a trabalhar para uma agência de viagens na Maia que pertencia a uma amiga, Maria Helena nascida a 03OUT66 (39 anos), nascida em Luanda, retornada e casada com Joaquim Mendes de Brito. Em 18SET05 foi viver para um T2, mesmo ao lado do José Luís

João Manuel Leite Pinto (amigo)
Nasceu em 24MAR45 (60 anos)
Casou em 24AGO70, há 35 anos (25 anos)
1,75 m / 70 kg
Cabelo branco (dantes era castanho), calvície acentuada, olhos castanhos
7º ano dos liceus
Bancário reformado desde os 52 anos
Serviço militar feito entre 1964 e 1967. Em Angola entre 1965 e 1967
Casado com Hermínia Franco Magalhães que nasceu em 25FEV48 (57anos), professora primária reformada, 1,65 m / 63 kg, cabelos branco não pintados (antiga loira), olhos azuis
Vivem em S. Mamede de Infesta.
Foi fundamental na ajuda a José Luis na fase terminal da doença, juntamente com a empregada Rosa
Três filhos: Paulo Magalhães Pinto (33 anos) deu-lhe 2 netos, Sofia Magalhães Pinto (32 anos) deu-lhe 1 neto e Susana Magalhães Pinto (29 anos) todos casados.

Rosa Maria da Silva Santana (empregada)
Nasceu em 12ABR65 (40 anos)
Casada com o António, 50 anos, ex-toxicodependente e alcoólico, que por vezes agride a mulher. É empregado de mesa.
Tem o 6º ano de escolaridade.
1,58 m / 60 kg
Cara bonita, cabelo castanho pelos ombros, olhos castanhos, arranja-se bem.
Uma filha com 20 anos, já casada, e que foi para o Canadá.
Trabalha há 3 anos em casa dos Novais.
Trabalhava 2 horas por dia na casa do Zé Luís e da Guida.
Com a doença, conseguiu passar a trabalhar 5 horas, prescindindo de uma casa onde também prestava serviço e dando 3 horas que dedicava a ela mesma e ao marido. Uma era à noite.
Pouco antes do falecimento da Guida pôs o António fora de casa após mais uma tentativa de agressão.
Passou a viver sozinha, mas tem como amante um electricista de 43 anos, Carlos, casado e com 2 filhos, 1,73 m / 78 kg

Horário de trabalho: Todos os dias das 09:00 às 11:00 e às 3as e 5as das 14:00 às 16:00

Marlene (a meretriz)
22 anos, loira falsa, magra, 1,65 m / 65 kg.

Júlia Campos (a professora)
52 anos, mas parecia ter mais 8 ou 10, divorciada há 10 anos, 2 filhas casadas (Maria do Céu e Maria de Fátima) e um neto da primeira, professora de Português no Porto, 1,60 m / 75 kg. Vive só. Cabelos castanhos pintados e rarefeitos. Asmática.

Fernando Brandão (o advogado para Rosa)


Saavedra (o ex-vizinho que vende o flat a Cristina)



A HISTÓRIA

1) 18 de Agosto, quinta-feira, Zé Luís recebe a visita de João Manuel dois dias depois da morte de Margarida, a sua mulher, com cancro de estômago. Vão-se reencontrar na missa de 7º dia a 22 de Agosto, 2ª feira.
2) Descrição de Zé Luís e Guida.
3) Descrição de João Manuel e Hermínia
4) Mais conversa entre os dois amigos
5) 19 de Agosto, sexta, Zé Luís conversa com a empregada Rosa.
6) Descrição de Rosa
7) Visita a sogra no lar e diz-lhe da morte da filha na sexta, 19
8) Fim-de-semana. Bilharada com o João Manuel. Almoça em São Mamede. Conversa com o amigo sobre a falta de uma parceira e sobre a vida sexual.
9) 22 de Agosto: reparando na Rosa; missa de 7º dia
10) Intensificando buscas de contactos na Internet
11) 26 de Agosto: encontra Maria Cristina na agência de viagens de Maria Helena. Conhece Júlia Campos na Net.
12) 31 de Agosto: um encontro com Júlia, no Porto.
13) 1 de Setembro: conversa com a Rosa.
14) 2 de Setembro (6ª): Procurando uma meretriz no jornal, falando com Rosa
15) Fim-de-semana: Bilharada com o João, João e Mina vão a casa dele, cemitério, cinema, visita à sogra. Muito choro e saudade.
16) 5 de Setembro (2ª): Conversa com Rosa e vê Maria Cristina a sair do T2 vizinho.
17) 6 de Setembro (3ª): Só uma conversa com Rosa
18) 10 de Setembro (Sab.): Cristina muda-se para o apartamento ao lado e pede-lhe ajuda
19) A 11 de Setembro (domingo), Zé vai ajudar Cristina e vem jantar a casa dele, os dois. Noite de sexo entre Zé e Cris.
20) 12 de Setembro (2ª) – conversa com a Rosa de manhã.
21) 13 de Setembro (3ª) – conversa com a Rosa que, entretanto, já fora espreitar à agência.
22) 14 de Setembro (4ª) – Missa do 30º dia do falecimento. Conversa como João.
23) 15 de Setembro (5ª) – Jantar e noite com Cris.
24) 18 de Setembro (domingo) – Almoço e tarde com Cris. Jantar em casa do Zé. Esta fala na família e decide apresentar Laura ao Zé. Sexo
25) 19 de Setembro (2ª) – Cristina vai a casa da mãe. Descrição da mãe. Cristina fala sobre o seu novo parceiro. Laura fica alarmada e conta à filha o seu passado.
26) 20 de Setembro (3ª) - Cristina fala com Zé sobre as dúvidas na sua paternidade.
Zé marca os testes de ADN no Instituto de Genética.
27) 21 de Setembro (4ª) – Ambos vão fazer os testes de ADN. Rosa estranha o patrão ter saído tão cedo. Zé vai a Santo Tirso.
28) 22 de Setembro (5ª) – Rosa e Zé conversam pela manhã.
29) 26 de Setembro (2ª) – Rosa vai ao advogado Fernando Brandão.
30) 11 de Outubro (3ª) – Rosa encontra o Zé adoentado, na cama. Tem relações pela 1ª vez. De tarde, ele faz-lhe a proposta de ir dormir com ele às 2ªs e 5ªs. Ela aceita.
31) 21 de Outubro (6ª) – Zé vai buscar o resultado do teste. É negativo. Ele telefona de imediato para a Cris. E esta para a mãe. Em casa de Cris, à hora do almoço, combinam deixar de ser amantes mas continuar a ser amigos. Zé convida o amigo João para almoçar no sábado depois da bilharada.
32) 22 de Outubro (sábado) – Almoço dos amigos
33) 24 de Outubro (2ª feira) – Zé e Rosa. A união de facto. A morte de Josefina
34) 25 de Outubro (3ª feira) – O funeral
35) 26 de Outubro (4ª feira) – Um dia calmo. Um encontro do Zé com a Cris. O fim