Eu sou louco!

Irreverência, humor, criatividade, non-sense, ousadia, experimentalismo. Mas tudo pode aparecer aqui. E as coisas sérias também. O futuro dirá se valeu a pena...ou melhor seria ter estado quietinho, preso por uma camisa de forças! (este blog está registado sob o nº 7675/2005 na IGAC - Inspecção Geral das Actividades Culturais)

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domingo, abril 17, 2005

O deslize do Bolinhas

Ano lectivo 1960/61.
Liceu de Alexandre Herculano no Porto.
Turma B do 2º ano.
No intervalo que precedeu uma aula de português, o Bolinhas, alcunha pela qual era conhecido um dos colegas (hoje, psiquiatra e poeta) devido ao seu porte anafado, teve um problema intestinal mesmo, mesmo quando estava a tocar para a entrada. O pobre do rapaz tinha de decidir rapidamente correr para uma casa de banho e chegar atrasado à aula o que, dada a severidade que reinava nas escolas daquele tempo, lhe acarretaria uma falta e alguns dissabores, ou aguentar.
O facto é que não aguentou!
Mas, estóicamente borrado, foi assistir à aula.
Ao contrário do que se poderia pensar, não houve grande alastramento de cheiro.
Mas o desgraçado do Pinduca, o colega que estava atrás dele (hoje engenheiro e presidente de uma importante Câmara Municipal), é que se sentiu fortemente afectado. E não deixou de o dizer várias vezes ao professor Cruz Lopes:
- Sr. Doutor. Aqui cheira muito mal!
- Sr. Doutor. Este menino cheira mal!
(reparem que naquele tempo não havia Setôr nem meio Setôr)
Mas recebia invariavelmente a resposta:
- Cale-se, e preste atenção à aula!
O fedor devia ser imenso pois a cara do Pinduca metia dó, apesar de tentar afastar o cheirete com a mão a funcionar como um leque.
E o Bolinhas, mais vermelho do que nunca, caladinho.
E a aula terminou, 50 minutos depois, ao toque da campaínha.
Seguia-se a aula de francês com uma senhora já velhota, a Drª Florisa Costa.
Começa a aula e pasme-se, o Bolinhas estava exactamente na mesma. Só que ainda mais vermelho pois no intervalo tinha sido bem "cheirado" e bem "gozado" pela malta. Talvez por isso nem tenha tido o discernimento de resolver o problema.
E no Francês o Pinduca continuou:
- Srª. Doutora. Aqui cheira muito mal!
- Srª. Doutora. Este menino cheira mal!

Mas, talvez porque agora o odor estivesse mais disseminado, ao fim de alguns minutos a professora aproximou-se dos dois. Fez uma careta e perguntou o que se tinha passado. Foi o Pinduca, já um bocado amarelo, quem lhe explicou a situação.
E a Drª Florisa lá disse ao Bolinhas para ir lavar-se, tendo tido o cuidado maternal de chamar um contínuo para dar uma ajuda ao moço.
A aula continuou, naturalmente, mas o Pinduca só na hora seguinte voltaria à sua cara normal.
Ao fim de uns 15 ou 20 minutos, lá entrou o Bolinhas com as cuecas embrulhadas em papel de jornal que colocou junto aos pés.
Não sei se tinham sido lavadas ou perfumadas, mas o Pinduca não se queixou mais.
Juro que esta história é rigorosamente verídica, com nomes e tudo.
Eu, que gosto de meditar nas coisas, ainda hoje me pergunto se não terá sido este episódio quem deu o "empurrão" ao Bolinhas para a Psiquiatria!

22 Comments:

Anonymous microrocha said...

Ok!
Ficas na tua que eu fico na minha.
N faço nenhum coment Sociologico pq n é minha especialidade.


N me cheirou a nada!?!?!?...
Mas agradou-me este bocadinho.
E já agora, morei pertissimo do Liceu A.H. há dois anos.
E estas histórias...ai q ricos tempos (n os meus).
para quando um comment ao post?
A arquitectura pertence a todos...

11:46 da tarde  
Blogger Zorze said...

Eu nunca me queixei, mas confesso que o João, isto nos meus tempos do ensino básico - outrora primária -, causava-me verdadeiros arrepios quando sacava aqueles burriés do nariz...

11:59 da tarde  
Anonymous microrocha said...

Ok, ok.
Boa Semana, que so volto na proxima.

12:02 da manhã  
Anonymous microrocha said...

Nunca pensei!
Adorei o nome: Guevara
Sabes, acho que vou mudar.
Microrocha nunca me cativou...

12:19 da manhã  
Blogger AS said...

Poie é meu caro António! Mas os cheiros agora são outros e talvez mais repelentes!

Um abraço

12:22 da manhã  
Blogger Gado Bravo said...

Deve estar toda a gente inquieta para saber quem são os senhores. ;)
Na minha 3ª classe tive um caso semelhante mas foi mais "levinho", hehe. Hoje, esse meu colega trabalha na bolsa de lx. O seu amigo psiquiatra explicará porquê concerteza! :)
Beijinhos dos Açores.

