Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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quarta-feira, março 15, 2006

Diálogos de gente (I) (O ingénuo)

- Linda! Chega aqui, por favor, porque te quero dizer uma coisa – chamou o Fernando, sentado num sofá da sala.
- Só um momento! Vou já! – respondeu a mulher.
Poucos minutos depois ela instalou-se perto do marido e interrogou:
- Então que se passa?
- Hoje o Costa pediu-me cinquenta contos emprestados – disse ele.
- E tu não vais emprestar, pois não?
- Já emprestei. Ele é um tipo honesto – confessou o Fernando
- Oh homem! Caíste outra vez na esparrela? Não aprendeste com os outros que te vigarizaram? Não te lembras do da Lixa que, já lá vão uns vinte anos, te pediu trinta contos e depois fugiu para o Brasil com o teu dinheiro e o de mais uns tantos? – lembrou ela.
- Mas esse era um aldrabão! O Costa é um homem como deve ser. No ano passado pediu-me dez contos por um mês e ao fim desse tempo pagou-me tudo – justificou o Fernando.
- Também o Neves te pediu cinco contos de uma primeira vez, pagou no dia combinado, e depois ferrou-te um calote de trinta contos – lembrou outro caso, a mulher.
- O Neves também era um mau carácter!
- Dizes isso agora! Quando te pediu o dinheiro emprestado dizias que era um tipo honestíssimo – recordou a Olinda.
- Mudou! O Neves era um sujeito às direitas mas começou a conviver com uns tipos sem dignidade e, sob essas más influências, tornou-se um aldrabão – justificou, mais uma vez, o Fernando.
- Eu garanto-te que o Costa não te vai pagar os cinquenta. Os dez contos que pediu e pagou foram a isca. Tu próprio me explicaste como eles fazem.
- Pois! Tu não percebes nada de negócios. Eu já ando nesta vida há muitos anos e sei muito bem como devo fazer.
- Tu és um desgraçado, homem! Confias em toda a gente e depois fartas-te de apanhar coices – acusou a Linda.
- Eu sou um tipo honesto e de palavra – defendeu-se o Fernando.
- Mas não podes ser tão ingénuo! Podíamos estar ricos mas com a tua mania da honestidade e da honradez e não sei que mais, até durante a guerra, quando o café estava racionado, tu continuaste a vendê-lo ao mesmo preço enquanto os teus colegas enriqueciam a facturar pela tabela mas a vendê-lo realmente por preços muitíssimo maiores – censurou a mulher, que não trabalhava, como era próprio da burguesia da época.
- Mas fiquei com a consciência limpa. Quando morrer, vou-me sem remorsos – orgulhou-se ele.
- O que me espanta é que já foste levado umas seis ou sete vezes e nunca aprendeste. Sem contar aquelas em que nem me contaste. Ficaste caladinho... – continuou a Olinda a repreendê-lo.
- Nunca te faltei com nada em casa, pois não? Nem aos filhos? É verdade que podia ser mais rico, mas não suportaria o peso de não ter cumprido com a minha obrigação. Tenho princípios morais de que não abdico.
- Neste caso não está em jogo nenhum princípio moral – replicou ela.
- Mas o Costa tem tido azar na vida e, como amigo que sou, não o vou abandonar neste momento – insistiu o Fernando.
- Fazes-me lembrar o Pinheiro, do qual também disseste que tinha azar na vida e depois verificou-se que tinha azar era no Casino da Póvoa. Ou o Marques que teve azar com a amante que o sugou até ele se matar – continuou ela, demolidora.
E prosseguiu:
- Mas depois acho graça que, quando não cumprem, me vens dizer que afinal eu tinha razão.
- É! De facto, algumas vezes tens razão. Mas noutras, enganaste. O Rocha e o Machado, por exemplo, cumpriram sempre escrupulosamente.
- São as excepções à regra! Olha! Já não te digo mais nada! Vou preparar o jantar e começar a fazer mais economias para compensar esses bons “negócios” que fazes.
E o Fernando ficou outra vez sozinho na sala.

32 Comments:

Blogger António said...

Aqui em "off", informo que este diálogo não tem continuação.
Espero, isso sim, fazer outros sob o mesmo título. Daí a numeração.

Obrigado pela vossa presença constante.

5:31 da tarde  
Anonymous Topazio said...

Bem me parecia, António!
Ainda bem porqeu está muito bem como está!
Jokas

10:20 da tarde  
Anonymous Caranguejo (O Tenazes) said...

