Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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sábado, março 04, 2006

Uma taça de champanhe

Estávamos no início dos anos sessenta.
Vivia com os meus pais e a minha irmã numa casa independente, com dois pisos, alugada (como era habitual na época), com um pequeno quintal nas traseira e uma ameixieira que dava uma dúzia de frutos de dois em dois anos e que acabou por ser cortada para deixar o sol iluminar melhor esse espaço aprazível.
Não estou certo, mas penso que foi no jantar dos meus doze anos, portanto no dia seis de Janeiro (sim, nasci no dia de Reis), em que recebemos a visita de uns três ou quatro familiares.
Tudo correu bem.
A comida, boa como sempre, os doces, o champanhe, o pequeno mas imprescindível discurso do meu velho (que naquela altura ainda era novo), os brindes, o “Parabéns a você”, enfim...tudo o que era habitual, lá em casa, nessas ocasiões.
Eu não bebia álcool, mas tinha a autorização paterna para ingerir um pouco da agradável e borbulhona bebida.
Terminada essa fase, ficamos todos sentados, à mesa, a conversar.
Eu, pequenote e sossegado, postado à direita do pai todo poderoso, mas num outro lado da mesa rectangular, ouvia sempre com atenção as conversas dos mais velhos.
À minha frente, vazia, a taça de champanhe. Daquelas com uma base circular, um pé estreito, razoavelmente alto e a coroá-lo, o receptáculo do líquido.
Ao alcance da minha mão direita, uma faca.
E este mocinho começou a dar umas pancadinhas suaves a meio do vertical pedúnculo do recipiente.
Plim...
Passados um minuto ou um pouco mais.
Plim...
Outra vez.
Plim...
Mais uma pancada seca.
Plim...
E os plins foram-se sucedendo até que o meu pai, talvez já incomodado com a sonoridade e os intervalos quasi iguais entre uma batida e as seguintes, disse:
- Oh rapaz! Está quieto com isso! Ainda partes a taça e levas uma chapada na cara.
- Já bati muitas vezes e não parte – retorqui, confiante na minha capacidade de controlar a potência dos toques.
- Já te avisei! Depois não te queixes! – voltou à carga o chefe.
Pelo sim pelo não, achei melhor não dar mais nenhum plim (o respeito é muito bonito!).
Passados uns minutos e já um tanto chateado de estar quieto, resolvi pegar na taça pela parte bojuda e deslocá-la um pouco.
- Ohhhh...está partida!
De imediato:
Pumba!
E desta vez, o som foi o de uma mão de adulto a bater na face de um garoto.
- Eu não te avisei? Afinal partiu ou não partiu? – interrogou-me o progenitor com cara de poucos amigos.
Claro que eu comecei num pranto. Não tanto pelo bofetão mas sobretudo pelo amor próprio ferido.
Traidor de vidro. Partiu exactamente no sítio onde eu dava os toques, a meio do pé, mas permitiu que a taça ficasse parecendo incólume. Quando levantara a peça de vidro, a metade superior ficou na minha mão e a inferior, quietinha, pousada na mesa.
- Oh Fernando! Não precisava de bater no menino. E logo no dia dos anos.
Muitas vozes se levantaram em minha defesa, mas o bofetão já tinha sido aplicado.
E assim, esse meu aniversário ficou assinalado pela aprendizagem de que não se deve fazer plim batendo com aço em vidro, e de que o meu pai era um homem de palavra.

36 Comments:

Blogger Leonoretta said...

antonio, nunca ouviste dizer que o material tem sempre razão? querias desafiar as leis da física... não pode ser.

acerca do comentario que deixaste no meu sitio... não tens manias? se calhar dizeres isso já é uma grande mania, rssssss

abraço da leonoreta

4:00 da tarde  
Blogger A.na said...

Meu A.
sabes?O meu também....
Homem de palavra.Uma e basta!
Meu Pai.

