Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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quinta-feira, fevereiro 23, 2006

O viúvo - parte XVIII

- Negativo! – disse ele com um tom de voz que não escondia a satisfação – que alívio, Cristina! Não saberia bem como lidar com uma filha e com o incesto, ao mesmo tempo.
- Que bom, Zé! Que bom! – desafabou a mulher – comigo também se passava o mesmo.
E baixinho para que ninguém, por perto, ouvisse:
- Um novo pai que era o meu amante. Que situação complicada!
- Sabes que até chorei? – disse ele.
- Pois! E eu estou com as lágrimas nos olhos – revelou a morena – agora vou telefonar à minha mãe. Queres ir almoçar comigo?
- Está bem! Eu passo por aí à meia hora.
- Está combinado! Até já! – despediu-se a vizinha.
Logo de imediato a Cris ligou para o telemóvel da mãe.
- Mãe? Tenho boas novidades para ti.
- Virgem Santíssima! O teu pai é mesmo o teu pai, é isso? – perguntou, ainda angustiada, esquecendo-se que havia pessoas por perto.
- É isso mesmo! O teste deu negativo! Foi um alívio para os três – disse a filha.
Do outro lado não ouviu palavras mas só um choro soluçado que a deixou sossegada. Era a mãe a libertar-se finalmente do peso que trouxera no coração, talvez fosse melhor dizer na consciência, durante tantos anos.
Também a filha não resistiu e começou a chorar para espanto da Maria Helena que continuava completamente à margem do que se passava.
- Estás bem, Cristina? – perguntou.
A amiga e empregada limitou-se a um sorriso molhado com lágrimas e a um abano de afirmação com a cabeça.
Passado mais de um minuto a filha chamou a mãe:
- Oh mãe! Já pode falar? Está bem?
- Sim! Sim! Sim! Está toda a gente a olhar para mim...que vergonha! – disse a mais velha das duas.
- Deixa lá! Eu também já estive aqui a chorar – confessou-lhe a Cris.
E continuou:
- Olha, mãe! Eu vou almoçar com o Zé Luís e logo passo por aí às oito e vamos as duas jantar fora, valeu? Põe-te bonita!
- Está bem, filha! Tu reagiste muito serenamente quando te dei a novidade. Agora mostraste que também estavas sob tensão.
- Pois é, mãe! Às vezes temos de esconder o que nos vai cá dentro. Mas em algum momento há a explosão. Acho que renascemos os três – filosofou a filha – então até logo. Um beijo muito grande!
- E para ti também!
E desligaram.

Pouco depois, já era quasi meio-dia e meia hora, ouviu-se um buzinar no exterior. Lá estava o 307 do Novais.
- Maria Helena! Eu vou sair agora, está bem? – pediu a Cris.
- Está na hora! Bom apetite e que a companhia seja boa – respondeu a Lena sem conseguir evitar lançar uma farpa para ver se a amiga se abria alguma coisa; mas só conseguiu um:
- Então, até logo!
E um beijo.
Quando a Cris entrou na viatura agarrou-se ao Zé, beijou-o suavemente nos lábios, encostou a cabeça no peito do homem e recomeçou a chorar.
- Chora, Cris, chora! Faz-te bem aliviar a tensão acumulada.
Colocou-lhe a mão por cima e também ele verteu algumas lágrimas.
- Não arranques já, Zé! Deixa-me normalizar, está bem? – pediu ela.
- Está bem! Eu também chorei no caminho para cá. Até me ía despistando na Via Norte...
- Sabes que não tenho vontade nenhuma de comer? Acho que vou para casa – disse a morena.
- Nem eu! – disse o Zé.
- Então vamos para minha casa e lá enganamos o estômago. Não te admires se não falar muito, mas ainda estou emocionada. Não fazes ideia do que foi este mês para mim. Eu e a minha mãe valemo-nos uma à outra. Mas nunca lhe disse que tínhamos tido relações, evidentemente – falou a Cristina.
- Já posso arrancar?
- Já! – disse ela, e sentou-se correctamente no banco, colocando também o cinto de segurança. Olhou para o espelho e limpou a cara:
- Como estou horrorosa!
- Tu nunca podes estar horrorosa – galanteou o Zé.
Pouco depois estavam em casa dela.
Pouco falaram durante os primeiros minutos.
- Ah! E a tua mãe como reagiu ao saber da novidade? – perguntou ele.
- Esteve uns minutos a chorar. Imagina o que é ter um segredo destes guardado no peito durante trinta e cinco anos! Logo vamos as duas jantar fora.
- Fazeis bem! – apoiou o quinquagenário.
- Sabes, Zé! – disse ela – acho que nos próximos tempos não vou querer ter contactos íntimos contigo. Acredites ou não, depois do que se passou olho para ti como uma espécie de pai. Possivelmente isto será ultrapassado mas só o futuro o dirá.
- Eu também te vejo com outros olhos. Exactamente como uma espécie de filha. Acho que o que passamos durante este mês deixou sulcos muito profundos em nós. Estou totalmente de acordo contigo. Mas acho que vamos ter uma belíssima amizade. E gostaria de estar com a tua mãe.
- Estamos em consonância. Eu vou tentar realizar o tal jantar a três que ficou em suspenso, lembras-te? – perguntou ela.
Mas não esperou pela resposta:
- Vamos lá ver se não tenho de me esforçar um bocadinho para convencer a minha mãe.
- Eu compreendo se a Laura não me quiser ver – disse o Novais – acho mesmo que não lhe fará bem estar comigo, pelo menos nos tempos mais próximos.
- Tens razão, velhote – e riu-se, a mulher – nem lhe vou falar no assunto.
- Então está combinado! Amigos e não amantes! – resumiu o José Novais – e deixemos que o futuro decida por nós.
E depois de comerem muito frugalmente, ela voltou à agência e ele foi para casa.
Não passou muito tempo e o Zé Novais, que sentia há muito necessidade de desabafar, telefonou ao amigo João e disse-lhe:
- Meu velho! Tenho uma história do arco-da-velha para te contar. Mas é só a ti. Depois, se quiseres, podes dizê-la à tua mulher. Portanto amanhã vamos fazer a nossa bilharada e convido-te desde já para depois irmos almoçar os dois a um restaurante. Talvez àquele da Leonesa. Ao sábado deve ter pouca gente e podemos falar à vontade.
- Agora deixaste-me em pulgas. Tu, de facto, tens andado um bocado em baixo. Mas quando eu te perguntava o que se passava tu dizias que estava tudo bem...mas aceito o convite, evidentemente – confirmou o João Manuel Pinto.