Já conheci algumas pessoas desse género. Tinha um colega de trabalho, que tinha a mania de ir tomar café sempre com uma nota de 5000$ para usar a desculpa que não tinha trocados, enquanto alguém lh pagava o dito café. Um dia teve azar, porque eu mais uns poucos, juntamo-nos numa mesa e convidamo-lo para se juntar a nós. Quando chegou a hora da "desculpa" nós, já todos combinados, dissemos: "Olha, até calha bem... Porque eu só tenho 10.000$, pagas tu a despesa de todos. Levantamo-nos e saímos enquanto ele "feliz da vida" pagava a conta. Posso dizer-te que até hoje, ele ninca mais teve a nota de 5000$ lolol. Abraços...

10:23 da tarde  
Blogger nelsonmateus said...

é pá ... já k falas nisso ... emprestas-me 50 euros? 25? 10? 5?

10:34 da tarde  
Blogger Papoila said...

este diálogo da gente está ao teu jeito e o aviso também! Gostei António. Beijo

10:42 da tarde  
Anonymous GR said...

Brilhante!
Histórias de vida!
Todos nós conhecemos ou já ouvimos falar, de pessoas que emprestam dinheiro (hoje menos) recuperando-o ou ficando sem ele!
Depreende-se que este casal é idoso! Atravessaram a 2ª Grande Guerra, com as dificuldades do racionamento e dos problemas económicos, onde os comerciantes ganharam muito dinheiro com a “candonga” ou alguns “jeitos” que faziam.Fernando era integro!
Um bom homem! Leal com os seus amigos!
Honesto, com a sua consciência!
Linda, mulher trabalhadora, perspicaz, não deixando de ser honesta, tem como princípio da vida, o seu bem-estar!
Gostei muito!
Adoro os teus Contos!

Bjs,

GR

11:01 da tarde  
Anonymous Ana Joana said...

Conheço muito bem o Fernando. E percebo na perfeição que esta história fique por aqui. Para os "Fernandos" é pouco determinante que o amigo pague ou não, porque o que interessa é a sua consciencia solidária. Conheço muitissimo bem!

Beijinhos António e ..... até novos diálogos!
Ana Joana

11:10 da tarde  
Blogger BlueShell said...

Por vezes acreditamos piamente na "palavra" dos outros e sofremos grandes decepções!
mas...é preciso continuarmos a acreditar...e a acreditar que há mais excepções...
Hoje estou cansadita: trabalhei demais

Jinhuusss
BShell

11:11 da tarde  
Blogger António said...

Para "GR":
Obrigado pela visita.
Deixa-me fazer uma correcção à tua análise detalhada.
O casal não é idoso, será de meia idade.
Mas a acção decorre alguma décadas atrás. Digo, algures, "...naquela época": e é a única pista que deixo. Nestas "short stories" que tenciono escrever, o centro são as características das personagens e não a época.

Beijinhos

11:36 da tarde  
Blogger António said...

Para "Ana Joana":
Obrigado pela visita e comentário.
Eu também conheci o Fernando.
Infelizmente há poucos Fernandos.
Se houvesse muitos, o mundo seria bastante melhor.

Beijinhos

11:38 da tarde  
Blogger pinky said...

é assim, há pessoas que nunca mudam e por muita bordoada que apanhem pela vida fora continuam a acreditar nas pessoas.

11:56 da tarde  
Blogger Caiê said...

Olha, eu já emprestei muitas coisas (que não dinheiro porque sempre fui lisa, sem dinheiro para mandar cantar um cego) que nunca me devolveram! E fiquei com vergonha de as pedir... :)

2:10 da manhã  
Anonymous Ana Joana said...

rsss, o mundo está bem assim, António. Há tantos Fernandos quantos os necessários rsss. Se houvesse mais Fernandos, haveria mais oportunistas! Temos sempre a tendencia para pensar que se houvesse mais coisas boas, tudo seria melhor, e esquecemo-nos facilmente de que todas as moedas têm duas faces!

Beijinhos para ti e um dia feliz
Ana Joana

10:37 da manhã  
Blogger hodiguitria said...

Gostei deste diálogo! Certeiro e directo ao ponto! Sinto-me solidária com a/o Caiê...por estúpido que pareça emprestei algumas coisas que nunca mais me devolveram e sempre tive vergonha de as pedir de volta!

11:40 da manhã  
Blogger margusta said...

Oh António,
...e não é que eu conheço uma "miuda" parecida :))
Nunca consegue dizer que não...umas vezes pagam-me ..outras não:((
O que vale são quantias pequenas..lol..