Só podias...meu Reizinho
dos bons sabores.
Fora do tempo...mas
Parabêns.Mts!

Gostei tanto de te ler...
meu A.de mocinho querido.
Plim...a.braço-te
e beijo-te tb.Tchim-tchim!!

5:24 da tarde  
Blogger Leonor C.(nokinhas) said...

Foi de tal maneira que nunca esqueceste!

6:57 da tarde  
Blogger Su said...

gostei desta tua partilha
gostei de ler, de imaginar, de sentir..
jocas maradas

7:43 da tarde  
Anonymous Maria Papoila said...

António gostei desta história do quintal da árvore, do aniversário da mania do "barulhinho" da teimosia do não parte. Estive sentada à mesa contigo e vi a cara de teupai e quase ouvi a bofetada e o choro de humilhação. Foste ao baú e eu gostei muito.

9:38 da tarde  
Blogger wind said...

Gargalhadas:)))))
Como sempre uma boa descrição dos pormenores e hilariante a bofetada que apanhaste. lololol. Sou tão mázinha:-) beijos

9:54 da tarde  
Blogger Lumife said...

Em Alvito acontece...

Já somos 44...

Esperamos muitos mais


Bom fim de semana

10:49 da tarde  
Anonymous GR said...

Extraordinária esta crónica!
Em tão poucas palavras, vemos e lemos “cenas familiares”!
A casa, o quintal, o aconchego familiar. As longas e enfadonhas, conversas dos adultos, numa época em que as crianças tinham que estar quietas e mudas!

Adoro as tuas crónicas!
Ri-me, com a teimosia do PLIM!
Reli, com nostalgia!

Adoro as tuas crónicas!

Um beijo,

GR

12:43 da manhã  
Blogger Heloisa B.P said...

Meu Amigo*,
Voltamos as Suas saborosas Historias(no caso mais "dolorosas" que saborosas!...), com seu Estilo limpo e escorreito que nos faz VISIONAR as cenas e, ate' sentir as "Emocoes"!
_CONHECO(conheci!0 ESSE AMBIENTE_ESSE PAI_!...
Ja' nao ha' desse "MOLDE":capazes de uma bofetada na hora certa(respeitinho e' muito bonito!)mas, tambem, capazes de AMAR e darem a VIDA PELOS FILHOS!
_Enfim, "outros tempos, outras vontades!"
Meu caro antonio*, fui deixando por ai' algumas (poucas) palavras, mas insuficientes para dizer o que merece ser DITO de SUA ESCRITA!
_estou infelizmente, sem capacidade para escrever mais e \melhor!
Tentarei voltar ao ASSUNTO quando me sentir com um pouco mais de eenergia(interior e exterior!).
QUERO AGRADECER-LHE, DE CORACAO, AS PALAVRAS SEMPRE BELAS QUE DEIXA EM MEU BLOG!
OBRIGADA!_ATE' SEMPRE!
UM ABRACO!
Heloisa.
************

1:47 da manhã  
Blogger Betty Branco Martins said...

Querido António

Pois é o menino portou-se mal - PLIM!!!

Fico sempre maravilhada com os teus "detalhes" é uma verdadeira "riqueza" na tua escrita - perfeita.

Beijinhos

Bom domingo

3:21 da tarde  
Blogger António said...

Para "GR":
Obrigado por mais uma visita.
Gostei que tenhas gostado.
(quando é que me dás um contacto pessoal? Gostava de trocar impressões contigo, mas em privado)

Beijinhos

3:30 da tarde  
Blogger Paula Raposo said...

Adorei, António. Está muito interessante a aprendizagem. Sem dúvida. Gostei de ler o carinho das tuas palavras. Beijos para ti.

3:38 da tarde  
Blogger Caiê said...

Não faço ideia se o meu pai é homem de palavra ou não... :)
Eis que te deixo com mais um enigma...
Gostei da frase que te doeu mais o amor ferido do que a bofetada... ;)

7:14 da tarde  
Blogger SaltaPocinhas said...