No sábado encontraram-se e, perante o espanto do amigo, o José Luís Novais contou-lhe tudo o que acontecera desde que a Maria Cristina fora viver para o apartamento vizinho.
- Olha que nem sei se fale nisto à Mina. Ela não é muito puritana, mas a história mais parece um romance do Eça – comentou, em certo momento, o mais velho.
- Faz como quiseres! Mas não fales nisto a mais ninguém – recomendou o homem mais novo.
- E a Rosa? – quis saber o João.
- Bom! Essa é outra história! Fica para outro almoço – e riu-se.
Terminada a refeição, que demorou bastante tempo, foram dar uma volta a pé.
- Não vou hoje a Santo Tirso. Tinha essa ideia mas já é um pouco tarde. Vou amanhã.
- Sabes que noutro dia fui lá com a Mina? – revelou, questionando, o amigo de S. Mamede – acho que não vai durar muito. Estava a dormitar e ficamos lá pouco tempo. Acho que já anda por cá a fazer muito pouco.
- Isso é verdade! Mas, como sabes, além de ser a mãe da Guida, eu gostava muito dela e é-me sempre difícil lá ir vê-la. Mas não a quero deixar morrer sozinha. Faço-o por obrigação mas também por dedicação – disse o Zé.
- Tu és um tipo porreiro! Olha que qualquer outro já se tinha esquecido da senhora e ficava a aguardar um telefonema a dizer que morrera.
- Sim! Mas eu tenho tempo para a acompanhar o melhor possível.
E conversaram sobre outros assuntos mais. Já passava das quatro e meia quando se despediram.

25 Comments:

Blogger wind said...

Já se previa que não eram pai e filha, agora não acredito que fiquem só pela amizade. Entre eles houve algo muito forte. Só se cada um achar que o que teve foi só sexo. beijos

12:32 da manhã  
Blogger pinky said...

vá lá desta foi só 1 dia de espera ufaaaaaaa.... :)
muito bem desenvolvida a história, ou estória, confesso que nunca sei.
agora é aguardar pelo romance com a rosa, ou será que ainda surge ainda outra personagem?!, tu não me digas que o zé vai ficar a babar pela mãe da cris.....

12:50 da manhã  
Blogger lazuli said...

agora revelaste um Novais mais humano. Mostraste a sua angústia durante a espera, a serenidade do seu encontro com a Cris, a alegria da notícia. E contrariaste alegremente a ideia de que a primeira coisa que ele iria fazer, seria atirar-se para cima dela.
Eis uma pausa bem conseguida, com algumas lágrimas pelo meio, e com muito "suspense".
E agora não me digas que vais acabar a história abruptamente, não, não pode ser.
Seja qual for o desfecho, acaba com calma, criando a cumplicidade do teu leitor num final que deixe aquela sensação de querer permanecer mais um pouco dentro da história.