1:19 da manhã  
Blogger António said...

Claro que não vou revelar os nomes!
Só revelei as alcunhas porque é altamente improvavel que alguém as relacione com as pessoas. Só os alunos dessa turma que ainda se lembrem dos apelidos. E eu tenho memória de elefante, o que nem todos tem. E algum vai ler o meu blog? Mas era giro, não era?

8:35 da manhã  
Blogger Gado Bravo said...

Era era. ;)
Beijinhos!

2:04 da tarde  
Blogger Betty Branco Martins said...

António

Estou a imaginar toda acena! estava a ler a tua "história" e na minha cabeça, o filme estava a passar, o imaginário a correr e eu... perdida de riso!

Estas passagens de vida, não cheiram mal! são de encantar!...

Boa semana :)

Um Beijo

4:10 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

olá
vi o teu comentário no blog da Betty e como falaram em rir, que é uma coisa que eu gosto muito de fazer, vim logo a correr...
bastante divertida a história.

9:44 da tarde  
Anonymous Dora said...

Vcs já viram a angústia que esses putos viveram? Agora claro que riem, como nós rimos, mas naquele dia deve ter sido um sufoco, em todos os sentidos!

11:34 da tarde  
Blogger Gado Bravo said...

nada de patrocinadores. stop. tudo ok. stop. beijos.

11:53 da tarde  
Blogger Malae said...

Caro António! Mais um post para soltar gargalhadas (como isso sabe bem!)... mas coitado da pobre criança!lol!bem, hoje resolvi seguir o conselho e pegar eu na pena e deixar-me ir ao ritmo dos sentimentos... mas a inspiração nem sempre é a melhor! por isso ultimamente não o tenho feito tanto. boa semana e um beijnho grande. Malae*************

12:28 da manhã  
Blogger Loucura said...

ahahaha muito obrigado pela gargalhada que os teus tempos de infancia me proporcionaram!
Ha sempre historias assim, no meu tempo, a uns poucos anos atras tambem aconteceu algo semelhante na minha turma...hoje a gente ri/se, na altura.... enfim, bons velhos tempos!!!
Beijinhos e boa semana

2:05 da manhã  
Blogger Bárbara Vale-Frias said...

Gostei muito d'"O Deslize do Bolinhas"!

Primeiro porque encontro no teu estilo de escrita algumas parecenças com o meu.

Segundo porque também gosto de ir atrás nas memórias e contar histórias de crianças - são sempre as mais genuínas!

Se bem que, no meu caso, já recebi uma ou outra crítica por falar tanto no passado e me esquecer um pouco do presente :-/

Vou continuar a passear por cá :)

8:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

"Em ti, grito
No lume desse ter-te
E sou maior que os mundos
Porque sou tua.
Perdidamente."

PS: Anoto e agradeço o teu comentario. Beijinho grande :)
www.lbutterfly.blogs.sapo.pt

1:14 da tarde  
Blogger dinorah said...

Deliciosa!! Especialmente a parte do Sr. Doutor responder: "Cale-se, e preste atenção à aula!" e todos obedecerem parece-me, a mim, um verdadeiro filme de ficção!! Ai, outros tempos!!

BEijos

9:10 da tarde  
Blogger Viuva Negra said...

Bem , isto uma pessoa vai ali e já volta e fica espantada com a produção , o senhor vai de vento em popa hemmm !!! a barra de blogues esta gigante e isto a funcionar !!! boa parabens !!! gostei

11:21 da tarde  
Blogger BlueShell said...

...e daí..quem sabe?
Gostei da história....Foi no ano em que nasci...heheheh....61!

Grata pela visita, Jinho, BShell

12:26 da manhã  
Blogger Betty Branco Martins said...

Olá António

Seria uma realização completa para qualquer escritor escrever contos como escreveu Hans Christian Andersen. Lamentavelmente (para mim)só traduzi, encantam-me todos os seus contos :)

Um beijo

4:39 da tarde  
Blogger SaltaPocinhas said...

Eu, talvez por deformação profissional fiqui-me pela actuação dos professores: naquele tempo os professores eram todos "beras", mas apesar de tudo as mulheres sempre mais atentas e sensíveis!

7:40 da tarde  
Blogger Malae said...

Amigo António! Desde já queria agradecer o apoio e as simpáticas palavras deixadas no meu blog. Em relação à pergunta deixada: Malae quer dizer "estrangeiro branco" em tétum. Infelizmente não sou timorense, e também nada me liga a este país. Nada quer dizer... um Amor que eu não consigo explicar! Uma vez ouvi uma frase que a adoptei como minha... porque a sinto de igual forma... não sou timorense de nsacimento, mas de alma e coração! Não consigo explicar este amor, e muita gente não o percebe! Adorava conhecer aquele país, as suas gentes que me cativam, sentir aquele calor! Tenho esperança que esse desejo se realize! Que possa conhecer uma terra que também considero minha! Desculpa o testemento... não é facil arranjar palavras para descrever o que sinto!:) Um optimo 25 de Abril para ti! Um beijinho muito grande. Malae************

1:31 da tarde  

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