Também apanhei uma palmada por ter partido uma taça de pé alto... Mas a minha estava no lava louça e eu parti-a ao tentar salvar a vida dum peixe (a minha mãe tinha acabado de comprar peixe e vinha lá no meio um pequenino que ainda estava vivo). Meti-o na taça que era o que tinha mais à mão. O peixe estava mesmo vivo, virou a taça e ela partiu-se. A minha mãe apercebeu-se mas eu disse que não tinha partido nada. Como partiu pelo pé (raispartam os pés das taças) eu voltei a pôr tudo direitinho. Quando o meu pai chegou e descobriram que eu tinha partido a taça levei uma palmada. Ele disse que não foi pela taça mas pela mentira, mas eu sei que foi por causa do rio da taça! Uns dias ou meses depois, não sei ao certo, partiram quase todas com aquele tremor de terra de 68 ou 69. Abençoado!

7:28 da tarde  
Blogger SaltaPocinhas said...

"RAIO" da taça e não "rio"

7:30 da tarde  
Blogger pachita said...

Ah, afinal, no início dos anos sessenta já existiam teenagers inconcientes.
hehehe.

Gostei muito. Um texto claro, simples e muito bom.

Beijinhos

10:25 da tarde  
Blogger lena said...

amei este "plim" ao cair da noite não gostei do "bofetão" criança sofre

o meu pai também era assim, um não dele valia para sempre, logo eu que nasci rapariga, quando muitos desejavam um rapaz e fui criada meio "maria-rapaz", levei tantos "nãos" e passei eu a dizer "sins"

gostei desta tua partilha, é algo que fica gravado num dia especial e foi muito tão bem contado quase senti o barulho do "bufetão" até que doeu sim, eu "senti"

reizinho tambem és de janeiro, e não dizias nada

beijinhos para ti meu querido amigo

lena

10:29 da tarde  
Anonymous mocho said...

Não percebo como é que tiveste "vozes que se levantaram em tua defesa"!!!! Só se perderam as que se pouparam...ha, ha, ha!!!!

12:18 da manhã  
Blogger lazuli said...

Fazes do mais simpes episódio uma história que nos encanta. Tens o dom da comunicação, da empatia.
Gosto de te ler, sempre. Um beijo. Fernanda.

3:45 da manhã  
Blogger hodiguitria said...

Eu nem posso contar as asneiras que fiz quando era criança - hoje são clássicos das reuniões de família... Comigo, a retórica do chinelo era pouco eficaz, mas a minha mãe também era (e é!) uma mulher de palavra! ;)

1:23 da tarde  
Anonymous topazio2004 said...

Deambulando cheguei, lendo, maravilhada fiquei.
Prometo que voltarei!
As histórias que nos são comuns
abraço

5:10 da tarde  
Anonymous Ana Joana said...

Olá António,

Ao longo da nossa vida, há cenas ou episódios que ficam gravados na nossa memória pela intensidade de sentimento que produziram.

Tadinho, tambem teria ido em teu socorro se lá estivesse. Estou aqui hoje, agora e mais uma vez a sentir que precisas de colinho, ainda que diferido (rssss). Por isso, um beijinho inho inho

Ana Joana

7:42 da tarde  
Blogger Ovelha Negra said...

:) hehehe até eu ouvi o bofetão aqui! que chapadona...
com os meus pais a história é a mesma..."se cais apanhas por cima!" "já te avisei que isso parte! vê lá....mau!" e pumba! sonoridade fantástica! "se choras ainda levas ...não foi por falta de aviso!" lol
e foram poucas as que levei sem razão hehehe
(tens mesmo poder da palavra...;))
Um beijinho grande, que já cá não dou as caras há muito...

8:03 da tarde  
Blogger António said...

Para "ana joana":
Muito obrigado pela visita e pelos mimos...eh eh

Beijinhos

10:24 da tarde  
Blogger pinky said...

vivências e aprendizagens que não se esquecem....