Beijinhos gostei...são casos reais!..

12:29 da tarde  
Blogger wind said...

Diálogos entre um casal, onde ele parece ser pachorrento e ela a que é mais terra a terra. Gostei:) beijos

1:03 da tarde  
Blogger Xuinha Foguetão said...

Olha que até estava à espera de mais...

Estou habituada aos teus testamentos! :)

Beijocas.

3:30 da tarde  
Blogger Paula Raposo said...

Um 'diálogo de gente' mesmo real. Claro e conciso. Beijos.

5:53 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Não estou particularmente inspirada mas sempre me tento...
Sabes que eu acho que a relação que temos com o dinheiro é das coisas que mais revela aspectos da personalidade que desenham o tipo de pessoa que temos à frente
Se te contasse a longa experiência(pois,posso dizer,já quarentei,pareça ou não,já cá cantam!)..de ser penalizada económicamente...acho que percebias que entendo o Fernando.
Não nasci para ser rica,alguém põs o ovo na cesta errada,quem supostamente me devia apoiar e pelo menos não me complicar a vida...enfim...as prioridades na vida das pessoas são realmente muito diferentes.
Gosto de ser como sou,am minha riqueza são as pessoas,apesar das traições,das mentiras,das injustiças...continuo a ter coração para amar poucas mas ser solidária com todos,sou incapaz de não patilhar,sofro imenso com os que não têm,sinto-me super feliz a dar..sorri,profissionsalmente é das coisas que me custa mais é fazer o preço do meu trabalho,eu não existo mesmo!
Com um testamento destes preciso de dizer quem sou?
beijos
M

8:26 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

ola antonio
esta vida entre lisboa e o norte tem-me mantido afastada das coisas, por isso ja ter perdido um post teu, o das balanças que... olha... juro que não sabia que havia tantos modelos para tanta função.

quanto a este post... bem retratado aquele bocado da vida em que os amigos nos lixam com dinheiro emprestado (sei o que isso é) ás vezs por quererem, outras sem quererem...

arriscamos o dinheiro e os amigos... mas que fazer?

abraço da leonoretta

9:34 da tarde  
Blogger António said...

Para "M":
Continuo sem saber quem és!
Tenho uma suspeita, mas...
Não tens blog?

Beijinhos curiosos

10:13 da tarde  
Blogger Betty Branco Martins said...

Querido António

Mais uma bela história "Diálogo".

Em que retratas bem o comum, ou o quase comum das pessoas

Muitos Fernandos existem - tenho a certeza :)

Parabéns, pela tua escrita de - EXCELÊNCIA!

Beijinhos

Bom fim de semana

6:40 da tarde  
Blogger lazuli said...

hoje não consigo comentar, estou "down".
Beijos

10:07 da tarde  
Anonymous Cris said...

O meu sogro foi muito cedo para Moçambique. Filho mais velho, perdeu o pai cedíssimo e a hipótese de poder singrar seria indo para o ultramar, tentar a sorte.
E a sorte sorriu, como a tanta gente que todos nós conhecemos.
Era assim um "Fernando", um encanto de pessoa.
Uma altura, apareceu um alemão lá na Ilha de Moçambique, onde ele morava habitualmente.
Foi até ao clube, onde o meu sogro estava em amena cavaqueira com mais uns tantos amigos e acabou por sentar-se na mesa ao lado.
Pelo visto, já dava "uns toques valentes" em português, e foi metendo o seu dedo de conversa.
Ora, o Pai Arménio, bom conversador por natureza acabou por convidá-lo a juntar-se ao grupo.
Foram falando, falando até que o dito alemão falou que estava a atravessar uma crise meio complicada e que cerca de 100 contos lhe resolveriam o problema (isto em 1957, mais ano menos ano, era uma verdadeira fortuna!)
Mas o meu sogro acabou por lhe emprestar o dinheiro, já que o tal senhor lhe garantiu que lho devolveria mal regressasse à Alemanha.
Claro que os amigos deram cabo da cabeça ao Pai Arménio, mas, tal como o Fernando, ele disse que iria confiar, que o homem lhe havia parecido tão sincero, que deveria devolver-lhe o dinheiro. Se não, olha, pelo menos "iria para o outro mundo sem remorsos".
Passaram-se meses, a minha sogra fartou-se de refilar com ele, que era sempre a mesma coisa, que nunca mais aprendia, e que os cem contos poderiam servir para tanta coisa. O meu sogro sorria, calava-se, encolhendo os ombros.
E o dinheiro foi ficando esquecido, esquecido, esquecido...até que uns anos depois, a Avó Rosarinho recebe uma carta da Suiça, endereçada ao marido.
Quando o Pai Arménio chegou a carta foi aberta. Dentro, vinha uma promissória de um banco na Suiça, fichas de assinaturas para serem completadas e devolvidas e os cem contos tinham rendido, rendido, rendido!
Afinal, tal como alguém aqui referiu, ainda há Fernandos que não se esquecem...