Muitos beijos

fernanda g.

5:25 da manhã  
Blogger Xuinha Foguetão said...

Muito bem!
Sim senhor!

E agora só falta mais um...

Beijocas.

11:12 da manhã  
Anonymous hodiguitria said...

Hmmmm...boa solução! Acabou o 1º mistério. E agora. Rosa ou Cris? ;)

12:02 da tarde  
Blogger Caiê said...

Eu já tinha dito... eh eh eh!
Bom, mas um orgasmo em simultâneo de primeira entrada não se fica por amizade em seguida... digo eu! Anda Rosa, não faças a mala, que ainda é cedo!

3:53 da tarde  
Blogger Paula Raposo said...

Ok, António. Bastante interessante esta história. Beijos, bom fim de semana e as tuas melhoras...

4:01 da tarde  
Anonymous Maria Papoila said...

António hoje a tua escrita esteve soberba. Conseguiste transmitir todas as emoções. Gostei muito. Beijo

6:56 da tarde  
Blogger marakoka said...

opsssss que acabou o meu sufoco...
enfimmm amigosssss como pai e filha:))))
pois bem....e a mãe ?....e a empregada ?...e a ..?....
opsssss afinal eu nem por isso vou descansar.....
estou alerta para o último....
imagino divino:))) como só tu o sabes:)))

gostei de ler.te
jocas maradas

9:22 da tarde  
Anonymous GR said...

Zé Luís é um homem de princípios!
Continua a visitar a sogra!
Não consegue continuar, o romance com a Cris, devido ao sucedido!
Chorou com a emoção do resultado das análises!
Sim! O Novais, tem sensibilidade!
A Cris, também não é assim tão desmiolada!
Como o que aconteceu, foi meros momentos de sexo, entre dois adultos carentes, nenhum vai sofrer com a separação.
Mas acredito que vá nascer uma sincera amizade!
Entre a Rosa e a D. Laura???
Não vai ficar com nenhuma!
Quando muito terá a Rosa por perto!

Se não acerto no totoloto, muito menos nesta história!
Está quase!
Adorei, ler esta folha hoje!
Parabéns!

Bjs,

GR

11:05 da tarde  
Anonymous Ana Joana said...

Uffaaaaaaa! que alivio! tambem descomprimi mas juro que não vou chorar! Que bom o teste ter dado negativo, assim o coitadito do Zé pode continuar a sua nova vida com tranquilidade, a Laura serenou a culpa-duvida de tantos anos e a Cris já vai dormir descansada novamente. Só achei um bocadito de lagrimas a mais eheheheh.

Para o José Novais, tem que haver um final interessante, quiçá desconcertante! Fico à espera.
Beijinhos
Ana Joana

11:52 da tarde  
Blogger Heloisa B.P said...

Continua prendendo as atencoes, Carissimo Amigo!
Cheguei AQUI* em atraso e tenho estado a ler O TODO*!_E...O TODO*, E' EXCELENTE!
Perdoe-me, mas, e' com alguma dificuldade que escrevo, por tal motivo, fico por aqui! contudo, regressarei, assim que tenha capacidades "renovadas"!
OPTIMO FIM DE SEMANA!
Fica um Abraco*!
Heloisa.
**************

1:45 da manhã  
Blogger lena said...

a noite vai alta, o sono não vem e vim até aqui ler-te, ainda bem, os livros da mesinha de cabeceira estão em dia, este capitulo, estava à minha espera
cada episódio me tem marcado pela positiva, se o anterior o achei excelente, não sei que posso dizer deste, a tua forma de escrever impressiona e agarra-me à leitura de uma maneira surpreendente e cada vez mais

claro que disse: " ufa" ainda bem que ele não é o pai

emocionei-me com o que me conseguiste transmitir, a ansiedade da Cris e do Zé, foi excelente a forma como a escreveste

A Cristina contar logo à mãe, cheia de emoção o resultado da análise e como gostei de a "ver dizer "o meu pai é mesmo o meu pai"
a angustia que se fez sentir da mãe , viveu todos aqueles anos com um peso, carregou sozinho e finalmente se liberta daquela situação e a fez chorar pelo peso que trazia na consciência, acho que lhe senti o soluçar

A Cris continua a "dar cartas" não é de estranhar é a personagem que mais me cativou,
aquele esperar antes de continuar a andar de carro, aquele reencontro, o choro e a emoção do Zé Luis, conseguiram envolver-me

é natural um tempo entre os dois e é natural que nada mais aconteça entre eles e seja uma simples e pura amizade

a Rosa essa ficará feliz certamente, para “desgosto” meu

o Zé não subiu pontos nenhuns na minha consideração, já os tinhas, bem altos, desde sempre estive do lado dele, embora não ache graça ao romance dele com a Rosa
Adoro ver o carinho que ainda dedica à mãe da Guida, o verdadeiro amor da vida dele.