10:37 da tarde  
Blogger Menina_marota said...

AHAHAHAHAH... desculpa a gargalhada, mas foi sincera...e, acompanhada de... só se perderam as que caíram no chão... eheheh
Plim... isso é lá coisa que se faça no vidro... pois é, vidro que se preze, não gosta de plim...no minímo de plom...que foi o que ele fez... eheheh

plom...


Beijo sorridente... ;)

10:58 da manhã  
Blogger heidy said...

Toni! é disto que eu gosto. :p O maldito plim traiu-te pah! lol Ficaste com fobia às taças?

bjokas
(hoje ao longo do dia vou lendo o resto do teu "folhetim")

11:21 da manhã  
Blogger macaso said...

"E ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e subiu aos Céus e sentou-se à direita do Pai"

Muito interessante. E a psicanálise explica...

11:33 da manhã  
Blogger Menina_marota said...

Claro que não!
Mas não é o que os "antigos" costumavam dizer?
Pelo contrário, acreditas se te disser que nunca bati nos meus filhos?
Sou contra qualquer tipo de violência!
Mas por outro lado, quando começo a ralhar, ninguém me cala, até dizer tudo o que tiver para dizer!! eheheh

Bj ;)

11:44 da manhã  
Blogger Ana Maria said...

toma lá que já comes ou melhor bebes!hihihi
muito gosto das tuas histórias.

5:28 da tarde  
Blogger Luís Monteiro da Cunha said...

Pois de plim em plim, acabaste de partir-me todo a rir de ti... mas olha que também eu muitas vezes fiz plim e depois ouvia plaf e... este som digo-te... não era nada agradável... deixava a cara quentinha!

Abraço

6:20 da tarde  
Blogger Zica Cabral said...

MAS QUE TE DEU A TI PARA FAZERES PLIM?
SE TIVESSES PASSADO A MÃOZINHA PELA BORDA DO COPO SE CALHAR TINHAS OUVIDO UM AMVIOSO SOM E NÃO TERIAS APANHADO UMA ESTALADA.......( QUE EU ATÉ SOU CONTRA A VIOLENCIA MAS ACHO QUE FOI BEM APLICADA AH AH AH )

7:25 da manhã  
Blogger margusta said...

Querido António,
...desculpa mas não pude deixar de me rir ao imaginar a tua cara quando pegas-te na taça e ela estava partida...lol..

Beijinhos muitos.
Ps: agora já sei quando fazes anos :)) mais uma semaninha e faziamos no mesmo dia :))

11:44 da manhã  
Blogger amita said...

Plim... Plim... Pumba!...
Adorei a tua história.É bem verdade que nesses tempos o pai só necessitava de falar uma vez. Parabéns António pelo dia de Reis e por esta recordação que partilhas numa escrita clara e minuciosa. Um bjinho e uma flor sempre viçosa

9:57 da tarde  
Blogger Bárbara Vale-Frias said...

Estou a ver que voltaste a falar de ti, a contar histórias deliciosas do teu passado. lamento tanto não ter tempo para te visitar nem para escrever no meu blog :(

Um dia destes, explico-te estes últimos meses desgastantes que tenho tido :(

Adorei esta história... o bofetão, desculpa lá, foi bem dado ;) Eu sou apologista de que uma palmada e uma bofetada podem fazer milagres, desde que, claro, não sejam prática corrente mas apenas usadas na altura certa!

2:54 da tarde  
Blogger The Woman +K(P) said...

Sabes que mais meu querido, só espero que os meus rapazes, quando recordarem alguns inevitáveis "safanões" que obrigatóriamente já tive que lhes aplicar, o façam como tu o fizeste aqui... Eu não sou nada apologista da "violência" mas digam lá o que disserem, tem alturas que um "estalo" na altura certa vale muito mais que meia duzia de semões ;-)
Jinhos ternos

8:36 da tarde  

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