Um beijo enorme, António.
És dos mais belos contadores de histórias que conheço.
Gosto muito do teu espaço!
Faz-me bem vir aqui!
Obrigada, beijocas e venham daí mais histórias, diálogos de gente.
Bom fim de semana, Amigo.

10:34 da tarde  
Blogger lena said...

adoro ler estas tuas histórias, no fundo diálogos do nosso dia a dia, tão bem narradas como sempre. Não me chamo nem Fernando , nem Fernando, mas passo por caminhos idênticos aos dele, ainda não sei dizer não, penso sempre que é por uma boa causa, senti um pouco de mim, mas esta vida serve para arriscar, amigo é amigo e depois...

beijinhos meus querido amigo

lena

3:39 da tarde  
Anonymous mocho said...

A vantagem dos textos curtos é que dão, de forma imediata, para reflectir e para explorar fragmentos da vida. É muito difícil dizer que "não" a um amigo apesar dos constrangimentos, dissabores da vida e do desencantamento do valor da amizade. Mas todos temos a capacidade, o livre arbitrio e o determinismo de o poder fazer (emprestar) ou não, de acordo com a avaliação que se faz do amigo. Bicadinha para ti. Um grande texto, escrito ao teu nível.

5:37 da tarde  
Anonymous mocho said...

Gastrónoma? Frio, muito frio. Mudar para a blogspot? Quente, muito quente. Com esta amplitude, é só chegar e escolher o agasalho que melhor sirva...;-) Beijo grande, António.

7:00 da tarde  
Blogger Su said...

opss ei o q isso é....caio sempre...sempre ....sou mui burra... mas quero acreditar q se pedem em desespero é pq necessitam... mas digo.o ... a minha cabeça bate sempre na parede.................m.......ops hoje este "dialogo" bateu-me como uma luva.....chatice..ou melhor.........bla´..bla..blaaaa

joca maradas

9:06 da tarde  
Anonymous mocho said...

Sou mesmo: de insectos e de pequenos mamíferos - nem acredito que estou a dizer isto...:-(

9:40 da tarde  
Blogger Ana Maria said...

olhando ao título concordo com o tema e admiro-te por escreveres sobre aqueles que só são lembrados nos "Malucos do riso". porque este diálogo parece as vidas daqueles que vivem nas "ilhas", sem querer generalizar a coisa.

4:49 da tarde  
Blogger heidy said...

Cada um tem os seus principios. Guia-se pela experiência, que foi adquirindo ao longo da vida. Esta é a lição que o senhor da história não aprendeu. ;)
Vês? as mulheres têm sempre razão!!!! Segunda lição da história! lol

Besos 2

1:30 da tarde  
Blogger Heloisa B.P said...

PARECE QUE ESTOU SENTADA NUM CANTO DA SALA A ASSISTIR AO DIALOGO!!!!!
_EXTRAordinario de fluencia e realismo!!!!!!!!
MAIS UMA VEZ, *PARABENS ANTONIO*!!!!!!!!
_Perdoe-me, o ser forcada a perder SUA PROSA* e, disfrutar de "Sua Presenca"!!!
..............

"Eu sou um tipo honesto e de palavra – defendeu-se o Fernando.
- Mas não podes ser tão ingénuo!"
*******************************
POIS E', AMIGO*!...*AQUI* BATE O PONTO!_A OLINDA E' REALISTA E...O FERNANDO UM DOCE CARACTER E, UM "IDEALISTA"/INGENUO!...
Vou continuar a ler! Nao sei se conseguirei deixar mensagem nos OUTROS*, tentarei!
_UM ABRACO E MIL AGRADECIMENTOS POR SUA VISITA* E AMAVEIS PALAVRAS!
Heloisa.
************PS:, mais uma vez, me desculpo pela falta dos acentos graficos, entre outras "mazelas"!...
_FIQUE EM SAUDE*!!!!!
***********************

3:58 da tarde  

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