é tarde o Zé Luís já dorme e hoje não é dia da Rosa ir picar o ponto, é importante, assim sei que está sossogadito a sonhar quem sabe com a juventude dele, por terras onde eu nasci

vou esperar por mais, com tudo isto, já não tenho palpites, adoro a Cris, adoro o Zé, mas eles é que sabem o que querem fazer à vida,
ainda temos a mãe da Cristina e a Rosa no baralho, não me posso esquecer e vou ficar atenta

já escrevi demais, isto é fruto de não ter sono, que vou fazer??
vou deitar-me e sonhar com as tuas personagens, a almofada está lá sozinha e espera por mim

beijinhos meu querido amigo, António

lena

1:59 da manhã  
Blogger António said...

Para "GR":
Obrigado pela visita.
Era para fazer só mais um episódio.
Escrevi, reescrevi...
Acho que ainda vão faltar dois...eh eh

Beijinhos

9:21 da manhã  
Blogger António said...

Para "ana joana":
Obrigado pela visita.
Sinceramente, ainda não sei exactamente como vai acabar.
Ontem escrevi o final mas não gostei.
Vou fazer mais outro capítulo, já tenho material para ele.
Enfim...coisas de quem tem pouco para fazer!
ah ah ah

Beijinhos

9:26 da manhã  
Blogger caiacaina said...

Acabei de ler o XVIII cap. do romance a acabar.. pensei só comentar no fim, mas hoje, não resisto, porque com a lágrima ao canto do olho, tenho de dizer que é uma "estória" muito boa. Gostei!
Bom fim de semana e boa continuação de escrita.

10:55 da manhã  
Blogger AmigaTeatro said...

António, só para deixar um beijinho... :)*

11:06 da manhã  
Blogger António said...

Para "caiacaina":
Penso que é a primeira vez que me comentas.
Tentei ir agradecer ao teu blog mas, ou não tens nenhum ou não consegui lá entrar.
Obrigado pela tua visita e pelo "comment".
Volta sempre!

Beijinhos

2:28 da tarde  
Blogger Zica Cabral said...

Torneaste a situação com extrema elegancia e bom gosto. Afinal o Zé ficara , por agora, só com a Rosa. Depois se verá. Adoro esta história........acho sempre os episodios pequenos e leio-os com sofreguidão.
Beijinhos muito grandes e fico à espera de mais e mais.......

3:51 da tarde  
Blogger sonamaia said...

Ou me engano muito ou ainda vai surgir mais uma personagem com quem o Zé vai assentar arraiais...A Cris é uma carta fora do baralho e não me parece que a Rosa possa ser mais do que uma certa "oportunidade" à mão de semear...jinho

5:50 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

ok! o teste deu negativo. aqui foi a mão do destino. vejamos no proximo episodio se continua a ser o destino ou o livre arbítrio.

abraço da leonoreta

6:37 da tarde  
Blogger António said...

Para "sonamaia":
Obrigado pela visita.
Põe-te a dar palpites, põe!
Já escrevi tudo e agora o final agrada-me.
Acaba inapelavelmente no episódio XX (assim é conta certa..eh eh).

Beijinhos

6:50 da tarde  
Blogger Leonor C.(nokinhas) said...

Claro, acaba no fim! Mas olha que o drama não me comove e não sei porquê. Até sou de lágrima fácil contudo agora só com cebola é que saíria alguma. Não gosto do homem e pronto!

Desculpa mas sou sincera...

Bjs.

9:10 da tarde  
Blogger Luís Monteiro da Cunha said...

Está bem... assim ficaram todos muito contentes e arrumam a sua vidinha... lol

11:16 da tarde  
Blogger margusta said...

Bom dia António,
...aqui estou a continuar a minha leitura ...lol

Que maravilha o teste ter dado negativo...e foi bom saber que afinal a Cristina não estava a enfrentar as coisas tão friamente como parecia. A decisão de deixarem sde ser amantes pelo menos por enquanto pareceu-me bastante acertada...afinal depois de um drama daqueles as coisas não poderiam voltar á normalidade assim de repente.

Visto teres mencionado aqui o Eça na boca do João Pinto, deixa que te diga e isto já, mas já á muito tempo que ando para to dizer é que o que me atrai na tua escrita é o facto de a achar muito idêntica á do Eça de Queirós, de quem sou grande admiradora das suas obras.

Beijinhos e até já.

10:42 da manhã  

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